Aviso ao leitor
O texto frequentemente chamado de - Martinho Lutero — “Como Orar” - é apresentado aqui como literatura reformada/devocional e pastoral, ligada à tradição de instrução espiritual de Lutero sobre a oração cristã, especialmente a partir de textos como o Pai Nosso, os mandamentos e a prática cotidiana da fé. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa, nem deve ser tratado como Escritura ou como norma doutrinária universal. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, formativa e comparativa, ajudando a compreender a espiritualidade prática da Reforma e seus modos de ensinar oração, piedade e dependência de Deus, sem implicar canonização nem equiparação de autoridade às Escrituras reconhecidas por qualquer tradição cristã.
ATENÇÃO
O escrito de Martinho Lutero, conhecido como Como Orar, deve ser lido com atenção crítica especial, pois é um texto devocional, pastoral e reformador, voltado à instrução prática da oração cristã dentro do ambiente espiritual da Reforma Protestante.
Sua leitura exige cuidado porque, embora trate de um tema central da vida cristã, o texto reflete os contornos próprios da piedade luterana, com ênfase na Palavra, na fé, na dependência da graça e na oração simples diante de Deus. Também pode conter críticas indiretas ou diretas a práticas devocionais medievais, fórmulas mecânicas de religiosidade e usos supersticiosos da oração. Por isso, não deve ser lido como manual universal e absoluto de toda espiritualidade cristã, mas como testemunho histórico e pastoral de uma forma reformadora de ensinar a vida de oração.
Sua preservação nesta biblioteca se dá por valor histórico, teológico, devocional e crítico, especialmente para compreender como Lutero orientava a oração, a meditação nas escrituras e a relação do cristão com Deus em meio às tensões de seu tempo. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre instrução pastoral legítima, ênfase devocional luterana, crítica reformadora ao contexto medieval e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] A sétima petição:
“Mas livra-nos do mal”[2] Diga: Ah, querido Senhor, Deus e Pai, esta vida miserável é tão cheia de aflição e infelicidade, tão cheia de perigo e insegurança, tão repleta de deslealdade e maldade (como diz São Paulo: “Os dias são maus” — Efésios 5.16), que bem deveríamos estar cansados da vida e desejosos da morte.[3] Tu, porém, Pai amado, conheces nossa fraqueza.[4] Por isso, ajuda-nos a atravessar seguros esses múltiplos males e maldades.[5] E quando chegar a hora, dá-nos um fim misericordioso e uma despedida venturosa deste vale de aflição.[6] Que não nos amedrontemos diante da morte, nem desanimemos, mas, com fé resoluta, entreguemos nossas almas em tuas mãos. Amém.[7] Por fim, observe que de cada vez você tem que fazer o amém bem forte, sem duvidar de que Deus o está ouvindo com certeza, com toda a graça, e diz sim à sua oração.[8] E lembre-se de que não está sozinho ajoelhado ou parado. Toda a cristandade ou todos os cristãos devotos estão com você, e você entre eles, em oração unânime e concorde, a qual Deus não pode desprezar.[9] E não largue da oração, a não ser que tenha dito ou pensado: Bem, esta oração foi ouvida por Deus, disso tenho certeza e o sei de verdade. Isso é o que significa “Amém”.[10] Igualmente você deve saber que não quero que todas estas palavras sejam ditas na oração. Isso acabaria dando num palavrório e pura conversa vazia, recitado do livro ou da letra como o foram o rosário entre os leigos e as orações dos padres e monges.[11] Muito pelo contrário, quero com isso ter estimulado e ensinado o coração, acerca dos pensamentos que se deve ter durante o pai-nosso.[12] E a esses o coração (quando estiver bem aquecido e disposto a orar) pode expressar muito bem com muitas outras palavras, também com menos ou mais palavras.[13] Pois eu mesmo também não me prendo a essas palavras e sílabas, mas as falo hoje de um jeito, amanhã de outro, conforme estou propenso e disposto. Mesmo assim, sempre me atenho, o quanto posso, a este mesmo pensamento e sentido.[14] Muitas vezes acontece que, em alguma parte ou petição do pai-nosso, eu venho a me delongar em pensamentos tão ricos, que deixo esperar todas as outras seis. E quando vêm tais pensamentos ricos e bons, deve-se deixar de lado as outras preces e dar lugar a esses pensamentos e ouvi-los em silêncio, não os impedindo de modo algum; pois ali está pregando o próprio Espírito Santo.[15] E uma palavra de sua pregação é melhor do que mil orações nossas. Assim também, frequentemente, aprendi mais em uma só oração do que poderia ter conseguido com muita leitura e reflexão.[16] Por essa razão é de suma importância que o coração fique livre e disposto para a oração.[17] Como também o diz Eclesiastes: “Prepara teu coração antes da oração, para que não ponhas Deus à prova” (Eclesiastes 5.1s e Eclesiástico 18.23).[18] Que outra coisa é, senão tentar a Deus, se a boca fica tagarelando e o coração está distraído em outros lugares?[19] — como aquele padre que reza assim: Deus, in adiutorium meum intende — peão, já atrelaste o cavalo? — Domine, ad adiuvandum me festina — criada, vai tirar leite das vacas; Gloria patri et filio et spiritui sancto — anda, guri, que a peste te pega, etc.[20] Dessas orações ouvi e experimentei muitas em meu tempo no papado. E quase todas as suas orações são deste tipo, com que apenas se zomba de Deus. Seria melhor que ficassem brincando, ao invés, já que não podem ou não querem fazer nada de melhor.[21] Eu mesmo orei muitas dessas horas canônicas em meus dias, infelizmente, de sorte que o salmo ou a hora se tinha passado sem que eu me desse conta se estava no começo ou no meio.[22] Nem todos se deixem levar, no que dizem, como o padre acima mencionado, misturando os afazeres com a oração. Não obstante procedem assim no coração com os pensamentos, perdem-se em mil fantasias, e ao chegarem no fim, não sabem o que fizeram ou por que partes passaram; começam dizendo “Laudate”, e já estão no país das mil maravilhas.[23] Acho que ninguém acharia ludíbrio mais ridículo, se alguém pudesse ver os pensamentos que um coração frio e sem devoção vai misturando durante a oração.[24] Mas, agora, louvado seja Deus, estou vendo que não é uma boa oração se alguém se esquece do que falou. Porque uma oração bem feita considera cuidadosamente todas as palavras e pensamentos do início até o fim da oração.[25] Assim, um barbeiro aplicado e competente tem que voltar seu pensamento, sua atenção e seus olhos, com muita precisão, para a navalha e os cabelos, e não se descuidar, não sabendo que esteja afiando ou cortando.[26] Mas, se ele, ao mesmo tempo, quisesse fazer muita conversa ou ficar pensando ou olhando outras coisas, certamente iria cortar fora a boca ou o nariz, e até o pescoço.[27] Desta forma, cada coisa que é para ser bem feita, quer ter a pessoa inteira, com todos os seus sentidos e membros, como se diz: “pluribus intentus minor est ad singula sensus” — Quem pensa em muita coisa, não pensa em nada, também não faz nada direito.[28] Tanto mais a oração precisa ter o coração uno, por inteiro e exclusivo, se é que deva ser uma boa oração.[29] Com isso está brevemente descrita a forma como eu mesmo costumo orar o pai-nosso ou qualquer oração.[30] Pois ainda hoje me alimento do pai-nosso como um bebê, dele bebo e como feito um velho; não consigo me fartar dele, sendo para mim a melhor de todas as orações, mais ainda que os salmos (que realmente aprecio muito).[31] Na verdade, vemos que foi o bom Mestre que a criou e ensinou, e é profundamente lamentável que tal oração, de tão excelente Mestre, seja recitada sem qualquer devoção e assim desvirtuada em todo o mundo.[32] Muitos há que rezam talvez mil pai-nossos por ano, e mesmo que rezassem durante mil anos, não teriam provado nem orado sequer uma única letra ou pontinho.[33] Enfim, o pai-nosso é o maior dos mártires sobre a terra (como nome e como palavra de Deus), pois todo mundo o maltrata e abusa dele, sendo poucos os que o consolam e alegram com uso conveniente.[34] Caso, porém, além do tempo para o pai-nosso, me sobrar tempo e oportunidade, procedo da mesma forma com os Dez Mandamentos.[35] Pego um ponto depois do outro, para que fique inteiramente livre para a oração (o quanto isso for possível), fazendo de cada mandamento um quádruplo, ou uma coroa torcida quatro vezes, ou seja: Tomo cada mandamento primeiro como um ensinamento, como ele na realidade o é em si mesmo, e reflito o que nosso Senhor Deus nele exige de mim com tanta seriedade; por outro, faço dele uma ação de graças; em terceiro lugar, uma confissão, e em quarto, uma oração.
“Mas livra-nos do mal”[2] Diga: Ah, querido Senhor, Deus e Pai, esta vida miserável é tão cheia de aflição e infelicidade, tão cheia de perigo e insegurança, tão repleta de deslealdade e maldade (como diz São Paulo: “Os dias são maus” — Efésios 5.16), que bem deveríamos estar cansados da vida e desejosos da morte.[3] Tu, porém, Pai amado, conheces nossa fraqueza.[4] Por isso, ajuda-nos a atravessar seguros esses múltiplos males e maldades.[5] E quando chegar a hora, dá-nos um fim misericordioso e uma despedida venturosa deste vale de aflição.[6] Que não nos amedrontemos diante da morte, nem desanimemos, mas, com fé resoluta, entreguemos nossas almas em tuas mãos. Amém.[7] Por fim, observe que de cada vez você tem que fazer o amém bem forte, sem duvidar de que Deus o está ouvindo com certeza, com toda a graça, e diz sim à sua oração.[8] E lembre-se de que não está sozinho ajoelhado ou parado. Toda a cristandade ou todos os cristãos devotos estão com você, e você entre eles, em oração unânime e concorde, a qual Deus não pode desprezar.[9] E não largue da oração, a não ser que tenha dito ou pensado: Bem, esta oração foi ouvida por Deus, disso tenho certeza e o sei de verdade. Isso é o que significa “Amém”.[10] Igualmente você deve saber que não quero que todas estas palavras sejam ditas na oração. Isso acabaria dando num palavrório e pura conversa vazia, recitado do livro ou da letra como o foram o rosário entre os leigos e as orações dos padres e monges.[11] Muito pelo contrário, quero com isso ter estimulado e ensinado o coração, acerca dos pensamentos que se deve ter durante o pai-nosso.[12] E a esses o coração (quando estiver bem aquecido e disposto a orar) pode expressar muito bem com muitas outras palavras, também com menos ou mais palavras.[13] Pois eu mesmo também não me prendo a essas palavras e sílabas, mas as falo hoje de um jeito, amanhã de outro, conforme estou propenso e disposto. Mesmo assim, sempre me atenho, o quanto posso, a este mesmo pensamento e sentido.[14] Muitas vezes acontece que, em alguma parte ou petição do pai-nosso, eu venho a me delongar em pensamentos tão ricos, que deixo esperar todas as outras seis. E quando vêm tais pensamentos ricos e bons, deve-se deixar de lado as outras preces e dar lugar a esses pensamentos e ouvi-los em silêncio, não os impedindo de modo algum; pois ali está pregando o próprio Espírito Santo.[15] E uma palavra de sua pregação é melhor do que mil orações nossas. Assim também, frequentemente, aprendi mais em uma só oração do que poderia ter conseguido com muita leitura e reflexão.[16] Por essa razão é de suma importância que o coração fique livre e disposto para a oração.[17] Como também o diz Eclesiastes: “Prepara teu coração antes da oração, para que não ponhas Deus à prova” (Eclesiastes 5.1s e Eclesiástico 18.23).[18] Que outra coisa é, senão tentar a Deus, se a boca fica tagarelando e o coração está distraído em outros lugares?[19] — como aquele padre que reza assim: Deus, in adiutorium meum intende — peão, já atrelaste o cavalo? — Domine, ad adiuvandum me festina — criada, vai tirar leite das vacas; Gloria patri et filio et spiritui sancto — anda, guri, que a peste te pega, etc.[20] Dessas orações ouvi e experimentei muitas em meu tempo no papado. E quase todas as suas orações são deste tipo, com que apenas se zomba de Deus. Seria melhor que ficassem brincando, ao invés, já que não podem ou não querem fazer nada de melhor.[21] Eu mesmo orei muitas dessas horas canônicas em meus dias, infelizmente, de sorte que o salmo ou a hora se tinha passado sem que eu me desse conta se estava no começo ou no meio.[22] Nem todos se deixem levar, no que dizem, como o padre acima mencionado, misturando os afazeres com a oração. Não obstante procedem assim no coração com os pensamentos, perdem-se em mil fantasias, e ao chegarem no fim, não sabem o que fizeram ou por que partes passaram; começam dizendo “Laudate”, e já estão no país das mil maravilhas.[23] Acho que ninguém acharia ludíbrio mais ridículo, se alguém pudesse ver os pensamentos que um coração frio e sem devoção vai misturando durante a oração.[24] Mas, agora, louvado seja Deus, estou vendo que não é uma boa oração se alguém se esquece do que falou. Porque uma oração bem feita considera cuidadosamente todas as palavras e pensamentos do início até o fim da oração.[25] Assim, um barbeiro aplicado e competente tem que voltar seu pensamento, sua atenção e seus olhos, com muita precisão, para a navalha e os cabelos, e não se descuidar, não sabendo que esteja afiando ou cortando.[26] Mas, se ele, ao mesmo tempo, quisesse fazer muita conversa ou ficar pensando ou olhando outras coisas, certamente iria cortar fora a boca ou o nariz, e até o pescoço.[27] Desta forma, cada coisa que é para ser bem feita, quer ter a pessoa inteira, com todos os seus sentidos e membros, como se diz: “pluribus intentus minor est ad singula sensus” — Quem pensa em muita coisa, não pensa em nada, também não faz nada direito.[28] Tanto mais a oração precisa ter o coração uno, por inteiro e exclusivo, se é que deva ser uma boa oração.[29] Com isso está brevemente descrita a forma como eu mesmo costumo orar o pai-nosso ou qualquer oração.[30] Pois ainda hoje me alimento do pai-nosso como um bebê, dele bebo e como feito um velho; não consigo me fartar dele, sendo para mim a melhor de todas as orações, mais ainda que os salmos (que realmente aprecio muito).[31] Na verdade, vemos que foi o bom Mestre que a criou e ensinou, e é profundamente lamentável que tal oração, de tão excelente Mestre, seja recitada sem qualquer devoção e assim desvirtuada em todo o mundo.[32] Muitos há que rezam talvez mil pai-nossos por ano, e mesmo que rezassem durante mil anos, não teriam provado nem orado sequer uma única letra ou pontinho.[33] Enfim, o pai-nosso é o maior dos mártires sobre a terra (como nome e como palavra de Deus), pois todo mundo o maltrata e abusa dele, sendo poucos os que o consolam e alegram com uso conveniente.[34] Caso, porém, além do tempo para o pai-nosso, me sobrar tempo e oportunidade, procedo da mesma forma com os Dez Mandamentos.[35] Pego um ponto depois do outro, para que fique inteiramente livre para a oração (o quanto isso for possível), fazendo de cada mandamento um quádruplo, ou uma coroa torcida quatro vezes, ou seja: Tomo cada mandamento primeiro como um ensinamento, como ele na realidade o é em si mesmo, e reflito o que nosso Senhor Deus nele exige de mim com tanta seriedade; por outro, faço dele uma ação de graças; em terceiro lugar, uma confissão, e em quarto, uma oração.

