[1] Por que, então, se o costume romano é a “salvação” social de todos, ainda assim vocês permanecem gregos em alto grau, até mesmo em pontos nada honrosos? Ou então, se não é assim, de onde vem que províncias mais bem formadas, províncias que a própria natureza adaptou antes para vencer com duro esforço as dificuldades do solo, adotem os exercícios do ginásio — exercícios que envelhecem tristemente e trabalham em vão — bem como a unção com lama, o rolar na areia e a dieta seca?
[2] De onde vem que alguns de nossos númidas, com longas madeixas tornadas ainda mais longas por penachos de rabo de cavalo, aprendam a mandar o barbeiro raspar rente a pele, poupando da lâmina somente o topo da cabeça?
[3] De onde vem que homens rudes e peludos aprendam a fazer com que a resina devore com tanta avidez os pelos de seus braços, e que a pinça desbaste o queixo com tamanha furtividade?
[4] É um prodígio que tudo isso seja feito sem o Manto!
[5] Ao Manto pertence toda essa prática asiática.
[6] Que tendes vós, ó Líbia, e tu, ó Europa, a ver com esses refinamentos atléticos, que nem sabeis como usar?
[7] Pois, na verdade, que coisa é praticar a depilação à moda grega mais do que o traje à moda grega?
[8] A mudança de vestimenta se aproxima da culpa precisamente na medida em que não é o costume, mas a natureza, que sofre a alteração.
[9] Há diferença bastante grande entre a honra devida ao tempo e a religião.
[10] Que o Costume guarde fidelidade ao Tempo; a Natureza, a Deus.
[11] Contra a natureza, portanto, o herói de Larissa desferiu um golpe ao transformar-se em virgem; ele, que havia sido criado com a medula de animais selvagens — de onde, aliás, derivou a composição de seu nome, porque seus lábios haviam sido estranhos ao seio materno.
[12] Ele fora criado por um instrutor rochoso, amigo das matas e monstruoso, numa escola pedregosa.
[13] Tu suportarias com paciência, se fosse no caso de um menino, a solicitude de sua mãe.
[14] Mas ele, em todo caso, já era barbado; ele, em todo caso, já havia dado secretamente prova de sua masculinidade a alguém, quando consente em usar a estola esvoaçante, arrumar os cabelos, cultivar a pele, consultar o espelho e adornar o pescoço.
[15] Efeminou-se até nas orelhas, ao perfurá-las; disso, seu busto em Sigeu ainda conserva o sinal.
[16] Depois, evidentemente, tornou-se soldado, pois a necessidade lhe restaurou o sexo.
[17] Soara o clarim da batalha, e não era difícil achar armas.
[18] O próprio aço, diz Homero, atrai o herói.
[19] Se, porém, depois daquele estímulo, assim como antes, ele tivesse perseverado em sua feminilidade, poderia muito bem ter sido casado!
[20] Eis, portanto, a mutação.
[21] Chamo-o de monstro — duplo monstro: de homem em mulher; e depois, de mulher em homem.
[22] Pois nem a verdade devia ter sido desmentida, nem o engano confessado.
[23] Cada uma dessas formas de mudança era má: a primeira, oposta à natureza; a segunda, contrária à segurança.
[24] Ainda mais vergonhoso foi o caso em que a luxúria transfigurou um homem em seu traje, do que quando algum temor materno o fizera.
[25] E, no entanto, vós me prestais adoração àquele diante de quem deveríeis corar: aquele portador do porrete e da pele, que trocou por vestes femininas todo o orgulhoso patrimônio do seu nome!
[26] Tão grande licença foi concedida aos retiros secretos da Lídia, que Hércules foi prostituído na pessoa de Ônfale, e Ônfale na de Hércules.
[27] Onde estavam Diomedes e suas manjedouras ensanguentadas?
[28] Onde Busíris e seus altares funerários?
[29] Onde Gerião, triplamente um?
[30] O porrete ainda preferia fumegar com os miolos deles, enquanto era importunado com unguentos.
[31] A mancha já veterana do sangue da Hidra e dos Centauros, que havia nas flechas, era pouco a pouco apagada pela pedra-pomes, tão familiar ao alfinete de cabelo.
[32] Enquanto isso, a voluptuosidade zombava do fato de que, depois de transpassarem monstros, aquelas mãos talvez viessem a costurar uma coroa!
[33] Mulher alguma sóbria, ou heroína de alguma nota, teria ousado pôr os ombros debaixo da pele de tal fera, a não ser depois de muito amaciamento, alisamento e desodorização.
[34] Na casa de Ônfale, espero eu, isso foi feito com bálsamo e ungüento de feno-grego.
[35] Suponho que a juba também se submeteu ao pente.
[36] Do contrário, o pescoço delicado dela teria absorvido a rudeza leonina.
[37] A boca aberta, cheia de pelos, os dentes cobertos entre as madeixas, todo o semblante ultrajado teria rugido, se pudesse.
[38] Nemeia, em todo caso, se aquele lugar possui algum gênio protetor, gemeu.
[39] Pois então olhou ao redor e viu que havia perdido o seu leão.
[40] Que espécie de ser era aquele Hércules na seda de Ônfale, a descrição de Ônfale na pele de Hércules já o retratou por inferência.
[41] Além disso, aquele que outrora rivalizara com o Tiríntio — o pugilista Cleômaco — depois, em Olímpia, ao perder o sexo masculino por um escoamento e por incrível mutação, machucado por dentro da pele e por fora, digno de ser coroado até entre os pisoeiros de Nôvio, e justamente lembrado pelo mímico Lentulo em seus “Catinenses”…
[42] …fez, evidentemente, não só cobrir com braceletes as marcas deixadas pelas correias do cesto, mas também trocou a aspereza grosseira do manto de atleta por algum tecido finíssimo e refinado.
[43] De Fisco e de Sardanápalo devo calar-me, pois, não fosse a eminência de seus prazeres, ninguém os reconheceria como reis.
[44] Mas devo calar-me, para que até eles não levantem murmúrios a respeito de alguns de vossos Césares, igualmente perdidos para a vergonha.
[45] Para que não tenha sido dado algum mandato à constância canina de apontar um César mais impuro que Fisco, mais efeminado que Sardanápalo, e de fato um segundo Nero.
[46] Não menos ardentemente atua também a força da vanglória para a mudança das vestes, mesmo quando a masculinidade é preservada.
[47] Toda afeição é um calor.
[48] Mas, quando esse calor é soprado até a chama da afetação, então, pelo incêndio da glória, torna-se um ardor.
[49] Dessa lenha, portanto, vês ferver um grande rei, inferior apenas à sua glória.
[50] Ele havia vencido a raça dos medos e foi vencido pelo traje dos medos.
[51] Despindo a armadura triunfal, degradou-se nas calças do cativo.
[52] O peito talhado com saliências escamosas, cobrindo-o com um tecido transparente, ele o deixou nu.
[53] Ainda perseguindo, por assim dizer, a obra da guerra, e amolecendo-a, apagou-a com a seda ventilada.
[54] Não era suficientemente inchado de espírito o macedônio, a menos que também se deleitasse com vestes altamente infladas.
[55] Apenas os filósofos também, creio eu, afetam algo desse tipo.
[56] Pois ouço dizer que já existiu algo como filosofar de púrpura.
[57] Se um filósofo aparece em púrpura, por que não também em sandálias douradas?
[58] Pois para um tírio calçar qualquer coisa que não seja ouro não condiz, de modo algum, com os hábitos gregos.
[59] Alguém dirá: “Mas houve outro que usou seda e calçou sandálias de bronze.”
[60] Com razão, sem dúvida, para que, no fundo de sua vestimenta báquica, produzisse algum tilintar, caminhava ele como em címbalos.
[61] Mas, se naquele momento Diógenes estivesse latindo de dentro de seu tonel, não o pisaria com pés enlameados — como testemunham os leitos platônicos.
[62] Antes, teria arrastado Empédocles corporalmente para os recessos secretos das Cloacinas.
[63] Assim, aquele que loucamente se julgara um ser celeste poderia, como deus, saudar primeiro suas irmãs e depois os homens.
[64] Tais vestimentas, portanto, que afastam da natureza e da modéstia, seja tido por justo fitá-las firmemente, apontá-las com o dedo e expô-las ao ridículo com um gesto.
[65] Exatamente assim, se um homem usasse uma veste delicada arrastando pelo chão, à maneira efeminada de Menandro, ouviria aplicar-se a si mesmo o que diz o comediante: “Que espécie de manto é esse que aquele louco está desperdiçando?”
[66] Pois agora que o cenho contraído da vigilância censória há muito foi alisado, no que diz respeito à repreensão, o uso promíscuo oferece aos nossos olhos libertos com traje equestre, escravos marcados com traje de cavalheiros, notoriamente infames com trajes de homens livres, camponeses com vestes urbanas, bufões com trajes de advogados, rústicos em uniforme militar.
[67] O carregador de cadáveres, o cafetão, o treinador de gladiadores, todos se vestem como vós.
[68] Volta-te, agora, para as mulheres.
[69] Tens de ver aquilo que Cecina Severo levou à séria atenção do senado: matronas em público sem estola.
[70] De fato, a pena infligida pelos decretos do áugure Lêntulo a qualquer matrona que assim se destituísse era a mesma da fornicação.
[71] Pois certas matronas haviam promovido diligentemente o desuso de vestes que eram sinais e guardiãs da dignidade, por as considerarem impedimentos para a prática da prostituição.
[72] Mas agora, em sua autoprostiuição, para que possam ser abordadas com mais facilidade, renunciaram à estola, à túnica de baixo, ao toucado e à capa.
[73] Sim, até às próprias liteiras e cadeiras cobertas, nas quais costumavam ser mantidas em recato e segredo mesmo em público.
[74] Enquanto uma apaga os próprios adornos, outra resplandece com adornos que não lhe pertencem.
[75] Olha para as mulheres da rua, os açougues da luxúria popular.
[76] Olha também para as que abusam de si mesmas com o próprio sexo.
[77] E, se é melhor apartar os olhos de tais espetáculos vergonhosos de castidade publicamente sacrificada, então ao menos olha de viés, e logo verás que são matronas.
[78] Enquanto a dirigente dos bordéis ostenta sua seda ondulante e consola o pescoço — mais impuro que sua própria habitação — com colares…
[79] …e introduz nos braceletes mãos cúmplices de toda vergonha, braceletes que até matronas, entre os prêmios concedidos a homens valentes, sem hesitação teriam apropriado para si…
[80] …e ajusta à perna impura o sapato branco ou cor-de-rosa, puro…
[81] …por que não olhas com espanto para tais vestes?
[82] Ou então para aquelas que falsamente invocam a religião como apoio de sua novidade?
[83] Enquanto, por causa de uma roupa inteiramente branca, da distinção de uma fita e do privilégio de um capacete, algumas são iniciadas nos mistérios de Ceres…
[84] …enquanto outras, por desejo contrário de roupas sombrias e de uma cobertura escura de lã sobre a cabeça, enlouquecem no templo de Belona…
[85] …enquanto o fascínio de cingir-se com uma túnica mais largamente listrada de púrpura e lançar sobre os ombros um manto escarlate da Galácia recomenda Saturno ao afeto de outras…
[86] …quando este mesmo Manto, disposto com mais rigoroso cuidado, e sandálias à moda grega, serve para lisonjear Esculápio…
[87] …quanto mais deveríeis então acusá-lo e persegui-lo com os olhos como culpado de superstição, embora superstição simples e sem afetação?
[88] Certamente, quando pela primeira vez ele veste essa sabedoria que renuncia às superstições com todas as suas vaidades, então o Manto, acima de todas as vestes com que revestis vossos deuses e deusas, é roupa augustíssima.
[89] E, acima de todos os gorros e penachos dos vossos Sálios e Flâmines, é vestimenta sacerdotal.
[90] Baixai os olhos, aconselho-vos, e reverenciai essa veste, ao menos por este motivo, sem esperar outros: ela é renunciadora do vosso erro.
[91] “Ainda assim”, dizeis vós, “devemos mudar da toga para o Manto?”
[92] Ora, e se fosse do diadema e do cetro?
[93] Acaso Anacársis mudou de outro modo, quando preferiu a filosofia à realeza da Cítia?
[94] Concedamos que não haja sinais milagrosos que provem vossa transformação para melhor.
[95] Há, porém, algo que essa vossa veste pode fazer.
[96] Pois, para começar pela simplicidade de vesti-la: ela não requer arranjo trabalhoso.
[97] Assim, não há necessidade de algum artista dispor formalmente suas rugas e pregas desde o dia anterior, nem de refiná-las com elegância mais acabada, nem de confiar aos esticadores a guarda de toda a fictícia protuberância acumulada.
[98] Depois, ao amanhecer, primeiro se recolhe com o auxílio de um cinto a túnica que teria sido melhor tecer mais curta desde o início.
[99] Em seguida, torna-se a examinar a protuberância, corrigindo qualquer desalinho.
[100] Faz-se sobressair uma parte à esquerda, e então, concluindo as dobras, puxa-se para trás dos ombros o contorno de onde se forma a cavidade.
[101] Deixa-se livre o ombro direito, amontoando tudo ainda sobre o esquerdo, e reservando outro conjunto semelhante de pregas para as costas.
[102] E assim se veste o homem com um fardo.
[103] Em resumo, perguntarei insistentemente à tua própria consciência: qual é tua primeira sensação ao vestires a toga?
[104] Sentes-te vestido ou carregado?
[105] Usando uma veste ou carregando-a?
[106] Se responderes negativamente, eu te seguirei até casa.
[107] Verei o que te apressas a fazer imediatamente após cruzar tua soleira.
[108] Na verdade, não há veste cuja retirada felicite mais um homem do que a da toga.
[109] Dos calçados nada diremos: instrumentos de tortura próprios da toga, proteção imundíssima para os pés, sim, e enganosa também.
[110] Pois quem não acharia mais conveniente, no frio e no calor, endurecer com os pés descalços do que com os pés presos em sapatos?
[111] Grande fortificação para a marcha forneceram as oficinas venezianas de sapatos na forma de botas efeminadas!
[112] Bem, mas nada é mais prático que o Manto, ainda que seja duplo, como o de Crates.
[113] Em parte alguma há perda compulsória de tempo ao vestir-se com ele, visto que toda a sua arte consiste em cobrir frouxamente.
[114] Isso pode ser feito com uma só volta, e uma que de modo algum é deselegante.
[115] Assim, ele cobre de uma só vez todas as partes do homem.
[116] O ombro ele ou deixa exposto ou envolve.
[117] No mais, adere ao ombro.
[118] Não tem suporte envolvente.
[119] Não tem laço ao redor.
[120] Não tem ansiedade quanto à fidelidade com que suas pregas se mantêm no lugar.
[121] Facilmente ele se ajusta, facilmente se reajusta.
[122] Até ao ser tirado, não é entregue a nenhum suplício até o dia seguinte.
[123] Se se usa alguma túnica de baixo sob ele, o tormento do cinto é supérfluo.
[124] Se se usa alguma coisa como calçado, trata-se de algo muito limpo.
[125] Ou então os pés ficam antes descalços — mais viris, em todo caso, descalços, do que em sapatos.
[126] Estas razões apresento por ora em favor do Manto, na medida em que o difamastes pelo nome.
[127] Agora, porém, ele vos desafia também quanto à sua função.
[128] “Eu”, diz ele, “não devo serviço algum ao fórum, ao campo eleitoral ou à cúria.
[129] Não faço vigílias servis, não ocupo tribunas, não ando rondando residências pretorianas.
[130] Não cheiro a canais, não cheiro a janelas gradeadas, não passo a vida desgastando bancos, não sou grande arrasador de leis, nem advogado ladrador, nem juiz, nem soldado, nem rei.
[131] Retirei-me do povo.
[132] Minha única ocupação é comigo mesmo.
[133] Fora isso, nenhum outro cuidado tenho, senão não me preocupar.
[134] A vida melhor tu a desfrutarias mais no retiro do que na publicidade.
[135] Mas me chamarás de indolente.
[136] Sem dúvida, ‘devemos viver pela pátria, pelo império e pelo patrimônio’.
[137] Assim costumava ser o pensamento antigo.
[138] Ninguém nasce para outro, estando destinado a morrer por si mesmo.
[139] Em todo caso, quando chegais aos epicuristas e aos zenonianos, dais o título de ‘sábios’ a todo o magistério da Quietude, que consagrou essa Quietude com o nome de prazer ‘supremo’ e ‘único’.
[140] Ainda assim, até certo ponto será permitido também a mim conferir benefício ao público.
[141] De qualquer marco ou altar, costumo prescrever remédios para os costumes.
[142] Remédios que serão mais felizes em restaurar a saúde dos assuntos públicos, dos estados e dos impérios, do que as vossas obras.
[143] De fato, se eu vier a enfrentar-vos com armas nuas, as togas fizeram mais mal à república do que as couraças.
[144] Além disso, eu não lisonjeio vícios.
[145] Não dou trégua à letargia, nem à crosta preguiçosa.
[146] Aplico o ferro cauterizante à ambição que levou M. Túlio a comprar uma mesa redonda de madeira de cítrico por mais de quatro mil libras.
[147] E a Asínio Galo a pagar o dobro por uma mesa comum da mesma madeira mourisca.
[148] Ah! A que fortunas avaliaram essas manchas amadeiradas!
[149] Ou ainda a Sula, que mandou fabricar pratos de cem libras de peso.
[150] Temo que essa balança seja pequena, quando um Drusilano — e, além disso, escravo de Cláudio! — constrói uma bandeja do peso de quinhentas libras.
[151] Bandeja talvez indispensável às mesas mencionadas, para as quais, se se ergueu uma oficina, também se deveria ter erguido uma sala de jantar.
[152] Do mesmo modo, enterro o bisturi na desumanidade que levou Védio Polião a expor escravos para encher os ventres de moreias marinhas.
[153] Deleitava-se, com efeito, com sua nova selvageria.
[154] Mantinha monstros terrestres sem dentes, sem garras, sem chifres.
[155] Tinha prazer em converter à força seus peixes em feras, que de imediato seriam cozidas, para que, em suas entranhas, ele próprio experimentasse também algum sabor dos corpos de seus próprios escravos.
[156] Anteciparei a gula que levou Hortênsio, o orador, a ser o primeiro a ter coragem de matar um pavão para servir de comida.
[157] A gula que levou Aufídio Lurco a ser o primeiro a corromper a carne com recheios e, com o auxílio de pastas, elevá-la a um sabor adulterado.
[158] A gula que levou Asínio Céler a comprar o prato de um único salmonete por quase cinquenta libras.
[159] A gula que levou Ésopo, o ator, a conservar em sua despensa um prato no valor de quase oitocentas libras, composto de aves de igual preciosidade, de todas as aves canoras e falantes.
[160] E que levou seu filho, depois de tal iguaria, a ter a ousadia de desejar algo ainda mais suntuoso.
[161] Pois ele engoliu pérolas — caras até pelo próprio nome —, suponho eu, para não parecer ter ceado mais pobremente que o pai.
[162] Calo-me quanto aos Neros, aos Apícios e aos Rufos.
[163] Darei um catártico à impureza de um Escauro, ao jogo de um Cúrio e à intemperança de um Antônio.
[164] E lembrai-vos de que estes, entre os muitos que nomeei, eram homens da toga.
[165] Tais homens não encontrarias facilmente entre os homens do pálio.
[166] Quem eliminará e drenará essas purulências do Estado, senão um discurso revestido de manto?
[167] “Com palavras”, diz o meu oponente, “tentaste persuadir-me: remédio sapientíssimo.”
[168] Mas, ainda que a fala esteja muda — impedida pela infância ou contida pela timidez, pois a vida se contenta com uma filosofia mesmo sem língua —, meu próprio corte é eloquente.
[169] Um filósofo, de fato, é ouvido enquanto é visto.
[170] Minha própria visão faz os vícios corarem.
[171] Quem não sofre ao ver o próprio rival?
[172] Quem pode suportar contemplar com os olhos aquele a quem não suporta na mente?
[173] Grande é o benefício conferido pelo Manto, ao simples pensamento do qual a improbidade moral cora por completo.
[174] Que a filosofia agora cuide da questão de sua própria utilidade, pois não é a única companheira de que me glorio.
[175] Glorio-me também de outras artes científicas de utilidade pública.
[176] Do meu guarda-roupa se vestem o primeiro mestre das formas das letras, o primeiro explicador de seus sons, o primeiro instrutor nos rudimentos da aritmética…
[177] …o gramático, o retórico, o sofista, o médico, o poeta, o marcador do tempo musical, o astrólogo e o observador de aves.
[178] Tudo o que há de liberal nos estudos é coberto pelos meus quatro cantos.
[179] “É verdade, mas todos esses estão abaixo dos cavaleiros romanos.”
[180] Pois bem, mas vossos treinadores de gladiadores e toda a sua ignominiosa comitiva são conduzidos à arena em togas.
[181] Esta, sem dúvida, será a indignidade implícita em ‘da toga para o Manto’!
[182] Assim fala o Manto.
[183] Mas eu lhe concedo também comunhão com uma seita e disciplina divinas.
[184] Alegra-te, Manto, e exulta!
[185] Uma filosofia melhor dignou-se agora honrar-te, desde que começaste a ser a veste do cristão.

