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[1] Quão perturbado estou, e em quão grandes necessidades me encontro, poderás julgar por este pequeno livro que te escrevi, Demetriano, quase em palavras sem ornamento, conforme permitia a mediocridade do meu talento, para que conheças minha ocupação cotidiana e para que eu não te falte, ainda agora, como mestre, embora tratando de assunto mais honroso e de melhor sistema.

[2] Pois, se te mostraste pronto ouvinte nas letras, que nada mais faziam do que formar o estilo, quanto mais dócil deves ser nestes estudos verdadeiros, que dizem respeito até mesmo à vida.

[3] E agora te declaro que nenhuma necessidade de circunstância ou de tempo me impede de compor algo pelo qual os filósofos da nossa escola, que sustentamos, venham a tornar-se no futuro mais instruídos e mais cultos, embora hoje tenham má reputação e sejam comumente censurados por viverem de modo diverso do que convém a homens sábios e por esconderem seus vícios sob o manto de um nome, quando deveriam ou corrigi-los ou evitá-los por completo, para que tornassem feliz e incorrupto o nome da sabedoria, estando a própria vida de acordo com seus preceitos.

[4] Eu, porém, não fujo de trabalho algum, para ao mesmo tempo instruir a nós mesmos e aos outros.

[5] Pois não posso esquecer-me de mim, sobretudo justamente no tempo em que mais me é necessário lembrar; assim como tu também não te esqueces de ti, como espero e desejo.

[6] Porque, embora a necessidade do Estado possa desviar-te das obras verdadeiras e justas, é impossível que uma mente consciente de sua retidão não eleve de tempos em tempos o olhar ao céu.

[7] Na verdade, alegro-me de que todas as coisas que são estimadas como bênçãos te sucedam de modo próspero, mas apenas com a condição de que nada mudem no teu estado de espírito.

[8] Pois temo que o costume e a doçura dessas coisas, como geralmente acontece, se insinúem pouco a pouco em tua mente.

[9] Por isso te aconselho, e repetindo tornarei a aconselhar-te sempre, que não creias possuir nesses gozos da terra bens grandes ou verdadeiros, já que eles não são somente enganosos porque são incertos, mas também traiçoeiros porque são agradáveis.

[10] Pois sabes quão astuto é esse lutador e adversário nosso, e também quão frequentemente violento, como agora vemos que é.

[11] Ele emprega todas essas coisas capazes de seduzir como armadilhas, e com tal sutileza que escapam aos olhos da mente, de modo que não podem ser evitadas pela previdência humana.

[12] Portanto, a mais alta prudência é avançar passo a passo, pois ele ocupa os desfiladeiros de ambos os lados e secretamente põe tropeços aos nossos pés.

[13] Assim, aconselho-te ou a desprezar, se o puderes conforme tua virtude, a prosperidade em que vives, ou ao menos a não admirá-la demasiadamente.

[14] Lembra-te de teu verdadeiro Pai, em que cidade alistaste teu nome e de que dignidade foste feito participante.

[15] Compreendes seguramente o que digo.

[16] Pois não te acuso de soberba, da qual nem sequer há suspeita em teu caso; mas o que digo deve ser referido à mente, não ao corpo, todo cujo sistema foi disposto para este fim: que esteja sujeito à alma como a um senhor e seja governado por sua vontade.

[17] Pois ele é, de certo modo, um vaso de barro em que está contida a alma, isto é, o verdadeiro homem, vaso este não feito por Prometeu, como dizem os poetas, mas por aquele supremo Criador e Artífice do mundo, Deus, cuja providência divina e perfeitíssima excelência não é possível nem compreender pela percepção nem exprimir em palavras.

[18] Tentarei, contudo, já que se fez menção do corpo e da alma, explicar a natureza de cada um, até onde alcança a fraqueza do meu entendimento; e penso que este dever deve ser assumido sobretudo porque Marco Túlio, homem de notável talento, no quarto livro da República, quando tentou fazer isso, encerrou assunto tão vasto em limites estreitos, tocando levemente os pontos principais.

[19] E para que não houvesse desculpa, como se não tivesse prosseguido no tema, testemunhou que nem vontade nem atenção lhe haviam faltado.

[20] Pois no primeiro livro Das Leis, ao resumir concisamente o mesmo assunto, falou assim: Cipião, ao que me parece, expôs suficientemente este tema naqueles livros que leste.

[21] Depois, porém, no segundo livro Da Natureza dos Deuses, esforçou-se por tratar mais amplamente da mesma matéria.

[22] Mas, visto que nem ali a expôs com suficiência, tomarei sobre mim este ofício e ousadamente me encarregarei de explicar aquilo que um homem de tamanha eloquência quase deixou intacto.

[23] Talvez me censures por eu tentar discutir algo em matéria obscura, ao ver que houve homens de tamanha ousadia, chamados comumente filósofos, que perscrutaram as coisas que Deus quis que fossem abstrusas e ocultas, e investigaram a natureza das coisas no céu e na terra, as quais estão longe de nós e não podem ser examinadas pelos olhos, nem tocadas pela mão, nem percebidas pelos sentidos; e, no entanto, disputam acerca da natureza dessas coisas como se desejassem que aquilo que apresentam parecesse provado e conhecido.

[24] Que motivo há, pergunto, para alguém julgar odioso em nós o desejo de contemplar a estrutura do nosso corpo, que não é totalmente obscura, já que, pelos próprios ofícios dos membros e pelos usos de cada parte, nos é permitido compreender com quão grande poder de providência cada uma foi feita?

[25] Pois o nosso Criador e Pai, Deus, deu ao homem percepção e razão, para que por isso mesmo se tornasse evidente que descendemos dele, porque Ele mesmo é inteligência, Ele mesmo é percepção e razão.

[26] Como não concedeu esse poder racional aos demais animais, providenciou antes de tudo de que modo a vida deles pudesse ser mais segura.

[27] Assim, revestiu todos com seus próprios pelos naturais, para que suportassem com maior facilidade o rigor das geadas e dos frios.

[28] Além disso, atribuiu a cada espécie sua defesa peculiar para repelir ataques externos, de modo que uns resistem aos mais fortes com armas naturais, outros, mais débeis, se afastam do perigo pela rapidez da fuga, outros, que necessitam ao mesmo tempo de força e velocidade, protegem-se por astúcia ou se guardam em esconderijos.

[29] E assim uns se sustentam no alto por leve plumagem, outros se apoiam em cascos, outros são providos de chifres; alguns trazem armas na boca, isto é, os dentes, ou garras curvas nos pés; e nenhum deles foi deixado sem defesa para sua própria proteção.

[30] Mas, se alguns caem como presa dos animais maiores, para que sua raça não pereça por completo, ou foram banidos para regiões onde os mais fortes não podem subsistir, ou receberam maior fecundidade para gerar, a fim de que deles se forneça alimento às feras que se nutrem de sangue e, ainda assim, sua própria multidão sobreviva à matança, preservando a espécie.

[31] Ao homem, porém, a quem foi concedida a razão e dado o poder de perceber e falar, Ele fez desprovido daquelas coisas dadas aos outros animais, porque a sabedoria podia suprir aquilo que a condição natural lhe negara.

[32] Fê-lo nu e indefeso, porque podia ser armado por sua habilidade e vestido por sua razão.

[33] E não se pode exprimir quão maravilhosamente a ausência daquelas coisas dadas aos brutos contribui para a beleza do homem.

[34] Pois, se tivesse dado ao homem dentes de feras, ou chifres, ou garras, ou cascos, ou cauda, ou pelos de várias cores, quem não perceberia quão disforme animal ele seria, como o seriam também os animais mudos, se fossem feitos nus e indefesos?

[35] Porque, se deles tirares o revestimento natural do corpo ou aquelas coisas com que são armados por si mesmos, não poderão ser nem belos nem seguros, de modo que parecem maravilhosamente providos se considerares a utilidade, e maravilhosamente adornados se considerares a aparência: tão admiravelmente se une a utilidade à beleza.

[36] Mas, com relação ao homem, que Ele formou como ser eterno e imortal, não o armou, como aos outros, por fora, mas por dentro; nem colocou sua proteção no corpo, e sim na alma; pois seria supérfluo, tendo-lhe dado o que havia de maior valor, cobri-lo ainda com defesas corporais, sobretudo quando estas impediriam a beleza do corpo humano.

[37] Por isso costumo admirar a insensatez dos filósofos que seguem Epicuro, os quais acusam as obras da natureza para mostrar que o mundo não foi preparado nem governado por providência alguma; mas atribuem a origem de todas as coisas a corpúsculos indivisíveis e sólidos, dos encontros fortuitos dos quais dizem que todas as coisas são e foram produzidas.

[38] Deixo de lado as objeções que levantam contra a própria obra, nas quais enlouquecem ridiculamente; tomo apenas aquilo que pertence ao assunto de que agora tratamos.

[39] Queixam-se de que o homem nasce em condição mais fraca e mais frágil do que aquela em que nascem os outros animais: pois estes, assim que são produzidos do ventre, logo se erguem sobre os pés e manifestam sua alegria correndo de um lado para outro, estando desde logo aptos a suportar o ar, visto que vêm à luz protegidos por coberturas naturais; mas o homem, ao contrário, nu e indefeso, é lançado fora e, por assim dizer, arrojado de um naufrágio às misérias desta vida, incapaz de mover-se do lugar em que nasceu, de buscar o alimento do leite ou de suportar o dano do tempo.

[40] Portanto, dizem eles, a Natureza não é mãe do gênero humano, mas madrasta, pois tratou tão liberalmente a criação muda, mas produziu o homem de tal forma que, sem recursos, sem forças e destituído de todo auxílio, nada pode fazer além de dar sinais de sua fragilidade com choros e lamentações; e com razão, dizem, ele o faz, tendo por destino atravessar tantos males na vida.

[41] E quando dizem essas coisas, são tidos por muito sábios, porque todo homem, sem refletir, se desagrada de sua própria condição; mas eu sustento que nunca são mais tolos do que quando falam assim.

[42] Pois, ao considerar a ordem das coisas, compreendo que nada deveria ter sido diferente do que é — para não dizer que nada poderia ter sido diferente, já que Deus pode tudo —, mas convinha que aquela majestade providentíssima tivesse feito o que era melhor e mais reto.

[43] Gostaria, portanto, de perguntar a esses censores das obras divinas o que julgam faltar ao homem pelo fato de nascer em condição mais débil.

[44] Pensam eles que, por isso, os homens são pior educados?

[45] Ou que menos alcançam a maior força da idade madura?

[46] Ou que a fraqueza é obstáculo ao crescimento ou à segurança, se a razão concede o que falta?

[47] Mas, dizem, criar um homem exige trabalhos máximos; a condição dos animais brutos seria melhor, porque todos eles, depois de parirem seus filhotes, não têm outro cuidado senão o próprio alimento; e disso resulta que, inchando-se espontaneamente suas tetas, o leite é fornecido à prole, e esta busca esse alimento pela compulsão da natureza, sem trabalho algum da parte das mães.

[48] E com as aves, que têm natureza diferente, como se dá?

[49] Não suportam elas os maiores trabalhos ao criar os filhotes, de tal modo que às vezes parecem possuir algo de inteligência humana?

[50] Pois ou constroem seus ninhos com barro, ou os tecem com gravetos e folhas, e chocam os ovos sem se alimentar; e, como não lhes foi dado nutrir os filhos com o próprio corpo, levam-lhes comida e passam os dias inteiros indo e vindo desse modo; mas à noite os defendem, aquecem e protegem.

[51] Que mais podem os homens fazer?

[52] A não ser isto apenas: que não expulsam os filhos quando crescem, mas os conservam ligados por parentesco perpétuo e pelo vínculo do afeto.

[53] Por que eu diria que a prole das aves é muito mais frágil do que a do homem?

[54] Pois elas não dão à luz o próprio animal do corpo da mãe, mas aquilo que, aquecido pelo alimento e pelo calor do corpo materno, produz o animal; e este, mesmo depois de animado pelo sopro, ainda sem penas e delicado, não tem apenas falta do poder de voar, mas até de andar.

[55] Não seria, portanto, extremamente insensato quem pensasse que a natureza tratou mal as aves, primeiro porque nascem duas vezes, e depois porque são tão fracas que precisam ser alimentadas com comida buscada com esforço pelos pais?

[56] Mas eles escolhem os animais mais fortes e deixam de lado os mais fracos.

[57] Pergunto, então, aos que preferem a condição das feras à sua própria, o que escolheriam se Deus lhes desse escolha: prefeririam a sabedoria do homem juntamente com sua fraqueza, ou a força das feras juntamente com sua natureza?

[58] Na verdade, não são tão semelhantes às bestas a ponto de não preferirem, mesmo em condição muito mais frágil, contanto que humana, a força daqueles seres desprovida de razão.

[59] Mas, em verdade, homens prudentes não desejam a razão do homem com fragilidade, nem a força dos animais mudos sem razão.

[60] Portanto, nada há de tão repugnante ou contraditório em que ou a razão ou a condição natural preparem necessariamente cada animal.

[61] Se ele é provido de proteção natural, a razão é supérflua.

[62] Pois o que inventará?

[63] O que fará?

[64] O que planejará?

[65] Em que mostrará aquela luz do intelecto, quando a própria natureza lhe concede espontaneamente aquilo que poderia ser fruto da razão?

[66] Mas, se for dotado de razão, que necessidade haverá de defesas corporais, quando a razão, uma vez concedida, pode suprir o ofício da natureza?

[67] E esta possui tamanho poder para adornar e proteger o homem que nada maior ou melhor pode ser dado por Deus.

[68] Finalmente, embora o homem tenha recebido um corpo não grande, uma força pequena e saúde frágil, contudo, porque recebeu o que é de mais alto valor, está melhor equipado que os outros animais e mais adornado.

[69] Pois, embora nasça fraco e débil, está seguro diante de todos os animais mudos; e todos aqueles que nascem com maior força, embora suportem com paciência a inclemência do céu, ainda assim não podem estar seguros diante do homem.

[70] Assim sucede que a razão concede ao homem mais do que a natureza concede aos animais irracionais; pois, no caso deles, nem a grandeza da força nem a firmeza do corpo podem impedir que sejam subjugados por nós ou feitos sujeitos ao nosso poder.

[71] Pode alguém, então, ao ver que até elefantes, com seus imensos corpos e sua força, são submetidos ao homem, queixar-se de Deus, o Criador de todas as coisas, porque recebeu força moderada e pequeno corpo, e não avaliar segundo o merecimento os benefícios divinos para consigo mesmo, o que é próprio de um ingrato, ou, para falar mais verdadeiramente, de um louco?

[72] Platão, creio eu, para refutar esses ingratos, agradeceu à natureza por ter nascido homem.

[73] Quão melhor e mais sensatamente procedeu ele, que percebeu que a condição do homem era melhor, do que aqueles que prefeririam ter nascido feras!

[74] Pois, se Deus por acaso os transformasse nos animais cuja condição preferem à sua própria, imediatamente desejariam voltar ao estado anterior e, com grandes clamores, exigiriam de novo sua condição primitiva, porque força e firmeza corporal não valem tanto a ponto de se ficar sem o ofício da língua; nem o livre curso das aves pelo ar a ponto de se ficar sem as mãos.

[75] Pois as mãos prestam mais serviço do que a leveza e o uso das asas; a língua presta mais serviço do que a força do corpo inteiro.

[76] Que loucura é, pois, preferir coisas que, se te fossem dadas, recusarias receber!

[77] Queixam-se também de que o homem está sujeito a doenças e à morte prematura.

[78] Indignam-se, ao que parece, por não terem nascido deuses.

[79] De forma alguma, dizem eles; mas mostramos por isso que o homem foi feito sem providência, quando deveria ter sido de outro modo.

[80] E se eu mostrar que precisamente isso foi previsto com grande razão, para que ele pudesse ser afligido por doenças e para que sua vida muitas vezes fosse cortada no meio do curso?

[81] Pois, visto que Deus sabia que o animal que fizera passaria por si mesmo à morte, para que fosse capaz de receber a própria morte, que é a dissolução da natureza, deu-lhe a fragilidade, que abrisse caminho para a morte a fim da dissolução do animal.

[82] Porque, se tivesse tal força que doença e enfermidade não pudessem aproximar-se dele, nem a morte poderia aproximar-se, já que a morte é consequência das doenças.

[83] Mas como estaria ausente dele uma morte prematura, se lhe fora determinada uma morte madura?

[84] Certamente eles desejam que ninguém morra antes de completar cem anos.

[85] Como podem manter coerência em tão grande oposição de circunstâncias?

[86] Pois, para que ninguém seja capaz de morrer antes de cem anos, é preciso dar-lhe algo daquela força que é imortal; e, concedido isso, a condição da morte deve necessariamente ser excluída.

[87] Mas de que espécie poderá ser aquilo que torne um homem firme e inexpugnável contra doenças e ataques externos?

[88] Pois, sendo ele composto de ossos, nervos, carne e sangue, qual dessas partes pode ser tão firme a ponto de repelir a fragilidade e a morte?

[89] Portanto, para que o homem não esteja sujeito à dissolução antes daquele tempo que julgam devido, de que matéria lhe atribuirão um corpo?

[90] Tudo o que pode ser visto e tocado é frágil.

[91] Resta que procurem algo do céu, já que nada há na terra que não seja fraco.

[92] Portanto, visto que o homem tinha de ser formado por Deus de tal maneira que em algum tempo fosse mortal, a própria matéria exigia que fosse feito com corpo frágil e terreno.

[93] Necessariamente, então, ele deve em algum momento receber a morte, porque possui um corpo; pois todo corpo está sujeito à dissolução e à morte.

[94] Por isso são grandemente insensatos os que se queixam da morte prematura, uma vez que a condição da natureza lhe dá lugar.

[95] Assim seguirá também que o homem esteja sujeito às doenças; pois a natureza não admite que a enfermidade esteja ausente de um corpo destinado algum dia à dissolução.

[96] Mas suponhamos possível, como desejam, que o homem não nasça sob aquelas condições pelas quais está sujeito à doença ou à morte, a não ser, depois de completado o curso da vida, ao atingir o extremo da velhice.

[97] Não veem, porém, qual seria a consequência, caso assim fosse ordenado: tornar-se-ia claramente impossível morrer em qualquer outro tempo; mas, se alguém puder ser privado do alimento por outro, então será possível que morra.

[98] Portanto, o caso exige que o homem, que não pode morrer antes do dia marcado, não tenha necessidade do alimento, porque este lhe pode ser tirado; mas, se não precisar de comida, já não será homem, e sim deus.

[99] Portanto, como já disse, os que se queixam da fragilidade humana estão na verdade se queixando sobretudo de não terem nascido imortais e eternos.

[100] Ninguém, dizem, deveria morrer senão velho.

[101] Justamente por isso ele deve morrer, porque não é Deus.

[102] Ora, mortalidade não pode unir-se à imortalidade; pois, se o homem é mortal na velhice, não pode ser imortal na juventude; nem a condição da morte é estranha àquele que em algum tempo há de morrer; nem há qualquer imortalidade para a qual se estabeleça limite.

[103] Assim acontece que a exclusão da imortalidade para sempre e a recepção temporária da mortalidade colocam o homem em tal condição que ele em algum momento é mortal.

[104] Portanto, esta necessidade é em todos os pontos conveniente: o homem não deveria ter sido diferente do que é, e isso era impossível.

[105] Mas eles não enxergam a ordem das consequências, porque erraram desde o ponto principal.

[106] Pois, excluída a providência divina dos assuntos humanos, seguiu-se necessariamente a ideia de que tudo foi produzido por si mesmo.

[107] Daí inventaram a noção dos choques e encontros fortuitos de mínimas sementes, porque não viam a origem das coisas.

[108] E, tendo-se lançado nessa dificuldade, a própria necessidade os compelira a pensar que as almas nasciam juntamente com os corpos e do mesmo modo se extinguiam com eles; pois haviam assumido que nada fora feito pela mente divina.

[109] E não podiam provar isso de outro modo senão mostrando que havia certas coisas nas quais o sistema da providência parecia falhar.

[110] Por isso censuravam aquelas coisas nas quais a providência manifestava maravilhosamente sua divindade, como as que mencionei acerca das doenças e da morte prematura; quando, ao contrário, deveriam ter considerado, admitidas essas premissas, quais seriam as consequências necessárias — e aquilo que falei são as consequências — se o homem não fosse sujeito a doenças e não necessitasse de moradia nem de roupa.

[111] Pois por que temeria ventos, chuvas ou frios, cujo poder consiste em produzir doenças?

[112] Foi justamente por isso que recebeu a sabedoria, para que defendesse sua fragilidade contra as coisas que poderiam feri-lo.

[113] A consequência necessária é que, sendo sujeito a doenças para conservar a sabedoria, também deve ser sujeito à morte; porque aquele a quem a morte não chega deve necessariamente ser firme.

[114] Mas a enfermidade traz em si a condição da morte; e onde houver firmeza, nem a velhice nem a morte, que segue a velhice, podem ter lugar.

[115] Além disso, se a morte estivesse marcada para uma idade fixa, o homem tornar-se-ia arrogantíssimo e destituído de toda humanidade.

[116] Pois quase todos os direitos de humanidade, pelos quais nos unimos uns aos outros, nascem do temor e da consciência da fragilidade.

[117] Em suma, todos os animais mais fracos e tímidos vivem em rebanho, para que, já que não podem proteger-se pela força, protejam-se pela multidão; mas os mais fortes buscam a solidão, porque confiam na própria força e vigor.

[118] Se o homem também, do mesmo modo, tivesse força suficiente para repelir perigos e não necessitasse da ajuda de ninguém, que sociedade haveria?

[119] Que ordem?

[120] Que humanidade?

[121] Ou o que seria mais duro que o homem, mais bruto, mais selvagem?

[122] Mas, como ele é fraco e incapaz de viver sozinho separado do homem, deseja a sociedade, para que sua vida, passada em comunhão com outros, se torne ao mesmo tempo mais bela e mais segura.

[123] Vês, portanto, que toda a razão do homem se concentra sobretudo nisto: ele nasce nu e frágil, é atacado por doenças e é punido pela morte prematura.

[124] E, se essas coisas fossem tiradas do homem, a razão e a sabedoria também teriam de ser tiradas.

[125] Mas alongo-me demais sobre coisas manifestas, pois é claro que nada jamais foi feito, nem poderia ter sido feito, sem providência.

[126] E, se agora eu quisesse discutir em ordem todas as obras dela, o assunto seria infinito.

[127] Mas propus falar apenas do corpo do homem, para mostrar nele o poder da providência divina, quão grande ele foi ao menos nestas coisas de fácil compreensão e visíveis; pois aquilo que se refere à alma não pode ser submetido aos olhos nem compreendido.

[128] Falamos agora do próprio vaso do homem, que vemos.

[129] No princípio, quando Deus formava os animais, não quis amontoá-los e reuni-los numa forma redonda, para que pudessem mover-se facilmente ao andar e voltar-se em qualquer direção; mas da parte mais alta do corpo prolongou a cabeça.

[130] Também estendeu mais em comprimento alguns membros, chamados pés, para que, firmados no chão com movimentos alternados, conduzissem o animal para onde sua inclinação o levasse ou a necessidade de buscar alimento o chamasse.

[131] Além disso, fez sobressair do próprio vaso do corpo quatro membros: dois atrás, que em todos os animais são os pés; e dois próximos da cabeça e do pescoço, que desempenham diversos usos nos animais.

[132] Pois, no gado e nas feras, são pés como os traseiros; mas no homem são mãos, produzidas não para andar, e sim para agir e governar.

[133] Há ainda uma terceira classe, em que esses membros anteriores não são nem pés nem mãos, mas asas, que, compostas de penas ordenadas, fornecem o uso do voo.

[134] Assim, uma mesma formação assume formas e usos diversos; e para manter firmemente unida a própria densidade do corpo, ligando entre si ossos grandes e pequenos, Ele compactou uma espécie de quilha, que chamamos espinha, e não quis formá-la de um só osso contínuo, para que o animal não ficasse sem capacidade de andar e de dobrar-se.

[135] Do meio dela, por assim dizer, estendeu em direção diferente ossos transversos e achatados, pelos quais, ligeiramente curvados e quase recolhidos em si mesmos como em círculo, os órgãos internos são cobertos, para que as partes que precisavam ser mais moles e menos fortes fossem protegidas pelo envolvimento de uma armação sólida.

[136] No fim dessa junção, que dissemos assemelhar-se à quilha de um navio, colocou a cabeça, na qual estivesse o governo de todo o ser vivo; e esse nome lhe foi dado, como escreve Varrão a Cícero, porque dali têm princípio os sentidos e os nervos.

[137] Ora, as partes que dissemos prolongarem-se do corpo, quer para andar, quer para agir, quer para voar, Ele quis que fossem constituídas de ossos, nem demasiadamente longos, por causa da rapidez do movimento, nem demasiadamente curtos, por causa da firmeza, mas poucos e grandes.

[138] Pois ou são dois, como no homem, ou quatro, como nos quadrúpedes.

[139] E não os fez maciços, para que lentidão e peso não retardassem o andar, mas ocos e cheios de medula por dentro, para conservar o vigor do corpo.

[140] E novamente não os prolongou com igual espessura até o extremo; mas engrossou suas extremidades em nós ásperos, para que pudessem mais facilmente ser ligados por tendões e se mover com maior facilidade, e por isso são chamados articulações.

[141] Esses nós Ele fez firmes e sólidos, e cobriu com uma espécie de revestimento macio chamado cartilagem, para que pudessem dobrar-se sem atrito nem dor.

[142] Contudo, não os formou todos do mesmo modo.

[143] Pois alguns fez simples e redondos como uma esfera, ao menos nas juntas em que convinha que os membros se movessem em todas as direções, como nos ombros, já que é necessário que as mãos se movam e se voltem para qualquer lado; outros, porém, fez largos, regulares e redondos apenas para um lado, e isso precisamente nos lugares em que só era necessário que os membros se dobrassem, como nos joelhos, nos cotovelos e nas próprias mãos.

[144] Pois, assim como era ao mesmo tempo agradável à vista e útil que as mãos se movessem em toda direção a partir do ponto de onde nascem, certamente, se o mesmo acontecesse aos cotovelos, tal movimento seria ao mesmo tempo supérfluo e indecoroso.

[145] Então a mão, tendo perdido a dignidade que hoje possui, por causa de sua excessiva flexibilidade, pareceria semelhante à tromba de um elefante; e o homem seria inteiramente um ser de mãos serpenteantes, coisa que foi admiravelmente realizada naquele animal monstruoso.

[146] Pois Deus, que quis mostrar sua providência e poder por meio da maravilhosa variedade de muitas coisas, como não estendeu a cabeça daquele animal a tal ponto que pudesse tocar o chão com a boca — o que seria horrível e disforme —, e como armou a própria boca com presas prolongadas, de modo que, mesmo que tocasse a terra, as presas ainda o impediriam de alimentar-se, estendeu de cima da fronte, entre elas, um membro mole e flexível, pelo qual pudesse agarrar e apanhar qualquer coisa, para que nem a grande projeção das presas nem a brevidade do pescoço impedissem o arranjo necessário à alimentação.

[147] Aqui não posso deixar de mostrar outra vez a loucura de Epicuro.

[148] Pois todos os delírios de Lucrécio pertencem a ele, o qual, para demonstrar que os animais não são produzidos por algum desígnio da mente divina, mas, como costuma dizer, pelo acaso, afirmou que no princípio do mundo foram produzidos inúmeros outros animais de forma e tamanho maravilhosos, mas que não puderam permanecer, porque lhes faltou ou o poder de obter alimento ou o modo de se unir e gerar.

[149] É evidente que, para abrir lugar a seus átomos voando pelo espaço imenso e vazio, quis excluir a providência divina.

[150] Mas, quando via que em todos os seres que respiram está contido um sistema admirável de providência, que vaidade foi essa, ó homem pernicioso, dizer que haviam existido animais de tamanho imenso nos quais o sistema da procriação cessou!

[151] Visto, portanto, que todas as coisas que vemos são produzidas segundo um plano — pois só um plano pode realizar esta própria condição do nascer —, é manifesto que nada poderia nascer sem plano.

[152] Porque, na formação de cada coisa, foi previsto de antemão como ela usaria o serviço dos membros para as necessidades da vida e como a prole, produzida da união dos corpos, poderia conservar todos os seres vivos em suas respectivas espécies.

[153] Pois, se um arquiteto habilidoso, ao projetar algum grande edifício, considera antes de tudo qual será o resultado da obra acabada e previamente determina por medida qual lugar convém a uma parte leve, em que ponto ficará uma parte pesada da construção, quais serão os intervalos entre as colunas, quais ou onde estarão as descidas e saídas das águas e os reservatórios — se ele, digo, prevê essas coisas para, já com os próprios alicerces, começar tudo o que será necessário quando a obra estiver concluída —, por que alguém suporia que, ao ordenar os animais, Deus não previu aquilo que era necessário para viver, antes mesmo de dar a própria vida?

[154] Pois é manifesto que a vida não poderia existir, se não tivessem sido previamente ordenadas as coisas pelas quais ela subsiste.

[155] Epicuro, portanto, via nos corpos dos animais a habilidade de um plano divino; mas, para levar adiante o que antes havia assumido imprudentemente, acrescentou outra absurdidade coerente com a primeira.

[156] Pois disse que os olhos não foram produzidos para ver, nem os ouvidos para ouvir, nem os pés para caminhar, visto que esses membros teriam existido antes do exercício de ver, ouvir e andar; mas que todos os ofícios desses membros surgiram deles depois de sua produção.

[157] Receio que a refutação de histórias tão extravagantes e ridículas não pareça igualmente tola; mas agrada-me ser tolo, já que tratamos com um homem tolo, para que ele não se julgue demasiado esperto.

[158] Que dizes, Epicuro?

[159] Os olhos não foram produzidos para ver?

[160] Por que, então, veem?

[161] Seu uso, dizes, manifestou-se depois.

[162] Logo, foram produzidos para ver, já que nada mais podem fazer senão ver.

[163] Do mesmo modo, no caso dos outros membros, o próprio uso mostra para que fim foram produzidos.

[164] Pois é claro que esse uso não poderia existir se todos os membros não tivessem sido feitos com tal disposição e previdência que fossem aptos a ter seu uso.

[165] Pois e se dissesses que as aves não foram feitas para voar, nem as feras para enfurecer-se, nem os peixes para nadar, nem os homens para serem sábios, quando é evidente que os seres vivos estão sujeitos àquela disposição natural e ao ofício para o qual cada qual foi criado?

[166] Mas é evidente que quem perdeu o próprio ponto principal da verdade precisa errar sempre.

[167] Pois, se todas as coisas são produzidas não pela providência, mas pelo encontro fortuito dos átomos, por que nunca acontece ao acaso que esses primeiros princípios se combinem de tal maneira que façam um animal de tal espécie que ouça com as narinas, cheire com os olhos e veja com os ouvidos?

[168] Porque, se os primeiros princípios não deixam posição alguma sem tentar, monstruosidades desse tipo deveriam surgir diariamente, em que a disposição dos membros estivesse transtornada e o uso fosse completamente diverso daquele que prevalece.

[169] Mas, como todas as raças dos animais e todos os membros observam suas próprias leis, suas próprias disposições e os usos que lhes foram atribuídos, é evidente que nada é feito por acaso, pois se conserva uma disposição perpétua do plano divino.

[170] Mas refutaremos Epicuro em outro momento.

[171] Agora prossigamos na discussão da providência, como começamos.

[172] Deus, portanto, uniu e ligou entre si as partes que fortalecem o corpo, as quais chamamos ossos, atando-as umas às outras por tendões, para que a mente pudesse usar deles como de faixas, se quisesse apressar-se adiante ou demorar-se; e isso, de fato, sem trabalho nem esforço, mas com inclinação muito leve, pudesse moderar e dirigir toda a massa do corpo.

[173] Mas Ele cobriu esses ossos com os órgãos internos, conforme convinha a cada lugar, para que as partes sólidas ficassem envolvidas e ocultas.

[174] Também misturou aos órgãos internos as veias, como canais repartidos por todo o corpo, através das quais a umidade e o sangue, correndo em diversas direções, regassem todos os membros com os sucos vitais; e modelou esses órgãos internos da maneira conveniente a cada gênero e posição, cobrindo-os com a pele estendida por cima, que ora adornou apenas com beleza, ora revestiu de pelos espessos, ora cercou de escamas, ora adornou de penas brilhantes.

[175] Mas é admirável o plano de Deus pelo qual uma única disposição e um só estado exibem inúmeras variedades de animais.

[176] Pois em quase todos os seres que respiram há a mesma conexão e a mesma disposição dos membros.

[177] Em primeiro lugar vem a cabeça, e a ela se liga o pescoço; depois o peito unido ao pescoço, e dele saem os ombros; o ventre adere ao peito; também os órgãos da geração estão ligados ao ventre; por fim, as coxas e os pés.

[178] E não apenas os membros guardam em todos a sua própria ordem e posição, mas também as partes dos membros.

[179] Pois na própria cabeça os ouvidos ocupam lugar fixo, os olhos lugar fixo, assim também as narinas, a boca e ainda os dentes e a língua.

[180] E embora todas essas coisas sejam as mesmas em todos os animais, há contudo uma diversidade infinita e multiforme nas coisas formadas, porque aquilo de que falei, sendo ora mais alongado, ora mais contraído, se encerra em traços que diferem de muitos modos.

[181] Que dizer?

[182] Não é isso divino: numa tão grande multidão de seres vivos, cada animal é excelente em sua própria classe e espécie, de sorte que, se alguma parte fosse transferida de um para outro, o resultado necessário seria nada haver mais desajeitado para o uso, nada mais disforme à vista; como se desses ao elefante um pescoço comprido, ou ao camelo um pescoço curto; ou se juntasses pés ou pelos às serpentes, nas quais o comprimento igualmente estendido do corpo nada mais exigia senão que, marcadas nas costas por manchas e sustentando-se em lisas escamas, se deslizassem por caminhos escorregadios em movimentos sinuosos.

[183] Mas nos quadrúpedes o mesmo Artífice prolongou a disposição da espinha, que se estende do topo da cabeça a maior comprimento pela parte externa do corpo, e a afilou numa cauda, para que as partes ofensivas do corpo fossem cobertas por causa de sua fealdade ou protegidas por causa de sua sensibilidade, e também para que, por seu movimento, certos animais pequenos e nocivos fossem afastados do corpo; e, se tirares esse membro, o animal será imperfeito e fraco.

[184] Mas onde há razão e mão, isso não é tão necessário quanto o revestimento de pelos.

[185] A tal ponto todas as coisas são ajustadas de modo convenientíssimo, cada uma em sua classe, que nada se pode imaginar mais inconveniente do que um quadrúpede nu ou um homem coberto de pelos.

[186] Ainda assim, embora a própria nudez no homem contribua maravilhosamente para a beleza, ela não era conveniente à cabeça; pois quão grande deformidade haveria nisso se mostra pela calvície.

[187] Por isso Ele cobriu a cabeça com cabelos; e, porque estaria no ponto mais alto, acrescentou-os como ornamento ao cimo supremo do edifício.

[188] E esse ornamento não é reunido em círculo nem arredondado à maneira de um boné, para que não ficasse desagradável deixando descobertas certas partes; mas se derrama livremente em alguns lugares e se retrai em outros, conforme a graça de cada região.

[189] Portanto, a fronte cercada por uma linha, os cabelos avançando das têmporas diante das orelhas, as partes superiores destas envolvidas à maneira de uma coroa e toda a parte de trás da cabeça coberta apresentam uma aparência de admirável formosura.

[190] Depois, a natureza da barba contribui de modo incrível para distinguir a maturidade dos corpos, ou a diferença de sexo, ou a beleza da virilidade e da força; de modo que parece que o sistema de toda a obra não estaria em harmonia se qualquer coisa tivesse sido feita de outro modo.

[191] Agora mostrarei o plano do homem inteiro e explicarei os usos e os hábitos dos diversos membros que no corpo se mostram à vista ou estão ocultos.

[192] Quando, portanto, Deus decidiu fazer somente o homem, dentre todos os animais, como ser celeste, e todos os demais como terrestres, levantou-o ereto para a contemplação do céu e o fez bípede, sem dúvida para que ele olhasse para a mesma região de onde tira sua origem; mas abaixou os outros para a terra, para que, como não têm esperança de imortalidade, lançados com o corpo inteiro ao chão, servissem ao apetite e ao alimento.

[193] Assim, a reta razão e a posição elevada somente do homem, bem como seu rosto, partilhado e muito semelhante ao de Deus seu Pai, proclamam sua origem e seu Autor.

[194] Sua mente, quase divina, porque alcançou domínio não apenas sobre os animais que estão na terra, mas até sobre seu próprio corpo, situada na parte mais alta, a cabeça, como numa cidadela elevada, observa e contempla todas as coisas.

[195] Deus formou esse palácio dela não alongado e estendido, como nos animais mudos, mas como um orbe e um globo, porque toda redondeza pertence a um plano e figura perfeitos.

[196] Portanto, a mente e aquele fogo divino são cobertos por ele como por uma abóbada; e, tendo coberto sua parte superior com um revestimento natural, ao mesmo tempo proveu e adornou a parte frontal, chamada rosto, com os serviços necessários dos membros.

[197] Primeiro, encerrou os globos dos olhos em cavidades côncavas, das quais Varrão pensou que a fronte derivou seu nome; e quis que não fossem nem menos nem mais de dois, porque nenhum número é mais perfeito quanto à aparência do que o dois; assim também fez dois os ouvidos, cuja duplicidade traz consigo incrível grau de beleza, tanto porque cada parte se adorna por semelhança, quanto para que as vozes vindas de ambos os lados sejam recolhidas com mais facilidade.

[198] Pois sua própria forma foi modelada de modo maravilhoso: não quis que suas aberturas ficassem nuas e descobertas, o que seria menos belo e menos útil, já que a voz poderia passar além do estreito espaço de simples cavidades e se dispersar, se as próprias aberturas não a contivessem, recebida por meandros ocos e retida da reverberação, como acontece com os pequenos vasos por cuja aplicação se costuma encher vasos de boca estreita.

[199] Esses ouvidos, portanto, que receberam seu nome do beber as vozes, razão pela qual Virgílio diz: “E com estes ouvidos bebi sua voz”; ou porque os gregos chamam à própria voz audēn, sendo assim as orelhas, aures, nomeadas como se fossem audes por mudança de uma letra —, Deus não quis formá-los de peles moles, que, caídas e flácidas, retirariam a beleza, nem de ossos duros e sólidos, para que, rígidos e imóveis, não fossem incômodos ao uso.

[200] Mas projetou algo intermediário, de modo que uma cartilagem mais macia os unisse e, assim, tivessem ao mesmo tempo firmeza conveniente e flexível.

[201] Neles foi posto apenas o ofício de portar, assim como nos olhos o de ver, cuja agudeza é especialmente inexplicável e admirável; pois Ele cobriu seus globos, que apresentam semelhança com pedras preciosas naquela parte com que devem ver, com membranas transparentes, para que as imagens dos objetos postos diante deles, refratadas como num espelho, penetrassem até a percepção mais íntima.

[202] Por meio dessas membranas, portanto, aquela faculdade que se chama mente vê as coisas exteriores; para que não penses que vemos quer pelo choque das imagens, como os filósofos discutem, já que o ofício de ver deve estar naquele que vê, não naquilo que é visto; quer pela tensão do ar juntamente com a vista; quer pelo derramamento dos raios, pois, se assim fosse, veríamos o raio na direção para a qual volvêssemos os olhos, até que o ar estendido com a vista ou os raios derramados chegassem ao objeto a ser visto.

[203] Mas, como vemos no mesmo instante de tempo e, muitas vezes, mesmo ocupados com outras tarefas contemplamos as coisas postas diante de nós, é mais verdadeiro e mais evidente que é a mente que, por meio dos olhos, vê as coisas colocadas diante dela, como através de janelas cobertas de cristal translúcido ou pedra transparente; e por isso frequentemente os olhos revelam a mente e a disposição interior.

[204] Para refutar isso, Lucrécio usou argumento muito insensato.

[205] Pois, se a mente, diz ele, vê através do olho, veria melhor se os olhos fossem arrancados e cavados, assim como portas arrancadas com seus batentes deixam entrar mais luz do que estando fechadas.

[206] Na verdade, os olhos dele, ou antes os de Epicuro que o ensinou, é que deveriam ter sido arrancados, para que não vissem, já que globos arrancados, fibras dos olhos rompidas, sangue escorrendo pelas veias, carne crescendo das feridas e cicatrizes cobrindo tudo ao final não admitem luz alguma; a menos que ele quisesse que os olhos fossem produzidos semelhantes a ouvidos, de sorte que víssemos não tanto com olhos como por aberturas, coisa mais feia e mais inútil do que isso não pode haver.

[207] Pois quão pouco veríamos se, das profundezas internas da cabeça, a mente prestasse atenção através de estreitas fendas de cavernas; assim como, se alguém quisesse olhar por um caule de cicuta, não veria mais do que a capacidade do próprio caule permitisse!

[208] Portanto, para a visão era antes necessário que os membros fossem reunidos num globo, para que a vista se estendesse em largura, e que as partes contíguas estivessem na frente do rosto, para contemplarem livremente todas as coisas.

[209] Assim, o indizível poder da providência divina fez dois globos em tudo semelhantes e os uniu de tal modo que pudessem não apenas voltar-se por completo, mas mover-se e ser dirigidos com moderação.

[210] E quis que os próprios globos estivessem cheios de uma umidade pura e clara, em cuja parte média ficassem encerradas faíscas de luz, que chamamos pupilas, nas quais, puras e delicadas, estão contidas a faculdade e a maneira de ver.

[211] A mente, portanto, dirige-se por meio desses globos para ver, e a visão dos dois olhos se mistura e se une de modo admirável.

[212] Agrada-me neste lugar censurar a tolice dos que, querendo mostrar que os sentidos são falsos, reúnem muitos exemplos em que os olhos se enganam; e entre eles este também: que aos loucos e aos embriagados todas as coisas parecem duplicadas, como se a causa desse erro fosse obscura.

[213] Pois isso acontece justamente porque há dois olhos.

[214] Mas ouve como acontece.

[215] A visão dos olhos consiste no esforço da alma.

[216] Portanto, como a mente, conforme foi dito acima, usa os olhos como janelas, isso acontece não apenas aos embriagados ou loucos, mas também aos que estão sãos e sóbrios.

[217] Pois, se puseres algum objeto demasiado perto, ele parecerá duplo, porque há certo intervalo e espaço em que as vistas dos olhos se encontram.

[218] Do mesmo modo, se recolheres a alma como que para a reflexão e relaxares o esforço da mente, então a visão de cada olho se separa e cada um começa a ver por si mesmo.

[219] Se, porém, novamente concentrares a mente e dirigires a vista, aquilo que parecia duplo se unirá num só.

[220] Que admiração há, então, se a mente, debilitada pelo veneno e pela força do vinho, não consegue dirigir-se ao ato de ver, assim como os pés, quando enfraquecidos pelo entorpecimento dos tendões, não conseguem dirigir-se ao caminhar, ou se a força da loucura lançada contra o cérebro desfaz a concordância dos olhos?

[221] E isso é tão verdadeiro que, no caso dos que têm um só olho, se ficarem loucos ou embriagados, de modo algum acontece que vejam qualquer objeto em duplicidade.

[222] Portanto, se é evidente a razão por que os olhos se enganam, é claro que os sentidos não são falsos; pois ou não se enganam, se estão puros e sãos, ou, se se enganam, ainda assim a mente não se engana, porque reconhece o erro deles.

[223] Mas voltemos às obras de Deus.

[224] Para que os olhos, portanto, fossem melhor protegidos contra dano, Ele os ocultou sob a cobertura das pestanas, das quais Varrão pensa que os olhos receberam seu nome.

[225] Pois as próprias pálpebras, nas quais há o poder do rápido movimento e às quais o palpitar dá seu nome, protegidas por pelos em ordem, oferecem aos olhos uma cerca muito conveniente; e o movimento contínuo delas, encontrando-se com incompreensível rapidez, não impede o curso da vista e ainda alivia os olhos.

[226] Pois a pupila, isto é, a membrana transparente, que não deve ser drenada nem ressecar, perde sua força se não for lavada por umidade contínua para brilhar claramente.

[227] E que direi das próprias extremidades das sobrancelhas, providas de curtos pelos?

[228] Não oferecem elas, como se fossem muralhas, proteção aos olhos, para que nada lhes caia de cima, e ao mesmo tempo ornamento?

[229] E o nariz, surgindo dos limites delas e estendendo-se, por assim dizer, em uma crista igual, ao mesmo tempo separa e protege os dois olhos.

[230] Também embaixo, uma elevação nada desagradável das faces, erguendo-se suavemente à semelhança de colinas, torna os olhos mais seguros de todos os lados; e o grande Artífice providenciou que, se acaso vier golpe mais violento, ele seja repelido pelas partes salientes.

[231] A parte superior do nariz até o meio foi feita sólida; mas a inferior foi feita com cartilagem mais macia acrescentada, para que pudesse ser flexível ao uso dos dedos.

[232] Além disso, neste único membro estão colocados três ofícios: um, o de puxar o ar; o segundo, o de cheirar; o terceiro, o de deixar escapar, por suas cavidades, as secreções do cérebro.

[233] E com que modo admirável, quão divino, Deus dispôs também essas coisas, para que a própria cavidade do nariz não deformasse a beleza do rosto — o que certamente teria acontecido, se houvesse apenas uma abertura única.

[234] Mas Ele a fechou e dividiu como se por uma parede traçada ao meio, e a tornou belíssima justamente por ser dupla.

[235] Disso compreendemos quanto peso o número duplo, tornado firme por uma única ligação simples, tem para a perfeição das coisas.

[236] Pois, embora o corpo seja um, ele não poderia ser constituído apenas de membros únicos, sem que houvesse partes à direita e à esquerda.

[237] Portanto, assim como os dois pés e também as duas mãos não só servem para alguma utilidade e exercício de caminhar ou de fazer alguma coisa, mas também conferem admirável forma e beleza, assim na cabeça, que é como a coroa da obra divina, a audição foi dividida pelo grande Artífice em duas orelhas, a visão em dois olhos e o olfato em duas narinas, porque o cérebro, em que está contido o sistema da sensação, embora seja um, divide-se em duas partes por uma membrana intermediária.

[238] Também o coração, que parece ser a morada da sabedoria, embora seja um, tem por dentro dois recessos, nos quais se contêm as fontes vivas do sangue, divididas por uma barreira no meio; para que, assim como no próprio mundo o governo principal, sendo duplo a partir de matéria simples ou simples a partir de matéria dupla, governa e mantém unido o todo, assim também no corpo todas as partes, construídas em pares, apresentem unidade inseparável.

[239] Também quão útil e quão belo é o aspecto e a abertura transversal da boca não se pode exprimir; e seu uso consiste em dois ofícios: o de receber alimento e o de falar.

[240] A língua, encerrada dentro dela, que por seus movimentos divide a voz em palavras e é intérprete da mente, contudo não pode cumprir sozinha o ofício da fala, se não bater sua ponta contra o céu da boca, se não for ajudada pelo choque contra os dentes ou pela compressão dos lábios.

[241] Os dentes, porém, contribuem ainda mais para a fala: pois as crianças não começam a falar antes de terem dentes, e os velhos, quando os perderam, balbuciam de tal modo que parecem ter retornado novamente à infância.

[242] Mas essas coisas pertencem somente ao homem, ou às aves, nas quais a língua, aguda e vibrando por movimentos determinados, exprime inúmeras inflexões de canto e diversos tipos de som.

[243] Tem, além disso, outro ofício, que exerce em todos, e este é o único nos animais mudos: recolhe o alimento quando já quebrado e moído pelos dentes e, comprimindo-o em bolos com sua força, o transmite ao ventre.

[244] Por isso Varrão pensa que o nome da língua foi dado por ligar o alimento.

[245] Ela auxilia também as bestas a beber: pois, estendendo e curvando a língua, puxam a água; e, depois de recebê-la na concavidade da língua, para que não escorra pela lentidão e demora, arremessam-na com rápida velocidade contra o palato.

[246] Ela, portanto, é coberta pela concavidade do palato como por uma concha, e Deus a cercou pelo recinto dos dentes como por um muro.

[247] Também os próprios dentes, dispostos em ordem de modo admirável, para que, nus e expostos, não fossem mais terror do que ornamento, Deus adornou com gengivas macias, assim chamadas por produzirem os dentes, e depois com a cobertura dos lábios; e a dureza dos dentes, como a de uma mó, é maior e mais áspera do que a dos demais ossos, para que possam bastar para triturar o alimento e o pasto.

[248] E quão convenientemente dividiu os próprios lábios, que antes pareciam unidos!

[249] O de cima, logo abaixo do meio das narinas, Ele assinalou com uma espécie de pequena cavidade, como um vale; o de baixo, graciosamente distendido, para efeito de beleza.

[250] Pois, quanto ao receber o sabor, engana-se quem quer que seja que julgue residir esse sentido no palato; é a língua pela qual os sabores são percebidos, e não ela toda: as partes mais delicadas de ambos os lados absorvem o sabor com percepções finíssimas.

[251] E, embora nada se diminua daquilo que é comido ou bebido, ainda assim o sabor penetra até o sentido de maneira indescritível, do mesmo modo que o ato de cheirar nada tira da matéria cheirada.

[252] E quão belas são as outras partes mal se pode exprimir.

[253] O queixo, suavemente descendo das faces, e sua parte inferior tão fechada que uma leve divisão impressa parece marcar-lhe a ponta extrema; o pescoço firme e bem arredondado; os ombros descendo do pescoço como por suaves lombadas; os antebraços fortes, atados por tendões para firmeza; a grande robustez dos braços superiores, salientando-se em músculos notáveis; a curvatura útil e bela dos cotovelos.

[254] Que direi das mãos, ministras da razão e da sabedoria?

[255] O Criador habilíssimo as fez planas e moderadamente côncavas, para que, se algo tivesse de ser segurado, pudesse repousar nelas convenientemente, e as terminou nos dedos, nos quais é difícil explicar se maior é a beleza ou a utilidade.

[256] Pois a perfeição e completude do número, a elegância da ordem e da gradação, a flexível curvatura das juntas iguais e a forma arredondada das unhas, envolvendo e fortalecendo com coberturas côncavas as pontas dos dedos, para que a maciez da carne não cedesse ao segurar algo, oferecem grande ornamento.

[257] Mas isto é útil de modos admiráveis: um dedo separado dos demais se eleva juntamente com a própria mão e cresce em direção diferente, e, apresentando-se como que ao encontro dos outros, possui sozinho, ou de modo especial, toda a força de segurar e de agir, como guia e diretor de todos os demais; e por isso mesmo recebeu o nome de polegar, porque prevalece entre os outros por força e poder.

[258] Ele tem duas articulações salientes, não três como os outros; mas uma é unida por carne à mão para efeito de beleza: pois, se tivesse três articulações e fosse todo separado, o aspecto torpe e inconveniente teria tirado da mão toda a graça.

[259] Além disso, a largura do peito, elevado e exposto aos olhos, mostra admirável dignidade de sua condição; e a causa disto é que Deus parece ter feito somente o homem como que reclinado com o rosto voltado para cima, pois quase nenhum outro animal consegue deitar-se sobre as costas.

[260] Já os animais mudos parecem ter sido formados como deitados de lado e comprimidos contra a terra.

[261] Por essa razão, deu-lhes peito estreito, retirado da vista e prostrado para o chão.

[262] Mas o do homem fez aberto e ereto, porque, estando cheio de razão dada do céu, não convinha que fosse baixo ou disforme.

[263] Também os mamilos, erguendo-se suavemente e coroados por pequenos círculos mais escuros, acrescentam certa beleza; foram dados às fêmeas para a nutrição dos filhotes, aos machos apenas para graça, para que o peito não parecesse disforme e, por assim dizer, mutilado.

[264] Abaixo dele está a superfície plana do ventre, em cujo meio o umbigo marca, com sinal não desagradável, o ponto em que se encontra, tendo sido feito para que por meio dele o filho, enquanto está no ventre, possa ser nutrido.

[265] Segue-se necessariamente que eu fale também das partes internas, às quais não foi atribuída beleza, porque estão ocultas à vista, mas utilidade incrível, pois era necessário que este corpo terreno fosse alimentado com certa umidade vinda do alimento e da bebida, assim como a própria terra o é pelas chuvas e geadas.

[266] O Artífice providentíssimo colocou em seu meio um receptáculo para os alimentos, por meio do qual, uma vez digeridos e liquefeitos, pudesse distribuir os sucos vitais a todos os membros.

[267] Mas, como o homem é composto de corpo e alma, aquele receptáculo de que falei acima dá nutrição apenas ao corpo; à alma, porém, Ele deu outra morada.

[268] Pois fez uma espécie de entranhas moles e delgadas, a que chamamos pulmões, nas quais o ar possa entrar por alternância de troca; e não os formou à maneira do útero, para que o sopro não se derramasse de uma vez só nem os inflasse de uma vez.

[269] E por isso não o fez como um intestino cheio, mas capaz de inflar-se e receber o ar, para que pouco a pouco recebesse o fôlego; enquanto o ar vital se espalha por aquela delgadeza, também pouco a pouco o devolvesse, tornando-se novamente a expandir-se a partir dela: pois a própria alternância de inspirar e expirar e o processo da respiração sustentam a vida no corpo.

[270] Visto, portanto, que há no homem dois receptáculos — um do ar, que alimenta a alma, outro do alimento, que alimenta o corpo —, deve haver no pescoço dois canais, um para o alimento e outro para o ar; o superior conduz da boca ao ventre, o inferior das narinas aos pulmões.

[271] E o plano e a natureza desses canais são diferentes: pois a passagem que vem da boca foi feita macia e, quando fechada, adere sempre a si mesma, como a própria boca; já que a bebida e o alimento, sendo corpóreos, abrem para si um espaço de passagem, afastando e abrindo a garganta.

[272] O fôlego, ao contrário, sendo incorpóreo e sutil, porque não podia abrir espaço por si mesmo, recebeu um caminho sempre aberto, chamado traqueia.

[273] Esta é composta de ossos flexíveis e macios, como anéis ajustados uns aos outros à maneira de um talo de cicuta, e este canal permanece sempre aberto.

[274] Pois o ar não pode sofrer interrupção em sua passagem; porque ele, que vai e volta continuamente, é contido como que por uma barreira mediante uma parte de membro utilmente baixada do cérebro, chamada úvula, para que, atraído pelo ar pestilento, não entre com ímpeto e estrague a delicadeza de sua morada nem leve toda a violência do dano às cavidades internas.

[275] E também por essa razão as narinas estão ligeiramente abertas, assim chamadas porque por elas não cessa de fluir ou o cheiro ou o ar, como se fossem portas deste canal.

[276] Contudo, esse tubo respiratório está aberto não apenas para as narinas, mas também para a boca, na região extrema do palato, onde as elevações das mandíbulas, voltadas para a úvula, começam a erguer-se em saliência.

[277] E a razão deste arranjo não é obscura: não teríamos o poder de falar se a traqueia estivesse aberta apenas para as narinas, como o caminho da garganta está aberto apenas para a boca; nem o ar que dela procede poderia produzir a voz sem o serviço da língua.

[278] Por isso a habilidade divina abriu um caminho para a voz a partir desse tubo respiratório, para que a língua pudesse cumprir seu ofício e, por seus golpes, dividir em palavras o curso uniforme da própria voz.

[279] E, se essa passagem for interceptada por qualquer motivo, necessariamente causará mudez.

[280] Certamente se engana quem pensa haver qualquer outra causa pela qual os homens sejam mudos.

[281] Pois eles não têm a língua presa, como vulgarmente se crê; mas expelem aquele sopro vocal pelas narinas, como se mugissem, porque ou não existe de todo passagem para a voz até a boca, ou ela não está suficientemente aberta para emitir a voz plena.

[282] E isso geralmente acontece por natureza; às vezes também sucede por acidente que essa entrada se bloqueia e não transmite a voz à língua, e assim torna mudos aqueles que poderiam falar.

[283] E, quando isso acontece, a audição também deve necessariamente ficar obstruída; de modo que, porque não pode emitir a voz, também se torna incapaz de recebê-la.

[284] Portanto, essa passagem foi aberta para o fim de falar.

[285] Ela também oferece esta vantagem: ao frequentar o banho, como as narinas não podem suportar o calor, o ar quente é aspirado pela boca; e, se o catarro contraído pelo frio vier a fechar os poros respiratórios das narinas, possamos puxar o ar pela boca, para que, se a passagem se obstruir, o fôlego não seja sufocado.

[286] Mas, recebido o alimento no estômago e misturado à umidade da bebida, depois de digerido pelo calor, seu suco, difundido de modo indescritível pelos membros, rega e revigora o corpo inteiro.

[287] Também as múltiplas voltas dos intestinos, seu comprimento enrolado sobre si mesmo e, no entanto, preso por uma só ligação, são obra admirável de Deus.

[288] Pois, quando o estômago expeliu de si o alimento amolecido, ele é aos poucos impelido por aquelas curvas dos intestinos, de modo que toda a umidade pela qual o corpo é nutrido se reparte entre todos os membros.

[289] E, contudo, para que não acontecesse em algum lugar de aderir e ficar retido — o que poderia ocorrer por causa dos retornos das espirais, que muitas vezes se dobram sobre si mesmas e não poderiam fazê-lo sem dano —, Ele espalhou por dentro sobre elas um suco mais espesso, para que as secreções do ventre pudessem passar com maior facilidade pela substância escorregadia até suas saídas.

[290] É também disposição muito hábil que a bexiga, da qual as aves não fazem uso, embora esteja separada dos intestinos e não tenha canal algum pelo qual possa atrair a urina deles, seja contudo enchida e distendida de umidade.

[291] E não é difícil ver como isso acontece.

[292] Pois as partes dos intestinos que recebem do ventre o alimento e a bebida são mais abertas do que as demais voltas e muito mais delicadas.

[293] Elas se enroscam ao redor e envolvem a bexiga; e, quando a comida e a bebida chegam a essas partes em estado misturado, o excremento se torna mais sólido e segue adiante, mas toda a umidade é filtrada por essas partes delicadas, e a bexiga, cuja membrana é igualmente fina e delicada, a absorve e recolhe, para expeli-la por onde a natureza abriu uma saída.

[294] Também sobre o útero e a concepção, já que tratamos das partes internas, é necessário dizer algo, para que não pareça que deixamos alguma coisa de fora; pois essas realidades, embora escondidas no interior, não podem escapar à percepção e ao entendimento.

[295] A veia nos machos, que contém a semente, é dupla, um pouco mais interna do que aquele receptáculo do humor obsceno.

[296] Pois, assim como há dois rins e também dois testículos, assim também há duas veias seminais, embora unidas numa só estrutura; o que vemos nos corpos dos animais quando, mortos, são abertos.

[297] Mas a da direita contém a semente masculina, a da esquerda, a feminina; e, em geral, em todo o corpo, a parte direita é masculina, a esquerda, porém, feminina.

[298] Alguns pensam que a própria semente procede apenas das medulas; outros, que flui do corpo inteiro para a veia genital e ali se condensa.

[299] Mas como isso acontece, a mente humana não pode compreender.

[300] De igual modo, nas fêmeas, o útero divide-se em duas partes, as quais, estendidas e recurvadas em direções diversas, se enrolam como chifres de carneiro.

[301] A parte que se volta para a direita é masculina; a que se volta para a esquerda é feminina.

[302] Varrão e Aristóteles julgam que a concepção se dá do seguinte modo.

[303] Dizem que não somente os machos possuem semente, mas também as fêmeas, e por isso muitas vezes os filhos se parecem com as mães; mas a semente delas seria sangue purificado e, se for corretamente misturada com a do homem, ambas se condensam e coagulem juntas, formando o ser; e primeiro, dizem, se forma o coração do homem, porque nele está toda a vida e a sabedoria; por fim, toda a obra se completaria no quadragésimo dia.

[304] Talvez tenham recolhido isso de abortos observados.

[305] Nos filhotes das aves, porém, não há dúvida de que os olhos são os primeiros a ser formados, como frequentemente percebemos nos ovos.

[306] Daí julgo não poder acontecer de outro modo senão que a formação tome início pela cabeça.

[307] Também pensam que as semelhanças nos corpos dos filhos se produzem assim.

[308] Quando as sementes, misturadas entre si, se unem, se a masculina prevalecer, nasce um filho semelhante ao pai, seja macho, seja fêmea; se a feminina prevalecer, a prole de qualquer sexo corresponderá à imagem materna.

[309] E prevalece, das duas, aquela que for mais abundante, pois a outra é de certo modo envolvida e encerrada por ela; daí resulta muitas vezes que a criança apresente os traços de apenas um dos progenitores.

[310] Se, porém, houver mistura equilibrada, em igual porção de semente de ambos, então também as formas se misturam, de modo que a prole comum parece não reproduzir inteiramente nenhum dos dois, porque não possui tudo de um só, ou parece reproduzir ambos, porque tomou uma parte de cada um.

[311] Pois vemos nos corpos dos animais ou que as cores dos pais se confundem e surge uma terceira, semelhante a nenhum dos geradores, ou que as duas se exprimem de tal maneira que, por membros de cores diversas, uma mistura harmoniosa se espalha por todo o corpo.

[312] Julga-se também que as naturezas discrepantes se formam desse modo.

[313] Se por acaso a semente de estirpe masculina cair na parte esquerda do útero, entende-se que nasce um macho; mas, por ter sido concebido na parte feminina, leva em si algo de feminino além do que a dignidade viril comporta: ou beleza excessiva, ou demasiada alvura, ou leveza do corpo, ou membros delicados, ou baixa estatura, ou voz fina, ou ânimo débil, ou vários desses traços.

[314] Do mesmo modo, se a semente do sexo feminino fluir para a parte direita, entende-se que nasce uma fêmea; mas, porque foi concebida na parte masculina, trará em si algo de virilidade além do que o sexo permite: ou membros robustos, ou estatura excessiva, ou cor mais escura, ou rosto áspero, ou aspecto desagradável, ou voz forte, ou ânimo ousado, ou vários desses traços.

[315] Se, porém, a semente masculina chegar ao lado direito e a feminina ao esquerdo, ambos os fetos se desenvolverão retamente, de modo que às mulheres permaneça em tudo o decoro de sua própria natureza e aos homens se conserve tanto no ânimo quanto no corpo a robustez viril.

[316] E quão admirável é este próprio instituto de Deus, que, para a conservação de cada uma das espécies, engendrou os dois sexos, macho e fêmea, os quais, unidos entre si pelos atrativos do prazer, produzem sucessão de filhos, para que a condição da mortalidade não extinga toda a raça dos viventes.

[317] Mas aos machos foi atribuída mais força, para que mais facilmente as fêmeas fossem levadas a suportar o jugo do matrimônio.

[318] O homem, portanto, recebeu esse nome porque há nele maior força do que na mulher; e daí também veio o nome da virtude.

[319] Do mesmo modo, a mulher, como interpreta Varrão, foi assim chamada por sua suavidade.

[320] E, quando ela concebeu o feto e o parto já começa a aproximar-se, os seios, inchando, enchem-se de sucos doces, e o peito fecundo transborda de fontes de leite para o alimento do recém-nascido.

[321] Pois convinha que um animal sábio tirasse alimento do coração.

[322] E isso também foi disposto com grande habilidade, para que aquele humor branco e rico irrigasse a delicadeza do novo corpo, até que ele fosse apto a receber alimentos mais fortes, instruído pelos dentes e robustecido pelas forças.

[323] Mas voltemos ao propósito, para expor brevemente o que ainda resta.

[324] Eu poderia agora expor-te também a admirável disposição dos próprios membros genitais, se o pudor não me afastasse de um discurso desse tipo; por isso deixemos veladas, sob a veste da modéstia, as partes que chamamos pudendas.

[325] Quanto a esse assunto, basta lamentar que homens ímpios e profanos cometam supremo sacrilégio, convertendo a obra divina e admirável de Deus, provida e realizada com razão inconcebível para a propagação da sucessão humana, ou em ganhos torpíssimos ou em obras vergonhosas de uma luxúria obscena, de modo que nada mais busquem de coisa tão santa senão prazer vazio e estéril.

[326] E quanto às demais partes do corpo?

[327] Estariam elas sem ordem e sem beleza?

[328] A carne arredondada nas nádegas, quão adaptada ao ofício de sentar!

[329] E também mais firme que nos outros membros, para que, sob a pressão do peso do corpo, não cedesse aos ossos.

[330] Também o comprimento das coxas, prolongado e fortalecido por músculos mais largos, para que sustente com maior facilidade o peso do corpo; e, como aos poucos se estreita, é delimitado pelos joelhos, cujas belas articulações oferecem uma curvatura muito apta a andar e a sentar.

[331] Também as pernas não foram estendidas de modo uniforme, para que uma figura desagradável não deformasse os pés; mas são ao mesmo tempo fortalecidas e adornadas por panturrilhas bem delineadas, salientando-se suavemente e diminuindo gradualmente.

[332] Mas nas plantas dos pés há o mesmo plano que nas mãos, embora muito diferente; pois, como são, por assim dizer, os fundamentos do corpo inteiro, o admirável Artífice não as fez de aparência redonda, para que o homem não fosse incapaz de permanecer de pé nem precisasse de outros pés para se sustentar, como acontece com os quadrúpedes; mas formou-as mais compridas e alongadas, para que, por sua planura, firmassem o corpo, razão pela qual receberam esse nome.

[333] Os dedos dos pés têm o mesmo número que os das mãos, mais por aparência do que por utilidade; e por isso são unidos entre si, curtos e dispostos por gradação; e o maior deles, porque não convinha que fosse separado dos demais como na mão, foi ordenado de tal modo que parece distinguir-se deles pela grandeza e pelo pequeno espaço intermediário.

[334] Essa bela união fortalece não pouco a pressão dos pés; pois não podemos ser impelidos à corrida a não ser quando, comprimindo os dedos contra o solo e apoiando-nos na terra, tomamos impulso e salto.

[335] Julgo ter explicado tudo aquilo cujo plano pode ser compreendido.

[336] Passo agora às coisas que são duvidosas ou obscuras.

[337] É evidente que há muitas coisas no corpo cuja força e finalidade ninguém pode perceber senão Aquele que as fez.

[338] Pode alguém supor que consegue explicar qual é a vantagem e qual o efeito daquela tênue membrana transparente com que o estômago é entretecido e coberto?

[339] Ou por que os rins são duplos?

[340] Varrão diz que eles assim se chamam porque deles se originam correntes de umidade impura; o que está muito longe da verdade, pois, nascendo de ambos os lados da espinha, estão unidos e separados dos intestinos.

[341] Qual é o uso do baço?

[342] E do fígado?

[343] Órgãos que parecem feitos de sangue desordenado.

[344] E da própria amargura da bile?

[345] E do coração?

[346] A menos que acaso devamos crer naqueles que pensam que o afeto da ira reside na bile, o do medo no coração e o da alegria no baço.

[347] Mas eles querem que o ofício do fígado seja, por seu abraço e calor, digerir no estômago o alimento; alguns pensam que os desejos das paixões amorosas estão contidos no fígado.

[348] Antes de tudo, a agudeza do sentido humano é incapaz de perceber essas coisas, porque seus ofícios estão ocultos; nem, quando abertos, mostram seus usos.

[349] Pois, se assim fosse, talvez os animais mais mansos não teriam bile alguma, ou teriam menos do que as feras; os mais tímidos teriam mais coração, os mais luxuriosos mais fígado, os mais brincalhões mais baço.

[350] Assim como percebemos que ouvimos com os ouvidos, vemos com os olhos e cheiramos com as narinas, também certamente perceberíamos que nos iramos com a bile, desejamos com o fígado e nos alegramos com o baço.

[351] Como, pois, não percebemos de forma alguma de que parte procedem tais afeições, é possível que venham de outra fonte e que esses órgãos tenham efeito diverso daquele que supomos.

[352] Não podemos provar, contudo, que os que discutem essas coisas falem falsamente.

[353] Mas penso que tudo o que se refere aos movimentos da mente e da alma é de natureza tão obscura e tão profunda que está acima do poder do homem enxergá-lo com clareza.

[354] Isto, porém, deve ser certo e indubitável: que tantas coisas e tantos órgãos têm um e o mesmo ofício, o de reter a alma no corpo.

[355] Mas qual ofício particular foi atribuído a cada um, quem pode sabê-lo, exceto o Artífice, a quem somente é conhecida sua própria obra?

[356] Mas que explicação poderemos dar da voz?

[357] Os gramáticos e os filósofos a definem como ar ferido pelo sopro, e daí as palavras receberiam seu nome; o que é claramente falso.

[358] Pois a voz não é produzida fora da boca, mas dentro; e, por isso, é mais provável aquela opinião segundo a qual o sopro, comprimido, ao atingir o obstáculo apresentado pela garganta, força a saída do som da voz: como quando fazemos descer o ar por um talo oco de cicuta aplicado aos lábios, e o sopro, reverberando na cavidade do talo e voltando do fundo, ao retornar encontra o ar descendente, e, esforçando-se para sair, produz um som; assim o vento, repercutindo em si mesmo, anima-se em sopro vocal.

[359] Agora, se isso é verdadeiro, Deus, o Artífice, o sabe.

[360] Pois a voz parece surgir não da boca, mas do peito mais interior.

[361] Enfim, mesmo quando a boca está fechada, um som, quanto possível, sai pelas narinas.

[362] Além disso, a voz não é produzida por aquele sopro muito forte com que ofegamos, mas por um sopro leve e não comprimido, tantas vezes quantas queremos.

[363] Portanto, ainda não se compreendeu de que modo isso acontece, nem o que seja de todo.

[364] E não imagines que agora estou caindo na opinião da Academia, pois nem tudo é incompreensível.

[365] Pois, assim como se deve confessar que muitas coisas são desconhecidas, porque Deus quis que excedessem o entendimento do homem, assim também é preciso reconhecer que há muitas que podem ser percebidas pelos sentidos e compreendidas pela razão.

[366] Mas dedicaremos um tratado inteiro à refutação dos filósofos.

[367] Terminemos, portanto, o percurso pelo qual agora corremos.

[368] Que também a natureza da mente é incompreensível, quem o ignora, senão aquele que é totalmente destituído de mente, já que não se sabe em que lugar ela está situada nem qual seja sua natureza?

[369] Por isso os filósofos discutiram muitas coisas a respeito de sua natureza e de seu lugar.

[370] Mas não esconderei qual é minha opinião; não para afirmá-la como certa — pois, em matéria duvidosa, isso é próprio de um tolo —, mas para que, depois de eu ter exposto a dificuldade da questão, compreendas quão grande é a magnitude das obras divinas.

[371] Alguns sustentam que a sede da mente está no peito.

[372] Mas, se assim é, quão admirável é que uma faculdade situada numa morada obscura e escura seja empregada em tão grande luz de razão e inteligência; e, além disso, que os sentidos de todas as partes do corpo convirjam a ela, de modo que pareça estar presente em qualquer região dos membros!

[373] Outros disseram que sua sede está no cérebro e, de fato, usaram argumentos plausíveis, dizendo que convinha sem dúvida que aquilo que tem o governo do corpo inteiro tivesse sua morada especialmente no lugar mais alto, como numa cidadela do corpo; e que nada deveria estar em posição mais elevada do que aquilo que governa tudo pela razão, assim como o próprio Senhor e Governador do universo está no lugar mais alto.

[374] Dizem depois que os órgãos que ministram cada sentido, isto é, audição, visão e olfato, estão situados na cabeça, e que os canais de todos eles conduzem não ao peito, mas ao cérebro; de outro modo, seríamos mais lentos no exercício dos sentidos, até que a força da sensação, por longo trajeto, descesse pelo pescoço até o peito.

[375] Estes, na verdade, não erram muito, ou talvez nem errem.

[376] Pois a mente, que exerce domínio sobre o corpo, parece estar colocada na parte mais alta, a cabeça, assim como Deus está no céu; mas, quando se ocupa em alguma reflexão, parece passar ao peito e, como que retirar-se a algum segredo recôndito, para tirar e extrair conselho como de um tesouro escondido.

[377] E por isso, quando estamos atentos à reflexão, e quando a mente, ocupada, se recolheu ao íntimo, costumamos nem ouvir as coisas que soam ao redor, nem ver as coisas que se acham diante do caminho.

[378] Mas, seja isso assim ou não, certamente é admirável como isso acontece, já que não há passagem do cérebro ao peito.

[379] E, se não for assim, ainda assim não é menos admirável que, por algum plano divino, seja causado que assim pareça.

[380] Quem deixará de admirar que aquela faculdade viva e celeste, chamada mente ou alma, tenha tamanha volubilidade que não descanse nem mesmo quando dorme; tamanha rapidez que, num só momento, percorra todo o céu e, se quiser, atravesse mares, percorra terras e cidades e, em suma, ponha diante de si todas as coisas que lhe aprouver, por mais remotas e distantes que estejam?

[381] E alguém se admirará, então, de que a mente divina de Deus, estendida por todas as partes do universo, corra de um lado a outro e governe tudo, dirija tudo, estando em toda parte presente e difundida, quando a força e o poder da mente humana, embora encerrados dentro de um corpo mortal, são tão grandes que nem mesmo as barreiras deste corpo pesado e lento, ao qual ela está ligada, conseguem contê-la para impedir que ela conceda a si mesma, em sua impaciência de repouso, a faculdade de vagar sem freio?

[382] Portanto, quer a mente tenha sua morada na cabeça, quer no peito, quem pode compreender que poder de razão faz com que aquela faculdade incompreensível permaneça fixa ou na medula do cérebro ou naquele sangue dividido em duas partes que está encerrado no coração, e não inferir daí quão grande é o poder de Deus, já que a alma não vê a si mesma, nem sua natureza, nem onde está; e, se visse, ainda assim não poderia perceber de que modo uma substância incorpórea se une a outra corpórea?

[383] Ou, se a mente não tem sede fixa, mas corre dispersa por todo o corpo — o que é possível, e foi afirmado por Xenócrates, discípulo de Platão —, então, uma vez que a inteligência está presente em todas as partes do corpo, não se pode entender o que é essa mente nem quais sejam suas qualidades, pois sua natureza é tão sutil e refinada que, embora infundida em órgãos sólidos por uma percepção viva e, por assim dizer, ardente, mistura-se com todos os membros.

[384] Mas toma cuidado para nunca julgar provável, como disse Aristóxeno, que a mente não tenha existência própria, e que a faculdade da percepção provenha da constituição do corpo e da construção dos órgãos, assim como a harmonia existe na lira.

[385] Pois os músicos chamam harmonia ao tensionamento e sonoridade das cordas em suas completas proporções, sem qualquer golpe de notas discordantes.

[386] Eles querem, portanto, que a alma exista no homem de modo semelhante àquele em que existe a modulação harmoniosa na lira; isto é, que a firme união das partes separadas do corpo e o vigor de todos os membros concordando entre si produzam aquele movimento perceptível e ajustem a mente, assim como coisas bem tensionadas produzem som harmonioso.

[387] E, assim como na lira, quando algo se rompe ou afrouxa, todo o sistema do som se perturba e se destrói, assim também no corpo, quando alguma parte dos membros sofre lesão, todos se enfraquecem e, corrompidos e confundidos, o poder da percepção é destruído; e isso se chama morte.

[388] Mas ele, se tivesse possuído alguma mente, jamais teria transferido da lira para o homem a noção de harmonia.

[389] Pois a lira não pode por si mesma emitir som, de modo que nisso não há comparação nem semelhança com um ser vivo; mas a alma tanto reflete quanto se move por si mesma.

[390] E, se houvesse em nós algo semelhante à harmonia, isso seria movido por golpe vindo de fora, assim como as cordas da lira pelas mãos; ao passo que, sem o manejo do artista e o toque dos dedos, elas jazem mudas e imóveis.

[391] Sem dúvida ele deveria ter-se golpeado com a mão para finalmente perceber, pois sua mente, mal compactada de seus membros, estava em torpor.

[392] Resta falar da alma, embora seu sistema e sua natureza não possam ser percebidos.

[393] E, no entanto, não deixamos de compreender que a alma é imortal, porque tudo o que é vigoroso, move-se por si mesmo sempre, não pode ser visto nem tocado, deve ser eterno.

[394] Mas o que seja a alma ainda não é ponto pacífico entre os filósofos, e talvez jamais o será.

[395] Alguns disseram que ela é sangue, outros que é fogo, outros vento, de onde teria recebido o nome de anima ou animus, porque em grego o vento se chama anemos; e, contudo, nenhum deles parece ter dito algo adequado.

[396] Pois, se a alma parece extinguir-se quando o sangue é derramado por uma ferida ou quando é consumido pelo calor das febres, não se segue daí que a essência da alma deva ser colocada na matéria do sangue; como se surgisse uma questão sobre a natureza da luz de que nos servimos e alguém respondesse que ela é óleo, porque, consumido este, a luz se apaga; sendo que são claramente coisas diferentes, embora uma seja o alimento da outra.

[397] Portanto, a alma parece semelhante à luz, pois não é ela mesma sangue, mas é nutrida pela umidade do sangue, assim como a luz pelo óleo.

[398] Os que supuseram que ela é fogo usaram este argumento: quando a alma está presente, o corpo está quente; quando ela parte, o corpo esfria.

[399] Mas o fogo é sem percepção, é visível e queima ao toque.

[400] Já a alma é dotada de percepção, não pode ser vista e não queima.

[401] Daí é evidente que a alma é algo semelhante a Deus.

[402] Já os que pensam que ela é vento são enganados por isto: parecemos viver por atrair o ar com a respiração.

[403] Varrão dá esta definição: “A alma é ar concebido na boca, aquecido nos pulmões, aquecido ainda mais no coração e difundido pelo corpo.”

[404] Essas coisas são manifestamente falsas.

[405] Pois digo que a natureza desse tipo de coisas não é tão obscura que não entendamos sequer aquilo que não pode ser verdadeiro.

[406] Se alguém me dissesse que o céu é de bronze, ou de cristal, ou, como Empédocles afirma, que é ar congelado, eu deveria assentir de imediato só porque não sei de que matéria é o céu?

[407] Pois, assim como não sei uma coisa, sei a outra.

[408] Portanto, a alma não é o ar concebido na boca, porque a alma é produzida muito antes que o ar possa ser concebido na boca.

[409] Pois ela não é introduzida no corpo depois do nascimento, como parece a alguns filósofos, mas imediatamente depois da concepção, quando a necessidade divina formou o ser no ventre; pois vive dentro das entranhas da mãe de tal forma que cresce no desenvolvimento e se deleita em saltar com repetidos movimentos.

[410] Em suma, deve haver aborto se o ser vivo dentro do ventre morrer.

[411] As outras partes da definição deles se referem a isto: que durante os nove meses em que estivemos no ventre parecemos ter estado mortos.

[412] Logo, nenhuma dessas três opiniões é verdadeira.

[413] Não podemos, contudo, dizer que os que sustentaram tais posições erraram a tal ponto que nada disseram de útil; pois vivemos ao mesmo tempo pelo sangue, pelo calor e pelo sopro.

[414] Mas, como a alma existe no corpo pela união de todas essas coisas, eles não expressaram o que ela é em sentido próprio; pois, assim como não pode ser vista, também não pode ser exprimida.

[415] Segue-se outra investigação, por si mesma inexplicável: se a alma e a mente são a mesma coisa, ou se há uma faculdade pela qual vivemos e outra pela qual percebemos e discernimos.

[416] Não faltam argumentos de um e de outro lado.

[417] Pois os que dizem que são uma única faculdade usam este argumento: não podemos viver sem percepção, nem perceber sem vida; e, portanto, aquilo que não pode ser separado não pode ser diferente, mas seja o que for tem ao mesmo tempo o ofício de viver e o método da percepção.

[418] Por isso dois poetas epicuristas falam indiferentemente da mente e da alma.

[419] Mas os que dizem que são diferentes argumentam assim: que a mente é uma coisa e a alma outra pode ser compreendido pelo fato de que a mente pode extinguir-se permanecendo a alma ilesa, o que costuma acontecer no caso dos loucos; e também porque a alma é posta em repouso pela morte, a mente pelo sono, e de tal modo que não apenas ignora o que acontece e onde está, mas até se deixa enganar pela contemplação de objetos falsos.

[420] E como isso acontece não pode ser percebido exatamente; por que acontece pode ser percebido.

[421] Pois não podemos de modo algum descansar, a não ser que a mente seja mantida ocupada pelas semelhanças das visões.

[422] Mas a mente jaz escondida, oprimida pelo sono, como fogo coberto por cinzas; mas, se a agitas um pouco, torna a flamejar e, por assim dizer, desperta.

[423] Assim, é chamada para longe por imagens, até que os membros, umedecidos pelo sono, sejam revigorados; pois o corpo, enquanto a percepção está desperta, embora fique imóvel, não está em repouso, porque a percepção arde nele e vibra como chama, e mantém ligados a si todos os membros.

[424] Mas, quando a mente é transferida de sua aplicação à contemplação das imagens, então enfim o corpo inteiro se dissolve em repouso.

[425] E a mente é afastada do pensamento escuro quando, sob a influência da escuridão, começou a ficar sozinha consigo mesma.

[426] Enquanto está atenta às coisas sobre as quais reflete, o sono se insinua de repente e o próprio pensamento se volta imperceptivelmente às aparências mais próximas; assim, começa também a ver as coisas que havia posto diante dos próprios olhos.

[427] Depois avança mais e encontra distrações para si, para não interromper o descanso mais salutar do corpo.

[428] Pois, assim como a mente durante o dia é desviada por visões verdadeiras, para que não durma, assim durante a noite é desviada por visões falsas, para que não seja despertada.

[429] Pois, se não percebesse imagem alguma, seguir-se-ia necessariamente ou que está acordada, ou que está adormecida numa morte perpétua.

[430] Portanto, o sistema dos sonhos foi dado por Deus para o bem do sono; e, na verdade, foi dado em comum a todos os animais, mas especialmente ao homem, para que, ao dar esse sistema em razão do descanso, Deus reservasse para si o poder de ensinar ao homem as coisas futuras por meio do sonho.

[431] Pois muitos relatos testemunham que houve sonhos de cumprimento imediato e notável, e as respostas dos nossos profetas tiveram caráter de sonho.

[432] Por isso os sonhos não são sempre verdadeiros nem sempre falsos, como testemunhou Virgílio, que supôs haver duas portas para a passagem dos sonhos.

[433] Mas os falsos são vistos para o bem do sono; os verdadeiros são enviados por Deus, para que por essa revelação conheçamos os bens ou males iminentes.

[434] Também pode surgir a questão de saber se a alma é produzida pelo pai, ou antes pela mãe, ou de fato por ambos.

[435] Mas penso que esse juízo deve ser formado como em matéria duvidosa.

[436] Pois nenhuma dessas três opiniões é verdadeira, porque as almas não são produzidas nem de ambos nem de um só deles.

[437] Pois um corpo pode ser produzido de um corpo, já que algo é contribuído por ambos; mas a alma não pode ser produzida de almas, porque nada pode partir de uma realidade sutil e incompreensível.

[438] Portanto, o modo da produção das almas pertence inteiramente a Deus somente.

[439] “Enfim, todos nós procedemos de semente celeste, todos temos o mesmo Pai”, como diz Lucrécio.

[440] Pois dos mortais nada pode ser gerado senão o que é mortal.

[441] Nem deve ser tido por pai aquele que de modo algum percebe ter transmitido ou soprado de si uma alma; nem, se o percebe, compreende em sua mente quando ou de que maneira esse efeito se produz.

[442] Daí é evidente que as almas não são dadas pelos pais, mas por um só e mesmo Deus e Pai de todos, que sozinho possui a lei e o método de seu nascimento, pois só Ele as produz.

[443] Porque a parte do pai terreno nada mais é do que, com sensação de prazer, emitir a umidade do corpo, na qual está a matéria do nascimento, ou recebê-la; e a esse trabalho se limita o poder do homem, que não possui poder algum além disso.

[444] Portanto, os homens desejam o nascimento de filhos, justamente porque não o realizam por si mesmos.

[445] Tudo o que vai além disso é obra de Deus: a própria concepção, a formação do corpo, a insuflação da vida, o parto seguro e tudo o que depois contribui para a preservação do homem.

[446] É dom dele que respiremos, vivamos e tenhamos vigor.

[447] Pois, além de lhe devermos sua bondade no fato de estarmos seguros em corpo e de Ele nos fornecer alimento de muitas fontes, Ele também dá ao homem sabedoria, coisa que nenhum pai terreno pode de modo algum conceder.

[448] E por isso acontece frequentemente que nasçam filhos tolos de pais sábios e filhos sábios de pais tolos, o que alguns atribuem ao destino e aos astros.

[449] Mas agora não é tempo de discutir o assunto do destino.

[450] Basta dizer isto: mesmo que os astros mantenham reunida a eficácia de todas as coisas, ainda assim é certo que tudo é feito por Deus, que tanto fez como dispôs os próprios astros.

[451] Portanto, são insensatos os que tiram esse poder de Deus e o atribuem à sua obra.

[452] Quis Ele, pois, que estivesse em nosso próprio poder usar ou não usar este dom divino e excelente de Deus.

[453] Pois, concedendo-o, vinculou o próprio homem pelo mistério da virtude, por meio do qual ele pode alcançar a vida.

[454] Pois grande é o poder, grande a razão, grande o misterioso propósito do homem; e, se alguém não o abandonar nem trair sua fidelidade e dedicação, deve ser bem-aventurado.

[455] Em suma, para resumir a matéria em poucas palavras, ele deve necessariamente assemelhar-se a Deus.

[456] Pois erra quem julga o homem por sua carne.

[457] Este corpo vil com que estamos vestidos é o receptáculo do homem.

[458] Pois o próprio homem não pode ser tocado, nem visto, nem agarrado, porque jaz escondido dentro deste corpo visível.

[459] E, se ele for mais luxuoso e delicado nesta vida do que a natureza exige, se desprezar a virtude e se entregar à busca das concupiscências carnais, cairá e será comprimido para a terra; mas, se, como é seu dever, mantiver pronta e constantemente sua posição, que é a correta para ele e que justamente obteve, se não se deixar escravizar pela terra, que deve pisar e vencer, então obterá a vida eterna.

[460] Estas coisas te escrevi, Demetriano, por ora em poucas palavras, e talvez com mais obscuridade do que convinha, segundo a necessidade das circunstâncias e do tempo, com o que deves contentar-te, já que receberás coisas maiores e melhores, se Deus nos favorecer.

[461] Então, por conseguinte, te exortarei com maior clareza e verdade ao aprendizado da verdadeira filosofia.

[462] Pois determinei pôr por escrito tantas coisas quantas puder, referentes à condição de uma vida feliz; e isso precisamente contra os filósofos, já que são perniciosos e poderosos para perturbar a verdade.

[463] Pois a força de sua eloquência é incrível, e sua sutileza em argumentar e disputar pode facilmente enganar qualquer um; e nós os refutaremos em parte com nossas próprias armas, em parte com armas tomadas de suas mútuas contendas, para que fique evidente que introduziram antes o erro do que o removeram.

[464] Talvez te admires de que eu ouse empreender obra tão grande.

[465] Havemos então de permitir que a verdade seja apagada ou esmagada?

[466] Eu, na verdade, preferiria fracassar mesmo debaixo desse peso.

[467] Pois, se Marco Túlio, exemplo incomparável da própria eloquência, foi muitas vezes vencido por homens destituídos de instrução e de eloquência — os quais, contudo, lutavam por aquilo que era verdadeiro —, por que desesperaríamos de que a própria verdade, por sua força e clareza próprias, prevaleça contra a eloquência enganosa e capciosa?

[468] Eles costumam professar-se defensores da verdade; mas quem pode defender aquilo que não aprendeu ou tornar claro aos outros aquilo que ele mesmo não conhece?

[469] Parece que prometo algo grande; mas precisamos do favor do céu, para que nos sejam dados capacidade e tempo para seguir nosso propósito.

[470] Mas, se a vida deve ser desejada por um homem sábio, certamente eu não desejaria viver por outra razão senão a de realizar algo que seja digno da vida e útil aos meus leitores, se não pela eloquência, porque há em mim apenas um pequeno fluxo dela, ao menos pelo viver, que é sobretudo necessário.

[471] E, quando tiver realizado isso, pensarei que vivi o suficiente e que cumpri o dever de um homem, se meu trabalho tiver libertado alguns homens dos erros e os tiver dirigido ao caminho que conduz ao céu.

VCirculi

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