Aviso ao leitor
Este livro - Tertuliano — “Exortação à Castidade” / De Exhortatione Castitatis - é apresentado aqui como literatura patrística e disciplinar da Igreja antiga (início do séc. III), com ênfase em vida moral e rigor ascético — especialmente na exortação à continência e na crítica às segundas núpcias (digamia) dentro de um debate pastoral real do seu tempo. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Por refletir o estilo severo do autor e tensões disciplinares do período, o texto é disponibilizado para estudo histórico, ético e comparativo, com leitura contextual e crítica.
ATENÇÃO
Este escrito de Tertuliano deve ser lido com cautela redobrada, pois reflete uma fase de seu pensamento marcada por forte rigor moral e disciplinar, amplamente associada ao seu período de aproximação com o montanismo. Por isso, o texto pode apresentar exigências mais severas sobre continência, casamento e vida cristã do que aquelas recebidas de forma mais ampla em outras correntes da tradição antiga. Não deve, portanto, ser lido automaticamente como medida normativa final da fé, mas como testemunho de uma tendência ascética e rigorista que ganhou força em certos ambientes do cristianismo primitivo. Sua preservação nesta biblioteca se dá por valor histórico, documental e crítico, para compreensão dos debates antigos sobre castidade, disciplina e radicalidade moral. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre exortação moral, endurecimento rigorista e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] Não duvido, irmão, que, após a partida em paz de tua esposa, estando tu inteiramente voltado a recompor tua mente em reta disposição, estejas pensando seriamente no desfecho de tua vida solitária e, naturalmente, necessites de conselho.[2] Embora, em casos dessa espécie, cada um deva dialogar com a própria fé e consultar a sua força, ainda assim, visto que, nessa espécie particular de provação, a necessidade da carne, que geralmente é a antagonista da fé perante esse mesmo tribunal da consciência interior a que me referi, põe o pensamento em agitação, a fé necessita de conselho vindo de fora, como se fosse de um advogado, para se opor às necessidades da carne: necessidade essa que, de fato, pode ser facilmente circunscrita, se for considerada a vontade de Deus antes de Sua indulgência.[3] Ninguém merece favor por valer-se da indulgência, mas por prestar pronta obediência à vontade de seu Senhor.[4] A vontade de Deus é a nossa santificação, pois Ele deseja que Sua imagem, isto é, nós, se torne também Sua semelhança, para que sejamos santos como Ele mesmo é santo.[5] Esse bem, quero dizer, a santificação, eu o distribuo em diversas espécies, para que sejamos encontrados em alguma delas.[6] A primeira espécie é a virgindade desde o nascimento.[7] A segunda é a virgindade desde o segundo nascimento, isto é, desde a fonte batismal, a qual, ou no estado matrimonial conserva seu sujeito puro por mútuo acordo, ou persevera em viuvez por escolha.[8] Resta ainda um terceiro grau: a monogamia, quando, após a interrupção de um matrimônio uma vez contraído, há daí em diante renúncia à união sexual.[9] A primeira virgindade é a virgindade da felicidade, e consiste na completa ignorância daquilo de que mais tarde desejarás ser livre.[10] A segunda é a da virtude, e consiste em desprezar aquilo cujo poder conheces muito bem.[11] A espécie restante, a de não mais casar após a dissolução do matrimônio pela morte, além de ser glória de virtude, é também glória de moderação, pois moderação é não lamentar uma coisa que foi retirada, e retirada pelo Senhor Deus, sem cuja vontade nem uma folha cai de uma árvore, nem um pardal de ínfimo valor cai sobre a terra.[12] Que moderação, afinal, há naquela declaração: “O Senhor deu, o Senhor tomou; como pareceu bem ao Senhor, assim foi feito!”.[13] E, consequentemente, se renovamos núpcias que nos foram tiradas, sem dúvida lutamos contra a vontade de Deus, querendo ter de novo algo que Ele não quis que tivéssemos.[14] Pois, se Ele tivesse querido que o tivéssemos, não o teria tirado, a não ser que interpretemos também isso como vontade de Deus, como se Ele novamente quisesse que tivéssemos aquilo que há pouco não quis.[15] Não é próprio de uma fé boa e firme referir todas as coisas à vontade de Deus de tal maneira, e que cada indivíduo se lisonjeie dizendo que nada se faz sem a permissão dEle, a ponto de deixar de compreender que existe algo sob nosso próprio poder.[16] Do contrário, todo pecado será desculpado se insistirmos em sustentar que nada é feito por nós sem a vontade de Deus, e essa definição levará à destruição de toda a nossa disciplina, e mais ainda, do próprio Deus, se ou Ele produz por Sua própria vontade coisas que não quer, ou então se não há nada que Deus não queira.[17] Mas, assim como há coisas que Ele proíbe e contra as quais ameaça até mesmo castigo eterno, pois evidentemente aquilo que Ele proíbe e pelo qual se ofende, Ele não quer, assim também, pelo contrário, aquilo que Ele quer, Ele ordena, declara aceitável e recompensa com o prêmio da eternidade.[18] E assim, quando aprendemos por Seus preceitos cada classe de ações, o que Ele não quer e o que quer, ainda conservamos uma vontade e um poder de arbitragem para eleger uma delas, conforme está escrito: “Eis que pus diante de ti o bem e o mal; porque provaste da árvore do conhecimento”.[19] E, portanto, não devemos lançar na conta da vontade do Senhor aquilo que está sujeito à nossa própria escolha, como se Aquele que rejeita o mal não quisesse o bem, ou como se não quisesse, ou até rejeitasse, o que é bom.[20] Assim, é uma volição nossa quando queremos o mal, em antagonismo à vontade de Deus, que quer o bem.[21] Além disso, se perguntas de onde vem essa volição pela qual queremos qualquer coisa em oposição à vontade de Deus, eu direi: ela tem origem em nós mesmos.[22] E não farei essa afirmação levianamente, pois é necessário corresponder à semente de que procedes, se de fato é verdade, como realmente é, que Adão, originador de nossa raça e de nosso pecado, quis o pecado que cometeu.[23] Porque o diabo não lhe impôs a vontade de pecar, mas lhe forneceu matéria para essa vontade.[24] Por outro lado, a vontade de Deus se apresentava como questão de obediência.[25] Da mesma forma, também tu, se deixares de obedecer a Deus, que te instruiu ao colocar diante de ti o preceito da ação livre, pela liberdade da tua vontade te lançarás voluntariamente na inclinação descendente de fazer o que Deus rejeita.[26] E então pensarás que foste subvertido pelo diabo, o qual, embora queira que tu queiras algo que Deus rejeita, ainda assim não te faz querê-lo, visto que ele não reduziu nossos primeiros pais à vontade de pecar, nem contra a vontade deles, nem em ignorância do que Deus rejeitava.[27] Pois Deus certamente rejeitava que aquilo fosse feito, quando estabeleceu a morte como consequência destinada ao seu cometimento.[28] Assim, a obra do diabo é uma só: pôr à prova se queres aquilo que está em teu poder querer.[29] Mas, quando já o quiseste, segue-se que ele te sujeita a si mesmo, não por ter produzido em ti a volição, mas por ter encontrado oportunidade favorável em tua volição.[30] Portanto, visto que a única coisa que está em nosso poder é a volição, e é nisso que nosso ânimo para com Deus é provado, se queremos as coisas que coincidem com a Sua vontade, cumpre ponderar profunda e ansiosamente, repetidas vezes, a vontade de Deus, para ver até mesmo o que Ele pode querer em segredo.[31] Todos sabemos quais coisas são manifestas, mas é preciso examinar cuidadosamente em que sentido essas mesmas coisas são manifestas.[32] Porque, embora algumas pareçam ter sabor da vontade de Deus, já que por Ele são permitidas, não se segue imediatamente que tudo o que é permitido proceda da vontade simples e absoluta daquele que permite.[33] A indulgência é a fonte de toda permissão.[34] E, embora a indulgência não exista à parte da volição, ainda assim, visto que tem sua causa naquele a quem a indulgência é concedida, ela procede, por assim dizer, de uma volição não espontânea, tendo sofrido uma causa produtora de si mesma que constrange a volição.[35] Vê qual é a natureza de uma volição cuja causa é uma segunda parte.[36] Há ainda uma segunda espécie de volição pura que deve ser considerada.[37] Deus quer que pratiquemos certos atos agradáveis a Ele, nos quais não é a indulgência que protege, mas a disciplina que reina.[38] Se, porém, Ele deu preferência, acima desses, a outros atos, atos, evidentemente, que Ele quer mais, há alguma dúvida de que os atos que devemos seguir são aqueles que Ele mais quer, já que aqueles que Ele menos quer, porque quer mais os outros, devem ser semelhantemente considerados como se não os quisesse.[39] Pois, ao mostrar o que quer mais, apagou a volição menor pela maior.[40] E, na medida em que propôs ao teu conhecimento cada uma dessas vontades, nessa mesma medida definiu ser teu dever seguir aquilo que declarou querer mais.[41] Então, se o objetivo da Sua declaração foi que sigas aquilo que Ele mais quer, sem dúvida, se não o fizeres, estás em contrariedade à Sua vontade, por estares em contrariedade à Sua vontade superior, e mais ofendes do que mereces recompensa, fazendo o que Ele quer de fato, mas rejeitando o que Ele quer mais.[42] Em parte, pecas.[43] Em parte, ainda que não peques, mesmo assim não mereces recompensa.[44] E, além disso, não é pecado até mesmo não querer merecer recompensa?
Se, portanto, o segundo casamento encontra a fonte de sua permissão naquela vontade de Deus que se chama indulgência, negaremos que aquilo cuja causa é a indulgência seja volição pura.
[45] E, se naquilo ao qual se prefere alguma outra coisa, a saber, aquilo que considera a continência mais desejável, aprendemos, pelo que foi argumentado acima, que o que não é superior é revogado pelo superior, permite-me tocar nessas considerações para agora seguir o curso das palavras do apóstolo.[46] Mas, em primeiro lugar, não serei tido por irreligioso se observar aquilo que ele próprio confessa, a saber, que introduziu toda indulgência quanto ao matrimônio a partir de seu próprio juízo, isto é, do entendimento humano, e não de um preceito divino.[47] Pois, quando estabeleceu a regra definitiva a respeito das viúvas e dos solteiros, de que devem casar se não conseguem conter-se, porque é melhor casar do que abrasar-se, ele se volta para a outra classe e diz: “Aos casados, porém, declaro, não eu, mas o Senhor”.[48] Assim ele mostra, ao transferir sua própria pessoa para o Senhor, que aquilo que dissera acima o havia pronunciado não na pessoa do Senhor, mas na sua própria: “É melhor casar do que abrasar-se”.[49] Ora, embora essa expressão diga respeito aos que são alcançados pela fé em condição de solteiros ou viúvos, ainda assim, visto que todos se apegam a ela em busca de licença para casar, eu desejaria tratar a fundo da investigação acerca de que espécie de bem ele aponta como sendo melhor que uma pena, o que não pode parecer bom senão por comparação com algo muito mau, de modo que a razão por que casar é bom é que abrasar-se é pior.[50] O bem é digno desse nome se continua a conservá-lo sem comparação, digo, não com o mal, mas até mesmo com algum segundo bem, de modo que, ainda que comparado a outro bem e eclipsado por ele, permaneça, contudo, na posse do nome de bem.[51] Se, porém, é a natureza de um mal que serve de meio para obrigar a predicação de “bom”, então não é tanto um bem quanto uma espécie de mal inferior que, por ser obscurecido por um mal superior, é levado a receber o nome de bem.[52] Retira, enfim, a condição de comparação, de modo que não digas: “Melhor é casar do que abrasar-se”, e eu pergunto se terás ousadia de dizer: “Melhor é casar”, sem acrescentar melhor do que quê.[53] Portanto, o que não é melhor, evidentemente também não é bom, visto que tiraste e removeste a condição de comparação, a qual, enquanto torna a coisa melhor, obriga-a a ser considerada boa.[54] “Melhor é casar do que abrasar-se” deve ser entendido do mesmo modo que “Melhor é carecer de um olho do que de dois”.[55] Se, porém, retiras a comparação, não será melhor ter um olho, visto que isso tampouco é bom.[56] Que ninguém, portanto, tome deste parágrafo uma defesa do matrimônio, o qual se refere propriamente aos solteiros e às viúvas, para quem nenhuma união matrimonial ainda é contada, embora eu espere ter mostrado que até mesmo estes devem compreender a natureza dessa permissão.[57] No entanto, quanto ao segundo casamento, sabemos claramente que o apóstolo pronunciou: “Estás desligado de uma esposa; não busques esposa.[58] Mas, se te casares, não pecarás”.[59] Ainda assim, como no caso anterior, ele também introduziu essa linha de discurso a partir de uma sugestão pessoal, não de um preceito divino.[60] Ora, há grande diferença entre um preceito de Deus e uma sugestão de homem.[61] “Preceito do Senhor”, diz ele, “não tenho; mas dou conselho, como quem alcançou misericórdia do Senhor para ser fiel”.[62] De fato, nem no Evangelho nem nas epístolas do próprio Paulo encontrarás um preceito de Deus como fonte de que derive a permissão para repetir o casamento.[63] Daí recebe confirmação a doutrina de que a unidade do matrimônio deve ser observada, já que aquilo que não se acha permitido pelo Senhor é reconhecido como proibido.[64] Acrescenta-se a isso o fato de que até mesmo essa própria introdução de um conselho humano, como se já começasse a refletir sobre a própria exorbitância, imediatamente se restringe e se chama de volta, quando acrescenta: “Todavia, tais pessoas terão tribulação na carne”, ao dizer que as poupa, ao acrescentar que o tempo se abrevia, de modo que convém até mesmo aos que têm esposa viverem como se não a tivessem, ao comparar a solicitude dos casados e dos não casados.[65] Pois, ao ensinar por meio dessas considerações as razões por que casar não é conveniente, ele dissuade daquilo para o qual acima concedera indulgência.[66] E isso se dá quanto ao primeiro casamento.[67] Quanto mais, então, quanto ao segundo.[68] Quando, porém, ele nos exorta à imitação de seu próprio exemplo, certamente, ao mostrar o que deseja que sejamos, isto é, continentes, declara igualmente o que não deseja que sejamos, isto é, incontinentes.[69] Assim também ele, enquanto quer uma coisa, não concede permissão espontânea nem verdadeira àquilo que rejeita.[70] Pois, se o quisesse, não o teria apenas permitido; antes, o teria ordenado.[71] Mas vê novamente: “A mulher, quando o marido morre”, diz ele, “pode casar, se quiser casar com alguém, contanto que seja no Senhor”.[72] Ah, mas “mais feliz será”, diz ele, “se permanecer como está, segundo a minha opinião.[73] E penso que também eu tenho o Espírito de Deus”.[74] Vemos dois conselhos: aquele pelo qual, acima, ele concede a indulgência de casar, e aquele pelo qual, logo depois, ensina a continência quanto ao casar.[75] A qual, então, dizes que devemos dar assentimento.[76] Examina-os atentamente e escolhe.[77] Ao conceder a indulgência, ele alega o conselho de um homem prudente.[78] Ao recomendar a continência, afirma o conselho do Espírito Santo.[79] Segue a advertência que tem a divindade por patrona.[80] É verdade que também os crentes têm o Espírito de Deus, mas nem todos os crentes são apóstolos.[81] Quando, então, aquele que se chamara crente acrescentou depois que tinha o Espírito de Deus, coisa de que ninguém duvidaria nem mesmo no caso de um crente comum, a razão de tê-lo dito foi reafirmar para si a dignidade apostólica.[82] Pois os apóstolos têm o Espírito Santo de modo próprio, porque o têm plenamente, nas operações de profecia, na eficácia das virtudes de cura e nas evidências das línguas, e não parcialmente, como os demais.[83] Assim, ele associou a autoridade do Espírito Santo àquela forma de conselho à qual quis que déssemos maior atenção, e imediatamente já não se tornou conselho do Espírito Santo, mas, em consideração à Sua majestade, um preceito.[84] Para o estabelecimento da lei de casar-se uma só vez, a própria origem do gênero humano é nossa autoridade, testemunhando enfaticamente aquilo que Deus constituiu no princípio como tipo a ser examinado com cuidado pela posteridade.[85] Pois, quando moldou o homem e previu que lhe era necessária uma companheira, tomou de suas costelas uma e formou para ele uma só mulher, embora, evidentemente, nem o Artífice nem a matéria fossem insuficientes para criar mais.[86] Havia mais costelas em Adão, e em Deus havia mãos que não conheciam fadiga, mas, aos olhos de Deus, não havia mais esposas.[87] E assim o homem de Deus, Adão, e a mulher de Deus, Eva, desempenhando mutuamente os deveres de um só matrimônio, sancionaram para a humanidade um tipo, pelas considerações do precedente autoritativo de sua origem e da vontade primordial de Deus.[88] Finalmente, “serão os dois uma só carne”, disse Ele, não três nem quatro.[89] Em qualquer outra hipótese, já não haveria uma só carne, nem dois unidos em uma só carne.[90] Assim será, se a conjunção e o crescimento em unidade ocorrerem uma vez por todas.[91] Se, porém, ocorrer uma segunda vez, ou mais vezes, imediatamente a carne deixa de ser uma, e já não haverá dois unidos em uma só carne, mas claramente uma só costela dividida em várias.[92] E quando o apóstolo interpreta “os dois serão uma só carne” acerca da Igreja e de Cristo, segundo as núpcias espirituais da Igreja e de Cristo, pois Cristo é um e uma é Sua Igreja, somos obrigados a reconhecer para nós uma duplicação e reforço adicional da lei da unidade do matrimônio, não só de acordo com o fundamento de nossa raça, mas também de acordo com o sacramento de Cristo.[93] De um único matrimônio derivamos nossa origem em ambos os casos, carnalmente em Adão e espiritualmente em Cristo.[94] Os dois nascimentos concordam em estabelecer uma só regra normativa de monogamia.[95] Em relação a cada um desses dois nascimentos, é degenerado aquele que ultrapassa o limite da monogamia.[96] A pluralidade de casamentos começou com um homem amaldiçoado.[97] Lameque foi o primeiro que, ao tomar para si duas mulheres, fez com que três fossem unidos em uma só carne.[98] Mas, dirás tu, os benditos patriarcas contraíram uniões misturadas não apenas com mais de uma esposa, mas também com concubinas.[99] Isso, então, tornará lícito também a nós casar sem limite.[100] Eu concedo que sim, se ainda restam tipos, sacramentos de algo futuro, para que tuas núpcias os figurem, ou se ainda agora há espaço para aquele mandamento: “Crescei e multiplicai-vos”, isto é, se ainda não sobreveio outro mandamento: “O tempo já se abreviou; resta que também os que têm esposa vivam como se não a tivessem”.[101] Pois, certamente, ao recomendar a continência e restringir o concubinato, esse último mandamento aboliu o “Crescei e multiplicai-vos”, que era o viveiro de nossa raça.[102] Além disso, penso que cada pronunciamento e ordenação é ato de um e do mesmo Deus, o qual, no princípio, de fato lançou a sementeira da raça mediante uma frouxidão indulgente concedida às rédeas das alianças conjugais, até que o mundo fosse repleto, até que a matéria da nova disciplina chegasse à maturidade.[103] Agora, porém, nos extremos limites dos tempos, Ele restringiu o mandamento que havia emitido e chamou de volta a indulgência que havia concedido, não sem razão plausível para a extensão daquela indulgência no princípio e sua limitação no fim.[104] A frouxidão sempre é permitida no começo das coisas.[105] A razão pela qual alguém planta uma mata e a deixa crescer é para, em seu próprio tempo, cortá-la.[106] A mata era a antiga ordem, que está sendo podada pelo novo Evangelho, no qual o machado já foi posto à raiz.[107] Assim também “olho por olho e dente por dente” já envelheceu desde que “ninguém retribua mal por mal” se fez jovem.[108] Penso, além disso, que até mesmo em vista das instituições e decretos humanos, as coisas posteriores prevalecem sobre as primitivas.[109] Por que, ademais, não deveríamos reconhecer, dentre o depósito dos precedentes primitivos, aqueles que se comunicam com a ordem posterior no que diz respeito à disciplina e transmitem à novidade a forma típica da antiguidade.[110] Pois vê: na antiga lei encontro a faca de poda aplicada à licença do casamento repetido.[111] Há uma advertência em Levítico: “Meus sacerdotes não multiplicarão casamentos”.[112] Posso até afirmar que é plural aquilo que não é uma vez por todas.[113] O que não é unidade já é número.[114] Em resumo, após a unidade começa o número.[115] A unidade, por sua vez, é tudo aquilo que é de uma vez por todas.[116] Mas a Cristo foi reservado, tanto nisso como em todos os demais pontos, o cumprimento da lei.[117] Daí, entre nós, o preceito ser estabelecido de modo mais pleno e mais cuidadoso: os que são escolhidos para a ordem sacerdotal devem ser homens de um só casamento, regra observada com tanta rigidez que me lembro de alguns terem sido removidos do ofício por causa de digamia.[118] Mas dirás: “Então todos os outros podem casar mais de uma vez, já que ele excetua esses”.[119] Vãos seremos se pensarmos que o que não é lícito aos sacerdotes é lícito aos leigos.[120] Também nós, leigos, não somos sacerdotes.[121] Está escrito: “Fez-nos reino e sacerdotes para Seu Deus e Pai”.[122] É a autoridade da igreja e a honra que adquiriu santidade pela sessão conjunta da Ordem que estabeleceu a diferença entre a Ordem e o laicato.[123] Portanto, onde não há sessão conjunta da Ordem eclesiástica, tu ofereces, batizas e és sacerdote, sozinho para ti mesmo.[124] Mas, onde estão três, aí há uma igreja, ainda que sejam leigos.[125] Pois cada indivíduo vive por sua própria fé, e não há acepção de pessoas diante de Deus, já que não são os ouvintes da lei que são justificados pelo Senhor, mas os praticantes, conforme também diz o apóstolo.[126] Portanto, se tens em tua própria pessoa o direito de sacerdote, em casos de necessidade, convém que também tenhas a disciplina de sacerdote sempre que for necessário ter o direito de sacerdote.[127] Se és digamo, batizas.[128] Se és digamo, ofereces.[129] Quanto mais grave é para um leigo digamo agir como sacerdote, quando o próprio sacerdote, se se tornar digamo, é privado do poder de agir como sacerdote.[130] “Mas à necessidade”, dizes tu, “concede-se indulgência”.[131] Nenhuma necessidade é desculpável se pode ser evitada.[132] Numa palavra, evita seres achado culpado de digamia, e não te exporás à necessidade de administrar aquilo que um digamo não pode licitamente administrar.[133] Deus quer que todos nós estejamos em tal condição que estejamos prontos, em todo tempo e lugar, para assumir os deveres de Seus sacramentos.[134] Há um só Deus, uma só fé e também uma só disciplina.[135] Tão verdadeiro é isso, que, se também os leigos não observarem as regras que devem guiar a escolha dos presbíteros, como haverá presbíteros, já que são escolhidos dentre os leigos para esse ofício.[136] Daí sermos obrigados a sustentar que o mandamento de abster-se do segundo casamento se refere primeiro ao leigo, já que ninguém pode ser presbítero senão um leigo, contanto que tenha sido marido uma só vez.[137] Admita-se agora que a repetição do casamento seja lícita, se tudo o que é lícito é bom.[138] O mesmo apóstolo exclama: “Tudo é lícito, mas nem tudo convém”.[139] Peço-te: pode aquilo que não convém ser chamado bom.[140] Se até coisas que não conduzem à salvação são lícitas, segue-se que até coisas que não são boas são lícitas.[141] Mas o que será teu dever escolher de preferência: aquilo que é bom porque é lícito, ou aquilo que o é porque é proveitoso.[142] Entendo haver grande diferença entre licença e salvação.[143] A respeito do bem não se diz “é lícito”, visto que o bem não espera ser permitido, mas ser assumido.[144] Mas aquilo que é permitido é justamente aquilo acerca do qual existe dúvida se é bom, e que também poderia não ser permitido, se não tivesse alguma primeira causa extrínseca para existir, uma vez que é por causa do perigo da incontinência que, por exemplo, se permite o segundo casamento.[145] Porque, se a licença de alguma coisa que não é absolutamente boa não fosse submetida ao nosso arbítrio, não haveria meio de provar quem presta obediência voluntária à vontade divina e quem à sua própria força, qual de nós segue o que é mais presente e qual abraça a oportunidade da licença.[146] A licença, na maior parte das vezes, é uma prova da disciplina, visto que é pela prova que a disciplina se demonstra, e é pela licença que a prova opera.[147] Assim acontece que tudo é lícito, mas nem tudo convém, enquanto permanece verdadeiro que quem recebe uma permissão é por isso mesmo posto à prova e, consequentemente, julgado durante o processo de prova no caso daquela permissão em particular.[148] Os apóstolos, além disso, tinham licença para casar e para levar consigo esposas.[149] Tinham licença também para viver do Evangelho.[150] Mas aquele que, quando a ocasião exigiu, não usou desse direito, nos instiga a imitar seu próprio exemplo, ensinando-nos que nossa provação consiste justamente naquilo em que a licença lançou o fundamento para a prova experimental da abstinência.[151] Se examinarmos profundamente seus significados e os interpretarmos, o segundo casamento terá de ser chamado nada menos que uma espécie de fornicação.[152] Pois, já que ele diz que os casados têm esta solicitude: como agradar um ao outro, não, é claro, em sentido moral, pois ele não reprovaria uma solicitude boa, e já que quer que se entenda que são solícitos quanto a vestes, ornamentos e toda espécie de atrativo pessoal, com o objetivo de aumentar seu poder de sedução, e já que agradar pela beleza pessoal e pelo traje é o gênio da concupiscência carnal, que, por sua vez, é causa de fornicação, pergunto-te: o segundo casamento não te parece confinar com a fornicação, já que nele se detectam os elementos próprios da fornicação.[153] O próprio Senhor disse: “Quem olhar para uma mulher com intenção de concupiscência já a violou em seu coração”.[154] Mas aquele que a viu com intenção de casamento, fê-lo menos ou mais.[155] E se até a tiver desposado, o que não faria se não a tivesse desejado com vistas ao casamento e visto com vistas à concupiscência, a menos que seja possível casar com uma esposa que não viste nem desejaste.[156] Concedo que faz grande diferença se é um homem casado ou um solteiro que deseja outra mulher.[157] Toda mulher, porém, mesmo para um homem solteiro, é outra, enquanto pertence a alguém mais, e tampouco o meio pelo qual ela se torna mulher casada é outro senão aquele pelo qual também se torna adúltera.[158] São as leis que parecem estabelecer a diferença entre casamento e fornicação, por diversidade de ilicitude, não pela natureza da coisa em si.[159] Além disso, qual é a coisa que acontece em todos os homens e mulheres para produzir casamento e fornicação.[160] A mistura da carne, naturalmente, cuja concupiscência o Senhor pôs no mesmo nível da fornicação.[161] Então, dirá alguém, “estás agora destruindo também o primeiro casamento, isto é, o casamento único”.[162] E, se assim for, não sem razão, visto que ele também consiste naquilo que é a essência da fornicação.[163] Consequentemente, o melhor para o homem é não tocar mulher, e, por conseguinte, a virgindade é a principal santidade, porque é livre de afinidade com a fornicação.[164] E, se essas considerações podem ser apresentadas até mesmo no caso do primeiro e único casamento, para promover a causa da continência, quanto mais fornecerão um juízo prévio para recusar o segundo casamento.[165] Sê grato se Deus te concedeu de uma vez por todas a indulgência de casar.[166] Sê grato, além disso, se nem sequer souberes que Ele te concedeu essa indulgência uma segunda vez.[167] Mas abusas da indulgência se te aproveitas dela sem moderação.[168] A moderação se entende derivada de “modus”, isto é, limite.[169] Não te basta ter descido, pelo casamento, daquele grau altíssimo de virgindade imaculada, mas te fazes rolar ainda para um terceiro e um quarto, e talvez para mais, depois de ter falhado em ser continente no segundo estágio, já que aquele que tratou de contrair segundos casamentos não quis proibir nem mais do que isso.[170] Casemos, pois, diariamente.[171] E, casando-nos, sejamos surpreendidos pelo último dia, como Sodoma e Gomorra, aquele dia em que se cumprirá o ai pronunciado sobre as que estiverem grávidas e amamentando, isto é, sobre os casados e os incontinentes, porque do casamento procedem ventres, seios e crianças.[172] E quando haverá fim para casar.[173] Creio que depois do fim de viver.[174] Renunciemos às coisas carnais, para que afinal produzamos frutos espirituais.[175] Aproveita a oportunidade, ainda que não ardentemente desejada, contudo favorável, de não teres ninguém a quem pagar uma dívida e por quem sejas pago.[176] Tu deixaste de ser devedor.[177] Homem feliz.[178] Libertaste o teu credor, suporta a perda.[179] E se vieres a perceber que o que chamamos perda é ganho.[180] Pois a continência será um meio pelo qual negociarás um poderoso tesouro de santidade.[181] Pela parcimônia da carne ganharás o Espírito.[182] Consideremos, pois, a própria consciência, para ver quão diferente um homem se sente quando por acaso é privado de sua esposa.[183] Ele saboreia espiritualmente.[184] Se está fazendo oração ao Senhor, está perto do céu.[185] Se está inclinado sobre as escrituras, está inteiramente nelas.[186] Se está cantando um salmo, basta-se a si mesmo.[187] Se está conjurando um demônio, tem confiança em si.[188] Por conseguinte, o apóstolo acrescentou a recomendação de uma abstinência temporária, para acrescentar eficácia às orações, a fim de que soubéssemos que o que é proveitoso por um tempo deve ser sempre praticado por nós, para que sempre seja proveitoso.[189] Diariamente, a cada momento, a oração é necessária aos homens.[190] Portanto, também a continência o é, já que a oração é necessária.[191] A oração procede da consciência.[192] Se a consciência cora, a oração cora.[193] É o espírito que conduz a oração a Deus.[194] Se o espírito estiver acusado por uma consciência envergonhada, como terá ousadia de conduzir a oração ao altar, vendo que, se a oração cora, o próprio santo ministro da oração se cobre de rubor.[195] Pois há uma declaração profética do Antigo Testamento: “Santos sereis, porque Deus é santo”.[196] E ainda: “Com o santo te santificarás; com o homem inocente serás inocente; e com o eleito, eleito”.[197] Porque é nosso dever andar na disciplina do Senhor de modo digno, não segundo as imundas concupiscências da carne.[198] Pois também o apóstolo diz que inclinar-se segundo a carne é morte, mas inclinar-se segundo o espírito é vida eterna em Jesus Cristo, nosso Senhor.[199] Novamente, por meio da santa profetisa Prisca, o evangelho é assim pregado: o santo ministro sabe ministrar santidade.[200] “Pois a pureza”, diz ela, “é harmoniosa, e eles veem visões; e, voltando o rosto para baixo, chegam até a ouvir vozes manifestas, tão salutares quanto secretas”.[201] Se esse embotamento das faculdades espirituais, mesmo quando à natureza carnal se dá espaço de exercício no primeiro casamento, afasta o Espírito Santo, quanto mais quando é posto em ação no segundo casamento.[202] Pois, nesse caso, a vergonha é dupla, visto que, no segundo casamento, duas esposas cercam o mesmo marido, uma em espírito, outra em carne.[203] Porque a primeira esposa não a podes odiar, por quem conservas uma afeição ainda mais religiosa, por já ter sido recebida à presença do Senhor, por cujo espírito fazes súplicas, por quem apresentas oblações anuais.[204] Estarás, então, diante do Senhor com tantas esposas quantas recordas em oração, e oferecerás por duas, e recomendarás essas duas a Deus pelo ministério de um sacerdote ordenado em razão da monogamia, ou consagrado até mesmo em razão da virgindade, cercado por viúvas que foram casadas com um só marido.[205] E subirá teu sacrifício com rosto descarado e, entre todas as demais graças de um bom espírito, pedirás para ti e para tua esposa castidade.[206] Sei bem as desculpas com que colorimos nosso apetite carnal insaciável.[207] Nossos pretextos são estes: a necessidade de apoio em que nos amparar, uma casa a ser administrada, uma família a ser governada, baús e chaves a serem guardados, o fiar da lã a ser distribuído, o alimento a ser providenciado, os cuidados em geral a serem aliviados.[208] Claro, só as casas dos homens casados vão bem.[209] As famílias dos celibatários, os bens dos eunucos, as posses dos militares ou dos que viajam sem esposas foram todos arruinados.[210] Pois não somos nós também soldados.[211] Soldados, sim, sujeitos a disciplina tanto mais estrita quanto estamos sujeitos a tão grande General.[212] Não somos nós também viajantes neste mundo.[213] Por que, além disso, cristão, estás em tal condição que não podes viajar assim sem esposa.[214] “Também em meu estado presente de viuvez, é-me necessária uma companheira nas tarefas domésticas”.[215] Então toma alguma esposa espiritual.[216] Toma para ti, dentre as viúvas, uma bela na fé, dotada de pobreza, selada pela idade.[217] Assim farás um bom casamento.[218] Uma pluralidade de tais esposas agrada a Deus.[219] Mas os cristãos se preocupam com posteridade, para quem não há amanhã.[220] Desejará o servo de Deus herdeiros, ele que se deserdou do mundo.[221] E será razão para um homem repetir o casamento o fato de não ter filhos do primeiro matrimônio.[222] E terá assim, como primeiro benefício daí resultante, desejar vida mais longa, quando o próprio apóstolo se apressa para estar com o Senhor.[223] Certamente estará muito mais livre de embaraços nas perseguições, mais constante nos martírios, mais pronto na distribuição de seus bens, mais moderado nas aquisições.[224] Por fim, morrerá sem distrações de cuidados, quando tiver deixado filhos para trás, talvez até para realizarem os últimos deveres sobre sua sepultura.[225] Será então, porventura, por previsão para o bem comum que tais casamentos são contraídos.[226] Por medo de que os Estados falhem, se nenhuma geração nascente for formada.[227] Por medo de que os direitos da lei, por medo de que os ramos do comércio, afundem inteiramente em ruína.[228] Por medo de que os templos fiquem totalmente desertos.[229] Por medo de que não haja ninguém para erguer o clamor: “O leão para os cristãos”, pois esses são os clamores que desejam ouvir os que saem em busca de prole.[230] Que o conhecido peso dos filhos, especialmente em nosso caso, baste para aconselhar a viuvez, filhos cuja responsabilidade os homens são compelidos por leis a assumir, porque nenhum homem sábio jamais desejaria filhos voluntariamente.[231] Que farás, então, se conseguires encher tua nova esposa com teus próprios escrúpulos de consciência.[232] Dissolverás a concepção com auxílio de drogas.[233] Penso que para nós não é mais lícito ferir uma criança em processo de nascimento do que uma já nascida.[234] Mas talvez, naquele tempo da gravidez de tua esposa, terás a ousadia de pedir a Deus remédio para uma preocupação tão grave, a qual, quando estava em teu poder, recusaste.[235] Alguma mulher naturalmente estéril, suponho, ou alguma já em idade de sentir o frio dos anos, será o objeto de tua busca previdente.[236] Um procedimento bastante prudente, e acima de tudo digno de um crente.[237] Pois não há mulher de quem tenhamos crido que concebeu sendo estéril ou idosa, quando Deus assim o quis.[238] E Ele o fará tanto mais facilmente se alguém, pela presunção dessa sua própria previsão, provocar o zelo de Deus.[239] Enfim, conhecemos um caso entre nossos irmãos em que um deles tomou em segundo casamento uma mulher estéril por causa de sua filha e se tornou, pela segunda vez, tanto pai quanto marido.[240] A esta minha exortação, irmão amadíssimo, acrescentam-se até exemplos dos pagãos, exemplos que muitas vezes nós mesmos também temos apresentado como prova, quando algo bom e agradável a Deus é reconhecido e honrado com testemunho até mesmo entre os de fora.[241] Em resumo, a monogamia entre os pagãos é tida em tão alta honra que até as virgens, quando se casam legitimamente, têm designada como madrinha de núpcias uma mulher casada uma só vez.[242] E, se dizes que isso se faz por causa do presságio, evidentemente é por causa de um bom presságio.[243] Além disso, em algumas solenidades e funções oficiais, a condição de ter tido um só marido recebe precedência.[244] Em todo caso, a esposa de um Flâmine deve ter sido casada apenas uma vez, e essa é também a lei do próprio Flâmine.[245] Pois o fato de o próprio pontífice máximo não poder reiterar o casamento é, sem dúvida, glória da monogamia.[246] Quando, porém, Satanás imita os sacramentos de Deus, isso é um desafio para nós, ou melhor, motivo de vergonha, se somos lentos em apresentar a Deus uma continência que alguns rendem ao diabo, às vezes pela perpetuidade da virgindade, às vezes pela perpetuidade da viuvez.[247] Ouvimos falar das virgens de Vesta, das de Juno na cidade de Acaia, das de Apolo entre os délfios, e das de Minerva e Diana em certos lugares.[248] Ouvimos também falar de homens continentes e, entre outros, dos sacerdotes do famoso touro egípcio, bem como de mulheres dedicadas à Ceres africana, em cuja honra até espontaneamente renunciam ao matrimônio, e assim vivem até a velhice, evitando dali em diante todo contato com homens, até mesmo os beijos de seus próprios filhos.[249] O diabo, por certo, descobriu, depois da voluptuosidade, até mesmo uma castidade que produz perdição, para que seja ainda mais profunda a culpa do cristão que recusa a castidade que auxilia para a salvação.[250] Serão também para nós testemunho algumas mulheres do paganismo que alcançaram fama por sua obstinada perseverança em ter um só marido, como certa Dido, por exemplo, que, refugiada em terra estrangeira, quando mais deveria ter desejado, sem qualquer solicitação externa, o casamento com um rei, preferiu, ao contrário, por medo de experimentar uma segunda união, arder em vez de casar.[251] Ou a célebre Lucrécia, que, embora tenha sofrido a aproximação de um homem estranho apenas uma vez, à força e contra a própria vontade, lavou sua carne manchada em seu próprio sangue, para não viver quando já não mais se considerava mulher de um só marido.[252] Um pouco mais de cuidado te fornecerá mais exemplos dentre as nossas próprias irmãs, e exemplos superiores aos outros, visto que é coisa maior viver em castidade do que morrer por ela.[253] É mais fácil entregar a vida porque perdeste um bem do que conservar pela vida aquilo pelo qual preferirias morrer de uma vez.[254] Quantos homens, portanto, e quantas mulheres, nas Ordens eclesiásticas, devem sua posição à continência, tendo preferido unir-se a Deus, restaurado a honra de sua carne e já se dedicado como filhos daquela era futura, matando em si a concupiscência da luxúria e toda aquela inclinação que não podia ser admitida no Paraíso.[255] Daí se presume que aqueles que desejarem ser recebidos no Paraíso devem, enfim, começar a cessar precisamente daquilo de que o Paraíso permanece intacto.
