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[1] Mas Nicodemos levantou-se e pôs-se de pé diante do conselho, dizendo: “Falais corretamente. Não desconheceis, ó povo do Senhor, os homens que desceram da Galileia, homens de recursos, tementes a Deus, inimigos da avareza e amigos da paz. Pois bem, eles declararam sob juramento que viram Jesus no monte Mamilque, em companhia de seus discípulos, ensinando-lhes todas as coisas que puderam ouvir de sua boca, e que o viram no momento em que foi elevado ao céu. E ninguém lhes perguntou de que maneira ele foi elevado. Pois, conforme nos foi ensinado, está escrito no livro das Sagradas Escrituras que Elias foi elevado ao céu e que Eliseu clamou em alta voz. Elias lançou sua capa sobre o Jordão, e assim Eliseu pôde atravessar o rio e chegar a Jericó. Então os filhos dos profetas saíram ao seu encontro e lhe disseram: ‘Eliseu, onde está Elias, teu senhor?’ Ele respondeu que havia sido elevado ao céu. E eles disseram a Eliseu: ‘Porventura o espírito não o arrebatou e o lançou sobre algum monte? Levemos nossos servos conosco e partamos à sua procura’. E convenceram Eliseu, que foi com eles. Procuraram-no durante três dias inteiros, mas não o encontraram, e assim souberam que ele havia sido levado. Agora, portanto, dai-me atenção: enviemos homens por todos os confins de Israel e vejamos se, porventura, Cristo foi arrebatado por um espírito e depois lançado sobre algum desses montes”. Essa proposta agradou a todos, e enviaram homens por todos os confins de Israel à procura de Jesus, mas não o encontraram. Encontraram, porém, José de Arimateia, mas ninguém se atreveu a detê-lo.

[2] Então foram prestar contas aos anciãos, aos sacerdotes e aos levitas, dizendo: “Percorremos todos os confins de Israel e não encontramos Jesus, mas encontramos José de Arimateia”. Ao ouvirem falar de José, os chefes das sinagogas, os sacerdotes e os levitas encheram-se de alegria, deram glória a Deus e começaram a deliberar sobre como poderiam encontrar-se com José. Pegaram um rolo de papel e escreveram-lhe o seguinte: “Que a paz esteja contigo. Sabemos que pecamos contra Deus e contra ti. Rogamos ao Deus de Israel que permita que venhas ao encontro de teus pais e de teus filhos. Pois sabes que todos nós nos enchemos de aflição quando, ao abrirmos a porta, não te encontramos. Agora reconhecemos que havíamos tomado uma decisão perversa contra ti, mas o Senhor veio em teu auxílio e ele mesmo se encarregou de desfazer nosso mau propósito, honorável pai José”.

[3] E escolheram, dentre todo Israel, sete homens amigos de José, os quais ele conhecia. Os chefes das sinagogas, os sacerdotes e os levitas disseram-lhes: “Observai: se, ao receber nossa carta, ele a ler, sabereis que virá até nós em vossa companhia. Porém, se não a ler, entendei que está desgostoso conosco e, depois de lhe dardes um beijo de paz, voltai para cá”. Em seguida, abençoaram os mensageiros e os despediram. Eles chegaram ao lugar onde José estava e, fazendo-lhe uma reverência, disseram: “A paz esteja contigo”. Ele, por sua vez, respondeu: “Que a paz esteja convosco e com todo o povo de Israel”. Então lhe entregaram a carta. José a recebeu, leu-a, beijou-a e louvou a Deus, dizendo: “Bendito seja o Senhor Deus, que livrou Israel de derramar sangue inocente, e bendito seja o Senhor, que enviou seu anjo e me abrigou debaixo de suas asas”. Depois, preparou a mesa, e ali comeram, beberam e dormiram.

[4] No dia seguinte, levantaram-se muito cedo e fizeram suas orações. Depois, José selou sua mula e pôs-se a caminho, acompanhado daqueles homens, até a cidade santa de Jerusalém. E todo o povo saiu ao encontro de José, gritando: “Entra em paz”. Ele disse a todo o povo: “Que a paz esteja convosco”. Então lhe deram um beijo e prostraram-se em oração juntamente com José. Todos ficaram maravilhados por poderem contemplá-lo. Nicodemos hospedou-o em sua casa e, em sua honra, ofereceu uma grande recepção, convidando Anás, Caifás, os anciãos, os sacerdotes e os levitas. Eles se alegraram, comendo e bebendo na companhia de José. Depois de entoarem hinos, cada um foi para sua casa. José, porém, permaneceu com Nicodemos.

[5] No dia seguinte, que era sexta-feira, os chefes das sinagogas, os sacerdotes e os levitas levantaram-se de madrugada para ir à casa de Nicodemos. Este veio ao encontro deles e disse-lhes: “Que a paz esteja convosco”. Eles, por sua vez, responderam: “Que a paz esteja contigo e com José, com toda a tua casa e com toda a casa de José”. Então Nicodemos os fez entrar em sua casa. Todo o conselho estava reunido, e José veio sentar-se entre Anás e Caifás. Ninguém se atrevia a lhe dirigir uma palavra. Então José disse: “A quem devo responder? Quem foi que me convocou?” Eles fizeram sinais a Nicodemos para que falasse com José. Nicodemos abriu a boca e lhe disse: “Sabes que os veneráveis doutores, assim como os sacerdotes e os levitas, desejam saber de ti uma coisa”. José respondeu: “Perguntai”. Então Anás e Caifás pegaram o livro da Lei e colocaram José sob juramento, dizendo: “Dá glória ao Deus de Israel e faze diante dele a tua confissão. Sabes que Acar, ao ser colocado sob juramento pelo profeta Jesus, não jurou falsamente, mas declarou tudo e não ocultou uma única palavra. Tu, portanto, também não nos ocultes nenhuma palavra”. José respondeu: “Não vos ocultarei uma única palavra”. Então eles lhe disseram: “Ficamos profundamente contrariados quando pediste o corpo de Jesus, envolveste-o em um lençol limpo e o colocaste no sepulcro. Por isso, prendemos-te em um recinto onde não havia janela alguma. Além disso, deixamos as portas trancadas à chave, e dois guardas ficaram vigiando a prisão onde estavas encerrado. Porém, quando fomos abri-la, no primeiro dia da semana, não te encontramos. Ficamos extremamente preocupados, e o espanto apoderou-se de todo o povo de Deus até ontem. Agora, portanto, conta-nos o que te aconteceu”.

[6] José respondeu: “Na sexta-feira, à décima hora, vós me prendestes, e ali permaneci durante todo o sábado. Mas, à meia-noite, enquanto eu estava de pé, orando, o recinto onde me havíeis encerrado ficou suspenso pelos quatro cantos, e vi diante de meus olhos algo semelhante a um relâmpago de luz. Fiquei amedrontado e caí por terra. Então alguém tomou minha mão e me levantou do lugar onde eu havia caído. Em seguida, senti água sendo derramada sobre mim, desde a cabeça até os pés, e uma fragrância de bálsamo chegou às minhas narinas. Aquela figura desconhecida enxugou meu rosto, beijou-me e disse: ‘Não temas, José. Abre os olhos e vê quem fala contigo’. Então, levantando os olhos, vi Jesus. Porém, tomado de espanto, pensei que fosse um fantasma e comecei a recitar os mandamentos. E ele os recitou juntamente comigo. Como bem sabeis, quando um fantasma vem ao encontro de alguém e ouve os mandamentos, foge imediatamente. Vendo, portanto, que ele os recitava comigo, disse-lhe: ‘Mestre Elias’. Mas ele me respondeu: ‘Eu não sou Elias’. Então perguntei: ‘Quem sois, Senhor?’ Ele me respondeu: ‘Eu sou Jesus, aquele cujo corpo pediste a Pilatos, envolveste em um lençol limpo, cobriste o rosto com um sudário, colocaste em tua gruta nova e diante de cujo sepulcro rolaste uma grande pedra’. Então eu disse àquele que falava comigo: ‘Mostrai-me o lugar onde vos coloquei’. Ele me conduziu e mostrou-me o lugar onde eu o havia colocado. Ali estavam estendidos o lençol e o sudário que havia coberto seu rosto. Então reconheci que era Jesus. Depois, ele tomou minha mão e, estando as portas fechadas, levou-me para dentro de minha casa. Em seguida, acompanhou-me até minha cama e disse-me: ‘Que a paz esteja contigo’. Depois me beijou e disse: ‘Não saias de tua casa até que se completem quarenta dias, pois eis que vou para a Galileia, ao encontro de meus irmãos’”.

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