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[1] Certos indivíduos, aderindo em parte a essas coisas, como se tivessem proposto grandes conclusões e descoberto noções dignas de razão, formaram heresias enormes e intermináveis.

[2] Um deles é Colarbaso, que tenta explicar a religião por medidas e números.

[3] E há outros que agem de modo semelhante, cujas doutrinas exporemos quando começarmos a tratar daqueles que consideram possível o cálculo pitagórico.

[4] E que, proferindo profecias vãs, apressadamente tomam por segura a filosofia dos números e dos elementos.

[5] Ora, certos especuladores, apropriando-se de raciocínios semelhantes a partir dessas coisas, enganam pessoas simples.

[6] Alegam estar dotados de presciência.

[7] E, às vezes, depois de proferirem muitas predições, acertam casualmente uma única.

[8] E, sem se envergonharem de muitas falhas, vangloriam-se dessa única realização.

[9] Tampouco passarei em silêncio a filosofia insensata desses homens.

[10] Antes, depois de explicá-la, provarei que os que tentam formar um sistema de religião a partir dessas coisas são discípulos de uma escola fraca e cheia de velhacaria.

[11] Aqueles, então, que supõem profetizar por meio de cálculos, números, elementos e nomes, estabelecem a origem de seu sistema da seguinte maneira.

[12] Eles afirmam que há uma raiz de cada número.

[13] No caso dos milhares, tantas mônadas quantos forem os milhares.

[14] Por exemplo, a raiz de seis mil são seis mônadas.

[15] A de sete mil, sete mônadas.

[16] A de oito mil, oito mônadas.

[17] E, quanto aos demais, do mesmo modo, segundo a mesma proporção.

[18] E, no caso das centenas, tantas centenas quantas houver, tantas mônadas são sua raiz.

[19] Por exemplo, em setecentos há sete centenas.

[20] A raiz destas é sete mônadas.

[21] Em seiscentos, seis centenas.

[22] A raiz destas, seis mônadas.

[23] E o mesmo se dá com as dezenas.

[24] Pois de oitenta, a raiz é oito mônadas.

[25] E de sessenta, seis mônadas.

[26] De quarenta, quatro mônadas.

[27] De dez, uma mônada.

[28] E, no caso das mônadas, as próprias mônadas são raiz.

[29] Por exemplo, de nove, nove.

[30] De oito, oito.

[31] De sete, sete.

[32] Desse modo, portanto, dizem que devemos proceder também no caso dos elementos das palavras.

[33] Pois cada letra foi arranjada segundo certo número.

[34] Por exemplo, a letra n segundo cinquenta mônadas.

[35] Mas de cinquenta mônadas, cinco é a raiz.

[36] E, portanto, a raiz da letra n é cinco.

[37] Concedamos que, a partir de algum nome, tomemos certas raízes dele.

[38] Por exemplo, do nome Agamêmnon.

[39] Do a, uma mônada.

[40] Do g, três mônadas.

[41] Do outro a, uma mônada.

[42] Do m, quatro mônadas.

[43] Do e, cinco mônadas.

[44] Do m, quatro mônadas.

[45] Do n, cinco mônadas.

[46] Do o longo, oito mônadas.

[47] Do n, cinco mônadas.

[48] As quais, reunidas em uma única série, serão 1, 3, 1, 4, 5, 4, 5, 8, 5.

[49] E estas, somadas, perfazem 36 mônadas.

[50] Em seguida, tomam as raízes dessas.

[51] E tornam-se três no caso do número trinta.

[52] E seis no caso do número seis.

[53] O três e o seis, então, somados, constituem nove.

[54] Mas a raiz de nove é nove.

[55] Portanto, o nome Agamêmnon termina na raiz nove.

[56] Façamos o mesmo com outro nome, Heitor.

[57] O nome Heitor tem cinco letras.

[58] E, e k, e t, e o, e r.

[59] As raízes destas são 5, 2, 3, 8, 1.

[60] E, somadas, perfazem 19 mônadas.

[61] Depois, do dez a raiz é um.

[62] E do nove, nove.

[63] Estas, somadas, perfazem dez.

[64] A raiz de dez é uma mônada.

[65] Portanto, o nome Heitor, quando submetido ao cálculo, produziu uma raiz, a saber, uma mônada.

[66] Seria, porém, mais fácil conduzir o cálculo assim.

[67] Divide-se em nove o total de raízes obtidas das letras.

[68] Como agora, no caso do nome Heitor, encontramos dezenove mônadas.

[69] E toma-se como raízes aquilo que sobra.

[70] Por exemplo, se eu dividir 19 por 9, o restante será 1.

[71] Pois 9 vezes 2 são 18.

[72] E resta uma mônada.

[73] Porque, se eu subtrair 18 de 19, resta uma mônada.

[74] De modo que a raiz do nome Heitor será uma mônada.

[75] De novo, no nome Pátroclo, estes números são raízes: 8, 1, 3, 1, 7, 2, 3, 7, 2.

[76] Somados, perfazem 34 mônadas.

[77] E destas, o restante é 7 mônadas.

[78] Do 30, 3.

[79] E do 4, 4.

[80] Portanto, sete mônadas são a raiz do nome Pátroclo.

[81] Aqueles, então, que conduzem seus cálculos segundo a regra do número nove, tomam a nona parte do total de raízes.

[82] E definem como soma das raízes o que resta.

[83] Já os que calculam segundo a regra do número sete tomam a sétima parte do total das raízes.

[84] Por exemplo, no caso do nome Pátroclo, o total no que diz respeito às raízes é 34 mônadas.

[85] Isto dividido em sete partes dá quatro, o que, multiplicado, produz 28.

[86] Restam seis mônadas.

[87] Assim, quem usa esse método diz, segundo a regra do número sete, que seis mônadas são a raiz do nome Pátroclo.

[88] Se, porém, o número for 43, seis tomados sete vezes são 42.

[89] Pois sete vezes seis são 42.

[90] E resta uma unidade.

[91] Portanto, uma mônada é a raiz do número 43 segundo a regra do número sete.

[92] Mas convém observar se o número assumido, ao ser dividido, não deixa resto.

[93] Por exemplo, se de algum nome, depois de somadas as raízes, eu encontrar, para dar um caso, 36 mônadas.

[94] Ora, 36 dividido por 9 resulta exatamente em quatro novenas.

[95] Pois 9 vezes 4 são 36.

[96] E nada sobra.

[97] É evidente, então, que a raiz real é 9.

[98] E, novamente, dividindo o número 45, encontramos 9 e nada resta.

[99] Pois 9 vezes 5 são 45.

[100] E nada permanece.

[101] Por isso, em casos assim, eles afirmam que a própria raiz é 9.

[102] E quanto ao número sete, o caso é semelhante.

[103] Pois, por exemplo, se dividirmos 28 por 7, nada sobra.

[104] Porque 7 vezes 4 são 28.

[105] E nada permanece.

[106] Por isso dizem que sete é a raiz.

[107] Mas, quando calculam nomes e encontram a mesma letra ocorrendo duas vezes, calculam-na uma só vez.

[108] Por exemplo, o nome Pátroclo tem o pa duas vezes.

[109] E o o duas vezes.

[110] Calculam, portanto, o a uma vez e o o uma vez.

[111] Segundo isso, então, as raízes serão 8, 1, 3, 1, 7, 2, 3, 2.

[112] E, somadas, perfazem 27 mônadas.

[113] E a raiz do nome será, segundo a regra do número nove, o próprio nove.

[114] Mas, segundo a regra do número sete, seis.

[115] Do mesmo modo, o nome Sarpédon, quando submetido ao cálculo, produz como raiz, segundo a regra do número nove, duas mônadas.

[116] Pátroclo, porém, produz nove mônadas.

[117] Pátroclo vence.

[118] Pois, quando um número é ímpar e o outro é par, se o ímpar for maior, ele prevalece.

[119] Mas, de novo, quando há um número par, oito, e um número ímpar, cinco, o oito prevalece.

[120] Pois é maior.

[121] Se, porém, houvesse dois números, por exemplo, ambos pares ou ambos ímpares, o menor prevaleceria.

[122] Mas como Sarpédon, segundo a regra do número nove, produz duas mônadas, já que a letra o longo é omitida?

[123] Pois, quando em um nome há a letra o longo e e longo, eles deixam de lado o o longo, usando uma única letra.

[124] Porque dizem que ambas são equivalentes.

[125] E a mesma coisa não deve ser calculada duas vezes, como foi dito acima.

[126] Novamente, Ájax produz quatro mônadas.

[127] Heitor, segundo a regra do nono número, produz uma mônada.

[128] E a tétrade é par, ao passo que a mônada é ímpar.

[129] E em casos assim, dizemos que o maior prevalece.

[130] Ájax vence.

[131] Novamente, Alexandre e Menelau podem ser tomados como exemplos.

[132] Alexandre tem um nome próprio, Páris.

[133] Mas Páris, segundo a regra do número nove, produz quatro mônadas.

[134] E Menelau, segundo a regra do número nove, produz nove mônadas.

[135] O nove, porém, vence o quatro.

[136] Pois foi declarado que, quando um número é ímpar e o outro é par, o maior prevalece.

[137] Mas, quando ambos são pares ou ambos ímpares, o menor prevalece.

[138] Novamente, Amico e Polideuces podem ser tomados como exemplos.

[139] Amico, segundo a regra do número nove, produz duas mônadas.

[140] Polideuces, porém, sete.

[141] Polideuces vence.

[142] Ájax e Ulisses disputaram nos jogos fúnebres.

[143] Ájax, segundo a regra do número nove, produz quatro mônadas.

[144] Ulisses, segundo a regra do número nove, produz oito.

[145] Há, então, algum nome adicional ou algum nome próprio para Ulisses?

[146] Pois ele obteve a vitória.

[147] Segundo os números, sem dúvida, Ájax é o vencedor.

[148] Mas a história transmite o nome de Ulisses como o conquistador.

[149] Aquiles e Heitor também podem ser tomados como exemplos.

[150] Aquiles, segundo a regra do número nove, produz quatro mônadas.

[151] Heitor, uma.

[152] Aquiles vence.

[153] Novamente, Aquiles e Asteropeu.

[154] Aquiles produz quatro mônadas.

[155] Asteropeu, três.

[156] Aquiles vence.

[157] Novamente, Menelau e Euporbo podem ser tomados como exemplos.

[158] Menelau possui nove mônadas.

[159] Euporbo, oito.

[160] Menelau vence.

[161] Alguns, porém, segundo a regra do número sete, empregam apenas as vogais.

[162] Outros distinguem separadamente as vogais, separadamente as semivogais e separadamente as mudas.

[163] E, tendo formado três ordens, tomam separadamente as raízes das vogais, separadamente as das semivogais e separadamente as das mudas.

[164] E as comparam cada uma à parte.

[165] Outros, contudo, nem mesmo empregam esses números costumeiros, mas outros diferentes.

[166] Por exemplo, não desejam admitir que a letra p tenha como raiz oito mônadas, mas cinco.

[167] E que a letra x tenha como raiz quatro mônadas.

[168] E, virando-se em toda direção, nada descobrem de sólido.

[169] Quando, porém, contendem acerca da segunda letra, retiram de cada nome a primeira letra.

[170] Mas, quando contendem acerca da terceira letra, retiram de cada nome duas letras.

[171] E, calculando o restante, fazem a comparação.

[172] Penso que ficou claramente exposta a mente dos aritméticos.

[173] Estes, por meio de números, nomes e letras, supõem interpretar a vida.

[174] Ora, percebo que tais homens, gozando de lazer e sendo treinados em cálculos, desejaram, por meio da arte que lhes foi transmitida desde a infância, adquirir celebridade.

[175] E assim serem chamados profetas.

[176] E, medindo as letras para cima e para baixo, extraviaram-se em frivolidades.

[177] Pois, se falham, dizem, ao apresentar a dificuldade: “Talvez este nome não fosse o nome de família, mas um nome imposto depois.”

[178] Como também acontece no exemplo em que argumentam a respeito de Ulisses e Ájax.

[179] Quem, aproveitando-se dessa filosofia espantosa e desejando ser chamado heresiarca, não seria exaltado?

[180] Mas, visto que há também entre os sapientíssimos especuladores dos gregos outra arte ainda mais profunda, à qual os hereges se vangloriam de ligar-se como discípulos, por empregarem as opiniões desses antigos filósofos em referência às doutrinas que tentam estabelecer, como pouco depois será provado, e já que essa é uma arte de adivinhação pelo exame da testa, ou antes, devo dizer, uma loucura, tampouco nos calaremos a respeito dela.

[181] Há alguns que atribuem às estrelas formas que moldam as feições e disposições dos homens.

[182] E associam isso aos nascimentos ocorridos sob determinadas estrelas.

[183] Assim eles se expressam.

[184] Os que nascem sob Áries serão do seguinte tipo.

[185] Cabeça alongada.

[186] Cabelos avermelhados.

[187] Sobrancelhas contraídas.

[188] Testa pontiaguda.

[189] Olhos acinzentados e vivos.

[190] Faces comprimidas.

[191] Nariz comprido.

[192] Narinas alargadas.

[193] Lábios finos.

[194] Queixo afilado.

[195] Boca larga.

[196] Estes, diz ele, participarão da seguinte natureza.

[197] Cautelosos.

[198] Sutis.

[199] Perspicazes.

[200] Prudentes.

[201] Tolerantes.

[202] Mansos.

[203] Excessivamente ansiosos.

[204] Pessoas de decisões secretas.

[205] Aptas para toda empreitada.

[206] Prevalecendo mais pela prudência do que pela força.

[207] Zombadores por um tempo.

[208] Estudiosos.

[209] Confiáveis.

[210] Contenciosos.

[211] Briguentos em contenda.

[212] Concupiscentes.

[213] Inflamados por desejo antinatural.

[214] Reflexivos.

[215] Afastados de seus próprios lares.

[216] Causando desagrado em tudo.

[217] Acusadores.

[218] Como loucos em seus excessos de bebida.

[219] Escarnecedores.

[220] Perdendo, ano após ano, algo útil na amizade por causa de sua própria bondade.

[221] E, na maioria dos casos, terminam seus dias em terra estrangeira.

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