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[1] O que tenta alcançar a salvação pelos caminhos das obras não a alcançará.

[2] Já os antigos romanos meditavam com muita seriedade sobre qual era o caminho reto a seguir, e sobre como, por exemplo, se devia lidar corretamente com a casa e a família. Seus interesses se dirigiam à exata determinação do que exige a “justiça”.

[3] Mas com isso se meteram em um problema que não tem solução, como eles mesmos tiveram de admitir: “excesso de justiça, excesso de injustiça.” Por qual motivo? Porque a “justiça”, no sentido estrito da palavra, está fora de nosso alcance.

[4] Por isso, buscava-se o caminho do meio e a adaptação às circunstâncias. Nesse sentido também se costuma dizer: “acertou como os atiradores quando acertam o alvo”, ou seja, não graças à sua pontaria, mas a um impacto fortuito.

[5] Pois um bom atirador e até um eventual ganhador é também aquele que chegou mais próximo do alvo. Assim o reconhecem até os juristas. Deve-se dar por satisfeito se, com seu governo e administração da coisa pública, consegue-se que ninguém inflija ao outro injustiças muito grosseiras, ainda que seja impossível aplicar rigidamente a justiça em sua forma pura.

[6] Porém, quando chega ao poder um desses desorientados, só causa alvoroço, distúrbios e dissensões.

[7] Assim, toda autoridade secular tem de se ater ao que é possível. Não obstante, a razão gostaria de elevar a salvação ou uma ordem política perfeita pela via da justiça. Porém tal coisa é impossível.

[8] Que fazer então? Quase se diria que acontece como com aquele que queria subir uma alta montanha e, por não poder fazê-lo, exclamou: “Pois bem, ficarei aqui.”

[9] No entanto, Cristo nos diz: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mateus 5:20).

[10] No Sermão do Monte, o Senhor explica qual é o verdadeiro cumprimento da lei e o que significa acertar o alvo: não se irar, nem mesmo no recôndito do coração; não cobiçar, nem em pensamento, a mulher ou os bens do próximo.

[11] Ali se coloca diante de nossos olhos a justiça mais perfeita. E, apesar disso, os homens acreditam poder alcançá-la mediante o cumprimento da lei.

[12] “Não queremos nem pretendemos acertar exatamente o alvo”, dizem; se o conseguem com certa aproximação, dão-se por desculpados.

[13] Nós, porém, atentamos para o que nos ensina Cristo: “Ninguém pode ver o Reino de Deus a menos que tenha acertado o alvo”. E no Apocalipse lemos: “Neste tabernáculo não entrará nenhum imundo”.

[14] Que devemos fazer, pois? Também exclamaremos: “Temos de ficar aqui embaixo, não podemos subir a montanha”?

[15] Tampouco Nicodemos sabe outra coisa além disto: “Eu sou uma pessoa correta, vivo piedosamente conforme a lei e caminho pelo caminho que conduz ao céu”.

[16] E ele quer que esse Mestre lhe expresse aprovação ou desaprovação — ainda que preferisse não considerar a segunda opção, mas esperar que o Senhor lhe responda: “Sim, Nicodemos, és perfeito e já és bem-aventurado, e os demais entrariam no Reino dos Céus se fizessem como tu”.

[17] Porém ocorre justamente o contrário: Cristo o afasta do Reino dos Céus. “Por certo és um homem bom. Porém, se não nasces de novo, tua justiça não te servirá de nada.”

[18] O “nascer de novo” — esta é a justiça sobre a qual insistimos em nossa pregação. Cristo não tem a intenção de rejeitar a lei, mas quer que ela seja cumprida.

[19] “Porém”, diz ele, “a forma como vós a cumprís não tem validade. Cumpríeis a lei apenas na imaginação, mas não na realidade. Os Dez Mandamentos são perfeitos, e quero que sejam cumpridos. Quem quiser entrar no céu deve cumpri-los.”

[20] Porém, com o vosso conceito de “direito” e com a vossa justiça, não os estais cumprindo. Não há outra justiça melhor do que aquela que resultaria do cumprimento de tudo o que é ordenado nas duas tábuas da lei de Moisés.

[21] Então seríamos “justos”, mas apenas segundo a justiça dos fariseus, e não segundo a justiça exigida pela lei.

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