Aviso ao leitor
Este livro - Atos de Pilatos / Acta Pilati - é um escrito cristão apócrifo, geralmente identificado como a primeira parte do chamado Evangelho de Nicodemos, narrando de forma ampliada o julgamento, a crucificação e a ressurreição de Jesus. Em sua forma preservada, pertence principalmente à Antiguidade cristã tardia e circula em diferentes versões e recensões; portanto, não deve ser entendido como um registro oficial escrito por Pôncio Pilatos nem como documentação romana contemporânea aos acontecimentos. Não integra o cânon bíblico das tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, literária e comparativa.
ATENÇÃO
Este escrito conhecido como Atos de Pilatos deve ser lido com grande cautela, pois o título foi usado ao longo da tradição antiga para obras de natureza diversa, frequentemente ligadas ao campo apócrifo, e não recebidas de forma ampla como escritura normativa pelas principais tradições cristãs. Em muitos casos, o texto possui caráter narrativo, apologético, ampliativo e por vezes legendário, desenvolvendo episódios ligados ao julgamento, paixão e entorno da morte de Jesus para além do que os evangelhos canônicos afirmam. Por isso, não deve ser lido como registro histórico direto nem como base doutrinária autônoma, mas como testemunho de tradições antigas que buscaram expandir, defender ou dramatizar elementos da narrativa cristã. Sua preservação nesta biblioteca se dá por alto valor histórico, literário e crítico, especialmente para compreender como a memória da paixão de Cristo foi reelaborada no cristianismo antigo fora do cânon. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e forte senso crítico, distinguindo entre tradição antiga relevante, elaboração apócrifa e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] Mas um dos judeus adiantou-se e pediu a palavra ao governador. Este lhe disse: “Se queres dizer algo, diz”. E o judeu assim falou: “Eu estive durante trinta e oito anos deitado numa liteira, cheio de dores. Quando Jesus veio, muitos dos que estavam endemoninhados e sujeitos a diversas doenças foram curados por ele. Então, alguns jovens compadeceram-se de mim e, pegando-me com liteira e tudo, levaram-me até ele. Jesus, ao ver-me, compadeceu-se de mim e disse-me: ‘Pega tua maca e anda’. Eu peguei minha maca e comecei a andar”. Então, os judeus disseram a Pilatos: “Pergunta-lhe que dia era quando foi curado”. E o interessado disse: “Era sábado”. Os judeus disseram: “Já não te havíamos informado de que ele curava no sábado e expulsava demônios?”[2] Outro judeu adiantou-se e disse: “Eu era cego de nascença; ouvia vozes, mas não via ninguém. Ao perceber que Jesus passava, gritei bem alto: ‘Filho de Davi, apieda-te de mim’. Ele compadeceu-se de mim, impôs suas mãos sobre os meus olhos e imediatamente recuperei a visão”. Outro judeu adiantou-se e disse: “Eu estava arqueado, e ele me endireitou com uma palavra”. E outro disse: “Eu havia contraído lepra, e ele me curou com uma palavra”.

