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[1] Argumento 3 — Três pontos de vista de Erasmo a respeito do “livre-arbítrio”.

[2] Você apresenta três pontos de vista acerca de um mesmo “livre-arbítrio”. Examinemo-los!

[3] O primeiro é a ideia de que o homem não pode querer fazer o bem; ele não pode tomar tal iniciativa, progredir nessa direção ou consumar o bem, sem a graça especial. A esse ponto de vista, você chama de “rígido, mas suficientemente provável”.

[4] O segundo ponto de vista, que você reputa “ainda mais rígido”, é o de que o “livre-arbítrio” só pode conduzir o homem ao pecado, e que somente a graça divina pode conduzi-lo à bondade.

[5] O terceiro ponto de vista, que você considera como “o mais rígido de todos”, é que o “livre-arbítrio” não tem qualquer sentido, e que Deus é a causa tanto do bem quanto do mal que em nós existe.

[6] Você se declara disposto a aceitar o primeiro desses três pontos de vista, porquanto permite que o homem faça algum esforço. E afirma que se opõe aos dois outros.

[7] Você parece não saber o que está dizendo! Esses não são, realmente, três diferentes pontos de vista. São um único ponto de vista, expresso mediante diferentes palavras, em ocasiões diferentes por seus oponentes.

[8] Sua definição de “livre-arbítrio” em coisa alguma se assemelha ao primeiro ponto de vista, o qual você declara aceitável.

[9] A sua definição assegura que o “livre-arbítrio” pode fazer tanto o bem quanto o mal.

[10] No entanto, o ponto de vista que você aceita afirma que a vontade humana não pode escolher o bem sem a ajuda da graça divina.

[11] Assim, você já conta com duas vontades humanas em desacordo.

[12] Ao aceitar o primeiro ponto, você concorda que o “livre-arbítrio” não pode praticar o bem. Você mesmo disse, um pouco antes: “A vontade humana é tão maligna que perdeu a sua liberdade, sendo forçada a servir ao pecado, não podendo retomar a um estado melhor”.

[13] Não obstante, quando eu digo exatamente a mesma coisa, você diz: “Nunca se ouviu coisa tão absurda”.

[14] O que você escreve significa que tentar ser bom está, ao mesmo tempo, e não está no poder do “livre-arbítrio”. Se isso não é um absurdo, gostaria de saber o que é!

[15] As suas afirmativas são de tal modo contrárias umas às outras que não há qualquer possibilidade de permanecerem coesas.

[16] Não há meio termo entre “ser capaz de fazer o bem” e “não ser capaz de fazer o bem”.

[17] No que concerne ao segundo e ao terceiro pontos de vista que você delineou, nada há neles que já não se encontre no primeiro.

[18] Os três pontos de vista concordam plenamente uns com os outros. Você diz que se opõe ao segundo e ao terceiro, mas todos os três afirmam que a vontade humana perdeu a sua liberdade, sendo forçada a servir ao pecado, não podendo pôr o bem em prática.

[19] Ora, se isso é verdade, segue-se que quando o ser humano pratica algum mal, assim age porque é forçado. Ele não pode evitá-lo.

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