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[1] É assim, portanto, que a tradição apostólica se apresenta na Igreja e perdura entre nós. Voltemos agora à prova tirada das Escrituras, deixadas pelos apóstolos que compuseram o Evangelho, em que expuseram a doutrina sobre Deus, demonstrando que nosso Senhor Jesus Cristo é a Verdade e que nele não há falsidade.

[2] É o que predisse Davi, falando do nascimento dele de uma Virgem e da sua ressurreição dos mortos: A verdade brotou da terra.

[3] Também os apóstolos, discípulos da Verdade, estão acima de qualquer suspeita, porque não há união entre mentira e verdade, como não há entre trevas e luz: presente uma, exclui-se a outra.

[4] Com efeito, nosso Senhor não mentia, por ser a Verdade; por isso não teria proclamado Deus, Senhor de todas as coisas, Grande Rei e seu próprio Pai, quem sabia ser fruto de degradação; sendo perfeito, nunca teria dado estes títulos ao imperfeito; sendo espiritual, ao psíquico; estando no Pleroma, àquele que está fora do Pleroma.

[5] Como também os seus discípulos nunca teriam chamado Deus e Senhor a mais ninguém, a não ser àquele que é verdadeiramente Deus e Senhor de todas as coisas.

[6] Porém, estes sofistas, mais que tolos, afirmam que os apóstolos ensinavam hipocritamente de acordo com as disposições dos ouvintes e respondiam conforme os preconceitos dos interrogantes; aos cegos falavam de acordo com a cegueira deles, aos doentes conforme a doença, aos que estavam no erro em conformidade com o erro; aos que acreditavam que o Demiurgo é o único Deus eles anunciavam este Demiurgo; aos que entendiam o Pai inefável exprimiam o mistério inexprimível, mediante parábolas e enigmas.

[7] Assim o Senhor e os apóstolos não teriam ensinado a verdade como realmente é, mas teriam comunicado o seu ensinamento hipocritamente, de acordo com as disposições de cada um.

[8] Ora, isso não é coisa de quem cura ou vivifica, mas antes de quem piora e aumenta a ignorância. Seria, portanto, muito mais verdadeira do que eles a Lei que amaldiçoa quem desvia o cego para o caminho do erro.

[9] Mas os apóstolos, enviados a procurar os perdidos, a iluminar os cegos e a curar os doentes, com certeza não falavam segundo a opinião do momento, mas para manifestar a verdade.

[10] Por certo não agiria bem quem, ao ver os cegos prestes a cair no precipício, os exortasse a continuar por aquele caminho perigosíssimo como se fosse o bom e não os levasse a bom termo.

[11] Qual é o médico que para curar o doente procede conforme os desejos do paciente e não segundo as regras da medicina? Ora, é o próprio Senhor a afirmar que veio como médico para os que passam mal, com estas palavras: “Os sãos não têm necessidade de médico, mas sim os enfermos. Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência”.

[12] Portanto, como recuperarão a saúde os doentes e como os pecadores farão penitência? Continuando como antes, ou, ao contrário, aceitando mudança profunda e afastando-se da sua antiga maneira de viver que causou neles a doença grave e os numerosos pecados?

[13] Ora, a ignorância, mãe de todos esses males, é eliminada pelo conhecimento. Portanto, o Senhor comunicava o conhecimento aos seus discípulos e por meio dele curava os doentes e afastava os pecadores dos seus pecados.

[14] Não falava, portanto, de acordo com as suas velhas opiniões, nem respondia de acordo com os preconceitos dos interrogantes, e sim ensinava a doutrina da salvação sem hipocrisia nem preferências pessoais.

[15] Isso aparece também pelas palavras do Senhor que, falando a circuncisos, lhes mostrava que o Cristo anunciado pelos profetas era o Filho de Deus, isto é, manifestava-se a si mesmo como aquele que veio trazer aos homens a liberdade e oferecer-lhes a herança da incorruptibilidade.

[16] Por sua vez, os apóstolos ensinavam os pagãos a abandonarem os falsos ídolos de madeira e de pedra que eles consideravam deuses e a adorar o Deus verdadeiro que criou e constituiu todo o gênero humano e que por meio da sua criação o alimenta, desenvolve, lhe dá segurança e subsistência.

[17] Ensinavam-nos a esperar a vinda do Filho de Deus, Jesus Cristo, que nos resgatou da Apostasia à custa de seu sangue, para que nos tornemos, nós também, o povo santificado; que descerá dos céus, na glória do Pai, para julgar todos os homens e oferecer os bens divinos aos que observarem os seus mandamentos.

[18] É ele que nos últimos tempos apareceu como a pedra angular principal, recolheu e uniu os de longe e os que estavam perto, isto é, os circuncisos e os incircuncisos, engrandecendo Jafet e fazendo-o morar na casa de Sem.

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