Aviso ao leitor
Este livro - Carta de Eusébio de Cesareia sobre o Concílio de Niceia - é apresentado aqui como correspondência patrística e documento histórico do século IV, registrando como Eusébio comunicou à sua comunidade (e/ou a outros destinatários) pontos do Concílio de Niceia, incluindo linguagem doutrinária e decisões eclesiásticas do período. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Por ser uma carta situada em contexto conciliar e imperial, ela expressa recortes, prioridades e interpretações do autor e do seu tempo; por isso, é disponibilizada para estudo histórico e comparativo.
ATENÇÃO
Este escrito de Eusébio de Cesareia, relativo ao Concílio de Niceia, possui caráter doutrinário, eclesiástico e também político, estando inserido em um momento decisivo de definição teológica sob forte influência do contexto imperial. Por isso, o texto não deve ser lido como registro neutro e isolado, mas como testemunho de disputas intensas sobre linguagem doutrinária, autoridade e unidade da igreja, em um cenário já profundamente tocado pela relação entre cristianismo e poder civil. Sua preservação nesta biblioteca se dá por valor histórico, documental e crítico, como fonte importante para compreender as formulações e tensões daquele período. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre deliberação conciliar contextual, pressão político-eclesiástica e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] O que foi tratado acerca da fé eclesiástica no Grande Concílio reunido em Niceia, provavelmente já o aprendestes, Amados, por outras fontes, sendo costume o rumor preceder o relato exato do que se faz.[2] Mas, para que em tais relatos as circunstâncias do caso não tenham sido mal representadas, fomos obrigados a transmitir-vos, primeiro, a fórmula de fé apresentada por nós, e depois a segunda, que os Padres propuseram com alguns acréscimos às nossas palavras.[3] Nosso próprio documento, então, que foi lido na presença de nosso mui piedoso Imperador e declarado bom e irrepreensível, dizia assim:[4] Assim como recebemos dos bispos que nos precederam, e em nossas primeiras instruções catequéticas, e quando recebemos o Santo Lavacro, e como aprendemos das divinas escrituras, e como cremos e ensinamos no presbitério e no próprio episcopado, assim também, crendo no tempo presente, vos expomos a nossa fé, e ela é esta:[5] Cremos em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis.[6] E em um só Senhor Jesus Cristo, o Verbo de Deus, Deus de Deus, Luz de Luz, Vida de Vida, Filho unigênito, primogênito de toda criatura, antes de todos os séculos, gerado do Pai, por meio de quem também todas as coisas foram feitas; o qual, para nossa salvação, se fez carne, viveu entre os homens, padeceu, ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao Pai e virá novamente em glória para julgar vivos e mortos.[7] E cremos também em um só Espírito Santo.[8] Crendo que cada um destes é e existe, sendo o Pai verdadeiramente Pai, e o Filho verdadeiramente Filho, e o Espírito Santo verdadeiramente Espírito Santo, como também nosso Senhor, ao enviar seus discípulos para a pregação, disse: Ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo (Mateus 28:19).[9] A respeito de quem afirmamos com confiança que assim sustentamos, assim pensamos e assim sustentamos outrora, e mantemos esta fé até a morte, anatematizando toda heresia ímpia.[10] Que sempre pensamos isto de coração e alma, desde quando temos lembrança de nós mesmos, e que agora pensamos e dizemos isto em verdade, diante de Deus Todo-Poderoso e de nosso Senhor Jesus Cristo o testemunhamos, podendo por provas mostrar e convencer-vos de que, mesmo em tempos passados, tal foi a nossa crença e a nossa pregação.[11] Quando esta fé foi publicamente apresentada por nós, não apareceu espaço para contradição; mas nosso mui piedoso Imperador, antes de qualquer outro, testemunhou que ela continha proposições plenamente ortodoxas.[12] Além disso, confessou que tais eram também os seus próprios sentimentos, e aconselhou todos os presentes a concordarem com ela, a subscreverem seus artigos e a assentirem a eles, com a inserção da única palavra consubstancial, a qual, ademais, interpretou como não sendo no sentido das afecções dos corpos, nem como se o Filho subsistisse a partir do Pai por divisão ou separação alguma; pois a natureza imaterial, intelectual e incorpórea não pode estar sujeita a qualquer afecção corpórea, mas convém que concebamos tais coisas de maneira divina e inefável.[13] E tais foram as observações teológicas de nosso sapientíssimo e religiosíssimo Imperador; mas eles, tendo em vista o acréscimo de consubstancial, redigiram a seguinte fórmula:[14] Cremos em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado do Pai, unigênito, isto é, da essência do Pai; Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, consubstancial ao Pai, por quem todas as coisas foram feitas, tanto as coisas no céu como as coisas na terra; o qual, por nós homens e para nossa salvação, desceu e se fez carne, fez-se homem, padeceu, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus e vem para julgar vivos e mortos.[15] E no Espírito Santo.[16] E aos que dizem: Houve quando ele não era, e: Antes de ser gerado ele não era, e: Ele veio a existir do nada, ou aos que pretendem que o Filho de Deus é de outra hipóstase ou essência, ou criado, ou alterável, ou mutável, a Igreja Católica anatematiza.[17] Ao ditarem eles esta fórmula, não a deixamos passar sem inquirir em que sentido introduziam as expressões da essência do Pai e consubstancial ao Pai.[18] Assim, houve perguntas e explicações, e o sentido das palavras foi submetido ao exame da razão.[19] E eles professaram que a expressão da essência indicava que o Filho é, de fato, do Pai, embora não como se fosse uma parte dele.[20] E, com esse entendimento, julgamos bom assentir ao sentido de tal doutrina religiosa, pois ela ensinava que o Filho procedia do Pai, embora não fosse parte de sua essência.[21] Por essa razão, assentimos nós mesmos ao sentido, sem recusar sequer o termo consubstancial, tendo diante de nós o objetivo da paz e da firmeza na visão ortodoxa.[22] Do mesmo modo, também admitimos gerado, não feito; pois o Concílio alegou que feito era uma designação comum às demais criaturas que vieram a existir por meio do Filho, às quais o Filho não tinha semelhança.[23] Por isso, diziam eles, ele não era uma obra semelhante às coisas que por meio dele vieram a existir, mas era de uma essência elevada demais para o nível de qualquer obra, e os oráculos divinos ensinam que ela foi gerada do Pai, sendo o modo da geração inescrutável e incalculável para toda natureza originada.[24] E assim também, após exame, há fundamentos para dizer que o Filho é consubstancial ao Pai; não do modo dos corpos, nem como os seres mortais, pois ele não é assim por divisão de essência, nem por separação, nem por qualquer afecção, alteração ou mudança da essência e do poder do Pai, visto que de todas essas coisas a natureza não-originada do Pai é alheia, mas porque consubstancial ao Pai sugere que o Filho de Deus não guarda semelhança alguma com as criaturas originadas, e que somente a seu Pai, que o gerou, é ele em tudo assimilado, e que ele não é de qualquer outra hipóstase e essência, mas do Pai.[25] A esse termo também, assim interpretado, pareceu-nos bem assentir, pois sabíamos que até mesmo entre os antigos alguns bispos e escritores instruídos e ilustres empregaram o termo consubstancial em seu ensino teológico acerca do Pai e do Filho.[26] Baste, pois, o que foi dito acerca da fé que foi publicada, à qual todos nós assentimos, não sem investigação, mas segundo os sentidos especificados, mencionados diante do próprio religiosíssimo Imperador e justificados pelas considerações já expostas.[27] E quanto ao anátema publicado por eles no fim da fé, ele não nos causou dor, porque proibia o uso de palavras que não estão na escritura, das quais veio quase toda a confusão e desordem da Igreja.[28] Visto, então, que nenhuma escritura divinamente inspirada usou as expressões do nada, e houve quando ele não era, e as demais que se seguem, não nos pareceu haver fundamento para usá-las ou ensiná-las; e também nisso assentimos como boa decisão, já que até então não tínhamos por costume usar tais termos.[29] Além disso, anatematizar a expressão antes de ser gerado ele não era não nos pareceu absurdo, uma vez que é confessado por todos que o Filho de Deus existia antes da geração segundo a carne.[30] Mais ainda, nosso religiosíssimo Imperador demonstrou então, em um discurso, que ele existia mesmo segundo sua geração divina, que é anterior a todos os séculos, pois, antes mesmo de ser gerado em ato, existia em potência com o Pai, de modo não-gerado, sendo o Pai sempre Pai, assim como sempre Rei e sempre Salvador, sendo tudo em potência e sendo sempre sob os mesmos aspectos e da mesma maneira.[31] Fomos forçados a transmitir-vos estas coisas, Amados, para tornar clara diante de vós a deliberação de nossa investigação e assentimento, e quão razoavelmente resistimos até o último momento, enquanto nos ofendiam proposições diferentes das nossas, mas recebemos sem contenda aquilo que já não nos feria, tão logo, mediante exame franco do sentido das palavras, nos pareceu coincidir com aquilo que nós mesmos professamos na fé que já havíamos publicado.

