[1] Há, portanto, — asseveram eles — três elementos: o hílico, que também chamam da esquerda, que há de perecer inelutavelmente por não ser capaz de receber nenhum sopro de incorruptibilidade; o psíquico, que também chamam da direita, médio entre pneumático e hílico, que seria reduzido naquele para o qual se inclinará; e o pneumático, enviado para que unido ao psíquico, por essa união, recebesse aqui embaixo a sua formação.
[2] Este elemento pneumático, segundo eles, é o sal e a luz do mundo. O psíquico, de fato, precisava também de ensinamentos sensíveis e por esta razão — afirmam — foi formado o mundo e o Salvador veio ajudar este psíquico, dotado de livre-arbítrio, para salvá-lo.
[3] Porque — dizem — tomou as primícias do que devia salvar: de Acamot tomou o elemento pneumático, do Demiurgo foi revestido do Cristo psíquico, e finalmente, por causa da economia, foi revestido de corpo feito de substância psíquica, mas organizado com arte inefável para se tornar visível, palpável, passível.
[4] De substância hílica não tomou absolutamente nada, pois a matéria não é capaz de salvação. A consumação final dar-se-á quando será perfeitamente formado pela gnose todo o elemento pneumático, isto é, os homens pneumáticos que possuem o conhecimento perfeito de Deus e foram iniciados nos mistérios de Acamot.
[5] Afirmam que eles são estes homens.
[6] Os homens psíquicos são educados com ensinamentos psíquicos, confirmados pelas obras e a fé simples e dizem que estes homens somos nós que pertencemos à Igreja e que por isso nos é indispensável boa conduta, de outro modo é impossível a salvação.
[7] Eles, porém, se salvam não pelas obras, e sim por serem pneumáticos por natureza. Como o que deriva do lodo não pode receber a salvação por não ter a capacidade receptiva dela, assim o elemento pneumático, que pretendem ser eles, está na impossibilidade absoluta de se corromper, sejam quais forem as obras que praticarem.
[8] Como o ouro lançado na lama não perde o brilho e conserva a sua natureza sem que a lama o prejudique em nada, assim, dizem eles, podem estar misturados com qualquer obra hílica que não sofrerão dano nenhum, nem perderão sua substância pneumática.
[9] Por isso, entre eles, os perfeitos praticam sem escrúpulos todas aquelas obras proibidas das quais as Escrituras afirmam: quem pratica essas obras não herdará o reino de Deus.
[10] Comem indiferentemente as carnes sacrificadas aos ídolos porque pensam não ser inqüinados por elas e em toda festa pagã são os primeiros a misturar-se aos festejos dos ídolos, nem se abstêm de espetáculos sanguinários, odiosos a Deus e aos homens.
[11] Alguns, ao submeter-se insaciavelmente aos prazeres da carne, dizem que aos carnais são dadas coisas carnais e aos espirituais coisas espirituais. Alguns deles corrompem secretamente as mulheres que aprendem deles esta doutrina, como muitas, seduzidas por eles e que depois se converteram à Igreja de Deus, confessaram juntamente com outro erro também este.
[12] E outros, publicamente e sem se envergonharem, casaram, tirando dos seus maridos qualquer mulher por eles amada. Outros ainda, inicialmente muito corretos, fingindo habitar como irmãos, foram desmascarados pelo passar do tempo, quando se via que a irmã tinha engravidado por causa dos irmãos.
[13] E além de cometer muitas outras ações vergonhosas e ímpias, tacham-nos de simplórios e ignorantes, a nós, que pelo temor de Deus, procuramos não pecar sequer por pensamentos e palavras; e exaltam-se a si mesmos com o nome de perfeitos e sementes de eleição.
[14] Nós, segundo eles, recebemos em uso a graça e por isso ela nos será tirada; eles, porém, a possuem como propriedade descida do alto da sizígia inominável e inefável e por isso lhes será acrescida. Este é o motivo pelo qual é absolutamente necessário que meditem sempre o mistério da sizígia.
[15] Eles convenceram os simplórios dizendo-lhes: quem está no mundo e não ama a esposa até possuí-la não é da Verdade e não passará à Verdade. Quem, porém, é do mundo e se une à sua esposa não passará à Verdade por tê-lo feito na concupiscência.
[16] Por isso, nós, que eles chamam psíquicos e estamos no mundo, precisamos da continência e das boas obras para chegar, graças a elas, ao lugar do Intermediário; eles porém, que se autodefinem pneumáticos e perfeitos, não precisam de nada disso, porque não são as obras que introduzem no Pleroma, e sim a semente enviada pequenina do alto e aqui levada à perfeição.

