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[1] Depois de termos, não com violência, rompido o labirinto das heresias, mas antes desenredado suas intrincações apenas por meio da refutação, ou, em outras palavras, pela força da verdade, aproximamo-nos agora da própria demonstração da verdade.

[2] Pois então os sofismas artificiais do erro serão expostos em toda a sua inconsistência, quando conseguirmos estabelecer de onde foi derivada a definição da verdade.

[3] A verdade não tomou seus princípios da sabedoria dos gregos.

[4] Nem tomou emprestadas suas doutrinas, como mistérios secretos, dos ensinos dos egípcios, que, embora tolos, são entre eles reverenciados religiosamente como dignos de confiança.

[5] Nem foi formada a partir das falácias que enunciam as conclusões incoerentes da curiosidade dos caldeus.

[6] Nem a verdade deve sua existência ao espanto produzido pelas operações de demônios, segundo o frenesi irracional dos babilônios.

[7] Mas sua definição é constituída do modo como toda verdadeira definição deve ser, isto é, simples e sem adornos.

[8] Uma definição como essa, uma vez tornada manifesta, por si mesma refutará o erro.

[9] E, embora tenhamos muitas vezes apresentado demonstrações e elucidado com suficiente amplitude, para os que desejam aprender, a regra da verdade, ainda assim, depois de termos discutido todas as opiniões apresentadas pelos gregos e pelos hereges, decidimos não ser de todo irrazoável introduzir, como espécie de acabamento dos nove livros precedentes, esta demonstração ao longo do décimo livro.

[10] Tendo, portanto, abrangido em quatro livros as doutrinas de todos os sábios entre os gregos e em cinco as doutrinas propostas pelos heresiarcas, agora apresentaremos em um só livro a doutrina concernente à verdade, tendo primeiro exposto resumidamente as suposições sustentadas por cada um deles.

[11] Pois os dogmáticos entre os gregos, dividindo a filosofia em três partes, conceberam de tempos em tempos seus sistemas especulativos.

[12] Alguns chamaram o seu sistema de Filosofia Natural.

[13] Outros, de Filosofia Moral.

[14] Outros, porém, de Filosofia Dialética.

[15] E os antigos pensadores que chamaram sua ciência de Filosofia Natural são aqueles mencionados no livro primeiro.

[16] E a exposição que eles fizeram foi desta maneira.

[17] Alguns derivavam todas as coisas de um só princípio.

[18] Outros, porém, de mais de um princípio.

[19] E dentre os que derivavam todas as coisas de um só, alguns as derivavam daquilo que era destituído de qualidade.

[20] Outros, porém, daquilo que era dotado de qualidade.

[21] E dentre os que derivavam todas as coisas da qualidade, alguns as derivavam do fogo.

[22] Outros, do ar.

[23] Outros, da água.

[24] Outros, da terra.

[25] E dentre os que derivavam o universo de mais de um princípio, alguns o derivavam de quantidades numeráveis.

[26] Outros, porém, de quantidades infinitas.

[27] E dentre os que derivavam todas as coisas de quantidades numeráveis, alguns as derivavam de dois princípios.

[28] Outros, de quatro.

[29] Outros, de cinco.

[30] Outros, de seis.

[31] E dentre os que derivavam o universo de quantidades infinitas, alguns derivavam os entes de coisas semelhantes às que são geradas.

[32] Outros, porém, de coisas dessemelhantes.

[33] E dentre estes, alguns derivavam os entes de coisas incapazes de padecimento.

[34] Outros, de coisas capazes de padecimento.

[35] Os estoicos, então, explicavam a geração do universo a partir de um corpo destituído de qualidade, mas dotado de unidade.

[36] Pois, segundo eles, a matéria destituída de qualidade, e em todas as suas partes suscetível de mudança, constitui um princípio originário do universo.

[37] Porque, quando nela ocorre uma alteração, são gerados fogo, ar, água e terra.

[38] Os seguidores de Hípaso, de Anaximandro e de Tales de Mileto, porém, inclinam-se a pensar que todas as coisas foram geradas a partir de um único ente dotado de qualidade.

[39] Hípaso de Metaponto e Heráclito de Éfeso declararam que a origem das coisas provinha do fogo.

[40] Anaximandro, do ar.

[41] Mas Tales, da água.

[42] E Xenófanes, da terra.

[43] Pois da terra, diz ele, procedem todas as coisas, e todas as coisas terminam na terra.

[44] Mas dentre os que derivam todos os entes de mais de um princípio e de quantidades numeráveis, o poeta Homero afirma que o universo consiste em duas substâncias, a saber, terra e água.

[45] Em certa ocasião ele se expressa assim: “A fonte dos deuses era o Mar e a Mãe Terra”.

[46] E em outra assim: “Mas, de fato, todos vós poderíeis tornar-vos água e terra”.

[47] E Xenófanes de Colofão parece concordar com ele.

[48] Pois diz: “Todos nós procedemos da água e da terra”.

[49] Eurípides, porém, deriva o universo da terra e do ar.

[50] Como se pode perceber da seguinte afirmação sua: “Mãe de todos, eu canto o ar e a terra”.

[51] Empédocles, por sua vez, deriva o universo de quatro princípios.

[52] Expressa-se assim: “Ouve primeiro as quatro raízes de todas as coisas: o brilhante Zeus, e Juno vivificadora, e Aidoneu, e Nestis, que com lágrimas irriga a fonte mortal”.

[53] Ocelos, o lucano, e Aristóteles, porém, derivam o universo de cinco princípios.

[54] Pois, além dos quatro elementos, supõem a existência de um quinto.

[55] E afirmam que este é um corpo de movimento circular.

[56] E dizem que dele têm sua existência as coisas celestiais.

[57] Os discípulos de Empédocles, porém, supuseram que a geração do universo procede de seis princípios.

[58] Pois, na passagem em que ele diz: “Ouve primeiro as quatro raízes de todas as coisas”, ele produz a geração a partir de quatro princípios.

[59] Mas, quando acrescenta: “A ruinosa Discórdia separada delas, igual em todos os aspectos, e com elas a Amizade igual em comprimento e largura”, então também apresenta seis princípios do universo.

[60] Quatro deles são materiais: terra, água, fogo e ar.

[61] E dois são formativos: Amizade e Discórdia.

[62] Os seguidores de Anaxágoras de Clazômenas, de Demócrito, de Epicuro e de muitos outros deram como sua opinião que a geração do universo procede de um número infinito de átomos.

[63] E já fizemos antes menção parcial desses filósofos.

[64] Mas Anaxágoras deriva o universo de coisas semelhantes às que estão sendo produzidas.

[65] Ao passo que os seguidores de Demócrito e Epicuro derivam o universo de coisas tanto dessemelhantes aos entes produzidos quanto destituídas de padecimento, isto é, de átomos.

[66] Os seguidores de Heráclides do Ponto e de Asclepíades, porém, derivam o universo de coisas dessemelhantes aos entes produzidos e capazes de padecimento, como se fossem corpúsculos incongruentes.

[67] Os discípulos de Platão, entretanto, afirmam que os entes procedem de três princípios: Deus, Matéria e Modelo.

[68] Ele divide a matéria, porém, em quatro princípios: fogo, água, terra e ar.

[69] E diz que Deus é o Criador dessa matéria.

[70] E que a Mente é o seu modelo.

[71] Persuadidos, então, de que o princípio da fisiologia é confessadamente para todos esses filósofos um campo carregado de dificuldades, nós também declararemos sem temor como são os exemplos da verdade e conforme estamos persuadidos de que realmente são.

[72] Mas, antes, faremos uma exposição resumida das doutrinas dos heresiarcas.

[73] Para que, tendo colocado diante dos leitores os ensinos de todos, devidamente conhecidos por meio desse plano de tratamento, possamos expor a verdade de maneira clara e familiar.

[74] Mas, já que assim parece conveniente, comecemos primeiro pelos adoradores públicos da serpente.

[75] Os naassenos chamam o primeiro princípio do universo de Homem.

[76] E dizem que esse mesmo é também Filho do Homem.

[77] E dividem esse homem em três partes.

[78] Pois dizem que uma parte dele é racional.

[79] Outra, psíquica.

[80] E uma terceira, terrena.

[81] E lhe dão o nome de Adamas.

[82] E supõem que o conhecimento que lhe pertence é a causa originária da capacidade de conhecer a Deus.

[83] E o naasseno afirma que todas essas qualidades racionais, psíquicas e terrenas recolheram-se em Jesus.

[84] E que por meio dele essas três substâncias falaram simultaneamente aos três gêneros do universo.

[85] Eles alegam que há três tipos de existência: angélica, psíquica e terrena.

[86] E que há três igrejas: angélica, psíquica e terrena.

[87] E os nomes dessas são: escolhida, chamada e cativa.

[88] Estes são os pontos principais da doutrina apresentada por eles, na medida em que se pode compreendê-los brevemente.

[89] Eles afirmam que Tiago, irmão do Senhor, entregou esses ensinamentos a Mariamne, e com tal afirmação mentem a respeito de ambos.

[90] Os peratas, porém, a saber, Ademes, o carístio, e Eufrates, o perático, dizem que existe um certo mundo — esta é a denominação que usam — e afirmam que ele está dividido em três partes.

[91] Mas, dessa divisão tríplice, segundo eles, existe um só princípio, como uma fonte imensa, capaz de ser dividida, em razão, em segmentos infinitos.

[92] E o primeiro segmento, e o mais próximo, segundo eles, é a tríade.

[93] E é chamado bem perfeito e grandeza paternal.

[94] Mas a segunda porção da tríade é uma certa multidão de poderes, por assim dizer, infinitos.

[95] A terceira parte, porém, é formal.

[96] E a primeira é não gerada.

[97] De onde afirmam expressamente que existem três deuses, três logoi, três mentes e três homens.

[98] Pois, uma vez realizada a divisão, a cada parte do mundo atribuem deuses, logoi, homens e o restante.

[99] Mas do alto, da não geração e do primeiro segmento do mundo, depois que o mundo alcançou sua consumação, o perático afirma que desceu, nos dias de Herodes, um certo homem de natureza tríplice, corpo tríplice e poder tríplice, chamado Cristo.

[100] E que ele possui em si mesmo, a partir das três partes do mundo, todas as concreções e capacidades do mundo.

[101] E pensam que isso é o que foi declarado: “Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”.

[102] E afirmam que dos dois mundos situados acima, a saber, o não gerado e o auto-gerado, foram trazidos a este mundo em que estamos germes de toda sorte de poderes.

[103] E dizem que Cristo desceu do alto, da não geração, para que, por sua descida, todas as coisas que foram divididas em três partes fossem salvas.

[104] Pois, diz o perático, as coisas que foram trazidas de cima subirão por meio dele.

[105] E as coisas que conspiraram contra aquelas que foram trazidas de cima são rejeitadas imprudentemente e enviadas para punição.

[106] E o perático afirma que existem duas partes que são salvas, isto é, as que estão acima, por terem sido separadas da corrupção.

[107] E a terceira é destruída.

[108] E a isso ele chama mundo formal.

[109] Estas também são as doutrinas dos peratas.

[110] Mas aos sethianos parece que existem três princípios, definidos com exatidão.

[111] E cada um desses princípios é apto por natureza a poder gerar, assim como em uma alma humana toda arte capaz de ser aprendida se desenvolve.

[112] O resultado é o mesmo que quando uma criança, ao conviver longamente com um instrumento musical, se torna músico.

[113] Ou com a geometria, geômetra.

[114] Ou com qualquer outra arte, com resultado semelhante.

[115] E as essências dos princípios, dizem os sethianos, são luz e trevas.

[116] E no meio destas está o espírito puro.

[117] E o espírito, dizem eles, é o que está colocado entre as trevas, que estão abaixo, e a luz, que está acima.

[118] Não é espírito como corrente de vento ou como certa brisa suave que se possa sentir.

[119] Mas como se fosse certa fragrância de unguento ou de incenso feito de uma mistura refinada.

[120] Um poder que se difunde por certo impulso de perfume, inconcebível e superior ao que se pode exprimir.

[121] Visto, portanto, que a luz está acima e as trevas abaixo, e o espírito está entre ambas, a luz também, como um raio do sol, brilha de cima sobre as trevas subjacentes.

[122] E a fragrância do espírito é levada adiante, ocupando posição intermediária, e se derrama, assim como se espalha o odor das ofertas de incenso postas sobre o fogo.

[123] Ora, sendo desse tipo o poder das coisas divididas em três, o poder simultâneo do espírito e da luz está abaixo, nas trevas que se encontram embaixo.

[124] As trevas, porém, dizem eles, são uma água horrível, na qual a luz, juntamente com o espírito, é absorvida e assim transferida para uma natureza desse tipo.

[125] As trevas, então, tendo sido dotadas de inteligência, e sabendo que, quando a luz é retirada delas, permanecem desoladas, privadas de brilho e esplendor, poder e eficácia, bem como impotentes, fazem, por todo esforço de reflexão e raciocínio, um movimento para apreender em si mesmas o brilho, a cintilação da luz e também a fragrância do espírito.

[126] E para isso introduzem a seguinte imagem, exprimindo-se assim.

[127] Assim como a pupila do olho aparece escura sob os humores subjacentes, mas é iluminada pelo espírito, assim as trevas se esforçam intensamente em direção ao espírito e têm consigo todos os poderes que desejam retirar-se e retornar.

[128] Ora, estes são indefinidamente infinitos.

[129] E deles, quando misturados, todas as coisas são moldadas e geradas como selos.

[130] Pois assim como um selo, quando posto em contato com a cera, produz uma figura, e contudo ele mesmo permanece o que era, assim também os poderes, ao entrarem em comunhão uns com os outros, formam todas as espécies infinitas de animais.

[131] Os sethianos afirmam, portanto, que do primeiro concurso dos três princípios foi gerada uma imagem do grande selo, a saber, céu e terra.

[132] Tendo forma semelhante a um ventre e possuindo um umbigo no meio.

[133] E assim também as demais figuras de todas as coisas foram moldadas, como o céu e a terra, segundo semelhança de um ventre.

[134] E os sethianos dizem que da água foi produzido um primeiro princípio gerado, a saber, um vento impetuoso e tempestuoso.

[135] E que ele é a causa de toda geração, criando uma espécie de calor e movimento no mundo a partir do movimento das águas.

[136] E sustentam que esse vento foi modelado, como o sibilar de uma serpente, em uma imagem perfeita.

[137] E para essa imagem o mundo olha e se apressa para a geração, sendo inflamado como um ventre.

[138] E daí pensam que surgiu a geração do universo.

[139] E dizem que esse vento constitui um espírito.

[140] E que um Deus perfeito surgiu da fragrância das águas, do espírito e da luz brilhante.

[141] E afirmam que a mente existe segundo modo de geração a partir de uma fêmea.

[142] E, por mente, entendem a centelha superior.

[143] E dizem que, tendo-se misturado abaixo com os compostos do corpo, ela deseja ardentemente fugir.

[144] Para que, escapando, possa partir e não encontrar dissolução por causa da deficiência nas águas.

[145] Por isso tem o costume de clamar em alta voz do meio da mistura das águas, segundo o salmista, como eles dizem.

[146] Pois toda a ansiedade da luz superior é libertar da região inferior a centelha que está abaixo, vinda do Pai inferior, isto é, do vento.

[147] E o Pai cria calor e perturbação.

[148] E produz para si um Filho, a saber, a mente.

[149] A qual, como alegam, não é propriamente descendência dele.

[150] E esses hereges afirmam que o Filho, ao contemplar o Logos perfeito da luz superior, sofreu transformação.

[151] E, na forma de serpente, entrou em um ventre.

[152] A fim de poder recuperar aquela Mente que é a cintilação da luz.

[153] E dizem que isto é o que foi declarado: “O qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando forma de servo”.

[154] E os miseráveis e perniciosos sethianos pensam que essa é a forma servil mencionada pelo apóstolo.

[155] Estas, então, são as afirmações que também esses sethianos apresentam.

[156] Mas aquele supostamente sapientíssimo Simão faz sua declaração assim: que existe um poder indefinido, e que este é a raiz do universo.

[157] E esse poder indefinido, diz ele, que é fogo, em si mesmo não é algo simples, como a massa grosseira dos especuladores sustenta, quando afirmam que existem quatro elementos não compostos e supõem o fogo, como um deles, ser incombinado.

[158] Simão, ao contrário, alega que a natureza do fogo é dupla.

[159] E a uma parte dessa natureza dupla ele chama algo secreto.

[160] E à outra, algo manifesto.

[161] E afirma que o secreto está oculto nas partes manifestas do fogo.

[162] E que as partes manifestas do fogo foram produzidas a partir do secreto.

[163] E diz que todas as partes do fogo, visíveis e invisíveis, foram supostas possuir capacidade de percepção.

[164] O mundo, portanto, diz ele, que foi gerado, foi produzido a partir do fogo não gerado.

[165] E começou, diz ele, a existir deste modo.

[166] O Não Gerado tomou seis raízes primordiais do princípio da geração a partir do princípio daquele fogo.

[167] Pois sustenta que essas raízes foram geradas aos pares a partir do fogo.

[168] E a estas ele denomina Mente e Inteligência, Voz e Nome, Raciocínio e Reflexão.

[169] E afirma que nas seis raízes reside ao mesmo tempo o poder indefinido.

[170] O qual ele afirma ser Aquele que esteve, está e estará.

[171] E quando este tiver sido formado em figura, existirá, segundo esse herege, nas seis potências substancial e potencialmente.

[172] E será em magnitude e perfeição um e o mesmo com aquele poder não gerado e indefinido, não possuindo em aspecto algum atributo mais deficiente que aquele poder não gerado, imutável e indefinido.

[173] Se, porém, Aquele que esteve, está e estará continuar a existir apenas potencialmente nas seis potências e não assumir figura definida, então se torna, diz Simão, completamente evanescente e perece.

[174] E isso acontece do mesmo modo que a capacidade gramatical ou geométrica, que, embora tenha sido implantada na alma do homem, se extingue quando não recebe a assistência de um mestre dessas artes, que instruiria essa alma em seus princípios.

[175] Ora, Simão afirma que ele próprio é Aquele que esteve, está e estará.

[176] E que ele é um poder acima de todas as coisas.

[177] Até aqui, então, quanto às opiniões também de Simão.

[178] Valentim, porém, e os adeptos dessa escola, embora concordem em afirmar que o princípio originário do universo é o Pai, ainda assim são levados a adotar opinião contrária a respeito dele.

[179] Pois alguns sustentam que o Pai é solitário e gerador.

[180] Ao passo que outros defendem a impossibilidade da procriação sem uma fêmea.

[181] Por isso acrescentam Sigê como esposa desse Pai.

[182] E ao próprio Pai dão o nome de Bythos.

[183] Desse Pai e de sua esposa, alguns alegam que houve seis projeções, a saber, Nous e Aletheia, Logos e Zoe, Anthropos e Ecclesia.

[184] E que isso constitui a Ogdóade procriadora.

[185] E os valentinianos sustentam que estas são as primeiras projeções que ocorreram dentro do Limite.

[186] E novamente foram chamadas aquelas que estão dentro do Pléroma.

[187] E as segundas são as que estão fora do Pléroma.

[188] E as terceiras, as que estão fora do Limite.

[189] Ora, a geração dessas constitui a Histerema Acamote.

[190] E afirma que o que foi gerado de um Éon, e que existe no Histerema e foi projetado para além do Limite, é o Criador.

[191] Mas Valentim não está disposto a afirmar que aquilo que assim foi gerado seja a divindade primordial.

[192] Antes, fala depreciativamente tanto dele quanto das coisas feitas por ele.

[193] E afirma que Cristo desceu de dentro do Pléroma para a salvação do espírito que havia errado.

[194] Esse espírito, segundo os valentinianos, reside em nosso homem interior.

[195] E dizem que esse homem interior obtém salvação por causa desse espírito que habita nele.

[196] Valentim, porém, para sustentar a doutrina, determina que a carne não é salva.

[197] E a chama túnica de couro e porção perecível do homem.

[198] Já declarei essas doutrinas de modo resumido, uma vez que em seus sistemas há ampla matéria para discussão e variedade de opiniões.

[199] Desse modo, então, parece apropriado também à escola de Valentim expor suas opiniões.

[200] Mas também o próprio Basílides afirma que há um Deus não existente.

[201] O qual, não existindo, fez o mundo não existente, que foi formado a partir de coisas que não são, lançando certa semente, como um grão de mostarda, contendo em si haste, folhas, ramos e fruto.

[202] Ou essa semente é como um ovo de pavão, compreendendo em si a variada multidão de cores.

[203] E isso, dizem os basilidianos, constitui a semente do mundo, da qual todas as coisas foram produzidas.

[204] Pois sustentam que ela compreende em si todas as coisas, como se fossem aquelas que ainda não existem, mas que estava predeterminado serem trazidas à existência pela Divindade não existente.

[205] Havia, então, diz ele, na própria semente uma Filiação tríplice, em todos os aspectos da mesma substância do Deus não existente, que foi gerada a partir de coisas que não são.

[206] E dessa Filiação, dividida em três partes, uma porção era refinada.

[207] Outra, grosseira.

[208] E outra, necessitando de purificação.

[209] A parte refinada, quando primeiro foi realizado o lançamento inicial da semente pelo Deus não existente, imediatamente irrompeu, subiu para o alto e dirigiu-se para a Divindade não existente.

[210] Pois toda natureza anseia por esse Deus por causa do excesso de sua beleza, embora seres diferentes o desejem por razões diferentes.

[211] A porção mais grosseira, porém, ainda continua na semente.

[212] E, visto que é de certa natureza imitativa, não pôde elevar-se, porque era mais pesada que a parte sutil.

[213] Essa porção mais grosseira, porém, armou-se com o Espírito Santo como se fossem asas.

[214] Pois a Filiação, assim revestida, mostra bondade para com esse Espírito, e em troca recebe bondade.

[215] A terceira Filiação, porém, requer purificação.

[216] E por isso permaneceu na conglomerada massa de todos os germes.

[217] E ela manifesta bondade e recebe bondade.

[218] E Basílides afirma que há algo chamado mundo e algo mais chamado supramundano.

[219] Pois os entes são por ele distribuídos em duas divisões primárias.

[220] E o que está entre ambos ele chama de Espírito Santo limítrofe.

[221] E esse Espírito tem em si a fragrância da Filiação.

[222] Do conglomerado de todos os germes da semente cósmica irrompeu e foi gerado o Grande Arconte, cabeça do mundo, um Éon de inexprimível beleza e grandeza.

[223] Este Arconte, tendo-se erguido até o firmamento, supôs que não havia outro acima de si.

[224] E assim tornou-se mais brilhante e poderoso do que todos os Éons que estavam abaixo dele.

[225] Com exceção da Filiação que havia sido deixada abaixo, mas que ele não sabia ser mais sábia do que ele mesmo.

[226] Este, voltando sua atenção para a criação do mundo, primeiro gerou para si um filho superior a ele mesmo.

[227] E fez com que esse filho se assentasse à sua direita.

[228] E isso, alegam esses basilidianos, é a Ogdóade.

[229] O próprio Grande Arconte, então, produz toda a criação celeste.

[230] E outro Arconte se elevou do conglomerado de todos os germes, maior que todos os Éons inferiores, exceto a Filiação que havia sido deixada para trás, mas muito inferior ao primeiro.

[231] E dão a este segundo Arconte o nome de Hebdômada.

[232] Ele é o fazedor, criador e governador de tudo o que está abaixo dele.

[233] E esse Arconte produziu para si um Filho mais prudente e mais sábio do que ele mesmo.

[234] Ora, eles afirmam que todas essas coisas existem segundo a predeterminação daquele Deus não existente.

[235] E que existem também mundos e intervalos infinitos.

[236] E os basilidianos afirmam que sobre Jesus, que nasceu de Maria, veio o poder do evangelho.

[237] O qual desceu e iluminou tanto o Filho da Ogdóade quanto o da Hebdômada.

[238] E isso ocorreu com o propósito de iluminar e distinguir as diferentes ordens dos seres.

[239] E de purificar a Filiação que havia sido deixada para trás, para conferir benefícios às almas e receber benefícios em retorno.

[240] E dizem que eles próprios são filhos, que estão no mundo por essa causa.

[241] Para que, por meio do ensino, purifiquem as almas e, juntamente com a Filiação, subam ao Pai acima, de quem procedeu a primeira Filiação.

[242] E alegam que o mundo perdura até o tempo em que todas as almas tenham voltado para lá juntamente com a Filiação.

[243] Estas, porém, são as opiniões que Basílides, que as expôs como prodígios, não se envergonha de apresentar.

[244] Mas também o próprio Justino tentou estabelecer opiniões semelhantes a essas.

[245] E se exprime assim: que há três princípios não gerados do universo, dois masculinos e um feminino.

[246] E dentre os masculinos, um princípio é denominado Bom.

[247] Ora, apenas este é chamado desse modo e é dotado de presciência do universo.

[248] E o outro é Pai de todos os entes gerados, e é destituído de presciência, desconhecido e invisível, e é chamado Eloim.

[249] O princípio feminino é destituído de presciência, passional, de duas mentes e de duas naturezas inferiores, como já detalhamos minuciosamente nos discursos anteriores sobre o sistema desse herege.

[250] Esse princípio feminino, em suas partes superiores até a virilha, é, dizem os justinianos, uma virgem.

[251] Ao passo que da virilha para baixo é uma serpente.

[252] E tal princípio é denominado Edem e Israel.

[253] Esse herege alega que estes são os princípios do universo, dos quais todas as coisas foram produzidas.

[254] E afirma que Eloim, sem presciência, foi tomado por desejo desordenado pela meia virgem.

[255] E, tendo tido relações com ela, gerou doze anjos.

[256] E os nomes destes ele afirma serem aqueles já apresentados.

[257] E desses, os paternos estão ligados ao pai, e os maternos à mãe.

[258] E Justino sustenta que essas são as árvores do paraíso, acerca das quais Moisés falou em sentido alegórico nas coisas escritas na lei.

[259] E Justino afirma que todas as coisas foram feitas por Eloim e Edem.

[260] E que os animais, juntamente com as demais criaturas desse tipo, procedem da parte semelhante a besta.

[261] Ao passo que o homem procede das partes acima da virilha.

[262] E Edem, segundo Justino, depositou no próprio homem a alma, que era seu próprio poder.

[263] Mas Eloim, o espírito.

[264] E Justino alega que esse Eloim, depois de ter conhecido sua origem, subiu ao Ser Bom e abandonou Edem.

[265] E esse herege afirma que Edem, irada por causa desse tratamento, tramou toda essa conspiração contra o espírito de Eloim, que ele havia depositado no homem.

[266] E Justino nos informa que por essa razão o Pai enviou Baruque e deu instruções aos profetas.

[267] A fim de que o espírito de Eloim fosse libertado e que todos fossem seduzidos para longe de Edem.

[268] Mas esse herege alega até mesmo que Hércules foi profeta.

[269] E que ele foi vencido por Ônfale, isto é, Babel.

[270] E os justinianos chamam esta de Vênus.

[271] E dizem que depois, nos dias de Herodes, nasceu Jesus, filho de Maria e José, a quem, segundo ele, Baruque havia falado.

[272] E Justino afirma que Edem tramou contra esse Jesus, mas não pôde enganá-lo.

[273] E por essa razão fez com que fosse crucificado.

[274] E o espírito de Jesus, diz Justino, subiu ao Ser Bom.

[275] E os justinianos sustentam que os espíritos de todos os que assim obedecem a esses discursos tolos e fúteis serão salvos.

[276] E que o corpo e a alma de Edem foram deixados para trás.

[277] Mas o insensato Justino chama essa Edem de Terra.

[278] Ora, os docetas apresentam afirmações deste tipo: que a Divindade primordial é como uma semente de figueira.

[279] E que dela procederam três Éons, como o caule, as folhas e o fruto.

[280] E que estes projetaram trinta Éons, cada um deles em número de dez.

[281] E que todos eles foram unidos em décadas, embora diferissem apenas em posição, por estarem alguns antes de outros.

[282] E os docetas afirmam que Éons infinitos foram projetados indefinidamente.

[283] E que todos eles eram hermafroditas.

[284] E dizem que esses Éons conceberam um plano de irem simultaneamente juntos para dentro de um único Éon.

[285] E que deste e da Virgem Maria geraram um Salvador de todos.

[286] E esse Redentor era em todos os aspectos semelhante à primeira semente da figueira.

[287] Mas inferior neste ponto: pelo fato de ter sido gerado.

[288] Pois a semente de onde brota a figueira é não gerada.

[289] Esta, então, era a grande luz dos Éons.

[290] Era inteiramente radiância.

[291] Não recebia adorno algum.

[292] E compreendia em si as formas de todos os animais.

[293] E os docetas sustentam que essa luz, ao avançar para o caos subjacente, deu causa de existência às coisas que foram produzidas e às que realmente existem.

[294] E que, descendo do alto, imprimiu no caos abaixo as formas das espécies eternas.

[295] Pois o terceiro Éon, que se havia triplicado, ao perceber que todos os seus atributos característicos estavam sendo arrastados à força para as trevas inferiores, e não ignorando tanto o terror das trevas quanto a simplicidade da luz, começou a criar o céu.

[296] E, depois de tornar firme o que estava no meio, separou as trevas da luz.

[297] Como todas as espécies do terceiro Éon, diz ele, foram vencidas pelas trevas, também a própria figura desse Éon se tornou um fogo vivente, gerado da luz.

[298] E desta fonte, alegam eles, foi gerado o Grande Arconte.

[299] A respeito do qual Moisés fala, dizendo que ele é uma Divindade ígnea e Demiurgo, que continuamente altera as formas de todos os Éons em corpos.

[300] E os docetas alegam que essas são as almas por cuja causa o Salvador foi gerado.

[301] E que ele aponta o caminho pelo qual escaparão as almas que agora estão subjugadas pelas trevas.

[302] E os docetas sustentam que Jesus se revestiu daquele poder unigênito.

[303] E que por essa razão não podia ser visto por ninguém, por causa da excessiva grandeza de sua glória.

[304] E dizem que todas as ocorrências tiveram lugar com ele como está escrito nos evangelhos.

[305] Mas os seguidores de Monoímo, o árabe, afirmam que o princípio originário do universo é um homem primordial e filho do homem.

[306] E que, como Moisés diz, as coisas produzidas não foram produzidas pelo homem primordial, mas pelo Filho desse homem primordial.

[307] Contudo, não pelo Filho inteiro, mas por parte dele.

[308] E Monoímo afirma que o Filho do homem é o iota, que representa o número dez, número principal no qual reside a subsistência de todo número em geral, e por meio do qual consiste cada número em particular, bem como a geração do universo, do fogo, do ar, da água e da terra.

[309] Mas, visto que este é um só iota e um só traço, e que o perfeito procede do perfeito, ou, em outras palavras, um traço desce do alto contendo em si todas as coisas, então tudo o que o homem possui, o Pai do Filho do homem igualmente possui.

[310] Moisés, portanto, diz que o mundo foi feito em seis dias, isto é, por seis potências, das quais o mundo foi feito pelo único traço.

[311] Pois cubos, octaedros, pirâmides e todas as figuras semelhantes a estas, de superfícies iguais, de que consistem o fogo, o ar, a água e a terra, foram produzidos a partir dos números compreendidos naquele simples traço do iota, que é o Filho do homem.

[312] Quando, portanto, diz Monoímo, Moisés menciona o brandir da vara para trazer as pragas sobre o Egito, ele alude alegoricamente às transformações do mundo do iota.

[313] Nem moldou mais do que dez pragas.

[314] Se, porém, diz ele, desejas conhecer o universo, busca dentro de ti mesmo quem é que diz: “Minha alma, minha carne e minha mente”.

[315] E quem é que apropria cada uma dessas coisas para si, como outro o faria para si mesmo.

[316] Entende que este é um perfeito surgido de um perfeito.

[317] E que considera como suas tanto todas as assim chamadas não-entidades quanto todos os entes.

[318] Estas, então, são também as opiniões de Monoímo.

[319] Taciano, porém, semelhantemente a Valentim e aos outros, diz que existem certos Éons invisíveis.

[320] E que por algum destes foi criado o mundo inferior e as coisas existentes nele.

[321] E acostuma-se a um modo de vida profundamente cínico.

[322] E quase em nada difere de Marcião, tanto no que diz respeito às suas blasfêmias quanto às regras estabelecidas acerca do casamento.

[323] Mas Marcião, do Ponto, e Cerdão, seu mestre, também eles estabelecem que existem três princípios do universo: o bom, o justo e a matéria.

[324] Alguns discípulos destes, porém, acrescentam um quarto, dizendo: o bom, o justo, o mau e a matéria.

[325] Mas todos afirmam que o Ser bom nada fez absolutamente.

[326] Embora alguns também chamem o justo de mau.

[327] Ao passo que outros dizem que seu único título é o de justo.

[328] E alegam que o justo fez todas as coisas a partir da matéria subjacente.

[329] Pois dizem que ele não as fez bem, mas irracionalmente.

[330] Porque é necessário que as coisas feitas sejam semelhantes ao seu fazedor.

[331] Por isso também empregam assim as parábolas evangélicas, dizendo: “Uma boa árvore não pode produzir maus frutos”, e o restante da passagem.

[332] Ora, Marcião alega que as concepções mal elaboradas pelo próprio justo constituíam a alusão dessa passagem.

[333] E diz que Cristo é o Filho do Ser bom.

[334] E que foi enviado por ele para a salvação das almas, por aquele a quem chama homem interior.

[335] E afirma que ele apareceu como homem, embora não sendo homem.

[336] E como encarnado, embora não sendo encarnado.

[337] E sustenta que sua manifestação foi apenas fantasmática.

[338] E que ele não sofreu nem geração nem paixão, senão na aparência.

[339] E não admite que a carne ressuscite.

[340] Mas, ao afirmar que o casamento é destruição, conduz seus discípulos a uma vida profundamente cínica.

[341] E por esses meios imagina aborrecer o Criador, se se abstiver das coisas feitas ou instituídas por ele.

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