[1] Apoiados naquelas palavras explícitas de Paulo, na segunda carta aos coríntios: “Nos quais o deus deste século cegou as mentes dos incrédulos”, deduzem que um é o Deus deste século e outro o que está acima de todo Principado, Dominação e Potestade.
[2] Ora, não é nossa culpa se eles que dizem conhecer os mistérios mais altos de Deus, sequer sabem ler Paulo! É conhecido o hábito de Paulo fazer inversão de palavras, como mostraremos com muitos outros exemplos; ora, se alguém lê: “nos quais Deus” e, depois de uma pausa, todo o resto: “cegou as mentes dos incrédulos deste século”, indica o sentido, pela pausa que faz.
[3] Com efeito, Paulo não fala de um Deus deste século como se conhecesse outro que está acima dele, mas afirma que Deus é Deus e acrescenta que os incrédulos deste século não herdarão aquele futuro de incorruptibilidade.
[4] Como Deus tenha cegado a mente dos incrédulos o mostraremos em seguida, com as palavras do próprio Paulo, para não desviar a nossa atenção do presente argumento.
[5] Que o Apóstolo use freqüentemente de inversões devido à agilidade do raciocínio ou à impetuosidade do Espírito que está nele, podemos constatá-lo em muitos outros lugares.
[6] É assim que se exprime na carta aos Gálatas: “A que serve a Lei das obras? Foi estabelecida até que aparecesse a posteridade à qual tinha sido feita a promessa, editada pelo ministério dos anjos com o concurso de mediador”.
[7] A ordem do pensamento é a seguinte: “A que serve a Lei das obras? Editada pelo ministério dos anjos com o concurso de mediador, foi estabelecida até que aparecesse a posteridade à qual tinha sido feita a promessa”, como se houvesse um homem que faz a pergunta e o Espírito respondesse.
[8] Ainda, na segunda carta aos Tessalonicenses, ao falar do Anticristo, Paulo diz: “Então se manifestará esse iníquo a quem o Senhor Jesus matará com o sopro da sua boca e destruirá com o esplendor de sua vinda, que se dará pela intervenção de Satã, com toda espécie de milagres, sinais e prodígios mentirosos”.
[9] A ordem do pensamento é a seguinte: “Então se manifestará esse iníquo e a sua vinda se dará pela intervenção de Satã, com toda espécie de milagres, sinais e prodígios mentirosos e o Senhor Jesus o matará com o sopro da sua boca e destruirá com o esplendor de sua vinda”.
[10] Com efeito, não será a vinda do Senhor que se dará pela intervenção de Satã, e sim a vinda do iníquo, que nós também chamamos Anticristo.
[11] Efetivamente, se não se prestar atenção à maneira de ler e se se deixar de indicar, por meio de pausas, de qual pessoa Paulo entende falar, pronunciar-se-á não somente uma incoerência, mas até uma blasfêmia, deixando entender que a vinda do Senhor se dará pela intervenção de Satã.
[12] Assim como em textos desta espécie é necessário fazer notar a inversão das palavras pela maneira de ler, para salvaguardar a ordem do pensamento do Apóstolo, também, no caso visto acima, nós não leremos o “Deus deste século”, mas com razão chamaremos Deus àquele que é Deus e saberemos que os incrédulos e os cegos deste século não terão a herança do século futuro, que é aquele da vida.

