[1] Não devemos ignorar nenhuma invenção imaginada por aqueles que, entre os gregos, são chamados filósofos.
[2] Pois até mesmo suas doutrinas incoerentes devem ser recebidas como dignas de exame, por causa da excessiva loucura dos hereges.
[3] Estes, por sua prática de silêncio e por esconderem seus mistérios inefáveis, foram por muitos considerados adoradores de Deus.
[4] Nós já havíamos anteriormente exposto brevemente suas doutrinas, sem ilustrá-las com grande minúcia, mas refutando-as de modo resumido.
[5] Naquela ocasião, não julgamos necessário trazer à luz seus ensinamentos secretos.
[6] Fizemos isso para que, ao explicarmos suas doutrinas por enigmas, eles, envergonhados, e receando que, pela divulgação de seus mistérios, fossem também convencidos de ateísmo, talvez desistissem em alguma medida de sua opinião irracional e de sua tentativa profana.
[7] Mas, visto que percebo que eles não se envergonharam de nossa moderação, e nada consideraram da longanimidade de Deus, embora o blasfemem, de modo que ou se arrependam por vergonha, ou, perseverando, sejam justamente condenados, sou forçado a prosseguir com meu intento de expor seus mistérios secretos.
[8] Esses mistérios eles entregam aos iniciados com grande aparência de plausibilidade, e não costumam revelá-los de início a ninguém.
[9] Antes, mantêm essas pessoas em suspenso durante um período de preparação exigida, e, tornando-as blasfemas contra o verdadeiro Deus, alcançam completo domínio sobre elas, percebendo-as ansiosas pela revelação prometida.
[10] Então, depois de provarem que alguém está escravizado pelo pecado, o iniciam, pondo-o em posse da perfeição das coisas más.
[11] Antes, porém, prendem-no por juramento para que não divulgue os mistérios, nem se comunique com pessoa alguma, a não ser que esta passe por sujeição semelhante.
[12] Contudo, uma vez que a doutrina foi simplesmente entregue a alguém, já não havia necessidade de juramento.
[13] Pois aquele que se dispôs a submeter-se à purgação necessária, e assim receber os mistérios perfeitos desses homens, pelo próprio ato e também em relação à sua própria consciência, sentir-se-á suficientemente obrigado a não os divulgar a outros.
[14] Porque, se alguma vez revelasse a qualquer homem maldade desta natureza, não seria contado entre os homens, nem considerado digno de contemplar a luz.
[15] Nem mesmo os animais irracionais tentariam tal enormidade, como explicaremos quando chegarmos a tratar desses assuntos.
[16] Contudo, já que a razão nos obriga a mergulhar até as profundezas da narrativa, entendemos que não devemos calar-nos.
[17] Expondo com minúcia as doutrinas das várias escolas, nada omitiremos por reserva.
[18] Parece oportuno, ainda que isso exija investigação mais prolongada, não recuar diante do trabalho.
[19] Pois assim deixaremos para a vida humana um auxílio nada pequeno contra o retorno do erro, quando todos forem levados a contemplar claramente os ritos clandestinos desses homens e as orgias secretas que eles, mantendo sob seu controle, transmitem apenas aos iniciados.
[20] Ninguém, porém, poderá refutar essas coisas, a não ser pelo Espírito Santo legado à Igreja, o qual os apóstolos, tendo-o recebido primeiro, transmitiram aos que creram corretamente.
[21] Mas nós, como sucessores deles e participantes dessa graça, do sumo sacerdócio e do ofício de ensino, sendo também reputados guardiões da Igreja, não devemos ser encontrados negligentes na vigilância, nem dispostos a ocultar a sã doutrina.
[22] Ainda que trabalhemos com toda a energia do corpo e da alma, não nos cansamos em nossa tentativa de oferecer retorno adequado ao nosso Benfeitor divino.
[23] E, no entanto, não Lhe retribuímos de modo digno, exceto se não formos remissos em cumprir a incumbência que nos foi confiada, mas diligentes em completar a medida de nossa oportunidade particular, repartindo a todos, sem avareza, tudo o que o Espírito Santo concede.
[24] Fazemos isso não apenas trazendo à luz, por meio de nossa refutação, coisas estranhas ao nosso assunto, mas também tudo quanto a verdade recebeu pela graça do Pai e ministrou aos homens.
[25] Essas coisas também, ilustrando-as com argumentação e produzindo testemunho por meio de escritos, proclamaremos sem constrangimento.
[26] Portanto, para demonstrar, como já dissemos, que eles são ateus em opinião, em método e em fato, e também para mostrar de onde lhes vieram suas teorias tentadas, e que estabeleceram suas doutrinas sem tomar nada das santas escrituras, nem por guardarem sucessão de algum santo, mas que suas doutrinas tiveram origem na sabedoria dos gregos, nas conclusões dos que formularam sistemas filosóficos, em pretensos mistérios e nas fantasias dos astrólogos, parece aconselhável, em primeiro lugar, explicar as opiniões dos filósofos gregos.
[27] Assim satisfaremos nossos leitores quanto ao fato de que essas opiniões são mais antigas do que essas heresias e, quanto às suas ideias sobre a divindade, até mais merecedoras de reverência.
[28] Em seguida, compararemos cada heresia com o sistema de cada especulador, para mostrar que o primeiro campeão de cada heresia, valendo-se dessas teorias, tirou proveito delas ao apropriar-se de seus princípios.
[29] E, impelido por elas a coisas piores, construiu sua própria doutrina.
[30] A empreitada é, reconhecidamente, trabalhosa e exige pesquisa extensa.
[31] Não faltaremos, porém, em esforço.
[32] Depois, isso será fonte de alegria, como um atleta que, com muito suor, obtém a coroa, ou como um comerciante que, depois de grande agitação do mar, alcança lucro, ou como um lavrador que, após o suor do rosto, desfruta os frutos, ou como um profeta que, depois de censuras e insultos, vê suas predições se cumprirem.
[33] No começo, portanto, declararemos quem foi o primeiro, entre os gregos, a apontar os princípios da filosofia natural.
[34] Pois foi especialmente deles que furtivamente tomaram suas ideias aqueles que primeiro propuseram essas heresias, como demonstraremos depois quando os compararmos entre si.
[35] Atribuindo a cada um dos que lideram entre os filósofos suas doutrinas peculiares, exporemos publicamente esses heresiarcas como nus e indecorosos.
[36] Diz-se que Tales de Mileto, um dos sete sábios, foi o primeiro a tentar formular um sistema de filosofia natural.
[37] Esse homem dizia que algo como a água é o princípio gerador do universo e também o seu fim.
[38] Pois de dela, solidificada e novamente dissolvida, todas as coisas consistem.
[39] E todas as coisas são sustentadas sobre ela.
[40] Dela procedem também os terremotos, as mudanças dos ventos e os movimentos atmosféricos.
[41] E todas as coisas são produzidas e se encontram em fluxo, em correspondência com a natureza do autor primário da geração.
[42] E a Divindade é aquilo que não tem começo nem fim.
[43] Esse homem, tendo se ocupado com hipótese e investigação acerca dos astros, tornou-se entre os gregos o primeiro autor desse tipo de estudo.
[44] E ele, olhando para o céu e afirmando que examinava cuidadosamente as coisas superiores, caiu num poço.
[45] E certa serva, de nome Trácia, zombou dele, dizendo que, enquanto procurava contemplar as coisas do céu, não sabia o que estava diante de seus próprios pés.
[46] E ele viveu por volta do tempo de Creso.
[47] Houve também, não muito distante desses tempos, outra filosofia que Pitágoras iniciou, a quem alguns dizem ser natural de Samos.
[48] Essa filosofia foi chamada italiana, porque Pitágoras, fugindo de Polícrates, rei de Samos, estabeleceu residência numa cidade da Itália, e ali passou o restante de seus dias.
[49] Os que receberam sucessivamente sua doutrina não divergiram muito dessa mesma opinião.
[50] Esse homem, ao investigar os fenômenos naturais, reuniu astronomia, geometria e música.
[51] Assim proclamou que a Divindade é uma mônada.
[52] E, familiarizando-se cuidadosamente com a natureza do número, afirmou que o mundo canta e que seu sistema corresponde à harmonia.
[53] E foi o primeiro a resolver o movimento dos sete astros em ritmo e melodia.
[54] Maravilhado com a administração de toda a estrutura do universo, exigia primeiro que seus discípulos guardassem silêncio, como pessoas que, ao entrar no mundo, fossem iniciadas nos segredos do universo.
[55] Depois, quando parecia que estavam suficientemente familiarizados com seu método de ensino e podiam filosofar com vigor sobre os astros e a natureza, então, considerando-os puros, ordenava-lhes falar.
[56] Esse homem dividiu seus alunos em duas ordens, chamando uma de esotérica e a outra de exotérica.
[57] Aos primeiros confiava doutrinas mais avançadas, e aos outros uma instrução mais moderada.
[58] Também tratou de magia, segundo dizem.
[59] E ele mesmo descobriu uma arte de fisiognomonia, estabelecendo certos números e medidas como base, dizendo que eles abrangiam o princípio da filosofia aritmética por composição da seguinte maneira.
[60] O primeiro número tornou-se um princípio originante, que é o um, indefinível e incompreensível, tendo em si todos os números que, segundo a pluralidade, podem prosseguir ao infinito.
[61] Mas a mônada primária tornou-se princípio dos números segundo a substância.
[62] Essa é uma mônada masculina, gerando, à maneira de um pai, todos os demais números.
[63] Em segundo lugar, a díade é um número feminino.
[64] E o mesmo é chamado pelos aritméticos de número par.
[65] Em terceiro lugar, a tríade é um número masculino.
[66] Este também foi classificado pelos aritméticos sob a designação de ímpar.
[67] Além de todos estes, há a tétrade, um número feminino.
[68] E esse também é chamado de par, por ser feminino.
[69] Portanto, todos os números que derivam do gênero são quatro.
[70] Mas o número é o gênero indefinido, do qual, segundo eles, foi constituído o número perfeito, isto é, a década.
[71] Pois um, dois, três e quatro tornam-se dez, se sua denominação própria for preservada essencialmente em cada um dos números.
[72] Pitágoras afirmava que essa era a sagrada tétrade, fonte da natureza eterna, tendo, por assim dizer, raízes em si mesma.
[73] E desse número todos os demais recebem seu princípio originante.
[74] Pois onze, doze e os restantes participam de sua origem de existência a partir do dez.
[75] Dessa década, o número perfeito, são chamadas quatro divisões: número, mônada, quadrado e cubo.
[76] E as conexões e combinações destes se realizam, segundo a natureza, para a geração do crescimento que completa o número produtivo.
[77] Pois, quando o próprio quadrado é multiplicado por si mesmo, o resultado é uma biquadrática.
[78] Mas, quando o quadrado é multiplicado pelo cubo, o resultado é o produto de quadrado e cubo.
[79] E, quando o cubo é multiplicado pelo cubo, o resultado é o produto de dois cubos.
[80] Assim, todos os números dos quais procede a produção dos seres existentes são sete: número, mônada, quadrado, cubo, biquadrática, quadrado-cubo e cubo-cubo.
[81] Esse filósofo também dizia que a alma é imortal e que subsiste em corpos sucessivos.
[82] Por isso afirmava que, antes da era troiana, ele fora Etálides.
[83] Durante a época de Troia, foi Euforbo.
[84] Depois disso, Hermótimo de Samos.
[85] Depois dele, Pirro de Delos.
[86] E em quinto lugar, Pitágoras.
[87] Diodoro de Erétria e Aristóxeno, o músico, afirmam que Pitágoras foi até Zaratas, o caldeu.
[88] E que este lhe explicou haver duas causas originais das coisas, pai e mãe.
[89] O pai é a luz, e a mãe, a treva.
[90] E da luz as partes são quentes, secas, leves e rápidas.
[91] Mas da treva são frias, úmidas, pesadas e lentas.
[92] E de tudo isso, do feminino e do masculino, o mundo é composto.
[93] O mundo, diz ele, é uma harmonia musical.
[94] Por isso também o sol realiza seu curso em conformidade com a harmonia.
[95] E quanto às coisas produzidas da terra e ao sistema cósmico, eles sustentam que Zaratas fazia as seguintes afirmações.
[96] Existem dois demônios, um celeste e outro terrestre.
[97] O terrestre faz subir da terra uma produção, e esta é a água.
[98] O celeste é fogo, participando da natureza do ar, quente e frio.
[99] Por isso ele afirma que nenhuma dessas coisas destrói nem contamina a alma, pois elas constituem a substância de todas as coisas.
[100] Diz-se que ele ordenou a seus seguidores que não comessem feijões.
[101] Pois Zaratas dissera que, na origem e concretização de todas as coisas, quando a terra ainda passava por seu processo de solidificação e já se iniciara a putrefação, surgiu o feijão.
[102] Ele apresenta a seguinte evidência disso.
[103] Se alguém, depois de mastigar um feijão sem a casca, o colocar diante do sol por certo período, e isso imediatamente ajudará no resultado, ele exalará o cheiro de sêmen humano.
[104] E ele menciona ainda outro exemplo mais claro.
[105] Se, quando o feijão está florescendo, tomarmos o feijão e sua flor, colocarmos num vaso, o vedarmos com barro e o enterrarmos na terra, e depois de alguns dias o desenterrarmos, veremos primeiro a aparência das partes íntimas de uma mulher.
[106] E, depois disso, observando atentamente, veremos a forma de uma cabeça de criança crescendo ali.
[107] Esse homem, tendo sido queimado com seus discípulos em Crotona, cidade da Itália, pereceu.
[108] E este era um costume entre eles: sempre que alguém vinha a ele com o desejo de tornar-se seu seguidor, o candidato era compelido a vender seus bens e depositar o dinheiro, selado, com Pitágoras.
[109] Então continuava em silêncio, recebendo instrução, às vezes por três anos, às vezes por cinco.
[110] Depois, sendo liberado, era-lhe permitido associar-se com os demais, e permanecia como discípulo, fazendo as refeições com eles.
[111] Mas, se fosse de outro modo, recebia de volta seus bens e era rejeitado.
[112] Esses, então, eram chamados pitagóricos esotéricos.
[113] Os demais eram chamados pitagoristas.
[114] Entre seus seguidores que escaparam do incêndio estavam Lísis e Arquipo, e o servo de Pitágoras, Zamolxis.
[115] Diz-se também que este ensinou aos druidas celtas a cultivar a filosofia de Pitágoras.
[116] E eles afirmam que Pitágoras aprendeu com os egípcios seu sistema de números e medidas.
[117] E, impressionado pela sabedoria plausível, imaginativa e não facilmente revelada dos sacerdotes, também ele, imitando-os, ordenou silêncio e fez seus discípulos levarem vida solitária em câmaras subterrâneas.
[118] Mas Empédocles, vindo depois destes, também apresentou muitas afirmações a respeito da natureza dos demônios, dizendo que, sendo muito numerosos, passam seu tempo cuidando de assuntos terrenos.
[119] Esse homem afirmava que o princípio originário do universo é a discórdia e a amizade.
[120] E que o fogo inteligível da mônada é a Divindade.
[121] E que todas as coisas consistem em fogo e serão resolvidas em fogo.
[122] Nisso os estoicos quase concordam com ele, esperando uma conflagração.
[123] Mas, acima de tudo, ele concorda com a doutrina da transição das almas de corpo em corpo, exprimindo-se assim.
[124] “Pois certamente eu já fui rapaz e moça, arbusto, pássaro e peixe errante do mar.”
[125] Esse filósofo sustentava a transmigração de todas as almas para qualquer espécie de animal.
[126] Pois Pitágoras, mestre desses sábios, afirmava que ele próprio fora Euforbo, que lutara na expedição contra Ílion, alegando ter reconhecido seu escudo.
[127] Essas são as doutrinas de Empédocles.
[128] Mas Heráclito, filósofo natural de Éfeso, entregou-se a tristeza universal, condenando a ignorância de toda a vida e de todos os homens.
[129] Sim, ele lamentava a própria existência dos mortais.
[130] Pois afirmava que ele mesmo conhecia tudo, enquanto o restante da humanidade nada sabia.
[131] Ele também sustentava afirmações quase em harmonia com Empédocles.
[132] Dizia que o princípio originário de todas as coisas é discórdia e amizade.
[133] E que a Divindade é um fogo dotado de inteligência.
[134] E que todas as coisas são levadas umas sobre as outras e jamais permanecem em repouso.
[135] E, como Empédocles, afirmava que toda a região ao nosso redor está cheia de coisas más.
[136] E que essas coisas más chegam até a lua, estendendo-se desde a região em torno da terra.
[137] E não avançam além, porque todo o espaço acima da lua é mais puro.
[138] Assim também parecia a Heráclito.
[139] Depois destes surgiram também outros filósofos naturais, cujas opiniões não julgamos necessário declarar.
[140] Isso porque não apresentam divergência em relação aos que já mencionamos.
[141] Mas, visto que, no conjunto, surgiu dali uma escola nada pequena, e muitos filósofos da natureza apareceram posteriormente a partir deles, cada qual apresentando diferentes relatos sobre a natureza do universo, parece-nos igualmente aconselhável que, explicando a filosofia transmitida por sucessão desde Pitágoras, retornemos às opiniões sustentadas pelos que viveram após Tales.
[142] E, fornecendo um relato deles, aproximemo-nos do exame da filosofia ética e lógica que Sócrates e Aristóteles desenvolveram, o primeiro a ética, o segundo a lógica.

