Skip to main content
search

[1] Alguns outros, porém, introduzem secretamente outra doutrina, tendo-se tornado discípulos de certo Noeto, natural de Esmirna, que viveu não muito tempo atrás. Esse homem estava grandemente inchado e inflado de orgulho, inspirado pela presunção de um espírito estranho. Ele afirmava que o próprio Cristo era o Pai, e que o próprio Pai nasceu, sofreu e morreu. Vês que soberba de coração e que espírito estranho e ensoberbecido haviam se infiltrado nele. Pelas demais ações dele já nos é dada a prova de que não falava com espírito puro; pois aquele que blasfema contra o Espírito Santo é lançado fora da santa herança. Ele afirmava que ele mesmo era Moisés, e que Arão era seu irmão. Quando os presbíteros benditos ouviram isso, convocaram-no diante da igreja e o examinaram. A princípio, porém, ele negou sustentar tais opiniões. Depois, refugiando-se entre alguns e reunindo outros que haviam abraçado o mesmo erro, desejou então sustentar abertamente seu dogma como correto. E os presbíteros benditos o chamaram novamente diante deles e o examinaram. Mas ele lhes resistiu, dizendo: “Que mal faço eu, afinal, ao glorificar Cristo?” E os presbíteros lhe responderam: “Também nós conhecemos em verdade um só Deus; conhecemos Cristo; conhecemos que o Filho sofreu como de fato sofreu, e morreu como de fato morreu, e ressuscitou ao terceiro dia, e está à direita do Pai, e vem para julgar os vivos e os mortos. E estas coisas que aprendemos, nós afirmamos.” Então, depois de examiná-lo, expulsaram-no da igreja. E ele foi levado a tal grau de orgulho que estabeleceu uma escola.

[2] Agora, eles procuram apresentar o fundamento de seu dogma citando a palavra da Lei: “Eu sou o Deus de teus pais; não terás outros deuses além de mim”; e novamente em outra passagem: “Eu sou o primeiro”, diz Ele, “e o último; e fora de mim não há outro.” Assim, dizem eles provar que Deus é um. E então respondem deste modo: “Se, portanto, reconheço Cristo como Deus, Ele é o próprio Pai, se de fato Ele é Deus; e Cristo sofreu, sendo Ele mesmo Deus; e consequentemente o Pai sofreu, pois Ele era o próprio Pai.” Mas o caso não é assim; pois as escrituras não expõem a questão desta maneira. Eles também fazem uso de outros testemunhos e dizem: “Assim está escrito: Este é o nosso Deus, e nenhum outro será considerado em comparação com Ele. Ele achou todo o caminho do conhecimento, e o deu a Jacó seu servo e a Israel seu amado. Depois disso, manifestou-se sobre a terra e conversou com os homens.” Vês, então, diz ele, que este é Deus, o único, e que depois se manifestou e conversou com os homens. E em outro lugar ele diz: “O Egito trabalhou; e o comércio da Etiópia e dos sabeus, homens de grande estatura, virão a ti, serão teus servos, virão após ti presos com grilhões, e se prostrarão diante de ti, porque Deus está em ti; e suplicarão a ti: não há Deus além de ti. Verdadeiramente tu és Deus, e nós não o sabíamos, Deus de Israel, o Salvador.” Vês, diz ele, como as escrituras proclamam um só Deus? E como isso está claramente demonstrado, e essas passagens dão testemunho disso, sou obrigado, diz ele, já que um só é reconhecido, a fazer desse Um o sujeito do sofrimento. Pois Cristo era Deus, e sofreu por nossa causa, sendo Ele mesmo o Pai, para que pudesse também salvar-nos. E não podemos nos expressar de outro modo, diz ele; pois o apóstolo também reconhece um só Deus, quando diz: “Dos quais são os pais, e dos quais, segundo a carne, veio Cristo, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente.”

[3] Desse modo, então, eles escolhem expor essas coisas, e fazem uso apenas de uma classe de passagens; exatamente da mesma maneira unilateral que Teódoto empregou quando procurou provar que Cristo era mero homem. Mas nem um grupo nem o outro compreendeu corretamente a questão, conforme as próprias escrituras refutam a insensatez deles e dão testemunho da verdade. Vede, irmãos, que dogma precipitado e audacioso introduziram, quando dizem sem vergonha: o Pai é o próprio Cristo, o próprio Filho, nasceu Ele mesmo, sofreu Ele mesmo, ressuscitou a si mesmo. Mas não é assim. As escrituras falam o que é reto; porém Noeto pensa de modo diferente delas. Contudo, embora Noeto não compreenda a verdade, as escrituras não devem por isso ser repudiadas. Pois quem não dirá que há um só Deus? Contudo, por isso não negará a economia, isto é, a disposição e distinção das pessoas. O modo correto, portanto, de tratar a questão é, antes de tudo, refutar a interpretação que esses homens dão a essas passagens, e depois explicar seu verdadeiro sentido. Pois é correto, em primeiro lugar, expor a verdade de que o Pai é um só Deus, de quem procede toda família, por quem são todas as coisas, de quem são todas as coisas, e nós nele.

[4] Vejamos, como eu disse, como ele é refutado, e então exponhamos a verdade. Ora, ele cita as palavras: “O Egito trabalhou, e o comércio da Etiópia e dos sabeus”, e assim por diante, até as palavras: “Tu és o Deus de Israel, o Salvador.” E ele cita essas palavras sem entender o que vem antes delas. Pois sempre que desejam tentar algo às ocultas, mutilam as escrituras. Mas que ele cite a passagem inteira, e descobrirá a razão considerada ao escrevê-la. Pois temos o início da seção um pouco acima; e convém, naturalmente, começar dali para mostrar a quem e sobre quem a passagem fala. Pois acima, o início da seção está assim: “Pergunta-me acerca de meus filhos e de minhas filhas, e acerca da obra de minhas mãos, ordena-me. Eu fiz a terra e o homem sobre ela; eu, com minha mão, estabeleci o céu; eu ordenei a todas as estrelas. Eu o levantei em justiça, e todos os seus caminhos são retos. Ele edificará minha cidade e fará voltar o cativeiro; não por preço nem por recompensa, diz o Senhor dos Exércitos. Assim diz o Senhor dos Exércitos: o Egito trabalhou, e o comércio da Etiópia e dos sabeus, homens de grande estatura, virão a ti, e serão teus servos; virão após ti presos com grilhões, e se prostrarão diante de ti; e suplicarão a ti, porque Deus está em ti; e não há Deus além de ti. Verdadeiramente tu és Deus, e nós não o sabíamos, o Deus de Israel, o Salvador.” “Em ti, portanto”, diz ele, “Deus está.” Mas em quem está Deus, senão em Cristo Jesus, o Verbo do Pai e o mistério da economia? E novamente, expondo a verdade a respeito dele, aponta para o fato de sua presença na carne quando diz: “Eu o levantei em justiça, e todos os seus caminhos são retos.” Pois o que é isso? De quem o Pai assim dá testemunho? É do Filho que o Pai diz: “Eu o levantei em justiça.” E que o Pai levantou seu Filho em justiça, o apóstolo Paulo testemunha, dizendo: “E, se o Espírito daquele que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos também vivificará os vossos corpos mortais por meio de seu Espírito que habita em vós.” Eis que a palavra falada pelo profeta assim se cumpre: “Eu o levantei em justiça.” E ao dizer: “Deus está em ti”, referia-se ao mistério da economia, porque quando o Verbo se encarnou e se fez homem, o Pai estava no Filho, e o Filho no Pai, enquanto o Filho vivia entre os homens. Isto, portanto, foi significado, irmãos: que, na realidade, o mistério da economia pelo Espírito Santo e pela Virgem era este Verbo, constituindo ainda um só Filho para Deus. E não sou eu apenas quem diz isso, mas o próprio que desceu do céu o atesta; pois fala assim: “Ninguém subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu.” O que então ele pode buscar além do que está escrito? Dirá, porventura, que a carne estava no céu? Entretanto, eis a carne que foi apresentada pelo Verbo do Pai como oferta, a carne que veio pelo Espírito e pela Virgem, e foi demonstrada como o perfeito Filho de Deus. É evidente, portanto, que Ele ofereceu a si mesmo ao Pai. E antes disso não havia carne no céu. Quem, então, estava no céu senão o Verbo não encarnado, que foi enviado para mostrar que estava sobre a terra e também no céu? Pois Ele era Verbo, era Espírito, era Poder. O mesmo tomou para si o nome comum e corrente entre os homens, e foi chamado desde o princípio Filho do Homem em razão daquilo que havia de ser, embora ainda não fosse homem, como Daniel testemunha quando diz: “Eu vi, e eis um como o Filho do Homem vinha com as nuvens do céu.” Corretamente, então, disse-se que aquele que estava no céu era chamado desde o princípio por esse nome, o Verbo de Deus, como sendo isso desde o princípio.

[5] Mas o que significa, diz ele, a outra passagem: “Este é Deus, e nenhum outro será considerado em comparação com Ele”? Isso ele disse corretamente. Pois quem será contado em comparação com o Pai? Mas ele diz: “Este é o nosso Deus; nenhum outro será considerado em comparação com Ele. Ele achou todo o caminho do conhecimento, e o deu a Jacó seu servo e a Israel seu amado.” Ele diz bem. Pois quem é Jacó seu servo, Israel seu amado, senão aquele de quem Ele clama, dizendo: “Este é meu Filho amado, em quem me comprazo; ouvi-o”? Tendo recebido, então, todo o conhecimento do Pai, o Israel perfeito, o verdadeiro Jacó, depois se manifestou sobre a terra e conversou com os homens. E quem, novamente, é designado por Israel senão um homem que vê Deus? E não há ninguém que veja Deus, exceto o Filho somente, o homem perfeito que sozinho declara a vontade do Pai. Pois João também diz: “Ninguém jamais viu Deus; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.” E ainda: “Aquele que desceu do céu testifica o que ouviu e viu.” Este, então, é aquele a quem o Pai deu todo o conhecimento, que se manifestou sobre a terra e conversou com os homens.

[6] Vejamos em seguida a palavra do apóstolo: “Dos quais são os pais, e dos quais, segundo a carne, veio Cristo, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente.” Esta palavra declara o mistério da verdade correta e claramente. Aquele que está sobre todos é Deus; pois assim Ele fala ousadamente: “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai.” Aquele que está sobre todos, Deus bendito, nasceu; e, tendo-se feito homem, é, contudo, Deus para sempre. Pois nesse sentido João também disse: “Aquele que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso.” E bem fez ele em chamar Cristo de Todo-Poderoso. Pois nisso disse apenas o que Cristo testifica de si mesmo. Pois Cristo deu esse testemunho e disse: “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai”; e Cristo governa todas as coisas, e foi constituído Todo-Poderoso pelo Pai. Da mesma forma também Paulo, expondo a verdade de que todas as coisas lhe foram entregues, disse: “Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, em sua vinda. Então virá o fim, quando Ele entregar o reino a Deus, ao Pai, quando houver destruído todo principado, toda autoridade e poder. Pois convém que Ele reine até que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte. Porque todas as coisas lhe sujeitou debaixo dos pés. Mas, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, claro está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas. E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o próprio Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos.” Se, portanto, todas as coisas lhe estão sujeitas, exceto aquele que as sujeitou, Ele é Senhor de todos, e o Pai é Senhor dele, para que em todas as coisas se manifeste um só Deus, a quem todas as coisas são sujeitas juntamente com Cristo, a quem o Pai sujeitou todas as coisas, exceto a si mesmo. E isso, de fato, é dito pelo próprio Cristo, como quando no evangelho confessou que Ele era seu Pai e seu Deus. Pois fala assim: “Subo para meu Pai e vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus.” Se, então, Noeto se atreve a dizer que Ele é o próprio Pai, a que pai dirá ele que Cristo vai, segundo a palavra do evangelho? Mas, se quiser que abandonemos o evangelho e demos crédito à sua insensatez, em vão emprega seu trabalho; pois importa obedecer a Deus antes que aos homens.

[7] Se, novamente, ele alegar a própria palavra do Senhor quando disse: “Eu e o Pai somos um”, que atente para isso e compreenda que Ele não disse: “Eu e o Pai sou um”, mas “somos um”. Pois a palavra “somos” não se diz de uma só pessoa, mas se refere a duas pessoas e a um só poder. Ele mesmo esclareceu isso quando falou a seu Pai acerca dos discípulos: “A glória que me deste, eu lhes dei, para que sejam um, assim como nós somos um: eu neles, e tu em mim, para que eles sejam aperfeiçoados na unidade; para que o mundo conheça que tu me enviaste.” Que têm os noecianos a dizer a essas coisas? São todos um só corpo quanto à substância, ou é que nos tornamos um no poder e na disposição da unidade de mente? Da mesma maneira, o Filho, que foi enviado e não foi conhecido pelos que estão no mundo, confessou que estava no Pai em poder e disposição. Pois o Filho é a mente una do Pai. Nós, que temos a mente do Pai, assim cremos nele; mas os que não a têm negaram o Filho. E se, novamente, quiserem alegar o fato de Filipe ter perguntado sobre o Pai, dizendo: “Mostra-nos o Pai, e isso nos basta”, ao que o Senhor respondeu nestes termos: “Há tanto tempo estou convosco, e ainda não me conheceste, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai. Não crês que eu estou no Pai, e o Pai em mim?”; e se quiserem manter que seu dogma é confirmado por essa passagem, como se Ele reconhecesse ser o próprio Pai, saibam que ela é decididamente contra eles, e que por essa mesma palavra são refutados. Pois, embora Cristo tivesse falado de si mesmo e se mostrado a todos como o Filho, eles ainda não o haviam reconhecido como tal, nem tinham sido capazes de apreender ou contemplar seu verdadeiro poder. E Filipe, não tendo sido capaz de receber isso tanto quanto era possível vê-lo, pediu para contemplar o Pai. A quem então o Senhor disse: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e ainda não me conheceste? Quem me vê a mim vê o Pai.” Com isso Ele quer dizer: se me viste, podes conhecer o Pai por meio de mim. Pois, pela imagem, que é semelhante ao original, o Pai se torna prontamente conhecido. Mas, se não conheceste a imagem, que é o Filho, como buscas ver o Pai? E que é assim fica claro pelo restante do capítulo, o qual significa que o Filho que foi manifestado foi enviado pelo Pai e vai para o Pai.

[8] Muitas outras passagens, ou antes, todas elas, dão testemunho da verdade. Um homem, portanto, mesmo que não queira, é compelido a reconhecer Deus Pai Todo-Poderoso, e Cristo Jesus o Filho de Deus, que, sendo Deus, se fez homem, a quem também o Pai sujeitou todas as coisas, exceto a si mesmo e o Espírito Santo; e que estes, portanto, são três. Mas, se ele deseja aprender como ainda se mostra que há um só Deus, saiba que o seu poder é um. Assim, quanto ao poder, Deus é um. Mas, quanto à economia, há uma manifestação tríplice, como se provará depois, quando dermos conta da verdadeira doutrina. Nestes pontos, porém, que assim expusemos, estamos de acordo. Pois há um só Deus em quem devemos crer, incriado, impassível, imortal, fazendo todas as coisas como quer, do modo como quer e quando quer. Que dirá então este Noeto, que nada sabe da verdade, diante dessas coisas? E agora, tendo sido Noeto refutado, voltemo-nos para a exposição da própria verdade, para que estabeleçamos a verdade contra a qual todas essas poderosas heresias se levantaram sem conseguir dizer nada de proveitoso.

[9] Há, irmãos, um só Deus, cujo conhecimento recebemos das santas escrituras, e de nenhuma outra fonte. Pois, assim como um homem, se deseja tornar-se hábil na sabedoria deste mundo, não encontrará outro caminho senão dominar os dogmas dos filósofos, assim também todos nós, que desejamos praticar a piedade, não poderemos aprender sua prática de outra parte senão pelos oráculos de Deus. Tudo, portanto, quanto declaram as santas escrituras, isso consideremos; e tudo quanto ensinam, isso aprendamos; e como o Pai quer que creiamos, assim creiamos; e como quer que o Filho seja glorificado, assim o glorifiquemos; e como quer que o Espírito Santo seja concedido, assim o recebamos. Não segundo a nossa própria vontade, nem segundo nosso próprio entendimento, nem violentando as coisas que nos foram dadas por Deus, mas exatamente como Ele escolheu ensiná-las pelas santas escrituras, assim as discernamos.

[10] Deus, existindo sozinho e não tendo nada contemporâneo consigo, determinou criar o mundo. E, concebendo o mundo em sua mente, querendo-o e proferindo a palavra, fê-lo; e imediatamente ele apareceu, formado como lhe agradou. Para nós, então, basta simplesmente saber que nada havia contemporâneo com Deus. Fora dele não havia nada; mas Ele, embora existindo sozinho, existia em pluralidade. Pois não estava sem razão, nem sem sabedoria, nem sem poder, nem sem conselho. Todas as coisas estavam nele, e Ele era o Todo. Quando quis, e como quis, manifestou sua palavra nos tempos determinados por Ele, e por ela fez todas as coisas. Quando quer, faz; e quando pensa, executa; e quando fala, manifesta; quando forma, dispõe com sabedoria. Pois todas as coisas que são feitas, Ele as forma pela razão e sabedoria, criando-as pela razão e ordenando-as pela sabedoria. Fez, então, todas elas como quis, porque era Deus. E, como Autor, Co-conselheiro e Formador das coisas que estavam em processo de formação, gerou o Verbo; e, trazendo este Verbo em si mesmo, e ainda invisível para o mundo criado, tornou-o visível; e, emitindo primeiro a voz, e gerando-o como Luz da Luz, apresentou-o ao mundo como seu Senhor e como sua própria mente; e, embora antes fosse visível apenas para si mesmo e invisível para o mundo criado, torna-o visível para que o mundo o veja em sua manifestação e seja capaz de ser salvo.

[11] E assim apareceu outro além dele mesmo. Mas, quando digo “outro”, não quero dizer que haja dois deuses, e sim que é apenas como luz da luz, ou como água de uma fonte, ou como raio do sol. Pois há um só poder, que procede do Todo; e o Pai é o Todo, de quem vem esse Poder, o Verbo. E esta é a mente que saiu ao mundo e foi manifestada como o Filho de Deus. Todas as coisas, portanto, são por Ele, e somente Ele é do Pai. Quem, então, introduzirá uma multidão de deuses, vez após vez? Pois todos são encerrados, ainda que contra a vontade, em admitir este fato: que o Todo converge para um só. Se, pois, todas as coisas convergem para um, até mesmo segundo Valentim, Marcião, Cerinto e todas as suas loucuras, eles também são reduzidos, embora não queiram, a esta posição: devem reconhecer que o Um é a causa de todas as coisas. Assim, então, também estes, ainda que não o desejem, concordam com a verdade e admitem que um só Deus fez todas as coisas segundo o seu beneplácito. E Ele deu a Lei e os profetas; e, ao dá-los, fê-los falar pelo Espírito Santo, a fim de que, dotados da inspiração do poder do Pai, pudessem declarar o conselho e a vontade do Pai.

[12] Agindo, então, nesses profetas, o Verbo falou de si mesmo. Pois já se tornara seu próprio arauto e mostrou que o Verbo seria manifestado entre os homens. E por esta razão clamou assim: “Fui manifestado aos que não me buscavam; fui achado pelos que não perguntavam por mim.” E quem é aquele que se manifesta, senão o Verbo do Pai, a quem o Pai enviou e em quem mostrou aos homens o poder que dele procede? Assim, então, foi o Verbo manifestado, como o bem-aventurado João diz. Pois ele resume as coisas ditas pelos profetas e mostra que este é o Verbo, por quem todas as coisas foram feitas. Pois ele fala assim: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” E abaixo ele diz: “O mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu; veio para o que era seu, e os seus não o receberam.” Se, então, diz ele, o mundo foi feito por ele, segundo a palavra do profeta: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus”, então este é o Verbo que também foi manifestado. Vemos, portanto, o Verbo encarnado, e por meio dele conhecemos o Pai, e cremos no Filho, e adoramos o Espírito Santo. Consideremos, então, o testemunho da escritura a respeito do anúncio da futura manifestação do Verbo.

[13] Ora, Jeremias diz: “Quem esteve no conselho do Senhor e percebeu a sua Palavra?” Mas o Verbo de Deus somente é visível, ao passo que a palavra do homem é audível. Quando ele fala em ver o Verbo, devo crer que este Verbo visível foi enviado. E não houve outro enviado senão o Verbo. E que Ele foi enviado, Pedro testemunha quando diz ao centurião Cornélio: “Deus enviou sua Palavra aos filhos de Israel, anunciando a paz por meio de Jesus Cristo; este é Senhor de todos.” Se, então, o Verbo é enviado por Jesus Cristo, a vontade do Pai é Jesus Cristo.

[14] Essas coisas, então, irmãos, são declaradas pelas escrituras. E o bem-aventurado João, no testemunho de seu evangelho, dá-nos um relato dessa economia e reconhece este Verbo como Deus, quando diz: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” Se, então, o Verbo estava com Deus e também era Deus, o que se segue? Diria alguém que ele fala de dois deuses? Eu, de fato, não falarei de dois deuses, mas de um; de duas Pessoas, porém, e de uma terceira economia, isto é, a graça do Espírito Santo. Pois o Pai de fato é Um, mas há duas Pessoas, porque há também o Filho; e depois há o terceiro, o Espírito Santo. O Pai decreta, o Verbo executa, e o Filho é manifestado, por meio de quem se crê no Pai. A economia da harmonia reconduz a um só Deus, porque Deus é Um. É o Pai quem ordena, e o Filho quem obedece, e o Espírito Santo quem dá entendimento: o Pai que está acima de todos, e o Filho que é através de todos, e o Espírito Santo que está em todos. E não podemos pensar de outro modo sobre um só Deus senão crendo verdadeiramente em Pai, Filho e Espírito Santo. Pois os judeus glorificavam o Pai, mas não lhe davam graças, porque não reconheciam o Filho. Os discípulos reconheceram o Filho, mas não no Espírito Santo; por isso também o negaram. O Verbo do Pai, portanto, conhecendo a economia e a vontade do Pai, isto é, que o Pai busca ser adorado de nenhum outro modo senão este, deu esta ordem aos discípulos depois que ressuscitou dos mortos: “Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” E com isso mostrou que quem omitisse qualquer um destes falhava em glorificar a Deus perfeitamente. Pois é através desta Trindade que o Pai é glorificado. O Pai quis, o Filho fez, o Espírito manifestou. Toda a escritura, portanto, proclama esta verdade.

[15] Mas alguém me dirá: “Tu apresentas algo estranho para mim quando chamas o Filho de Verbo. João de fato fala do Verbo, mas é por figura de linguagem.” Não, não é figura de linguagem. Pois, ao apresentar esse Verbo que existia desde o princípio e agora foi enviado, ele diz abaixo no Apocalipse: “E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava sentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro, e julga e peleja com justiça. Seus olhos eram como chama de fogo, e sobre sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito que ninguém conhecia senão ele mesmo. E estava vestido com uma veste tingida de sangue; e o seu nome se chama o Verbo de Deus.” Vede então, irmãos, como a veste aspergida de sangue simbolizava a carne, por meio da qual o impassível Verbo de Deus veio a sofrer, como também os profetas me testemunham. Pois assim fala o bem-aventurado Miqueias: “A casa de Jacó irritou o Espírito do Senhor. Estas são as suas obras. Não são boas as suas palavras para com eles, e não andam retamente? E levantaram-se em inimizade contra a sua face de paz, e lhe arrancaram a glória.” Isto significa o seu sofrimento na carne. E semelhantemente também o bem-aventurado Paulo diz: “Pois o que era impossível à Lei, visto que estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado, condenou o pecado na carne, para que a justiça da Lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.” Que Filho próprio, então, enviou Deus por meio da carne, senão o Verbo, a quem chamou de Filho porque haveria de tornar-se assim no futuro? E Ele toma o nome comum do afeto entre os homens ao ser chamado Filho. Pois nem o Verbo, antes da encarnação e estando por si mesmo, era ainda Filho perfeito, embora fosse Verbo perfeito, unigênito. Nem a carne poderia subsistir por si mesma separada do Verbo, porque tem sua subsistência no Verbo. Assim, então, foi manifestado um só perfeito Filho de Deus.

[16] E estes, de fato, são testemunhos relativos à encarnação do Verbo; e há também muitíssimos outros. Mas vejamos também o assunto em questão, isto é, a questão, irmãos, de que na realidade o poder do Pai, que é o Verbo, desceu do céu, e não o próprio Pai. Pois assim Ele fala: “Saí do Pai, e vim.” Ora, que sujeito é indicado nesta frase “Saí do Pai”, senão exatamente o Verbo? E o que é gerado dele, senão justamente o Espírito, isto é, o Verbo? Mas tu me dirás: “Como Ele foi gerado?” No teu próprio caso, não és capaz de explicar o modo como foste gerado, embora vejas todos os dias a causa segundo o homem; tampouco podes explicar com exatidão a economia no caso dele. Pois não está em teu poder conhecer a arte prática e indescritível do Criador, mas apenas ver, compreender e crer que o homem é obra de Deus. Além disso, estás pedindo explicação da geração do Verbo, que Deus Pai, segundo o seu beneplácito, gerou como quis. Não te basta aprender que Deus fez o mundo, mas também te atreves a perguntar de onde o fez? Não te basta aprender que o Filho de Deus te foi manifestado para salvação, se creres, mas também investigas curiosamente como foi gerado segundo o Espírito? Na verdade, não mais que dois receberam o encargo de relatar sua geração segundo a carne; e és tu então tão ousado a ponto de buscar relato de sua geração segundo o Espírito, que o Pai guarda consigo, pretendendo revelá-lo então aos santos e aos dignos de ver a sua face? Contenta-te com a palavra dita por Cristo: “O que é nascido do Espírito é espírito”, assim como, falando pelo profeta acerca da geração do Verbo, Ele mostra o fato de que foi gerado, mas reserva a questão do modo e dos meios, para revelá-la somente no tempo por Ele determinado. Pois fala assim: “Do ventre, antes da estrela da manhã, eu te gerei.”

[17] Estes testemunhos bastam para os que creem e estudam a verdade; e os incrédulos não dão crédito a testemunho algum. Pois o Espírito Santo, na pessoa dos apóstolos, testificou isso, dizendo: “E quem creu em nossa pregação?” Portanto, não nos mostremos incrédulos, para que a palavra dita não se cumpra em nós. Creiamos, então, amados irmãos, segundo a tradição dos apóstolos, que Deus, o Verbo, desceu do céu e entrou na santa virgem Maria, para que, tomando dela a carne e assumindo também aquilo que é humano, isto é, uma alma racional, e tornando-se assim tudo aquilo que o homem é, exceto o pecado, pudesse salvar o homem caído e conceder imortalidade aos homens que creem em seu nome. Em tudo, portanto, a palavra da verdade nos é demonstrada, a saber: que o Pai é Um, cuja palavra está com Ele, por meio da qual fez todas as coisas; a quem também, como dissemos acima, o Pai enviou nos últimos tempos para a salvação dos homens. Este Verbo foi pregado pela Lei e pelos profetas como destinado a vir ao mundo. E, exatamente como foi pregado então, assim também veio e se manifestou, sendo pela Virgem e pelo Espírito Santo feito um novo homem; pois, tendo a natureza celestial do Pai, como Verbo, e a natureza terrena, ao tomar para si a carne do velho Adão por meio da Virgem, agora, vindo ao mundo, manifestou-se como Deus em um corpo, vindo também como homem perfeito. Pois não foi em mera aparência nem por conversão, mas em verdade, que se fez homem.

[18] Assim, então, embora demonstrado como Deus, Ele não recusa as condições que lhe são próprias como homem, pois tem fome, trabalha, sente sede na fadiga, foge com temor e ora em angústia. E aquele que, como Deus, tem natureza sem sono, dorme sobre um travesseiro. E aquele que para este fim veio ao mundo, pede para afastar de si o cálice do sofrimento. E em agonia sua suor é como sangue, e é fortalecido por um anjo, sendo Ele mesmo aquele que fortalece os que nele creem e ensinou os homens a desprezar a morte por sua obra. E aquele que sabia que tipo de homem Judas era, é traído por Judas. E aquele que antes fora honrado por ele como Deus é desprezado por Caifás. E é tido por nada por Herodes, sendo Ele mesmo quem há de julgar toda a terra. E é açoitado por Pilatos, tendo tomado sobre si as nossas enfermidades. E pelos soldados é zombado, Ele a cuja ordem estão milhares de milhares e miríades de miríades de anjos e arcanjos. E aquele que firmou os céus como uma abóbada é pregado na cruz pelos judeus. E aquele que é inseparável do Pai clama ao Pai e entrega-lhe o seu espírito; e, inclinando a cabeça, expira, Ele que disse: “Tenho poder para dar minha vida, e tenho poder para retomá-la”; e porque não foi vencido pela morte, sendo Ele mesmo a Vida, disse isso: “Eu a dou de mim mesmo.” E aquele que dá vida abundantemente a todos tem o lado perfurado por uma lança. E aquele que ressuscita os mortos é envolto em linho e colocado em um sepulcro, e ao terceiro dia é ressuscitado novamente pelo Pai, embora Ele mesmo seja a Ressurreição e a Vida. Pois todas essas coisas Ele realizou por nós, Ele que por nossa causa foi feito como nós somos. Pois Ele mesmo levou nossas enfermidades e carregou nossas doenças; e por nossa causa foi afligido, como disse o profeta Isaías. Este é aquele que foi cantado pelos anjos, visto pelos pastores, esperado por Simeão e testemunhado por Ana. Este é aquele que foi procurado pelos magos e indicado pela estrela; aquele que estava na casa de seu Pai, apontado por João e testemunhado pelo Pai desde o alto na voz: “Este é meu Filho amado; ouvi-o.” Ele é coroado vencedor contra o diabo. Este é Jesus de Nazaré, que foi convidado para as bodas em Caná e transformou a água em vinho, e repreendeu o mar agitado pela violência dos ventos, e andou sobre o abismo como sobre terra seca, e fez ver o cego de nascença, e ressuscitou Lázaro à vida após quatro dias morto, e realizou muitos poderosos feitos, e perdoou pecados, e concedeu poder aos discípulos, e teve sangue e água correndo de seu lado sagrado quando foi perfurado pela lança. Por causa dele o sol se escurece, o dia perde sua luz, as rochas se fendêm, o véu se rasga, os fundamentos da terra estremecem, os sepulcros se abrem, os mortos se levantam, e os governantes se envergonham quando veem o Diretor do universo sobre a cruz fechando os olhos e expirando. A criação viu e perturbou-se; e, incapaz de suportar a visão de sua glória excessiva, cobriu-se de trevas. Este é aquele que sopra sobre os discípulos e lhes dá o Espírito, e entra entre eles estando as portas fechadas, e é elevado por uma nuvem aos céus enquanto os discípulos o contemplam, e se assenta à direita do Pai, e volta novamente como Juiz dos vivos e dos mortos. Este é o Deus que, por nossa causa, se fez homem, a quem também o Pai sujeitou todas as coisas. A Ele seja a glória e o poder, com o Pai e o Espírito Santo, na santa igreja, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos.

VCirculi

Author VCirculi

More posts by VCirculi
Close Menu