Aviso ao leitor
Este livro - Lactâncio — “As Instituições Divinas” / Divinae Institutiones - é apresentado aqui como literatura cristã antiga de caráter apologético e sistemático (início do séc. IV), procurando expor e defender a fé cristã em diálogo crítico com religião e filosofia do mundo greco-romano, organizando temas como Deus, moral, culto, justiça e esperança escatológica. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Por ser uma obra de argumentação e síntese teológica, ela reflete o contexto cultural e intelectual do autor e pode conter ênfases próprias do seu tempo. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, teológica e comparativa.
[1] Homens de grande e distinto talento, quando se dedicaram inteiramente ao estudo, desprezando todas as ocupações privadas e públicas, aplicaram à investigação da verdade todo o esforço que podiam empregar; julgando muito mais excelente investigar e conhecer a ordem das coisas humanas e divinas do que ocupar-se inteiramente em ajuntar riquezas ou acumular honras. Pois ninguém se torna melhor ou mais justo por essas coisas, já que são frágeis, terrenas e pertencem apenas ao adorno do corpo. Esses homens eram, de fato, os mais dignos do conhecimento da verdade, a qual tanto desejaram conhecer que a preferiram a todas as coisas. É claro que alguns abandonaram seus bens e renunciaram por completo à busca dos prazeres, para que, livres e sem impedimento, pudessem seguir a verdade simples, e somente ela. Tão grande era, para eles, o nome e a autoridade da verdade, que proclamavam estar nela contida a recompensa do sumo bem. Mas não alcançaram o objeto do seu desejo e, ao mesmo tempo, perderam seu labor e sua diligência; porque a verdade, isto é, o segredo do Deus Altíssimo, que criou todas as coisas, não pode ser atingida por nossa própria capacidade nem por nossas percepções. De outro modo, não haveria diferença entre Deus e o homem, se o pensamento humano pudesse alcançar os conselhos e os desígnios daquela majestade eterna. E, porque era impossível que o modo divino de agir se tornasse conhecido ao homem por seus próprios esforços, Deus não permitiu que o homem continuasse errando em busca da luz da sabedoria e vagueando por trevas inextricáveis sem fruto algum do seu trabalho; antes, afinal, abriu-lhe os olhos e fez da investigação da verdade um dom seu, para mostrar o nada da sabedoria humana e indicar ao homem, que andava em erro, o caminho para alcançar a imortalidade.[2] Mas, visto que poucos fazem uso desse benefício e dom celeste, porque a verdade jaz escondida, velada pela obscuridade, e ou é desprezada pelos instruídos, por não ter defensores à altura, ou é odiada pelos ignorantes por causa de sua severidade natural, que a natureza humana inclinada aos vícios não consegue suportar — pois, como há certa amargura misturada às virtudes, ao passo que os vícios são temperados com prazer, ofendidos por umas e acariciados pelos outros, os homens se precipitam e, enganados pela aparência do bem, abraçam males como se fossem bens —, julguei que esses erros deviam ser enfrentados, para que tanto os instruídos fossem conduzidos à verdadeira sabedoria quanto os ignorantes à verdadeira religião. E essa ocupação deve ser considerada muito melhor, mais útil e mais gloriosa do que a da oratória, na qual, tendo eu estado por muito tempo empenhado, treinamos jovens não para a virtude, mas inteiramente para uma astúcia perversa. Certamente agora trataremos com muito mais acerto dos preceitos celestes, pelos quais possamos instruir a mente dos homens no culto da verdadeira majestade. Nem merece tanto em favor dos assuntos humanos aquele que transmite o conhecimento do bem falar quanto aquele que ensina os homens a viver em piedade e inocência; por isso os filósofos gozaram, entre os gregos, de glória maior do que os oradores. Pois os filósofos eram considerados mestres do reto viver, o que é muito mais excelente, já que falar bem pertence apenas a poucos, mas viver bem pertence a todos. Contudo, aquele exercício em causas fictícias nos foi de grande proveito, para que agora possamos defender a causa da verdade com maior abundância e capacidade de expressão; porque, embora a verdade possa ser defendida sem eloquência, como muitas vezes foi defendida por muitos, ainda assim precisa ser explicada e, em certa medida, discutida com clareza e elegância de linguagem, para que penetre com maior força na mente dos homens, provida não só de sua própria força, mas também adornada pelo brilho da palavra.[3] Empreendemos, pois, tratar da religião e das coisas divinas. Porque, se alguns dos maiores oradores, já veteranos de sua profissão, após concluírem suas obras forenses, por fim se entregaram à filosofia e a consideraram um repouso justíssimo de seus labores; se atormentaram a mente na investigação daquilo que não podia ser descoberto, de modo que parecem ter buscado para si não tanto descanso quanto ocupação, e isso com muito maior trabalho do que em seu esforço anterior; com quanto maior justiça me refugiarei eu, como em porto seguríssimo, nessa sabedoria piedosa, verdadeira e divina, na qual tudo está pronto para ser dito, agradável de ouvir, fácil de entender e honroso de assumir. E, se alguns homens hábeis e árbitros do direito compuseram e publicaram Instituições de direito civil, pelas quais pudessem acalmar as contendas e disputas de cidadãos em desacordo, quanto melhor e com mais razão seguiremos por escrito as Instituições divinas, nas quais não falaremos de gotas de chuva, nem do desvio de águas, nem de preferências de pretensões, mas falaremos de esperança, de vida, de salvação, de imortalidade e de Deus, para pôr fim a superstições mortais e a erros vergonhosíssimos.[4] E agora começamos esta obra sob os auspícios do teu nome, ó poderoso imperador Constantino, tu que foste o primeiro entre os príncipes romanos a repudiar os erros e a reconhecer e honrar a majestade do único e verdadeiro Deus. Pois, quando aquele felicíssimo dia brilhou sobre o mundo, no qual o Deus Altíssimo te elevou à altura próspera do poder, entraste em um domínio salutar e desejável para todos, com excelente começo, ao restaurares a justiça que havia sido derrubada e removida, expiando o ato vergonhosíssimo de outros. Em retribuição por essa ação, Deus te concederá felicidade, virtude e longa vida, para que, ainda na velhice, governes o Estado com a mesma justiça com que começaste na juventude, e possas transmitir a teus filhos a guarda do nome romano, como tu mesmo o recebeste de teu pai. Pois aos ímpios, que ainda se enfurecem contra os justos em outras partes do mundo, o Onipotente também retribuirá a recompensa de sua maldade com severidade proporcional à demora; porque, assim como é Pai indulgentíssimo para com os piedosos, assim é Juiz retíssimo contra os ímpios. E, desejando eu defender a sua religião e o seu culto divino, a quem poderia eu antes recorrer, a quem poderia dirigir-me, senão àquele por meio de quem a justiça e a sabedoria foram restauradas aos assuntos humanos?[5] Portanto, deixando de lado os autores dessa filosofia terrena, que nada apresentam de certo, aproximemo-nos do caminho reto; porque, se eu os considerasse guias suficientemente aptos para uma boa vida, eu mesmo os seguiria e exortaria outros a segui-los. Mas, como discordam entre si com grande contenda e, na maior parte das vezes, divergem de si mesmos, é evidente que seu caminho de modo algum é reto; pois cada qual traçou para si caminhos distintos segundo a própria vontade e deixou grande confusão aos que buscam a verdade. Mas, visto que a verdade nos foi revelada do céu, a nós que recebemos o mistério da verdadeira religião, e visto que seguimos a Deus, mestre da sabedoria e guia da verdade, chamamos todos, sem distinção de sexo ou idade, para o pasto celeste. Pois não há alimento mais agradável para a alma do que o conhecimento da verdade, para cuja manutenção e explicação destinamos sete livros, embora o assunto seja de labor quase sem limites e imensurável; de modo que, se alguém quisesse ampliar e perseguir essas coisas até toda a sua extensão, encontraria tão abundante matéria que nem os livros teriam limite, nem a fala teria fim. Mas, por isso mesmo, reuniremos tudo brevemente, porque o que estamos para apresentar é tão claro e luminoso que mais admirável parece ser o fato de a verdade se mostrar tão obscura aos homens, especialmente àqueles que comumente são tidos por sábios; ou porque os homens apenas necessitam ser por nós instruídos, isto é, reconduzidos do erro em que estão enredados a um modo de vida melhor.[6] E se, como espero, alcançarmos isso, nós os enviaremos à própria fonte do saber, riquíssima e abundante, de cujos copiosos goles poderão saciar a sede que conceberam interiormente e extinguir o seu ardor. E tudo lhes será fácil, pronto de realizar e claro, contanto que não se irritem em aplicar paciência à leitura ou à audição para perceber a disciplina da sabedoria. Pois muitos, apegando-se obstinadamente a superstições vãs, endurecem-se contra a verdade manifesta, não tanto fazendo o bem às suas religiões, que sustentam de modo errado, quanto fazendo mal a si mesmos; eles, tendo diante de si um caminho reto, procuram desvios tortuosos; deixam o terreno plano para escorregar por um precipício; abandonam a luz para, cegos e debilitados, jazerem nas trevas. É preciso cuidar deles, para que não lutem contra si mesmos e para que enfim queiram ser libertos de erros inveterados. E certamente o farão se algum dia virem para que fim nasceram; pois esta é a causa de sua perversidade: a ignorância de si mesmos. E, se alguém, tendo alcançado o conhecimento da verdade, sacudir de si essa ignorância, saberá para qual objetivo sua vida deve ser dirigida e como deve ser gasta. E assim defino brevemente a soma deste conhecimento: nenhuma religião deve ser abraçada sem sabedoria, nem qualquer sabedoria deve ser aprovada sem religião.[7] Tendo, pois, assumido o encargo de explicar a verdade, não julguei tão necessário começar por aquela investigação que naturalmente parece a primeira: se há uma providência que cuida de todas as coisas, ou se tudo foi feito ou é governado pelo acaso — opinião introduzida por Demócrito e confirmada por Epicuro. Mas, antes deles, o que conseguiu Protágoras, que levantou dúvidas a respeito dos deuses? Ou depois Diágoras, que os excluiu? E alguns outros, que não admitiam a existência dos deuses, salvo na suposição de que não houvesse providência? Esses, entretanto, foram vigorosamente combatidos pelos demais filósofos, sobretudo pelos estóicos, que ensinaram que o universo não poderia ter sido feito sem inteligência divina, nem continuar existindo se não fosse governado pela suprema inteligência. Mas até mesmo Marco Túlio, embora defensor do sistema acadêmico, discutiu longa e repetidamente a respeito da providência que governa os acontecimentos, confirmando os argumentos dos estóicos e acrescentando muitos outros por si mesmo; e isso tanto em todos os livros de sua filosofia quanto especialmente naqueles que tratam da natureza dos deuses.[8] E não era difícil refutar as falsidades de uns poucos homens de opinião perversa pelo testemunho de povos e tribos, os quais, nesse ponto, não divergiam entre si. Pois não há ninguém tão incivilizado e de disposição tão rude que, ao levantar os olhos para o céu, embora não saiba sob a providência de que Deus este universo visível é governado, não compreenda, pela própria grandeza das coisas, pelo seu movimento, ordem, constância, utilidade, beleza e proporção, que existe alguma providência e que aquilo que existe com método admirável deve ter sido preparado por alguma inteligência superior. E para nós é, sem dúvida, muito fácil desenvolver essa parte tão amplamente quanto quisermos. Mas, porque o assunto já foi muito debatido entre os filósofos, e os que negam a providência parecem ter sido suficientemente respondidos por homens prudentes e eloquentes, e porque será necessário falar, em vários lugares desta obra, a respeito da arte da providência divina, deixemos por ora essa investigação, tão ligada às demais questões que parece impossível tratarmos de qualquer tema sem ao mesmo tempo tratar da providência.[9] Seja, então, o começo de nossa obra esta investigação que segue de perto e se liga à primeira: se o universo é governado pelo poder de um só Deus ou de muitos. Não há ninguém dotado de inteligência e reflexão que não entenda que é um só Ser que criou todas as coisas e as governa com a mesma energia com que as criou. Pois que necessidade haveria de muitos para sustentar o governo do universo? A não ser que porventura pensemos que, se houvesse mais de um, cada um possuiria menos força e poder. E os que sustentam que há muitos deuses chegam precisamente a isso; pois esses deuses teriam de ser necessariamente fracos, já que cada um, sem a ajuda dos outros, seria incapaz de sustentar o governo de tão imensa massa. Mas Deus, que é a Mente Eterna, é sem dúvida excelência plena e perfeita em todas as partes. E, se isso é verdadeiro, ele deve necessariamente ser um. Pois o poder ou a excelência que é completo conserva sua própria estabilidade. Sólido deve ser considerado aquilo de que nada pode ser tirado; perfeito, aquilo a que nada pode ser acrescentado.[10] Quem pode duvidar de que seria o rei mais poderoso aquele que tivesse o governo do mundo inteiro? E não sem razão, pois todas as coisas que existem em toda parte lhe pertenceriam, e todos os recursos de todos os lugares se concentrariam somente nele. Mas, se mais de um dividir o governo do mundo, sem dúvida cada um terá menos poder e força, já que cada qual deve limitar-se à sua porção determinada. Do mesmo modo, se há mais de um deus, eles terão menos peso, tendo os outros em si o mesmo poder. Mas a natureza da excelência admite maior perfeição naquele em quem está o todo do que naquele em quem há apenas pequena parte do todo. Ora, Deus, se é perfeito, como deve ser, não pode deixar de ser um, justamente porque é perfeito, para que todas as coisas estejam nele. Portanto, as excelências e poderes dos deuses terão necessariamente de ser mais fracos, porque faltará a cada um tanto quanto estiver nos outros; e, assim, quanto mais forem, tanto menos poderosos serão. Por que mencionar que esse poder supremo e essa energia divina são totalmente incapazes de divisão? Pois tudo quanto pode ser dividido deve também, necessariamente, estar sujeito à destruição. Mas, se a destruição está muito longe de Deus, porque ele é incorruptível e eterno, segue-se que o poder divino é incapaz de divisão. Portanto, Deus é um, se aquilo que admite tão grande poder não pode ser outra coisa; e, contudo, os que julgam haver muitos deuses dizem que repartiram entre si suas funções. Trataremos disso em seus lugares próprios. Por ora afirmo o que pertence ao presente assunto: se repartiram entre si as funções, volta-se ao mesmo ponto, que nenhum deles é capaz de suprir sozinho o lugar de todos. Não pode, então, ser perfeito quem não é capaz de governar todas as coisas enquanto os outros permanecem ociosos. E assim acontece que, para o governo do universo, há mais necessidade da excelência perfeita de um só do que dos poderes imperfeitos de muitos. Mas quem imagina que uma grandeza tão vasta não pode ser governada por um só ser está enganado. Pois não compreende quão grande é a força e o poder da majestade divina, se pensa que o Deus único, que teve poder para criar o universo, também é incapaz de governar aquilo que criou. Mas, se conceber em sua mente quão grande é a imensidão dessa obra divina — que antes não era nada, e que, todavia, pelo poder e pela sabedoria de Deus, foi feita do nada, obra que só um poderia começar e concluir —, então entenderá que aquilo que foi estabelecido por um só é muito mais facilmente governado por um só.[11] Talvez alguém diga que obra tão imensa como a do universo não poderia sequer ter sido fabricada senão por muitos. Mas, por mais numerosos e por maiores que os imagine — qualquer magnitude, poder, excelência e majestade que atribua aos muitos —, eu atribuo tudo isso a um só e digo que existe em um só; de modo que há nele tal abundância dessas qualidades que não podem nem ser concebidas nem expressas. E, visto que falhamos nesse assunto tanto na percepção quanto nas palavras — pois nem o peito humano admite a luz de tão grande compreensão, nem a língua mortal é capaz de explicar temas tão elevados —, convém que entendamos e digamos precisamente isso. Vejo, porém, o que se poderia alegar do outro lado: que esses muitos deuses seriam tais como nós julgamos ser o Deus único. Mas isso não pode ser, porque o poder de cada um desses deuses não conseguirá avançar mais além, já que o poder dos outros o encontrará e o impedirá. Pois cada um ou será incapaz de ultrapassar seus próprios limites, ou, se os ultrapassar, terá de expulsar outro de suas fronteiras. Os que acreditam em muitos deuses não percebem que pode acontecer de uns se oporem aos outros em seus desejos, donde surgiriam disputas e contendas entre eles; assim Homero representou os deuses guerreando entre si, pois alguns desejavam que Troia fosse tomada, outros se opunham. O universo, portanto, precisa ser regido pela vontade de um só. Pois, se o poder sobre as partes separadas não for referido a uma mesma providência, o todo não poderá subsistir, já que cada qual cuidará apenas daquilo que lhe pertence em particular, assim como não se pode conduzir uma guerra sem um só general e comandante. Mas, se em um exército houvesse tantos generais quantas legiões, coortes, divisões e esquadrões, antes de tudo não seria possível dispor o exército em ordem de batalha, pois cada um recusaria o perigo; nem poderia ser facilmente governado ou controlado, porque todos usariam seus próprios conselhos particulares, e a diversidade deles causaria mais dano do que proveito. Assim também, neste governo das coisas da natureza, se não houver um só a quem seja confiado o cuidado do todo, tudo se dissolverá e cairá em ruína.[12] Dizer que o universo é governado pela vontade de muitos equivale a dizer que há muitas mentes em um só corpo, já que há muitos e diversos ofícios dos membros, de modo que se poderia supor mentes separadas governando sentidos separados; e também muitas afeições, pelas quais costumamos ser movidos ora à ira, ora ao desejo, ora à alegria, ora ao medo, ora à compaixão, de modo que em todas essas afeições se pudesse supor a atuação de tantas mentes quantas elas forem. E, se alguém dissesse isso, pareceria carecer até daquela própria mente, que é una. Mas, se em um só corpo uma única mente possui o governo de tantas coisas e ao mesmo tempo se ocupa do todo, por que alguém haveria de supor que o universo não pode ser governado por um, mas pode ser governado por mais de um? E, porque os defensores de muitos deuses percebem isso, dizem que eles presidem a funções e partes separadas, mas que ainda existe um chefe supremo. Os outros, portanto, segundo esse princípio, não serão deuses, mas servos e ministros, a quem aquele único, poderosíssimo e onipotente, designou para essas funções; e eles próprios estarão sujeitos à sua autoridade e comando. Se, portanto, nem todos são iguais entre si, nem todos são deuses; pois o que serve e o que governa não podem ser a mesma coisa. Porque, se Deus é um título do poder supremo, ele deve ser incorruptível, perfeito, incapaz de sofrer e não sujeito a nenhum outro ser; logo, não são deuses aqueles que a necessidade obriga a obedecer ao único Deus supremo. Mas, como os que sustentam essa opinião não estão enganados sem motivo, logo mostraremos a causa desse erro. Agora, provemos por testemunhos a unidade do poder divino.[13] Os profetas, que foram muitos, proclamam e anunciam um só Deus; pois, cheios da inspiração do único Deus, predisseram as coisas futuras com voz concorde e harmoniosa. Mas os que ignoram a verdade não pensam que esses profetas mereçam crédito; dizem que essas vozes não são divinas, mas humanas. Ora, porque proclamam um só Deus, seriam loucos ou enganadores. Mas nós vemos que suas predições se cumpriram e se cumprem diariamente; e sua presciência, concordando em uma só opinião, mostra que eles não estavam sob impulso de loucura. Pois quem, possuído de mente frenética, seria capaz não digo de predizer o futuro, mas sequer de falar com coerência? Eram, então, enganadores aqueles que falavam tais coisas? O que havia tão inteiramente estranho à sua natureza quanto um sistema de fraude, quando eles mesmos repreendiam toda falsidade nos outros? Pois para isso foram enviados por Deus: para serem arautos de sua majestade e corretores da maldade humana.[14] Além disso, a inclinação para fingir e mentir pertence àqueles que cobiçam riquezas e desejam avidamente lucros — disposição muito distante daqueles homens santos. Pois eles exerceram o ofício a eles confiado de tal modo que, desprezando tudo o que é necessário à manutenção da vida, estavam tão longe de ajuntar provisões para o futuro que nem sequer trabalhavam pelo dia presente, contentando-se com o alimento não armazenado que Deus lhes supria; e estes não só não tiveram lucro algum, como ainda suportaram tormentos e a morte. Pois os preceitos da justiça são desagradáveis aos ímpios e àqueles que levam vida impura. Por isso, aqueles cujos pecados eram trazidos à luz e proibidos torturaram-nos e mataram-nos com extrema crueldade. Portanto, os que não tinham desejo de lucro não tinham nem inclinação nem motivo para enganar. Por que dizer que alguns deles foram príncipes ou até reis, sobre os quais não poderia recair suspeita alguma de cobiça ou fraude, e ainda assim proclamavam o Deus único com a mesma presciência profética que os demais?[15] Mas deixemos o testemunho dos profetas, para que uma prova tomada daqueles em quem geralmente não se crê não pareça insuficiente. Passemos aos autores, e, para demonstrar a verdade, citemos como testemunhas precisamente aqueles de quem costumam valer-se contra nós: quero dizer, poetas e filósofos. A partir deles não nos faltará prova da unidade de Deus; não que tenham alcançado a verdade, mas porque a força da própria verdade é tão grande que ninguém pode ser tão cego a ponto de não ver o brilho divino apresentando-se diante dos olhos. Os poetas, portanto, por mais que tenham adornado os deuses em seus poemas e engrandecido seus feitos com os mais altos louvores, ainda assim com muita frequência confessam que todas as coisas são mantidas e governadas por um só espírito ou mente. Orfeu, o mais antigo dos poetas e quase contemporâneo dos próprios deuses — já que se conta que navegou entre os argonautas juntamente com os filhos de Tíndaro e com Hércules —, fala do verdadeiro e grande Deus como o primogênito, porque nada foi produzido antes dele, mas tudo dele procedeu. Também o chama de Fanes, porque, quando ainda nada havia, ele primeiro apareceu e saiu do infinito. E, como não podia conceber em sua mente a origem e a natureza desse ser, disse que ele nasceu do ar ilimitado: o primogênito, Faetonte, filho do ar dilatado; pois nada mais tinha a dizer. Afirma que este ser é o Pai de todos os deuses, e que por sua causa moldou o céu e providenciou para seus filhos uma morada e habitação comum: construiu para os imortais uma morada imperecível. Assim, guiado pela natureza e pela razão, compreendeu que havia um poder de grandeza incomparável que havia formado o céu e a terra. Pois não podia dizer que Júpiter fosse o autor de todas as coisas, já que este nascera de Saturno; nem podia dizer que o próprio Saturno fosse o autor, já que se dizia ter sido ele gerado do céu; mas não ousou estabelecer o céu como deus primordial, porque viu que era elemento do universo e também ele devia ter um autor. Essa consideração o conduziu àquele deus primogênito, a quem atribui e concede o primeiro lugar.[16] Homero nada pôde nos informar sobre a verdade, porque escreveu acerca de coisas humanas mais do que divinas. Hesíodo podia ter informado, pois reuniu em um só livro a geração dos deuses; e, no entanto, nada nos informou, porque começou não por Deus, o Criador, mas pelo caos, que é uma massa confusa de matéria rude e desordenada; quando, ao contrário, deveria antes ter explicado de que fonte, em que tempo e de que modo o próprio caos começara a existir ou a ter consistência. Sem dúvida, assim como todas as coisas foram postas em ordem, dispostas e feitas por algum artífice, assim também a própria matéria teve necessariamente de ser formada por algum ser. Quem, então, a fez, senão Deus, a cujo poder todas as coisas estão sujeitas? Mas Hesíodo recuou diante dessa admissão, temendo a verdade desconhecida. Pois, como quis fazer parecer, derramou aquele canto no Hélicon por inspiração das Musas; contudo, chegara a isso depois de meditação e preparo prévios.[17] Maro foi o primeiro de nossos poetas a aproximar-se da verdade, falando assim a respeito do Deus supremo, a quem chama de Mente e Espírito:[18] Sabe primeiro que o céu, a terra, o mar, o pálido globo da lua e o cortejo das estrelas são nutridos por uma Alma, por um Espírito, cuja chama celeste arde em cada parte do universo e agita o grande todo.[19] E, para que ninguém porventura ignorasse o que era esse Espírito dotado de tão grande poder, ele o declarou em outro lugar, dizendo: a Divindade permeia todas as terras, as extensões do mar e a profundidade do céu; os rebanhos, o gado, os homens e toda a raça dos animais, cada um ao nascer, recebe dele sua vida frágil.[20] Ovídio também, no início de sua notável obra, sem disfarçar o nome, admite que o universo foi ordenado por Deus, a quem chama o Formador do mundo, o Artífice de todas as coisas. E, se Orfeu ou esses poetas de nossa pátria tivessem mantido sempre aquilo que perceberam sob a condução da natureza, teriam compreendido a verdade e alcançado a mesma doutrina que nós seguimos.[21] Mas basta sobre os poetas. Passemos aos filósofos, cuja autoridade é maior e cujo juízo merece mais confiança, porque se acredita que tenham dado atenção não a ficções, mas à investigação da verdade. Tales de Mileto, um dos sete sábios e tido como o primeiro de todos a investigar as causas naturais, disse que a água era o elemento do qual todas as coisas foram produzidas e que Deus era a mente que formou todas as coisas a partir da água. Assim, colocou a matéria de tudo na umidade e fixou em Deus o princípio e a causa de sua produção. Pitágoras definiu o ser de Deus como uma alma que vai e vem, difundida por todas as partes do universo e por toda a natureza, da qual todas as criaturas vivas recebem a vida. Anaxágoras disse que Deus era uma mente infinita, que se move por seu próprio poder. Antístenes sustentou que os deuses do povo eram muitos, mas que o Deus da natureza era um só, isto é, o Artífice de todo o universo. Cleantes e Anaxímenes afirmam que o ar é a divindade principal; e nosso poeta aderiu a essa opinião: então o pai Éter todo-poderoso desce em chuvas fecundas ao seio de sua alegre esposa; e ele mesmo, grande, misturando-se a seu grande corpo, alimenta toda a sua prole. Crisipo fala de Deus como um poder natural dotado de razão divina e, às vezes, como uma necessidade divina. Zenão também fala dele como uma lei divina e natural. A opinião de todos estes, por mais incerta que seja, remete a um mesmo ponto: sua concordância na existência de uma só providência. Pois, quer se chame natureza, éter, razão, mente, necessidade fatal ou lei divina — ou qualquer outro nome que se queira —, trata-se da mesma realidade que nós chamamos Deus. Nem a diversidade de títulos constitui obstáculo, visto que, por seu próprio significado, todos se referem a um só objeto. Aristóteles, embora divirja de si mesmo e tanto diga quanto sustente coisas contrárias entre si, no conjunto dá testemunho de que uma só Mente preside ao universo. Platão, julgado o mais sábio de todos, sustenta clara e abertamente o governo de um só Deus; e não o chama Éter, Razão ou Natureza, mas, como ele verdadeiramente é, Deus, e ensina que este universo, tão perfeito e admirável, foi por ele fabricado. E Cícero, seguindo-o e imitando-o em muitas coisas, frequentemente reconhece Deus e o chama supremo naqueles livros que escreveu sobre as leis; e prova que o universo é governado por ele quando argumenta acerca da natureza dos deuses deste modo: nada é superior a Deus; logo, o mundo deve ser governado por ele. Portanto, Deus não obedece nem está sujeito a natureza alguma; consequentemente, ele mesmo governa toda a natureza. E o que é o próprio Deus ele define em sua Consolação: nem o próprio Deus, tal como o compreendemos, pode ser compreendido de outro modo senão como uma mente livre e sem restrição, afastadíssima de toda materialidade mortal, percebendo e movendo todas as coisas.[22] Quantas vezes também Sêneca, o mais agudo dos estóicos romanos, louva como convém a suprema Divindade! Pois, ao tratar da morte prematura, disse: tu não compreendes a autoridade e a majestade do teu Juiz, o Governador do mundo e o Deus do céu e de todos os deuses, do qual dependem aquelas divindades que separadamente cultuamos e honramos. E também em suas Exortações: esse Ser, quando lançava os primeiros fundamentos da mais bela estrutura e começava essa obra, acima da qual a natureza não conheceu nada maior ou melhor, para que todas as coisas servissem a seus próprios governantes, embora se houvesse difundido por todo o corpo, ainda assim produziu deuses como ministros do seu reino. E quantas outras coisas semelhantes às de nossos próprios escritores ele disse acerca de Deus! Mas deixo isso para o momento, porque se adapta melhor a outras partes do assunto. Por ora basta demonstrar que homens de altíssimo engenho tocaram a verdade e quase a apreenderam, se o costume, enlouquecido por falsas opiniões, não os tivesse arrastado de volta; por esse costume, eles tanto julgaram haver outros deuses quanto creram que aquelas coisas que Deus fez para uso do homem, como se fossem dotadas de percepção, deviam ser tidas e adoradas como deuses.[23] Passemos agora aos testemunhos divinos; mas antes apresentarei um que se assemelha a um testemunho divino, tanto por sua grande antiguidade quanto porque aquele de quem falarei foi tirado dentre os homens e colocado entre os deuses. Segundo Cícero, Caio Cota, o pontífice, ao discutir contra os estóicos acerca das superstições e da variedade de opiniões que prevalecem a respeito dos deuses, para, conforme o costume dos acadêmicos, tornar tudo incerto, diz que houve cinco Mercúrios; e, depois de enumerar quatro em ordem, afirma que o quinto foi aquele por quem Argos foi morto e que, por isso, fugiu para o Egito, dando leis e letras aos egípcios. Os egípcios o chamam Thoth; e dele o primeiro mês do ano deles, isto é, setembro, recebeu o nome. Ele também construiu uma cidade, que ainda agora em grego é chamada Hermópolis, cidade de Mercúrio, e os habitantes de Fenas o honram com culto religioso. E, embora fosse homem, era de grande antiguidade e plenamente instruído em todo tipo de saber, de modo que o conhecimento de muitas artes e matérias lhe valeu o nome de Trismegisto. Escreveu muitos livros relativos ao conhecimento das coisas divinas, nos quais afirma a majestade do supremo e único Deus e dele faz menção com os mesmos nomes que usamos: Deus e Pai. E, para que ninguém indagasse seu nome, disse que ele era sem nome e que, por causa de sua própria unidade, não necessita da particularidade de um nome. Estas são suas próprias palavras: Deus é um; e aquele que é um só não precisa de nome; pois aquele que existe por si mesmo é sem nome. Portanto, Deus não tem nome, porque é só; nem há necessidade de nome próprio, exceto nos casos em que uma multidão de pessoas exige um sinal distintivo, para que se possa designar cada uma por sua marca e denominação próprias. Mas Deus, porque é sempre um, não tem nome peculiar.[24] Resta-me apresentar testemunhos acerca dos oráculos sagrados e das predições, muito mais dignos de crédito. Pois talvez aqueles contra quem argumentamos pensem que não se deve dar crédito aos poetas, como se inventassem ficções, nem aos filósofos, por estarem sujeitos ao erro, sendo apenas homens. Marco Varrão, do qual nunca viveu homem de maior erudição, mesmo entre os gregos, quanto mais entre os latinos, naqueles livros sobre assuntos divinos dirigidos a Caio César, sumo pontífice, quando falava dos quindecênviros, diz que os livros sibilinos não foram obra de uma só Sibila, mas receberam em comum o nome de sibilinos porque todas as profetisas eram chamadas pelos antigos de Sibilas, quer a partir do nome de uma delas, a sacerdotisa délfica, quer do fato de proclamarem os conselhos dos deuses. Pois, no dialeto eólico, chamavam os deuses de sioi, e não theoi; e conselho, de bule, e não boule; e assim Sibila teria surgido como se fosse Siobule. Ele diz que as Sibilas eram dez em número, e as enumera todas segundo os escritores que trataram de cada uma: a primeira, da Pérsia, de quem Nicânor fez menção ao escrever os feitos de Alexandre da Macedônia; a segunda, da Líbia, mencionada por Eurípides no prólogo da Lamia; a terceira, de Delfos, sobre a qual Crisipo fala naquele livro que compôs sobre a adivinhação; a quarta, uma Ciméria na Itália, mencionada por Névio em seus livros da guerra púnica e por Píso em seus anais; a quinta, de Eritreia, que Apolodoro de Eritreia afirma ter sido sua conterrânea e ter predito aos gregos, quando partiam para Ílion, tanto a ruína de Troia quanto que Homero escreveria falsidades; a sexta, de Samos, acerca da qual Eratóstenes escreve ter encontrado notícia escrita nos antigos anais dos sâmios. A sétima era de Cumas, chamada Amalthea, a quem alguns chamam Herófila ou Demófila; dizem que trouxe nove livros ao rei Tarquínio Prisco e pediu por eles trezentos filipos, que o rei recusou pagar tão alto preço, zombando da loucura da mulher; que ela, diante do rei, queimou três dos livros e pediu o mesmo preço pelos que restaram; que Tarquínio a julgou ainda mais insana; e que, depois que ela queimou outros três e persistiu no mesmo preço, o rei se comoveu e comprou os restantes pelas trezentas moedas de ouro. O número desses livros foi depois aumentado, após a reconstrução do Capitólio, porque foram recolhidos de todas as cidades da Itália e da Grécia, especialmente de Eritreia, e levados a Roma sob o nome de qualquer Sibila a que pertencessem. A oitava era do Helesponto, nascida em território troiano, na aldeia de Marpesso, perto da cidade de Gergito; e Heráclides do Ponto escreve que ela viveu no tempo de Sólon e Ciro. A nona era da Frígia, que dava oráculos em Ancira. A décima, de Tíbur, chamada Albúnea, adorada ali como deusa, perto das margens do rio Ânio, em cujas profundezas se diz ter sido encontrada sua estátua, tendo na mão um livro. O senado transferiu seus oráculos para o Capitólio.[25] As predições de todas essas Sibilas são citadas e tidas por autênticas, exceto as da Sibila Cumana, cujos livros os romanos escondem; nem consideram lícito que sejam examinados por alguém além dos quindecênviros. E existem livros separados, produção de cada uma; mas, porque trazem o nome da Sibila, crê-se que sejam obra de uma só, e estão confundidos, não podendo as produções de cada uma ser distinguidas e atribuídas às suas próprias autoras, exceto no caso da Sibila Eritreia; pois ela tanto inseriu seu verdadeiro nome em seus versos quanto predisse que seria chamada eritrea, embora tivesse nascido em Babilônia. Mas também nós falaremos da Sibila sem distinção, sempre que tivermos ocasião de usar seus testemunhos. Todas essas Sibilas, pois, proclamam um só Deus, e sobretudo a Eritreia, que é considerada mais célebre e nobre entre as demais; pois Fenestela, escritor diligentíssimo, diz, ao falar dos quindecênviros, que, após a reconstrução do Capitólio, Caio Cúrio, cônsul, propôs ao senado que fossem enviados embaixadores a Eritreia para procurar e trazer a Roma os escritos da Sibila; e, assim, foram enviados Públio Gabínio, Marco Otacílio e Lúcio Valério, que trouxeram a Roma cerca de mil versos copiados por particulares. Já mostramos acima que Varrão afirmou o mesmo. Ora, nesses versos que os embaixadores trouxeram a Roma, estão estes testemunhos a respeito do Deus único:[26] 1. Um só Deus, que é único, poderosíssimo, incriado.[27] Este é o único Deus supremo, que fez o céu e o adornou com luminares.[28] 2. Mas existe um só Deus de poder eminente, que fez o céu, o sol, as estrelas, a lua, a terra fecunda e as ondas das águas do mar.[29] E, porque ele sozinho é o formador do universo e o artífice de todas as coisas que o compõem ou nele estão contidas, esse testemunho ensina que somente ele deve ser adorado:[30] 3. Adorai aquele que é o único soberano do mundo, aquele que sozinho foi e é de século em século.[31] Outra Sibila ainda, seja quem for, quando disse que transmitia aos homens a voz de Deus, falou assim:[32] 4. Eu sou o único Deus, e não há outro Deus.[33] Eu agora prosseguiria com os testemunhos das outras, se estes não fossem suficientes e se eu não reservasse os demais para ocasiões mais apropriadas. Mas, visto que defendemos a causa da verdade diante dos que se desviam da verdade e servem a falsas religiões, que prova deveríamos apresentar contra eles, senão refutá-los pelos testemunhos de seus próprios deuses?[34] Apolo, de fato, a quem eles julgam divino acima de todos os outros e especialmente profético, dando oráculos em Colofão — suponho que, atraído pela amenidade da Ásia, houvesse deixado Delfos —, a alguém que lhe perguntou quem ele era, ou o que era Deus afinal, respondeu em vinte e um versos, dos quais este é o começo:[35] Autoexistente, não instruído, sem mãe, imóvel, com um nome que nem pode ser contido em palavra, habitando no fogo: este é Deus; e nós, seus mensageiros, somos pequena porção de Deus.[36] Pode alguém suspeitar que isso foi dito de Júpiter, que tinha tanto mãe quanto nome? E por que eu não diria que Mercúrio, o Três Vezes Grande, de quem falei acima, não apenas fala de Deus como sem mãe, como faz Apolo, mas também como sem pai, porque não tem origem em nenhuma outra fonte além de si mesmo? Pois não pode ser produzido por outro aquele que ele próprio produziu todas as coisas. Julgo ter ensinado suficientemente, por argumentos e confirmado por testemunhas, aquilo que já é suficientemente claro por si mesmo: que há um só Rei do universo, um só Pai, um só Deus.[37] Mas talvez alguém nos faça a mesma pergunta que Hortênsio faz em Cícero: se Deus é um só, que solidão pode ser feliz? Como se, ao afirmarmos que ele é um, disséssemos que é desolado e solitário. Sem dúvida, ele tem ministros, a quem chamamos mensageiros. E é verdadeiro o que já relatei: Sêneca disse em suas Exortações que Deus produziu ministros de seu reino. Mas estes não são deuses, nem querem ser chamados deuses nem ser adorados, visto que nada fazem além de executar a ordem e a vontade de Deus. Nem, porém, são deuses aqueles que comumente se adoram, cujo número é pequeno e fixo. Mas, se os adoradores dos deuses pensam que adoram aqueles seres que nós chamamos ministros do Deus Supremo, não há motivo para invejarem a nós, que dizemos haver um só Deus e negamos que haja muitos. Se uma multidão de deuses os agrada, nós não falamos de doze, nem de trezentos e sessenta e cinco, como Orfeu; antes os convencemos, do outro lado, de inumeráveis erros por julgarem ser eles tão poucos. Que saibam, contudo, por qual nome devem ser chamados, para que não ofendam o verdadeiro Deus, cujo nome usam quando o atribuem a mais de um. Creiam em seu próprio Apolo, que naquele mesmo oráculo retirou dos outros deuses o nome, assim como retirou de Júpiter o domínio. Pois o terceiro verso mostra que os ministros de Deus não devem ser chamados deuses, mas anjos. Na verdade, ele mentiu a respeito de si mesmo; pois, embora fosse do número dos demônios, contou-se entre os anjos de Deus e depois, em outros oráculos, confessou-se demônio. Pois, quando lhe perguntaram como queria ser suplicado, respondeu assim:[38] Ó sapientíssimo, doutíssimo, versado em muitas ocupações, ouve, ó demônio.[39] E assim, novamente, quando, a pedido de alguém, proferiu uma imprecação contra Apolo Esmínteo, começou com este verso:[40] Ó harmonia do mundo, portador da luz, demônio sapientíssimo.[41] Que resta, então, senão que, por sua própria confissão, ele está sujeito ao flagelo do verdadeiro Deus e ao castigo eterno? Pois em outro oráculo também disse:[42] Os demônios que percorrem a terra e o mar sem descanso são subjugados sob o flagelo de Deus.[43] Trataremos de ambos no segundo livro. Por ora, basta-nos que, enquanto ele deseja honrar-se e colocar-se no céu, tenha confessado, conforme a natureza da coisa, de que modo devem ser chamados aqueles que sempre estão junto de Deus.[44] Portanto, que os homens se afastem dos erros e, pondo de lado superstições corrompidas, reconheçam seu Pai e Senhor, cuja excelência não pode ser medida, cuja grandeza não pode ser percebida e cujo princípio não pode ser compreendido. Quando a atenção diligente da mente humana, sua aguda sagacidade e sua memória chegam até ele, depois de como que haver somado e esgotado todos os caminhos, param, ficam perplexas, falham; e nada há além disso a que possam prosseguir. Mas, porque aquilo que existe deve necessariamente ter tido um princípio, segue-se que, como nada havia antes dele, ele procedeu de si mesmo antes de todas as coisas. Por isso é chamado por Apolo de autoexistente, pela Sibila de autocriado, incriado e não feito. E Sêneca, homem perspicaz, viu isso e o expressou em suas Exortações. Nós, disse ele, dependemos de outro. Portanto, voltamos o olhar para alguém a quem devemos aquilo que em nós é mais excelente. Outro nos trouxe à existência, outro nos formou; mas Deus, por seu próprio poder, fez a si mesmo.[45] Fica provado, portanto, por essas testemunhas tão numerosas e tão autorizadas, que o universo é governado pelo poder e pela providência de um só Deus, cuja energia e majestade Platão, no Timeu, afirma serem tão grandes que ninguém pode nem concebê-las na mente nem exprimi-las em palavras, por causa de seu poder excelso e incalculável. E então poderá alguém duvidar se algo pode ser difícil ou impossível para Deus, aquele que por sua providência planejou, por sua energia estabeleceu e por seu juízo consumou obras tão grandes e admiráveis, e ainda agora as sustenta por seu espírito e as governa por seu poder, sendo incompreensível e inefável, plenamente conhecido por ninguém além dele mesmo? Por isso, quando reflito tantas vezes sobre tão grande majestade, os que adoram os deuses às vezes me parecem tão cegos, tão incapazes de reflexão, tão insensatos, tão pouco distantes dos animais mudos, a ponto de crer que aqueles que nascem do comércio natural dos sexos possam ter algo de majestade e influência divina; pois a Sibila Eritreia diz: é impossível que um Deus seja formado dos lombos de um homem e do ventre de uma mulher. E, se isso é verdadeiro, como realmente é, fica evidente que Hércules, Apolo, Baco, Mercúrio e Júpiter, com os demais, não passavam de homens, já que nasceram dos dois sexos. E o que há tão distante da natureza de Deus quanto essa operação que ele mesmo atribuiu aos mortais para a propagação de sua raça, e que não pode realizar-se sem substância corpórea?[46] Portanto, se os deuses são imortais e eternos, que necessidade há do outro sexo, se eles mesmos não precisam de sucessão, já que sempre hão de existir? Pois certamente, no caso da humanidade e dos demais animais, não há outra razão para a diferença de sexo, para a procriação e para o nascimento, senão que todas as espécies de viventes, estando condenadas à morte pela condição de sua mortalidade, sejam preservadas por sucessão mútua. Mas Deus, que é imortal, não precisa de diferença de sexo, nem de sucessão. Alguém dirá que essa disposição é necessária para que ele tenha alguns que o sirvam ou sobre os quais reine. Mas que necessidade há do sexo feminino, se Deus, que é onipotente, pode produzir filhos sem a participação da mulher? Pois, se concedeu a certas criaturas minúsculas que[47] ajuntem para si descendência com a boca, a partir de folhas e ervas doces,[48] por que alguém julgaria impossível que o próprio Deus tivesse descendência sem união com o outro sexo? Portanto, ninguém é tão desprovido de juízo que não entenda que aqueles a quem os ignorantes e tolos têm e adoram como deuses eram simples mortais. Por que, então, dirá alguém, foram tidos por deuses? Sem dúvida porque foram reis muito grandes e poderosos; e, visto que, pelos méritos de suas virtudes, de seus cargos ou das artes que descobriram, foram amados por aqueles sobre quem reinaram, foram consagrados à memória duradoura. E, se alguém duvida disso, considere seus feitos e obras, os quais poetas antigos e historiadores transmitiram por completo.[49] Porventura Hércules, tão célebre por sua valentia e considerado como um Africano entre os deuses, não contaminou o mundo, que se diz ter percorrido e purificado, por meio de suas devassidões, luxúrias e adultérios? E não é de admirar, pois nasceu de um ato adúltero com Alcmena.[50] Que divindade poderia haver nele, escravizado aos seus próprios vícios e, contra toda lei, manchando com infâmia, desonra e violência tanto homens quanto mulheres? Nem aquelas grandes e admiráveis ações que realizou devem ser julgadas dignas de ser atribuídas à excelência divina. Pois será assim tão magnífico haver vencido um leão e um javali, abatido aves com flechas, limpado um estábulo real, vencido uma guerreira e tomado seu cinturão, ou matado cavalos ferozes junto com seu dono? Esses são feitos de homem valente e heroico, mas ainda homem; pois aquilo que venceu era frágil e mortal. Não há poder tão grande, como disse o orador, que não possa ser enfraquecido e quebrado pelo ferro e pela força. Mas vencer a própria mente e refrear a ira é obra do homem mais valente; e isso ele nunca fez nem poderia fazer. Pois aquele que faz essas coisas, eu não o comparo a homens excelentes, mas o julgo o mais semelhante a um deus.[51] Eu gostaria que o orador tivesse acrescentado algo acerca da luxúria, do prazer, do desejo e da arrogância, para completar a excelência daquele que julgou semelhante a um deus. Pois não deve ser considerado mais valente quem vence um leão do que aquele que vence a fera violenta encerrada dentro de si, isto é, a ira; nem quem derruba aves rapacíssimas do que aquele que refreia desejos cobiçosíssimos; nem quem subjuga uma amazona guerreira do que aquele que subjuga a luxúria, vencedora do pudor e da honra; nem quem limpa um estábulo de esterco do que aquele que purifica o coração de vícios, males mais destrutivos porque lhe são próprios do que aqueles que poderiam ter sido evitados ou repelidos. Daí resulta que só deve ser julgado homem valente aquele que é sóbrio, moderado e justo. Mas, se alguém considerar quais são as obras de Deus, logo julgará ridículas todas essas coisas que homens frivolíssimos admiram. Pois as medem não pelo poder divino, que ignoram, mas pela fraqueza de sua própria força. Ninguém negará que Hércules não foi apenas servo de Euristeu, um rei, o que até certo ponto poderia parecer honroso, mas também de uma mulher impudica, Ônfale, que lhe ordenava sentar-se a seus pés, vestido com as roupas dela e executando a tarefa que ela lhe impunha. Que baixeza detestável! Mas esse era o preço pelo qual se comprava o prazer. Mas, dirá alguém, pensas que os poetas devem ser cridos? E por que eu não pensaria? Pois não é Lucílio, nem Luciano, que não poupou homens nem deuses, quem conta essas coisas; são justamente aqueles que cantam os louvores dos deuses.[52] Em quem, então, creremos, se não dermos crédito àqueles que os louvam? Que aquele que pensa que eles mentem produza outros autores em quem possamos confiar, que nos ensinem quem são esses deuses, de que modo e de que origem surgiram, qual é sua força, qual seu número, qual seu poder, o que há neles de admirável e digno de adoração — em suma, que mistério mais digno de fé e mais verdadeiro possuem. Não apresentará tais autoridades. Demos, então, crédito àqueles que não falaram para censurar, mas para proclamar louvor. Ele navegou com os argonautas e saqueou Troia, enfurecido contra Laomedonte por causa da recompensa que este lhe negara pelo livramento de sua filha; daí se evidencia em que tempo viveu. E também, excitado pela fúria e pela loucura, matou a própria esposa juntamente com os filhos. É este aquele que os homens consideram deus? Mas seu herdeiro Filoctetes não o considerou assim, ele que lhe aplicou o archote quando devia ser queimado, que testemunhou o ardor e o consumo de seus membros e nervos, e que enterrou seus ossos e cinzas no monte Eta, recebendo em troca por esse serviço as suas flechas.[53] Que outra ação digna de honras divinas realizou Esculápio, além da cura de Hipólito, aquele cujo nascimento também não esteve isento de desonra para Apolo? Sua morte foi certamente mais célebre, porque ganhou a distinção de ser fulminado por um deus. Tarquício, em uma dissertação sobre homens ilustres, diz que ele nasceu de pais incertos, foi exposto, encontrado por caçadores, nutrido por uma cadela e entregue a Quíron, com quem aprendeu a arte da medicina. Diz ainda que era messênio, mas que passou algum tempo em Epidauro. Túlio também diz que foi sepultado em Cinosuras. E qual foi a conduta de Apolo, seu pai? Não foi ele que, por amor apaixonado, cuidou da forma mais vergonhosa do rebanho de outro e construiu muralhas para Laomedonte, tendo sido contratado, juntamente com Netuno, por um pagamento que lhe pôde ser negado com impunidade? E foi com ele que o rei pérfido aprendeu primeiro a não cumprir nenhum acordo que tivesse feito até com deuses. E também, estando enamorado de um belo rapaz, violentou-o e, no meio de uma brincadeira, matou-o.[54] Marte, culpado de homicídio e absolvido da acusação de assassinato pelos atenienses por favor, para não parecer feroz e cruel demais, cometeu adultério com Vênus. Castor e Pólux, enquanto se ocupavam em raptar as esposas de outros, deixaram de ser irmãos gêmeos. Pois Ídas, excitado de ciúme pelo ultraje, traspassou um deles com a espada. E os poetas contam que vivem e morrem alternadamente; de modo que agora são os mais miseráveis não só entre os deuses, mas entre todos os mortais, porque não lhes é permitido morrer uma única vez. E, no entanto, Homero, divergindo dos demais poetas, simplesmente registra que ambos morreram. Pois, quando representa Helena sentada ao lado de Príamo sobre as muralhas de Troia, reconhecendo todos os chefes da Grécia, mas procurando em vão apenas os irmãos, acrescenta ao seu discurso este verso:[55] Assim falou ela, ignorando que, em Esparta, sua pátria, jaziam debaixo da terra.[56] Que deixou Mercúrio, ladrão e pródigo, para contribuir para sua fama, além da lembrança de suas fraudes? Sem dúvida mereceu o céu porque ensinou os exercícios da palestra e foi o primeiro a inventar a lira. É necessário que o Pai Líber tenha a principal autoridade e o primeiro lugar no senado dos deuses, porque foi o único, exceto Júpiter, que triunfou, conduziu um exército e subjugou os indianos. Mas esse tão grande e invicto comandante indiano foi vergonhosamente vencido pelo amor e pela luxúria. Pois, levado a Creta com seu cortejo efeminado, encontrou na praia uma mulher impudica; e, confiante por causa da vitória na Índia, quis dar prova de sua virilidade, para não parecer demasiado efeminado. Assim tomou por esposa aquela mulher, traidora de seu pai e assassina de seu irmão, depois de ela ter sido abandonada e repudiada por outro marido; fez dela Libera e com ela subiu ao céu.[57] E qual foi a conduta de Júpiter, pai de todos esses, que na oração costumeira é chamado Ótimo e Máximo? Não se mostra ele, desde a mais tenra infância, ímpio e quase parricida, já que expulsou o pai do reino, baniu-o e não esperou sua morte, embora velho e consumido, tamanha era sua ânsia de poder? E, depois de tomar o trono do pai pela violência e pelas armas, foi atacado pela guerra dos Titãs, princípio dos males para a raça humana; e, vencidos estes e obtida paz duradoura, passou o resto da vida em devassidões e adultérios. Deixo de mencionar as virgens que desonrou, pois isso costuma ser julgado tolerável. Não posso silenciar os casos de Anfitrião e Tíndaro, cujas casas encheu até transbordar de vergonha e desonra. Mas atingiu o auge da impiedade e da culpa ao raptar o rapaz real. Pois não lhe pareceu suficiente cobrir-se de infâmia violentando mulheres, sem ainda ultrajar também o próprio sexo. Este é o verdadeiro adultério, o que se faz contra a natureza. Se alguém que cometeu tais crimes pode ser chamado Máximo é questão discutível; certamente não é Ótimo, título a que corruptores, adúlteros e incestuosos não podem aspirar, a menos que nós, homens, estejamos enganados ao chamar perversos e depravados os que fazem tais coisas e ao julgá-los merecedores de todo tipo de punição. Mas Marco Túlio foi insensato ao censurar Caio Verres por adultérios, porque Júpiter, a quem cultuava, cometeu os mesmos; e ao reprovar Públio Clódio por incesto com a irmã, porque aquele que era Ótimo e Máximo tinha a mesma pessoa por irmã e esposa.[58] Quem, então, é tão insensato a ponto de imaginar que reina no céu aquele que nem sequer deveria ter reinado na terra? Não sem graça, certo poeta escreveu sobre o triunfo de Cupido; nesse livro não só representou Cupido como o mais poderoso dos deuses, mas também como o seu conquistador. Pois, depois de enumerar os amores de cada um, pelos quais haviam caído sob o poder e domínio de Cupido, põe em cena uma procissão em que Júpiter, com os outros deuses, é conduzido em cadeias diante do carro daquele que celebra o triunfo. O poeta pintou isso com elegância, mas não se afastou muito da verdade. Porque quem é sem virtude, dominado pelo desejo e por luxúrias perversas, não está, como o poeta fingiu, sujeito a Cupido, mas à morte eterna. Mas deixemos de falar de moral e examinemos a questão, para que os homens entendam em que erros miseravelmente se encontram. O povo comum imagina que Júpiter reina no céu; tanto instruídos quanto ignorantes estão persuadidos disso. Pois a própria religião, as orações, os hinos, os santuários e as imagens o demonstram. E, no entanto, admitem que ele também descendeu de Saturno e Reia. Como pode parecer deus, ou ser crido, como diz o poeta, autor dos homens e de todas as coisas, quando inumeráveis milhares de homens existiam antes de seu nascimento, como aqueles que viveram durante o reinado de Saturno e gozaram da luz antes de Júpiter? Vejo que um deus foi rei nos tempos antigos e outro nos tempos seguintes. Portanto, é possível que haja ainda outro futuramente. Pois, se o primeiro reino foi mudado, por que não esperaríamos que o segundo também pudesse ser mudado, a menos que, por acaso, fosse possível a Saturno gerar alguém mais poderoso do que ele, mas impossível a Júpiter fazê-lo? E, contudo, o governo divino é sempre imutável; ou, se é mutável, o que é impossível, certamente o seria em todos os tempos.[59] É possível, então, que Júpiter perca o reino como seu pai o perdeu? Sem dúvida que sim. Pois, tendo esse deus poupado nem virgens nem mulheres casadas, absteve-se somente de Tétis, por causa de um oráculo que predizia que qualquer filho nascido dela seria maior que o pai. E, antes de tudo, havia nele falta de presciência, coisa imprópria a um deus; porque, se Têmis não lhe houvesse revelado os acontecimentos futuros, ele não os teria conhecido por si mesmo. Mas, se não é divino, realmente não é deus; pois o nome de divindade se deriva de deus, como humanidade de homem. Depois havia nele consciência de fraqueza; quem temeu, evidentemente temeu alguém maior do que si mesmo. E quem faz isso sabe, com certeza, que não é o maior, já que pode existir algo maior. Ele também jura solenemente pelo lago Estígio, que é apresentado como o único objeto de temor religioso aos deuses do alto. Mas que objeto de temor é esse? Ou por quem foi estabelecido? Há, então, algum poder maior que pode punir os deuses perjúrios? Que grande temor há no pântano infernal, se eles são imortais? Por que temeriam aquilo que ninguém verá, a não ser os que estão sujeitos à necessidade da morte? Por que, então, os homens levantam os olhos ao céu? Por que juram pelos deuses do alto, quando os próprios deuses do alto recorrem aos deuses infernais e encontram entre eles objeto de veneração e culto? E o que significa aquela afirmação de que existem fados aos quais obedecem todos os deuses e o próprio Júpiter? Se o poder das Parcas é tão grande que vale mais que todos os deuses celestes e o próprio seu senhor e dominador, por que não se dirá antes que elas reinam, já que a necessidade força todos os deuses a obedecer a suas leis e decretos? Ora, quem pode duvidar de que aquele que está sujeito a alguma coisa não pode ser o maior? Pois, se o fosse, não receberia fados, antes os estabeleceria. Volto agora a outro assunto que havia deixado de lado. No caso de uma única deusa ele exerceu continência, embora profundamente enamorado; mas isso não veio de virtude alguma, e sim do medo de um sucessor. E esse medo denuncia claramente alguém mortal, fraco e sem peso; pois na própria hora do nascimento poderia ter sido morto, assim como o irmão mais velho fora morto; e, se lhe tivesse sido possível viver, jamais teria entregado o poder supremo a um irmão mais novo. Mas o próprio Júpiter, preservado às ocultas e nutrido secretamente, foi chamado Zeus ou Zen não, como imaginam, por causa do ardor do fogo celeste, ou porque seja doador da vida, ou porque insufle vida aos viventes — poder que pertence só a Deus; pois como poderia dar o sopro da vida aquele que o recebeu de outra fonte? —, mas porque foi o primeiro dos filhos varões de Saturno a viver. Portanto, os homens poderiam ter tido outro deus como governante, se Saturno não tivesse sido enganado por sua esposa. Mas dir-se-á que os poetas fingiram essas coisas. Quem assim pensa está em erro. Pois eles falavam de homens; mas, para adornar com louvores aqueles cuja memória celebravam, diziam que eram deuses. Portanto, o que falaram a respeito deles como deuses foi fingido; o que falaram a respeito deles como homens, não. E isso ficará claro por um exemplo. Quando estava para violentar Dânae, derramou em seu colo grande quantidade de moedas de ouro. Esse foi o preço pago por sua desonra. Mas os poetas, falando dele como de um deus, para não enfraquecer a autoridade de sua suposta majestade, fingiram que ele próprio descera em chuva de ouro, usando a mesma figura de linguagem com que falam de chuvas de ferro quando descrevem multidão de dardos e flechas. Diz-se que arrebatou Ganimedes por uma águia: isso é pintura dos poetas. Mas ou o levou por meio de uma legião, que tem a águia por estandarte, ou o navio em que foi colocado tinha como divindade tutelar a figura de uma águia, assim como tinha a efígie de um touro quando raptou Europa e a transportou através do mar. Do mesmo modo se conta que transformou Io, filha de Ínaco, em novilha. E, para que escapasse da ira de Juno, tal como estava, coberta de pelos ásperos e em forma de novilha, diz-se que atravessou o mar a nado e chegou ao Egito; ali, tendo recuperado sua antiga forma, tornou-se a deusa hoje chamada Ísis. Com que argumento, então, se pode provar que Europa não se sentou sobre o touro e que Io não foi transformada em novilha? Porque existe nos anais um dia fixo em que se celebra a viagem de Ísis; daí aprendemos que ela não atravessou o mar a nado, mas navegou. Portanto, aqueles que se julgam sábios porque entendem que não pode haver no céu corpo vivo e terreno rejeitam toda a história de Ganimedes como falsa e percebem que o fato ocorreu na terra, visto que a própria ação e a luxúria são terrenas. Os poetas, portanto, não inventaram esses acontecimentos; porque, se o fizessem, seriam muito desprezíveis. Mas acrescentaram certa cor às narrativas. Não falaram assim com intuito de difamar, mas por desejo de embelezar. Por isso os homens são enganados, sobretudo porque, julgando que tudo isso foi fingido pelos poetas, adoram o que ignoram. Pois não sabem qual é o limite da licença poética, até onde é permitido avançar na ficção, visto que a função do poeta é, com certa graça, mudar e transferir acontecimentos reais para outras representações por meio de transformações oblíquas. Mas fingir inteiramente tudo o que se conta é ser tolo e mentiroso, mais do que poeta.[60] Mas, concedamos que tenham fingido as coisas que se julgam fabulosas; fingiram também aquelas que são contadas sobre as deusas e os casamentos dos deuses? Por que, então, são assim representados e assim adorados? A menos que, por acaso, não apenas os poetas, mas também pintores e escultores mintam. Porque, se este é o Júpiter a quem chamais deus, se não é aquele que nasceu de Saturno e Ops, nenhuma outra imagem além da dele deveria ter sido colocada em todos os templos. O que significam as efígies de mulheres? O que significa o sexo ambíguo? Nelas, se esse Júpiter é representado, as próprias pedras confessarão que ele é homem. Dizem que os poetas mentiram, e, contudo, acreditam neles; sim, pelo próprio fato provam que os poetas não mentiram, pois modelam as imagens dos deuses de modo que, pela própria diversidade de sexo, se mostre verdadeiro o que os poetas dizem. Pois que outra conclusão admitem a imagem de Ganimedes e a efígie da águia, colocadas aos pés de Júpiter nos templos e adoradas juntamente com ele, senão que a memória da culpa ímpia e da devassidão permanece para sempre? Nada, portanto, foi inteiramente inventado pelos poetas; alguma coisa talvez foi transposta e obscurecida por modelagem oblíqua, sob a qual a verdade foi envolta e escondida; como na história da repartição dos reinos por sorte. Pois dizem que o céu coube a Júpiter, o mar a Netuno e as regiões infernais a Plutão. Por que a terra não foi antes tomada como terceira parte, senão porque a transação se deu sobre a terra? Portanto, é verdade que assim dividiram e repartiram o governo do mundo: que o império do oriente coube a Júpiter e uma parte do ocidente foi atribuída a Plutão, de sobrenome Agesilau; porque a região do oriente, de onde a luz é dada aos mortais, parece mais alta, e a do ocidente mais baixa. Assim velaram a verdade sob uma ficção, de modo que a própria verdade nada retirasse da persuasão pública. Isso é manifesto quanto à parte de Netuno; pois dizemos que seu reino se assemelhava à autoridade ilimitada possuída por Marco Antônio, a quem o senado havia decretado o poder sobre o litoral marítimo, para que punisse os piratas e tranquilizasse todo o mar. Assim, todos os litorais marítimos, juntamente com as ilhas, couberam a Netuno. Como se prova isso? Sem dúvida as antigas narrativas o testemunham. Evêmero, autor antigo da cidade de Messena, recolheu as ações de Júpiter e dos demais tidos por deuses e compôs uma história a partir dos títulos e inscrições sagradas existentes nos mais antigos templos, especialmente no santuário de Júpiter Triphiliano, onde uma inscrição indicava que uma coluna de ouro havia sido colocada pelo próprio Júpiter, e que nela escrevera a narrativa de seus feitos, para que a posteridade tivesse memorial de suas ações. Essa história foi traduzida e seguida por Ênio, cujas palavras são estas: onde Júpiter dá a Netuno o governo do mar, para que reine em todas as ilhas e lugares situados junto ao mar.[61] As narrativas dos poetas, portanto, são verdadeiras, mas veladas por cobertura e aparência exteriores. É possível que o monte Olimpo tenha dado aos poetas a sugestão para dizer que Júpiter recebeu o reino do céu, porque Olimpo é nome comum tanto do monte quanto do céu. Mas a mesma história informa que Júpiter habitava no monte Olimpo, quando diz: naquele tempo Júpiter passava a maior parte da vida no monte Olimpo; e para lá recorriam a ele para a administração da justiça, se havia disputas. Além disso, se alguém descobria alguma invenção nova útil à vida humana, costumava ir até lá e mostrá-la a Júpiter. Os poetas transferem muitas coisas desse modo, não para falar falsamente contra os objetos de seu culto, mas para acrescentar beleza e graça a seus poemas por meio de figuras variadamente coloridas. Mas aqueles que não entendem o modo, a causa e a natureza daquilo que é representado em figura atacam os poetas como falsos e sacrílegos. Até os filósofos foram enganados por esse erro; porque, como essas coisas narradas acerca de Júpiter pareciam indignas de um deus, introduziram dois Júpiteres, um natural e outro fabuloso. Viram, de um lado, o que era verdadeiro, que aquele de quem falam os poetas era homem; mas, no caso desse Júpiter natural, conduzidos pelo costume comum da superstição, erraram ao transferir a Deus o nome de um homem, Deus que, como já dissemos, por ser um só, não tem necessidade de nome. Mas é incontestável que o verdadeiro Júpiter foi aquele que nasceu de Ops e Saturno. Portanto, é vã a persuasão dos que dão ao Deus Supremo o nome de Júpiter. Alguns costumam defender seus erros com essa desculpa; pois, quando convencidos da unidade de Deus, já que não a podem negar, afirmam que o adoram, mas que lhes agrada chamá-lo Júpiter. Ora, o que pode haver de mais absurdo que isso? Pois Júpiter não costuma ser adorado sem a adoração conjunta de sua esposa e de sua filha. Daí se torna evidente sua verdadeira natureza; nem é lícito transferir esse nome para onde não há nem Minerva nem Juno. E por que eu diria que o significado próprio desse nome exprime não um poder divino, mas humano? Pois Cícero explica os nomes Júpiter e Juno como derivados de dar ajuda, e Júpiter seria como que pai ajudador — nome mal adaptado a Deus; porque ajudar é coisa de homem que presta algum socorro a quem lhe é estranho e em caso de benefício pequeno. Ninguém implora a Deus que o ajude, mas que o guarde, lhe dê vida e segurança, o que é assunto muito maior e mais importante do que simplesmente ajudar.[62] E, já que falamos de pai, nenhum pai se diz ajudar os filhos quando os gera ou cria. Pois essa expressão é demasiado pequena para designar a grandeza do benefício recebido de um pai. Quanto mais imprópria é para Deus, que é nosso verdadeiro Pai, por quem existimos e a quem pertencemos inteiramente, por quem somos formados, vivificados e iluminados, aquele que nos concede a vida, nos dá segurança e nos supre com diversas espécies de alimento! Não compreende os benefícios divinos quem pensa ser apenas ajudado por Deus. Portanto, é não somente ignorante, mas ímpio, aquele que rebaixa a excelência do poder supremo sob o nome de Júpiter. Assim, se já demonstramos por suas ações e por seu caráter que Júpiter foi homem e reinou na terra, resta apenas investigar também sua morte. Ênio, em sua História Sagrada, depois de descrever todas as ações que ele realizou em vida, fala assim no fim: então Júpiter, depois de cinco vezes dar a volta à terra, conferir governos a todos os amigos e parentes, deixar leis aos homens, proporcionar-lhes modo estabelecido de vida e cereal, e conceder-lhes muitos outros benefícios, depois de ter sido honrado com glória e memória imortais, tendo deixado monumentos duradouros a seus amigos e estando sua idade quase consumada, mudou a sua vida em Creta e partiu para os deuses. E os Curetas, seus filhos, cuidaram dele e o honraram; e seu túmulo está em Creta, na cidade de Cnossos, e diz-se que Vesta fundou essa cidade; e sobre o túmulo há uma inscrição em antigos caracteres gregos: Zan Kronou, que em latim significa Júpiter, filho de Saturno. Isso certamente não é transmitido por poetas, mas por escritores de fatos antigos; e essas coisas são tão verdadeiras que são confirmadas por alguns versos das Sibilas, nestes termos:[63] Demônios inanimados, imagens de mortos, cujos túmulos a infeliz Creta ostenta como glória.[64] Cícero, em seu tratado Sobre a Natureza dos Deuses, depois de dizer que os teólogos enumeravam três Júpiteres, acrescenta que o terceiro era o de Creta, filho de Saturno, e que seu túmulo é mostrado naquela ilha. Como, então, um deus pode estar vivo em um lugar e morto em outro; em um lugar ter templo e em outro ter túmulo? Saibam, pois, os romanos que seu Capitólio, isto é, a principal cabeça de seus objetos de veneração pública, nada mais é do que um monumento vazio.[65] Passemos agora ao pai dele, que reinou antes e talvez tivesse em si mais poder, já que se diz ter nascido do encontro de elementos tão grandes. Vejamos o que havia nele digno de um deus, sobretudo porque se diz que teve a idade de ouro, visto que em seu reinado houve justiça na terra. Encontro nele algo que não havia no filho. Pois o que é mais condizente com o caráter de um deus do que um governo justo e um tempo de piedade? Mas, quando reflito, com o mesmo critério, que ele é filho, não posso considerá-lo Deus Supremo; pois vejo que há algo mais antigo do que ele: o céu e a terra. Mas eu procuro um Deus acima do qual nada exista, que seja a fonte e a origem de todas as coisas. Esse deve necessariamente existir, o que formou o próprio céu e lançou os fundamentos da terra. Mas, se Saturno nasceu destes, como se supõe, como pode ser o Deus principal, se deve sua origem a outro? Ou quem presidia ao universo antes do nascimento de Saturno? Mas isso, como disse há pouco, é ficção dos poetas. Pois era impossível que elementos insensíveis, separados por tão grande intervalo, se encontrassem e gerassem um filho, ou que aquele que nasceu em nada se assemelhasse aos pais, antes tivesse forma que seus pais não possuíam.[66] Inquiramos, então, quanto de verdade se esconde sob essa figura. Minúcio Félix, em seu tratado intitulado Otávio, apresentou estas provas: que Saturno, tendo sido banido por seu filho e vindo para a Itália, foi chamado filho do Céu porque costumamos dizer que aqueles cuja virtude admiramos, ou aqueles que chegam de maneira inesperada, caíram do céu; e que foi chamado filho da Terra porque damos o nome de filhos da terra aos nascidos de pais desconhecidos. Essas coisas têm alguma semelhança com a verdade, mas não são verdadeiras, porque é evidente que ele já era assim considerado até durante seu reinado. Ele poderia ter argumentado assim: que Saturno, sendo rei muito poderoso, para que a memória de seus pais fosse preservada, deu seus nomes ao céu e à terra, que antes se chamavam por outros nomes; por essa razão sabemos que nomes foram dados tanto a montes quanto a rios. Pois, quando os poetas falam da descendência de Atlas ou do rio Ínaco, não dizem absolutamente que homens tenham nascido de coisas inanimadas; antes indicam claramente os que nasceram daqueles homens que, em vida ou depois da morte, deram seus nomes a montes ou rios. Porque esse era costume comum entre os antigos e especialmente entre os gregos. Assim ouvimos que mares receberam nomes daqueles que neles pereceram, como o Egeu, o Icário e o Helesponto. No Lácio também Aventino deu nome ao monte em que foi sepultado; e Tiberino, ou Tibre, ao rio em que se afogou. Não é de admirar, então, que os nomes daqueles que haviam gerado reis poderosíssimos fossem atribuídos ao céu e à terra. Portanto, parece que Saturno não nasceu do céu, o que é impossível, mas daquele homem que tinha o nome de Urano. E Trismegisto atesta essa verdade; pois, quando disse que pouquíssimos haviam existido nos quais houvesse saber perfeito, mencionou nominalmente entre eles seus parentes Urano, Saturno e Mercúrio. E, porque Minúcio ignorava essas coisas, deu outra explicação do fato; mostrei como poderia ter argumentado. Agora direi de que modo, em que tempo e por quem isso foi feito; pois não foi Saturno quem o fez, mas Júpiter. Ênio relata assim em sua História Sagrada: então Pã o conduz ao monte chamado Coluna do Céu. Depois de subir ali, examinou as terras ao longe e, naquele monte, constrói um altar a Céu; e Júpiter foi o primeiro a oferecer sacrifício nesse altar. Naquele lugar olhou para o firmamento, que agora chamamos céu, e àquilo que estava acima do mundo, que se chamava firmamento, deu o nome de céu a partir do nome do avô; e Júpiter, em oração, deu pela primeira vez o nome de céu àquilo que se chamava firmamento, e queimou por inteiro a vítima que ofereceu em sacrifício. E não apenas aqui Júpiter aparece oferecendo sacrifício. César também, em Arato, relata que Aglaóstenes diz que, quando Júpiter partia da ilha de Naxos contra os Titãs e oferecia sacrifício na praia, uma águia voou até ele como augúrio. A partir daí ele se apoderou desse pássaro e o colocou no número dos deuses, recordando a seu avô e à oração que pela primeira vez fizera ao céu.[67] Já que trouxemos à luz os mistérios dos poetas e descobrimos os pais de Saturno, voltemos às suas virtudes e ações. Dizem que foi justo em seu governo. Primeiro, por isso mesmo já não é agora um deus, visto que deixou de existir. Em segundo lugar, nem sequer foi justo, mas ímpio, não só para com os filhos, que devorou, mas também para com o pai, a quem se diz ter mutilado. E isso talvez realmente tenha acontecido. Mas os homens, tendo em vista o elemento chamado céu, rejeitam toda a fábula como invenção absurdíssima; embora os estóicos, segundo seu costume, procurem transferi-la a um sistema físico, cuja opinião Cícero expôs em seu tratado Sobre a Natureza dos Deuses. Eles sustentaram, diz ele, que a natureza suprema e etérea do céu, isto é, do fogo, que por si mesma produzia todas as coisas, era desprovida daquela parte do corpo que contém os órgãos reprodutivos. Ora, essa teoria seria mais apropriada a Vesta, se ela fosse chamada macho. Pois é por isso que consideram Vesta virgem, porque o fogo é elemento incorruptível; e nada pode nascer dele, já que consome tudo quanto alcança. Ovídio, nos Fastos, diz: não consideres Vesta outra coisa senão chama viva; e vês que nenhum corpo nasce da chama. Portanto, ela é verdadeiramente virgem, pois não emite semente nem a recebe, e ama as companheiras da virgindade.[68] Isso também poderia ter sido atribuído a Vulcano, que se supõe ser fogo, e, no entanto, os poetas não o mutilaram. Poderia igualmente ter sido atribuído ao sol, em que reside a natureza e a causa das forças produtivas. Pois, sem o calor ígneo do sol, nada poderia nascer ou crescer; de modo que nenhum outro elemento tem maior necessidade de órgãos geradores do que o calor, pelo alimento do qual todas as coisas são concebidas, produzidas e sustentadas. Enfim, ainda que o caso fosse como desejam, por que deveríamos supor que Céu foi mutilado, em vez de dizer que nasceu sem órgãos geradores? Porque, se produz por si mesmo, é claro que não precisava de órgãos geradores, já que deu à luz o próprio Saturno; mas, se os tinha e sofreu mutilação por parte do filho, a origem de todas as coisas e toda a natureza teriam perecido. E por que eu diria que eles privam o próprio Saturno não só de inteligência divina, mas também humana, quando afirmam que Saturno é aquele que compreende o curso e a mudança dos espaços e das estações, e que tem em grego precisamente esse nome? Pois é chamado Cronos, o mesmo que Chronos, isto é, tempo. Mas é chamado Saturno porque está saciado de anos. Estas são as palavras de Cícero ao expor a opinião dos estóicos: a inutilidade dessas coisas qualquer um pode compreender facilmente. Pois, se Saturno é filho de Céu, como poderia o Tempo ter nascido do Céu, ou o Céu ter sido mutilado pelo Tempo, ou depois o Tempo ser privado de sua soberania por seu filho Júpiter? Ou como Júpiter teria nascido do Tempo? Ou com que anos poderia a eternidade ficar saciada, se ela não tem limite?[69] Se, portanto, essas especulações dos filósofos são frívolas, que resta senão crermos ser fato real que, sendo homem, ele sofreu mutilação por mão humana? A menos que por acaso alguém o estime deus, ele que temeu um coerdeiro; ao passo que, se tivesse possuído algum conhecimento divino, não deveria ter mutilado o pai, mas a si mesmo, para impedir o nascimento de Júpiter, que o privou do reino. E, depois de casar-se com sua irmã Reia, a quem em latim chamamos Ops, diz-se que recebeu um oráculo mandando que não criasse filhos varões, porque aconteceria que fosse expulso do reino por um filho. Temendo isso, é claro que não devorou os filhos, como dizem as fábulas, mas os matou; embora na História Sagrada esteja escrito que Saturno e Ops, e outros homens, costumavam naquele tempo comer carne humana, mas que Júpiter, que deu aos homens leis e civilização, foi o primeiro a proibir esse alimento por um édito. Ora, se isso é verdade, que justiça poderia haver nele? Mas suponhamos ser fictício que Saturno devorava os filhos, sendo verdadeiro apenas de certo modo; deveremos então supor, com o vulgo, que ele comeu os filhos, quando apenas os levou à sepultura? Mas, quando Ops deu à luz Júpiter, ocultou o menino e o enviou secretamente a Creta para ser alimentado. E novamente não posso deixar de censurar sua falta de presciência. Pois por que recebeu um oráculo de outro e não de si mesmo? Estando posto no céu, por que não viu o que se passava na terra? Por que os Coribantes, com seus címbalos, escaparam à sua atenção? Por fim, por que existiria qualquer força maior que pudesse vencer o seu poder? Sem dúvida, já velho, foi facilmente vencido por alguém jovem e despojado de sua soberania. Foi, portanto, banido e partiu para o exílio; e, depois de longas errâncias, chegou à Itália em um navio, como Ovídio relata nos Fastos:[70] Resta explicar a causa do navio. O deus portador da foice chegou em um navio ao rio etrusco, depois de haver percorrido primeiro o mundo inteiro.[71] Jano o recebeu errante e destituído; e as moedas antigas são prova disso, pois nelas há de um lado a figura de Jano com dupla face e, do outro, um navio, como acrescenta o mesmo poeta:[72] Mas a piedosa posteridade representou um navio na moeda, dando testemunho da chegada do deus estrangeiro.[73] Portanto, não só todos os poetas, mas também os escritores das histórias e acontecimentos antigos concordam em que ele foi homem, visto que transmitiram à memória seus feitos na Itália: entre os gregos, Diodoro e Talos; entre os latinos, Nepos, Cássio e Varrão. Pois, como os homens viviam na Itália de modo rústico,[74] ele foi o primeiro a unir a raça antes dispersa pelos montes e lhes deu leis a obedecer, e quis que a terra em que se fixara levasse o nome de Lácio.[75] Haverá alguém que imagine ser deus aquele que foi lançado ao exílio, fugiu e viveu escondido? Ninguém é tão insensato. Pois quem foge ou se esconde precisa temer tanto a violência quanto a morte. Orfeu, que viveu em tempos posteriores aos dele, declara abertamente que Saturno reinou sobre a terra e entre os homens:[76] Primeiro Cronos reinou sobre os homens na terra, e depois de Cronos nasceu o grande rei, Zeus de ampla voz.[77] E também nosso próprio Maro diz:[78] Esta foi a vida que o dourado Saturno levou na terra.[79] E em outro lugar:[80] Aquela foi a afamada idade de ouro, quão pacificamente, quão serenamente correram os anos sob o seu reinado.[81] O poeta não disse, na primeira passagem, que ele levou essa vida no céu, nem, na segunda, que reinou sobre os deuses do alto. Daí se vê que foi rei na terra; e isso ele declara mais claramente em outro lugar:[82] Restaurador da idade de ouro, nas terras onde outrora Saturno reinou.[83] Ênio, em sua tradução de Evêmero, diz que Saturno não foi o primeiro a reinar, mas seu pai Urano. No princípio, diz ele, Céu foi o primeiro a possuir o poder supremo na terra. Estabeleceu e preparou esse reino juntamente com seus irmãos. Não há grande controvérsia, se entre as maiores autoridades há dúvida quanto ao filho e ao pai. Mas pode ter ocorrido uma e outra coisa: que Urano tenha sido o primeiro a destacar-se em poder entre os demais e a ocupar o primeiro lugar, embora não com o título de rei; e que depois Saturno tenha adquirido maiores recursos e assumido o nome de rei.[84] E, já que a História Sagrada difere um tanto daquilo que relatamos, abramos o que está contido nos escritos verdadeiros, para que, ao acusarmos as superstições, não pareçamos seguir e aprovar as loucuras dos poetas. Estas são as palavras de Ênio: depois Saturno casou-se com Ops. Titã, que era mais velho que Saturno, reclama para si o reino. Então sua mãe Vesta e suas irmãs Ceres e Ops aconselham Saturno a não ceder o reino ao irmão. Titã, inferior em porte a Saturno e vendo que sua mãe e irmãs se esforçavam para que Saturno reinasse, cedeu-lhe o reino. Mas fez acordo com Saturno: se lhe nascessem filhos varões, não os criaria, para que o reino voltasse aos seus próprios filhos. Quando nasceu o primeiro filho varão de Saturno, mataram-no. Depois nasceram gêmeos, Júpiter e Juno. Então mostraram Juno a Saturno e esconderam secretamente Júpiter, entregando-o a Vesta para ser criado. Ops também deu à luz Netuno sem que Saturno soubesse e o ocultou em segredo. Do mesmo modo, em um terceiro parto, Ops gerou gêmeos, Plutão e Glauca. Plutão em latim é Dispater; outros o chamam Orco. Então mostraram a Saturno a filha Glauca e esconderam o filho Plutão. Glauca morreu ainda jovem. Essa é a linhagem de Júpiter e de seus irmãos, tal como essas coisas estão escritas, e assim nos foi transmitida a relação de parentesco pela narrativa sagrada. Pouco depois introduz ainda estas palavras: então Titã, sabendo que a Saturno haviam nascido filhos varões e que estavam sendo criados em segredo, toma consigo seus filhos, chamados Titãs, prende seu irmão Saturno e Ops, encerra-os dentro de um muro e coloca guardas sobre eles.[85] A verdade dessa história é ensinada pela Sibila Eritreia, que diz quase as mesmas coisas, com algumas poucas divergências que não afetam a substância do assunto. Assim, Júpiter é absolvido da acusação da maior impiedade, segundo a qual se conta que acorrentou o pai; pois isso foi obra de seu tio Titã, porque Saturno, contrariando promessa e juramento, criara filhos varões. O resto da narrativa é assim construído. Diz-se que Júpiter, já crescido, tendo ouvido que seu pai e sua mãe estavam guardados e presos, veio com grande multidão de cretenses, venceu Titã e seus filhos em batalha, libertou os pais do cárcere, restituiu o reino ao pai e então voltou para Creta. Depois disso, dizem que um oráculo foi dado a Saturno, ordenando-lhe que se guardasse para que seu filho não o expulsasse do reino; que ele, para enfraquecer o oráculo e evitar o perigo, armou emboscada para matar Júpiter; que Júpiter, tendo descoberto a trama, reivindicou novamente o reino para si e baniu Saturno; e que este, depois de vagar por muitas terras, perseguido por homens armados enviados por Júpiter para capturá-lo ou matá-lo, mal encontrou esconderijo na Itália.[86] Ora, visto que por essas coisas é evidente que eram homens, não é difícil ver de que modo começaram a ser chamados deuses. Pois, se antes de Saturno ou Urano não havia reis, por causa do pequeno número de homens que viviam rusticamente sem governante, não há dúvida de que naqueles tempos os homens começaram a exaltar o próprio rei e toda a sua família com os maiores louvores e com novas honras, a ponto de chamá-los deuses; quer porque homens ainda rudes e simples realmente pensassem assim por causa de sua excelência admirável, quer, como costuma acontecer, por lisonja ao poder presente, quer pelos benefícios com que foram ordenados e conduzidos a um estado mais civilizado. Depois, os próprios reis, amados por aqueles cuja vida haviam civilizado, deixaram, após a morte, saudade de si. Então os homens formaram suas imagens, para obter algum consolo contemplando-lhes a semelhança; e, avançando mais ainda pelo amor a seus méritos, começaram a venerar a memória dos mortos, para parecerem gratos por seus serviços e atrair seus sucessores ao desejo de governar bem. E isso Cícero ensina em seu tratado Sobre a Natureza dos Deuses, ao dizer: a vida dos homens e a convivência comum levaram a elevar ao céu, por fama e benevolência, homens distinguidos por seus benefícios. Por essa razão Hércules, por essa razão Castor e Pólux, Esculápio e Líber foram postos entre os deuses. E em outro lugar: em muitos Estados se pode entender que, para estimular a valentia, ou para que homens muito destacados por bravura enfrentassem mais prontamente o perigo em favor do Estado, sua memória foi consagrada com a honra dada aos deuses imortais. Sem dúvida foi por esse motivo que os romanos consagraram seus Césares e os mouros seus reis. Assim, pouco a pouco, começaram a ser-lhes prestadas honras religiosas; enquanto aqueles que os haviam conhecido instruíam primeiro seus filhos e netos e, depois, toda a sua posteridade, na prática desse rito. E, no entanto, esses grandes reis, por causa da celebridade do nome, foram honrados em todas as províncias.[87] Mas povos separados honraram particularmente os fundadores de sua nação ou cidade com a mais alta veneração, quer fossem homens notáveis por bravura, quer mulheres admiráveis pela castidade; assim os egípcios honraram Ísis, os mouros Juba, os macedônios Cabiros, os cartagineses Urano, os latinos Fauno, os sabinos Sanco, os romanos Quirino. Do mesmo modo Atenas cultuou Minerva, Samos Juno, Pafos Vênus, Lemnos Vulcano, Naxos Líber e Delos Apolo. E assim diversos ritos sagrados foram assumidos entre diferentes povos e países, na medida em que os homens desejam mostrar gratidão a seus príncipes e não encontram outras honras que possam conferir aos mortos. Além disso, a piedade de seus sucessores contribuiu em grande medida para o erro; pois, para parecerem nascidos de origem divina, prestaram honras divinas a seus pais e ordenaram que outros também o fizessem. Pode alguém duvidar de que modo se instituiu a honra prestada aos deuses quando lê em Virgílio as palavras de Eneias dando ordens a seus companheiros:[88] Enchei agora as taças e derramai libação ao poderoso Jove, que todos adoram; invocai a alma bendita de Anquises.[89] E ele atribui a Anquises não só imortalidade, mas também poder sobre os ventos:[90] Invocai os ventos para apressar nossa viagem e rogai que aquele a quem tanto amamos receba nossas ofertas ano após ano, tão logo levantemos nossa cidade prometida em templos consagrados ao seu louvor.[91] Na verdade, Líber, Pã, Mercúrio e Apolo fizeram o mesmo com relação a Júpiter; e depois seus sucessores fizeram o mesmo a respeito deles. Os poetas também acrescentaram sua influência e, por meio de poemas compostos para agradar, elevaram-nos ao céu, como acontece com aqueles que lisonjeiam reis, ainda que perversos, com falsos panegíricos. E esse mal começou com os gregos, cuja leviandade, aliada à habilidade e abundância de palavra, suscitou de modo incrível as névoas da falsidade. E assim, por admiração deles, os homens primeiro assumiram seus cultos sagrados e os transmitiram a todas as nações. Por causa dessa vaidade a Sibila os repreende assim:[92] Por que confiais, ó Grécia, em homens principescos? Por que ofereceis dádivas vãs aos mortos? Ofereceis a ídolos; quem vos sugeriu esse erro, para deixardes a presença do Deus poderoso e fazerdes essas ofertas?[93] Marco Túlio, que não foi apenas orador consumado, mas também filósofo, visto que só ele foi imitador de Platão, naquele tratado em que se consolou pela morte de sua filha não hesitou em dizer que aqueles deuses cultuados publicamente eram homens. E esse testemunho seu deve ser considerado tanto mais importante porque ele detinha o sacerdócio dos áugures e testemunha que presta culto e veneração aos mesmos deuses. Assim, no espaço de poucos versos, apresentou-nos dois fatos. Pois, ao declarar sua intenção de consagrar a imagem de sua filha do mesmo modo como os antigos haviam sido consagrados, ensinou tanto que eles estavam mortos quanto mostrou a origem de uma superstição vã. Pois, diz ele, já que vemos muitos homens e mulheres entre o número dos deuses e veneramos seus santuários tidos em máxima honra nas cidades e no campo, consintamos na sabedoria daqueles a cujos talentos e invenções devemos que a vida esteja toda adornada de leis e instituições e estabelecida sobre base firme. E se algum ser vivo era digno de ser consagrado, seguramente era esta minha filha. Se a progênie de Cadmo, ou de Anfitrião, ou de Tíndaro, mereceu ser exaltada pela fama ao céu, a mesma honra certamente deve ser apropriada a ela. E isso eu farei; e, com a aprovação dos deuses, colocarei a ti, a melhor e mais instruída de todas as mulheres, na assembleia deles, e te consagrarei à estima de todos os homens. Talvez alguém diga que Cícero delirava por excessiva dor. Mas, na verdade, todo aquele discurso, perfeito tanto na erudição quanto nos exemplos e no próprio estilo de expressão, não revela mente perturbada, e sim constância e juízo; e essa mesma sentença não mostra sinal de desvario. Pois não creio que pudesse ter escrito com tal variedade, abundância e ornamento se sua dor não tivesse sido mitigada pela própria razão, pela consolação dos amigos e pela passagem do tempo. E por que mencionar o que diz em seus livros Sobre a República e também Sobre a Glória? Pois, em seu tratado Sobre as Leis, no qual, seguindo o exemplo de Platão, quis estabelecer as leis que julgava adequadas a um Estado justo e sábio, decretou assim a respeito da religião: reverenciem eles os deuses, tanto aqueles que sempre foram tidos como deuses celestes quanto aqueles cujos serviços aos homens os colocaram no céu: Hércules, Líber, Esculápio, Castor, Pólux e Quirino. E também nas Tusculanas, quando disse que o céu estava quase inteiramente cheio do gênero humano, falou assim: se eu tentasse investigar as antigas narrativas e extrair delas aquilo que os escritores da Grécia transmitiram, até mesmo aqueles que são tidos na mais alta categoria como deuses se descobrirão ter ido de nós para o céu. Investiga de quem são os sepulcros apontados na Grécia; lembra-te, já que és iniciado, do que é transmitido nos mistérios; e então compreenderás quão amplamente está espalhada essa persuasão. Ele apelava, como é evidente, à consciência de Ático, para que se entendesse, a partir dos próprios mistérios, que todos os adorados eram homens; e, ao reconhecer isso sem hesitação no caso de Hércules, Líber, Esculápio, Castor e Pólux, temeu admitir abertamente o mesmo com respeito a Apolo e Júpiter, seus pais, bem como a Netuno, Vulcano, Marte e Mercúrio, a quem chamou de deuses maiores; por isso diz que essa opinião está amplamente difundida, para que entendamos o mesmo acerca de Júpiter e dos demais deuses mais antigos. Porque, se os antigos consagravam sua memória do mesmo modo como ele diz que consagrará a imagem e o nome de sua filha, pode-se perdoar os que choram, mas não os que creem nisso. Pois quem é tão enlouquecido que acredite que o céu se abre aos mortos pelo consentimento e pelo prazer de uma multidão insensata? Ou que alguém seja capaz de dar a outro aquilo que ele mesmo não possui? Entre os romanos, Júlio foi feito deus porque assim agradou a um homem culpado, Antônio; Quirino foi feito deus porque assim pareceu bem aos pastores, embora um deles fosse assassino do próprio irmão gêmeo e o outro destruidor de sua pátria. Mas, se Antônio não tivesse sido cônsul, Caio César teria ficado sem a honra até mesmo de um morto, e isso por conselho de seu sogro Piso e de seu parente Lúcio César, que se opuseram às exéquias, e por conselho do cônsul Dolabela, que derrubou a coluna no fórum, isto é, os seus monumentos, e purificou o fórum. Pois Ênio declara que Romulo foi chorado por seu povo, representando-o a falar assim, por dor de haver perdido o rei: ó Romulo, Romulo, dize que guardião de tua pátria os deuses geraram em ti! Tu nos fizeste sair para as regiões da luz. Ó pai, ó senhor, ó raça descendida dos deuses. Por causa dessa saudade, acreditaram mais facilmente nas mentiras de Júlio Próculo, subornado pelos senadores para anunciar ao povo que havia visto o rei em forma mais majestosa do que a de um homem; e que ele dera ordem ao povo para que lhe construíssem um templo em sua honra, pois era deus e era chamado pelo nome de Quirino. Com esse feito, ao mesmo tempo persuadiu o povo de que Romulo fora para os deuses e livrou o senado da suspeita de ter matado o rei.[94] Eu poderia contentar-me com o que já relatei, mas ainda restam muitas coisas necessárias para a obra que empreendi. Porque, embora, ao destruir a principal parte das superstições, eu tenha removido o todo, agrada-me seguir também as partes restantes e refutar mais amplamente tão inveterada persuasão, para que os homens enfim se envergonhem e se arrependam de seus erros. Esta é grande tarefa e digna de um homem. Prossigo em libertar as mentes humanas dos laços das superstições, como diz Lucrécio; e ele, de fato, não pôde consegui-lo, porque nada trouxe de verdadeiro. Este é nosso dever, nós que tanto afirmamos a existência do verdadeiro Deus quanto refutamos falsas divindades. Aqueles, portanto, que sustentam que os poetas inventaram fábulas sobre os deuses, e mesmo assim admitem a existência de deusas e as adoram, são inconscientemente levados de volta àquilo que haviam negado: que elas têm relações sexuais e geram filhos. Pois é impossível que os dois sexos tenham sido instituídos senão para a geração. Mas, admitida a diferença de sexo, não percebem que a concepção se segue necessariamente. E isso não pode ocorrer em Deus. Mas seja a coisa como eles imaginam; dizem que há filhos de Júpiter e dos outros deuses. Portanto, novos deuses nascem, e isso diariamente, pois os deuses não são menos fecundos que os homens. Segue-se que todas as coisas estejam cheias de deuses sem número, já que nenhum deles morre. Pois, se a multidão de homens é incrível e seu número não pode ser calculado — embora, ao nascerem, devam necessariamente morrer —, que devemos supor a respeito dos deuses, nascidos ao longo de tantos séculos e permanecendo imortais? Como se explica, então, que tão poucos sejam adorados? A menos que pensemos, de alguma forma, que há dois sexos entre os deuses não para geração, mas apenas para prazer, e que os deuses pratiquem aquilo que os homens se envergonham de fazer e de sofrer. Mas, quando se diz que uns nascem de outros, segue-se que continuam sempre a nascer, se em algum tempo nasceram; ou, se em algum momento deixaram de nascer, convém que saibamos por que ou em que tempo deixaram de fazê-lo. Sêneca, em seus livros de filosofia moral, não sem certo gracejo, pergunta: qual a razão de Júpiter, representado pelos poetas como tão entregue à luxúria, ter cessado de gerar filhos? Teria ele chegado aos sessenta anos e sido contido pela lei Papia? Ou obteve o privilégio concedido a quem tem três filhos? Ou afinal lhe ocorreu este pensamento: o que fizeste ao outro, outro poderá fazer a ti; e teme ele que alguém lhe faça o que ele próprio fez a Saturno? Mas que aqueles que mantêm serem deuses vejam de que modo podem responder a este argumento que apresentarei. Se há dois sexos entre os deuses, segue-se a convivência conjugal; e, se isso acontece, devem ter casas, pois não são destituídos de virtude e pudor a ponto de o fazerem aberta e promiscuamente, como vemos nos animais brutos. Se têm casas, segue-se que também têm cidades; e para isso temos a autoridade de Ovídio, que diz: a multidão dos deuses ocupa lugares distintos; na parte da frente, os poderosos e ilustres habitantes do céu colocaram suas moradas. Se têm cidades, terão também campos. Ora, quem não vê a consequência, a saber, que aram e cultivam a terra? E isso se faz por causa do alimento. Logo, são mortais. E o argumento vale igualmente invertido. Pois, se não têm campos, não têm cidades; e, se não têm cidades, também estão sem casas. E, se não têm casas, não têm convivência conjugal; e, se estão sem isso, não têm sexo feminino. Mas vemos que também há fêmeas entre os deuses. Logo, não são deuses. Se alguém puder, desfaça esse argumento. Porque uma coisa segue a outra de tal modo que é impossível não admitir estas últimas. Mas ninguém refutará sequer o primeiro argumento. Dos dois sexos, um é mais forte e o outro mais fraco. Pois os machos são mais robustos e as fêmeas mais frágeis. Mas Deus não está sujeito à fraqueza; logo, não há sexo feminino. A isso se soma a conclusão final do argumento anterior: não há deuses, já que entre os deuses há também fêmeas.[95] Por essas razões, os estóicos formam outra concepção dos deuses; e, porque não percebem o que é a verdade, procuram ligá-los ao sistema das coisas naturais. E Cícero, seguindo-os, apresentou esta opinião a respeito dos deuses e de seus cultos: vês, pois, como um argumento foi extraído de temas físicos bem e utilmente descobertos para a existência de deuses falsos e fictícios? E isso deu origem a falsas opiniões, a erros tumultuosos e a superstições quase de velhas. Pois conhecemos as formas dos deuses, suas idades, suas roupas e ornamentos; além disso, suas raças, casamentos, todos os graus de parentesco e tudo reduzido à semelhança da fraqueza humana. Que se poderia dizer de mais claro, de mais verdadeiro? O principal nome da filosofia romana, revestido do sacerdócio mais honroso, refuta deuses falsos e fictícios e testemunha que seu culto consiste em superstições quase feminis e senis; queixa-se de que os homens estão enredados em falsas opiniões e erros turbulentos. Pois todo o seu terceiro livro Sobre a Natureza dos Deuses derruba e destrói completamente toda religião. Que mais, então, se exige de nós? Poderemos superar Cícero em eloquência? De modo algum; mas faltou-lhe firmeza, porque ignorava a verdade, como ele próprio reconhece claramente na mesma obra. Diz, com efeito, que pode dizer com mais facilidade o que não é do que o que é; isto é, sabe que o sistema recebido é falso, mas ignora a verdade. É claro, portanto, que aqueles que se supunham deuses eram apenas homens, e que a memória deles foi consagrada depois da morte. E é por isso também que se atribuem a cada um idades diferentes e forma estabelecida de representação, porque suas imagens foram moldadas com a roupa e na idade em que a morte alcançou cada um.[96] Consideremos, se vos apraz, as aflições desses deuses infelizes. Ísis perdeu o filho; Ceres, a filha; Latona, expulsa e lançada a vagar pela terra, encontrou com dificuldade uma pequena ilha onde pudesse dar à luz. A mãe dos deuses amou um belo jovem e também o mutilou quando o encontrou com uma prostituta; e por isso seus ritos são agora celebrados pelos galos como sacerdotes. Juno perseguiu violentamente prostitutas porque não pôde conceber do próprio irmão. Varrão escreve que a ilha de Samos era antes chamada Partênia, porque ali Juno cresceu e ali também se casou com Júpiter. Por isso há em Samos um templo antiquíssimo e muito célebre em sua honra, e uma imagem moldada com vestes de noiva; e seus ritos anuais são celebrados à maneira de um casamento. Portanto, se cresceu, se primeiro foi virgem e depois mulher, quem não entende que ela era um ser humano confessa-se bruto. E por que falar da devassidão de Vênus, que serviu às luxúrias de todos, não só dos deuses, mas também dos homens? Pois, de sua vergonhosa união com Marte, gerou Harmonia; de Mercúrio, Hermafrodito, nascido de ambos os sexos; de Júpiter, Cupido; de Anquises, Eneias; de Butes, Érix; de Adônis, porém, não pôde gerar filhos, porque ele foi ferido por um javali e morto ainda menino. E foi ela quem primeiro instituiu a arte da prostituição, como se encontra na História Sagrada, e ensinou às mulheres de Chipre a procurar ganho pela devassidão, ordenando isso para que não parecesse ser ela a única impudica e cortejadora de homens entre as mulheres. Também ela tem algum direito a culto religioso, ela de cuja parte se registram mais adultérios do que nascimentos? Nem mesmo aquelas virgens afamadas puderam conservar intacta sua castidade. Pois de onde suporemos que nasceu Erictônio? Da terra, como os poetas quiseram fazer parecer? Mas o próprio fato clama o contrário. Pois, quando Vulcano havia feito armas para os deuses e Júpiter lhe deu o direito de pedir a recompensa que quisesse, jurando, segundo seu costume, pelo lago infernal que não lhe negaria nada do que pedisse, o artífice coxo pediu Minerva em casamento. Então o excelente e poderoso Júpiter, preso por tão grande juramento, não pôde negar; contudo aconselhou Minerva a resistir e defender sua castidade. Nessa luta, dizem, Vulcano derramou seu sêmen sobre a terra, de onde nasceu Erictônio; e que esse nome lhe foi dado a partir de eris e chthon, isto é, da contenda e do solo. Por que, então, ela, virgem, confiou aquele menino encerrado com um dragão e selado a três virgens nascidas de Cécrops? Evidente caso de incesto, a meu ver, que não pode de modo algum ser encoberto. Outra, tendo quase perdido seu amante, despedaçado por seus cavalos enlouquecidos, chamou o excelentíssimo médico Esculápio para tratar o jovem; e, quando ele foi curado,[97] a bondosa Trívia esconde o seu favorito e o confia ao cuidado de Egéria, para viver em bosques obscuros e solitários e perder, no nome de Víbio, o seu próprio.[98] Que significa esse cuidado tão diligente e ansioso? Por que esse esconderijo secreto? Por que esse banimento, seja para tão grande distância, seja para junto de uma mulher, seja para a solidão? Por que, em seguida, a mudança de nome? E, por fim, por que tamanho ódio aos cavalos? Que implicam todas essas coisas, senão consciência de desonra e um amor nada compatível com uma virgem? Havia evidentemente motivo para que assumisse tamanho trabalho por um jovem tão fiel, que havia recusado ceder ao amor de sua madrasta.[99] Neste ponto também devem ser refutados aqueles que não apenas admitem que deuses foram feitos de homens, mas ainda se gloriam disso como algo digno de louvor, seja por causa de sua valentia, como Hércules, seja por seus benefícios, como Ceres e Líber, seja pelas artes que descobriram, como Esculápio ou Minerva. Mas quão tolas são essas coisas e quão indignas de servirem de causa para que homens se contaminem com culpa inexpiável e se tornem inimigos de Deus, em desprezo de quem oferecem sacrifícios aos mortos, eu o mostrarei por exemplos particulares. Dizem que é a virtude que eleva o homem ao céu — não, porém, aquela de que discutem os filósofos, que consiste nos bens da alma, mas essa ligada ao corpo, que se chama fortaleza; e, porque ela se mostrou eminente em Hércules, acredita-se que mereceu a imortalidade. Quem é tão tolamente insensato a ponto de julgar a força do corpo um bem divino ou sequer humano, quando foi dada em maior medida até aos animais e muitas vezes é destruída por uma única doença, diminuída pela própria velhice e por fim desaparece? E assim Hércules, percebendo que seus músculos eram desfigurados por úlceras, não quis ser curado nem envelhecer, para não parecer ter menos força ou beleza do que outrora tivera. Supuseram que subiu ao céu desde a pira em que se queimou vivo; e aquelas mesmas qualidades que, de modo insensatíssimo, admiravam, eles as exprimiram em estátuas e imagens e as consagraram, para que permanecessem para sempre como memória da loucura daqueles que acreditaram que os deuses deviam sua origem à matança de feras. Mas isso, talvez, possa ser culpa dos gregos, que sempre estimaram coisas levíssimas como se fossem as maiores. E quanto aos nossos próprios compatriotas? São eles mais sábios? Pois desprezam a valentia de um atleta, porque não causa dano; mas, no caso de um rei, porque produz calamidades largamente espalhadas, admiram-na a ponto de imaginar que generais valentes e belicosos são admitidos na assembleia dos deuses e que não há outro caminho para a imortalidade senão conduzir exércitos, devastar as terras alheias, destruir cidades, arrasar povoados, matar ou escravizar povos livres. Na verdade, quanto maior o número de homens que derrubaram, saquearam e mataram, tanto mais nobres e distintos se julgam; e, enredados pela aparência de glória vazia, dão aos seus crimes o nome de virtude. Eu preferiria que fizessem para si deuses a partir da matança de feras selvagens a aprovarem uma imortalidade tão manchada de sangue. Se alguém matou um só homem, é tido como contaminado e perverso, e não julgam lícito admiti-lo a esta morada terrena dos deuses. Mas aquele que matou milhares incontáveis de homens, inundou planícies de sangue e infectou rios, esse não apenas é admitido no templo, mas até no céu. Em Ênio, Africano fala assim: se é permitido a alguém subir às regiões dos deuses lá do alto, o maior portal do céu está aberto somente para mim. Porque, de fato, extinguiu e destruiu grande parte do gênero humano. Ó quão grandes trevas vos envolviam, ó Africano — ou antes, ó poeta —, ao imaginardes aberta aos homens a subida ao céu por meio de matanças e derramamento de sangue! E Cícero também concordou com esse delírio. Assim é, de fato, disse ele, ó Africano, pois o mesmo portal esteve aberto para Hércules; como se ele mesmo tivesse sido porteiro do céu quando isso ocorreu. Eu, na verdade, não sei se devo considerar isso motivo de tristeza ou de riso, ao ver homens graves, eruditos e, segundo pensam de si mesmos, sábios, envolvidos em tão miseráveis ondas de erro. Se esta é a virtude que nos torna imortais, quanto a mim preferiria morrer a tornar-me causa da destruição do maior número possível. Se a imortalidade não pode ser obtida de outro modo senão pelo derramamento de sangue, o que acontecerá se todos concordarem em viver em harmonia? E isso sem dúvida pode realizar-se, se os homens abandonarem sua loucura perniciosa e ímpia e viverem em inocência e justiça. Então ninguém será digno do céu? A virtude perecerá, porque não será permitido aos homens enfurecerem-se contra seus semelhantes? Mas aqueles que contam a ruína de cidades e povos como a maior glória não suportarão a tranquilidade pública; saquearão e se enfurecerão e, por meio de ultrajes violentos, perturbarão o pacto da sociedade humana, para terem inimigo a quem destruir com maldade ainda maior do que aquela com que o atacaram.[100] Passemos agora aos assuntos restantes. A concessão de benefícios deu o nome de deuses a Ceres e a Líber. Posso provar pelas Escrituras Sagradas que o vinho e o cereal eram usados pelos homens antes dos filhos de Céu e Saturno. Mas suponhamos que tenham sido introduzidos por estes. Pode parecer maior feito ter recolhido grãos e, depois de esmagá-los, ensinado os homens a fazer pão; ou ter espremido uvas colhidas da videira e feito vinho; do que ter produzido e feito sair da terra o próprio grão ou a própria videira? Deus, de fato, pode ter deixado que essas coisas fossem extraídas pela engenhosidade do homem; contudo, tudo deve pertencer àquele que deu ao homem tanto a sabedoria para descobrir quanto as próprias coisas que podiam ser descobertas. Também se diz que as artes obtiveram imortalidade para seus inventores, como a medicina para Esculápio e a arte do ferreiro para Vulcano. Portanto, adoremos também aqueles que ensinaram a arte do lavandeiro e do sapateiro. Mas por que não se presta honra ao descobridor da arte do oleiro? Será porque os ricos desprezam os vasos sâmios? Há ainda outras artes cujos inventores muito beneficiaram a vida humana. Por que também a eles não foram atribuídos templos? Mas, sem dúvida, foi Minerva quem descobriu tudo, e por isso os artífices lhe oferecem preces. Tão humilde, então, foi a condição da qual Minerva ascendeu ao céu. Haverá realmente alguma razão para alguém deixar o culto daquele que criou a terra com seus viventes e o céu com suas estrelas para adorar aquela que ensinou os homens a urdir a trama? Que lugar ocupa aquele que ensinou a curar as feridas do corpo? Pode ser ele mais excelente do que aquele que formou o próprio corpo e a potência da sensação e da vida? Por fim, foi ele quem inventou e trouxe à luz as ervas e os demais elementos de que consiste a arte da cura?[101] Mas alguém dirá que esse Ser supremo, que fez todas as coisas, e também aqueles que concederam aos homens benefícios particulares, são dignos cada qual do culto que lhes corresponde. Antes de tudo, jamais aconteceu que o adorador destes também o fosse de Deus. Nem isso pode acontecer. Pois, se a honra prestada a ele é repartida com outros, ele deixa por completo de ser adorado, já que sua religião exige que creiamos ser ele o único e só Deus. O excelente poeta exclama que todos os que refinaram a vida pela invenção das artes estão nas regiões inferiores, e que até o próprio descobridor dessa medicina e dessa arte foi lançado por um raio às ondas estígias, para que entendamos quão grande é o poder do Pai onipotente, que pode extinguir até deuses com seus raios. Mas homens engenhosos talvez tenham raciocinado assim consigo mesmos: porque Deus não pode ser atingido por um raio, é claro que tal acontecimento nunca ocorreu; antes, porque ocorreu, é claro que essa pessoa era homem e não deus. Pois a falsidade dos poetas não consiste no feito, mas no nome. Eles temeram o mal se, contra a persuasão geral, reconhecessem o que era verdadeiro. Mas, se entre eles mesmos há acordo em que deuses foram feitos de homens, por que então não creem nos poetas quando estes descrevem seus exílios, feridas, mortes, guerras e adultérios? De tudo isso se pode entender que eles jamais poderiam tornar-se deuses, já que nem sequer foram homens bons e, durante a vida, praticaram ações que geram morte eterna.[102] Chego agora às superstições próprias dos romanos, já que falei das que lhes são comuns. A loba, ama de Romulo, recebeu honras divinas. E eu suportaria isso, se fosse o próprio animal cuja figura ela ostenta. Tito Lívio relata que havia uma imagem de Larência, e não de seu corpo, mas de sua índole e caráter. Pois ela era esposa de Fáustulo e, por causa de sua prostituição, era chamada entre os pastores de loba, isto é, meretriz, de onde também o bordel recebe seu nome. Os romanos sem dúvida seguiram o exemplo dos atenienses ao representar sua figura. Pois, quando entre eles uma prostituta chamada Leena matou um tirano e, como era ilícito colocar a imagem de uma prostituta no templo, ergueram a efígie do animal cujo nome ela trazia. Portanto, assim como os atenienses erigiram um monumento a partir do nome, os romanos o fizeram a partir da profissão da pessoa assim honrada. Também foi dedicado um festival ao seu nome, e instituídas as Larentinalias. E ela não é a única prostituta que os romanos adoram, mas também Faula, que foi, como escreve Vério, a concubina de Hércules. Quão grande, então, deve ser considerada essa imortalidade que alcançam até prostitutas! Flora, tendo adquirido grande riqueza por essa prática, deixou o povo como herdeiro e legou quantia fixa de dinheiro, de cujo rendimento anual seu aniversário pudesse ser celebrado por jogos públicos, chamados Florália. E, porque isso pareceu vergonhoso ao senado, para dar certa dignidade a assunto tão infame, resolveram tirar um argumento do próprio nome. Fingiram que ela era a deusa que preside às flores e que precisava ser aplacada para que as colheitas, juntamente com as árvores e as videiras, produzissem boa e abundante floração. O poeta desenvolveu essa ideia em seus Fastos e contou que havia uma ninfa nada obscura chamada Clóris e que, ao casar-se com Zéfiro, recebera do marido como presente de bodas o domínio sobre todas as flores. Essas coisas são ditas com propriedade; mas crê-las é indecoroso e vergonhoso. E, quando a verdade está em questão, devem tais disfarces enganar-nos? Esses jogos, portanto, celebram-se com toda libertinagem, como convém à memória de uma prostituta. Pois, além da licença das palavras, na qual se derrama toda obscenidade, as mulheres também se despem por exigência do povo e então desempenham o papel de mimas, ficando expostas diante do povo com gestos indecentes até a saciedade dos olhos impuros.[103] Tácio consagrou uma imagem de Cloacina, encontrada no grande esgoto; e, como não soubesse de quem era a semelhança, deu-lhe nome a partir do lugar. Túlio Hostílio modelou e adorou o Medo e a Palidez. Que direi dele senão que era digno de ter seus deuses sempre à mão, como os homens costumam desejar? O proceder de Marco Marcelo ao consagrar Honra e Valor difere disso na bondade dos nomes, mas concorda com isso na realidade. O senado agiu com a mesma vaidade ao colocar a Mente entre os deuses; pois, se possuíssem alguma inteligência, jamais teriam empreendido ritos sagrados desse tipo. Cícero diz que a Grécia empreendeu grande e ousado projeto ao consagrar as imagens dos Cupidos e Amores nos ginásios; é claro que lisonjeava Ático e gracejava com o amigo. Pois isso não deveria ter sido chamado grande projeto, nem projeto algum, mas perversidade abandonada e deplorável de homens impuros, que expunham seus filhos — aos quais deviam educar em caminho honroso — à luxúria da juventude, e queriam que eles adorassem deuses da devassidão justamente nos lugares onde seus corpos nus ficavam expostos ao olhar de seus corruptores, e naquela idade que, por sua simplicidade e imprudência, pode ser seduzida e enredada antes mesmo de saber guardar-se. Que admira, se todo gênero de dissolução fluiu dessa nação, entre a qual os próprios vícios têm aprovação da religião e estão tão longe de ser evitados que chegam até a ser adorados? E, por isso, como se superasse os gregos em prudência, Cícero acrescenta em seguida: os vícios não devem ser consagrados, mas as virtudes. Mas, se admites isso, ó Marco Túlio, não percebes que sucederá que os vícios entrarão junto com as virtudes, porque os males aderem aos bens e exercem maior influência sobre as mentes dos homens? E, se proíbes a consagração daqueles, a mesma Grécia te responderá que cultua alguns deuses para receber benefícios e outros para escapar de danos.[104] Pois esta é sempre a desculpa daqueles que transformam seus males em deuses, como os romanos consideram o Míldio e a Febre. Se, portanto, os vícios não devem ser consagrados — no que concordo contigo —, tampouco as virtudes. Pois elas não possuem inteligência nem percepção de si mesmas; não devem ser colocadas entre muros ou santuários feitos de barro, mas dentro do peito; e devem ser encerradas ali, para que não sejam falsas se colocadas fora do homem. Por isso rio daquela tua famosa lei, na qual declaras: mas daquelas coisas por causa das quais é dado ao homem ascender ao céu — refiro-me à mente, à virtude, à piedade, à fé — haja templos para seu louvor. Mas essas coisas não podem ser separadas do homem. Porque, se devem ser honradas, precisam necessariamente estar no próprio homem. Mas, se estão fora do homem, que necessidade há de honrar coisas que tu não possuis? Pois é a virtude que deve ser honrada, e não a imagem da virtude; e deve ser honrada não por sacrifício, incenso ou solene oração, mas unicamente pela vontade e pelo propósito. Porque, o que mais é honrar a virtude senão compreendê-la com a mente e mantê-la firmemente? E tão logo alguém comece a desejá-la, alcança-a. Esta é a única honra da virtude; pois não se deve manter outro culto nem outra adoração senão a do Deus único. Para que serve, então, ó homem sapientíssimo, ocupar com edifícios supérfluos lugares que poderiam ser úteis aos homens? Para que instituir sacerdotes para o culto de coisas vãs e sem sentido? Para que imolar vítimas? Para que empregar tamanha despesa na formação ou adoração de imagens? O peito humano é templo mais forte e mais puro; seja este antes adornado, seja este cheio das verdadeiras divindades. Porque aqueles que assim adoram as virtudes — isto é, perseguem as sombras e imagens das virtudes — não podem possuir as coisas verdadeiras. Por isso, não há virtude em ninguém quando os vícios dominam; não há fé quando cada um arrebata tudo para si; não há piedade quando a avareza não poupa nem parentes nem pais, e a paixão se precipita ao veneno e à espada; não há paz nem concórdia quando as guerras ardem em público e, em privado, as inimizades prevalecem até o sangue; não há castidade quando luxúrias desenfreadas contaminam ambos os sexos e o corpo inteiro em todas as suas partes. E, no entanto, eles não cessam de adorar aquilo de que fogem e que odeiam. Pois adoram com incenso e com a ponta dos dedos aquilo de que deveriam fugir com os sentimentos mais íntimos; e esse erro procede inteiramente de sua ignorância do bem principal e supremo.[105] Quando sua cidade foi ocupada pelos gauleses e os romanos, sitiados no Capitólio, fizeram máquinas de guerra com os cabelos das mulheres, dedicaram um templo à Vênus Calva. Eles, portanto, nem por esse próprio fato entendem quão vãs são suas religiões, pois até zombam delas por essas loucuras. Talvez tenham aprendido com os lacedemônios a inventar para si deuses a partir de acontecimentos. Pois, quando sitiavam os messênios, e estes haviam saído em segredo, sem serem notados pelos sitiantes, apressando-se em saquear a Lacônia, foram derrotados e postos em fuga pelas mulheres espartanas. Mas os lacedemônios, tendo descoberto o estratagema do inimigo, voltaram em perseguição. As mulheres armadas saíram a certa distância para encontrá-los; e, quando viram os maridos preparando-se para a batalha, supondo-os messênios, descobriram o corpo. Mas os homens, reconhecendo as esposas e excitados pela visão, precipitaram-se em união confusa, pois não havia tempo para distinção. De modo semelhante, os jovens que em outra ocasião haviam sido enviados pelo mesmo povo, tendo relações com as virgens, das quais nasceram os Partênios, ergueram em memória desse fato um templo e uma estátua à Vênus Armada. E, embora isso tenha tido origem vergonhosa, ainda parece melhor haver consagrado Vênus como armada do que como calva. Ao mesmo tempo, ergueu-se também um altar a Júpiter Pistor, o Padeiro, porque ele lhes havia recomendado em sonho que transformassem em pão todo o grão que possuíam e o lançassem no acampamento inimigo; e, feito isso, o cerco terminou, pois os gauleses perderam a esperança de reduzir os romanos pela fome.[106] Que zombaria dos ritos religiosos é essa! Se eu fosse defensor deles, de que poderia queixar-me tanto quanto de o nome dos deuses ter caído em tal desprezo, a ponto de ser ridicularizado pelos nomes mais vergonhosos? Quem não riria da deusa Fornax, ou antes, de homens instruídos ocupados em celebrar as Fornacálias? Quem pode conter o riso ao ouvir falar da deusa Muta? Dizem que é a deusa da qual nasceram os Lares e a chamam Lara ou Larunda. Que benefício pode trazer ao adorador aquela que não consegue falar? Também Caca é adorada, porque contou a Hércules o furto de seus bois, obtendo imortalidade por haver traído o próprio irmão; e Cunina, que protege as crianças no berço e afasta feitiços; e Stercutus, que primeiro introduziu o adubo na terra; e Tutino, diante do qual as noivas se assentam como introdução aos ritos matrimoniais; e mil outras ficções, de modo que os que tomaram tais coisas como objeto de culto podem ser ditos mais tolos do que os egípcios, que adoram certas imagens monstruosas e ridículas. Estas, entretanto, têm alguma delineação de forma. E o que direi daqueles que adoram uma pedra bruta e sem forma sob o nome de Término? É este aquele que se diz que Saturno devorou em lugar de Júpiter; e a honra que lhe prestam não é imerecida. Pois, quando Tarquínio quis construir o Capitólio e havia no local capelas de muitos deuses, consultou-os por augúrio se cederiam lugar a Júpiter; e, enquanto os demais cederam, somente Término permaneceu. Daí o poeta falar da pedra imóvel do Capitólio. Ora, por esse mesmo fato, quão grande se mostra Júpiter, a quem nem uma pedra cedeu, talvez confiante porque o havia salvo das mandíbulas de seu pai! Por isso, quando se construiu o Capitólio, deixou-se uma abertura no teto acima do próprio Término, para que, já que não cedera, pudesse gozar do céu livre; mas isso não o desfrutavam aqueles que imaginavam que uma pedra o desfrutava. Por isso fazem-lhe súplicas públicas, como ao deus guardião das fronteiras; e ele não é apenas uma pedra, mas às vezes também um tronco. O que direi dos que adoram tais objetos, senão que eles próprios, acima de todos, são pedras e troncos?[107] Já falamos dos próprios deuses que são adorados; devemos agora dizer algumas palavras sobre seus sacrifícios e mistérios. Entre os cipriotas, Teucro sacrificava uma vítima humana a Júpiter e transmitiu à posteridade esse sacrifício, abolido apenas recentemente por Adriano, quando era imperador. Entre os tauros, povo feroz e desumano, havia uma lei segundo a qual estrangeiros deviam ser sacrificados a Diana; e esse sacrifício foi praticado por muitos séculos. Os gauleses costumavam aplacar Hesus e Teutates com sangue humano. Nem, de fato, os latinos estiveram livres dessa crueldade, visto que ainda hoje Júpiter Lacial é adorado com oferta de sangue humano. Que benefício imploram aos deuses os que oferecem tais sacrifícios? Ou que podem conceder semelhantes divindades a homens por cujos castigos são propiciadas? Mas isso não é tanto motivo de admiração entre bárbaros, cuja religião está de acordo com seu caráter. Mas acaso nossos conterrâneos, que sempre reivindicaram para si a glória da brandura e da civilização, não se revelam mais desumanos por esses ritos sacrílegos? Pois esses devem antes ser considerados ímpios, porque, embora ornados pelas disciplinas liberais, desviam-se de tal refinamento, do que aqueles que, ignorantes e inexperientes, escorregam para práticas más por ignorarem as boas. E, contudo, é claro que esse rito de imolar vítimas humanas é antigo, já que Saturno era honrado no Lácio com o mesmo tipo de sacrifício; não, em verdade, matando-se um homem diante do altar, mas lançando-o da ponte Mílvia ao Tibre. E Varrão relata que isso se fazia conforme um oráculo, cujo último verso diz assim: e oferece cabeças a Hades, e ao pai um homem. E, porque isso parece ambíguo, é costume lançar-lhe tanto uma tocha quanto um homem. Mas se diz que Hércules pôs fim a esse tipo de sacrifício ao regressar da Espanha; continuando, porém, o costume de lançar, em vez de homens reais, imagens feitas de junco, como Ovídio informa em seus Fastos: até que o Tiríntio veio a estas terras, sombrios sacrifícios eram oferecidos anualmente à maneira de Leucádia; ele lançou à água romanos feitos de palha; vós, segundo o exemplo de Hércules, lançai imagens de corpos humanos.[108] As virgens vestais fazem essas oferendas sagradas, como diz o mesmo poeta: então também uma virgem costuma lançar da ponte de madeira as imagens de antigos homens feitas de junco.[109] Pois não encontro linguagem suficiente para falar das crianças imoladas ao mesmo Saturno, por causa de seu ódio a Júpiter. Pensar que os homens foram tão bárbaros, tão selvagens, que deram o nome de sacrifício ao massacre de seus próprios filhos, isto é, a uma ação torpe e detestável para todo o gênero humano; que, sem consideração pelo afeto paterno, destruíam vidas tenras e inocentes numa idade especialmente querida aos pais, superando em brutalidade a ferocidade de todas as feras, as quais, por mais ferozes que sejam, ainda amam sua prole! Ó loucura incurável! Que mais poderiam esses deuses fazer contra eles, se estivessem sumamente irados, do que fazem agora quando supostamente propícios, manchando seus adoradores com parricídio, visitando-os com luto e despojando-os dos sentimentos humanos? Que pode haver de sagrado para tais homens? Ou o que farão em lugares profanos aqueles que cometem os maiores crimes em meio aos altares dos deuses? Pescênio Festo relata nos livros de sua História, por meio de uma sátira, que os cartagineses costumavam imolar vítimas humanas a Saturno; e, quando foram vencidos por Agátocles, rei dos sicilianos, imaginaram que o deus estava irado contra eles; por isso, para oferecer com mais diligência uma expiação, imolaram duzentos filhos de seus nobres. Tão grandes são os males a que a religião pode impelir, ela que tantas vezes produziu ações perversas e ímpias. Que vantagem, então, buscavam os homens com esse sacrifício, quando matavam parte tão grande do Estado quanto nem mesmo Agátocles, vitorioso, havia matado?[110] A partir desse tipo de sacrifícios devem-se julgar os ritos públicos como sinais de não menor demência. Pois em algumas solenidades todos os segredos de suas religiões são trazidos à luz. Em primeiro lugar, os egípcios, pela celebração do dia em que Ísis perdeu o filho ou o encontrou, mostram pelo luto e pela alegria alternados que ela foi mulher e que teve filho. Primeiro perderam o próprio filho ou seu simulacro; depois o encontraram. Com efeito, Osíris foi despedaçado por Tifão. E o lamento das imagens de bois dá testemunho disso. Pois elas procuram um novilho muito pequenino, e de uma determinada cor, nos membros do qual possa parecer haver sinais naturais semelhantes às suas feridas. E em proporção à grandeza da perda, instituiu-se um longo luto. Por fim, a demora da consolação é determinada pelo achado daquele pequeno animal, que, por esse motivo, é levado pelas cidades, como se Ísis o tivesse encontrado. Por que eu diria que, se ele ainda fosse homem, por tanto tempo não teria sido possível a uma mãe tão diligente não achar uma só pessoa? E isso não escapou à percepção do próprio poeta; pois ele representa Pompeu, ainda jovem, falando assim ao ouvir da morte do pai: agora tirarei a deusa Ísis do túmulo e a enviarei pelas nações; e espalharei entre o povo Osíris coberto de madeira. Esse Osíris é o mesmo que o povo chama Serápis. Pois é costume mudar o nome dos mortos deificados, para que ninguém, creio eu, os imagine homens. Assim Romulo, depois da morte, tornou-se Quirino; e Leda, Nêmesis; Circe, Marica; e Ino, quando se lançou ao mar, foi chamada Leucoteia e também Mater Matuta; e seu filho Melicerta foi chamado Palemão e Portuno. E os ritos sagrados de Ceres Eleusina não diferem muito desses. Pois, assim como nos já mencionados se procura o menino Osíris com o pranto de sua mãe, também nestes Prosérpina é arrebatada para contrair um casamento incestuoso com o tio; e porque se diz que Ceres a buscou na Sicília com tochas acesas no cume do Etna, por isso seus ritos são celebrados com o arremesso de tochas.[111] Em Lâmpsaco, a vítima oferecida a Príapo é um asno, e a causa desse sacrifício é assim apresentada nos Fastos: quando todas as divindades haviam se reunido na festa da Grande Mãe e, saciadas do banquete, passavam a noite em divertimentos, dizem que Vesta se deitou no chão para descansar e adormeceu; então Príapo formou desígnio contra sua honra enquanto ela dormia; mas ela foi despertada pelo inoportuno zurrar do asno que Sileno costumava montar, e assim o plano do traiçoeiro foi frustrado. Por isso, dizem que o povo de Lâmpsaco costumava sacrificar um asno a Príapo, como se fosse em vingança; mas entre os romanos o mesmo animal era coroado com pães nas Vestálias, em honra da preservação da castidade de Vesta. O que há de mais baixo, o que há de mais vergonhoso, do que se Vesta deve a um asno a preservação de sua pureza? Mas o poeta inventou uma fábula. Seria mais verdadeiro o que é relatado por aqueles que escreveram os Fenômenos, quando falam das duas estrelas de Câncer, que os gregos chamam asnos? Que seriam os asnos que transportaram o Pai Líber quando ele não podia atravessar um rio, e que ele premiou um deles com o dom de falar com voz humana; e que surgiu uma disputa entre esse asno e Príapo; e Príapo, vencido na disputa, encolerizou-se e matou o vencedor. Isso, realmente, é muito mais absurdo. Mas os poetas têm licença para dizer o que quiserem. Não me intrometo em mistério tão odioso, nem despojo Príapo de seu disfarce, para que não venha à luz algo digno de riso. É verdade que os poetas inventaram essas ficções, mas devem tê-las inventado para ocultar depravação ainda maior. Inquiramos o que seja. Mas, de fato, isso é evidente. Pois, assim como o touro é sacrificado à Lua porque também ele possui chifres como ela; e como a Pérsia apazigua Hiperíon cercado de raios com um cavalo, para que não se ofereça vítima lenta a um deus veloz; assim, neste caso, não se podia encontrar vítima mais adequada do que aquela que se assemelhava àquele a quem era oferecida.[112] Em Lindos, cidade de Rodes, há ritos em honra de Hércules cuja observância difere amplamente de todos os demais; pois não se celebram com palavras de bom augúrio, como dizem os gregos, mas com injúrias e maldições. E consideram violação dos ritos sagrados se, durante a solenidade, escapar de alguém, ainda que inadvertidamente, uma palavra boa. E esta é a razão que atribuem a esse costume, se é que pode haver alguma razão em coisas tão destituídas de senso. Quando Hércules chegou àquele lugar, sofrendo fome, viu um lavrador trabalhando e começou a pedir-lhe que lhe vendesse um de seus bois. Mas o lavrador respondeu que isso era impossível, porque toda a sua esperança de cultivar a terra dependia inteiramente daqueles dois bois. Hércules, com sua costumeira violência, porque não pôde receber um deles, matou ambos. O infeliz, ao ver os bois mortos, vingou a ofensa com injúrias — o que trouxe prazer àquele homem tão elegante e refinado. Pois, enquanto prepara um banquete para seus companheiros e devora os bois alheios, recebe com zombaria e ruidoso riso as amargas censuras com que o outro o ataca. Mas, quando se determinou prestar honras divinas a Hércules em admiração de sua excelência, os cidadãos lhe ergueram um altar, ao qual ele deu, por causa do acontecido, o nome de Jugo dos Bois; e nesse altar eram sacrificados dois bois jungidos, semelhantes aos que ele tomara do lavrador. E nomeou o mesmo homem seu sacerdote, ordenando-lhe que sempre usasse as mesmas injúrias ao oferecer o sacrifício, porque dizia nunca ter festejado com maior prazer. Ora, essas coisas não são sagradas, mas sacrílegas, nas quais se impõe aquilo que, se for feito em outros assuntos, é punido com a maior severidade. E, além disso, que mostram os ritos do próprio Júpiter cretense, senão a maneira como foi retirado do pai ou criado? Há uma cabra pertencente à ninfa Amalthea, que amamentou o menino; e dessa cabra Germânico César fala assim em seu poema traduzido de Arato:[113] Pensa-se que ela foi ama de Júpiter; se de fato o infante Júpiter apertou os fiéis úberes da cabra cretense, que atesta a gratidão de seu senhor por uma brilhante constelação.[114] Musêu relata que Júpiter, quando lutava contra os Titãs, usou o couro dessa cabra como escudo, razão pela qual os poetas o chamam portador do escudo. Assim, tudo quanto foi feito ao esconder o menino também se reproduz nos ritos sagrados. Além disso, o mistério de sua mãe contém a mesma história que Ovídio expõe nos Fastos:[115] Agora o altivo Ida ressoa com tilintares, para que o menino possa chorar em segurança com boca infantil. Uns golpeiam os escudos com estacas, outros batem em elmos vazios. Esta é a ocupação dos Curetas, aquela dos Coribantes. O fato foi escondido, e as imitações do antigo feito permanecem; as deusas assistentes agitam instrumentos de bronze e peles ruidosas. Em vez de elmos, golpeiam címbalos, e tambores em vez de escudos; a flauta dá sons frígios, como outrora dava.[116] Salústio rejeitou por completo essa opinião, como se fosse invenção dos poetas, e quis dar explicação engenhosa das razões pelas quais se diz que os Curetas alimentaram Júpiter; e fala mais ou menos assim: porque foram os primeiros a compreender o culto da divindade, a antiguidade, que exagera todas as coisas, os fez conhecidos como ama-de-leite de Júpiter. Quão enganado estava esse homem erudito, a própria coisa o declara de imediato. Pois, se Júpiter ocupa o primeiro lugar, tanto entre os deuses quanto nos ritos religiosos, se nenhum deus era cultuado pelo povo antes dele, porque os que são adorados ainda não haviam nascido, resulta que os Curetas, ao contrário, foram os primeiros que não compreenderam o culto da divindade, visto que por meio deles todo erro foi introduzido e a memória do verdadeiro Deus foi apagada. Eles, portanto, deveriam ter entendido, pelos próprios mistérios e cerimônias, que dirigiam preces a homens mortos. Não exijo, então, que alguém acredite nas ficções dos poetas. Se alguém pensa que mentem, que considere os escritos dos próprios pontífices e examine toda a literatura concernente aos ritos sagrados; talvez encontre mais coisas do que as que trazemos, das quais poderá entender que tudo quanto é tido como sagrado é vazio, vão e fictício. Mas, se alguém, tendo encontrado a sabedoria, abandonar seu erro, certamente rirá das tolices de homens quase destituídos de entendimento: quero dizer, daqueles que ora dançam com gestos indecorosos, ora correm nus, untados e coroados com grinaldas, usando máscara ou besuntados de lama. E que direi dos escudos já apodrecidos pela idade? Quando os carregam, pensam que carregam os próprios deuses sobre os ombros. Pois Fúrio Bibáculo é tido entre os maiores exemplos de piedade porque, embora pretor, ainda assim carregava o escudo sagrado, precedido pelos lictores, ainda que seu ofício de pretor o dispensasse desse dever. Não era, portanto, Fúrio, mas completamente louco, aquele que pensou adornar seu pretorado com tal serviço. Com razão, já que essas coisas são feitas por homens não ignorantes nem grosseiros, exclama Lucrécio:[117] Ó mentes tolas dos homens! Ó peitos cegos! Em que trevas de vida e em quão grandes perigos passa este tempo de vida, qualquer que seja sua duração![118] Quem, possuindo algum senso, não riria dessas zombarias, ao ver homens, como se estivessem desprovidos de inteligência, fazendo seriamente coisas que, se alguém as fizesse por brincadeira, pareceria exageradamente jocoso e ridículo?[119] O autor e instaurador dessas vaidades entre os romanos foi aquele rei sabino que especialmente ocupou as mentes rudes e ignorantes dos homens com novas superstições; e, para fazê-lo com alguma autoridade, fingia ter encontros noturnos com a deusa Egéria. Havia uma caverna muito escura no bosque de Arícia, de onde brotava uma corrente de fonte perene. Para lá ele costumava retirar-se sem testemunhas, para poder fingir que, por advertência da deusa sua esposa, entregava ao povo aqueles ritos sagrados mais agradáveis aos deuses. É claro que desejava imitar a astúcia de Minos, que se escondia na caverna de Júpiter e, depois de longa demora ali, apresentava leis como se lhe tivessem sido dadas por Júpiter, para prender os homens à obediência não só pela autoridade do governo, mas também pela sanção da religião. Nem foi difícil persuadir pastores. Por isso instituiu pontífices, sacerdotes, sálios e áugures; organizou os deuses em famílias; e, por esses meios, abrandou os espíritos ferozes daquele povo novo e os desviou dos assuntos de guerra para a busca da paz. Mas, embora enganasse os outros, não enganava a si mesmo. Pois, muitos anos depois, no consulado de Cornélio e Bébio, em um campo pertencente ao escriba Petílio, sob o Janículo, foram encontrados por homens que cavavam dois cofres de pedra; em um estava o corpo de Numa; no outro, sete livros em latim sobre a lei dos pontífices e o mesmo número escrito em grego sobre sistemas de filosofia, nos quais ele não apenas anulava os ritos religiosos que ele mesmo havia instituído, mas todos os demais também. Quando isso foi levado ao senado, decretou-se que os livros fossem destruídos. Por isso Quinto Petílio, o pretor urbano, queimou-os em assembleia do povo. Isso foi procedimento insensato; pois de que adiantou que os livros fossem queimados, quando a própria causa por que foram queimados — que tiravam a autoridade devida à religião — foi transmitida à memória? Todo o senado, então, foi extremamente tolo; porque os livros poderiam ter sido queimados sem que o próprio fato se tornasse conhecido. Assim, enquanto querem provar até à posteridade com que piedade defenderam as instituições religiosas, diminuíram pela própria testemunha a autoridade dessas instituições.[120] Mas, assim como Pompílio foi o instituidor de superstições tolas entre os romanos, também antes dele houve Fauno no Lácio, que estabeleceu ritos ímpios a seu avô Saturno, honrou seu pai Pico com um lugar entre os deuses e consagrou sua irmã Fátua Fauna, que era também sua esposa; a qual, como relata Gábio Basso, foi chamada Fátua porque costumava predizer os destinos às mulheres, como Fauno os predizia aos homens. E Varrão escreve que ela era mulher de tamanha modéstia que, enquanto viveu, nenhum homem, exceto seu marido, a viu ou ouviu seu nome. Por isso as mulheres lhe oferecem sacrifícios em segredo e a chamam Boa Deusa. E Sexto Cláudio, no livro que escreveu em grego, relata que foi essa esposa de Fauno quem, por ter bebido uma talha de vinho contra o costume e a honra dos reis e se embriagado, foi espancada até a morte pelo marido com varas de murta. Depois, arrependido do que fizera e incapaz de suportar a dor, ele lhe prestou honras divinas. Por essa razão, dizem, coloca-se uma vasilha de vinho coberta em seus ritos sagrados. Portanto, Fauno também deixou à posteridade não pequeno erro, o que todos os inteligentes percebem. Pois Lucílio, nestes versos, zomba da loucura daqueles que imaginam ser deuses as imagens: as lâmias terrenas, que Fauno, Numa Pompílio e outros instituíram; e diante delas treme, nelas põe tudo. Assim como meninos pequenos creem que toda estátua de bronze é um homem vivo, assim estes imaginam verdadeiras todas as coisas fingidas: creem que estátuas de bronze contêm coração. É uma galeria de pintura; nada há de verdadeiro; tudo é fingido. O poeta, na verdade, compara os tolos a crianças. Mas eu digo que são muito mais insensatos do que as crianças. Pois estas supõem que as imagens são homens, ao passo que aqueles as tomam por deuses: uns por causa da idade, outros por causa da loucura, imaginam aquilo que não é verdadeiro; ao menos as crianças logo deixam de ser enganadas, enquanto a tolice dos outros é permanente e sempre aumenta. Orfeu foi o primeiro a introduzir na Grécia os ritos do Pai Líber; e pela primeira vez os celebrou em um monte da Beócia, muito perto de Tebas, onde Líber nascera; e, porque esse monte ressoava continuamente com os sons da lira, foi chamado Citéron. Esses ritos sagrados ainda hoje são chamados órficos, nos quais ele próprio foi rasgado e despedaçado; e viveu aproximadamente no mesmo tempo que Fauno. Mas qual dos dois era mais velho é duvidoso, já que Latino e Príamo reinaram nos mesmos anos, assim como seus pais Fauno e Laomedonte, em cujo reinado Orfeu veio com os argonautas às costas dos troianos.[121] Prossigamos, então, e investiguemos quem foi realmente o primeiro autor do culto aos deuses. Dídimo, em seus livros de comentário a Píndaro, diz que Melisseu, rei dos cretenses, foi o primeiro a sacrificar aos deuses e a introduzir novos ritos e pompas sacrificiais. Tinha duas filhas, Amalthea e Melissa, que alimentaram o jovem Júpiter com leite de cabra e mel. Daí surgiu a fábula poética de que abelhas voavam até a criança e enchiam sua boca de mel. Além disso, ele diz que Melissa foi nomeada por seu pai a primeira sacerdotisa da Grande Mãe; por isso as sacerdotisas da mesma Mãe ainda hoje são chamadas Melissas. Mas a História Sagrada testemunha que o próprio Júpiter, depois de apoderar-se do poder, chegou a tamanho orgulho que construiu templos em sua própria honra em muitos lugares. Pois, ao percorrer diferentes terras, em cada região aonde chegava unia a si, pela hospitalidade e amizade, os reis ou príncipes do povo; e, ao partir de cada uma delas, ordenava que um santuário lhe fosse dedicado sob o nome de seu anfitrião, como se assim se pudesse preservar a lembrança de sua amizade e aliança. Assim foram fundados templos em honra de Júpiter Atabírio e Júpiter Labrândio; pois Atabírio e Labrândio haviam sido seus anfitriões e auxiliares na guerra. Também foram construídos templos a Júpiter Laprio, a Júpiter Mólion, a Júpiter Cásio e a outros, do mesmo modo. Isso foi engenhoso expediente seu, para adquirir ao mesmo tempo honra divina para si e nome perpétuo para seus hospedeiros, associado às observâncias religiosas. E, por isso, eles se alegravam, submetiam-se de boa vontade à sua ordem e observavam ritos e festivais anuais para transmitir também o próprio nome. Eneias fez algo semelhante na Sicília, quando deu o nome de seu anfitrião Acestes à cidade que havia construído, para que Acestes depois a amasse, aumentasse e adornasse com alegria e boa vontade. Dessa maneira Júpiter espalhou pelo mundo a observância de seu culto e deu exemplo para imitação dos outros. Quer, portanto, a prática de adorar os deuses tenha vindo de Melisseu, como relatou Dídimo, quer do próprio Júpiter, como diz Evêmero, ainda assim o tempo em que os deuses começaram a ser cultuados permanece o mesmo. Melisseu, de fato, é muito anterior no tempo, visto que criou Júpiter, seu neto. Portanto, é possível que antes, ou enquanto Júpiter ainda era menino, tenha ensinado o culto aos deuses, a saber, à mãe de seu menino de criação, à avó dele Telo, esposa de Urano, e ao pai Saturno; e que ele próprio, por esse exemplo e instituição, tenha elevado Júpiter a tal soberba que este depois ousou atribuir honras divinas a si mesmo.[122] Agora, visto que averiguamos a origem das vãs superstições, resta também reunir os tempos em que viveram aqueles cuja memória é honrada. Teófilo, em seu livro escrito a Autólico sobre os tempos, diz que Talos relata em sua história que Belus, adorado pelos babilônios e assírios, viveu 322 anos antes da guerra de Troia; e que Belus, além disso, foi contemporâneo de Saturno, e que ambos cresceram ao mesmo tempo — o que é tão verdadeiro que se pode inferir pela própria razão. Pois Agamêmnon, que conduziu a guerra de Troia, era o quarto descendente de Júpiter; e Aquiles e Ajax eram do terceiro grau; e Ulisses estava em grau semelhante. Príamo, porém, estava afastado por longa série de gerações. Mas, segundo alguns autores, Dárdano e Iásio eram filhos de Córito, e não de Júpiter. Pois, se assim não fosse, Júpiter não poderia ter mantido aquela união impudica com Ganimedes, seu próprio descendente. Portanto, se dividires os anos que concordam entre si, o número estará em harmonia com os pais daqueles que nomeei acima. Ora, desde a destruição da cidade de Troia contam-se mil quatrocentos e setenta anos. Por esse cálculo dos tempos, torna-se manifesto que Saturno não nascera há mais de mil e oitocentos anos, e ele também foi pai de todos os deuses. Que eles, então, não se gloriem da antiguidade de seus ritos sagrados, já que tanto sua origem quanto seu sistema e seus tempos foram averiguados. Ainda restam algumas coisas que podem ter grande peso para refutar as falsas religiões; mas determinei agora pôr fim a este livro, para que não exceda limites moderados. Pois essas coisas devem ser tratadas mais plenamente, para que, depois de refutarmos tudo quanto parece opor-se à verdade, possamos instruir na verdadeira religião os homens que, por ignorância dos bens, vagueiam na incerteza. Mas o primeiro passo para a sabedoria é entender o que é falso; o segundo, descobrir o que é verdadeiro. Portanto, aquele que tiver tirado proveito desta minha primeira discussão, na qual expusemos as falsidades, será despertado para o conhecimento da verdade, acima do qual nenhum prazer é mais agradável ao homem; e já será digno da sabedoria do ensino celeste aquele que se aproximar, com disposição e preparo, do conhecimento dos outros assuntos.

