Aviso ao leitor
Este livro - Lactâncio — “Sobre a Ira de Deus” / De Ira Dei - é apresentado aqui como literatura cristã antiga de caráter apologético e teológico (início do séc. IV), discutindo como compreender a “ira” divina sem reduzi-la a paixões humanas, em diálogo com críticas filosóficas e com a linguagem moral do período. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, doutrinária e comparativa.
[1] Tenho observado muitas vezes, Donato, que muitas pessoas sustentam esta opinião, a qual também alguns filósofos defenderam: que Deus não está sujeito à ira, visto que a natureza divina ou é inteiramente benéfica, e não condiz com Seu poder excelso e superior causar dano a ninguém; ou, em todo caso, não toma absolutamente nenhum conhecimento de nós, de modo que de Sua bondade não nos vem proveito algum, nem de Sua má vontade nos vem mal algum.[2] Mas o erro desses homens, por ser muito grande e tender a subverter a condição da vida humana, deve ser por nós refutado, para que tu mesmo não sejas enganado, incitado pela autoridade de homens que se julgam sábios.[3] Nem, contudo, somos tão arrogantes a ponto de nos gloriarmos de que a verdade seja abrangida por nosso intelecto; antes, seguimos o ensino de Deus, que sozinho é capaz de conhecer e revelar as coisas secretas.[4] Mas os filósofos, privados desse ensino, imaginaram que a natureza das coisas pode ser descoberta por conjectura.[5] Mas isso é impossível, porque a mente do homem, encerrada na sombria morada do corpo, está muito distante da percepção da verdade; e nisso a natureza divina difere da humana: a ignorância é própria do humano, e o conhecimento é próprio da natureza divina.[6] Por essa razão, temos necessidade de alguma luz para dissipar as trevas que cobrem a reflexão humana, pois, enquanto vivemos na carne mortal, somos incapazes de discernir por nossos sentidos.[7] Mas a luz da mente humana é Deus, e aquele que O conheceu e O recebeu em seu peito reconhecerá o mistério da verdade com o coração iluminado; porém, quando Deus e a instrução celestial são removidos, tudo se enche de erros.[8] E Sócrates, embora fosse o mais instruído de todos os filósofos, ainda assim, para provar a ignorância dos outros, que pensavam possuir algum conhecimento, disse corretamente que nada sabia, exceto uma única coisa: que nada sabia.[9] Pois ele compreendeu que aquele saber nada tinha de seguro, nada tinha de verdadeiro em si mesmo; nem, como alguns imaginam, fingia saber para refutar os outros, mas percebeu em alguma medida a verdade.[10] E até mesmo em seu julgamento, como relata Platão, testemunhou que não havia sabedoria humana.[11] Tão profundamente desprezou, ridicularizou e rejeitou o saber do qual então os filósofos se vangloriavam, que professou justamente isto como a maior das aprendizagens: ter aprendido que nada sabia.[12] Se, portanto, não há sabedoria humana, como Sócrates ensinou e como Platão transmitiu, é evidente que o conhecimento da verdade é divino e não pertence a ninguém além de Deus.[13] Portanto, Deus deve ser conhecido, pois somente nEle está a verdade.[14] Ele é o Pai do mundo e o Artífice de todas as coisas; não é visto com os olhos e mal é distinguido pela mente; e Sua religião costuma ser atacada de muitas maneiras por aqueles que não puderam alcançar a verdadeira sabedoria nem compreender a ordem do grande e celestial mistério.[15] Pois, visto que há muitos degraus pelos quais se sobe até a morada da verdade, não é fácil a ninguém alcançar o cume.[16] Porque, quando os olhos são ofuscados pelo brilho da verdade, aqueles que não conseguem manter o passo firme recaem para o terreno plano.[17] Ora, o primeiro degrau é compreender as falsas religiões e lançar fora o culto ímpio aos deuses feitos pela mão do homem.[18] Mas o segundo degrau é perceber com a mente que existe um só Deus Supremo, cujo poder e providência fizeram o mundo desde o princípio e depois continuam a governá-lo.[19] O terceiro degrau é conhecer o Seu Servo e Mensageiro, a quem Ele enviou como Seu embaixador à terra, para que, por Seu ensino, sendo libertos do erro em que estávamos enredados e formados para o culto do verdadeiro Deus, aprendêssemos a justiça.[20] De todos esses degraus, como eu disse, há um deslizamento rápido e fácil para a queda, a menos que os pés estejam firmemente plantados com inabalável constância.[21] Vemos afastados do primeiro degrau aqueles que, embora entendam as coisas falsas, não descobrem, contudo, aquilo que é verdadeiro; e, embora tenham desprezado imagens terrenas e frágeis, não se entregam ao culto de Deus, a quem ignoram.[22] Antes, contemplando com admiração os elementos do universo, adoram o céu, a terra, o mar, o sol, a lua e os demais corpos celestes.[23] Mas já repreendemos a ignorância deles no segundo livro das Instituições Divinas.[24] Mas dizemos que caem do segundo degrau aqueles que, embora compreendam que há um só Deus Supremo, todavia, enredados pelos filósofos e cativados por falsos argumentos, sustentam opiniões sobre essa excelsa majestade muito afastadas da verdade; os quais ou negam que Deus tenha alguma forma, ou pensam que Ele não é movido por afeição alguma, porque toda afeição seria sinal de fraqueza, o que, segundo eles, não existe em Deus.[25] Mas precipitam-se do terceiro degrau aqueles que, embora conheçam o Embaixador de Deus, que é também o Construtor do templo divino e imortal, ou não O recebem, ou O recebem de modo diverso do que a fé exige; a estes refutamos em parte no quarto livro da obra acima mencionada.[26] E daqui em diante refutaremos com mais cuidado, quando começarmos a responder a todas as seitas que, enquanto disputam, destruíram a verdade.[27] Mas agora argumentaremos contra aqueles que, caindo do segundo degrau, nutrem sentimentos errados a respeito do Deus Supremo.[28] Porque alguns dizem que Ele nem faz bem a alguém, nem se ira, mas desfruta, em segurança e quietude, as vantagens de Sua própria imortalidade.[29] Outros, de fato, tiram de Deus a ira, mas Lhe deixam a bondade; pois pensam que uma natureza que excede na mais alta virtude, assim como não deve ser malévola, também deve ser benevolente.[30] Assim, todos os filósofos concordam no assunto da ira, mas divergem quanto à bondade.[31] Mas, para que meu discurso desça ordenadamente ao tema proposto, é preciso que eu faça e siga uma divisão deste tipo, já que ira e bondade são coisas diferentes e opostas entre si.[32] Ou se deve atribuir a Deus a ira e retirar-Lhe a bondade; ou ambas devem igualmente ser retiradas dEle; ou a ira deve ser retirada e a bondade atribuída a Ele; ou nenhuma das duas deve ser retirada.[33] A natureza da questão não admite nada além disso, de modo que a verdade que se procura deve necessariamente ser encontrada em uma dessas possibilidades.[34] Consideremo-las separadamente, para que a razão e a ordem nos conduzam ao esconderijo da verdade.[35] Em primeiro lugar, ninguém jamais disse a respeito de Deus que Ele está sujeito apenas à ira e que não é movido pela bondade.[36] Pois é incompatível com Deus que Ele seja dotado de um poder desse tipo, pelo qual possa ferir e causar dano, mas não possa favorecer e fazer o bem.[37] Que recurso, pois, que esperança de salvação é proposta aos homens, se Deus for apenas o autor dos males?[38] Porque, se assim for, essa venerável majestade já não será levada ao poder do juiz, a quem é permitido preservar e libertar, mas ao ofício do carrasco e do executor.[39] Mas, visto que vemos não apenas males nos assuntos humanos, mas também bens, é claro que, se Deus é o autor dos males, deve haver outro que faça coisas contrárias a Deus e nos dê bens.[40] Se existe tal ser, com que nome deverá ser chamado?[41] Por que aquele que nos fere é mais conhecido por nós do que Aquele que nos beneficia?[42] Mas, se isso não pode ser nada além de Deus, é absurdo e vão supor que o poder divino, acima do qual nada há maior ou melhor, seja capaz de causar dano, mas incapaz de beneficiar.[43] E, por isso, jamais existiu alguém que ousasse afirmar isso, porque não é nem racional nem de modo algum digno de crédito.[44] E, visto que isso é aceito por todos, passemos adiante e procuremos a verdade em outro lugar.[45] O que segue diz respeito à escola de Epicuro: que, assim como não há ira em Deus, também não há bondade.[46] Porque, quando Epicuro pensou que não convinha a Deus ferir e infligir dano, o que na maior parte das vezes procede da afeição da ira, retirou-Lhe também a beneficência, visto que percebia que, se Deus tem ira, então necessariamente também tem bondade.[47] Portanto, para que não Lhe concedesse um vício, privou-O também da virtude.[48] Daí, diz ele, Deus é feliz e incorruptível, porque nada Lhe importa, nem Ele mesmo se ocupa de coisa alguma, nem causa trabalho a outrem.[49] Portanto, Ele não é Deus, se nem se move, o que é próprio de um ser vivo, nem faz algo impossível ao homem, o que é próprio de Deus, se não tem vontade alguma, nem ação, em suma, nem administração alguma digna de Deus.[50] E que administração maior, que administração mais digna poderia ser atribuída a Deus, senão o governo do mundo e especialmente do gênero humano, ao qual todas as coisas terrenas estão sujeitas?[51] Que felicidade, então, pode haver em Deus, se Ele está sempre inativo, em repouso e imóvel?[52] Se é surdo aos que Lhe oram e cego para com os Seus adoradores?[53] O que há de tão digno de Deus e tão apropriado a Ele quanto a providência?[54] Mas, se Ele nada cuida e nada prevê, perdeu toda a Sua divindade.[55] Que outra coisa diz aquele que tira de Deus todo poder e toda substância, senão que não há Deus algum?[56] Em suma, Marco Túlio relata que Posidônio disse que Epicuro entendeu que não existiam deuses, mas que falou essas coisas a respeito dos deuses para afastar o ódio, de modo que os deixa nas palavras, mas os remove na realidade, já que não lhes concede movimento nem função.[57] Mas, se é assim, o que pode haver de mais enganoso do que ele?[58] E isso certamente deve estar longe do caráter de um homem sábio e sério.[59] Mas, se ele entendeu uma coisa e falou outra, como deve ser chamado, senão enganador, de língua dupla, perverso e, além disso, tolo?[60] Mas Epicuro não foi tão astuto a ponto de dizer essas coisas com desejo de enganar, quando também as consignou por escrito para perpétua lembrança; antes, errou por ignorância da verdade.[61] Porque, sendo conduzido desde o princípio pela aparência provável de uma única opinião, caiu necessariamente naquelas coisas que dela se seguiam.[62] Pois a primeira opinião era que a ira não convinha ao caráter de Deus.[63] E, quando isso lhe pareceu verdadeiro e irrefutável, ele não pôde recusar as consequências, porque, removida uma afeição, a própria necessidade o obrigou a remover também de Deus as outras afeições.[64] Assim, aquele que não está sujeito à ira evidentemente também não é movido pela bondade, que é o sentimento oposto à ira.[65] Ora, se nEle não há nem ira nem bondade, é manifesto que também não há nem temor, nem alegria, nem tristeza, nem compaixão.[66] Pois todas as afeições têm um só sistema, um só movimento, o que não pode ocorrer em Deus.[67] Mas, se não há afeição em Deus, porque tudo o que está sujeito a afeições é fraco, segue-se que nEle não há nem cuidado de coisa alguma, nem providência.[68] A argumentação desse sábio vai até aí; ele se calou quanto às demais coisas que daí se seguem, a saber: que, porque nEle não há nem cuidado nem providência, portanto não há nEle reflexão nem percepção alguma, pelo que se conclui que Ele simplesmente não existe.[69] Assim, quando havia descido gradualmente, permaneceu no último degrau, porque então já via o precipício.[70] Mas de que lhe adiantou ter permanecido calado e escondido o perigo?[71] A necessidade o compeliu a cair, mesmo contra a sua vontade.[72] Pois disse aquilo que não queria dizer, porque dispôs seu argumento de tal modo que necessariamente chegou àquele ponto que desejava evitar.[73] Vês, portanto, a que ponto ele chega quando a ira é removida e tirada de Deus.[74] Em suma, ou ninguém crê nisso, ou pouquíssimos, e estes culpados e perversos, que esperam impunidade para os seus pecados.[75] Mas, se também se verifica ser falso isto, que em Deus não há nem ira nem bondade, passemos àquilo que foi posto em terceiro lugar.[76] Os estoicos e alguns outros são considerados como tendo nutrido pensamentos muito melhores sobre a natureza divina, pois dizem que há bondade em Deus, mas não ira.[77] É um discurso muito agradável e popular: que Deus não está sujeito a tão pequena disposição de espírito a ponto de imaginar-Se ofendido por alguém, já que é impossível que Ele seja ofendido; de modo que aquela majestade serena e santa não seja excitada, perturbada e enfurecida, o que pertence à fragilidade humana.[78] Porque dizem que a ira é uma agitação e perturbação da mente, incompatível com Deus.[79] Pois, quando ela sobrevém à mente de alguém, como uma tempestade violenta levanta tais ondas que altera a condição do espírito: os olhos faiscam, o semblante treme, a língua gagueja, os dentes batem, e o rosto ora se tinge de rubor espalhado, ora de pálida brancura.[80] Mas, se a ira é inconveniente ao homem, desde que ele seja dotado de sabedoria e autoridade, quanto mais tal deformação é inconveniente a Deus.[81] E, se o homem, quando tem autoridade e poder, por ira causa amplo dano, derrama sangue, derruba cidades, destrói comunidades e reduz províncias à desolação, quanto mais se deveria crer que Deus, tendo poder sobre todo o gênero humano e sobre o próprio universo, estaria prestes a destruir todas as coisas, se estivesse irado.[82] Portanto, julgam que um mal tão grande e tão pernicioso deve estar ausente dEle.[83] E, se a ira e a excitação estão ausentes dEle, porque são deformantes e nocivas, e Ele não causa dano a ninguém, pensam que nada mais resta senão que Ele seja manso, calmo, propício, benéfico, preservador.[84] Pois assim enfim poderá ser chamado o Pai comum de todos, o melhor e o maior, como exige Sua natureza divina e celestial.[85] Porque, se entre os homens parece digno de louvor fazer o bem em vez de causar dano, restaurar à vida em vez de matar, salvar em vez de destruir, e a inocência não é sem razão contada entre as virtudes — e aquele que faz essas coisas é amado, estimado, honrado e celebrado com todas as bênçãos e votos —, em suma, por causa de seus méritos e benefícios é julgado o mais semelhante a Deus, quanto mais correto é que o próprio Deus, que excede em virtudes divinas e perfeitas e está afastado de toda mancha terrena, concilie todo o gênero humano por benefícios divinos e celestiais.[86] Essas coisas são ditas de modo vistoso e popular, e atraem muitos a crer nelas; mas os que sustentam tais sentimentos aproximam-se, de fato, mais da verdade, porém falham em parte, por não considerarem suficientemente a natureza da questão.[87] Porque, se Deus não se ira contra os ímpios e os injustos, é claro que não ama os piedosos e os justos.[88] Portanto, é mais coerente o erro daqueles que retiram de uma vez tanto a ira quanto a bondade.[89] Pois, em matérias opostas, é necessário mover-se para ambos os lados ou para nenhum.[90] Assim, quem ama o bem também odeia o perverso, e quem não odeia o perverso não ama o bem; porque o amor ao bem nasce do ódio ao perverso, e o ódio ao perverso surge do amor ao bem.[91] Ninguém ama a vida sem odiar a morte, nem deseja a luz sem evitar as trevas.[92] Essas coisas estão tão ligadas pela natureza que uma não pode existir sem a outra.[93] Se algum senhor tem em sua casa um servo bom e um servo mau, é evidente que ele não odeia ambos, nem confere a ambos benefícios e honras; porque, se faz isso, é ao mesmo tempo injusto e insensato.[94] Mas dirige-se ao bom com palavras amistosas, honra-o e o coloca sobre sua casa, sua família e todos os seus negócios; mas pune o mau com repreensões, açoites, nudez, fome, sede e grilhões, para que este seja exemplo para os outros, impedindo-os de pecar, e aquele concilie os demais, de modo que o temor contenha alguns e a honra estimule outros.[95] Logo, quem ama também odeia, e quem odeia também ama; porque há aqueles que devem ser amados, e há aqueles que devem ser odiados.[96] E, assim como quem ama concede bens àqueles que ama, assim também quem odeia inflige males àqueles que odeia; e esse argumento, porque é verdadeiro, não pode ser refutado de modo algum.[97] Portanto, é vã e falsa a opinião daqueles que, quando atribuem uma dessas coisas a Deus, retiram a outra, não menos do que a opinião daqueles que retiram ambas.[98] Mas estes últimos, como mostramos, em parte não erram, mas conservam aquilo que é o melhor das duas; ao passo que os primeiros, conduzidos pelo método rigoroso de seu raciocínio, caem no maior erro, porque assumiram premissas totalmente falsas.[99] Porque não deveriam ter raciocinado assim: porque Deus não está sujeito à ira, portanto Ele não é movido pela bondade; mas desta maneira: porque Deus é movido pela bondade, portanto Ele também está sujeito à ira.[100] Pois, se estivesse certo e fora de dúvida que Deus não está sujeito à ira, então o outro ponto necessariamente se seguiria.[101] Mas, como a questão sobre se Deus se ira é mais aberta à dúvida, ao passo que é quase perfeitamente claro que Ele é bondoso, é absurdo querer subverter o que é certo por meio do que é incerto, visto que é mais fácil confirmar as coisas incertas por meio das que são certas.[102] Estas são as opiniões sustentadas pelos filósofos a respeito de Deus.[103] Mas, se descobrimos que essas coisas que foram ditas são falsas, resta aquela última via, na qual somente a verdade pode ser encontrada, via esta que nunca foi abraçada pelos filósofos nem em tempo algum defendida: segue-se que Deus se ira, visto que é movido pela bondade.[104] Essa opinião deve ser por nós mantida e afirmada; porque este é o sumário e o ponto decisivo do qual dependem toda a piedade e toda a religião: e nenhuma honra pode ser devida a Deus, se Ele nada concede aos Seus adoradores; e nenhum temor, se Ele não se ira contra aquele que não O adora.[105] Embora os filósofos muitas vezes se tenham afastado da razão por ignorância da verdade e tenham caído em erros inextricáveis — pois costuma acontecer-lhes o mesmo que a um viajante que ignora o caminho e não confessa sua ignorância, isto é, vagueia de um lado para outro, envergonhado de perguntar aos que encontra —, nenhum filósofo, contudo, jamais afirmou que não há diferença entre o homem e os animais brutos.[106] Nem alguém algum, contanto que quisesse parecer sábio, reduziu o animal racional ao nível do mudo e irracional; o que alguns ignorantes fazem, semelhantes aos próprios brutos, os quais, querendo entregar-se à satisfação do apetite e do prazer, dizem que nasceram pelo mesmo princípio que todos os seres vivos, o que é ímpio ao homem afirmar.[107] Pois quem é tão sem instrução que não saiba, quem é tão destituído de entendimento que não perceba que há algo de divino no homem?[108] Ainda não chego às excelências da alma e do intelecto, pelas quais há manifesta afinidade entre o homem e Deus.[109] A própria posição do corpo e a forma do rosto não declaram que não estamos no mesmo nível da criação irracional?[110] A natureza deles está prostrada ao chão e ao pasto, e nada tem em comum com o céu, para o qual não olham.[111] Mas o homem, com sua postura ereta e com o rosto elevado para a contemplação do universo, compara seus traços com Deus, e a razão reconhece a razão.[112] E, por isso, não há animal algum, como diz Cícero, exceto o homem, que tenha algum conhecimento de Deus.[113] Pois somente ele foi dotado de sabedoria, de modo que somente ele compreende a religião; e esta é a principal, ou antes a única, diferença entre o homem e os animais mudos.[114] Porque as outras coisas que parecem próprias do homem, ainda que não existam da mesma forma nos animais brutos, podem, contudo, parecer semelhantes.[115] A fala é própria do homem; todavia, neles também há certa semelhança com a fala.[116] Pois eles distinguem uns aos outros por suas vozes; e, quando se irritam, emitem um som semelhante a uma altercação; e, quando se veem após algum tempo, manifestam por sua voz o gesto de congratulação.[117] A nós, de fato, as vozes deles parecem rudes, como talvez a nossa lhes pareça; mas, para eles mesmos, que se entendem entre si, são palavras.[118] Em suma, em toda afeição eles soltam expressões distintas de voz pelas quais podem mostrar o estado de sua mente.[119] Também o riso é próprio do homem; e, no entanto, vemos certos indícios de alegria em outros animais, quando fazem gestos vivos em brincadeiras, abaixam as orelhas, contraem a boca, alisam a testa e relaxam os olhos em jovialidade.[120] E o que é tão próprio do homem quanto a razão e a previsão do futuro?[121] Mas há animais que abrem várias saídas em diferentes direções a partir de seus esconderijos, para que, se algum perigo lhes sobrevier, haja para eles uma rota de fuga quando estiverem cercados; e não fariam isso se não possuíssem inteligência e reflexão.[122] Outros são previdentes para o futuro, como as formigas, quando saqueiam um grande monte de grãos, lembradas do inverno, e os armazenam em sua morada.[123] E ainda as abelhas, que sozinhas conhecem uma terra e moradas fixas e, lembradas do inverno que há de vir, exercitam seu trabalho no verão e guardam seus ganhos como um patrimônio comum.[124] Seria uma longa tarefa se eu quisesse descrever as coisas que mais se assemelham à habilidade do homem e que costumam ser realizadas pelas diversas espécies de animais.[125] Mas, se em todos esses aspectos que costumam ser atribuídos ao homem se encontra alguma semelhança também nos animais brutos, é evidente que a religião é a única coisa da qual nenhum vestígio pode ser encontrado nos animais brutos, nem qualquer indício.[126] Pois a justiça é própria da religião, e a ela nenhum outro animal chega.[127] Porque somente o homem exerce domínio; os outros animais lhe estão sujeitos.[128] Mas o culto de Deus é atribuído à justiça; e aquele que não o abraça, estando muito afastado da natureza humana, viverá a vida dos brutos sob a forma de homem.[129] Mas, visto que diferimos dos outros animais quase somente nisto, em que nós sozinhos, dentre todos, percebemos o poder e a força divinos, ao passo que neles não há entendimento de Deus, é certamente impossível que, neste aspecto, ou os animais mudos tenham mais sabedoria, ou a natureza humana seja insensata, já que todos os seres vivos e toda a ordem da natureza estão sujeitos ao homem por causa de sua sabedoria.[130] Portanto, se a razão, se a força do homem neste aspecto excede e supera o restante dos seres vivos, uma vez que ele sozinho é capaz do conhecimento de Deus, é evidente que a religião de modo algum pode ser destruída.[131] Mas a religião é destruída se dermos crédito a Epicuro, que fala assim.[132] A natureza dos deuses deve necessariamente desfrutar em si mesma da imortalidade juntamente com o supremo repouso, muito distante e apartada de nossas preocupações; pois, isenta de toda dor, isenta de todos os perigos, forte em seus próprios recursos, nada necessitando de nós, não é conquistada por favores nem movida pela ira.[133] Ora, quando ele diz essas coisas, pensa que algum culto deve ser prestado a Deus, ou destrói completamente a religião?[134] Pois, se Deus não concede bem algum a ninguém, se não retribui com favor algum a obediência do Seu adorador, o que há de tão insensato, o que há de tão tolo, como edificar templos, oferecer sacrifícios, apresentar dádivas e diminuir nossos bens para não obtermos nada?[135] Mas, dir-se-á, é justo que uma natureza excelente seja honrada.[136] Que honra pode ser devida a um ser que não nos dá atenção alguma e é ingrato?[137] Podemos estar ligados de algum modo àquele que nada tem em comum conosco?[138] Adeus a Deus, diz Cícero, se Ele é tal que não seja influenciado por favor algum nem por afeição alguma dos homens.[139] Pois por que eu diria: que Ele seja propício, se Ele não pode ser propício a ninguém?[140] Que coisa mais desprezível se poderia dizer a respeito de Deus?[141] Adeus a Ele, diz, isto é, deixe que se retire e se afaste, já que não pode beneficiar ninguém.[142] Mas, se Deus não tem trabalho algum nem causa trabalho a outro, por que então não cometeríamos crimes sempre que estivesse em nosso poder escapar à atenção dos homens e ludibriar as leis públicas?[143] Onde quer que tivermos ocasião favorável de passar despercebidos, aproveitemos a oportunidade; tomemos os bens alheios, quer sem derramamento de sangue, quer até mesmo com sangue, se nada mais houver além das leis para ser reverenciado.[144] Enquanto Epicuro sustenta esses sentimentos, destrói completamente a religião; e, uma vez removida ela, seguir-se-ão a confusão e a perturbação da vida.[145] Mas, se a religião não pode ser retirada sem destruir nosso vínculo com a sabedoria, pela qual somos separados dos brutos, e com a justiça, pela qual a vida pública pode tornar-se mais segura, como a própria religião poderá ser mantida ou guardada sem temor?[146] Pois aquilo que não é temido é desprezado, e aquilo que é desprezado evidentemente não é reverenciado.[147] Assim acontece que religião, majestade e honra existem juntamente com o temor; mas não há temor onde ninguém se ira.[148] Portanto, quer retires de Deus a bondade, quer a ira, quer ambas, a religião deve ser retirada, sem a qual a vida dos homens fica cheia de loucura, perversidade e enormidade.[149] Porque a consciência refreia poderosamente os homens, se cremos que vivemos à vista de Deus; se imaginamos não somente que as ações que praticamos são vistas do alto, mas também que nossos pensamentos e nossas palavras são ouvidos por Deus.[150] Mas é útil crer nisso, como alguns imaginam, não por causa da verdade, mas da utilidade, já que as leis não podem punir a consciência, a menos que algum terror do alto pairasse para conter as ofensas.[151] Portanto, a religião é completamente falsa e não há divindade alguma; mas tudo foi inventado por homens hábeis, para que vivessem de modo mais reto e mais inocente.[152] Esta é uma grande questão e alheia ao assunto que nos propusemos; mas, porque ela surge necessariamente, deve ser tratada, ainda que brevemente.[153] Quando os filósofos dos tempos antigos haviam concordado em suas opiniões a respeito da providência, e não havia dúvida de que o mundo fora ordenado por Deus e pela razão, e era governado pela razão, Protágoras, nos tempos de Sócrates, foi o primeiro de todos a dizer que não lhe estava claro se havia ou não alguma divindade.[154] E essa sua discussão foi julgada tão ímpia e tão contrária à verdade e à religião, que os atenienses tanto o baniram de seu território quanto queimaram, em assembleia pública, aqueles livros seus nos quais essas afirmações estavam contidas.[155] Mas não é necessário falar de suas opiniões, porque ele nada afirmou de modo certo.[156] Depois disso, Sócrates e seu discípulo Platão, e aqueles que saíram da escola de Platão como riachos em várias direções, a saber, os estoicos e os peripatéticos, foram da mesma opinião dos que os precederam.[157] Depois Epicuro disse que havia, sim, um Deus, porque era necessário que houvesse no mundo algum ser de excelência, distinção e bem-aventurança superiores; contudo, não havia providência, e, assim, o próprio mundo não era ordenado por plano algum, nem por arte, nem por manufatura, mas o universo era composto de certos corpúsculos minúsculos e indivisíveis.[158] Mas não vejo o que se poderia dizer de mais contrário à verdade.[159] Pois, se há Deus, enquanto Deus Ele é manifestamente providente; nem se pode atribuir divindade a Ele de outro modo senão se retém o passado, conhece o presente e prevê o futuro.[160] Portanto, ao retirar a providência, ele também negou a existência de Deus.[161] Mas, ao reconhecer abertamente a existência de Deus, ao mesmo tempo admitiu também Sua providência, pois um não pode de modo algum existir nem ser compreendido sem o outro.[162] Mas, naqueles tempos posteriores, em que a filosofia já havia perdido seu vigor, viveu um certo Diágoras de Melos, que negou por completo a existência de Deus e, por causa dessa opinião, foi chamado ateu; e também Teodoro de Cirene.[163] Ambos, porque não eram capazes de descobrir nada de novo, tendo todas as coisas já sido ditas e encontradas, preferiram, até mesmo contra a verdade, negar aquilo em que todos os filósofos anteriores haviam concordado sem qualquer ambiguidade.[164] Esses são os que atacaram a providência, que havia sido afirmada e defendida através de tantos séculos por tantos intelectos.[165] Que faremos então?[166] Refutaremos esses filósofos insignificantes e inertes pela razão, ou pela autoridade de homens ilustres, ou antes por ambas?[167] Mas devemos seguir adiante com rapidez, para que nosso discurso não se afaste demais de nosso tema.[168] Aqueles que não admitem que o mundo foi feito pela providência divina dizem ou que ele é composto de princípios primeiros que se reuniram ao acaso, ou que surgiu subitamente pela natureza; e sustentam, como Estratão, que a natureza tem em si mesma o poder de produzir e de diminuir, mas que não possui nem sensibilidade nem forma, de modo que entendamos que todas as coisas foram produzidas espontaneamente, sem artífice nem autor algum.[169] Cada uma dessas opiniões é vã e impossível.[170] Mas isso acontece com os que ignoram a verdade: inventam qualquer coisa, em vez de perceber o que a própria natureza do assunto exige.[171] Antes de tudo, quanto àqueles corpúsculos minúsculos, do encontro dos quais dizem que o mundo inteiro surgiu, pergunto onde ou de onde eles vêm.[172] Quem os viu alguma vez?[173] Quem os percebeu?[174] Quem ouviu falar deles?[175] Somente Leucipo tinha olhos?[176] Somente ele tinha mente, sendo na verdade o único entre todos os homens cego e insensato, já que dizia coisas que nem um enfermo em delírio teria proferido, nem alguém adormecido em sonhos.[177] Os filósofos antigos argumentavam que todas as coisas eram compostas de quatro elementos.[178] Ele não quis admitir isso, para não parecer seguir as pegadas de outros; mas sustentou que havia outros princípios primeiros dos próprios elementos, que não podem ser vistos, nem tocados, nem percebidos por qualquer parte do corpo.[179] São tão diminutos, diz ele, que não há fio de espada tão fino que possa cortá-los e dividi-los.[180] Por isso deu-lhes o nome de átomos.[181] Mas ocorreu-lhe que, se todos tivessem uma única e mesma natureza, não poderiam formar objetos diversos de tão grande variedade como vemos presentes no mundo.[182] Disse, portanto, que alguns eram lisos e ásperos, outros redondos, angulares e em forma de gancho.[183] Quanto melhor teria sido ficar calado do que ter uma língua para usos tão miseráveis e vazios.[184] E, de fato, temo que aquele que julgue essas coisas dignas de refutação não pareça delirar menos.[185] Respondamos, contudo, como se ele dissesse alguma coisa.[186] Se são lisos e redondos, é claro que não podem prender-se uns aos outros para formar algum corpo; assim como, se alguém quisesse unir grãos de milho-miúdo numa só massa, a própria maciez dos grãos não permitiria que se juntassem num bloco.[187] Se são ásperos, angulares e em forma de gancho, de modo que possam aderir, então são divisíveis e podem ser cortados; pois os ganchos e ângulos precisam projetar-se para que possam eventualmente ser aparados.[188] Portanto, aquilo que pode ser cortado e arrancado poderá também ser visto e apalpado.[189] Esses corpúsculos, diz ele, esvoaçam com movimentos inquietos pelo espaço vazio e são levados para cá e para lá, tal como vemos pequenas partículas de poeira no sol quando ele introduz seus raios e sua luz por uma janela.[190] Deles surgem árvores e ervas, e todos os frutos da terra; deles, animais, água, fogo e todas as coisas são produzidos, e novamente se dissolvem nos mesmos elementos.[191] Isso pode ser tolerado enquanto a investigação diz respeito a coisas pequenas.[192] Mas até o próprio mundo, diz ele, foi feito a partir deles.[193] Ele chegou ao ápice da perfeita loucura; parece impossível que algo mais pudesse ser dito, e, contudo, encontrou ainda algo a acrescentar.[194] Como tudo é infinito, diz ele, e nada pode ser vazio, segue-se necessariamente que existem inumeráveis mundos.[195] Que força de átomos teria sido tão grande, para que massas tão incalculáveis fossem reunidas a partir de elementos tão diminutos?[196] E, antes de tudo, pergunto: qual é a natureza ou a origem desses corpúsculos?[197] Pois, se todas as coisas vêm deles, de onde diremos que eles mesmos vêm?[198] Que natureza forneceu tamanha abundância de matéria para a fabricação de inumeráveis mundos?[199] Mas concedamos que ele delirou impunemente acerca dos mundos; falemos deste em que estamos e que vemos.[200] Ele diz que todas as coisas são feitas de minúsculos corpos incapazes de divisão.[201] Se assim fosse, nenhum objeto jamais precisaria da semente de sua própria espécie.[202] As aves nasceriam sem ovos, ou os ovos sem gerar filhotes; e igualmente os demais seres vivos, sem coito.[203] As árvores e os produtos da terra não teriam suas próprias sementes, que diariamente manipulamos e semeamos.[204] Por que um campo de trigo nasce do grão, e novamente o grão do campo de trigo?[205] Em suma, se a reunião e agregação dos átomos produzisse todas as coisas, todas as coisas cresceriam juntas no ar, já que os átomos esvoaçam pelo espaço vazio.[206] Por que a erva, a árvore ou o grão não podem surgir ou crescer sem terra, sem raízes, sem umidade, sem semente?[207] Daí fica evidente que nada é feito de átomos, pois tudo tem sua natureza própria e fixa, sua semente própria, sua lei própria dada desde o princípio.[208] Por fim, Lucrécio, como se tivesse esquecido os átomos que defendia, para refutar aqueles que dizem que tudo é produzido do nada, empregou argumentos que pesariam contra ele mesmo.[209] Se as coisas viessem do nada, qualquer tipo poderia nascer de qualquer coisa; nada exigiria semente.[210] E depois novamente diz.[211] Devemos admitir, portanto, que nada pode vir do nada, pois as coisas exigem semente antes de poderem nascer cada uma por si e ser trazidas aos fecundos campos do ar.[212] Quem imaginaria que ele tinha juízo ao dizer essas coisas, e não via que eram contrárias entre si?[213] Pois que nada é feito por meio de átomos é evidente por isto: tudo tem uma semente determinada, a menos que por acaso queiramos crer que a natureza tanto do fogo quanto da água provém de átomos.[214] Por que eu diria que, se materiais de máxima dureza são golpeados com grande violência, o fogo salta deles?[215] Há átomos escondidos no aço ou na pederneira?[216] Quem os encerrou ali?[217] Ou por que não saltam espontaneamente?[218] Ou como poderiam as sementes do fogo permanecer em material de extremo frio?[219] Deixo de lado o assunto da pederneira e do aço.[220] Se colocares ao sol um globo de cristal cheio de água, o fogo se acende a partir da luz refletida pela água, mesmo no frio mais rigoroso.[221] Devemos então crer que o fogo está contido na água?[222] E, no entanto, o fogo não pode ser acendido pelo sol nem mesmo no verão.[223] Se soprares sobre a cera, ou se um vapor leve tocar alguma coisa, seja a superfície dura do mármore, seja uma placa de metal, a água pouco a pouco se condensa em gotículas minúsculas.[224] Também da exalação da terra ou do mar se forma a névoa, que ou, dispersando-se, umedece aquilo que cobre, ou, reunindo-se, é levada pelo vento às altas montanhas, comprimida em nuvem e derrama grandes chuvas.[225] Onde, então, diremos que os líquidos são produzidos?[226] No vapor?[227] Na exalação?[228] No vento?[229] Mas nada pode ser formado naquilo que não é tocado nem visto.[230] Por que eu falaria dos animais, em cujos corpos nada vemos formado sem plano, sem ordenação, sem utilidade, sem beleza, de tal maneira que a mais habilidosa e cuidadosa disposição de todas as partes e membros repele a ideia de acidente e acaso?[231] Mas suponhamos ser possível que os membros, os ossos, os nervos e o sangue sejam feitos de átomos.[232] E quanto aos sentidos, à reflexão, à memória, à mente, à capacidade natural: de que sementes poderiam ser compactados?[233] Ele diz: dos mais diminutos.[234] Há, então, outros maiores.[235] Como, pois, são indivisíveis?[236] Em seguida, se as coisas que não são vistas são formadas de sementes invisíveis, segue-se que aquelas que são vistas são formadas de sementes visíveis.[237] Por que, então, ninguém as vê?[238] Mas, quer alguém considere as partes invisíveis que há no homem, quer as partes que podem ser tocadas e são visíveis, quem não vê que ambas existem segundo um desígnio?[239] Como, então, corpos que se encontram sem desígnio podem produzir algo racional?[240] Pois vemos que não há nada em todo o mundo que não tenha em si um desígnio grandíssimo e admirável.[241] E, visto que isso está acima do sentido e da capacidade do homem, a que poderia ser mais justamente atribuído do que à providência divina?[242] Se uma estátua, semelhança do homem, é feita pelo exercício do desígnio e da arte, suporemos que o próprio homem é composto de fragmentos que se juntam ao acaso?[243] E que semelhança com a verdade há na coisa produzida, quando a maior e mais excelente habilidade não consegue imitar nada além do simples contorno e das linhas extremas do corpo?[244] Foi a arte do homem capaz de dar à sua obra algum movimento ou sensibilidade?[245] Nada digo do exercício da visão, da audição, do olfato e dos maravilhosos usos dos outros membros, tanto os que estão à vista quanto os que estão ocultos.[246] Que artífice poderia ter fabricado o coração do homem, ou a voz, ou a própria sabedoria dele?[247] Pensa, pois, algum homem de juízo são que aquilo que o homem não pode fazer por razão e discernimento possa ser realizado por um ajuntamento de átomos aderindo uns aos outros por toda parte?[248] Vês em que delírios tolos eles caíram, enquanto não querem atribuir a Deus a feitura e o cuidado de todas as coisas.[249] Concedamos-lhes, porém, que as coisas terrenas sejam feitas de átomos: seriam também assim as coisas celestes?[250] Eles dizem que os deuses são sem contaminação, eternos e bem-aventurados; e concedem somente a eles uma exceção, para que não pareçam feitos de um ajuntamento de átomos.[251] Pois, se os próprios deuses também fossem feitos deles, estariam sujeitos à dispersão, resolvendo-se enfim as sementes e retornando à sua própria natureza.[252] Portanto, se há algo que os átomos não puderam produzir, por que não julgaremos do mesmo modo acerca das demais coisas?[253] Mas pergunto por que os deuses não construíram para si uma morada antes que aqueles primeiros elementos produzissem o mundo.[254] É manifesto que, se os átomos não tivessem se reunido e formado o céu, os deuses ainda estariam suspensos no meio do espaço vazio.[255] Por qual conselho, então, por qual plano, os átomos, a partir de uma massa confusa, se reuniram de tal modo que, de alguns, a terra abaixo foi formada em globo, e o céu se estendeu acima, adornado com tão grande variedade de constelações que nada mais ornado pode ser concebido?[256] Pode, portanto, aquele que vê coisas tão grandes e tão numerosas imaginar que foram feitas sem desígnio algum, sem providência alguma, sem inteligência divina alguma, e que tão grandes e admiráveis coisas tenham surgido de átomos finos e diminutos?[257] Não parece um prodígio que haja algum ser humano capaz de dizer tais coisas, ou que haja quem possa crer nelas, como Demócrito, que foi discípulo dele, ou Epicuro, para quem toda loucura jorrou da fonte de Leucipo?[258] Mas, como dizem outros, o mundo foi feito pela Natureza, que não possui percepção nem forma.[259] Mas isso é muito mais absurdo.[260] Se a Natureza fez o mundo, deve tê-lo feito por juízo e inteligência; pois quem faz algo ou tem inclinação para fazê-lo, ou conhecimento.[261] Se a natureza não tem percepção nem forma, como pode ser feito por ela aquilo que tem percepção e forma, a não ser que alguém por acaso pense que a constituição dos animais, tão delicada, pôde ter sido formada e animada por aquilo que não tem percepção, ou que aquela forma do céu, preparada com tanta previdência para os usos dos seres vivos, tenha surgido de repente por algum acidente, sem construtor, sem artífice?[262] Se há alguma coisa, diz Crisipo, que realiza aquilo que o homem, embora dotado de razão, não pode fazer, essa coisa certamente é maior, mais forte e mais sábia do que o homem.[263] Mas o homem não pode fazer as coisas celestes; portanto, aquilo que produz ou produziu essas coisas supera o homem em arte, em desígnio, em habilidade e em poder.[264] Quem, pois, poderia ser senão Deus?[265] Mas a Natureza, que eles supõem ser, por assim dizer, a mãe de todas as coisas, se não possui mente, nada fará, nada arquitetará; pois, onde não há reflexão, não há nem movimento nem eficácia.[266] Mas, se usa conselho para começar alguma coisa, razão para ordená-la, arte para realizá-la, energia para completá-la e poder para governar e dominar, por que deveria ser chamada Natureza, e não Deus?[267] Ou, se um concurso de átomos, ou a Natureza sem mente, fez essas coisas que vemos, pergunto por que ela foi capaz de fazer o céu, mas incapaz de fazer uma cidade ou uma casa.[268] Por que fez montanhas de mármore, mas não fez colunas e estátuas?[269] Mas não deveriam os átomos ter-se reunido para produzir também essas coisas, já que não deixam posição alguma sem tentar?[270] Quanto à Natureza sem mente, não admira que tenha se esquecido de fazê-las.[271] Qual é, então, o caso?[272] É claro que Deus, quando começou esta obra do mundo — do qual nada pode ser melhor disposto quanto à ordem, nem mais conveniente quanto à utilidade, nem mais ornado quanto à beleza, nem maior quanto ao volume —, Ele mesmo fez as coisas que não podiam ser feitas pelo homem; e, entre elas, também o próprio homem, a quem deu uma porção de Sua própria sabedoria e equipou com razão, tanto quanto a fragilidade terrena era capaz de receber, para que fizesse para si mesmo as coisas necessárias ao seu uso.[273] Mas, se na comunidade deste mundo, por assim dizer, não há providência que governe, nem Deus que administre, nem sentido algum prevalece nesta natureza das coisas, de que fonte se acreditará então que a mente humana, com sua habilidade e sua inteligência, teve origem?[274] Pois, se o corpo do homem foi feito da terra, da qual ele recebeu seu nome, segue-se que a alma, que tem inteligência e é a governante do corpo, à qual os membros obedecem como a um rei e comandante, e que não pode nem ser vista nem compreendida, não poderia ter vindo ao homem senão de uma natureza sábia.[275] Mas, assim como a mente e a alma governam cada corpo, assim também Deus governa o mundo.[276] Pois não é provável que coisas menores e humildes exerçam domínio, mas que as maiores e supremas não o façam.[277] Em suma, Marco Cícero, em suas Tusculanas e em sua Consolação, diz: nenhuma origem das almas pode ser encontrada na terra.[278] Pois, diz ele, não há nas almas nada de misto e composto, nem algo que pareça produzido e formado a partir da terra; nada úmido, nem aéreo, nem da natureza do fogo.[279] Porque nessas naturezas não há nada que tenha a força da memória, da mente e da reflexão, que tanto retém o passado quanto prevê o futuro e é capaz de abarcar o presente; coisas estas que somente são divinas.[280] Pois jamais se encontrará alguma fonte da qual elas possam vir ao homem, a não ser de Deus.[281] Visto, portanto, que, com exceção de dois ou três caluniadores vãos, é aceito que o mundo é governado pela providência, assim como também foi feito por ela, e que não há ninguém que ouse preferir a opinião de Diágoras e de Teodoro, ou a ficção vazia de Leucipo, ou a leviandade de Demócrito e Epicuro, quer à autoridade daqueles sete antigos homens chamados sábios, quer à de Pitágoras, ou de Sócrates, ou de Platão, e dos demais filósofos que julgaram haver providência, segue-se que também é falsa aquela opinião segundo a qual a religião teria sido instituída por homens sábios por causa do terror e do medo, para que os ignorantes se abstivessem dos pecados.[282] Mas, se isso é verdadeiro, segue-se que somos zombados pelos sábios da antiguidade.[283] Mas, se eles inventaram a religião para nos enganar e, além disso, para enganar todo o gênero humano, então não eram sábios, porque a falsidade não convém ao caráter do sábio.[284] Mas concedamos que fossem sábios; que grande êxito em mentir teria sido esse, o de conseguirem enganar não apenas os ignorantes, mas também Platão e Sócrates, e iludir tão facilmente Pitágoras, Zenão e Aristóteles, chefes das maiores seitas?[285] Há, portanto, uma providência divina, como perceberam os homens que nomeei, por cuja energia e poder todas as coisas que vemos foram feitas e são governadas.[286] Pois um sistema tão vasto de coisas, tal disposição e tal regularidade na preservação de ordens e tempos fixos, não poderia nem ter surgido no início sem um artífice providente, nem subsistir por tantos séculos sem um habitante poderoso, nem ser perpetuamente governado sem um governante hábil e inteligente; e a própria razão o declara.[287] Pois tudo o que existe e tem razão deve ter procedido da razão.[288] Ora, a razão é parte de uma natureza inteligente e sábia; e uma natureza sábia e inteligente não pode ser outra senão Deus.[289] Ora, o mundo, já que tem razão, pela qual é governado e mantido unido, foi, portanto, feito por Deus.[290] Mas, se Deus é o criador e governador do mundo, então a religião está fundada reta e verdadeiramente; pois honra e culto são devidos ao autor e pai comum de todas as coisas.[291] Visto que se concorda acerca da providência, segue-se que mostremos se se deve crer que ela pertence a muitos ou antes a um só.[292] Já ensinamos suficientemente, ao que penso, em nossas Instituições, que não podem haver muitos deuses; porque, se a energia e o poder divinos forem distribuídos entre vários, necessariamente se enfraquecerão.[293] Mas aquilo que é diminuído é evidentemente mortal; e, se Ele não é mortal, não pode nem ser diminuído nem dividido.[294] Portanto, há um só Deus, em quem a energia e o poder completos não podem nem ser diminuídos nem aumentados.[295] Mas, se são muitos, enquanto cada um separadamente possui algo de poder e autoridade, a soma total diminui; nem poderão separadamente possuir o todo, que têm em comum com os outros: a cada um faltará tanto quanto os outros possuírem.[296] Não podem, portanto, existir muitos governantes neste mundo, nem muitos senhores numa só casa, nem muitos pilotos num só navio, nem muitos chefes num só rebanho, nem muitas rainhas num só enxame.[297] Mas não poderia haver muitos sóis no céu, assim como não há várias almas em um só corpo; tão completamente toda a natureza concorda na unidade.[298] Mas, se o mundo é nutrido por uma alma, por um espírito cuja chama celeste brilha em cada membro da estrutura e move o conjunto poderoso, é evidente, pelo testemunho do poeta, que há um só Deus que habita o mundo, visto que o corpo inteiro não pode ser habitado e governado senão por uma só mente.[299] Portanto, todo o poder divino deve estar em uma só pessoa, por cuja vontade e comando todas as coisas são regidas; e por isso Ele é tão grande que não pode ser descrito em palavras pelo homem nem avaliado pelos sentidos.[300] De onde, então, veio aos homens a opinião ou persuasão a respeito de muitos deuses?[301] Sem dúvida, todos aqueles que são adorados como deuses foram homens, e também os primeiros e maiores reis; mas quem ignora que, depois da morte, foram revestidos de honras divinas, quer por causa da virtude pela qual beneficiaram o gênero humano, quer porque obtiveram memória imortal em razão dos benefícios e invenções com que adornaram a vida humana?[302] E não somente homens, mas também mulheres.[303] E isso ensinam tanto os mais antigos escritores da Grécia, a quem chamam teólogos, quanto os escritores romanos que seguiram e imitaram os gregos, entre os quais especialmente Evêmero e o nosso Ênio, que indicam os nascimentos, casamentos, descendência, governos, feitos, mortes e túmulos de todos eles.[304] E Túlio, seguindo-os, em seu terceiro livro Sobre a Natureza dos Deuses, destruiu as religiões públicas; mas nem ele mesmo nem qualquer outra pessoa pôde introduzir a verdadeira, que ignorava.[305] E assim ele próprio testemunhou que o que era falso estava evidente, mas que a verdade permanecia escondida.[306] Oxalá, diz ele, eu pudesse descobrir as coisas verdadeiras tão facilmente quanto refuto as falsas.[307] E isso ele declarou não por dissimulação, como um acadêmico, mas de modo verdadeiro e conforme o sentimento de sua mente, porque a verdade não pode ser arrancada das percepções humanas: aquilo que a previdência do homem foi capaz de alcançar, ele alcançou, para poder expor as coisas falsas.[308] Pois tudo o que é fictício e falso, por não ser sustentado por razão alguma, é facilmente destruído.[309] Há, portanto, um só Deus, fonte e origem de todas as coisas, como Platão tanto sentiu quanto ensinou no Timeu, cuja majestade ele declara ser tão grande que não pode nem ser compreendida pela mente nem expressa pela língua.[310] Hermes dá o mesmo testemunho, e Cícero afirma que ele é contado entre os egípcios no número dos deuses.[311] Falo daquele que, por causa de sua excelência e conhecimento de muitas artes, foi chamado Trismegisto; e ele era muito mais antigo não apenas do que Platão, mas também do que Pitágoras e aqueles sete sábios.[312] Em Xenofonte, Sócrates, ao discursar, diz que a forma de Deus não deve ser investigada; e Platão, em seu Livro das Leis, diz: o que Deus é não deve ser objeto de investigação, porque nem pode ser descoberto nem relatado.[313] Pitágoras também admite que há um só Deus, dizendo que existe uma mente incorpórea, difundida e estendida por toda a natureza, que dá percepção vital a todos os seres vivos; mas Antístenes, em sua Física, disse que havia um só Deus natural, embora as nações e cidades tenham seus deuses próprios.[314] Aristóteles, com seus seguidores peripatéticos, e Zenão, com seus seguidores estoicos, dizem quase as mesmas coisas.[315] Na verdade, seria uma longa tarefa seguir separadamente as opiniões de todos, os quais, embora tenham usado nomes diferentes, concordaram numa só potência que governa o mundo.[316] Mas, ainda que filósofos e poetas e, enfim, aqueles que adoram os deuses frequentemente reconheçam o Deus Supremo, ninguém jamais investigou, ninguém discutiu o tema de Seu culto e de Suas honras, movidos por esta persuasão: sempre crendo que Ele é bondoso e incorruptível, pensam que Ele nem se ira contra alguém, nem necessita de qualquer culto.[317] Assim, não pode haver religião onde não há temor.[318] Ora, visto que respondemos à sabedoria ímpia e detestável, ou antes à insensatez de alguns, voltemos ao assunto proposto.[319] Dissemos que, se a religião é removida, nem a sabedoria nem a justiça podem ser conservadas: a sabedoria, porque o entendimento da natureza divina, no qual diferimos dos brutos, encontra-se somente no homem; a justiça, porque, se Deus, que não pode ser enganado, não refrear nossos desejos, viveremos de modo perverso e ímpio.[320] Portanto, o fato de que nossas ações sejam vistas por Deus não pertence somente à utilidade da vida comum, mas também à própria verdade; porque, se a religião e a justiça são retiradas, tendo perdido nossa razão, ou descemos à insensatez dos rebanhos, ou à selvageria das feras, e até mais ainda, visto que as feras poupam os animais de sua própria espécie.[321] O que haverá de mais selvagem, o que haverá de mais cruel, do que o homem, se, retirado o temor de um ser superior, ele puder escapar à observação ou desprezar a força das leis?[322] É, portanto, somente o temor de Deus que guarda a sociedade mútua dos homens, pela qual a própria vida é sustentada, protegida e governada.[323] Mas esse temor é removido se o homem é persuadido de que Deus é sem ira; pois que Ele se move e se indigna quando são praticadas ações injustas, não somente a utilidade comum, mas também a própria razão e a verdade nos persuadem.[324] Precisamos voltar novamente aos assuntos anteriores, para que, assim como ensinamos que o mundo foi feito por Deus, ensinemos também por que foi feito.[325] Se alguém considerar todo o governo do mundo, certamente compreenderá quão verdadeira é a opinião dos estoicos, que dizem que o mundo foi feito por nossa causa.[326] Pois todas as coisas de que o mundo é composto e que ele produz de si mesmo são adaptadas ao uso do homem.[327] Assim, o homem usa o fogo para aquecimento e luz, para amolecer seu alimento e para o trabalho do ferro; usa as fontes para beber e para banhos; usa os rios para irrigar os campos e demarcar fronteiras entre os países; usa a terra para receber grande variedade de frutos, os montes para plantar vinhas, as montanhas para o uso de árvores e lenha, as planícies para as searas; usa o mar não apenas para o comércio e para receber suprimentos de terras distantes, mas também para abundância de toda espécie de peixe.[328] Mas, se ele faz uso desses elementos que lhe estão mais próximos, não há dúvida de que também usa o céu, visto que até mesmo as funções das coisas celestes são reguladas para a fertilidade da terra da qual vivemos.[329] O sol, com seus cursos incessantes e intervalos desiguais, completa seus ciclos anuais e, ora ao nascer, traz o dia para o trabalho, ora ao pôr-se, introduz a noite para o repouso; e ora, afastando-se mais para o sul, ora aproximando-se mais para o norte, provoca as mudanças do inverno e do verão, de modo que tanto pelas umidades e geadas do inverno a terra é enriquecida para frutificar, quanto pelos calores do verão ou a produção da erva se endurece pela maturidade, ou aquilo que está em lugares úmidos, sendo cozido e aquecido, amadurece.[330] Também a lua, que governa o tempo da noite, regula seus cursos mensais pela alternância de perda e recuperação de luz e, pelo brilho do seu resplendor, ilumina as noites obscurecidas por sombria escuridão, de modo que viagens no calor do verão, expedições e trabalhos possam ser realizados sem fadiga e sem incômodo; pois de noite o restolho leve, de noite os prados secos são melhor ceifados.[331] Os outros corpos celestes também, quer em seu nascer quer em seu ocaso, fornecem tempos favoráveis por suas posições fixas.[332] Além disso, oferecem direção aos navios, para que não vagueiem pelo profundo ilimitado em rota incerta, pois o piloto, observando-os devidamente, chega ao porto da costa para o qual se dirige.[333] As nuvens são atraídas pelo sopro dos ventos, para que os campos semeados sejam regados pelas chuvas, as videiras abundem em produção e as árvores em frutos.[334] E essas coisas se manifestam por uma sucessão de mudanças ao longo do ano, para que nunca falte algo pelo qual a vida dos homens seja sustentada.[335] Mas, dir-se-á, a mesma terra nutre os outros seres vivos, e até os animais mudos são alimentados pelos mesmos produtos.[336] Acaso Deus não trabalhou também por causa dos animais mudos?[337] De modo nenhum, porque são destituídos de razão.[338] Pelo contrário, entendemos que eles próprios, do mesmo modo, foram feitos por Deus para o uso do homem, em parte para alimento, em parte para vestimenta, em parte para ajudá-lo em seu trabalho; de modo que é manifesto que a providência divina quis munir e adornar a vida dos homens com abundância de objetos e recursos e, por isso, encheu o ar de aves, o mar de peixes e a terra de quadrúpedes.[339] Mas os acadêmicos, argumentando contra os estoicos, costumam perguntar por que, se Deus fez todas as coisas para o bem dos homens, tantas coisas são encontradas até mesmo opostas, hostis e nocivas a nós, tanto no mar quanto em terra.[340] E os estoicos, sem qualquer consideração pela verdade, responderam a isso da maneira mais tola.[341] Pois dizem que há muitas coisas entre os produtos da natureza e entre os animais cuja utilidade até agora escapa à observação, mas que ela é descoberta com o passar do tempo, assim como a necessidade e o uso já descobriram muitas coisas que eram desconhecidas em épocas anteriores.[342] Que utilidade, então, pode ser descoberta em ratos, besouros e serpentes, que são molestos e nocivos ao homem?[343] Será que algum remédio está escondido neles?[344] Se houver algum, um dia será descoberto, isto é, como remédio contra males, ao passo que eles se queixam de que isso é inteiramente um mal.[345] Dizem que a víbora, quando queimada e reduzida a cinzas, é remédio contra a mordida da mesma besta.[346] Quanto melhor teria sido que ela nem existisse, do que ser necessário extrair dela mesma um remédio contra si.[347] Eles poderiam, então, ter respondido com mais concisão e verdade deste modo.[348] Quando Deus formou o homem como se fosse Sua própria imagem, aquilo que era o acabamento de Sua obra, insuflou sabedoria somente nele, para que sujeitasse todas as coisas à sua própria autoridade e governo e usasse de todas as vantagens do mundo.[349] E, no entanto, colocou diante dele tanto o bem quanto o mal, na medida em que lhe deu sabedoria, cuja natureza inteira é empregada em discernir as coisas más e boas; pois ninguém pode escolher as melhores coisas e conhecer o que é bom, se ao mesmo tempo não souber rejeitar e evitar as coisas que são más.[350] Ambas estão mutuamente ligadas entre si, de modo que, sendo uma retirada, a outra também deve ser retirada.[351] Portanto, postos diante dela o bem e o mal, então finalmente a sabedoria desempenha seu ofício, desejando o bem para utilidade e rejeitando o mal para segurança.[352] Portanto, assim como lhe foram dados inumeráveis bens de que pudesse desfrutar, assim também lhe foram dados males, contra os quais pudesse guardar-se.[353] Pois, se não há mal, nem perigo, nem, em suma, nada que possa ferir o homem, toda a matéria da sabedoria é retirada e se tornará desnecessária ao homem.[354] Porque, se somente coisas boas estiverem diante dos olhos, que necessidade haverá de reflexão, de entendimento, de conhecimento, de razão?[355] Já que, para onde quer que estenda a mão, isso lhe será apropriado e conforme à natureza; de modo que, se alguém quisesse colocar um banquete requintadíssimo diante de crianças que ainda não têm gosto formado, é claro que cada uma desejará aquilo para o qual o impulso, ou a fome, ou até mesmo o acaso a atraia; e qualquer coisa que tomem lhes será útil e salutar.[356] Que dano, portanto, lhes seria permanecer sempre como estão, sempre crianças e sem conhecimento dos assuntos?[357] Mas, se lhes acrescentares uma mistura de coisas amargas, ou inúteis, ou até venenosas, serão claramente enganadas por sua ignorância do bem e do mal, a menos que lhes seja acrescentada a sabedoria, pela qual tenham a rejeição das coisas más e a escolha das boas.[358] Vês, portanto, que temos maior necessidade de sabedoria por causa dos males; e, se essas coisas não nos tivessem sido propostas, não seríamos um animal racional.[359] Mas, se esta explicação é verdadeira, coisa que os estoicos de modo algum puderam perceber, também aquele argumento de Epicuro é anulado.[360] Deus, diz ele, ou quer tirar os males e não pode; ou pode e não quer; ou nem quer nem pode; ou quer e pode.[361] Se quer e não pode, é fraco, o que não está de acordo com o caráter de Deus.[362] Se pode e não quer, é invejoso, o que também é incompatível com Deus.[363] Se nem quer nem pode, é ao mesmo tempo invejoso e fraco, e, portanto, não é Deus.[364] Se quer e pode, o que sozinho convém a Deus, de onde então vêm os males?[365] Ou por que Ele não os remove?[366] Sei que muitos dos filósofos que defendem a providência costumam ser perturbados por esse argumento e quase são levados, contra a vontade, a admitir que Deus não se interessa por coisa alguma, que é precisamente o que Epicuro deseja; mas, examinada a questão, desfazemos facilmente esse argumento formidável.[367] Pois Deus é capaz de fazer tudo o que quer, e em Deus não há fraqueza nem inveja.[368] Ele é capaz, portanto, de remover os males; mas não quer fazê-lo e, ainda assim, não é por isso invejoso.[369] Pois, por esta razão, Ele não os remove: porque, ao mesmo tempo, dá sabedoria, como mostrei; e há mais bondade e prazer na sabedoria do que incômodo nos males.[370] Porque a sabedoria nos leva até mesmo a conhecer a Deus e, por esse conhecimento, a alcançar a imortalidade, que é o bem supremo.[371] Portanto, se primeiro não conhecermos o mal, não poderemos conhecer o bem.[372] Mas Epicuro não viu isto, nem qualquer outro: que, se os males são removidos, a sabedoria é igualmente removida, e que não permanece no homem nenhum vestígio de virtude, cuja natureza consiste em suportar e vencer a amargura dos males.[373] E assim, por causa de um pequeno ganho na remoção dos males, seríamos privados de um bem muito grande, verdadeiro e próprio de nós.[374] É claro, portanto, que todas as coisas foram propostas por causa do homem, tanto os males quanto os bens.[375] Segue-se que eu mostre para que finalidade o próprio homem foi feito por Deus.[376] Assim como preparou o mundo por causa do homem, assim também formou o próprio homem para Si mesmo, como que sacerdote de um templo divino, espectador de Suas obras e das coisas celestes.[377] Pois ele é o único ser que, sendo inteligente e capaz de razão, pode compreender a Deus, admirar Suas obras e perceber Sua energia e Seu poder; pois por isso foi dotado de juízo, inteligência e prudência.[378] Por isso, ele sozinho, além dos demais seres vivos, foi feito com corpo e postura eretos, de modo que parece ter sido levantado para a contemplação de seu Pai.[379] Por isso, só ele recebeu a linguagem e a língua, intérprete do pensamento, para que pudesse declarar a majestade de seu Senhor.[380] Por fim, por esta causa, todas as coisas foram colocadas sob seu domínio, para que ele mesmo estivesse sob o domínio de Deus, seu Feitor e Criador.[381] Se Deus, portanto, destinou o homem para ser Seu adorador e, por isso, lhe deu tanta honra, para que governasse sobre todas as coisas, é claramente muito justo que ele adore Aquele que lhe concedeu tão grandes dons e ame o homem, que está unido conosco pela participação da justiça divina.[382] Pois não é certo que um adorador de Deus seja ferido por um adorador de Deus.[383] Daí se entende que o homem foi feito por causa da religião e da justiça.[384] E sobre esse assunto Marco Túlio é testemunha em seus livros Sobre as Leis, pois assim fala: entre todas as coisas a respeito das quais os homens instruídos disputam, nada tem maior importância do que compreender plenamente que nascemos para a justiça.[385] E, se isso é verdade certíssima, segue-se que Deus quer que todos os homens sejam justos, isto é, que tenham Deus e o homem como objetos de sua afeição; honrar a Deus verdadeiramente como Pai e amar o homem como irmão: pois nessas duas coisas se resume toda a justiça.[386] Mas aquele que ou deixa de reconhecer Deus ou age com injustiça para com o homem vive injustamente e contra sua própria natureza e, desse modo, perturba a instituição e a lei divinas.[387] Aqui talvez alguém pergunte de onde os pecados se estenderam ao homem, ou que perversão distorceu para pior a regra da instituição divina, de modo que, embora ele tenha nascido para a justiça, pratica, no entanto, obras injustas.[388] Já expliquei em outro lugar que Deus colocou diante dele ao mesmo tempo o bem e o mal, e que ama o bem e odeia o mal que lhe é contrário; mas permitiu o mal por esta razão: para que também o bem brilhasse, visto que, como muitas vezes ensinei, entendemos que um não pode existir sem o outro; em suma, o próprio mundo é feito de dois elementos opostos e ligados entre si, fogo e umidade, e a luz não poderia ter sido feita se também não houvesse trevas, assim como não pode haver um lugar mais alto sem um mais baixo, nem nascimento sem ocaso, nem calor sem frio, nem suavidade sem dureza.[389] Assim também nós somos compostos de duas substâncias igualmente opostas entre si, alma e corpo: uma das quais é destinada ao céu, porque é leve e não pode ser apalpada; a outra, à terra, porque pode ser agarrada; uma é firme e eterna, a outra frágil e mortal.[390] Portanto, o bem adere a uma, e o mal à outra: à uma pertencem a luz, a vida e a justiça; à outra, as trevas, a morte e a injustiça.[391] Daí surgiu entre os homens a corrupção de sua natureza, de modo que se tornou necessário estabelecer uma lei pela qual os vícios fossem proibidos e os deveres da virtude ordenados.[392] Visto, portanto, que há bens e males nas coisas humanas, cuja natureza expus, é necessário que Deus se mova para ambos os lados: para o favor, quando vê que se fazem coisas justas, e para a ira, quando percebe coisas injustas.[393] Mas Epicuro se opõe a nós e diz: se há em Deus a afeição da alegria, que O conduz ao favor, e do ódio, que O inclina à ira, Ele deve necessariamente ter também medo, inclinação, desejo e as outras afeições que pertencem à fraqueza humana.[394] Não se segue que aquele que se ira deva temer, nem que aquele que sente alegria deva entristecer-se; em suma, os que são inclinados à ira são menos tímidos, e os que têm temperamento alegre são menos abalados pela tristeza.[395] Que necessidade há de falar das afeições da humanidade, às quais nossa natureza cede?[396] Consideremos a necessidade divina; pois não quero falar de natureza, uma vez que se crê que o nosso Deus jamais nasceu.[397] A afeição do medo tem um objeto no homem, mas não o tem em Deus.[398] O homem, por estar sujeito a muitos acidentes e perigos, teme que surja alguma força maior que o golpeie, despoje, dilacere, derrube e destrua.[399] Mas Deus, que não está sujeito nem à carência, nem ao dano, nem à dor, nem à morte, de modo algum pode temer, porque nada há que possa oferecer-Lhe violência.[400] Também a razão e causa do desejo são manifestas no homem.[401] Pois, como foi feito frágil e mortal, foi necessário que outro sexo, diferente, fosse criado, pela união com o qual a prole pudesse ser produzida para continuar a perpetuidade da raça.[402] Mas esse desejo não tem lugar em Deus, porque a fragilidade e a morte estão muito distantes dEle; nem há com Ele alguma fêmea em cuja união possa alegrar-Se; nem necessita de sucessão, já que viverá para sempre.[403] As mesmas coisas podem ser ditas a respeito da inveja e da paixão, às quais o homem está sujeito por causas certas e manifestas, mas às quais Deus de modo algum está sujeito.[404] Mas, em verdade, favor, ira e compaixão têm sua substância em Deus, e aquela potência suprema e incomparável as utiliza para a preservação do mundo.[405] Alguém perguntará qual é essa substância.[406] Antes de tudo, quando males lhes sobrevêm, os homens, em seu abatimento, na maior parte das vezes recorrem a Deus: procuram aplacá-Lo e suplicam-Lhe, crendo que Ele é capaz de repelir os danos que recaem sobre eles.[407] Há, portanto, nEle ocasião para exercer compaixão; pois não é tão sem misericórdia nem tão desprezador dos homens a ponto de recusar auxílio aos aflitos.[408] Muitíssimos também, persuadidos de que a justiça agrada a Deus, tanto adoram Aquele que é Senhor e Pai de todos, como, com orações contínuas e votos repetidos, oferecem dons e sacrifícios, acompanham Seu nome com louvores, esforçando-se por alcançar Seu favor mediante obras justas e boas.[409] Há, portanto, uma razão pela qual Deus pode e deve favorecê-los.[410] Pois, se nada é tão apropriado a Deus quanto a beneficência, e nada tão inadequado ao Seu caráter quanto a ingratidão, é necessário que Ele dê alguma retribuição aos serviços daqueles que são excelentes e levam vida santa, para que não incorra na acusação de ingratidão, que é censurável até mesmo no caso de um homem.[411] Mas, pelo contrário, outros são audazes e perversos, que poluem tudo com suas paixões, assolam com matanças, praticam fraude, saque, perjúrio, não poupam nem parentes nem pais, desprezam as leis e até o próprio Deus.[412] Logo, a ira também tem em Deus uma ocasião adequada.[413] Pois não é certo que, vendo tais coisas, Ele não Se mova e não Se levante para vingar-Se dos ímpios e destruir os pestilentos e culpados, a fim de promover o interesse de todos os homens bons.[414] Assim, até mesmo na própria ira está contida uma demonstração de bondade.[415] Portanto, mostram-se vazios e falsos os argumentos, quer daqueles que, ao não admitirem que Deus se ira, querem que Ele demonstre bondade, embora isso não possa existir sem ira; quer daqueles que pensam que não há emoção alguma da mente em Deus.[416] E porque existem algumas afeições às quais Deus não está sujeito, como desejo, medo, avareza, tristeza e inveja, eles disseram que Ele é inteiramente livre de toda afeição.[417] Pois Ele não está sujeito a essas, porque são afeições viciosas; mas quanto às que pertencem à virtude — isto é, ira contra os ímpios, consideração para com os bons e compaixão para com os aflitos —, na medida em que são dignas do poder divino, Ele tem afeições próprias, justas e verdadeiras.[418] E, se não as possui, a vida do homem será lançada em confusão, e o estado das coisas chegará a tal perturbação que as leis serão desprezadas e vencidas, e somente a audácia reinará, de modo que ninguém poderá afinal estar em segurança, exceto aquele que se sobressair em força.[419] Assim, toda a terra será devastada, por assim dizer, por um roubo comum.[420] Mas agora, visto que os perversos esperam castigo, os bons esperam favor e os aflitos esperam auxílio, há lugar para as virtudes, e os crimes se tornam mais raros.[421] Mas, diz-se, muitas vezes os ímpios são mais prósperos, e os bons mais miseráveis, e os justos são oprimidos impunemente pelos injustos.[422] Consideraremos adiante por que essas coisas acontecem.[423] Enquanto isso, expliquemos a respeito da ira, se há alguma em Deus; se Ele nada percebe em absoluto e permanece imóvel diante das coisas que são feitas com impiedade.[424] Deus, diz Epicuro, nada considera; portanto, não tem poder.[425] Pois aquele que tem poder deve necessariamente considerar os assuntos.[426] Porque, se tem poder e não o usa, que razão tão grande existe para que, não direi apenas nossa raça, mas até o próprio universo seja desprezível aos Seus olhos?[427] Por isso ele diz que Deus é puro e feliz, porque está sempre em repouso.[428] A quem, então, foi confiada a administração de tão grandes assuntos, se essas coisas que vemos serem governadas com o mais alto juízo são negligenciadas por Deus?[429] Ou como pode estar em repouso Aquele que vive e percebe?[430] Pois o repouso pertence ou ao sono ou à morte.[431] Mas o sono não tem repouso.[432] Porque, quando dormimos, o corpo de fato repousa, mas a alma permanece inquieta e agitada: forma para si imagens que pode contemplar, exercendo assim seu poder natural de movimento por meio de diversas visões, e afastando-se das coisas falsas, até que os membros se saciem e recebam vigor do descanso.[433] Portanto, o repouso eterno pertence somente à morte.[434] Ora, se a morte não atinge Deus, segue-se que Deus nunca está em repouso.[435] Mas em que pode consistir a ação de Deus, senão na administração do mundo?[436] Mas, se Deus leva adiante o cuidado do mundo, segue-se que Ele cuida da vida dos homens, toma conhecimento dos atos de cada um e deseja ardentemente que sejam sábios e bons.[437] Esta é a vontade de Deus, esta é a lei divina; e aquele que a segue e observa é amado por Deus.[438] É necessário que Ele se mova em ira contra o homem que quebrou ou desprezou essa lei eterna e divina.[439] Se, diz ele, Deus faz mal a alguém, então não é bom.[440] Não cometem pequeno erro aqueles que difamam toda censura, seja humana, seja divina, com o nome de aspereza e malícia, pensando que deve ser chamado de nocivo Aquele que visita o nocivo com castigo.[441] Mas, se é assim, segue-se que temos leis nocivas, que decretam pena para os ofensores, e juízes nocivos, que infligem penas capitais aos condenados por crime.[442] Mas, se a lei é justa quando dá ao transgressor o que lhe é devido, e se o juiz é chamado reto e bom quando pune os crimes — pois guarda a segurança dos bons aquele que pune os maus —, segue-se que Deus, quando se opõe ao mal, não é nocivo; mas nocivo é aquele que ou fere um inocente, ou poupa um malfeitor para que ele fira a muitos.[443] Eu gostaria de perguntar àqueles que representam Deus como imóvel: se alguém possuísse bens, uma casa e uma casa cheia de escravos, e seus escravos, desprezando a paciência do senhor, atacassem tudo e tomassem para si o gozo de seus bens, se sua casa os honrasse, enquanto o senhor fosse por todos desprezado, insultado e abandonado, poderia ser considerado sábio aquele que não vingasse tais insultos, mas permitisse que aqueles sobre os quais tinha poder usufruíssem do que era seu?[444] Pode encontrar-se tamanha tolerância em alguém?[445] Se é que isso deve ser chamado de tolerância, e não antes uma espécie de estupor insensível.[446] Mas é fácil suportar o desprezo.[447] E se acontecessem aquelas coisas de que Cícero fala?[448] Pois pergunto: se algum chefe de família, tendo tido seus filhos mortos por um escravo, sua esposa assassinada e sua casa incendiada, não exigisse do escravo o mais severo castigo, pareceria ele bondoso e misericordioso, ou desumano e extremamente cruel?[449] Mas, se perdoar tais atos é próprio da crueldade antes que da bondade, então não é próprio da bondade em Deus não Se mover diante das coisas que são feitas injustamente.[450] Pois o mundo é, por assim dizer, a casa de Deus, e os homens são, por assim dizer, Seus escravos; e, se Seu nome é motivo de zombaria entre eles, que espécie ou que medida de tolerância é abandonar as próprias honras, ver coisas perversas e injustas sendo feitas e não indignar-Se, o que é próprio e natural dAquele que Se desagrada dos pecados?[451] Irar-se, portanto, pertence à razão; pois assim as faltas são removidas e a licenciosidade é contida; e isso está claramente de acordo com a justiça e a sabedoria.[452] Mas os estoicos não perceberam que há distinção entre o certo e o errado, que existe uma ira justa e também uma injusta; e, porque não encontraram remédio para a questão, quiseram removê-la por completo.[453] Mas os peripatéticos disseram que ela não devia ser extirpada, e sim moderada; a estes respondemos suficientemente no sexto livro das Instituições.[454] Ora, que os filósofos ignoravam a natureza da ira fica claro por suas definições, que Sêneca enumera nos livros que compôs sobre a ira.[455] A ira é, diz ele, o desejo de vingar uma injúria.[456] Outros, como diz Posidônio, descrevem-na como o desejo de punir aquele por quem pensas ter sido injustamente ofendido.[457] Alguns a definiram assim: a ira é um incitamento da mente a ferir aquele que ou cometeu uma injúria ou desejou cometê-la.[458] A definição de Aristóteles não difere muito da nossa; pois ele diz que a ira é o desejo de retribuir uma dor.[459] Esta é a ira injusta, da qual falamos antes, e que se encontra até mesmo nos animais mudos; mas ela deve ser contida no homem, para que ele não se precipite, por causa do furor, a algum mal muito grande.[460] Isso não pode existir em Deus, porque Ele não pode ser ferido; mas encontra-se no homem, porque ele é frágil.[461] Pois a injúria inflama a angústia, e a angústia produz o desejo de vingança.[462] Onde, então, está aquela ira justa contra os ofensores?[463] Pois esta evidentemente não é desejo de vingança, uma vez que nenhuma injúria a precede.[464] Não falo daqueles que pecam contra as leis; pois, embora um juiz possa irritar-se com estes sem incorrer em culpa, suponhamos, contudo, que ele deva ter mente serena quando sentencia os culpados ao castigo, porque é executor das leis, não de seu próprio ânimo ou poder; pois assim querem os que se esforçam por extirpar a ira.[465] Mas falo em particular daqueles que estão sob nosso próprio poder, como escravos, filhos, esposas e discípulos; pois, quando vemos que estes ofendem, somos impelidos a contê-los.[466] Pois não pode deixar de ser que aquele que é justo e bom se desagrade das coisas más, e que aquele que se desagrada do mal se mova quando o vê ser praticado.[467] Por isso nos levantamos para punir, não porque tenhamos sido feridos, mas para que a disciplina seja preservada, os costumes sejam corrigidos e a licenciosidade seja reprimida.[468] Esta é a ira justa; e, assim como é necessária no homem para a correção da maldade, assim manifestamente é necessária em Deus, de quem o homem recebe o exemplo.[469] Pois, assim como devemos conter aqueles que estão sujeitos ao nosso poder, assim também Deus deve conter as ofensas de todos.[470] E, para fazer isso, Ele deve irar-Se; porque é natural que aquele que é bom se mova e se acenda pela falta de outro.[471] Portanto, eles deveriam ter dado esta definição: a ira é uma emoção da mente que se ergue para refrear faltas.[472] Pois a definição dada por Cícero, a ira é o desejo de vingança, não difere muito das já mencionadas.[473] Mas aquela ira que podemos chamar de fúria ou raiva não deve existir nem mesmo no homem, porque é inteiramente viciosa; mas a ira que se refere à correção dos vícios não deve ser retirada do homem, nem pode ser retirada de Deus, porque é ao mesmo tempo útil para os negócios humanos e necessária.[474] Que necessidade há, dizem eles, da ira, já que as faltas podem ser corrigidas sem essa afeição?[475] Mas não há ninguém que possa ver calmamente alguém cometer uma ofensa.[476] Isto talvez seja possível naquele que preside às leis, porque o fato não é cometido diante de seus olhos, mas lhe é trazido de outra parte como questão duvidosa.[477] Nem pode alguma maldade ser tão manifesta que não haja lugar para defesa; e, por isso, é possível que um juiz não se mova contra aquele que talvez venha a ser achado inocente; e, quando o crime descoberto vier à luz, ele já não usa sua própria opinião, mas a das leis.[478] Pode-se conceder que faça o que faz sem ira; pois tem algo a seguir.[479] Nós, sem dúvida, quando alguma falta é cometida por nossa casa no âmbito doméstico, quer a vejamos, quer a percebamos, devemos indignar-nos; pois a própria visão do pecado é imprópria.[480] Porque aquele que está totalmente impassível ou aprova as faltas, o que é mais vergonhoso e injusto, ou evita o incômodo de repreendê-las, o que um espírito tranquilo e uma mente quieta desprezam e recusam, a menos que a ira as tenha despertado e incitado.[481] Mas, quando alguém se move e, no entanto, por clemência fora de tempo concede perdão com mais frequência do que é necessário, ou sempre, evidentemente tanto destrói a vida daqueles cuja ousadia está alimentando para crimes maiores, quanto fornece a si mesmo uma fonte perpétua de aborrecimentos.[482] Portanto, conter a própria ira no caso dos pecados é defeituoso.[483] Arquitas de Tarento é louvado porque, tendo encontrado tudo arruinado em sua propriedade, repreendeu a culpa de seu administrador e disse: miserável, eu te teria espancado até a morte, se não estivesse irado.[484] Consideram isso um exemplo singular de paciência; mas, influenciados pela autoridade, não veem quão tolamente falou e agiu.[485] Pois, se, como Platão diz, nenhum homem prudente pune porque houve uma falta, mas para impedir que a falta ocorra, é evidente quão mau exemplo esse sábio apresentou.[486] Porque, se os escravos perceberem que seu senhor usa de violência quando não está irado, e se abstém de violência quando está irado, é evidente que não cometerão faltas leves, para não serem espancados; mas cometerão as maiores faltas, para provocarem a ira do homem perverso e escaparem impunes.[487] Mas eu o louvaria se, quando estivesse enfurecido, tivesse dado espaço à sua ira, para que a excitação de sua mente se acalmasse pelo intervalo de tempo e seu castigo ficasse contido em limites moderados.[488] Portanto, por causa da grandeza da ira, o castigo não deveria ter sido infligido, mas adiado, para que não impusesse ao ofensor uma dor maior do que a justa, ou ocasionasse um acesso de furor no punidor.[489] Mas como, como é equitativo ou sábio que alguém seja punido por uma pequena falta e fique sem punição por uma falta muito grande?[490] Mas, se ele tivesse aprendido a natureza e as causas das coisas, jamais teria professado uma paciência tão imprópria, a ponto de um escravo perverso alegrar-se porque seu senhor se irou contra ele.[491] Pois, assim como Deus dotou o corpo humano de muitos e variados sentidos necessários ao uso da vida, assim também atribuiu à alma diversas afeições pelas quais o curso da vida pudesse ser regulado; e, assim como deu o desejo para a produção da descendência, assim também deu a ira para o refreamento das faltas.[492] Mas aqueles que ignoram os fins das coisas boas e más, assim como usam o desejo sensual para fins de corrupção e prazer, do mesmo modo usam a ira e a paixão para infligir dano, enquanto se iram contra aqueles que consideram com ódio.[493] Portanto, iram-se até mesmo contra os que não cometeram ofensa alguma, até mesmo contra seus iguais, ou até contra seus superiores.[494] Daí correm todos os dias para monstruosidades; daí surgem frequentemente tragédias.[495] Portanto, Arquitas seria digno de louvor se, quando estivesse encolerizado contra algum cidadão ou igual que o houvesse ofendido, tivesse refreado a si mesmo e, por sua tolerância, mitigado o ímpeto de seu furor.[496] Este autocontrole é glorioso, pois por ele algum grande mal iminente é contido; mas é falta não corrigir as faltas de escravos e filhos, pois, escapando sem punição, eles avançarão para males maiores.[497] Neste caso a ira não deve ser contida; ao contrário, mesmo que esteja inativa, deve ser despertada.[498] Mas o que dizemos a respeito do homem, dizemo-lo também a respeito de Deus, que fez o homem semelhante a Si.[499] Omito mencionar a forma de Deus, porque os estoicos dizem que Deus não tem forma, e outro grande assunto surgiria se quiséssemos refutá-los.[500] Falo apenas da alma.[501] Se pertence a Deus refletir, ser sábio, entender, prever e sobressair, e, entre todos os animais, o homem sozinho possui essas qualidades, segue-se que ele foi feito à semelhança de Deus; mas vai para o vício porque, estando misturado com a fragilidade derivada da terra, é incapaz de conservar puro e incontaminado aquilo que recebeu de Deus, a menos que seja imbuído dos preceitos de justiça pelo mesmo Deus.[502] Mas, já que ele é composto, como dissemos, de duas partes, alma e corpo, as virtudes estão contidas em uma, e os vícios na outra, e elas se opõem mutuamente.[503] Pois as boas propriedades da alma, que consistem em refrear as paixões, são contrárias ao corpo; e as boas propriedades do corpo, que consistem em toda espécie de prazer, são hostis à alma.[504] Mas, se a virtude da alma tiver resistido aos desejos e os tiver reprimido, ele será verdadeiramente semelhante a Deus.[505] Daí é evidente que a alma do homem, que é capaz de virtude divina, não é mortal.[506] Mas há esta distinção: como a virtude é acompanhada de amargura, e a atração do prazer é doce, grande número de pessoas são vencidas e desviadas para a doçura; mas os que se entregaram ao corpo e às coisas terrenas são comprimidos para a terra e incapazes de alcançar o favor da bondade divina, porque se contaminaram com as impurezas dos vícios.[507] Mas aqueles que, seguindo a Deus e obedecendo-Lhe, desprezaram os desejos do corpo e, preferindo a virtude aos prazeres, preservaram a inocência e a justiça, estes Deus reconhece como semelhantes a Si.[508] Visto, portanto, que Ele estabeleceu uma lei santíssima e quer que todos os homens sejam inocentes e benfazejos, é possível que não se ire quando vê Sua lei desprezada, a virtude rejeitada e o prazer transformado em objeto de busca?[509] Mas, se Ele é governador do mundo, como convém que o seja, certamente não despreza aquilo que é da maior importância em todo o mundo.[510] Se possui previdência, como convém que Deus possua, é claro que consulta os interesses do gênero humano, para que nossa vida seja mais abundantemente provida, melhor e mais segura.[511] Se é Pai e Deus de todos, sem dúvida Se deleita com as virtudes dos homens e Se provoca com seus vícios.[512] Portanto, ama os justos e odeia os perversos.[513] Não há necessidade, diz alguém, de ódio; pois Ele já fixou de uma vez por todas uma recompensa para os bons e um castigo para os maus.[514] Mas, se alguém vive justa e inocentemente e, ao mesmo tempo, nem adora Deus nem Lhe dá atenção, como Aristides e Timão e outros filósofos, escapará impune porque, embora tenha obedecido à lei de Deus, contudo desprezou o próprio Deus?[515] Há, portanto, algo por causa do qual Deus pode irar-Se contra alguém que se rebela contra Ele, por assim dizer, confiando em sua integridade.[516] Se Ele pode irar-Se contra este homem por causa de seu orgulho, por que não muito mais contra o pecador, que desprezou a lei juntamente com o Legislador?[517] O juiz não pode perdoar ofensas, porque está sujeito à vontade de outro.[518] Mas Deus pode perdoar, porque Ele mesmo é árbitro e juiz de Sua própria lei; e, ao estabelecê-la, certamente não Se privou de todo poder, mas conservou a liberdade de conceder perdão.[519] Se Ele é capaz de perdoar, é portanto capaz também de irar-Se.[520] Por que, então, dirá alguém, acontece tantas vezes que os que pecam prosperam, e os que vivem piedosamente são miseráveis?[521] Porque fugitivos e deserdados vivem sem freio, enquanto os que estão sob a disciplina de um pai ou senhor vivem de maneira mais estrita e frugal.[522] Pois a virtude é provada e firmada por meio dos males; e os vícios, por meio do prazer.[523] Nem, contudo, deve aquele que peca esperar impunidade duradoura, porque não há felicidade duradoura.[524] Mas, na verdade, sempre se deve esperar o último dia do homem, e ninguém deve ser chamado feliz antes de sua morte e de seus últimos ritos fúnebres.[525] Como diz o poeta, não sem elegância.[526] É o fim que prova a felicidade, e ninguém pode escapar ao juízo de Deus, nem em vida nem depois da morte.[527] Pois Ele tem poder tanto para derrubar os vivos de seu alto posto quanto para punir os mortos com tormentos eternos.[528] Mas, dirá alguém, se Deus se ira, deveria ter exercido vingança imediatamente e ter punido a cada um segundo seu merecimento.[529] Mas responde-se: se tivesse feito isso, ninguém sobreviveria.[530] Pois não há ninguém que não peque em algum aspecto, e há muitas coisas que incitam ao pecado: idade, intemperança, necessidade, oportunidade, recompensa.[531] A tal ponto a fragilidade da carne de que estamos revestidos está sujeita ao pecado que, se Deus não fosse indulgente para com essa necessidade, talvez pouquíssimos vivessem.[532] Por isso Ele é extremamente paciente e contém Sua ira.[533] Pois, porque há nEle virtude perfeita, segue-se necessariamente que Sua paciência também é perfeita, sendo ela mesma também uma virtude.[534] Quantos homens, tendo sido pecadores, tornaram-se depois justos; de nocivos, tornaram-se bons; de perversos, tornaram-se temperantes.[535] Quantos que, na juventude, eram vis e condenados pelo juízo de todos, depois se tornaram dignos de louvor.[536] Mas é claro que isso não poderia acontecer se a punição seguisse toda ofensa.[537] As leis públicas condenam os manifestamente culpados; mas há grande número cujas ofensas estão ocultas, grande número que detêm o acusador por súplicas ou por recompensa, grande número que escapa à justiça por favor ou influência.[538] Mas, se a censura divina condenasse todos os que escapam da punição dos homens, haveria poucos homens na terra, ou mesmo nenhum.[539] Em suma, até mesmo aquela única razão para destruir o gênero humano poderia ter sido justa: que os homens, desprezando o Deus vivo, prestam honra divina a imagens terrenas e frágeis, como se fossem celestiais, adorando obras feitas por mãos humanas.[540] E, embora Deus, seu Criador, os tenha feito de rosto elevado e figura ereta, e os tenha elevado à contemplação do céu e ao conhecimento de Deus, eles preferiram, como gado, curvar-se para a terra.[541] Pois é baixo, curvado e inclinado para baixo aquele que, desviando-se da visão do céu e de Deus seu Pai, adora coisas da terra, sobre as quais deveria pisar, isto é, coisas feitas e modeladas da terra.[542] Portanto, em meio a tamanha impiedade e a tão grandes pecados dos homens, a longanimidade de Deus visa a este objetivo: que os homens, condenando os erros de sua vida passada, corrijam a si mesmos.[543] Em suma, há muitos que são justos e bons; e estes, tendo abandonado o culto das coisas terrenas, reconhecem a majestade do único e só Deus.[544] Mas, embora a longanimidade de Deus seja muito grande e muitíssimo útil, ainda assim, embora tardiamente, Ele castiga os culpados e não os deixa avançar mais, quando vê que são incorrigíveis.[545] Resta uma única questão, e esta a última.[546] Pois talvez alguém diga que Deus está tão longe de irar-Se que, em Seus preceitos, até proíbe o homem de se irar.[547] Eu poderia dizer que a ira do homem deve ser refreada, porque muitas vezes ele se ira injustamente; e tem emoção imediata, porque é temporal.[548] Portanto, para que não aconteçam aquelas coisas que os homens comuns, os de condição mediana e os grandes reis fazem em sua ira, seu furor deve ser moderado e reprimido, para que, estando fora de si, não cometa algum crime inexpiável.[549] Mas Deus não Se ira por pouco tempo, porque é eterno e de virtude perfeita, e nunca Se ira a não ser merecidamente.[550] Mas, contudo, a questão não é assim; pois, se Ele proibisse totalmente a ira, seria em certa medida censor de Sua própria obra, já que desde o princípio inseriu a ira no fígado do homem, pois se crê que a causa dessa emoção está contida na umidade da bílis.[551] Portanto, Ele não proíbe a ira por completo, porque essa afeição foi dada necessariamente, mas nos proíbe perseverar na ira.[552] Pois a ira dos mortais deve ser mortal; porque, se é duradoura, a inimizade se fortalece para destruição duradoura.[553] Então, de novo, quando Ele nos ordenou que nos irássemos e, contudo, não pecássemos, é claro que não arrancou a ira pela raiz, mas a conteve, para que em toda correção preservássemos moderação e justiça.[554] Portanto, Aquele que nos manda irar-nos é manifestamente Ele mesmo irado; Aquele que nos ordena sermos prontamente apaziguados é manifestamente Ele mesmo fácil de aplacar, pois ordenou coisas justas e úteis para o interesse da sociedade.[555] Mas, porque eu havia dito que a ira de Deus não é apenas temporária, como no caso do homem, que se inflama por um impulso súbito e, por causa de sua fragilidade, não consegue facilmente governar-se, devemos entender que, porque Deus é eterno, Sua ira também permanece para a eternidade; mas, por outro lado, que, porque é dotado da mais elevada excelência, Ele controla Sua ira e não é governado por ela, mas a regula segundo Sua vontade.[556] E é claro que isso não se opõe ao que acaba de ser dito.[557] Pois, se Sua ira fosse absolutamente imortal, não haveria lugar, depois da falta, para satisfação ou benevolência, embora Ele próprio ordene aos homens que se reconciliem antes do pôr do sol.[558] Mas a ira divina permanece para sempre contra aqueles que pecam para sempre.[559] Portanto, Deus não é aplacado por incenso ou vítima, nem por ofertas custosas, coisas todas corruptíveis, mas por reforma dos costumes; e aquele que deixa de pecar torna mortal a ira de Deus.[560] Por esta razão Ele não pune imediatamente todo culpado, para que o homem tenha oportunidade de voltar a si e corrigir-se.[561] Isto é o que eu tinha a dizer, amadíssimo Donato, a respeito da ira de Deus, para que soubesses como refutar aqueles que apresentam Deus como destituído de emoções.[562] Resta somente que, seguindo o costume de Cícero, eu use um epílogo à maneira de peroração.[563] Assim como ele fez nas Tusculanas, ao discursar sobre a morte, assim também nós, nesta obra, devemos apresentar testemunhos divinos, que possam ser cridos, para refutar a persuasão daqueles que, crendo que Deus é sem ira, destroem toda religião, sem a qual, como mostramos, ou somos iguais aos brutos em selvageria, ou ao gado em tolice; pois é somente na religião, isto é, no conhecimento do Deus Supremo, que consiste a sabedoria.[564] Todos os profetas, cheios do Espírito Divino, nada falam senão do favor de Deus para com os justos e de Sua ira contra os ímpios.[565] E seu testemunho, de fato, basta para nós; mas, porque não é crido por aqueles que exibem aparência de sabedoria pelos cabelos e pelas vestes, foi necessário refutá-los com razão e argumentos.[566] Pois agem de modo tão absurdo que as coisas humanas dão autoridade às divinas, quando antes as divinas é que deveriam dar autoridade às humanas.[567] Mas deixemos agora essas coisas, para que não causemos nenhum efeito sobre eles, e o assunto não seja arrastado indefinidamente.[568] Busquemos, portanto, aqueles testemunhos nos quais eles possam crer, ou ao menos não se opor.[569] Autores numerosos e de grande peso mencionaram as Sibilas; entre os gregos, Aristo de Quios e Apolodoro de Eritras; entre nossos escritores, Varrão e Fenestela.[570] Todos eles relatam que a Sibila Eritreia se destacava e era mais nobre do que as demais.[571] Apolodoro, de fato, gloria-se de que ela fosse sua concidadã e compatriota.[572] Mas Fenestela também relata que embaixadores foram enviados pelo senado a Eritras, para que os versos dessa Sibila fossem levados a Roma e para que os cônsules Cúrio e Otávio cuidassem de colocá-los no Capitólio, que então havia sido restaurado sob os cuidados de Quinto Cátulo.[573] Em seus escritos encontram-se versos deste tipo a respeito do Deus Supremo e Criador do mundo.[574] O Criador incorruptível e eterno, que habita no céu, oferece aos bons um prêmio muito maior, mas desperta ira e furor contra os maus e injustos.[575] Novamente, em outro lugar, enumerando as ações pelas quais Deus é especialmente movido à ira, ela introduziu estas palavras.[576] Evitai serviços ilícitos e servi ao Deus vivo.[577] Abstende-vos do adultério e da impureza; gerai uma descendência pura; não mateis, pois o Imortal se irará contra todo aquele que vier a pecar.[578] Portanto, Ele se ira contra os pecadores.[579] Mas, porque é relatado pelos mais eruditos que houve muitas Sibilas, o testemunho de uma só talvez não seja suficiente para confirmar a verdade, como desejamos fazer.[580] Os volumes da Sibila de Cumas, nos quais estão escritas as sortes dos romanos, são mantidos em segredo; mas os escritos de todas as outras, em sua maior parte, não são proibidos ao uso comum.[581] E outra dentre elas, denunciando a ira de Deus contra todas as nações por causa da impiedade dos homens, começou assim.[582] Visto que grande ira está vindo sobre um mundo desobediente, eu revelo os mandamentos de Deus para a última era, profetizando a todos os homens de cidade em cidade.[583] Outra Sibila também disse que o dilúvio foi causado pela indignação de Deus contra os injustos numa era anterior, para que a perversidade do gênero humano fosse extinta.[584] Desde o tempo em que o Deus do céu, enfurecido contra as próprias cidades e contra todos os homens, fez irromper um dilúvio, o mar cobriu a terra.[585] Do mesmo modo, ela predisse uma conflagração que acontecerá no futuro, na qual a impiedade dos homens será novamente destruída.[586] E em certo tempo, Deus, já não apaziguando Sua ira, mas aumentando-a e destruindo a raça dos homens, devastará tudo pelo fogo.[587] Do que se faz assim menção em Ovídio a respeito de Júpiter.[588] Ele também se lembra de que está determinado que virá o tempo em que o mar, a terra e o palácio do céu, tomados pelo fogo, serão queimados, e a engenhosa estrutura do mundo estará em perigo.[589] E isso deve acontecer no tempo em que a honra e o culto do Supremo tiverem perecido entre os homens.[590] A mesma Sibila, contudo, testemunhando que Ele era aplacado pela reforma da conduta e pelo aperfeiçoamento de si, acrescentou estas palavras.[591] Mas vós, mortais, convertei-vos agora com compaixão e não leveis o grande Deus a toda espécie de ira.[592] E também um pouco mais adiante.[593] Ele não destruirá, mas conterá novamente Sua ira, se todos praticardes em vossas mentes uma piedade preciosa.[594] Então outra Sibila declara que o Pai das coisas celestiais e terrenas deve ser amado, para que Sua indignação não se levante para a destruição dos homens.[595] Para que porventura o Deus imortal não Se ire e destrua toda a raça dos homens, sua vida e raça desavergonhada, convém que amemos o sábio Deus Pai, sempre vivo.[596] Dessas coisas é evidente que são vãos os argumentos dos filósofos, que imaginam Deus sem ira e, entre Seus outros louvores, contam justamente aquele que é o mais inútil, retirando dEle aquilo que é o mais salutar para os assuntos humanos, pelo qual a própria majestade subsiste.[597] Pois este reino e governo terrenos, se não forem guardados pelo temor, são destruídos.[598] Tira a ira de um rei, e ele não apenas deixará de ser obedecido, mas até será lançado de seu alto posto.[599] Antes, tira essa afeição de qualquer pessoa de baixa condição, e quem não a saqueará?[600] Quem não zombará dela?[601] Quem não a tratará com injúria?[602] Assim, ela não poderá ter nem roupa, nem morada, nem alimento, já que os outros a privarão de tudo o que tiver; muito menos podemos supor que a majestade do governo celestial possa existir sem ira e temor.[603] Consultado o Apolo Milesiano acerca da religião dos judeus, inseriu estas coisas em sua resposta.[604] Deus, Rei e Pai de todos, diante de quem tremem a terra, o céu e o mar, e a quem os recessos do Tártaro e os demônios temem.[605] Se Ele é tão manso quanto querem os filósofos, como é que não somente os demônios e ministros de tão grande poder, mas até o céu e a terra e toda a ordem do universo tremem diante de Sua presença?[606] Pois, se ninguém se submete ao serviço de outro a não ser por compulsão, segue-se que todo governo existe pelo temor, e o temor, pela ira.[607] Porque, se alguém não se levanta contra aquele que não quer obedecer, não será possível constrangê-lo à obediência.[608] Que cada um consulte seus próprios sentimentos; logo compreenderá que ninguém pode ser submetido ao comando de outro sem ira e castigo.[609] Portanto, onde não houver ira, não haverá autoridade.[610] Mas Deus tem autoridade; portanto, também deve ter ira, na qual consiste a autoridade.[611] Portanto, que ninguém, induzido pelo falatório vazio dos filósofos, exercite-se no desprezo a Deus, o que é a maior impiedade.[612] Todos nós estamos obrigados tanto a amá-Lo, porque é nosso Pai, quanto a reverenciá-Lo, porque é nosso Senhor; tanto a prestar-Lhe honra, porque é bondoso, quanto a temê-Lo, porque é severo: cada aspecto nEle é digno de reverência.[613] Quem pode conservar sua piedade e, ainda assim, deixar de amar o Autor de sua vida?[614] Ou quem pode, com impunidade, desprezar Aquele que, como governante de todas as coisas, tem poder verdadeiro e eterno sobre tudo?[615] Se O consideras como Pai, é Ele quem nos dá entrada para a luz de que desfrutamos: por Ele vivemos, por Ele entramos na habitação deste mundo.[616] Se O contemplas como Deus, é Ele quem nos nutre com inumeráveis recursos: é Ele quem nos sustenta, moramos em Sua casa, somos de Sua família.[617] E, se fomos menos obedientes do que convinha e menos atentos ao nosso dever do que exigiam os méritos infinitos de nosso Senhor e Pai, ainda assim é de grande proveito, para obtermos perdão, conservarmos o culto e o conhecimento dEle; e, deixando de lado os assuntos e bens baixos e terrenos, meditarmos nas coisas celestiais e divinas, que são eternas.[618] E, para que possamos fazer isso, Deus deve ser seguido por nós, Deus deve ser adorado e amado; pois nEle está a substância das coisas, o princípio das virtudes e a fonte de todo bem.[619] Pois o que é maior em poder do que Deus, ou mais perfeito em razão, ou mais brilhante em clareza?[620] E, visto que Ele nos gerou para a sabedoria e nos produziu para a justiça, não é permitido ao homem abandonar Deus, doador da inteligência e da vida, para servir a coisas terrenas e frágeis, ou, concentrado em buscar bens temporais, desviar-se da inocência e da piedade.[621] Prazeres viciosos e mortais não tornam o homem feliz; nem a opulência, que é incitadora de concupiscências; nem a ambição vazia; nem as honras frágeis, pelas quais a alma humana, enredada e escravizada ao corpo, é condenada à morte eterna; mas somente a inocência e a justiça, cuja recompensa legítima e devida é a imortalidade, que Deus desde o princípio designou para mentes santas e incorruptas, que se conservam puras e incontaminadas dos vícios e de toda impureza terrena.[622] Desse prêmio celestial e eterno não podem participar aqueles que contaminaram sua consciência por atos de violência, fraudes, rapinas e enganos; e que, pelas injúrias infligidas aos homens e por ações ímpias, marcaram a si mesmos com manchas indeléveis.[623] Assim, convém que todos os que desejam com razão ser chamados sábios, todos os que desejam ser chamados homens, desprezem as coisas frágeis, calquem as coisas terrenas e olhem de cima as coisas vis, para que possam unir-se em uma relação beatíssima com Deus.[624] Sejam removidas a impiedade e as discórdias; sejam apaziguadas as dissensões turbulentas e mortais, pelas quais as sociedades humanas e a união divina da aliança pública são rompidas, divididas e dispersas; tanto quanto pudermos, procuremos ser bons e benfazejos.[625] Se tivermos abundância de riquezas e recursos, não seja ela dedicada ao prazer de uma só pessoa, mas derramada no bem-estar de muitos.[626] Pois o prazer é tão breve quanto o corpo ao qual serve.[627] Mas a justiça e a bondade são tão imortais quanto a mente e a alma, que, pelas boas obras, alcançam a semelhança de Deus.[628] Consagremos Deus não em templos, mas em nosso coração.[629] Todas as coisas feitas pela mão são perecíveis.[630] Purifiquemos este templo, que é manchado não por fumaça nem por pó, mas por maus pensamentos, e que é iluminado não por tochas ardentes, mas pelo brilho e pela luz da sabedoria.[631] E, se cremos que Deus está sempre presente neste templo, a cuja divindade os segredos do coração estão abertos, viveremos de tal maneira que sempre O tenhamos propício e nunca precisemos temer Sua ira.

