[1] Sobre o que aconteceu fora do Pleroma dizem o seguinte. A Entímese daquela Sofia superior, que também chamam Acamot, afastada do Pleroma superior por motivo da Paixão, excitava-se, angustiada, nos lugares da escuridão e do vazio; e era necessário, porque ela fora excluída da luz e do Pleroma e era sem forma nem figura, como um aborto, por não ter recebido nenhuma.
[2] O Cristo superior teve piedade dela e, estendido na cruz, pelo seu poder, deu forma a Acamot, mas somente segundo a substância e não segundo a gnose. Feito isso, retirou-se, arrastando consigo o seu poder e abandonando Acamot a fim de que ela, ao sentir toda a paixão por causa da separação do Pleroma, desejasse as coisas melhores, trazendo consigo um pouco de fragrância de imortalidade que o Cristo e o Espírito Santo lhe deixaram.
[3] Por isso ela também tem dois nomes: Sofia, do nome de seu Pai que se chama Sofia, e Espírito Santo, do nome daquele Espírito que estava ao lado de Cristo. Recebida a forma, feita sábia e logo esvaziada pelo Logos, isto é, Cristo, que estava invisivelmente junto a ela, foi à procura da luz que a abandonara, mas não lhe foi possível alcançá-la, porque o Limite lho impedia.
[4] Então o Limite, ao forçá-la a não ir adiante, teria dito: Iao, e assim teve origem — dizem — o nome Iao. Como não pudesse ultrapassar o Limite, sendo tomada pela paixão e deixada só, fora do Pleroma, sucumbiu aos múltiplos e vários elementos desta paixão; entristeceu-se por não ter atingido a luz, teve medo de que também perderia a vida da mesma forma que perdeu a luz, e, além do mais, angustiou-se porque tudo isso ficaria ignorado.
[5] Diferentemente da sua Mãe, o primeiro Éon, Sofia não teve variação nas paixões, mas contradição. Sobreveio-lhe então outro desejo apaixonado, o de voltar àquele que a tinha vivificado.
[6] Esta foi a origem e a essência da matéria — afirmam eles — de que é feito este mundo: da conversão tiveram origem todas as almas do mundo; e do Demiurgo, bem como do temor e da tristeza, tudo o resto.
[7] Das lágrimas de Acamot originaram-se todas as substâncias úmidas, do sorriso as lúcidas, e da tristeza e do temor os elementos corpóreos do mundo. De fato, às vezes chorava e estava triste — como dizem — por ter sido abandonada sozinha nas trevas e no vazio; às vezes, quando se lembrava da luz que a havia abandonado, acalmava-se e ria; às vezes voltava-lhe o temor, outras vezes estava fora de si pela angústia.
[8] E então? Tudo isto é grande espetáculo e fantasia daqueles que, pomposamente e cada um à sua maneira, explicam de qual paixão e de qual elemento teve origem a substância.
[9] Assim consigo entender por que não querem ensinar estas coisas a todos, em público, mas somente àqueles que podem dar lautas gratificações para conhecer tão grandes mistérios. Não falam de modo semelhante àqueles de quem nosso Senhor disse: “de graça recebestes, de graça dai”, mas são apresentados mistérios seletos, prodigiosos, profundos, descobertos à custa de grandes fadigas por estes enganadores.
[10] Quem não daria tudo o que possui para aprender que os mares, as fontes, os rios e todas as substâncias úmidas se originaram das lágrimas da Entímese do Éon tomado de paixão, a luz, do seu sorriso, os elementos corporais do mundo, do seu temor e inquietação?
[11] Quero, eu também, contribuir com alguma coisa para a sua frutificação. Como, de fato, vejo que há água doce como a das fontes, dos rios, da chuva e outras, e que a do mar é salgada devo pensar que nem todas podem originar-se das suas lágrimas, porque as lágrimas são, por natureza, salgadas.
[12] É evidente, portanto, que as águas salgadas derivam das lágrimas. Mas eu penso que provavelmente ela se encontrou numa grande angústia e inquietação que a fizera suar. Por isso, seguindo seus argumentos, deve-se supor que as fontes, os rios e todas as outras águas doces se originaram de seus suores, porque não se pode pensar que a mesma e idêntica natureza das lágrimas possa produzir ora água doce, ora água salgada; é muito mais provável que algumas venham das lágrimas e outras dos suores.
[13] E como no mundo também há águas quentes e amargas é necessário explicar de que modo ou de qual membro elas saíram. Estes frutos estão completamente de acordo com seus argumentos.
[14] Dizem que a Mãe deles, depois de ter passado por todas estas paixões e de ter saído dela às duras penas, começou a suplicar a luz que a abandonara, isto é, Cristo.
[15] Ele tinha voltado ao Pleroma e, ao que parece, não tendo a coragem de descer pela segunda vez, enviou a ela o Consolador, isto é, o Salvador, a quem o Pai — e os Éões fizeram o mesmo — “deu todo poder e submeteu todas as coisas, para que nele fossem criadas todas as coisas, as visíveis e as invisíveis, os Tronos, as Potestades e os Principados”.
[16] Então foram enviados a ela, juntamente com os Anjos, seus companheiros da mesma idade. Dizem que Acamot, logo depois de lhes fazer reverência, primeiramente se cobriu com um véu, em sinal de respeito, mas depois, quando ela e toda a sua frutificação o viram, correu-lhe ao encontro e desta sua visão recebeu um poder.
[17] Ele formou-a com a formação segundo a gnose e a curou de suas paixões, separando-a delas, porém sem tirá-las, pois não era possível fazê-las desaparecer como aquelas da primeira Sofia, porque já eram poderosas e intensas.
[18] Ele, portanto, as separou, depois misturou-as e fê-las coagular, e as transformou de paixão incorporal em matéria incorporal; em seguida, produziu nelas as propriedades e a natureza a fim de poderem formar combinações e corpos.
[19] A partir disso formaram-se duas substâncias, a substância má, derivada das paixões, e a passível de conversão. Por causa disso tudo eles dizem que o Salvador fez, virtualmente, obra de Demiurgo.
[20] Quanto a Acamot, liberta da paixão, concebeu na alegria, à vista das Luzes que estavam com o Salvador, isto é, dos Anjos que a acompanhavam.
[21] Eles ensinam que, engravidada à vista deles, gerou frutos à imagem desses Anjos, num parto pneumático semelhante ao dos companheiros do Salvador.

