[1] Com a refutação desta calúnia dos hereges fica demonstrado claramente que nem os profetas, nem os apóstolos nunca chamaram Deus e Senhor a não ser ao único e verdadeiro Deus. Isto é mais verdadeiro acerca do Senhor que manda dar a “César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, chamando César de César e reconhecendo a Deus como Deus.
[2] Da mesma forma a frase: “Não podeis servir a dois senhores” é explicada pelo próprio Senhor quando diz: “Não podeis servir a Deus e a Mamon”; reconhece Deus como Deus e a Mamon dá o nome que lhe pertence. Ele não chama Mamon de Senhor quando diz: “Não podeis servir a dois senhores”, mas ensina aos discípulos que quem serve a Deus não deve estar submetido a Mamon e dominado por ele: Porque, ele diz, quem comete o pecado é escravo do pecado.
[3] Como dá o nome de escravo do pecado a quem comete o pecado sem com isso chamar Senhor, assim dá o nome de escravos de Mamon aos que servem a Mamon, sem contudo chamar Mamon de Senhor. A palavra “Mamon”, no dialeto hebraico falado pelos samaritanos, significa “ávido”, que deseja possuir mais do que é conveniente. No hebraico, usado na forma de adjetivo, se diz “Mamuel” e significa “intemperante”, que não sabe regular-se quanto à gula.
[4] Ora, quer num, quer noutro sentido, não podemos servir a Deus e a Mamon.
[5] É também o Senhor que chama o diabo de forte, não, porém, de forma absoluta, mas em relação a nós, enquanto apresenta a si mesmo como o forte no sentido próprio da palavra e com plena verdade, quando diz que ninguém se pode apoderar dos móveis do forte sem antes o amarrar: então pode saquear toda a casa.
[6] Nós éramos os móveis e a casa do diabo quando estávamos na apostasia, porque se servia de nós como queria e o espírito imundo habitava em nós. Não era forte contra aquele que o amarrou e lhe saqueou a casa, mas o era em relação aos homens que mantinha submissos, porque fizera com que os pensamentos deles ficassem longe de Deus.
[7] O Senhor libertou estes homens, como diz Jeremias: O Senhor libertou Jacó e o arrancou das mãos de um mais forte do que ele. Se não tivesse mostrado aquele que amarra o forte e lhe tira os móveis e se tivesse limitado a chamá-lo de forte, o diabo seria invencível.
[8] Mas o Senhor mencionou o vencedor, que é o que amarra, enquanto o amarrado é o vencido. E tudo isto sem comparações para não pôr no mesmo plano o Senhor e um escravo apóstata.
[9] Com efeito, não somente aquele, mas absolutamente nada de tudo o que foi criado e lhe está submetido pode ser comparado ao Verbo de Deus, por meio do qual foram feitas todas as coisas e que é o Senhor nosso Jesus Cristo.
[10] Que também os Anjos e os Arcanjos, os Tronos e as Dominações foram criados por Deus, que é superior a todas as coisas, e feitos por meio de seu Verbo, João o indica quando diz que o Verbo de Deus estava no Pai: Todas as coisas foram feitas por meio dele e nada foi feito sem ele.
[11] Também Davi, depois de ter enumerado os motivos de louvor das criaturas, lembrando todos os seres por nós indicados, os céus e todas as suas potências, continua: “Porque deu uma ordem e todas foram criadas, disse uma palavra e todas foram feitas”. A quem deu a ordem? Ao Verbo, pois diz ele: “é por obra dele que os céus foram criados e é pelo Sopro da sua boca que existe todo o poder deles”.
[12] E que fez todos os seres livremente e como quis é ainda Davi quem o diz: “O nosso Deus fez tudo o que quis no céu e na terra”.
[13] Os seres criados distinguem-se do Criador e os seres feitos daquele que os fez. Ele não foi feito e não tem princípio nem fim, não precisa de ninguém, basta a si mesmo e, mais que isso, confere a existência a todos os outros seres.
[14] Pois os seres criados por ele tiveram início e todos os seres que tiveram início podem ter fim, estão submetidos e dependem daquele que os fez.
[15] Por isso é também necessário que estes seres sejam designados com vocábulo diferente pelos que têm um pouco de discernimento dessas coisas, e assim o Criador de todos os seres, juntamente com o seu Verbo, é o único a ser chamado legitimamente Deus e Senhor, enquanto os seres criados não podem receber este apelativo nem se arrogar legitimamente este título, pois pertence exclusivamente ao Criador.

