[1] Costumamos, para abreviar a discussão, estabelecer contra os hereges a regra da tardia origem deles.
[2] Pois, na medida em que, segundo a nossa regra, a prioridade pertence à verdade — a qual também predisse que haveria heresias — nessa mesma medida todas as opiniões posteriores devem ser previamente julgadas como heresias, por serem precisamente aquelas que a regra mais antiga da verdade havia predito que surgiriam um dia.
[3] Ora, a doutrina de Hermógenes traz esta mancha de novidade.
[4] Em suma, ele é um homem que vive no mundo no tempo presente; por sua própria natureza, um herege e, além disso, turbulento, que confunde loquacidade com eloquência, supõe que insolência seja firmeza e julga ser dever de uma boa consciência falar mal das pessoas.
[5] Além disso, despreza a lei de Deus em sua pintura, sustenta casamentos repetidos, invoca a lei de Deus em defesa da luxúria e, ainda assim, a despreza no que diz respeito à sua arte.
[6] Ele falseia por um duplo processo: com o seu ferro de cautério e com a sua pena.
[7] É completamente adúltero, tanto doutrinária quanto carnalmente, pois está de fato profundamente contaminado pelo contágio de vossos arranjadores de casamentos e também falhou em permanecer ligado à regra da fé, tal como o próprio Hermógenes do apóstolo. 2 Timóteo 1:15
[8] Contudo, deixemos de lado o homem, já que é a sua doutrina que eu questiono.
[9] Ele não parece reconhecer outro Cristo como Senhor, embora o sustente de modo diferente; mas, por essa diferença em sua fé, na verdade faz dEle outro ser — ou melhor, tira dEle tudo o que é divino, já que não quer admitir que Ele fez todas as coisas do nada.
[10] Pois, afastando-se dos cristãos para os filósofos, da Igreja para a Academia e o Pórtico, aprendeu ali com os estóicos a colocar a Matéria no mesmo nível do Senhor, como se ela também tivesse existido sempre, não gerada e não feita, sem qualquer princípio nem fim, e dela, segundo ele, o Senhor teria depois criado todas as coisas.
[11] Nosso péssimo pintor deu cor a esse seu tom principal absolutamente sem qualquer luz, com argumentos como estes.
[12] Ele começa estabelecendo a premissa de que o Senhor fez todas as coisas ou de Si mesmo, ou do nada, ou de alguma coisa.
[13] Faz isso para que, depois de mostrar que era impossível que Ele as tivesse feito ou de Si mesmo ou do nada, possa então afirmar a proposição restante: que as fez de alguma coisa, e que, portanto, essa alguma coisa era a Matéria.
[14] Ele diz que o Senhor não poderia ter feito todas as coisas de Si mesmo.
[15] Porque quaisquer coisas que o Senhor tivesse feito de Si mesmo seriam partes de Si mesmo.
[16] Mas Ele não é divisível em partes, porque, sendo o Senhor, é indivisível, imutável e sempre o mesmo.
[17] Além disso, se tivesse feito algo de Si mesmo, isso teria sido algo de Si mesmo.
[18] Ora, tudo aquilo que foi feito, bem como aquilo que Ele fez, teria de ser considerado imperfeito, porque foi feito de uma parte, e Ele o fez de uma parte.
[19] Ou, se novamente foi um todo que Ele fez, sendo Ele mesmo um todo, nesse caso teria sido ao mesmo tempo inteiro e, ainda assim, não inteiro.
[20] Porque seria necessário que Ele fosse inteiro para produzir a Si mesmo e, ao mesmo tempo, não inteiro para ser produzido a partir de Si mesmo.
[21] Mas esta é uma posição extremamente difícil.
[22] Pois, se Ele já existia, não poderia ser feito, porque já existia.
[23] Se, porém, não existia, não poderia fazer coisa alguma, porque seria um não-ser.
[24] Ele sustenta, além disso, que Aquele que sempre existe não entra em existência, mas existe para todo o sempre.
[25] Conclui, portanto, que Ele nada fez de Si mesmo, já que jamais passou a uma condição que tornasse possível fazer algo de Si mesmo.
[26] De modo semelhante, ele argumenta que Ele não poderia ter feito todas as coisas do nada.
[27] E raciocina assim: define o Senhor como um ser bom, sim, muito bom, que deve querer fazer coisas tão boas e excelentes quanto Ele mesmo é.
[28] De fato, seria impossível que Ele quisesse ou fizesse qualquer coisa que não fosse boa, ou antes, muito boa.
[29] Portanto, todas as coisas deveriam ter sido feitas por Ele boas e excelentes, conforme a Sua própria condição.
[30] A experiência mostra, entretanto, que até mesmo coisas más foram feitas por Ele.
[31] Não, é claro, por Sua própria vontade e prazer.
[32] Porque, se tivesse sido por Sua própria vontade e prazer, certamente não teria feito nada inconveniente ou indigno de Si mesmo.
[33] Portanto, aquilo que Ele não fez por Sua própria vontade deve ser entendido como tendo sido feito a partir da falha de alguma coisa, e isso, sem dúvida, vem da Matéria.
[34] Ele acrescenta ainda outro ponto: como Deus sempre foi Deus, nunca houve um tempo em que Deus não fosse também Senhor.
[35] Mas de modo algum seria possível considerá-Lo sempre Senhor, da mesma maneira como sempre foi Deus, se não houvesse existido sempre, na eternidade anterior, alguma coisa da qual Ele pudesse ser considerado perpetuamente o Senhor.
[36] Assim, ele conclui que Deus sempre teve a Matéria coexistindo consigo como objeto do Seu senhorio.
[37] Ora, esse tecido de argumentos dele eu me apressarei imediatamente em desfazer.
[38] Quis expô-lo com essa extensão, para instrução daqueles que não conhecem o assunto, a fim de que saibam que também os demais argumentos dele só precisam ser compreendidos para serem refutados.
[39] Afirmamos, então, que o nome de Deus sempre existiu com Ele e nEle mesmo — mas não eternamente o de Senhor.
[40] Porque a condição de um não é a mesma que a do outro.
[41] Deus é a designação da própria substância, isto é, da Divindade.
[42] Mas Senhor é nome não da substância, e sim do poder.
[43] Sustento que a substância sempre existiu com o seu próprio nome, que é Deus.
[44] O título Senhor foi acrescentado depois, como indicação de algo que sobreveio.
[45] Porque, a partir do momento em que começaram a existir aquelas coisas sobre as quais o poder de um Senhor deveria agir, Deus, pelo acréscimo desse poder, tanto se tornou Senhor quanto recebeu esse nome.
[46] Porque Deus também é Pai, e também é Juiz.
[47] Mas Ele nem sempre foi Pai e Juiz, simplesmente pelo fato de sempre ter sido Deus.
[48] Pois não poderia ter sido Pai antes do Filho, nem Juiz antes do pecado.
[49] Houve, porém, um tempo em que nem o pecado existia com Ele, nem o Filho.
[50] O primeiro faria do Senhor um Juiz, e o segundo, um Pai.
[51] Assim, Ele não era Senhor antes da existência daquelas coisas das quais viria a ser Senhor.
[52] Mas só haveria de se tornar Senhor em algum momento futuro.
[53] Assim como se tornou Pai pelo Filho e Juiz pelo pecado, assim também se tornou Senhor por meio daquelas coisas que havia feito, para que O servissem.
[54] Pareço-te estar tecendo argumentos, Hermógenes?
[55] Como a Escritura vem belamente em nosso auxílio, quando aplica a Ele os dois títulos com distinção e os revela, cada um, em seu devido tempo!
[56] Pois o título Deus, que de fato sempre Lhe pertenceu, a Escritura o nomeia logo no princípio: No princípio criou Deus os céus e a terra. Gênesis 1:1
[57] E, enquanto continuava fazendo, uma após a outra, aquelas coisas das quais viria a ser Senhor, ela menciona apenas Deus.
[58] E Deus disse, e Deus fez, e Deus viu.
[59] Mas em nenhum lugar ainda encontramos o título Senhor.
[60] Porém, quando completou toda a criação, e especialmente o próprio homem, que estava destinado a compreender de modo particularmente apropriado a Sua soberania, então Ele é designado Senhor.
[61] Então também a Escritura acrescentou o nome Senhor: E o Senhor Deus, Deus Dominus, tomou o homem que havia formado. Gênesis 2:15
[62] E o Senhor Deus ordenou a Adão. Gênesis 2:16
[63] Daí em diante, Aquele que antes era somente Deus, é Senhor, desde o momento em que passou a ter algo de que pudesse ser Senhor.
[64] Pois para Si mesmo Ele sempre foi Deus, mas para todas as coisas só então foi Deus, quando também se tornou Senhor.
[65] Portanto, na medida em que Hermógenes supuser que a Matéria era eterna, com base em que o Senhor era eterno, nessa mesma medida ficará evidente que nada existia, porque é claro que o Senhor, enquanto tal, nem sempre existiu.
[66] Agora quero também, de minha parte, acrescentar uma observação em favor dos ignorantes, dos quais Hermógenes é um exemplo extremo, e realmente voltar contra ele os seus próprios argumentos.
[67] Pois, quando ele nega que a Matéria tenha sido gerada ou feita, descubro que, mesmo nesses termos, o título Senhor é inadequado a Deus em relação à Matéria.
[68] Porque ela teria de ser livre, já que, não tendo princípio, não teve autor.
[69] O fato de sua existência anterior não devia nada a ninguém, de modo que não poderia estar sujeita a ninguém.
[70] Portanto, desde que Deus exerceu Seu poder sobre ela, criando todas as coisas a partir da Matéria, embora ela durante todo esse tempo tivesse experimentado Deus como seu Senhor, ainda assim a Matéria demonstra, afinal, que Deus não existia em relação a ela como Senhor, embora na realidade Ele o fosse.
[71] Neste ponto, então, começarei a tratar da Matéria: como, segundo Hermógenes, Deus a compara consigo mesmo como igualmente não gerada, igualmente não feita, igualmente eterna, apresentada como sem princípio e sem fim.
[72] Pois que outra avaliação de Deus existe senão a eternidade?
[73] E que outra condição tem a eternidade senão a de sempre ter existido e de ainda existir para sempre, em virtude do privilégio de não ter nem princípio nem fim?
[74] Ora, visto que esta é uma propriedade de Deus, ela pertencerá somente a Deus, a quem essa propriedade pertence.
[75] E isso, é claro, por esta razão: se pode ser atribuída a qualquer outro ser, então já não será propriedade de Deus, mas pertencerá, juntamente com Ele, também àquele ser ao qual for atribuída.
[76] Pois, embora existam os que são chamados deuses por nome, quer no céu, quer na terra, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas. 1 Coríntios 8:5
[77] Daí a razão maior por que, em nosso entendimento, aquilo que é propriedade de Deus deve ser considerado como pertencente somente a Deus.
[78] E também por que, como já disse, isso deve deixar de ser tal propriedade quando é compartilhado por outro ser.
[79] Ora, visto que Ele é Deus, é necessariamente um sinal único desta qualidade que ela esteja restrita a Um só.
[80] De outro modo, o que haverá de único e singular, se não for aquilo que nada tem de igual?
[81] O que haverá de principal, se não for aquilo que está acima de todas as coisas, antes de todas as coisas, e de que procedem todas as coisas?
[82] Possuindo essas coisas, Ele somente é Deus; e, por possuí-las exclusivamente, Ele é Um.
[83] Se outro também participasse dessa posse, então haveria tantos deuses quantos fossem os possuidores desses atributos de Deus.
[84] Hermógenes, portanto, introduz dois deuses.
[85] Ele introduz a Matéria como igual a Deus.
[86] Deus, porém, deve ser Um, porque Deus é aquilo que é supremo.
[87] Mas nada mais pode ser supremo senão aquilo que é único.
[88] E não pode de modo algum ser único aquilo que tenha algo igual a si.
[89] E a Matéria será igual a Deus quando for tida como eterna.
[90] Mas Deus é Deus, e Matéria é Matéria.
[91] Como se uma mera diferença de nomes impedisse a igualdade, quando se reivindica para ambos identidade de condição!
[92] Admitamos que a natureza deles seja diferente.
[93] Admitamos também que a forma deles não seja idêntica.
[94] Que importa isso, contanto que o estado absoluto de ambos tenha um só modo?
[95] Deus é não gerado; não é também a Matéria não gerada?
[96] Deus sempre existe; não é também a Matéria sempre existente?
[97] Ambos são sem princípio.
[98] Ambos são sem fim.
[99] Ambos são autores do universo: tanto Aquele que o criou quanto a Matéria da qual o fez.
[100] Pois é impossível que a Matéria não seja considerada autora de todas as coisas, quando o universo é composto dela.
[101] Que resposta ele dará?
[102] Dirá ele que a Matéria não é comparável a Deus, ainda que possua algo pertencente a Deus, e que, por não ter a totalidade da divindade, não pode corresponder à extensão total da comparação?
[103] Mas o que ele reservou a mais para Deus, para que não pareça ter concedido à Matéria a plena medida da Deidade?
[104] Ele responde que, embora esta seja a prerrogativa da Matéria, tanto a autoridade quanto a substância de Deus devem permanecer intactas.
[105] É por virtude disso que Ele é considerado o único e primeiro Autor, bem como o Senhor de todas as coisas.
[106] A verdade, porém, preserva a unidade de Deus de tal maneira que insiste em que tudo quanto pertence ao próprio Deus pertença somente a Ele.
[107] Pois assim pertencerá a Ele próprio, se pertencer somente a Ele.
[108] E, portanto, será impossível admitir outro deus, quando não é permitido a nenhum outro ser possuir qualquer coisa de Deus.
[109] Bem, então, dizes tu, nesse caso nós mesmos não possuímos nada de Deus.
[110] Mas de fato possuímos, e continuaremos a possuir — só que é dEle que o recebemos, e não de nós mesmos.
[111] Pois até seremos deuses, se merecermos estar entre aqueles acerca dos quais Ele declarou: Eu disse: vós sois deuses; e: Deus está na congregação dos deuses.
[112] Mas isso procede de Sua própria graça, e não de alguma propriedade em nós.
[113] Porque é somente Ele quem pode fazer deuses.
[114] A propriedade da Matéria, porém, Hermógenes faz ser aquilo que ela tem em comum com Deus.
[115] De outro modo, se tivesse recebido de Deus a propriedade que pertence a Deus — quero dizer, o atributo da eternidade — então até se poderia supor que ela possui um atributo em comum com Deus e, ao mesmo tempo, não é Deus.
[116] Mas que incoerência há em ele admitir uma posse conjunta de um atributo com Deus e também querer que aquilo que ele não nega à Matéria seja, afinal, privilégio exclusivo de Deus!

