Aviso ao leitor
O texto frequentemente chamado de - Martinho Lutero — “A Necessidade do Novo Nascimento” - é apresentado aqui como literatura reformada/devocional e sermônica, tradicionalmente associada à pregação de Lutero sobre João 3 e o diálogo de Jesus com Nicodemos, em torno da regeneração, fé e transformação interior. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa, nem deve ser tratado como Escritura ou como norma doutrinária universal. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, teológica e comparativa, ajudando a compreender a espiritualidade e a ênfase soteriológica da Reforma, sem implicar canonização nem equiparação de autoridade às Escrituras reconhecidas por qualquer tradição cristã.
ATENÇÃO
O escrito atribuído a Martinho Lutero, conhecido como A Necessidade do Novo Nascimento, deve ser lido com atenção crítica especial, pois pertence ao ambiente teológico da Reforma Protestante, marcado por forte ênfase na regeneração, fé, arrependimento, justificação e transformação interior diante de Deus.
Sua leitura exige cuidado porque o texto pode apresentar linguagem polêmica, corretiva e confessional, muitas vezes construída em contraste com práticas, doutrinas e estruturas da igreja medieval. Embora trate de um tema profundamente bíblico — o novo nascimento —, sua formulação deve ser avaliada à luz da escritura, distinguindo entre o núcleo evangélico da conversão e os contornos específicos da teologia luterana, especialmente em temas como graça, fé, sacramentos, obras, autoridade e tradição.
Sua preservação nesta biblioteca se dá por valor histórico, teológico, pastoral e crítico, especialmente para compreender como a Reforma interpretou a necessidade da regeneração espiritual e da fé viva. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre exortação cristã legítima, ênfase reformadora, polemização contra o contexto medieval e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] O que tenta alcançar a salvação pelos caminhos das obras não a alcançará.[2] Já os antigos romanos meditavam com muita seriedade sobre qual era o caminho reto a seguir, e sobre como, por exemplo, se devia lidar corretamente com a casa e a família. Seus interesses se dirigiam à exata determinação do que exige a “justiça”.[3] Mas com isso se meteram em um problema que não tem solução, como eles mesmos tiveram de admitir: “excesso de justiça, excesso de injustiça.” Por qual motivo? Porque a “justiça”, no sentido estrito da palavra, está fora de nosso alcance.[4] Por isso, buscava-se o caminho do meio e a adaptação às circunstâncias. Nesse sentido também se costuma dizer: “acertou como os atiradores quando acertam o alvo”, ou seja, não graças à sua pontaria, mas a um impacto fortuito.[5] Pois um bom atirador e até um eventual ganhador é também aquele que chegou mais próximo do alvo. Assim o reconhecem até os juristas. Deve-se dar por satisfeito se, com seu governo e administração da coisa pública, consegue-se que ninguém inflija ao outro injustiças muito grosseiras, ainda que seja impossível aplicar rigidamente a justiça em sua forma pura.[6] Porém, quando chega ao poder um desses desorientados, só causa alvoroço, distúrbios e dissensões.[7] Assim, toda autoridade secular tem de se ater ao que é possível. Não obstante, a razão gostaria de elevar a salvação ou uma ordem política perfeita pela via da justiça. Porém tal coisa é impossível.[8] Que fazer então? Quase se diria que acontece como com aquele que queria subir uma alta montanha e, por não poder fazê-lo, exclamou: “Pois bem, ficarei aqui.”[9] No entanto, Cristo nos diz: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mateus 5:20).[10] No Sermão do Monte, o Senhor explica qual é o verdadeiro cumprimento da lei e o que significa acertar o alvo: não se irar, nem mesmo no recôndito do coração; não cobiçar, nem em pensamento, a mulher ou os bens do próximo.[11] Ali se coloca diante de nossos olhos a justiça mais perfeita. E, apesar disso, os homens acreditam poder alcançá-la mediante o cumprimento da lei.[12] “Não queremos nem pretendemos acertar exatamente o alvo”, dizem; se o conseguem com certa aproximação, dão-se por desculpados.[13] Nós, porém, atentamos para o que nos ensina Cristo: “Ninguém pode ver o Reino de Deus a menos que tenha acertado o alvo”. E no Apocalipse lemos: “Neste tabernáculo não entrará nenhum imundo”.[14] Que devemos fazer, pois? Também exclamaremos: “Temos de ficar aqui embaixo, não podemos subir a montanha”?[15] Tampouco Nicodemos sabe outra coisa além disto: “Eu sou uma pessoa correta, vivo piedosamente conforme a lei e caminho pelo caminho que conduz ao céu”.[16] E ele quer que esse Mestre lhe expresse aprovação ou desaprovação — ainda que preferisse não considerar a segunda opção, mas esperar que o Senhor lhe responda: “Sim, Nicodemos, és perfeito e já és bem-aventurado, e os demais entrariam no Reino dos Céus se fizessem como tu”.[17] Porém ocorre justamente o contrário: Cristo o afasta do Reino dos Céus. “Por certo és um homem bom. Porém, se não nasces de novo, tua justiça não te servirá de nada.”[18] O “nascer de novo” — esta é a justiça sobre a qual insistimos em nossa pregação. Cristo não tem a intenção de rejeitar a lei, mas quer que ela seja cumprida.[19] “Porém”, diz ele, “a forma como vós a cumprís não tem validade. Cumpríeis a lei apenas na imaginação, mas não na realidade. Os Dez Mandamentos são perfeitos, e quero que sejam cumpridos. Quem quiser entrar no céu deve cumpri-los.”[20] Porém, com o vosso conceito de “direito” e com a vossa justiça, não os estais cumprindo. Não há outra justiça melhor do que aquela que resultaria do cumprimento de tudo o que é ordenado nas duas tábuas da lei de Moisés.[21] Então seríamos “justos”, mas apenas segundo a justiça dos fariseus, e não segundo a justiça exigida pela lei.

