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[1] Portanto, nem o Senhor, nem o Espírito Santo, nem os apóstolos, nunca chamaram Deus, no sentido próprio do termo, senão ao verdadeiro Deus; como também nunca chamaram de Senhor a ninguém, de maneira própria, a não ser a Deus Pai que domina sobre todas as coisas e a seu Filho que recebeu do Pai o domínio sobre toda a criação.

[2] Com efeito, assim está escrito: “Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita até que ponha os teus inimigos como escabelo dos teus pés”. Aqui o Pai é apresentado falando com seu Filho ao qual dá em herança as nações e lhe submete todos os inimigos.

[3] Justamente, portanto, o Espírito Santo chamou o Pai e o Filho com o nome de “Senhor” porque efetivamente o são.

[4] Além disso, quando fala da destruição de Sodoma, a Escritura diz: “O Senhor fez chover sobre Sodoma e Gomorra o fogo e o enxofre provindos do Senhor do céu”. Isto significa que o Filho, aquele que falou com Abraão, recebeu do Pai o poder de condenar os sodomitas por causa da iniqüidade deles.

[5] É o mesmo que se diz no texto seguinte: “O teu trono, ó Deus, subsistirá por todos os séculos; o cetro de teu reino é cetro de retidão. Amaste a justiça e aborreceste a iniqüidade; por isso, ó Deus, o teu Deus te consagrou pela unção”. O Espírito aqui designou com o nome de Deus tanto o Filho que recebe a unção como o Pai que a confere.

[6] E ainda diz: “Deus se apresentou na assembléia dos deuses e no meio deles julga os deuses”. Aqui se fala do Pai, do Filho e de todos os que receberam a adoção filial: estes constituem a Igreja, que é a assembléia de Deus, que Deus, isto é, o Filho, reuniu ele mesmo e por si mesmo.

[7] É ainda deste Filho que se diz: “O Deus dos deuses, o Senhor, falou e chamou a terra”. Quem é este Deus? É aquele de quem se diz: “Deus virá de maneira manifesta, o nosso Deus, e não se calará”: isto é, o Filho que veio entre os homens numa manifestação de si mesmo, e por isso diz: “Manifestei-me abertamente àqueles que não me procuram”.

[8] E quem são estes deuses? São aqueles aos quais diz: “Eu disse: todos vós sois deuses e filhos do Altíssimo”, isto é, os que receberam a graça da filiação divina, “pela qual podemos chamar: Abba, Pai!”

[9] Nenhum outro, portanto, como eu disse acima, é chamado Deus e Senhor, exceptuando-se aquele que é Deus e Senhor de todas as coisas, que disse a Moisés: “Eu sou aquele que sou;” e: Assim dirás aos filhos de Israel: “Aquele que me enviou a vós”; e o seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor, que torna filhos de Deus os que crêem no seu nome.

[10] É ainda o Filho que diz a Moisés: “Eu desci para libertar este povo”. Com efeito, é ele que desceu e subiu pela salvação dos homens. Assim, por meio do Filho que está no Pai e que tem em si o Pai, manifestou-se o Deus que é, o Pai dando testemunho ao Filho e o Filho anunciando o Pai, conforme o que diz também Isaías: “Eu sou testemunha, diz o Senhor Deus, e também o Servo que escolhi para que saibais e acrediteis e entendais que eu sou”.

[11] Ao contrário, quando a Escritura fala dos falsos deuses, nunca os apresenta, como já disse, de maneira absoluta, mas acrescenta alguma indicação suplementar e algum sentido pelos quais mostra que não são deuses.

[12] Assim, em Davi: “Os deuses das nações, ídolos dos demônios”; e ainda: “Não ireis atrás de deuses estrangeiros”. Pela razão mesma que os chama “deuses das nações” — as nações, sabe-se, ignoram o verdadeiro Deus — e de “deuses estrangeiros”, exclui que sejam deuses.

[13] Por outro lado, falando absolutamente, afirma que eles são, de fato, “ídolos dos demônios”. A mesma coisa afirma Isaías: “Sejam confundidos todos os que fabricam deuses, entalham coisas vãs [e eu sou testemunha, diz o Senhor]”. Ele nega que estas coisas sejam divindades, somente usa a palavra para nos fazer entender do que se trata.

[14] Jeremias diz a mesma coisa: “Estes deuses, que não fizeram o céu e a terra, sejam exterminados da terra que está debaixo do céu!” Falando do seu extermínio mostra claramente que não são verdadeiras divindades.

[15] Elias, por sua vez, depois de ter convocado todo Israel no monte Carmelo, diz-lhes, para afastá-los da idolatria: “Até quando andareis coxeando com os pés em dois estribos? Um só é o Senhor Deus, vinde atrás dele!”

[16] E, pela segunda vez, diante do holocausto, fala assim aos sacerdotes dos ídolos: “Vós invocareis o nome dos vossos deuses e eu invocarei o nome do Senhor, meu Deus: e o Deus que hoje nos escutar é o Deus verdadeiro”. Falando assim, o profeta indicava que os que julgavam deuses não eram divindades reais e os convidava a dirigir-se ao Deus em que ele cria, que era verdadeiramente Deus e que ele invocava assim: “Senhor Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, escuta-me hoje, e que todo este povo entenda que tu és o Deus de Israel!”

[17] Eu também te invoco, ó Senhor, Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó e de Israel, que és o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo; ó Deus, que na abundância da tua misericórdia te comprazeste em nós para que te conhecêssemos; que criaste o céu e a terra, que dominas sobre todas as coisas e que és o único verdadeiro Deus acima do qual não há outro Deus; que por nosso Senhor Jesus Cristo nos ofereces o dom do Espírito Santo, concede a quem lê este escrito que reconheça que só tu és Deus, seja confirmado em ti e se afaste de toda doutrina herética, negadora de Deus e sacrílega.

[18] Também o apóstolo Paulo ao dizer: “Enquanto no passado servistes a divindades falsas, agora conheceis o verdadeiro Deus, ou melhor, sois conhecidos por ele, distingue os que não são Deus do que realmente é Deus”. Ainda, a propósito do Anticristo que se opõe e se eleva acima de tudo o que é chamado Deus e honrado como tal, quer falar dos que são chamados deuses pelos que desconhecem o verdadeiro Deus, isto é, dos ídolos.

[19] Com efeito, o Pai de todas as coisas é chamado Deus e o é; e não é acima dele que se elevará o Anticristo, mas acima dos que são chamados deuses e não o são. Isso é tão verdade que o próprio Paulo diz: “Sabemos que o ídolo não é nada e que existe um único Deus. De fato, se há nos céus e na terra uns seres chamados deuses, para nós existe um único Deus Pai de quem derivam todas as coisas e para o qual nós vamos, e um único Senhor, Jesus Cristo, do qual provêm todas as coisas e para o qual vamos”.

[20] Com isso distingue e separa os seres chamados deuses, e que não o são, do único Deus, o Pai, do qual provêm todas as coisas e confessa de maneira absoluta e categórica um só Senhor, Jesus Cristo.

[21] As palavras “nos céus e na terra” não são, como explicam os hereges, alusão a pretensos criadores do mundo, mas devem ser comparadas com estas de Moisés: “Não farás de nenhum dos seres imagem de Deus, quer se trate dos que estão no alto, nos céus, quer dos que estão em baixo, na terra, quer dos que estão nas águas debaixo da terra”.

[22] E ele próprio explica o que são estas coisas que estão nos céus, dizendo: “Para que, ao levantar os olhos aos céus e vendo o sol, a lua, as estrelas e todas as belezas do céu, não caias no erro de adorá-los e de lhes prestar culto”.

[23] Quanto a Moisés, mesmo sendo verdadeiro homem de Deus, foi constituído deus diante do faraó; contudo, os profetas nunca o chamam Senhor ou Deus, no sentido próprio da palavra, mas o Espírito o chama de o fiel Moisés, servo e familiar de Deus, o que ele era efetivamente.

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