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[1] Fica portanto demonstrado — e será demonstrado com evidência maior — que nem os profetas, nem os apóstolos, nem o Cristo Senhor reconheceram absolutamente como Senhor e Deus a nenhum outro a não ser aquele que é de maneira exclusiva Senhor e Deus; que os apóstolos e os profetas, ao confessar o Pai e o Filho como Deus, não chamaram Deus e Senhor a ninguém mais; e que, por sua vez, o próprio Senhor não deu a conhecer aos discípulos nenhum Deus e Senhor além do próprio Pai que é o único Deus e domina sobre todos os seres. Por isso, se somos os discípulos deles devemos aceitar este teste-munho.

[2] O apóstolo Mateus conhece um só e idêntico Deus, que prometeu a Abraão multiplicar-lhe a descendência como as estrelas do céu e nos chamou por meio de seu Filho, Jesus Cristo, do culto dos ídolos de pedra ao seu conhecimento, para que o “não povo se tornasse povo e a que não era amada se tornasse amada”.

[3] Refere-se a como João preparava o caminho ao Cristo e como, aos que se gloriavam de parentesco carnal, enquanto alimentavam sentimentos completamente diferentes e cheios de malícia, pregava a penitência, convidando-os a se converterem da sua malícia, dizendo: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura? Produzam frutos dignos de penitência e não digam entre si: Nós temos Abraão por Pai! Pois eu lhes digo que Deus pode, destas pedras, suscitar filhos a Abraão”.

[4] Aquele precursor de Cristo pregava-lhes a penitência que os afastaria da sua malícia, mas nem por isso lhes anunciava outro Deus fora daquele que fizera a promessa a Abraão.

[5] Mateus, como Lucas, diz ainda acerca dele: “Este é aquele de quem falou o Senhor por meio do profeta: Voz daquele que grita no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai os caminhos do nosso Deus. Todo vale será enchido e toda montanha e colina será rebaixada; os caminhos tortuosos serão endireitados e os irregulares serão aplainados e toda carne verá a Salvação de Deus”.

[6] Único e idêntico é, portanto, Deus, Pai de nosso Senhor, que por meio dos profetas prometeu enviar o precursor e depois tornou visível a toda carne a sua Salvação, isto é, o próprio Verbo feito carne, para que ficasse patente a todos que ele é o seu Rei.

[7] De fato, era conveniente que conhecessem o seu juiz os que deviam ser condenados e o doador da glória os que receberiam o dom da glória.

[8] Ao falar do anjo, Mateus diz: “O anjo do Senhor apareceu em sonho a José”. E explica imediatamente de qual Senhor se trata: “Para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta: Chamei meu Filho do Egito”.

[9] “Eis que a Virgem conceberá em seu seio e dará à luz um Filho e o chamarão com o nome de Emanuel, que significa Deus-conosco”.

[10] Davi falou também deste Emanuel, nascido de uma Virgem: “Não desvies a tua face do teu Cristo. O Senhor jurou a verdade a Davi e não o enganará: Porei no meu trono um fruto de teu seio. E ainda: Deus é conhecido na Judéia, o seu lugar se tornou Paz e a sua habitação Sião”.

[11] Portanto, uno e idêntico é Deus, pregado pelos profetas, anunciado pelo Evangelho e o seu Filho, que é o fruto do seio de Davi, isto é, da Virgem descendente de Davi, o Emanuel.

[12] A sua estrela foi assim profetizada por Balaão: “Uma estrela surgirá de Jacó e um chefe aparecerá em Israel”.

[13] Ora, Mateus refere que os magos, vindos do Oriente, disseram: “Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”; e que foram conduzidos por ela à casa de Jacó, até o Emanuel, e que mostraram, com os dons que ofereceram, quem era aquele que adoravam: a mirra significava que era ele que devia morrer e ser sepultado em favor do gênero humano; o ouro, que ele era o Rei cujo reino não tem fim; e o incenso, que ele era o Deus que se deu a conhecer na Judéia, e se manifestou aos que não o procuravam.

[14] Mateus diz ainda que no batismo: “Os céus se abriram e viu o Espírito de Deus descer sobre ele na forma de pomba. E eis que se ouviu uma voz do céu que dizia: Este é o meu Filho amado no qual me deleitei”.

[15] Não que o Cristo tenha descido em Jesus naquele momento, nem se pode pensar que um é o Cristo e outro é Jesus; mas o Verbo de Deus que é o Salvador de todos e Senhor do céu e da terra, que é Jesus, como demonstramos acima, que assumiu a natureza humana e foi ungido pelo Pai com o Espírito, tornou-se Jesus Cristo.

[16] Como diz Isaías: “Sairá um rebento da raiz de Jessé e uma flor brotará da sua raiz; e sobre ele pousará o Espírito de Deus, Espírito de sapiência e de inteligência, Espírito de conselho e de força, Espírito de ciência e de piedade, e será repleto do Espírito do temor de Deus. Não julgará segundo as aparências e não condenará por ter ouvido dizer, mas fará justiça aos pequenos e condenará os poderosos da terra”.

[17] Ainda o próprio Isaías prenunciando a finalidade desta unção, diz: “O Espírito de Deus está sobre mim, pois ungiu-me para que leve a boa-nova aos humildes, enviou-me a curar os contritos de coração, a pregar a redenção aos cativos, a visão aos cegos, a proclamar o ano de graça do Senhor e o dia da retribuição, para consolar todos os que choram”.

[18] Assim o Verbo de Deus, enquanto homem, da descendência de Jessé e filho de Abraão, tinha sobre si o Espírito de Deus e era consagrado para levar a boa-nova aos humildes; enquanto Deus, não julgava segundo as aparências e não condenava por ouvir dizer; com efeito, “ele não precisava de testemunhos acerca de nenhum homem, pois ele sabia o que há no homem”.

[19] Consolava os homens que choravam e dava a libertação aos que eram mantidos escravos pelo pecado, libertando-os dos laços de que fala Salomão: Todos estão amarrados pelos laços dos seus pecados.

[20] O Espírito de Deus que pelos profetas prometeu conferir-lhe a unção, desceu sobre ele para que nós, recebendo da superabundância da unção dele, nos salvássemos.

[21] Este é o testemunho de Mateus.

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