[1] Segundo eles, existiam três elementos: o primeiro proveniente da paixão, e era a matéria; o segundo, da conversão, e era o psíquico; enfim o terceiro, gerado por Acamot, e era o pneumático. Então Acamot se dedicou à formação desses elementos. Todavia não podia formar o elemento pneumático por ser da mesma substância que ela.
[2] Então dedicou-se à formação da substância proveniente da sua conversão, isto é, a psíquica, e produziu, por fora, os ensinamentos recebidos do Salvador. Antes de tudo, da substância psíquica, ela formou o Deus, o Pai e o Salvador e Rei de todos os que lhe eram consubstanciais, isto é, os psíquicos, que chamam a direita e depois aqueles que derivam da paixão e da matéria, que chamam a esquerda.
[3] Afirmam que formou todas as coisas posteriores movida secretamente pela Mãe, por isso chamam-na de Pai-Mãe, Sem-Pai, Demiurgo e Pai; Pai dos da direita, isto é, os psíquicos, Demiurgo dos da esquerda, isto é, os hílicos, e Rei de todos.
[4] Esta Entímese, querendo fazer todas as coisas em honra dos Éões, fê-las à imagem deles, ou melhor, o Salvador é que as fez por meio dela. Ela também manteve incógnita ao Demiurgo a imagem do Pai invisível; e, por sua vez, o Demiurgo ofereceu a imagem do Filho Unigênito como os Arcanjos e os Anjos, feitos pelo Demiurgo, oferecem a imagem dos outros Éões.
[5] Dizem que o Demiurgo se tornou Pai e Deus dos seres exteriores ao Pleroma, visto que era o Autor de todos os seres psíquicos e hílicos. Com efeito, ele separou uma da outra estas duas substâncias confusas e de incorporais fê-las corporais; fez os seres celestes e terrestres e tornou-se Demiurgo dos psíquicos e dos hílicos, dos da direita e dos da esquerda, dos leves e dos pesados, dos que vão para o alto e dos que vão para baixo.
[6] Fez sete céus sobre os quais — dizem — está o Demiurgo. É por isso que o chamam Hebdômada e à Mãe, Acamot, denominam Ogdôada, porque conserva o número da primitiva e primária Ogdôada do Pleroma. Segundo eles, os sete céus são de natureza inteligente: supõem que sejam Anjos e o próprio Demiurgo um Anjo semelhante a um Deus, assim como o paraíso situado sobre o terceiro céu é, pela sua virtude, o quarto Arcanjo e que Adão recebeu dele alguma coisa quando esteve ali.
[7] Asseguram que o Demiurgo julgava ter produzido tudo isso de si mesmo, mas que fora por obra de Acamot que fez o céu sem conhecer o Céu, que plasmou o homem sem conhecer o Homem, fez aparecer a terra sem conhecer a Terra, e assim com todas as coisas, ignorando os modelos dos seres que fazia.
[8] Ignorando até a própria Mãe, imaginava ser ele todas as coisas. Dizem eles que a causa desta opinião foi a própria Mãe, que o queria elevar a Cabeça e Príncipe da sua substância e Senhor de toda a obra da criação. Eles chamam também a esta Mãe Ogdôada, Sabedoria, Terra, Jerusalém, Espírito Santo e Senhor, de gênero masculino.
[9] Ele ocupa o lugar de Intermediário, acima do Demiurgo, mas abaixo e fora do Pleroma, até a consumação final.
[10] Na opinião deles, a substância hílica seria composta por três paixões: temor, tristeza e angústia. Em primeiro lugar, do medo e da conversão tiveram existência os seres psíquicos; da conversão se originou o Demiurgo, ao passo que do medo vem o restante da substância psíquica, como as almas dos animais mudos e dos homens.
[11] É por isso que o Demiurgo, incapaz de conhecer as coisas pneumáticas, pensou ser o único Deus e pelos profetas disse: Eu sou Deus e não há nenhum outro fora de mim.
[12] Em segundo lugar ensinam que as coisas espirituais más foram feitas pela tristeza; daqui se originaram o diabo, que chamam também de Senhor do mundo, os demônios e toda a substância pneumática do mal. Mas, afirmam, enquanto o Demiurgo é o filho psíquico da Mãe deles, o Senhor do mundo é criatura do Demiurgo e entende as coisas que estão acima dele porque é espírito do mal, ao passo que o Demiurgo as desconhece, por ser de natureza psíquica.
[13] A Mãe deles se encontra no supraceleste, isto é, na Hebdômada, e o Senhor do mundo, neste nosso mundo.
[14] Em terceiro lugar, da emoção e da angústia, coisas menos racionais, foram feitos os elementos corporais do mundo; a imobilidade da emoção produziu a terra; a agitação da angústia produziu a água; a consternação da dor produziu o ar; e o fogo está inserido neles todos como morte e corrupção, assim como a ignorância está escondida nas três paixões.
[15] Tendo o Demiurgo feito o mundo, do lodo fez também o homem; não tomou essa terra seca, mas substância invisível, matéria inconsistente e fluida e, declaram eles, soprou nela o psíquico.
[16] E este homem é feito à imagem e semelhança: quanto à imagem é hílico, próximo a Deus sem lhe ser consubstancial; quanto à semelhança é psíquico, motivo pelo qual a sua substância é chamada espírito de vida, por derivar do espírito.
[17] Por fim, dizem, foi revestido com túnica de pele; a acreditar neles, este seria o elemento carnal, perceptível aos sentidos.
[18] Dizem que a geração da Mãe deles, Acamot, que se realizou ao contemplar os Anjos que estão à volta do Salvador, consubstancial à Mãe, portanto pneumática, ficou desconhecida ao Demiurgo, e sem que ele o soubesse, foi depositada secretamente nele a semente para que por ele fosse lançada na alma que dele procederia, assim como no corpo hílico: desta forma, portado numa gestação nestes elementos, como num seio, ficasse apto a crescer e pronto para a recepção do Logos perfeito.
[19] Assim, portanto, — como dizem eles —, o Demiurgo não se apercebeu do homem pneumático semeado por Sofia no interior do seu próprio sopro por poder e providência inexprimíveis.
[20] Assim como ignorou a Mãe, também ignorou a semente dela. Dizem ainda que esta semente é a Igreja, figura da Igreja superna.
[21] É este o homem que pretendem existir neles: aquele que recebeu a alma do Demiurgo, o corpo do lodo, a carne da matéria e o homem pneumático da Mãe Acamot.

