Aviso ao leitor
Este livro - As Cartas de Cipriano / Epístolas - é apresentado aqui como correspondência patrística (séc. III), preservada por seu valor histórico, pastoral e disciplinar — registrando decisões, conflitos, orientações e desafios enfrentados pela Igreja de Cartago em contexto de perseguições, debates sobre penitência e unidade eclesial. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, formativa e comparativa, ajudando a compreender a prática cristã antiga e suas tensões reais.
[1] Cipriano a Máximo, presbítero, e também a Urbano, Sidônio e Maturus, seus irmãos, saudações.[2] Quando li vossas cartas, caríssimos irmãos, que me escrevestes acerca do vosso retorno, da paz da igreja e da restauração fraterna, confesso que me alegrei tanto quanto antes me alegrara ao saber da glória da vossa confissão e ao receber com gratidão as notícias da honra celestial e espiritual do vosso combate.[3] Porque isto, além disso, é também outra confissão da vossa fé e do vosso louvor: confessar que a igreja é una, e não vos tornardes participantes do erro de outros homens, ou antes, da sua maldade.[4] É voltar a buscar o mesmo acampamento de onde saístes, de onde, com o mais vigoroso ardor, saltastes para travar a batalha e subjugar o adversário.[5] Pois os troféus do campo de batalha devem ser trazidos de volta para aquele lugar de onde se receberam as armas para o combate, para que a igreja de Cristo não deixe de conservar aqueles mesmos gloriosos guerreiros que Cristo preparou para a glória.[6] Agora, porém, na paz do Senhor conservastes a reta medida da vossa fé e a lei da caridade e da concórdia indivisas, e destes por vosso proceder exemplo de amor e de paz aos demais, de modo que a verdade da igreja e a unidade do mistério do evangelho que sustentamos também se unem pelo vosso consentimento e vínculo.[7] Assim, os confessores de Cristo não se tornam chefes do erro, depois de terem se apresentado como dignos iniciadores da virtude e da honra.[8] Considerem outros quanto podem felicitar-vos, ou quanto cada um pode gloriar-se por si mesmo; eu, porém, confesso que mais vos felicito e mais me glorio de vós diante dos outros por causa desse vosso retorno pacífico e dessa caridade.[9] Pois deveis ouvir com simplicidade o que havia em meu coração.[10] Entristeci-me veementemente e fiquei grandemente aflito porque não podia manter comunhão com aqueles a quem antes eu começara a amar.[11] Depois que o erro cismático e herético vos arrebatou, quando saístes da prisão, parecia que a vossa glória havia sido deixada no cárcere.[12] Porque ali parecia ter permanecido a dignidade do vosso nome, quando os soldados de Cristo não retornaram da prisão para a igreja, embora tivessem entrado na prisão com o louvor e as congratulações da igreja.[13] Pois, embora pareça haver joio na igreja, nem por isso nossa fé ou nossa caridade deve ser impedida, a ponto de, porque vemos que há joio na igreja, nós mesmos nos retirarmos da igreja.[14] Devemos apenas trabalhar para que sejamos trigo, para que, quando o trigo começar a ser recolhido aos celeiros do Senhor, recebamos fruto pelo nosso trabalho e pela nossa obra.[15] O apóstolo diz em sua epístola: Numa grande casa não há somente vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro, uns para honra e outros para desonra. 2 Timóteo 2:20.[16] Esforcemo-nos, caríssimos irmãos, e trabalhemos tanto quanto pudermos para que sejamos vasos de ouro ou de prata.[17] Mas somente ao Senhor é concedido quebrar os vasos de barro, a ele a quem também foi dada a vara de ferro.[18] O servo não pode ser maior do que o seu senhor, nem alguém pode reivindicar para si aquilo que o Pai deu somente ao Filho, pensando que pode tomar a pá para joeirar e purgar a eira, ou separar por juízo humano todo o joio do trigo.[19] Isso é uma obstinação orgulhosa e uma presunção sacrílega, que uma loucura depravada assume para si.[20] E, enquanto alguns sempre tomam para si mais domínio do que a justiça mansa exige, perecem fora da igreja.[21] E, enquanto insolentemente se exaltam, cegados pelo próprio inchaço, perdem a luz da verdade.[22] Por essa razão, também nós, guardando a moderação, considerando as balanças do Senhor, e pensando no amor e na misericórdia de Deus Pai, há muito e cuidadosamente temos ponderado entre nós mesmos e pesado o que devia ser feito com a devida moderação.[23] Todas essas questões podereis examinar detidamente, se quiserdes ler os tratados que recentemente li aqui e que, por causa do nosso amor mútuo, também vos enviei para que os leiais.[24] Neles, aos caídos não falta a censura que repreende, nem o remédio que cura.[25] Além disso, minha fraca capacidade expôs, tanto quanto pôde, a unidade da igreja católica.[26] Nesse tratado, agora mais e mais confio que vos agradará, visto que agora o ledes de tal modo que ao mesmo tempo o aprovais e o amais.[27] Porque aquilo que escrevemos em palavras, vós o cumpris em obras, quando retornais à igreja na unidade da caridade e da paz.[28] Eu vos saúdo, caríssimos e mui desejados irmãos, e de todo o coração desejo que passeis sempre bem.

