Aviso ao leitor
Este livro - Tertuliano — “Da Monogamia” / De Monogamia - é apresentado aqui como literatura patrística e disciplinar da Igreja antiga (início do séc. III), tratando de ética matrimonial e defendendo uma postura mais rigorosa quanto a segundas núpcias, dentro de debates reais de disciplina e ascese no cristianismo primitivo. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Por refletir o estilo severo do autor e, em muitos estudos, ser associado a uma fase mais rigorista de sua produção, este escrito é disponibilizado para estudo histórico, ético e comparativo, com leitura contextual e crítica.
ATENÇÃO
Este escrito de Tertuliano deve ser lido com cautela redobrada, pois pertence à fase em que seu pensamento já revela forte rigor disciplinar e ascético, em geral associado à sua aproximação com o montanismo. Por isso, o texto trata a monogamia não apenas como princípio moral, mas com acentuação severa contra novas núpcias, avançando para um endurecimento que não pode ser tomado automaticamente como expressão normativa final da fé cristã. Sua preservação nesta biblioteca se dá por valor histórico, documental e crítico, como testemunho dos debates antigos sobre matrimônio, continência, disciplina e rigor moral no interior do cristianismo primitivo. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre defesa moral do vínculo conjugal, radicalização rigorista e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] Os hereges eliminam os casamentos; os psíquicos os acumulam.[2] Os primeiros não se casam nem uma vez; os últimos não apenas uma vez.[3] Que fazes tu, ó Lei do Criador?[4] Entre eunucos alheios e teus próprios noivos, tu te queixas tanto da obediência excessiva dos teus domésticos quanto do desprezo dos estranhos.[5] Aqueles que abusam de ti te causam o mesmo dano que aqueles que não te usam.[6] De fato, nem tal continência é louvável por ser herética, nem tal licença é defensável por ser psíquica.[7] A primeira é blasfema, a segunda é devassa; a primeira destrói o Deus dos casamentos, a segunda O cobre de vergonha.[8] Entre nós, porém, a quem o reconhecimento dos dons espirituais dá o direito de sermos justamente chamados espirituais, a continência é tão religiosa quanto a licença é modesta, pois tanto uma quanto a outra estão em harmonia com o Criador.[9] A continência honra a lei do matrimônio, a licença a modera; a primeira não é forçada, a segunda é regulada; a primeira reconhece o poder da livre escolha, a segunda reconhece um limite.[10] Nós admitimos um só casamento, assim como admitimos um só Deus.[11] A lei do matrimônio recebe um acréscimo de honra quando é associada ao pudor.[12] Mas aos psíquicos, visto que não recebem o Espírito, não agradam as coisas que são do Espírito.[13] Assim, enquanto não lhes agradam as coisas que são do Espírito, agradar-lhes-ão as coisas da carne, por serem contrárias ao Espírito.[14] A carne, diz o apóstolo, luta contra o Espírito, e o Espírito contra a carne.[15] Mas o que a carne desejará, senão aquilo que é mais da carne?[16] Por essa razão, desde o princípio, ela se tornou estranha ao Espírito.[17] Meu Espírito, diz Deus, não permanecerá para sempre nestes homens, porque eles são carne.[18] E assim eles censuram a disciplina da monogamia como sendo heresia; e não há outra causa pela qual se veem obrigados a negar o Paráclito senão o fato de julgarem que Ele é o instituidor de uma disciplina nova, e de uma disciplina que lhes parece muito severa.[19] De modo que este já é o primeiro ponto sobre o qual devemos travar debate em uma consideração geral do assunto: se há fundamento para sustentar que o Paráclito ensinou algo que possa ser acusado de novidade, em oposição à tradição católica, ou de peso excessivo, em oposição ao jugo leve do Senhor.[20] Ora, sobre cada ponto o próprio Senhor se pronunciou.[21] Pois, ao dizer: Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier o Espírito Santo, Ele vos conduzirá a toda a verdade, Ele nos apresenta com clareza que trará ensinamentos que podem ser julgados como novos, por ainda não terem sido publicados antes, e por fim como pesados, como se essa fosse justamente a razão de não terem sido publicados.[22] Segue-se, dirás tu, que por essa linha de raciocínio qualquer coisa nova e pesada que se queira pode ser atribuída ao Paráclito, ainda que venha do espírito adversário.[23] De modo algum.[24] Pois o espírito adversário se tornaria evidente pela diversidade de sua pregação, começando por adulterar a regra da fé e, assim, prosseguindo para adulterar a ordem da disciplina; porque a corrupção daquilo que ocupa o primeiro grau, isto é, da fé, que é anterior à disciplina, vem primeiro.[25] Necessariamente, um homem deve primeiro sustentar opiniões heréticas acerca de Deus, e depois acerca de Sua instituição.[26] Mas o Paráclito, tendo muitas coisas a ensinar plenamente, as quais o Senhor adiou até a Sua vinda, conforme a predefinição, começará por dar testemunho enfático de Cristo, tal como nós cremos que Ele é, juntamente com toda a ordem de Deus, o Criador; e O glorificará, e fará lembrar tudo a Seu respeito.[27] E quando assim tiver sido reconhecido, como o Consolador prometido, com base na regra principal, revelará aquelas muitas coisas que pertencem às disciplinas; enquanto a integridade de Sua pregação exige crédito para essas revelações, ainda que sejam novas, por estarem agora em curso de revelação, e ainda que sejam pesadas, porquanto nem agora são achadas suportáveis.[28] São, contudo, revelações de nenhum outro Cristo senão daquele que disse ter ainda muitas outras coisas a serem plenamente ensinadas pelo Paráclito, não menos pesadas para os homens de nosso próprio tempo do que para aqueles que então ainda não eram capazes de suportá-las.[29] Mas, quanto à questão de se a monogamia é pesada, deixe-se que a ainda despudorada fraqueza da carne cuide disso.[30] Venhamos, por enquanto, a um acordo sobre se ela é nova.[31] Fazemos até esta afirmação mais ampla: que mesmo se o Paráclito tivesse, em nossos dias, prescrito de modo definido uma virgindade ou continência total e absoluta, a ponto de não permitir que o ardor da carne se acalmasse nem mesmo em um único casamento, ainda assim Ele pareceria não introduzir novidade alguma.[32] Pois o próprio Senhor abre os reinos dos céus aos eunucos, sendo Ele mesmo também virgem; contemplando-O, o apóstolo igualmente, também por essa razão abstinente, dá preferência à continência.[33] Sim, dizes tu, mas preservando a lei do matrimônio.[34] Preservando-a, certamente, e veremos sob quais limitações; contudo, já a destruindo, na medida em que dá preferência à continência.[35] Bom, diz ele, é para o homem não tocar em mulher.[36] Segue-se, portanto, que é mau tocá-la; pois nada é contrário ao bem, senão o mal.[37] E, por isso, ele diz: resta que também os que têm esposa sejam como se não a tivessem, para que seja ainda mais obrigatório aos que não as têm abster-se de tomá-las.[38] Ele também apresenta razões para assim aconselhar: que os não casados cuidam das coisas de Deus, mas os casados de como, em seu casamento, agradar ao seu cônjuge.[39] E posso sustentar que aquilo que é permitido não é absolutamente bom.[40] Pois o que é absolutamente bom não é permitido, mas não precisa de pedido algum para se tornar lícito.[41] A permissão às vezes tem sua causa até mesmo na necessidade.[42] Enfim, neste caso não há vontade, por parte daquele que permite o casamento.[43] Pois a vontade dele aponta para outro lado.[44] Quero, diz ele, que todos vós sejais como eu também sou.[45] E quando mostra que assim permanecer é melhor, o que, pergunto, demonstra ele querer, senão o que antes afirmou ser melhor?[46] E assim, se permite algo diferente do que quis, permitido não voluntariamente, mas por necessidade, mostra que aquilo que concedeu contra a própria vontade, como indulgência, não é absolutamente bom.[47] Por fim, quando diz: melhor é casar do que abrasar-se, que tipo de bem deve ser entendido como aquele que é melhor do que uma pena?[48] O que não pode parecer melhor senão quando comparado a algo muito mau.[49] Bom é aquilo que conserva este nome por si mesmo, sem comparação, não digo com um mal, mas até com algum outro bem; de modo que, ainda que seja comparado e ofuscado por outro bem, permanece, contudo, na posse do nome de bem.[50] Se, ao contrário, a comparação com o mal é o meio que o obriga a ser chamado bom, então não é tanto um bem, mas uma espécie de mal inferior, que, obscurecido por um mal maior, é empurrado para o nome de bem.[51] Suprime, enfim, a condição, de modo que não se diga: melhor é casar do que abrasar-se; e eu pergunto se terás o atrevimento de dizer: melhor é casar, sem acrescentar melhor do que quê.[52] Feito isso, então já não é melhor; e, não sendo melhor, tampouco é bom, removida a condição que, ao torná-lo melhor do que outra coisa, nesse sentido o obrigava a ser considerado bom.[53] Melhor é perder um olho do que os dois.[54] Se, porém, retiras a comparação entre dois males, não será melhor ter um olho, porque isso nem sequer é bom.[55] Que dizer, então, se ele concede complacentemente toda indulgência para casar com base em seu próprio juízo humano, por causa da necessidade que mencionamos, visto que melhor é casar do que abrasar-se?[56] De fato, quando passa ao segundo caso, dizendo: Mas aos casados ordeno, não eu, mas o Senhor, mostra que aquelas coisas que havia dito antes não provinham da autoridade do Senhor, mas de julgamento humano.[57] Quando, porém, volta os pensamentos deles para a continência, dizendo: Quero que todos sejais assim como eu, penso que ele também diz: eu também tenho o Espírito de Deus, para que, se havia concedido alguma indulgência por necessidade, pudesse, pela autoridade do Espírito Santo, chamar de volta.[58] Mas também João, ao nos aconselhar que devemos andar como o Senhor também andou, evidentemente nos admoestou a andar também segundo a santidade da carne, assim como segundo Seu exemplo nos demais aspectos.[59] Por isso ele diz mais claramente: todo aquele que tem esta esperança nele purifica-se a si mesmo, assim como Ele também é puro.[60] Pois em outro lugar lemos: sede santos, assim como Ele também foi santo, isto é, na carne.[61] Pois não teria dito isso do Espírito, visto que o Espírito é reconhecido como santo sem qualquer influência externa e não espera ser admoestado à santidade, que é a Sua própria natureza.[62] Mas a carne é ensinada à santidade; e também em Cristo ela foi santa.[63] Portanto, se todas estas considerações apagam a licença de casar, quer olhemos para a condição sob a qual a licença é concedida, quer para a preferência imposta à continência, por que, depois dos apóstolos, o mesmo Espírito, vindo para conduzir o discipulado a toda a verdade mediante os graus dos tempos, conforme diz o pregador, há tempo para tudo, não poderia neste tempo impor um freio final à carne, não mais chamando-nos obliquamente para longe do casamento, mas abertamente?[64] Pois agora, mais do que nunca, o tempo está encolhido, tendo decorrido cerca de cento e sessenta anos desde então.[65] Não ponderarias espontaneamente em teu próprio íntimo desta maneira: esta disciplina é antiga, mostrada de antemão já naquela época, na carne e na vontade do Senhor, e depois sucessivamente tanto nos conselhos como nos exemplos de Seus apóstolos?[66] Desde antigo fomos destinados a esta santidade.[67] O Paráclito não está introduzindo novidade alguma.[68] O que Ele advertiu antecipadamente, agora o estabelece de modo definitivo; o que Ele adiou, agora o exige.[69] E logo, revolvendo esses pensamentos, persuadir-te-ás facilmente de que era muito mais próprio ao Paráclito pregar a unidade do casamento, Ele que poderia igualmente ter pregado sua anulação; e de que é mais crível que Ele tenha moderado aquilo que até poderia legitimamente ter abolido, se entendes qual é a vontade de Cristo.[70] Nisso também deves reconhecer o Paráclito em Seu caráter de Consolador, pois Ele desculpa tua fraqueza diante da severidade de uma continência absoluta.[71] Posta de lado, agora, a menção ao Paráclito, como se fosse alguma autoridade própria nossa, recorramos aos instrumentos comuns das escrituras primitivas.[72] Isto mesmo podemos demonstrar: que a regra da monogamia não é nem nova nem estranha; antes, é antiga e própria dos cristãos, para que possas perceber que o Paráclito é antes o seu restaurador do que o seu instituidor.[73] Quanto ao que diz respeito à antiguidade, que tipo formal mais antigo poderia ser apresentado do que a própria fonte original da raça humana?[74] Deus modelou uma só mulher para o homem, tirando uma de suas costelas, e naturalmente uma dentre muitas.[75] Além disso, no discurso introdutório que precedeu a própria obra, Ele disse: não é bom que o homem esteja só; façamos para ele uma auxiliadora idônea.[76] Ele teria dito auxiliares se o tivesse destinado a ter mais de uma esposa.[77] Acrescentou também uma lei para o futuro, se é que as palavras e os dois serão uma só carne, não três nem mais, pois então já não seriam dois se fossem mais, foram pronunciadas profeticamente.[78] A lei permaneceu firme.[79] Em resumo, a unidade do casamento perdurou até o fim no caso dos autores de nossa raça, não porque não houvesse outras mulheres, mas porque a razão de não haver era que as primícias da raça não fossem contaminadas por um casamento duplo.[80] De outro modo, se Deus o tivesse querido, poderia igualmente tê-las havido; em todo caso, ele poderia ter tomado da abundância de suas próprias filhas, tendo nada menos que outra Eva tirada de seus próprios ossos e carne, se a piedade tivesse permitido que isso se fizesse.[81] Mas onde se encontra o primeiro crime, o homicídio inaugurado no fratricídio, nenhum crime era tão digno do segundo lugar quanto um casamento duplo.[82] Pois não faz diferença se um homem teve duas esposas em tempos distintos, ou se duas ao mesmo tempo fizeram duas.[83] O número dos indivíduos unidos e separados é o mesmo.[84] Ainda assim, a instituição de Deus, depois de sofrer violência uma vez por todas por meio de Lameque, permaneceu firme até o fim daquela raça.[85] Não surgiu um segundo Lameque, no sentido de ser marido de duas mulheres.[86] O que a Escritura não registra, ela nega.[87] Outras iniquidades provocam o dilúvio, iniquidades vingadas de uma vez por todas, qualquer que fosse a sua natureza; não, porém, setenta e sete vezes, que é a vingança que os casamentos duplos mereceram.[88] Mas, novamente, a reforma da segunda raça humana é traçada a partir da monogamia como sua mãe.[89] Mais uma vez, dois unidos em uma só carne assumem o dever de crescer e multiplicar-se: Noé, isto é, e sua esposa, e seus filhos, em casamento único.[90] Até mesmo nos animais a monogamia é reconhecida, para que nem as próprias feras nasçam de adultério.[91] De todos os animais, disse Deus, de toda carne, dois conduzirás para a arca, para que vivam contigo, macho e fêmea; serão tomados de todas as aves segundo a sua espécie e de todos os répteis da terra segundo a sua espécie; de todos entrarão a ti dois, macho e fêmea.[92] Na mesma fórmula, Ele também ordena que grupos de sete, formados em pares, lhe sejam reunidos, consistindo em macho e fêmea, um macho e uma fêmea.[93] Que mais direi?[94] Nem mesmo aves impuras puderam entrar com duas fêmeas cada uma.[95] Até aqui basta quanto ao testemunho das coisas primordiais, à sanção de nossa origem e ao juízo prévio da instituição divina, que certamente é uma lei, e não apenas uma memória.[96] Pois, se foi assim desde o princípio, vemos que Cristo nos remete ao princípio; assim como, na questão do divórcio, ao dizer que ele fora permitido por Moisés por causa da dureza de coração deles, mas que desde o princípio não foi assim, Ele sem dúvida reconduz ao princípio a lei da individualidade do matrimônio.[97] E, portanto, aqueles que Deus uniu desde o princípio, dois em uma só carne, o homem não deve separar hoje.[98] O apóstolo também, escrevendo aos efésios, diz que Deus propôs em Si mesmo, na dispensação da plenitude dos tempos, reconduzir à cabeça, isto é, ao princípio, todas as coisas em Cristo, as que estão acima dos céus e as que estão sobre a terra, nele.[99] Do mesmo modo, as duas letras da Grécia, a primeira e a última, o Senhor as assume para Si como figuras do princípio e do fim.[100] Ambas convergem nele, de modo que, assim como o Alfa prossegue até alcançar o Ômega, e novamente o Ômega retorna até o Alfa, do mesmo modo Ele mostra que nele está tanto o curso descendente do princípio ao fim quanto o curso de retorno do fim ao princípio, para que toda economia, terminando nele por meio de quem começou, isto é, por meio da Palavra de Deus que se fez carne, tenha um fim correspondente ao seu princípio.[101] E tão verdadeiramente em Cristo todas as coisas são reconduzidas ao princípio, que até a fé retorna da circuncisão para a integridade daquela carne original, como era desde o princípio; e a liberdade dos alimentos, com abstinência apenas do sangue, como era desde o princípio; e a individualidade do matrimônio, como era desde o princípio; e a restrição do divórcio, que não era desde o princípio; e, por fim, o homem inteiro ao Paraíso, onde ele estava desde o princípio.[102] Por que, então, não deveria Ele restaurar ali ao menos a Adão como monogamista, já que não pode apresentá-lo em perfeição tão inteira como a que tinha quando dali foi expulso?[103] Assim, no que diz respeito à restauração do princípio, a lógica tanto da dispensação sob a qual vives quanto da tua esperança exigem isto de ti: que aquilo que era desde o princípio esteja de acordo com o princípio, princípio esse que encontras contado em Adão e recontado em Noé.[104] Escolhe, pois, em qual dos dois consideras o teu princípio.[105] Em ambos, o poder censório da monogamia te reivindica para si.[106] Mas, novamente: se o princípio passa ao fim, como o Alfa ao Ômega, e o fim volta ao princípio, como o Ômega ao Alfa, e assim a nossa origem é transferida para Cristo, do animal para o espiritual, porque não foi primeiro o espiritual, mas o animal, então vejamos, da mesma forma, se também deves esta mesma coisa a esta segunda origem: se o último Adão também te encontra na mesma forma que o primeiro, visto que o último Adão, isto é, Cristo, foi inteiramente não casado, como também o primeiro Adão antes do seu exílio.[107] Mas, apresentando à tua fraqueza o dom do exemplo de Sua própria carne, o Adão mais perfeito, isto é, Cristo, mais perfeito também por este motivo, porque era mais inteiramente puro, coloca-se diante de ti, se estás disposto a imitá-lo, como um celibatário voluntário na carne.[108] Se, porém, és desigual a tal perfeição, Ele se coloca diante de ti como monogamista em espírito, tendo uma só Igreja como Sua esposa, segundo a figura de Adão e Eva, figura que o apóstolo interpreta daquele grande sacramento de Cristo e da Igreja, ensinando que, pelo espiritual, ela correspondia à monogamia carnal.[109] Vês, portanto, de que modo, renovando a tua origem até mesmo em Cristo, não podes seguir essa origem sem a profissão da monogamia; a menos que, isto é, sejas na carne o que Ele é em espírito, embora, ainda assim, o que Ele foi na carne, tu igualmente deverias ter sido.[110] Mas prossigamos em nossa investigação sobre alguns ilustres chefes de nossa origem; pois há alguns a quem nossos pais monogamistas, Adão e Noé, não agradam, nem talvez Cristo.[111] A Abraão, por fim, eles recorrem, embora lhes seja vedado reconhecer qualquer outro pai além de Deus.[112] Concede, então, que Abraão é nosso pai; concede também que Paulo o seja.[113] No Evangelho, diz ele, eu vos gerei.[114] Mostra-te, pois, filho também de Abraão.[115] Pois tua origem nele, deves saber, não se refere a todo o período de sua vida; há um tempo definido em que ele é teu pai.[116] Porque, se a fé é a fonte pela qual somos contados como filhos de Abraão, como o apóstolo ensina, dizendo aos gálatas: sabeis, consequentemente, que os que são da fé, esses são filhos de Abraão, quando foi que Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado para justiça?[117] Suponho que quando ainda estava em monogamia, pois ainda não estava na circuncisão.[118] Mas se depois mudou para qualquer dos dois opostos, para a digamia pela coabitação com sua serva, e para a circuncisão pelo selo da aliança, tu não podes reconhecê-lo como teu pai senão naquele tempo em que creu em Deus, se é verdade que és seu filho segundo a fé e não segundo a carne.[119] Caso contrário, se é o Abraão posterior que segues como teu pai, isto é, o Abraão digamista, recebe-o então também em sua circuncisão.[120] Se rejeitas a sua circuncisão, segue-se que também recusarás a sua digamia.[121] Dois aspectos seus, mutuamente diversos em dois modos distintos, tu não poderás fundir.[122] Sua digamia começou com a circuncisão; sua monogamia, com a incircuncisão.[123] Tu recebes a digamia; admite então também a circuncisão.[124] Tu manténs a incircuncisão; estás então obrigado também à monogamia.[125] Além disso, é tão verdadeiro que és filho do Abraão monogamista, assim como do incircunciso, que, se fores circuncidado, imediatamente deixas de ser seu filho, visto que não serás da fé, mas do selo de uma fé que fora justificada na incircuncisão.[126] Tens o apóstolo; aprende dele, juntamente com os gálatas.[127] De modo semelhante, também, se te envolveste em digamia, não és filho daquele Abraão cuja fé precedeu na monogamia.[128] Pois, embora posteriormente ele seja chamado pai de muitas nações, ainda assim é daquelas nações que, como fruto da fé que precede a digamia, deveriam ser contadas como filhos de Abraão.[129] Daqui em diante, que as figuras cuidem de si mesmas.[130] Uma coisa são as figuras; outra, as leis.[131] Uma coisa são as imagens; outra, os estatutos.[132] As imagens passam quando se cumprem; os estatutos permanecem para serem cumpridos permanentemente.[133] As imagens profetizam; os estatutos governam.[134] O que a digamia de Abraão prefigurava, o mesmo apóstolo ensina plenamente, ele que é o intérprete de cada testamento, assim como também estabelece que a nossa descendência é chamada em Isaque.[135] Se és da mulher livre e pertences a Isaque, ele, em todo caso, manteve a unidade do casamento até o fim.[136] Estes, portanto, suponho eu, são aqueles em quem minha origem é contada.[137] Todos os demais eu ignoro.[138] E se olho em volta para seus exemplos, exemplos de um Davi acumulando casamentos para si até por meios sanguinários, de um Salomão rico em esposas assim como em outras riquezas, tu és mandado seguir as coisas melhores; e tens, além disso, José casado uma só vez, e sob este aspecto ouso dizer melhor que seu pai; tens Moisés, a testemunha íntima de Deus; tens Arão, o sumo sacerdote.[139] O segundo Moisés também, do segundo povo, que conduziu nossos representantes à posse da promessa de Deus, e em quem o Nome de Jesus foi inaugurado pela primeira vez, não foi digamista.[140] Depois dos antigos exemplos dos patriarcas, passemos igualmente aos antigos documentos das escrituras legais, para tratarmos em ordem de todo o nosso cânon.[141] E visto que há alguns que às vezes afirmam nada ter a ver com a lei, a qual Cristo não aboliu, mas cumpriu, e às vezes se agarram às partes da lei que lhes convêm, nós também afirmamos claramente que a lei morreu neste sentido: que os seus fardos, segundo a sentença dos apóstolos, os quais nem mesmo os pais puderam suportar, cessaram completamente.[142] Aquelas partes, porém, que se relacionam com a justiça, não só permanecem reservadas, como até foram ampliadas, para que a nossa justiça possa, com certeza, exceder a justiça dos escribas e fariseus.[143] Se a justiça deve permanecer, a castidade também deve.[144] Se, então, há na lei um preceito segundo o qual o homem deve tomar por esposa a mulher de seu irmão se este tiver morrido sem filhos, a fim de suscitar descendência ao seu irmão, e isso pode acontecer repetidamente à mesma pessoa, segundo aquela astuta pergunta dos saduceus, e por essa razão alguns pensam que a frequência de casamentos é permitida também em outros casos, será dever deles compreender primeiro a razão do próprio preceito.[145] E assim virão a saber que essa razão, agora cessando, está entre aquelas partes da lei que foram canceladas.[146] Era necessário que houvesse sucessão ao casamento de um irmão se ele morresse sem filhos: primeiro, porque aquela antiga bênção, crescei e multiplicai-vos, ainda precisava seguir seu curso; segundo, porque os pecados dos pais costumavam ser cobrados até dos filhos; terceiro, porque eunucos e estéreis costumavam ser considerados ignominiosos.[147] E assim, para que aqueles que haviam morrido sem filhos, não por incapacidade natural, mas por terem sido surpreendidos prematuramente pela morte, não fossem julgados igualmente malditos como a outra classe, por essa razão lhes era concedida uma descendência vicária e, por assim dizer, póstuma.[148] Mas agora, quando a extremidade dos tempos cancelou o crescei e multiplicai-vos, visto que os apóstolos dizem outra coisa, resta que os que têm esposa sejam como se não a tivessem, porque o tempo se abrevia; e a uva azeda comida pelos pais já não embota os dentes dos filhos, porque cada um morrerá em seu próprio pecado; e os eunucos não somente perderam a ignomínia, mas até mereceram graça, sendo convidados aos reinos dos céus; a lei de suceder à mulher do irmão foi sepultada, e o seu contrário prevaleceu, o de não suceder à mulher do irmão.[149] E assim, como dissemos antes, aquilo que deixou de ser válido, cessando sua razão, não pode fornecer base para outro argumento.[150] Portanto, a mulher, quando seu marido estiver morto, não se casará; pois, se se casar, naturalmente estará casando com um irmão, porque todos nós somos irmãos.[151] Novamente, a mulher, se pretende casar, deve casar no Senhor, isto é, não com um pagão, mas com um irmão, visto que até a antiga lei proíbe casamento com membros de outra tribo.[152] Além disso, também em Levítico há uma advertência: quem tiver tomado a mulher de seu irmão, é impureza, torpeza; morrerá sem filhos.[153] Sem dúvida, enquanto o homem é proibido de casar pela segunda vez, a mulher também o é, não tendo a quem casar senão com um irmão.[154] De que modo, então, se estabelecerá um acordo entre o apóstolo e a Lei, que ele não impugna em sua totalidade, isso será mostrado quando chegarmos à sua própria epístola.[155] Enquanto isso, no que diz respeito à lei, as linhas de argumentação tiradas dela nos são mais favoráveis do que aos nossos adversários.[156] Em resumo, a mesma lei proíbe aos sacerdotes casar pela segunda vez.[157] Também ordena que a filha de um sacerdote, se viúva ou repudiada, se não tiver tido descendência, retorne para a casa de seu pai e seja alimentada do pão dele.[158] A razão pela qual se diz se não tiver tido descendência não é que, se tiver, então possa casar-se de novo, pois quanto mais se absterá de casar se tiver filhos; mas para que, se os tiver, seja sustentada por seu filho em vez de por seu pai, a fim de que o filho também cumpra o preceito de Deus: honra teu pai e tua mãe.[159] Além disso, Jesus, o Sumo e Grande Sacerdote do Pai, vestindo-nos do que é Seu, pois todos quantos foram batizados em Cristo se revestiram de Cristo, nos fez sacerdotes para Deus, Seu Pai, segundo João.[160] Pois a razão pela qual Ele chama de volta aquele jovem que se apressava para as exéquias de seu pai é mostrar que somos chamados por Ele de sacerdotes, sacerdotes a quem a Lei costumava proibir estar presentes no sepultamento dos pais.[161] Sobre toda alma morta, diz ela, o sacerdote não entrará; e por seu próprio pai e sua própria mãe não se contaminará.[162] Segue-se disso que nós também estamos obrigados a observar esta proibição?[163] De modo nenhum.[164] Pois nosso único Pai, Deus, vive, e nossa mãe é a Igreja; e nem nós somos mortos, visto que vivemos para Deus, nem sepultamos nossos mortos, visto que eles também vivem em Cristo.[165] Em todo caso, somos chamados sacerdotes por Cristo, devedores da monogamia, de acordo com a antiga Lei de Deus, que naquele tempo profetizava a nosso respeito em seus próprios sacerdotes.[166] Voltando-nos agora para a lei que propriamente é nossa, isto é, para o Evangelho, com que espécie de exemplos nos deparamos, até chegarmos aos dogmas definidos?[167] Eis que imediatamente se apresentam a nós, como que no limiar, as duas sacerdotisas da santidade cristã: Monogamia e Continência.[168] Uma é modesta, em Zacarias, o sacerdote; a outra é absoluta, em João, o precursor.[169] Uma apazigua a Deus; a outra prega Cristo.[170] Uma proclama um sacerdote perfeito; a outra exibe alguém maior que um profeta, aquele, a saber, que não apenas pregou ou apontou pessoalmente Cristo, mas até O batizou.[171] Pois quem era mais digno de realizar o rito iniciatório sobre o corpo do Senhor do que uma carne semelhante, em sua espécie, àquela que concebeu e deu à luz aquele corpo?[172] E, de fato, foi uma virgem, prestes a casar uma única vez após o parto, quem deu à luz Cristo, para que cada título de santidade se cumprisse na parentela de Cristo, por meio de uma mãe que era ao mesmo tempo virgem e esposa de um só marido.[173] Novamente, quando Ele é apresentado ainda criança no templo, quem é que O recebe em seus braços?[174] Quem é o primeiro a reconhecê-Lo no espírito?[175] Um homem justo e circunspecto, e certamente não digamista, o que é claro até por esta consideração: para que, de outro modo, Cristo não fosse logo mais dignamente proclamado por uma mulher, uma viúva idosa e esposa de um só marido, a qual, vivendo devotada ao templo, já dava em sua própria pessoa um sinal suficiente de que tipo de pessoas deveriam ser os aderentes do templo espiritual, isto é, a Igreja.[176] Tais testemunhas o Senhor encontrou em Sua infância; e não teve outras diferentes em Sua idade adulta.[177] Somente Pedro encontro eu, pela menção de sua sogra, como tendo sido casado.[178] Sou levado a presumir que ele era monogamista pela consideração da Igreja que, edificada sobre ele, estava destinada a nomear todos os graus de sua ordem a partir de monogamistas.[179] Quanto aos demais, visto que não os encontro casados, devo necessariamente entendê-los ou como eunucos ou como continentes.[180] Nem, de fato, porque entre os gregos, segundo o descuido do costume, mulheres e esposas são classificadas sob um nome comum, embora haja um nome próprio para esposas, devemos por isso interpretar Paulo como se demonstrasse que os apóstolos tinham esposas.[181] Pois, se ele estivesse discutindo sobre casamentos, como faz em seguida, onde o apóstolo poderia melhor ter mencionado algum exemplo particular, pareceria correto que dissesse: não temos nós o poder de conduzir esposas conosco, como os demais apóstolos e Cefas?[182] Mas, quando ele acrescenta aquelas expressões que mostram sua abstinência de insistir no sustento, dizendo: não temos nós o poder de comer e beber?, ele não demonstra que esposas eram conduzidas pelos apóstolos, os quais, mesmo os que não as têm, ainda têm o poder de comer e beber; mas simplesmente mulheres, que costumavam servi-los da mesma maneira que faziam quando acompanhavam o Senhor.[183] Além disso, se Cristo repreende os escribas e fariseus que se assentam na cadeira oficial de Moisés, mas não fazem o que ensinam, que espécie de suposição é esta, que Ele mesmo colocaria em Sua própria cadeira oficial homens que tinham em mente antes ordenar, mas não também praticar, a santidade da carne, santidade que Ele recomendara de todas as maneiras ao ensino e à prática deles?[184] Primeiro, por Seu próprio exemplo; depois, por todos os demais argumentos.[185] Enquanto lhes diz que o reino dos céus pertence às crianças; enquanto associa a estas outras pessoas que, depois do casamento, permaneceram ou se tornaram virgens; enquanto os chama a copiar a simplicidade da pomba, ave não apenas inofensiva, mas também modesta, e cujo macho conhece uma só fêmea; enquanto nega que o homem da samaritana fosse seu marido, para mostrar que a multiplicidade de maridos é adultério; enquanto, na revelação de Sua própria glória, prefere, dentre tantos santos e profetas, ter consigo Moisés e Elias, um monogamista, o outro um celibatário voluntário, pois Elias não era outra coisa senão João, que veio no poder e espírito de Elias; enquanto aquele homem comilão e bebedor, frequentador de almoços e ceias, em companhia de publicanos e pecadores, ceara uma única vez em um único casamento, embora, naturalmente, muitos estivessem se casando ao redor dele; porque Ele quis comparecer a casamentos apenas tantas vezes quantas quis que eles existissem.[186] Mas concede que essas argumentações possam ser consideradas forçadas e fundadas em conjecturas, se não existissem ensinamentos dogmáticos paralelos a elas, ensinamentos que o Senhor proferiu ao tratar do divórcio, o qual, antes permitido, agora Ele proíbe.[187] Primeiro, porque desde o princípio não foi assim, como também não foi a pluralidade de casamentos.[188] Segundo, porque aquilo que Deus uniu, o homem não separe, para que não contrarie o Senhor.[189] Pois só Ele separará aquilo que uniu, separará, além disso, não pela dureza do divórcio, dureza que Ele censura e restringe, mas pela dívida da morte, se de fato nem um dos dois pardais cai em terra sem a vontade do Pai.[190] Portanto, se aqueles que Deus uniu o homem não deve separar pelo divórcio, é igualmente coerente que aqueles que Deus separou pela morte o homem não una pelo casamento; unir a separação seria tão contrário à vontade de Deus quanto seria separar a união.[191] Até aqui quanto à não destruição da vontade de Deus e ao restabelecimento da lei do princípio.[192] Mas também outra razão concorre; aliás, não outra, mas a mesma que impôs a lei do princípio e moveu a vontade de Deus a proibir o divórcio: o fato de que quem despedir sua esposa, exceto por causa de adultério, a faz cometer adultério; e quem casar com uma mulher despedida por seu marido, naturalmente comete adultério.[193] Uma mulher divorciada não pode sequer casar legitimamente; e, se pratica tal ato sem o nome de casamento, isso não cai na categoria do adultério, já que o adultério é um crime na via do casamento?[194] Tal é o veredito de Deus, em limites mais estreitos do que os dos homens: universalmente, quer por casamento quer de modo promíscuo, a admissão de um segundo homem na relação é por Ele pronunciada adultério.[195] Vejamos, pois, o que é casamento aos olhos de Deus; e assim aprenderemos igualmente o que é adultério.[196] Casamento é isto: quando Deus une dois em uma só carne; ou então, encontrando-os já unidos na mesma carne, põe Seu selo sobre a união.[197] Adultério é isto: quando, tendo os dois sido, de qualquer modo, separados, outra carne, ou melhor, carne estranha, é misturada a qualquer um dos dois; carne sobre a qual não se pode afirmar: esta é carne da minha carne e osso dos meus ossos.[198] Pois isso, feito e pronunciado uma vez por todas, tanto desde o princípio como agora, não pode aplicar-se a outra carne.[199] Portanto, dirás sem motivo que Deus não quer que uma mulher divorciada se una a outro homem enquanto seu marido vive, como se quisesse isso quando ele está morto; quando, se ela não está ligada a ele quando morto, tampouco está quando vivo.[200] Tanto quando o divórcio desfaz o casamento quanto quando a morte o faz, ela não estará ligada àquele pelo qual o vínculo foi rompido.[201] A quem, então, ela estará ligada?[202] Aos olhos de Deus, nada importa se ela se casa durante a vida dele ou depois da morte dele.[203] Pois ela não peca contra ele, mas contra si mesma.[204] Qualquer pecado que um homem tenha cometido é exterior ao corpo; mas quem comete adultério peca contra o seu próprio corpo.[205] Mas, como já estabelecemos acima, quem misturar consigo outra carne, além daquela carne primeira que Deus ou uniu em dois ou já encontrou unida, comete adultério.[206] E a razão pela qual Ele aboliu o divórcio, que não era desde o princípio, é para fortalecer aquilo que era desde o princípio, isto é, a união permanente de dois em uma só carne, para que a necessidade ou a oportunidade de uma terceira união carnal não faça irrupção em Seu domínio.[207] Assim, permite o divórcio por uma única causa, isto é, se porventura o mal contra o qual se toma precaução tiver acontecido de antemão.[208] Tão verdadeiro, ademais, é que o divórcio não era desde o princípio, que entre os romanos não é senão depois do sexcentésimo ano da fundação da cidade que esse tipo de dureza de coração é registrado como tendo sido praticado.[209] Mas eles se entregam a adultérios promíscuos até sem se divorciarem de seus cônjuges; para nós, mesmo que nos divorciemos deles, nem sequer o casamento será lícito.[210] A partir deste ponto vejo que somos desafiados por um apelo ao apóstolo; para compreender mais facilmente o seu sentido, devemos inculcar com ainda maior insistência esta afirmação: que uma mulher está mais obrigada, quando seu marido está morto, a não admitir outro marido em casamento.[211] Pois reflitamos que o divórcio ou é causado pela discórdia, ou causa discórdia; enquanto a morte é um evento resultante da lei de Deus, não de uma ofensa do homem; e é uma dívida que todos devem, até os não casados.[212] Portanto, se uma mulher divorciada, que foi separada de seu marido na alma assim como no corpo, por discórdia, ira, ódio e as causas disso, injúria, ofensa, ou qualquer motivo de queixa, está ligada a um inimigo pessoal, para não dizer a um marido, quanto mais estará ligada aquela que, não por culpa sua nem do marido, mas por um evento decorrente da lei do Senhor, foi não separada do seu consorte, mas deixada para trás por ele, e será dele até mesmo quando morto, a quem, mesmo morto, ela deve a dívida da concórdia?[213] Daquele de quem não ouviu palavra alguma de divórcio, ela não se afasta; com ele ela está, a quem não escreveu documento algum de divórcio; àquele que não quis perder, ela conserva.[214] Ela possui dentro de si a licença da mente, que representa a um homem, em gozo imaginário, todas as coisas que ele não tem.[215] Em resumo, pergunto à própria mulher: dize-me, irmã, enviaste teu marido adiante de ti em paz para o seu descanso?[216] Que responderá ela?[217] Dirá: em discórdia?[218] Nesse caso, tanto mais está ligada àquele com quem tem uma causa a pleitear diante do tribunal de Deus.[219] Aquela que está ligada a outro não se apartou dele.[220] Ou dirá: em paz?[221] Nesse caso, ela deve necessariamente perseverar nessa paz com aquele de quem não terá mais o poder de se divorciar; não que, mesmo se pudesse divorciar-se dele, se tornasse apta ao casamento.[222] De fato, ela ora por sua alma, pede refrigério para ele entrementes e comunhão com ele na primeira ressurreição; e oferece o seu sacrifício nos aniversários do seu adormecimento.[223] Pois, se não faz essas coisas, então, no sentido verdadeiro, ela se divorciou dele, tanto quanto dependia dela; e isso tanto mais iniquamente, quanto o fez até onde estava em seu poder, justamente porque não tinha poder para fazê-lo; e com tanto maior indignidade, quanto é mais indigno se a razão disso é porque ele não o merecia.[224] Ou então, rogo, deixaremos de existir após a morte, segundo o ensino de algum Epicuro, e não segundo o de Cristo?[225] Mas, se cremos na ressurreição dos mortos, certamente estaremos ligados àqueles com quem estamos destinados a ressurgir, para prestar contas um do outro.[226] Mas se naquele século não se casarão nem se darão em casamento, antes serão como os anjos, não seria o fato de não haver restituição da relação conjugal um motivo para que não estejamos ligados aos nossos consortes falecidos?[227] Não; antes, tanto mais estaremos ligados a eles, porque estamos destinados a um estado melhor, destinados, como estamos, a ressurgir para um consórcio espiritual, a reconhecer tanto a nós mesmos quanto aqueles que são nossos.[228] De outro modo, como cantaremos graças a Deus por toda a eternidade, se em nós não permanecer senso nem memória desta dívida, se formos refeitos na substância, mas não na consciência?[229] Consequentemente, nós que estaremos com Deus estaremos juntos, visto que todos estaremos com o único Deus, embora os galardões sejam diversos, embora haja muitas moradas, na casa do mesmo Pai, tendo trabalhado pelo único denário do mesmo salário, isto é, da vida eterna; vida eterna na qual Deus ainda menos separará aqueles que uniu do que nesta vida menor Ele proíbe que sejam separados.[230] Sendo assim, como haverá lugar para outro marido para uma mulher que, até mesmo para o futuro, está na posse do seu próprio?[231] Além disso, falamos a ambos os sexos, ainda que o nosso discurso se dirija apenas a um, porque uma mesma disciplina incumbe a ambos.[232] Ela terá um no espírito e outro na carne.[233] Isto será adultério: a afeição consciente de uma mulher por dois homens.[234] Se um foi separado de sua carne, mas permanece em seu coração, nesse lugar onde até a cogitação sem contato carnal realiza previamente tanto o adultério pela concupiscência quanto o matrimônio pela vontade, ele até esta hora é seu marido, possuindo justamente aquilo pelo qual se tornou marido, isto é, sua mente, na qual, se outro vier a encontrar morada, isso será crime.[235] Além disso, ele não está excluído se se retirou do comércio carnal mais vil.[236] Marido mais honrado é ele, na medida em que se tornou mais puro.[237] Concede, então, que te cases no Senhor, de acordo com a lei e com o apóstolo, se, apesar de tudo, te importas sequer com isso.[238] Com que rosto pedes a solene celebração de um matrimônio que é ilícito àqueles de quem o pedes: a um bispo monogamista, a presbíteros e diáconos ligados pelo mesmo compromisso solene, a viúvas cuja ordem tu recusaste na tua própria pessoa?[239] E eles, evidentemente, vos darão maridos e esposas como se dessem pedaços de pão; pois esta é a sua interpretação de a todo o que te pede, dá.[240] E eles vos unirão em uma igreja virgem, a única prometida do único Cristo.[241] E tu orarás por teus maridos, o novo e o antigo.[242] Escolhe a qual dos dois farás o papel de adúltera.[243] Penso: a ambos.[244] Mas se tens alguma sabedoria, cala-te em favor do que morreu.[245] Seja teu silêncio para ele um divórcio, já confirmado nos dotes de outro.[246] Desse modo ganharás o favor do novo marido, se esqueceres o velho.[247] Deverias empenhar-te mais em agradar àquele por causa de quem preferiste não agradar a Deus.[248] Tal conduta os psíquicos querem que o apóstolo tenha aprovado, ou então que ele simplesmente não tenha pensado nisso, quando escreveu: a mulher está ligada durante todo o tempo em que o marido vive; mas, se ele morrer, ela está livre; case-se com quem quiser, somente no Senhor.[249] É dessa passagem que eles tiram a defesa da licença do segundo casamento; e mais ainda, de casamentos em qualquer número, desde que se admita o segundo, porque aquilo que cessou uma vez por todas está aberto a qualquer quantidade.[250] Mas o sentido em que o apóstolo escreveu ficará evidente se primeiro concordarmos que ele não escreveu no sentido do qual os psíquicos se aproveitam.[251] Além disso, essa concordância virá se primeiramente se recordarem aquelas passagens que divergem da passagem em questão, quando examinadas pela regra da doutrina, da vontade e da própria disciplina de Paulo.[252] Pois, se ele permite segundas núpcias, que não existiam desde o princípio, como afirma que todas as coisas estão sendo reconduzidas ao princípio em Cristo?[253] Se ele quer que reiteremos uniões conjugais, como sustenta que nossa semente é chamada em Isaque, autor casado uma só vez?[254] Como faz da monogamia a base da disposição de toda a ordem eclesiástica, se esta regra não vigora antes de tudo no caso dos leigos, de cujas fileiras procede a ordem eclesiástica?[255] Como afasta do gozo do casamento aqueles que ainda estão em condição de casados, dizendo que o tempo se abreviou, se chama de volta ao casamento aqueles que pela morte haviam escapado dele?[256] Se essas passagens divergem daquela única sobre a qual está a presente questão, ficará assentado, como dissemos, que ele não escreveu no sentido de que os psíquicos se aproveitam; pois é mais fácil crer que aquela única passagem tenha alguma explicação em harmonia com as demais do que que um apóstolo pareça ter ensinado princípios mutuamente diversos.[257] Essa explicação poderemos descobrir no próprio assunto.[258] Qual foi o assunto que levou o apóstolo a escrever tais palavras?[259] Foi a inexperiência de uma Igreja nova e recém-surgida, que ele estava criando com leite, e não ainda com o alimento sólido de uma doutrina mais forte; inexperiência tão grande que aquela infância da fé os impedia ainda de saber o que deviam fazer a respeito da necessidade carnal e sexual.[260] As próprias fases dessa inexperiência são compreensíveis a partir das respostas do apóstolo, quando ele diz: quanto às coisas que me escrevestes, bom seria para o homem não tocar em mulher; mas, por causa das fornicações, tenha cada um a sua própria esposa.[261] Ele mostra que havia alguns que, tendo sido alcançados pela fé no estado de casamento, estavam receosos de que daí em diante já não lhes fosse lícito usufruir do casamento, porque haviam crido na santa carne de Cristo.[262] E, no entanto, é a título de concessão que ele faz essa permissão, não a título de mandamento; isto é, tolerando a prática, não ordenando-a.[263] Por outro lado, ele queria antes que todos fossem como ele mesmo era.[264] Do mesmo modo também, ao enviar uma resposta sobre o divórcio, ele demonstra que alguns haviam pensado nisso também, principalmente porque não supunham que deveriam perseverar, após a fé, em casamentos pagãos.[265] Além disso, pediram conselho a respeito das virgens, para as quais não havia preceito do Senhor, e lhes foi dito que é bom para o homem permanecer assim de modo permanente, isto é, tal como foi encontrado pela fé.[266] Foste ligado a uma esposa, não procures desfazer-te; foste desligado de uma esposa, não procures esposa.[267] Mas, se tomares esposa, não pecaste; porque, para aquele que antes de crer havia sido desligado de uma esposa, não será contada como segunda esposa aquela que, depois de crer, é a primeira; pois é a partir do nosso crer que a própria vida passa a datar a sua origem.[268] Mas aqui ele diz que os poupa; do contrário, logo viria a pressão da carne, em consequência das aflições dos tempos, que evitavam os encargos do casamento; sim, antes, é preciso sentir preocupação em obter o favor do Senhor mais do que o de um marido.[269] E assim ele revoga a sua permissão.[270] Então, na própria passagem em que decide claramente que cada um deve permanecer permanentemente na vocação em que foi chamado, acrescentando: a mulher está ligada enquanto o marido vive; mas, se ele adormecer, está livre; case-se com quem quiser, somente no Senhor, ele também demonstra que tal mulher deve ser entendida como aquela que já foi encontrada pela fé desligada de um marido, semelhantemente ao marido desligado de uma mulher, desligamento esse ocorrido pela morte, é claro, não pelo divórcio; visto que ao divorciado ele não daria permissão para casar, contra o preceito primário.[271] E assim, a mulher, se tiver se casado, não pecará; porque não será contado como segundo marido aquele que, posteriormente ao seu crer, é o primeiro, assim como também a esposa assim tomada não será contada como segunda esposa.[272] E isso é tão verdade que ele por isso acrescenta: somente no Senhor, porque a questão em debate era a respeito da mulher que tivera um marido pagão e crera depois de perdê-lo; para que, a saber, ela não presumisse poder casar-se com um pagão mesmo depois de crer, embora nem mesmo isso seja objeto de preocupação para os psíquicos.[273] Saibamos claramente que, no original grego, não está na forma que, por alteração astuta ou simples de duas sílabas, entrou em uso comum: mas se o seu marido tiver adormecido, como se estivesse falando do futuro e, por isso, parecesse referir-se àquela que perdeu o marido já estando em estado de fé.[274] Se assim realmente fosse, uma licença solta sem limite teria concedido um novo marido tantas vezes quantas vezes um tivesse sido perdido, sem qualquer modéstia ao casar que seja apropriada até mesmo aos pagãos.[275] Mas, ainda que tivesse sido assim, como se se referisse ao tempo futuro, se o marido de alguma mulher morrer, até o futuro se aplicaria igualmente àquela cujo marido viesse a morrer antes de ela crer.[276] Toma-o de qualquer maneira, desde que não destruas o restante.[277] Pois, já que aquelas outras passagens concordam com o sentido acima dado: foste chamado como escravo, não te preocupes; foste chamado na incircuncisão, não te circuncides; foste chamado na circuncisão, não te tornes incircunciso; com o que concorda: foste ligado a uma esposa, não procures desfazer-te; foste desligado de uma esposa, não procures esposa, é suficientemente manifesto que essas passagens se referem àqueles que, encontrando-se numa vocação nova e recente, consultavam o apóstolo sobre aquelas condições circunstanciais em que haviam sido alcançados pela fé.[278] Esta será, portanto, a interpretação daquela passagem, a ser examinada quanto a se é congruente com o tempo e a ocasião, com os exemplos e argumentos precedentes, bem como com as sentenças e sentidos subsequentes, e principalmente com o conselho individual e a prática do próprio apóstolo; pois nada deve ser guardado com tanto zelo quanto o cuidado de que ninguém seja achado contradizendo a si mesmo.[279] Ouve agora a argumentação muito sutil do lado contrário.[280] É tão verdadeiro, dizem nossos adversários, que o apóstolo permitiu a repetição do casamento, que somente aos que pertencem à ordem clerical ele impôs rigidamente o jugo da monogamia.[281] Pois aquilo que ele prescreve a certos indivíduos, não o prescreve a todos.[282] Segue-se então também que apenas aos bispos ele não prescreve aquilo que ordena a todos, se o que prescreve aos bispos não o ordena a todos?[283] Ou será, então, para todos porque é para os bispos?[284] E, portanto, para os bispos porque é para todos?[285] Pois de onde vêm os bispos e o clero?[286] Não vêm de todos?[287] Se todos não estão obrigados à monogamia, de onde se tirarão monogamistas para o grau clerical?[288] Será preciso instituir alguma ordem separada de monogamistas, da qual se faça seleção para o corpo clerical?[289] Não; mas quando estamos nos exaltando e inflando em oposição ao clero, então somos todos um só; então somos todos sacerdotes, porque Ele nos fez sacerdotes para Deus e Seu Pai.[290] Quando somos chamados a uma equiparação completa com a disciplina sacerdotal, depomos as fitas sacerdotais e ainda assim nos dizemos em igualdade![291] A questão em mãos, quando o apóstolo escrevia, dizia respeito às ordens eclesiásticas: que tipo de homem deveria ser ordenado.[292] Era, portanto, adequado que toda a forma da disciplina comum fosse colocada em sua frente, como um édito a ser, em certo sentido, universal e cuidadosamente observado, para que os leigos soubessem melhor que eles próprios devem guardar aquela ordem que era indispensável aos seus supervisores; e para que até o próprio ofício de honra não se lisonjeasse em coisa alguma tendente à licença, como se fosse por privilégio de posição.[293] O Espírito Santo previu que alguns diriam: todas as coisas são lícitas aos bispos, assim como aquele vosso bispo de Utina não temeu sequer a lei Scantínia.[294] Ora, quantos digamistas também presidem em vossas igrejas, insultando o apóstolo, evidentemente; ao menos não coram quando essas passagens são lidas sob sua presidência.[295] Vinde agora, vós que pensais que uma lei excepcional de monogamia foi feita com referência aos bispos; abandonai também os demais títulos disciplinares que, juntamente com a monogamia, são atribuídos aos bispos.[296] Recusai ser irrepreensíveis, sóbrios, de bons costumes, ordeiros, hospitaleiros, aptos para ensinar; antes, sede dados ao vinho, prontos para ferir com a mão, briguentos, amantes do dinheiro, incapazes de governar vossa casa e de cuidar da disciplina de vossos filhos; sim, e até sem boa reputação diante dos estranhos.[297] Pois, se os bispos têm uma lei própria que ensina a monogamia, as outras características também, que seriam os concomitantes adequados da monogamia, terão sido escritas exclusivamente para os bispos.[298] Mas, com os leigos, para os quais a monogamia não seria adequada, as outras características também nada teriam a ver.[299] Assim, ó psíquico, evadiste, se quiseres, os laços da disciplina em sua totalidade.[300] Sê coerente ao prescrever que aquilo que é ordenado a certos indivíduos não é ordenado a todos; ou então, se as outras características de fato são comuns, mas a monogamia é imposta apenas aos bispos, diz-me, rogo-te, serão então chamados cristãos apenas aqueles a quem é conferida a totalidade da disciplina?[301] Mas, de novo, escrevendo a Timóteo, ele quer que as mais jovens se casem, tenham filhos e governem a casa.[302] Ele dirige aqui a sua palavra àquelas que ele acima designa: viúvas muito jovens que, tendo sido alcançadas na viuvez e, posteriormente, cortejadas por algum tempo, depois de terem Cristo em suas afeições, querem casar, tendo condenação, porque anularam a primeira fé, isto é, aquela fé na qual foram encontradas em viuvez e, depois de a professarem, não perseveram.[303] Por essa razão ele quer que se casem, para que não venham depois a anular a primeira fé da viuvez professada; não para autorizar que se casem tantas vezes quantas recusarem perseverar numa viuvez exercitada pela tentação, ou melhor, gasta na indulgência.[304] Lemo-lo também escrevendo aos romanos: a mulher que está sujeita a marido está ligada ao marido enquanto ele vive; mas, se ele morrer, foi emancipada da lei do marido.[305] Sem dúvida, então, vivendo o marido, ela será tida por adúltera se vier a unir-se a um segundo marido.[306] Se, porém, o marido morrer, ela é libertada da lei dele, de modo que não é adúltera se for feita esposa de outro marido.[307] Mas lê também a sequência, para que esse sentido que te adula escape de tuas mãos.[308] E assim, diz ele, meus irmãos, vós também fostes feitos mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais sujeitos a um segundo, isto é, àquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de darmos fruto para Deus.[309] Pois, quando estávamos na carne, as paixões do pecado, as quais eram eficazmente produzidas pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte; mas agora fomos emancipados da lei, tendo morrido para aquilo em que antes éramos retidos, para servirmos a Deus em novidade de espírito e não em velhice de letra.[310] Portanto, se ele nos manda sermos feitos mortos para a lei pelo corpo de Cristo, que é a Igreja, constituída no espírito da novidade, e não pela letra da velhice, isto é, da lei, afastando-te da lei que não impede a esposa, quando o marido está morto, de tornar-se esposa de outro marido, ele te reduz à condição contrária: a de não te casares quando tiveres perdido o marido.[311] E, na mesma medida em que não serias considerada adúltera se te tornasses esposa de um segundo marido depois da morte do primeiro, caso ainda estivesses obrigada a agir em sujeição à lei, nessa mesma medida, como resultado da diversidade de tua condição, ele te julga previamente culpada de adultério se, depois da morte do marido, te casares com outro; visto que agora foste feita morta para a lei, já não pode ser lícito para ti aquilo que era lícito aos olhos daquela lei da qual te retiraste.[312] Ora, se o apóstolo tivesse permitido de modo absoluto o casamento quando o cônjuge foi perdido depois da conversão à fé, teria feito isso exatamente como fez outras ações contrárias à letra estrita de sua própria regra, para acomodar-se às circunstâncias dos tempos: circuncidando Timóteo por causa de falsos irmãos supostos, e conduzindo certos homens raspados ao templo por causa da vigilância observadora dos judeus, ele mesmo que repreende os gálatas quando desejam viver na observância da lei.[313] Mas as circunstâncias exigiam que ele se fizesse tudo para todos, a fim de ganhar a todos; sofrendo dores de parto por eles até que Cristo fosse formado neles; e alimentando, como se fosse uma ama, os pequeninos da fé, ensinando-lhes algumas coisas a título de indulgência, não de mandamento, pois uma coisa é tolerar, outra é ordenar, permitindo uma licença temporária de novo casamento por causa da fraqueza da carne, assim como Moisés permitiu o divórcio por causa da dureza do coração.[314] E aqui, portanto, daremos o complemento desse seu sentido.[315] Pois, se Cristo aboliu aquilo que Moisés ordenou, porque desde o princípio não era assim; e se, sendo assim, Cristo não será por isso reputado como vindo de algum outro poder; por que também o Paráclito não poderia abolir uma indulgência que Paulo concedeu, já que também o segundo casamento não era desde o princípio, sem por isso merecer ser visto com suspeita como se fosse um espírito estranho, contanto que a superadição seja digna de Deus e de Cristo?[316] Se era digno de Deus e de Cristo refrear a dureza de coração quando o tempo de sua tolerância estava plenamente expirado, por que não seria ainda mais digno de Deus e de Cristo sacudir a fraqueza da carne quando o tempo já está ainda mais contraído?[317] Se é justo que o casamento não seja rompido, é claro que também é honroso que ele não seja reiterado.[318] Em resumo, na avaliação do mundo, cada uma dessas coisas é considerada marca de boa disciplina: uma sob o nome de concórdia, a outra sob o nome de modéstia.[319] A dureza de coração reinou até o tempo de Cristo; que a fraqueza da carne se contente em ter reinado até o tempo do Paráclito.[320] A Nova Lei aboliu o divórcio, e tinha algo a abolir; a Nova Profecia abole o segundo casamento, que não é menos divórcio do casamento anterior.[321] Mas a dureza de coração cedeu a Cristo mais prontamente do que a fraqueza da carne.[322] Esta última reivindica Paulo em seu apoio mais do que aquela reivindica Moisés, se é que realmente o reivindica em apoio quando se apega à sua indulgência, mas recusa o seu preceito, eludindo suas opiniões mais deliberadas e suas vontades constantes, sem nos permitir prestar ao apóstolo a obediência que ele prefere.[323] E por quanto tempo esta fraqueza tão despudorada continuará a travar uma guerra de extermínio contra as coisas melhores?[324] O tempo de sua indulgência foi até que o Paráclito começasse Suas operações, para cuja vinda o Senhor reservou aquelas coisas que, em Seu dia, não podiam ser suportadas; e agora já não é possível a ninguém alegar incapacidade de suportá-las, visto que não falta Aquele por quem é concedido o poder de suportar.[325] Por quanto tempo alegaremos a carne, porque o Senhor disse: a carne é fraca?[326] Mas Ele também antecipou que o Espírito está pronto, para que o Espírito vença a carne, para que o fraco ceda ao mais forte.[327] Pois novamente Ele diz: quem é capaz de receber, receba; isto é, quem não é capaz, vá-se embora.[328] Foi embora aquele homem rico que não recebeu o preceito de repartir seus bens aos necessitados, e foi deixado pelo Senhor à sua própria opinião.[329] Nem por isso se imputará dureza a Cristo, já que a causa da ação viciosa é o livre-arbítrio de cada indivíduo.[330] Eis, diz Ele, pus diante de ti o bem e o mal.[331] Escolhe aquilo que é bom; se não podes, é porque não queres, pois que podes, se quiseres, Ele o mostrou, porque propôs ambos à tua livre vontade; e tu deves afastar-te daquele cuja vontade não queres.[332] Que dureza, portanto, há de nossa parte, se renunciamos à comunhão com aqueles que não fazem a vontade de Deus?[333] Que heresia há, se julgamos o segundo casamento, sendo ilícito, como algo aparentado ao adultério?[334] Pois o que é adultério senão casamento ilícito?[335] O apóstolo marca com estigma aqueles que costumavam proibir totalmente o casamento e ao mesmo tempo interdiziam os alimentos que Deus criou.[336] Nós, porém, não abolimos o casamento ao rejeitarmos sua repetição, assim como não reprovamos os alimentos quando jejuamos mais vezes do que outros.[337] Uma coisa é abolir; outra, regular.[338] Uma coisa é estabelecer uma lei de não casar; outra é fixar um limite ao casar.[339] Falando francamente, se aqueles que nos censuram por dureza, ou estimam haver heresia nesta nossa causa, alimentam a fraqueza da carne a tal ponto que julgam dever ser-lhe dado apoio na frequência dos casamentos, por que, em outro caso, nem lhe concedem apoio nem a tratam com indulgência quando, a saber, os tormentos a reduziram à negação da fé?[340] Pois, certamente, é mais capaz de desculpa aquela fraqueza que caiu na batalha do que a que caiu no leito; a que sucumbiu no cavalete do suplício do que a que sucumbiu no leito nupcial; a que cedeu à crueldade do que a que cedeu ao apetite; a que foi vencida gemendo do que a que foi vencida no ardor.[341] Mas a primeira eles excomungam, porque não perseverou até o fim; a última eles amparam, como se também ela tivesse perseverado até o fim.[342] Pergunta por que cada uma não perseverou até o fim, e verás que a causa daquela fraqueza que não conseguiu suportar a ferocidade é mais honrosa do que a daquela que não conseguiu suportar a modéstia.[343] E, no entanto, nem mesmo uma deserção arrancada pelo sangue, para não dizer uma deserção imodesta, é desculpada pela fraqueza da carne.[344] Mas eu sorrio quando se apresenta contra nós o argumento da fraqueza da carne, fraqueza que antes deve ser chamada ápice de força.[345] A repetição do casamento é coisa de força; levantar-se outra vez da tranquilidade da continência para as obras da carne requer freios vigorosos.[346] Tal fraqueza equivale a um terceiro, a um quarto e até talvez a um sétimo casamento, por ser algo que aumenta sua força tantas vezes quantas a sua fraqueza; e já não terá o apoio da autoridade de um apóstolo, mas o de algum Hermógenes, acostumado a casar com mais mulheres do que pinta.[347] Pois nele a matéria é abundante; daí ele presumir até que a alma é material; e, por isso, muito mais do que outros homens, ele não tem o Espírito de Deus, já não sendo nem mesmo um psíquico, porque até o seu elemento psíquico não deriva do sopro de Deus.[348] E se um homem alegar indigência, a ponto de professar que sua carne está abertamente prostituída e entregue em casamento por causa do sustento, esquecendo que não se deve ter cuidadosa preocupação com comida e roupa?[349] Ele tem a Deus, o mantenedor até dos corvos, o cultivador até das flores.[350] E se alegar a solidão da sua casa?[351] Como se uma só mulher pudesse fazer companhia a um homem que está sempre na iminência da fuga.[352] Ele tem, é claro, uma viúva à mão, a quem lhe será lícito tomar.[353] Não apenas uma dessas esposas, mas até uma pluralidade é permitida ter.[354] E se um homem pensar na posteridade, com pensamentos como os olhos da mulher de Ló, de modo que faça do fato de não ter tido filhos do casamento anterior uma razão para repetir o casamento?[355] Um cristão, porventura, buscará herdeiros, deserdado como está do mundo inteiro?[356] Ele tem irmãos; ele tem a Igreja como sua mãe.[357] O caso seria diferente se os homens cressem que, no tribunal de Cristo tanto quanto no de Roma, se procede segundo o princípio das leis júlias, e imaginassem que os não casados e sem filhos não podem receber plenamente a sua porção conforme o testamento de Deus.[358] Que tais pessoas, então, se casem até o fim; para que, nessa confusão da carne, como Sodoma e Gomorra e o dia do dilúvio, sejam surpreendidas pelo fim fatal do mundo.[359] Acrescentem ainda uma terceira palavra: comamos, bebamos e casemos, porque amanhã morreremos; sem refletirem que o ai pronunciado sobre as grávidas e as que amamentam cairá muito mais pesadamente e amargamente no abalo universal do mundo inteiro do que caiu na devastação de uma só parte da Judeia.[360] Que acumulem por seus casamentos reiterados frutos bem sazonados para os últimos tempos: seios túrgidos, ventres nauseados e crianças choramingando.[361] Que preparem para o Anticristo filhos sobre os quais ele possa exercer sua ferocidade com mais paixão do que Faraó.[362] Ele lhes trará parteiras assassinas.[363] Eles terão claramente um privilégio aparente para alegar diante de Cristo: a eterna fraqueza da carne.[364] Mas sobre essa fraqueza já não se assentarão em juízo Isaque, nosso pai monogamista; ou João, célebre celibatário voluntário de Cristo; ou Judite, filha de Merari; ou tantos outros exemplos de santos.[365] Os pagãos costumam ser destinados a serem nossos juízes.[366] Levantar-se-á uma rainha de Cartago e sentenciará contra os cristãos, ela que, sendo refugiada, vivendo em terra alheia e sendo naquele tempo a fundadora de um estado tão poderoso, embora devesse sem ser solicitada buscar núpcias reais, ainda assim, por temer experimentar um segundo casamento, preferiu, ao contrário, antes queimar-se a casar-se.[367] Sua assessora será a matrona romana que, embora tivesse conhecido outro homem por violência noturna, lavou com sangue a mancha de sua carne, para vingar em sua própria pessoa a honra da monogamia.[368] Também houve mulheres que preferiram morrer por seus maridos a casar-se depois da morte deles.[369] Até mesmo para os ídolos, tanto a monogamia quanto a viuvez servem como assistentes.[370] Tanto em Fortuna Muliebris como em Mater Matuta, somente uma mulher casada uma única vez pendura a coroa.[371] Uma só vez se casam o Pontífice Máximo e a esposa de um Flâmine.[372] As sacerdotisas de Ceres, mesmo durante a vida e com o consentimento de seus maridos, tornam-se viúvas por separação amigável.[373] Há também as que podem julgar-nos com base na continência absoluta: as virgens de Vesta, de Juno Acaia, de Diana Cítica e de Apolo Pítico.[374] Também com base na continência os sacerdotes do famoso touro egípcio julgarão a fraqueza dos cristãos.[375] Corai-vos, ó carne, que vos revestistes de Cristo.[376] Baste-te casar uma única vez, para o que foste criada desde o princípio e para o que estás sendo reconduzida pelo fim.[377] Ao menos volta ao primeiro Adão, se ao último não podes voltar.[378] Uma só vez ele provou da árvore; uma só vez sentiu concupiscência; uma só vez cobriu sua vergonha; uma só vez corou na presença de Deus; uma só vez ocultou sua cor culpada; uma só vez foi expulso do paraíso da santidade; uma só vez, depois disso, casou-se.[379] Se estavas nele, tens a tua norma; se passaste para Cristo, estarás obrigado a ser ainda melhor.[380] Mostra-nos um terceiro Adão, e este digamista; então poderás ser aquilo que, entre os dois, não podes ser.

