Aviso ao leitor
Este livro - Carta de Júlio Africano a Orígenes - é uma peça de correspondência patrística do início do séc. III, preservada como testemunho histórico de debates cristãos antigos sobre crítica textual e recepção de textos (neste caso, questionando a autenticidade da narrativa de Susana ligada ao livro de Daniel, com argumentos como sua ausência em certas tradições hebraicas e jogos de palavras em grego). Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. A presença deste documento na biblioteca tem finalidade histórica e comparativa — inclusive porque a carta gerou resposta de Orígenes no mesmo tema.
ATENÇÃO
Este escrito de Júlio Africano, dirigido a Orígenes, possui caráter crítico, argumentativo e textual, tratando de questões de interpretação e autenticidade de passagens recebidas na tradição cristã. Por isso, o texto expõe debates antigos sobre o uso das escrituras, variantes textuais e critérios de autoridade, não devendo ser lido como simples exposição devocional ou doutrinária. Sua preservação nesta biblioteca se dá por valor histórico, teológico e crítico, como testemunho de que já nos primeiros séculos havia discussões relevantes sobre transmissão textual, cânon e interpretação. Recomenda-se leitura com discernimento e cautela, distinguindo entre debate erudito antigo, problema textual específico e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] Saudação, meu senhor e filho, digníssimo Orígenes, da parte de Africano.[2] Em tua santa discussão com Agnomon, referiste-te àquela profecia de Daniel que é narrada a respeito de sua juventude.[3] Naquele tempo, como convinha, eu a aceitei como genuína.[4] Agora, porém, não consigo compreender como te escapou que esta parte do livro é espúria.[5] Pois, na verdade, esta seção, embora à parte disso esteja elegantemente escrita, é claramente uma falsificação mais recente.[6] Há muitas provas disso.[7] Quando Susana é condenada à morte, o profeta é tomado pelo Espírito e clama que a sentença é injusta.[8] Ora, em primeiro lugar, Daniel sempre profetiza de algum outro modo — por visões, por sonhos e pela aparição de um anjo —, nunca por inspiração profética dessa forma.[9] Depois de clamar desse modo extraordinário, ele os desmascara por um expediente não menos incrível, ao qual nem mesmo Filístion, o dramaturgo, teria recorrido.[10] Pois, não satisfeito em repreendê-los pelo Espírito, colocou-os em separado e perguntou a cada um, individualmente, onde a tinham visto cometendo adultério.[11] E, quando um disse: “Debaixo de uma azinheira” (prinos), ele respondeu que o anjo o serraria ao meio (prisein); e, de modo semelhante, ameaçou o outro, que disse: “Debaixo de um lentisco” (schinos), com ser despedaçado (schisthenai).[12] Ora, em grego, acontece que “azinheira” e “serrar ao meio”, bem como “despedaçar” e “lentisco”, soam de modo semelhante; mas, em hebraico, são coisas inteiramente distintas.[13] Mas todos os livros da antiga escritura foram traduzidos do hebraico para o grego.[14] Além disso, como poderia ser que aqueles que estavam cativos entre os caldeus, perdendo e ganhando no jogo, lançados insepultos pelas ruas, como fora profetizado a respeito do cativeiro anterior, com seus filhos arrancados deles para se tornarem eunucos, e suas filhas para se tornarem concubinas, como também fora profetizado, pudessem proferir sentença de morte, e justamente contra a esposa de seu rei Joaquim, a quem o rei dos babilônios havia feito consorte de seu trono?[15] E, se não era esse Joaquim, mas algum outro dentre o povo comum, de onde teria um cativo tal mansão e um jardim tão espaçoso?[16] Mas uma objeção ainda mais decisiva é que esta seção, juntamente com as outras duas ao final do livro, não se encontra no Daniel recebido entre os judeus.[17] Acrescenta-se ainda que, entre os muitos profetas que vieram antes, não há um só que tenha citado outro palavra por palavra.[18] Pois eles não tinham necessidade de mendigar palavras, já que as suas próprias eram verdadeiras.[19] Este, porém, ao repreender um daqueles homens, cita as palavras do Senhor: “Não matarás o inocente e o justo.”[20] De tudo isso concluo que esta seção é um acréscimo posterior.[21] Além disso, o estilo é diferente.[22] Eu desferi o golpe; dá-me tu o eco; responde e instrui-me.[23] Saúda todos os meus mestres.[24] Todos os eruditos te saúdam.[25] De todo o coração, oro pela tua saúde e pela saúde dos que te cercam.

