Aviso ao leitor
O texto frequentemente chamado de - Martinho Lutero — “A Liberdade do Cristão” / De Libertate Christiana - é apresentado aqui como literatura teológica da Reforma Protestante (séc. XVI), escrito no contexto dos debates sobre fé, graça, justificação, obras e vida cristã. A obra é historicamente importante por articular a tensão entre a liberdade do cristão diante de Deus pela fé e o serviço amoroso ao próximo. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa, nem deve ser tratado como Escritura ou como norma doutrinária universal. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, teológica e comparativa, ajudando a compreender a espiritualidade e a argumentação reformadora de Lutero, sem implicar canonização nem equiparação de autoridade às Escrituras reconhecidas por qualquer tradição cristã.
ATENÇÃO
O escrito de Martinho Lutero, conhecido como A Liberdade do Cristão, deve ser lido com atenção crítica especial, pois é uma obra teológica, pastoral e reformadora, escrita no contexto das tensões iniciais da Reforma Protestante e centrada na relação entre fé, graça, justificação, obras e vida cristã.
Sua leitura exige cuidado porque o texto apresenta uma formulação poderosa e paradoxal da liberdade cristã: o cristão é livre diante de Deus pela fé, mas também servo de todos pelo amor. Embora essa ênfase possua grande valor espiritual e bíblico, ela deve ser lida com discernimento para evitar tanto o erro do antinomismo, que despreza a obediência e a responsabilidade moral, quanto o erro do legalismo, que transforma obras em fundamento de salvação. Também é necessário distinguir entre a crítica de Lutero aos abusos religiosos de seu tempo, os contornos próprios da teologia luterana e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
Sua preservação nesta biblioteca se dá por alto valor histórico, teológico, pastoral e crítico, especialmente para compreender a doutrina reformadora da fé, a relação entre liberdade e serviço, e o lugar das obras como fruto da graça, não como causa da salvação. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre liberdade evangélica, crítica reformadora, ênfase confessional luterana e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] V. O destinatário e receptor da dádiva de Deus é o mundo pecador.[2] Em nosso quadro também figura o recebedor: o mundo. Recebedor abominável, parece-me, indizivelmente abominável.[3] Com que o há merecido? Por acaso o mundo não é a noiva de Satanás, o inimigo de Deus e seu maior blasfemador?[4] O maior inimigo de nosso Deus é o diabo — porém o segundo somos nós, que sem Cristo somos filhos do diabo.[5] Pois bem: assim como têm tomado consciência do que é Deus, e do Filho de Deus, e de como esse Filho é a dádiva de Deus, grave agora também em seu coração a imagem fiel do que é o mundo.[6] O mundo não é outra coisa que uma massa de homens que não crêem em Deus, que o consideram por mentiroso, que blasfemam de Seu santo Nome, que desprezam Sua palavra, que desobedecem a pai e mãe, que cometem adultério, que caluniam, furtam e praticam toda sorte de outras maldades.[7] Salta à vista que no mundo impera a infidelidade, a blasfêmia e todo quanto vício que se possa catalogar.[8] E a essa amada noiva e filha, que é inimiga de Deus, que Ele dá seu Filho.[9] Eis aqui outro fator que dá realce à dádiva: que nosso Deus e Senhor não se afasta enojado desse mundo ruim, mas sim que traga de um só golpe todas as iniquidades dos homens: as blasfêmias que proferem contra Seu nome, e a transgressão de todos Seus mandamentos.[10] Apesar de toda grandeza como presenteador, Deus realmente deveria sentir uma profunda repugnância ante o mundo e sua maldade, já que os pecados do mundo não têm soma.[11] E, no entanto, Deus vence a maldade e apaga os pecados contra a primeira e a segunda tábua da Lei e já não quer saber mais nada deles.[12] Não deveria ter amor e confiança para com Aquele que quita os pecados e ama o mundo com todas suas transgressões? E que inumeráveis elas são![13] Não há homem que possa contar seus próprios pecados — quem poderia contar os do mundo todo?[14] E, não obstante, o Evangelho nos diz que Deus há dado a Seu Filho “ao mundo”.[15] Não pode então caber a menor dúvida: se Deus ama o mundo que blasfema Dele, a remissão dos pecados tem que ser uma realidade incontrovertível.[16] Se Deus pode dar ao mundo, que é seu inimigo, um presente tão grande, ou melhor ainda, se Ele mesmo se entrega ao mundo, como Ele pode odiar o mundo?[17] Que coração não deveria encher-se de regozijo diante do fato de que Deus mesmo intervém na miséria humana e dá Seu amado Filho aos homens malfeitores?[18] Que malfeitor fui, por exemplo, eu mesmo, que durante anos li a missa e crucifiquei a Cristo, e pratiquei todas as idolatrias próprias da vida monástica![19] E apesar de ter-lhe ofendido tanto, me conduziu ao conhecimento de Seu Filho e de si mesmo — tal é Seu amor para comigo, sua criatura pecaminosa, que não recordará de todo o mal que lhe fiz.[20] Oh Senhor Deus, que homem deve ser aquele que, em vista de tudo isso, ainda persiste em sua ingratidão![21] Gozo, indizível gozo deveria nos encher e gostosamente deveríamos não só servir-Lhe, mas também sofrer tudo, e rir quando tivéssemos que morrer por causa Dele, nosso amoroso Pai que nos há dado um tesouro tal como esse.[22] Não deveria eu sofrer prazerosamente até mesmo a morte na fogueira como fiel testemunha de meu Senhor, se essa fé me anima?[23] Se isso não acontece, se esse gozo não se produz, agradeçamos isso à nossa incredulidade que nos freia.[24] Assim, pois, temos visto o enorme que é tudo isso: o doador, Seu amor, Seu dom, o recebê-lo, e também a pessoa que o recebe.

