Aviso ao leitor
O texto frequentemente chamado de - Martinho Lutero — “A Escravidão da Vontade” / De Servo Arbitrio - é apresentado aqui como literatura teológica da Reforma Protestante (séc. XVI), escrito no contexto do debate entre Lutero e Erasmo sobre livre-arbítrio, graça, pecado, salvação e soberania divina. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa, nem deve ser tratado como Escritura ou como norma doutrinária universal. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, teológica e comparativa, ajudando a compreender uma das formulações centrais da teologia reformadora e suas controvérsias internas e externas, sem implicar canonização nem equiparação de autoridade às Escrituras reconhecidas por qualquer tradição cristã.
ATENÇÃO
O escrito de Martinho Lutero, conhecido como A Escravidão da Vontade, deve ser lido com atenção crítica especial, pois é uma obra polêmica, teológica e controversa, escrita no contexto do debate da Reforma contra Erasmo de Roterdã sobre livre-arbítrio, graça, pecado, salvação e soberania divina.
Sua leitura exige cuidado porque o texto apresenta uma argumentação intensa, combativa e fortemente confessional, defendendo que a vontade humana, após a queda, encontra-se incapaz de cooperar por si mesma para a salvação sem a ação soberana da graça de Deus. Embora trate de temas profundamente bíblicos, sua formulação deve ser avaliada com discernimento, pois pode gerar tensões importantes em torno de responsabilidade humana, liberdade, arrependimento, justiça divina, predestinação, evangelização e vida moral.
Sua preservação nesta biblioteca se dá por alto valor histórico, teológico, documental e crítico, especialmente para compreender a antropologia teológica da Reforma, o conflito entre Lutero e Erasmo e a radicalidade da doutrina luterana da graça. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre denúncia da autossuficiência humana, ênfase reformadora na graça, polemização contra o livre-arbítrio erasmiano e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] Argumento 6 — O endurecimento do coração do Faraó.[2] Tendo essas coisas em mente, voltemos ao caso do Faraó. Deus não transformou a natureza do Faraó por meio do seu Espírito Santo. A vontade de Faraó permaneceu ímpia e maligna.[3] Faraó estava plenamente seguro de sua grandeza e autoridade. Assim, quando Deus apresentou algo que o ofendia e irritava, ele não pôde deixar de reagir de maneira maldosa.[4] Ele foi ficando mais e mais obstinado, recusando-se a dar ouvidos à razão.[5] As palavras das Escrituras precisam ser compreendidas em conformidade com o seu sentido claro e evidente. Quando Deus disse: “Endurecerei o coração de Faraó”, Ele estava dizendo: “Farei com que o coração do Faraó se endureça”.[6] Deus, com a mais absoluta certeza, sabia e, com a mais absoluta certeza, declarou que o coração do Faraó se endureceria.[7] Com idêntica certeza, Deus sabia que o Faraó não poderia impedir as ações divinas contra si. E Deus igualmente sabia que, como resultado disso, o Faraó certamente se tornaria pior.[8] Uma vontade maligna pode querer somente fazer o mal. Mesmo quando Deus traz algum bem para exercer uma influência benéfica — como no caso do evangelho — a vontade maligna só pode tornar-se pior. Ela torna-se mais endurecida.[9] Por que Deus não cessa de fazer pressão que certamente produzirá maus resultados? Isso é o mesmo que pedir a Deus que deixe de ser Deus.[10] Não podemos imaginar que Deus deixará de fazer o bem somente porque os ímpios sempre reagirão adversamente.[11] Por que Deus não altera a vontade perversa de pessoas como o Faraó? Essa questão toca na vontade secreta de Deus, cujos caminhos são inescrutáveis (Rm 11.33).[12] Se alguém que é orientado por sua razão humana fica ofendido por causa disso, que assim seja. As queixas nada mudarão, e os eleitos de Deus permanecerão inabaláveis.[13] Poderíamos também perguntar por que Deus deixou que Adão caísse. Não devemos tentar estabelecer regras para Deus.[14] Aquilo que Deus faz não é correto porque o aprovamos, mas porque Deus assim o desejou.[15] A única alternativa seria estabelecer um outro criador superior a Deus.[16] Retornando ao texto, você ignora o sentido claro e apresenta sua própria “explicação”.[17] O sentido claro é que Deus endurece o coração do Faraó por meio das pragas.[18] Você diz que isso ocorreu apenas por longanimidade, não por punição. Mas o contexto mostra que Deus agiu após longa paciência diante da opressão de Israel.[19] A sucessão das pragas manifesta o poder de Deus e fortalece a fé dos israelitas.[20] Você quer afirmar que o Faraó possui um arbítrio livre para obedecer ou resistir, mas isso faria Deus depender do “livre-arbítrio” humano.[21] Assim, Deus não poderia ter previsto o que aconteceria.[22] Porém Deus endureceu o coração do Faraó, e o Faraó agiu conforme sua natureza caída.[23] Portanto, essa passagem não apoia o “livre-arbítrio”, mas o contradiz fortemente.

