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[1] Argumento 9 — Confusão de Erasmo acerca da lei e do evangelho.

[2] Você se vale de inúmeras passagens para provar a sua posição, mas fracassa completamente em sua tentativa de mostrar a diferença entre a lei e o evangelho.

[3] Para exemplificar, consideremos o texto de Jeremias 15.19: “Se tu te arrependeres, eu te farei voltar e estarás diante de mim…”; e Zacarias 1.3: “Tornai-vos para mim, diz o Senhor dos Exércitos, e eu me tornarei para vós outros…”.

[4] Porventura, “tornai-vos” prova que o homem tem a capacidade de voltar? E “amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de toda a tua força” (Dt 6.5), prova que ele tem capacidade para amar a Deus? Essas palavras não provam que os homens possam voltar-se para Deus contando apenas com a sua própria capacidade. Mas, quando os homens entendem o que devem fazer, então eles perguntarão aonde poderão encontrar a capacidade para obedecer.

[5] O Que Erasmo ensinava • 55

[6] Longe de nós os argumentos vazios! A palavra “tornar” é utilizada nas Escrituras tanto em sentido “legal” como em sentido “evangélico”. Quando ela é usada em sentido legal, trata-se de um mandamento obrigatório, não apenas uma tentativa do homem de obedecer, mas uma completa mudança em sua vida (Jr 4.1; 25.5 e 35.15). E quando a palavra “tornar” é empregada em seu sentido evangélico, ela é proferida por Deus como um consolo e uma promessa, quando coisa alguma é exigida de nós, mas, antes, a graça de Deus nos é oferecida (Sl 14.7; 116.7 e 126.1). Zacarias exibe-nos tanto a mensagem da lei quanto a mensagem da graça. A totalidade da lei é resumida nas palavras “tornai-vos para mim”; a totalidade da graça, nas palavras “e eu me tornarei para vós outros”.

[7] Você interpreta de igual maneira Ezequiel 18.23: “Acaso tenho eu prazer na morte do perverso? diz o Senhor Deus; não desejo eu antes que ele se converta dos seus caminhos, e viva?” Uma vez mais, você interpreta as palavras “que ele se converta” como a capacidade de fazê-lo. Você faz desse trecho lei, ao invés de evangelho. Faz dele uma ordem para que nós não pequemos.

[8] No entanto, o Senhor declara: “Porque não tenho prazer na morte de ninguém…” (Ez 18.32), e alude claramente ao castigo do pecado que o pecador merece e o sabe. Deus está dando a tal pessoa esperança do perdão e salvação. As palavras da lei pesam sobre aqueles que não sentem nem reconhecem os seus pecados. A esses é mostrado o que devem fazer. Entretanto, o evangelho é dirigido àqueles que são afligidos pelo senso de pecado e são tentados a cair no desespero.

[9] Portanto, essas palavras em Ezequiel, “não tenho prazer na morte de ninguém”, longe de provarem o “livre-arbítrio”, provam exatamente o contrário. Elas mostram quão impotentes somos à parte das promessas de Deus. De fato, vamos nos tornando cada vez piores, enquanto a graça de Deus não nos é dada. Essas palavras de misericórdia são necessárias para salvar pecadores (a menos que você imagine que Deus diz essas coisas só por dizer). Ninguém aceitará essa promessa divina senão aquele a quem a lei houver mostrado seu pecado. Aqueles que ainda não sentiram o poder da lei de Deus e não temem o julgamento e a morte eterna, não têm interesse pelas promessas misericordiosas de Deus.

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