Aviso ao leitor
Este livro - As Cartas de Cipriano / Epístolas - é apresentado aqui como correspondência patrística (séc. III), preservada por seu valor histórico, pastoral e disciplinar — registrando decisões, conflitos, orientações e desafios enfrentados pela Igreja de Cartago em contexto de perseguições, debates sobre penitência e unidade eclesial. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, formativa e comparativa, ajudando a compreender a prática cristã antiga e suas tensões reais.
[1] A Cipriano, nosso irmão e colega, Lúcio, e todos os irmãos que estão comigo no Senhor, saudação. Tua carta chegou até nós, caríssimo irmão, quando estávamos exultando e nos alegrando em Deus porque Ele nos havia armado para o combate e, por Sua condescendência, nos havia feito vencedores na batalha; isto é, a carta que nos enviaste por Hereniano, o subdiácono, e por Luciano, Máximo e Amâncio, acólitos. Quando a lemos, recebemos alívio em nossos grilhões, consolo em nossa aflição e amparo em nossa necessidade; e fomos despertados e ainda mais fortemente animados a suportar qualquer punição que ainda nos estivesse reservada. Pois, antes do nosso sofrimento, fomos por ti chamados à glória, tu que primeiro nos deste direção para a confissão do nome de Cristo. Nós, de fato, que seguimos as pegadas da tua confissão, esperamos alcançar contigo graça igual. Porque aquele que é o primeiro na corrida é também o primeiro na recompensa; e tu, que primeiro ocupaste esse curso, fizeste-nos participantes daquilo que começaste, mostrando sem dúvida o amor indiviso com que sempre nos amaste, para que nós, que tínhamos um só Espírito no vínculo da paz, também tivéssemos a graça das tuas orações e uma só coroa de confissão.[2] Mas, no teu caso, caríssimo irmão, à coroa da confissão acrescenta-se ainda a recompensa dos teus trabalhos — medida abundante que receberás do Senhor no dia da retribuição — tu que, por tua carta, te fizeste presente a nós, como nos manifestaste esse teu peito sincero e bendito que sempre conhecemos e, conforme a sua largueza, elevaste louvores a Deus conosco, não tanto quanto merecemos ouvir, mas tanto quanto és capaz de expressar. Pois, com tuas palavras, tanto adornaste aquelas coisas que em nós estavam menos instruídas como nos fortaleceste para suportar os sofrimentos que padecemos, estando certos das recompensas celestiais, da coroa do martírio e do reino de Deus, conforme a profecia que, cheio do Espírito Santo, nos afiançaste em tua carta. Tudo isso acontecerá, amado, se nos tiveres em mente em tuas orações, o que confio que fazes, assim como certamente nós o fazemos.[3] E assim, ó irmão mui desejado, recebemos aquilo que nos enviaste por Quirino e também de ti mesmo, um sacrifício de toda coisa limpa. Assim como Noé ofereceu a Deus, e Deus se agradou do suave aroma e atentou para a sua oferta, assim também possa Ele atentar para a tua e comprazer-Se em retribuir-te a recompensa de uma obra tão boa. Mas peço que ordenes que a carta que escrevemos a Quirino seja encaminhada. Eu te saúdo, caríssimo irmão e ardentemente desejado, com um adeus de todo o coração, e lembra-te de nós. Saúda a todos os que estão contigo. Adeus.

