[1] Apeles, porém, discípulo desse herege, desagradou-se das afirmações apresentadas por seu mestre, como já declaramos antes.
[2] E, por outra teoria, supôs que há quatro deuses.
[3] E o primeiro destes, afirma ele, é o Ser Bom, a quem os profetas não conheceram, sendo Cristo o seu Filho.
[4] E o segundo Deus, diz ele, é o Criador do universo, a quem não deseja chamar de Deus.
[5] E o terceiro Deus, afirma, é o ser ígneo que se manifestou.
[6] E o quarto é um ser maligno.
[7] E Apeles chama estes de anjos.
[8] E, acrescentando Cristo ao número deles, fará dele também um quinto deus.
[9] Mas este herege costuma dedicar sua atenção a um livro que chama de Revelações de certa Filumena, a quem considera profetisa.
[10] E afirma que Cristo não recebeu sua carne da Virgem, mas da substância adjacente do mundo.
[11] Desta maneira compôs seus tratados contra a lei e os profetas.
[12] E tenta aboli-los como se tivessem falado falsidades e não tivessem conhecido a Deus.
[13] E Apeles, semelhantemente a Marcião, afirma que os diversos tipos de carne são destruídos.
[14] Cerinto, porém, tendo sido instruído no Egito, sustentou que o mundo não foi feito pelo primeiro Deus, mas por certo poder angélico.
[15] E esse poder estava muito separado e distante daquela soberania que está acima de todo o círculo da existência.
[16] E não conhece o Deus que está acima de todas as coisas.
[17] E ele diz que Jesus não nasceu de uma virgem.
[18] Mas que procedeu de José e Maria como filho deles, semelhante ao restante dos homens.
[19] E que excedia a todos os demais da humanidade em justiça, prudência e entendimento.
[20] E Cerinto sustenta que, após o batismo de Jesus, Cristo desceu sobre ele em forma de pomba, vindo da soberania que está acima de todo o círculo da existência.
[21] E que então passou a pregar o Pai desconhecido e a operar milagres.
[22] E ele afirma que, ao fim da paixão, Cristo voou para longe de Jesus.
[23] Mas que Jesus sofreu.
[24] E que Cristo permaneceu incapaz de sofrer, por ser espírito do Senhor.
[25] Os ebionitas, porém, afirmam que o mundo foi feito pelo verdadeiro Deus.
[26] E falam de Cristo de maneira semelhante a Cerinto.
[27] Vivem, contudo, em tudo de acordo com a lei de Moisés.
[28] Alegando que assim são justificados.
[29] Teódoto de Bizâncio, porém, introduziu uma heresia da seguinte espécie, afirmando que todas as coisas foram criadas pelo verdadeiro Deus.
[30] Quanto a Cristo, porém, declara, de modo semelhante ao sustentado pelos gnósticos já mencionados, que ele apareceu segundo certa modalidade como esta.
[31] E Teódoto afirma que Cristo é um homem de natureza semelhante à de todos os homens.
[32] Mas que os excede nisto: segundo o conselho de Deus, nasceu de uma virgem, e o Espírito Santo cobriu sua mãe com sua sombra.
[33] Este herege, porém, sustentava que Jesus não assumira carne no ventre da Virgem.
[34] Mas que depois Cristo desceu sobre Jesus no seu batismo em forma de pomba.
[35] E, a partir disso, os seguidores de Teódoto afirmam que, a princípio, os poderes miraculosos não operavam eficazmente no próprio Salvador.
[36] Teódoto, porém, decide negar a divindade de Cristo.
[37] Ora, opiniões desse tipo foram apresentadas por Teódoto.
[38] E outros também fazem todas as suas afirmações de modo semelhante às que já foram expostas.
[39] Introduzem uma única alteração, a saber, no que diz respeito a considerar Melquisedeque como certa potência.
[40] Mas afirmam que o próprio Melquisedeque é superior a todas as potências.
[41] E, conforme sua imagem, desejam sustentar que Cristo também foi gerado.
[42] Os frígios, porém, derivam os princípios de sua heresia de certo Montano, e de Priscila, e de Maximila.
[43] E consideram essas miseráveis mulheres como profetisas, e Montano como profeta.
[44] No que diz respeito, porém, à origem e à criação do universo, supõe-se que os frígios se expressem corretamente.
[45] E, nas doutrinas que enunciam acerca de Cristo, não formaram suas opiniões de modo totalmente impróprio.
[46] Mas são seduzidos ao erro em comum com os hereges antes mencionados.
[47] E dedicam sua atenção mais aos discursos desses do que aos evangelhos.
[48] Assim estabelecem regras acerca de jejuns novos e estranhos.
[49] Mas outros dentre eles, estando ligados à heresia dos noetianos, sustentam opiniões semelhantes às das tolas mulheres dos frígios e às de Montano.
[50] No que diz respeito, porém, às verdades relativas ao Pai de tudo o que existe, são culpados de blasfêmia.
[51] Porque afirmam que ele é Filho e Pai, visível e invisível, gerado e não gerado, mortal e imortal.
[52] Estes aproveitaram a ocasião oferecida por certo Noeto para apresentar sua heresia.
[53] Do mesmo modo, porém, também Noeto, natural de Esmirna por nascimento, homem dado a fala temerária e também astuto, introduziu entre nós esta heresia que teve origem em certo Epígono.
[54] Ela chegou a Roma.
[55] E foi adotada por Cleômenes.
[56] E assim continuou até hoje entre seus sucessores.
[57] Noeto afirma que há um só Pai e Deus do universo.
[58] E que ele fez todas as coisas.
[59] E que era imperceptível aos seres existentes quando assim o desejava.
[60] Noeto sustentava que o Pai então aparecia quando queria.
[61] E que é invisível quando não é visto, mas visível quando é visto.
[62] E este herege também afirma que o Pai é não gerado quando não é gerado.
[63] Mas gerado quando nasce de uma virgem.
[64] E também que não está sujeito ao sofrimento, e é imortal, quando não sofre nem morre.
[65] Quando, porém, sua paixão veio sobre ele, Noeto admite que o Pai sofre e morre.
[66] E os noetianos supõem que este mesmo Pai é chamado Filho, e vice-versa, em referência aos acontecimentos que sucedem a cada um deles em seus próprios tempos.
[67] Calisto corroborou a heresia desses noetianos.
[68] Mas já explicamos cuidadosamente os detalhes de sua vida.
[69] E o próprio Calisto também produziu uma heresia.
[70] E tirou seus pontos de partida desses noetianos.
[71] A saber, na medida em que reconhece que existe um só Pai e Deus, isto é, o Criador do universo.
[72] E que este Deus é mencionado e chamado pelo nome de Filho.
[73] Contudo, quanto à substância, ele é um só Espírito.
[74] Porque o Espírito, sendo a Divindade, diz ele, não é algum ser diferente do Logos, nem o Logos é diferente da Divindade.
[75] Portanto, essa única pessoa, segundo Calisto, é dividida nominalmente, mas não substancialmente.
[76] Ele supõe que esse único Logos é Deus.
[77] E afirma que houve, no caso da Palavra, uma encarnação.
[78] E está inclinado a sustentar que aquele que foi visto na carne e crucificado é o Filho.
[79] Mas que o Pai é aquele que habita nele.
[80] Assim Calisto, ora se desvia para a opinião de Noeto, ora para a de Teódoto.
[81] E não mantém doutrina segura.
[82] Estas, então, são as opiniões de Calisto.
[83] Mas certo Hermógenes também, desejando dizer algo, afirmou que Deus fez todas as coisas a partir de matéria coeterna consigo mesmo e sujeita ao seu desígnio.
[84] Pois Hermógenes sustentava ser impossível que Deus fizesse as coisas que foram feitas senão a partir de coisas já existentes.
[85] Mas certos outros, introduzindo por assim dizer algum ensinamento novo, apropriaram-se de partes do sistema de todas as heresias.
[86] E obtiveram um livro estranho, cujo título trazia o nome de um tal Elchasai.
[87] Estes, do mesmo modo, reconhecem que os princípios do universo tiveram origem na Divindade.
[88] Contudo, não confessam que há um só Cristo.
[89] Mas que há um que é superior aos demais.
[90] E que ele é frequentemente difundido em muitos corpos.
[91] E que agora estava em Jesus.
[92] E, do mesmo modo, esses hereges sustentam que, em certo tempo, Cristo foi gerado por Deus.
[93] E em outro tempo tornou-se Espírito.
[94] E em outro tempo nasceu de uma virgem.
[95] E em outro tempo, não.
[96] E afirmam que, semelhantemente, esse Jesus depois continuou sendo continuamente difundido em corpos.
[97] E manifestou-se em muitos corpos diferentes em tempos diferentes.
[98] E recorrem a encantamentos e batismos em sua confissão dos elementos.
[99] E ocupam-se com atividade agitada em relação à ciência astrológica e matemática, e às artes da feitiçaria.
[100] Mas também alegam possuir poderes de presciência.
[101] De Harã, cidade da Mesopotâmia, Abraão, por ordem de Deus, transferiu sua morada para a terra que agora é chamada Palestina e Judeia, mas que então era a região de Canaã.
[102] A respeito desse território já demos, em parte, mas não sem diligência, explicação em outros discursos.
[103] A partir dessa migração, portanto, pode-se rastrear o início do crescimento populacional na Judeia.
[104] Esta recebeu seu nome de Judá, o quarto filho de Jacó, cujo nome também foi chamado Israel, pelo fato de que dele descenderia uma raça de reis.
[105] Abraão saiu da Mesopotâmia aos setenta e cinco anos.
[106] E, aos cem anos, gerou Isaque.
[107] Isaque, porém, aos sessenta anos de idade, gerou Jacó.
[108] E Jacó, aos oitenta e seis anos, gerou Levi.
[109] E Levi, aos quarenta anos de idade, gerou Coate.
[110] E Coate tinha quatro anos de idade quando desceu com Jacó ao Egito.
[111] Portanto, todo o período durante o qual Abraão peregrinou, e toda a família que dele descendeu por meio de Isaque, na terra então chamada Canaã, foi de duzentos e quinze anos.
[112] Mas o pai desse Abraão é Terá.
[113] E de Terá o pai é Naor.
[114] E de Naor o pai é Serugue.
[115] E de Serugue o pai é Reú.
[116] E de Reú o pai é Pelegue.
[117] E de Pelegue, o pai é Héber.
[118] E assim aconteceu que os judeus foram denominados pelo nome de hebreus.
[119] No tempo de Pelegue, porém, ocorreu a dispersão das nações.
[120] Ora, essas nações eram setenta e duas, correspondendo ao número dos filhos de Abraão.
[121] E os nomes dessas nações também os registramos em outros livros, sem omitir esse ponto em seu devido lugar.
[122] E a razão de nosso cuidado detalhado é o desejo de manifestar aos que têm disposição estudiosa o amor que nutrimos para com a Divindade.
[123] E o conhecimento indubitável acerca da Verdade, do qual, no curso de nossos trabalhos, tomamos posse.
[124] Mas o pai desse Héber é Salá.
[125] E de Salá o pai é Cainã.
[126] E de Cainã o pai é Arfaxade.
[127] E o pai deste é Sem.
[128] E de Sem o pai é Noé.
[129] E no tempo de Noé ocorreu um dilúvio sobre o mundo inteiro.
[130] Dilúvio esse que nem egípcios, nem caldeus, nem gregos recordam.
[131] Pois as inundações que aconteceram nos tempos de Ogiges e Deucalião prevaleceram apenas nas regiões onde estes habitavam.
[132] Há, então, no caso desses patriarcas, isto é, de Noé até Héber inclusive, cinco gerações e quatrocentos e noventa e cinco anos.
[133] Este Noé, por ser homem extremamente piedoso e amante de Deus, sozinho, com sua esposa, seus filhos e as três esposas deles, escapou do dilúvio que sobreveio.
[134] E devia sua preservação a uma arca.
[135] E tanto as dimensões quanto os restos dessa arca, como explicamos, são mostrados até hoje nos montes chamados Ararate.
[136] Estes estão situados na direção da região dos adiabênios.
[137] É, então, possível para os que desejam investigar diligentemente o assunto perceber quão claramente foi demonstrada a existência de uma nação de adoradores do verdadeiro Deus mais antiga que todos os caldeus, egípcios e gregos.
[138] Que necessidade há, porém, no presente, de especificar aqueles que, antes de Noé, eram tanto homens piedosos quanto pessoas autorizadas a manter conversa com o verdadeiro Deus?
[139] Pois, quanto ao assunto em questão, este testemunho acerca da antiguidade do povo de Deus é suficiente.
[140] Mas, visto que não parece irracional provar que essas nações, cuja atenção esteve absorvida nas especulações da filosofia, são de data mais recente do que aquelas que habitualmente adoravam o verdadeiro Deus, é razoável que expliquemos tanto de onde se originou a família destes últimos quanto que, ao habitarem essas terras, não receberam nome dos próprios locais, mas tomaram para si nomes daqueles que nasceram primeiro e ali habitaram.
[141] Noé teve três filhos: Sem, Cam e Jafé.
[142] A partir destes, multiplicou-se toda a família humana.
[143] E cada região da terra deve seus habitantes, em primeira instância, a eles.
[144] Pois a palavra de Deus dirigida a eles prevaleceu, quando o Senhor disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra”.
[145] Tão grande eficácia teve essa única palavra, que dos três filhos de Noé nasceram, em sua descendência, setenta e dois filhos.
[146] De Sem, vinte e cinco.
[147] De Jafé, quinze.
[148] E de Cam, trinta e dois.
[149] A Cam, porém, nasceram esses trinta e dois filhos segundo o que antes foi declarado.
[150] E entre os filhos de Cam estão Canaã, de quem vieram os cananeus.
[151] Mizraim, de quem vieram os egípcios.
[152] Cuxe, de quem vieram os etíopes.
[153] E Pute, de quem vieram os líbios.
[154] Estes, segundo a língua usada entre eles, até o presente são chamados pelo nome de seus antepassados.
[155] Sim, até mesmo na língua grega são chamados pelos nomes pelos quais agora foram designados.
[156] Mas, ainda que se supusesse que essas regiões não tivessem sido previamente habitadas, nem se pudesse provar que nelas existiu uma raça de homens desde o princípio, ainda assim esses filhos de Noé, adorador de Deus, são plenamente suficientes para provar o ponto em debate.
[157] Pois é evidente que o próprio Noé deve ter sido discípulo de homens piedosos.
[158] E por essa razão escapou da tremenda, embora passageira, ameaça das águas.
[159] Como, então, não seriam os adoradores do verdadeiro Deus mais antigos do que todos os caldeus, egípcios e gregos?
[160] Pois devemos ter em mente que o pai desses gentios nasceu de Jafé.
[161] E recebeu o nome de Javã.
[162] E tornou-se progenitor dos gregos e dos jônios.
[163] Ora, se se mostra que as nações que se dedicaram às questões da filosofia pertencem a um período totalmente mais recente do que a linhagem dos adoradores de Deus, bem como do que o tempo do dilúvio, como não pareceriam as nações dos bárbaros, e tantas tribos quantas são conhecidas e desconhecidas no mundo, pertencer a época ainda mais recente do que estas?
[164] Portanto, vós gregos, egípcios, caldeus e toda a raça dos homens, tornai-vos discípulos desta doutrina.
[165] E aprendei conosco, que somos amigos de Deus, qual é a natureza de Deus e qual é a sua criação bem ordenada.
[166] E cultivamos este sistema, não nos expressando em mera linguagem pomposa.
[167] Mas compondo nossos tratados em termos que demonstram nosso conhecimento da verdade e nossa prática do bom senso.
[168] Sendo nosso objetivo a demonstração da Verdade.
[169] O primeiro e único Deus, tanto Criador quanto Senhor de tudo, nada tinha coeterno consigo mesmo.
[170] Nem caos infinito.
[171] Nem água imensurável.
[172] Nem terra sólida.
[173] Nem ar denso.
[174] Nem fogo quente.
[175] Nem espírito refinado.
[176] Nem a abóbada azul do estupendo firmamento.
[177] Mas Ele era Um, só em si mesmo.
[178] Pelo exercício de sua vontade, criou as coisas que existem, as quais antes não existiam, exceto enquanto Ele quis fazê-las.
[179] Pois Ele conhece perfeitamente tudo o que está prestes a acontecer.
[180] Porque também a presciência lhe está presente.
[181] Os diferentes princípios, porém, do que viria a existir, Ele primeiro fabricou, a saber: fogo e espírito, água e terra.
[182] E, a partir desses diversos elementos, passou a formar a sua própria criação.
[183] E alguns objetos Ele formou de uma só essência.
[184] Outros, porém, compôs de duas.
[185] Outros, de três.
[186] E outros, de quatro.
[187] E os que foram formados de uma só substância eram imortais.
[188] Pois, no caso deles, não se segue dissolução, porque aquilo que é uno nunca será dissolvido.
[189] Aqueles, por outro lado, que são formados de duas, ou três, ou quatro substâncias, são dissolúveis.
[190] Por isso também são chamados mortais.
[191] Pois isto foi denominado morte: a dissolução das substâncias ligadas entre si.
[192] Penso agora, portanto, que já respondi suficientemente àqueles dotados de mente sã.
[193] E, se desejarem instrução adicional e estiverem dispostos a investigar com precisão as substâncias dessas coisas e as causas da criação inteira, conhecerão esses pontos se lerem uma obra nossa intitulada Sobre a Substância do Universo.
[194] Considero, porém, que por ora basta esclarecer aquelas causas das quais os gregos, ignorando-as, glorificaram com linguagem pomposa as partes da criação, ao passo que permaneceram ignorantes quanto ao Criador.
[195] E desses os heresiarcas tomaram ocasião.
[196] E transformaram em doutrinas semelhantes as afirmações anteriormente feitas por aqueles gregos.
[197] E assim moldaram heresias ridículas.
[198] Portanto, esta Divindade solitária e suprema, por um ato de reflexão, gerou primeiro o Logos.
[199] Não a palavra no sentido de um som articulado pela voz, mas como a razão do universo, concebida e residente na mente divina.
[200] Somente a ele produziu a partir das coisas existentes.
[201] Pois o próprio Pai constituía a existência.
[202] E aquele que nasceu dele foi a causa de todas as coisas que são produzidas.
[203] O Logos estava no próprio Pai, trazendo em si a vontade de seu gerador.
[204] E não ignorando a mente do Pai.
[205] Pois, simultaneamente com seu sair de seu Gerador, visto que é o primogênito deste, possui em si, como voz, as ideias concebidas no Pai.
[206] E assim foi que, quando o Pai ordenou que o mundo viesse à existência, o Logos, um por um, completou cada objeto da criação, agradando assim a Deus.
[207] E as coisas que se multiplicam pela geração, ele as formou macho e fêmea.
[208] Mas todos os seres destinados ao serviço e à ministração, fê-los ou machos, ou sem necessidade de fêmeas, ou nem machos nem fêmeas.
[209] Pois até as substâncias primárias destes, que foram formadas a partir do não-ser, a saber, fogo e espírito, água e terra, não são nem masculinas nem femininas.
[210] Nem poderia macho ou fêmea proceder de qualquer uma dessas, a menos que Deus, que é a fonte de toda autoridade, quisesse que o Logos prestasse ajuda na realização de uma produção desse tipo.
[211] Confesso que os anjos são de fogo.
[212] E afirmo que não existem espíritos femininos entre eles.
[213] E sou de opinião que também sol, lua e estrelas são produzidos de fogo e espírito.
[214] E não são nem masculinos nem femininos.
[215] E a vontade do Criador é que os animais nadadores e os alados procedam da água, machos e fêmeas.
[216] Pois assim Deus, cuja vontade era essa, ordenou que existisse uma substância úmida dotada de poder reprodutivo.
[217] E semelhantemente Deus ordenou que da terra surgissem os répteis e os quadrúpedes, assim como machos e fêmeas de toda espécie de animais.
[218] Pois assim a natureza das coisas produzidas o admitia.
[219] Pois tudo quanto Ele quis, Deus fez em seu devido tempo.
[220] Estas coisas Ele criou por meio do Logos.
[221] Pois não era possível que as coisas fossem geradas de outro modo senão como foram produzidas.
[222] Mas quando, conforme quis, também formou esses objetos, chamou-os por nomes.
[223] E assim deu a conhecer sua obra criadora.
[224] E, fazendo estas coisas, formou o governante de tudo.
[225] E o modelou a partir de todas as substâncias compostas.
[226] O Criador não quis fazê-lo deus e falhou em seu intento.
[227] Nem quis fazê-lo anjo — não te deixes enganar.
[228] Mas homem.
[229] Pois, se quisesse fazer-te um deus, poderia tê-lo feito.
[230] Tens o exemplo do Logos.
[231] Sua vontade, porém, foi que fosses homem.
[232] E fez-te homem.
[233] Mas, se desejas também tornar-te deus, obedece àquele que te criou.
[234] E não resistas agora.
[235] Para que, sendo achado fiel no pouco, possas ser habilitado a receber também o muito.
[236] O Logos somente deste Deus procede do próprio Deus.
[237] Por isso também o Logos é Deus, sendo a substância de Deus.
[238] Ora, o mundo foi feito do nada.
[239] Portanto, não é Deus.
[240] Também porque este mundo admite dissolução sempre que o Criador assim o queira.
[241] Mas Deus, que o criou, não fez nem faz o mal.
[242] Ele faz o que é glorioso e excelente.
[243] Pois aquele que faz isso é bom.
[244] Ora, o homem, que foi trazido à existência, era uma criatura dotada de capacidade de autodeterminação.
[245] Contudo, não possuía intelecto soberano.
[246] Nem dominava todas as coisas por reflexão, autoridade e poder.
[247] Antes, era escravo de suas paixões.
[248] E compreendia em si todo tipo de contrariedades.
[249] Mas o homem, pelo fato de possuir capacidade de autodeterminação, produz o mal, isto é, acidentalmente.
[250] E esse mal não se consuma a menos que efetivamente pratiques alguma maldade.
[251] Pois é a respeito de desejarmos algo perverso, ou meditarmos sobre isso, que o mal recebe tal nome.
[252] O mal não existia desde o princípio.
[253] Mas veio a existir depois.
[254] Como o homem tem livre-arbítrio, uma lei foi definida pela Divindade para sua orientação, e não sem boa finalidade.
[255] Pois, se o homem não tivesse o poder de querer e de não querer, por que seria estabelecida uma lei?
[256] Pois a lei não será dada a um animal desprovido de razão, mas um freio e um chicote.
[257] Ao passo que ao homem foi dado um preceito e uma pena, para executar ou não executar o que foi ordenado.
[258] A esse homem assim constituído foi promulgada uma lei por homens justos nos tempos primitivos.
[259] Mais perto de nossos dias, foi estabelecida uma lei cheia de gravidade e justiça por Moisés, de quem já se falou, homem piedoso e amado de Deus.
[260] Ora, o Logos de Deus governa todas essas coisas.
[261] O Filho primogênito do Pai.
[262] A voz da Aurora antes da Estrela da Manhã.
[263] Depois nasceram homens justos, amigos de Deus.
[264] E estes foram chamados profetas, por terem anunciado antecipadamente acontecimentos futuros.
[265] E a palavra da profecia foi confiada a eles, não apenas para uma única era.
[266] Mas também os oráculos acerca de acontecimentos preditos para todas as gerações lhes foram concedidos com perfeita clareza.
[267] E isso não apenas no tempo em que os videntes davam resposta aos presentes.
[268] Mas também os acontecimentos que se dariam ao longo de todas as eras foram de antemão manifestados.
[269] Porque, falando de eventos passados, os profetas os trouxeram de volta à lembrança da humanidade.
[270] Ao mostrarem os acontecimentos presentes, procuraram persuadir os homens a não serem negligentes.
[271] E, ao predizerem eventos futuros, fizeram cada um de nós tremer ao ver eventos que tinham sido preditos muito tempo antes.
[272] E também ao esperar os eventos ainda futuros que foram preditos.
[273] Tal é a nossa fé, ó todos vós homens.
[274] Nossa, digo, nós que não somos persuadidos por expressões vazias.
[275] Nem arrebatados por impulsos súbitos do coração.
[276] Nem enganados pela plausibilidade de discursos eloquentes.
[277] E, contudo, não nos recusamos a obedecer às palavras que foram proferidas pelo poder divino.
[278] E essas injunções Deus deu ao Logos.
[279] Mas o Logos, ao declará-las, promulgou os mandamentos divinos.
[280] E assim desviou o homem da desobediência.
[281] Não o conduzindo à servidão por força de necessidade.
[282] Mas chamando-o à liberdade por meio de uma escolha que envolve espontaneidade.
[283] Este Logos o Pai enviou nos últimos dias, não mais para falar por meio de um profeta.
[284] E não querendo que a Palavra, proclamada obscuramente, fosse objeto de mera conjectura.
[285] Mas quis que ela fosse manifestada, para que pudéssemos vê-la com nossos próprios olhos.
[286] Este Logos, digo, o Pai enviou para que o mundo, ao contemplá-lo, reverenciasse aquele que entregava preceitos não por intermédio de profetas, nem aterrorizando a alma por meio de um anjo, mas sendo ele próprio, aquele que havia falado, corporalmente presente entre nós.
[287] Sabemos que este Logos recebeu um corpo de uma virgem.
[288] E que remodelou o homem antigo por uma nova criação.
[289] E cremos que o Logos passou por cada período desta vida.
[290] Para que ele mesmo servisse de lei para cada idade.
[291] E para que, estando presente entre nós, mostrasse sua própria humanidade como alvo para todos os homens.
[292] E para que, em sua própria pessoa, demonstrasse que Deus nada fez de mau.
[293] E que o homem possui capacidade de autodeterminação.
[294] Visto que pode querer e não querer.
[295] E está dotado de poder para fazer ambas as coisas.
[296] Sabemos que este Homem foi formado a partir do composto da nossa humanidade.
[297] Pois, se não fosse da mesma natureza que nós, em vão nos ordenaria imitar o Mestre.
[298] Porque, se aquele Homem fosse de substância diferente da nossa, por que me imporia mandamentos semelhantes aos que ele próprio recebeu, a mim que nasci fraco?
[299] E como isso seria ato de alguém bom e justo?
[300] Para que, porém, não se supusesse que ele fosse diferente de nós, submeteu-se até mesmo ao cansaço.
[301] E quis suportar a fome.
[302] E não recusou sentir sede.
[303] E entregou-se ao repouso do sono.
[304] Não resistiu à sua paixão.
[305] Mas tornou-se obediente até a morte.
[306] E manifestou sua ressurreição.
[307] Ora, em todos esses atos, ofereceu a sua própria humanidade como primícias.
[308] Para que tu, quando estiveres em tribulação, não desfaleças.
[309] Mas, confessando-te homem da mesma natureza que o Redentor, vivas na expectativa de também receberes aquilo que o Pai concedeu a este Filho.
[310] Tal é a verdadeira doutrina acerca da natureza divina, ó homens, gregos e bárbaros, caldeus e assírios, egípcios e líbios, indianos e etíopes, celtas, e vós latinos que conduzis exércitos, e todos vós que habitais a Europa, a Ásia e a Líbia.
[311] E a vós me tornei conselheiro, porque sou discípulo do Logos benigno e, por isso, humano.
[312] Para que vos apresseis e sejais por nós ensinados quanto a quem é o verdadeiro Deus e qual é a sua criação bem ordenada.
[313] Não dediqueis vossa atenção às falácias de discursos artificiais.
[314] Nem às vãs promessas de hereges plagiadores.
[315] Mas à venerável simplicidade da verdade sem ostentação.
[316] E, por meio deste conhecimento, escapareis da ameaça iminente do fogo do juízo.
[317] E da paisagem sem raios do escuro Tártaro.
[318] Onde jamais brilha um raio da voz irradiante do Logos.
[319] Escapareis da torrente fervente do lago eterno de fogo do inferno.
[320] E do olhar sempre fixo e ameaçador dos anjos caídos acorrentados no Tártaro como punição por seus pecados.
[321] E escapareis do verme que se enrosca sem cessar em busca de alimento ao redor do corpo cujo pus o gerou.
[322] Tais tormentos, então, evitareis, sendo instruídos no conhecimento do verdadeiro Deus.
[323] E possuireis um corpo imortal.
[324] Sim, um corpo colocado além da possibilidade de corrupção, assim como a alma.
[325] E recebereis o reino dos céus, vós que, enquanto peregrinastes nesta vida, conhecestes o Rei celestial.
[326] E sereis companheiros da Divindade e coerdeiros com Cristo.
[327] Já não escravizados por desejos ou paixões.
[328] E nunca mais consumidos pela doença.
[329] Pois vos tornastes deuses.
[330] Porque todos os sofrimentos que experimentastes enquanto homem, estes Ele vos deu.
[331] Porque éreis de matéria mortal.
[332] Mas tudo aquilo que convém a Deus conceder, isso Deus prometeu dar-vos.
[333] Porque fostes deificados e gerados para a imortalidade.
[334] Este é o sentido do provérbio: “Conhece-te a ti mesmo”.
[335] Isto é, descobre Deus em ti mesmo.
[336] Pois Ele te formou segundo a sua própria imagem.
[337] Porque com o conhecimento de si mesmo está unido o ser conhecido por Deus.
[338] Pois tu és chamado pelo próprio Deus.
[339] Portanto, não vos inflameis, ó homens, com inimizade uns contra os outros.
[340] Nem hesiteis em refazer com toda rapidez os vossos passos.
[341] Porque Cristo é o Deus acima de todos.
[342] E Ele providenciou apagar o pecado dos seres humanos, regenerando o homem antigo.
[343] E Deus chamou o homem, desde o princípio, de sua semelhança.
[344] E demonstrou em figura o seu amor por ti.
[345] E, se obedeceres às suas solenes injunções e te tornares fiel seguidor daquele que é bom, serás semelhante a Ele.
[346] Porque receberás honra concedida por Ele.
[347] Pois a Divindade, por condescendência, não diminui em nada a perfeição de sua divindade.
[348] Tendo-te feito até mesmo deus para sua glória.

