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[1] V. O destinatário e receptor da dádiva de Deus é o mundo pecador.

[2] Em nosso quadro também figura o recebedor: o mundo. Recebedor abominável, parece-me, indizivelmente abominável.

[3] Com que o há merecido? Por acaso o mundo não é a noiva de Satanás, o inimigo de Deus e seu maior blasfemador?

[4] O maior inimigo de nosso Deus é o diabo — porém o segundo somos nós, que sem Cristo somos filhos do diabo.

[5] Pois bem: assim como têm tomado consciência do que é Deus, e do Filho de Deus, e de como esse Filho é a dádiva de Deus, grave agora também em seu coração a imagem fiel do que é o mundo.

[6] O mundo não é outra coisa que uma massa de homens que não crêem em Deus, que o consideram por mentiroso, que blasfemam de Seu santo Nome, que desprezam Sua palavra, que desobedecem a pai e mãe, que cometem adultério, que caluniam, furtam e praticam toda sorte de outras maldades.

[7] Salta à vista que no mundo impera a infidelidade, a blasfêmia e todo quanto vício que se possa catalogar.

[8] E a essa amada noiva e filha, que é inimiga de Deus, que Ele dá seu Filho.

[9] Eis aqui outro fator que dá realce à dádiva: que nosso Deus e Senhor não se afasta enojado desse mundo ruim, mas sim que traga de um só golpe todas as iniquidades dos homens: as blasfêmias que proferem contra Seu nome, e a transgressão de todos Seus mandamentos.

[10] Apesar de toda grandeza como presenteador, Deus realmente deveria sentir uma profunda repugnância ante o mundo e sua maldade, já que os pecados do mundo não têm soma.

[11] E, no entanto, Deus vence a maldade e apaga os pecados contra a primeira e a segunda tábua da Lei e já não quer saber mais nada deles.

[12] Não deveria ter amor e confiança para com Aquele que quita os pecados e ama o mundo com todas suas transgressões? E que inumeráveis elas são!

[13] Não há homem que possa contar seus próprios pecados — quem poderia contar os do mundo todo?

[14] E, não obstante, o Evangelho nos diz que Deus há dado a Seu Filho “ao mundo”.

[15] Não pode então caber a menor dúvida: se Deus ama o mundo que blasfema Dele, a remissão dos pecados tem que ser uma realidade incontrovertível.

[16] Se Deus pode dar ao mundo, que é seu inimigo, um presente tão grande, ou melhor ainda, se Ele mesmo se entrega ao mundo, como Ele pode odiar o mundo?

[17] Que coração não deveria encher-se de regozijo diante do fato de que Deus mesmo intervém na miséria humana e dá Seu amado Filho aos homens malfeitores?

[18] Que malfeitor fui, por exemplo, eu mesmo, que durante anos li a missa e crucifiquei a Cristo, e pratiquei todas as idolatrias próprias da vida monástica!

[19] E apesar de ter-lhe ofendido tanto, me conduziu ao conhecimento de Seu Filho e de si mesmo — tal é Seu amor para comigo, sua criatura pecaminosa, que não recordará de todo o mal que lhe fiz.

[20] Oh Senhor Deus, que homem deve ser aquele que, em vista de tudo isso, ainda persiste em sua ingratidão!

[21] Gozo, indizível gozo deveria nos encher e gostosamente deveríamos não só servir-Lhe, mas também sofrer tudo, e rir quando tivéssemos que morrer por causa Dele, nosso amoroso Pai que nos há dado um tesouro tal como esse.

[22] Não deveria eu sofrer prazerosamente até mesmo a morte na fogueira como fiel testemunha de meu Senhor, se essa fé me anima?

[23] Se isso não acontece, se esse gozo não se produz, agradeçamos isso à nossa incredulidade que nos freia.

[24] Assim, pois, temos visto o enorme que é tudo isso: o doador, Seu amor, Seu dom, o recebê-lo, e também a pessoa que o recebe.

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