[1] Esta é a condição dentro do Pleroma: a sua produção e o infortúnio do Éon sujeito à paixão e quase perdido e a queda na matéria múltipla por causa do desejo do Pai e a consolidação na luta por obra de Limite, Cruz, Redentor, Emancipador e Guia; o nascimento, posterior ao dos Éões, do Primeiro Cristo e do Espírito Santo, emitido pelo Pai em seguida ao seu arrependimento; e a formação do segundo Cristo, que chamam também de Salvador, pela cotização comum. Porém estas coisas não foram ditas explicitamente porque nem todos entendem a sua gnose, mas foi indicado, em mistérios, pelo Salvador, por meio das parábolas, àqueles que podem entender. Assim, os 30 Éões foram indicados, como já dissemos, pelos 30 anos em que o Salvador não fez nada em público e também pela parábola dos operários da vinha. Dizem também que Paulo nomeia muitas vezes e abertamente os Éões e conserva a sua ordem quando diz: “por todas as gerações dos séculos dos séculos”. Também nós, quando dizemos, no seguimento da Eucaristia, nos séculos dos séculos, fazemos alusão aos Éões. E todas as vezes que se encontram as palavras século ou séculos dizem que se referem aos Éões.
[2] A emissão da Duodécada dos Éões é indicada pelo fato de que o Senhor disputou com os doutores da lei aos doze anos e pela eleição dos apóstolos: de fato elegeu doze apóstolos. Os outros dezoito Éões seriam indicados nisto, como eles dizem: depois da ressurreição dos mortos o Senhor passou 18 meses com os apóstolos. E também as primeiras duas letras de seu nome, jota (= 10) e eta (= 8) significam claramente os 18 Éões. E também que os 10 Éões seriam indicados do mesmo modo pelo jota com que o seu nome inicia. É por isso que o Salvador teria dito que “não será omitido sequer um só i, uma só vírgula da lei, sem que tudo seja realizado”.
[3] A paixão do décimo segundo Éon é significada, dizem eles, pela apostasia de Judas, que era o décimo segundo apóstolo, e pelo fato de que o Senhor padeceu a sua paixão depois do décimo segundo mês, pois, para eles, teria pregado somente durante um ano, depois do batismo. E que isso seria também claramente significado pela mulher que sofria perda de sangue. Doente durante 12 anos, foi curada pela vinda do Senhor, quando tocou a orla da veste, e que foi por isso que o Salvador disse: Quem me tocou? para indicar aos discípulos que tinha acontecido um mistério entre os Éões, a cura de Éon enfermo. Por meio daquela que sofreu doze anos significava-se aquele Poder, porque, como dizem, a sua natureza difunde-se e expande-se ao infinito. E se não tivesse tocado a veste do Filho, isto é, da Verdade da primeira Tétrada, significada pela orla da veste, dissolver-se-ia em toda a substância. Mas parou e repousou da paixão pelo Poder saído do Filho. Dizem que esse Poder é o Limite que a curou e afastou dela a paixão.
[4] Que o Salvador seja o tudo saído de todos os Éões eles o vêem indicado pelas palavra: todo masculino que abre o útero. Sendo o Tudo, abriu o seio da Entímese, Éon tomado pela paixão quando foi afastado do Pleroma. E também chamam a esta de segunda Ogdôada, da qual falaremos mais adiante. O próprio Paulo, dizem, teria falado claramente disso quando disse: “tudo em todos”, e mais: “porque tudo é nele e dele vem tudo”, e ainda: “nele habita toda a plenitude da divindade”. As palavras: em Cristo encabeçar todas as coisas, como também todas as outras semelhantes, interpretam-nas eles neste sentido.
[5] Quanto pois ao Limite, que chamam com muitíssimos nomes, dizem que exerce duas atividades: a de constituir e a de dividir. Enquanto constitui e consolida é a Cruz, enquanto divide e delimita é o Limite. Dizem que o Salvador indicou estas operações deste modo: primeiro a de constituir, com aquelas palavras: “quem não carrega a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo”, e ainda: “toma a cruz e segue-me”; e a de dividir, com as palavras: “não vim trazer a paz, mas a espada”. João — dizem eles — quis dizer o mesmo quando falava: “a pá está na sua mão: limpará a sua eira e recolherá seu trigo nos celeiros: mas quanto a palha, queimá-la-á num fogo inextinguível”. Com isto indicar-se-ia a ação do Limite: a joeira é interpretada como sendo a Cruz que consome todos os elementos hílicos, como o fogo consome a palha; purifica os redimidos como a joeira o trigo. Dizem que o apóstolo Paulo se refere a esta cruz com as seguintes palavras: “a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam é Poder de Deus”, e ainda, “quanto a mim não aconteça gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”.
[6] Eis o que dizem de seu Pleroma e da formação dos Éões, querendo adaptar as belas palavras da Escritura às suas más interpretações. E não só nos Evangelhos e nos escritos apostólicos procuram suas interpretações extravagantes e exegeses adaptadas, mas também na Lei e nos Profetas, em que se acham muitas parábolas e alegorias que podem ser mal interpretadas por causa da multiplicidade dos sentidos, adaptando artificialmente a sua ambiguidade às suas fantasias, levando assim longe da verdade os que não conservam fé inabalável no único Deus Pai todo-poderoso e em Jesus Cristo seu único Filho.

