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CARTA DE MARTINHO LUTERO AO PAPA LEÃO X

[1] Entre aqueles males monstruosos desta época, contra os quais já venho travando guerra há três anos, sou algumas vezes compelido a olhar para vós e a trazer-vos à memória, beatíssimo pai Leão.

[2] Na verdade, visto que somente vós sois considerado por toda parte como a causa de eu ter entrado nessa guerra, não posso deixar de me lembrar de vós em momento algum. Embora tenha sido compelido pela fúria injustificada de vossos ímpios aduladores contra mim a apelar de vossa Sé para um concílio futuro — sem temer os vãos decretos de vossos predecessores Pio e Júlio, que, em sua insensata tirania, proibiram semelhante ação —, jamais me afastei tanto em sentimento de Vossa Beatitude que não tenha buscado, com todas as minhas forças, por meio de oração diligente e clamor a Deus, todos os melhores dons para vós e para vossa Sé.

[3] Contudo, comecei a desprezar completamente e a triunfar sobre aqueles que, até agora, procuraram aterrorizar-me com a majestade de vosso nome e autoridade. Vejo restar uma coisa que não posso desprezar, e esta foi a razão de escrever novamente a Vossa Beatitude: descubro que sou censurado e que me é imputado como grave delito o fato de, em minha temeridade, julgarem que não poupei nem mesmo vossa pessoa.

[4] Agora, para confessar abertamente a verdade, estou consciente de que, sempre que tive de mencionar vossa pessoa, nada disse a vosso respeito senão aquilo que era honroso e bom. Caso tivesse procedido de outra maneira, não poderia de modo algum aprovar minha própria conduta, mas apoiaria com todas as minhas forças o julgamento daqueles homens contra mim. Nada me agradaria mais do que retratar-me de semelhante temeridade e impiedade.

[5] Chamei-vos de Daniel em Babilônia; e todo leitor sabe perfeitamente com que extraordinário zelo defendi vossa manifesta inocência contra Silvestre, que tentou manchá-la. De fato, a opinião publicamente manifestada por tantos homens ilustres e a reputação de vossa vida irrepreensível estão difundidas e são reverenciadas demais por todo o mundo para que possam ser atacadas por qualquer homem, por maior que seja seu nome, ou por quaisquer artifícios.

[6] Não sou tão insensato a ponto de atacar aquele a quem todos elogiam. Pelo contrário, sempre foi e sempre será meu desejo não atacar nem mesmo aqueles que a opinião pública desonra. Não me alegro com as faltas de homem algum, pois estou profundamente consciente da grande trave que existe em meu próprio olho; tampouco posso ser o primeiro a lançar uma pedra contra a mulher adúltera (Mateus 7:3–5; João 8:7).

[7] De fato, tenho investido duramente contra doutrinas ímpias e não tenho sido negligente em censurar meus adversários, não por causa de seus maus costumes, mas por causa de sua impiedade. Estou tão longe de me arrepender disso que conduzi meu espírito a desprezar os julgamentos humanos e a perseverar nesse zelo veemente, seguindo o exemplo de Cristo, que, em seu zelo, chama seus adversários de geração de víboras, cegos, hipócritas e filhos do diabo (Mateus 23:13,16–17,23–24,26,33; João 8:44).

[8] Paulo também acusa o feiticeiro de ser filho do diabo, cheio de todo engano e de toda maldade; e chama certas pessoas de maus obreiros, cães e enganadores (Atos 13:10; Filipenses 3:2; Tito 1:10). Na opinião dessas pessoas de ouvidos delicados, nada poderia ser mais amargo ou desmedido do que a linguagem de Paulo.

[9] O que poderia ser mais amargo do que as palavras dos profetas? Os ouvidos de nossa geração foram tornados tão delicados pela insensata multidão de aduladores que, assim que percebemos que alguma coisa nossa não foi aprovada, gritamos que estamos sendo amargamente atacados. Quando não conseguimos repelir a verdade por nenhum outro pretexto, procuramos escapar atribuindo amargura, impaciência e falta de moderação aos nossos adversários.

[10] De que serviria o sal se não fosse penetrante? Ou de que serviria o fio da espada se não ferisse? “Maldito aquele que fizer a obra do Senhor de maneira negligente” (Mateus 5:13; Jeremias 48:10).

[11] Portanto, excelentíssimo Leão, suplico-vos que aceiteis minha defesa, apresentada nesta carta, e que vos convençais de que jamais pensei mal algum acerca de vossa pessoa. Além disso, crede que sou alguém que deseja que a bênção eterna recaia sobre vós e que não mantenho disputa com homem algum acerca de costumes, mas somente acerca da Palavra da verdade. Em todas as outras coisas, cederei a qualquer pessoa; porém, não posso nem quero abandonar e negar a Palavra.

[12] Aquele que pensa de mim de outra maneira, ou que recebeu minhas palavras em outro sentido, não pensa corretamente e não recebeu a verdade.

[13] Entretanto, vossa Sé, chamada Corte de Roma — a qual nem vós nem homem algum podeis negar que seja mais corrompida do que qualquer Babilônia ou Sodoma e que, segundo creio, se encontra entregue a uma impiedade perdida, desesperada e sem esperança —, essa eu verdadeiramente abominei. Fiquei indignado ao ver que o povo de Cristo era enganado sob vosso nome e sob o pretexto da Igreja de Roma. Por isso resisti e continuarei resistindo enquanto o espírito da fé viver em mim (2 Coríntios 4:13).

[14] Não porque eu esteja lutando por coisas impossíveis ou esperando que, somente por meus esforços e contra a furiosa oposição de tantos aduladores, algum bem possa ser realizado naquela Babilônia tão desordenada. Faço isso porque me considero devedor de meus irmãos e estou obrigado a cuidar deles, para que um número menor seja arruinado, ou para que sua ruína seja menos completa, pelos flagelos de Roma.

[15] Há muitos anos, nada mais tem transbordado de Roma para o mundo — como não ignorais — senão a devastação dos bens, dos corpos e das almas, juntamente com os piores exemplos de todas as piores coisas.

[16] Essas coisas são mais claras do que a luz para todos os homens. A Igreja de Roma, que antigamente era a mais santa de todas as igrejas, tornou-se o mais criminoso covil de ladrões, o mais desavergonhado de todos os prostíbulos e o próprio reino do pecado, da morte e do inferno; de modo que nem mesmo o anticristo, caso viesse, poderia imaginar qualquer acréscimo à sua perversidade (Mateus 21:13; 1 João 2:18).

[17] Enquanto isso, vós, Leão, estais sentado como um cordeiro no meio de lobos, como Daniel no meio dos leões e, com Ezequiel, habitais entre escorpiões. Que oposição podeis oferecer sozinho contra esses males monstruosos? Tomai para vós três ou quatro dos mais instruídos e melhores cardeais. O que são esses entre tantos? Todos vós pereceríeis envenenados antes mesmo de poderdes começar a decidir sobre algum remédio. Tudo está acabado para a Corte de Roma; a ira de Deus veio sobre ela até o extremo (Lucas 10:3; Daniel 6:16–23; Ezequiel 2:6; 1 Tessalonicenses 2:16).

[18] Ela odeia os concílios, teme ser reformada e não consegue conter a loucura de sua impiedade. Ela cumpre a sentença pronunciada contra sua mãe, a respeito da qual se diz: “Queríamos curar Babilônia, mas ela não foi curada; abandonemo-la” (Jeremias 51:9). Teria sido vosso dever e o dever de vossos cardeais aplicar um remédio a esses males; porém, essa gota zomba da mão do médico, e o carro não obedece às rédeas.

[19] Sob a influência desses sentimentos, sempre lamentei que vós, excelentíssimo Leão, digno de uma época melhor, tenhais sido constituído pontífice nesta época. A Corte Romana não é digna de vós nem de homens semelhantes a vós, mas do próprio Satanás, que, na verdade, governa aquela Babilônia muito mais do que vós.

[20] Quem dera, depois de deixardes de lado aquela glória que vossos mais perversos inimigos afirmam pertencer-vos, estivésseis vivendo antes no ofício de um sacerdote particular ou em vossa herança paterna! Nessa glória, ninguém é digno de gloriar-se, exceto a raça de Iscariotes, os filhos da perdição (João 17:12; 2 Tessalonicenses 2:3).

[21] Pois o que acontece em vossa corte, Leão, senão que, quanto mais perverso e execrável é um homem, tanto mais prosperamente ele pode utilizar vosso nome e autoridade para a ruína dos bens e das almas dos homens, para a multiplicação dos crimes e para a opressão da fé, da verdade e de toda a Igreja de Deus? Ó Leão, verdadeiramente infeliz e sentado sobre um trono extremamente perigoso! Digo-vos a verdade porque vos desejo o bem. Se Bernardo compadeceu-se de seu Anastácio numa época em que a Sé Romana, embora já muito corrompida, ainda governava com esperança melhor do que agora, por que não deveríamos nós lamentar, tendo sido acrescentados trezentos anos de corrupção e ruína ainda maiores?

[22] Não é verdade que não existe, sob os vastos céus, coisa mais corrompida, mais pestilenta e mais odiosa do que a Corte de Roma? Ela supera incomparavelmente a impiedade dos turcos, de modo que, na verdade, aquela que antigamente era a porta do céu tornou-se agora uma espécie de boca aberta do inferno, uma boca que, sob a urgente ira de Deus, já não pode ser fechada. Resta apenas um caminho para nós, homens miseráveis: chamar de volta e salvar, caso seja possível, alguns poucos daquele abismo romano (Gênesis 28:17; Isaías 5:14).

[23] Eis, meu pai Leão, com que propósito e sobre qual princípio tenho atacado aquele trono de pestilência. Estou tão longe de ter sentido qualquer ira contra vossa pessoa que até esperei conquistar vosso favor e auxiliar vosso bem-estar, golpeando ativa e vigorosamente aquela que é vossa prisão — ou melhor, vosso inferno. Tudo o que os esforços de todas as inteligências puderem imaginar contra a confusão daquela Corte ímpia será vantajoso para vós, para vosso bem-estar e para muitos outros que estão convosco.

[24] Aqueles que lhe causam dano estão realizando vosso dever; aqueles que a abominam de todas as maneiras estão glorificando Cristo. Em resumo, cristãos são aqueles que não são romanos.

[25] Porém, para dizer ainda mais, jamais entrou em meu coração a intenção de investir contra a Corte de Roma ou de disputar a respeito dela. Vendo que todos os remédios para sua saúde eram desesperados, olhei para ela com desprezo e, entregando-lhe uma carta de divórcio, disse: “Quem é injusto continue praticando a injustiça; e quem é imundo continue na imundícia” (Deuteronômio 24:1; Apocalipse 22:11). Então me entreguei ao estudo pacífico e tranquilo das Sagradas Escrituras, para que, por meio dele, pudesse ser útil aos irmãos que viviam ao meu redor.

[26] Enquanto fazia algum progresso nesses estudos, Satanás abriu os olhos e instigou seu servo João Eccius, aquele notório adversário de Cristo, por meio de uma desenfreada paixão pela fama, a arrastar-me inesperadamente para a arena. Ele tentou prender-me por causa de uma pequena palavra sobre o primado da Igreja de Roma, que me havia escapado de passagem.

[27] Aquele arrogante Trasão, espumando e rangendo os dentes, proclamou que ousaria todas as coisas pela glória de Deus e pela honra da santa Sé Apostólica. Envaidecido por causa de vosso poder, do qual estava prestes a abusar, aguardava a vitória com plena certeza. Procurava promover não tanto o primado de Pedro quanto sua própria preeminência entre os teólogos desta época, pois pensava que contribuiria consideravelmente para isso se conduzisse Lutero em triunfo.

[28] Tendo o resultado se mostrado desfavorável ao sofista, uma ira inacreditável o atormenta, pois ele percebe que todo o descrédito que surgiu contra Roma por meu intermédio foi causado exclusivamente por sua própria culpa.

[29] Permiti-me, suplico-vos, excelentíssimo Leão, tanto defender minha própria causa como acusar vossos verdadeiros inimigos. Creio que sabeis de que maneira o cardeal Cajetano, vosso imprudente e infeliz — ou melhor, infiel — legado, procedeu comigo.

[30] Quando, por reverência a vosso nome, coloquei a mim mesmo e tudo o que era meu em suas mãos, ele não agiu para estabelecer a paz, embora pudesse tê-la estabelecido facilmente com uma única palavra. Naquela ocasião, prometi permanecer em silêncio e encerrar minha causa, caso ele ordenasse que meus adversários fizessem o mesmo.

[31] Porém, aquele homem orgulhoso, não satisfeito com esse acordo, começou a justificar meus adversários, conceder-lhes plena liberdade e ordenar que eu me retratasse, coisa que certamente não fazia parte de sua missão. Assim, quando a causa se encontrava em sua melhor condição, foi conduzida pela tirania importuna daquele homem a uma condição muito pior.

[32] Portanto, tudo o que se seguiu não é culpa de Lutero, mas inteiramente de Cajetano, pois ele não permitiu que eu permanecesse calado e tranquilo, embora naquele momento eu o suplicasse com todas as minhas forças. Que mais era meu dever fazer?

[33] Em seguida veio Carlos Miltitz, também núncio de Vossa Beatitude. Embora tenha realizado muitos e variados esforços e não tenha omitido nada que pudesse contribuir para restaurar a situação da causa, lançada em confusão pela temeridade e pelo orgulho de Cajetano, ele encontrou dificuldades para, mesmo com o auxílio daquele ilustríssimo príncipe, o Eleitor Frederico, finalmente conseguir realizar mais de uma conferência amistosa comigo.

[34] Nessas conferências, novamente me submeti a vosso grande nome e estava preparado para permanecer em silêncio e aceitar como juiz o Arcebispo de Tréveris ou o Bispo de Naumburgo. Assim foi feito e concluído.

[35] Enquanto essas coisas estavam sendo realizadas com boa esperança de sucesso, eis que aquele outro e ainda maior inimigo vosso, Eccius, irrompeu com sua disputa de Leipzig, que havia empreendido contra Carlstadt. Levantando uma nova questão acerca do primado do papa, voltou inesperadamente suas armas contra mim e destruiu completamente o plano de paz. Enquanto isso, Carlos Miltitz esperava, disputas eram realizadas, juízes eram escolhidos, mas nenhuma decisão era alcançada.

[36] E não é de admirar, pois, pelas falsidades, fingimentos e artifícios de Eccius, todo o assunto foi lançado em tamanha desordem, confusão e chaga purulenta que, qualquer que fosse o lado para o qual a sentença se inclinasse, certamente surgiria um incêndio ainda maior. Ele não procurava a verdade, mas sua própria reputação. Também nesse caso não omiti nada daquilo que era correto fazer.

[37] Confesso que, nessa ocasião, uma parte considerável das corrupções de Roma veio à luz. Contudo, se houve nisso alguma ofensa, a culpa foi de Eccius, que, assumindo um fardo superior às suas forças e buscando furiosamente conquistar reputação para si mesmo, revelou ao mundo inteiro a vergonha de Roma.

[38] Eis aí vosso inimigo, Leão — ou, antes, o inimigo de vossa Corte. Somente por seu exemplo podemos aprender que um inimigo declarado não é mais nocivo do que um adulador. Pois o que ele produziu por meio de sua adulação, senão males que nenhum rei poderia ter produzido? Hoje, o nome da Corte de Roma exala mau cheiro diante do mundo, a autoridade papal enfraquece e sua conhecida ignorância é denunciada.

[39] Nada ouviríamos dessas coisas caso Eccius não tivesse perturbado os planos de paz de Miltitz e meus. Ele próprio percebe isso claramente pela indignação que agora demonstra, tarde demais e inutilmente, contra a publicação de meus livros. Deveria ter refletido sobre isso quando estava completamente enlouquecido pela fama e, em vossa causa, procurava apenas seus próprios interesses, colocando-vos em gravíssimo perigo.

[40] O homem insensato esperava que, por medo de vosso nome, eu cedesse e permanecesse em silêncio, pois não creio que confiasse em seus talentos e em sua erudição. Agora, quando percebe que estou muito confiante e falo em alta voz, arrepende-se tarde demais de sua temeridade e vê — caso realmente veja — que existe Alguém no céu que resiste aos soberbos e humilha os presunçosos (Tiago 4:6; 1 Pedro 5:5; Lucas 14:11).

[41] Visto que, por meio dessa disputa, não estávamos produzindo nada além de maior confusão para a causa de Roma, Carlos Miltitz dirigiu-se pela terceira vez aos Padres da Ordem reunidos em capítulo e pediu seus conselhos para a resolução do caso, que já se encontrava em condição extremamente perturbada e perigosa.

[42] Como, pela graça de Deus, não havia esperança de proceder contra mim pela força, alguns dos mais notáveis dentre eles foram enviados a mim. Pediram-me que, ao menos, demonstrasse respeito por vossa pessoa e defendesse humildemente, em uma carta, tanto vossa inocência como a minha. Disseram que a questão ainda não havia alcançado uma condição de completo desespero, caso Leão X, em sua bondade natural, colocasse a mão sobre ela.

[43] Diante disso, eu, que sempre ofereci e desejei a paz para poder dedicar-me a ocupações mais tranquilas e úteis, e que, por esse mesmo propósito, agi com tanto ânimo e veemência para dominar, pela força e impetuosidade tanto de minhas palavras como de meus sentimentos, homens que eu via estarem muito longe de serem meus iguais — eu, repito, não apenas cedi de boa vontade, mas também recebi a proposta com alegria e gratidão, como a maior bondade e benefício, caso julgásseis correto satisfazer minhas esperanças.

[44] Assim, venho a vós, beatíssimo Pai, e, em toda humildade, suplico-vos que intervenhais, caso seja possível, e coloqueis um freio naqueles aduladores que são inimigos da paz enquanto fingem promovê-la. Porém, não existe razão, beatíssimo Pai, para que alguém suponha que pronunciarei uma retratação, a menos que prefira lançar a causa numa confusão ainda maior.

[45] Além disso, não posso suportar leis impostas à interpretação da Palavra de Deus, pois a Palavra de Deus, que ensina liberdade em todas as outras coisas, não deve ser aprisionada (2 Timóteo 2:9). Preservadas essas duas coisas, não existe nada que eu não seja capaz de fazer ou sofrer, e que não esteja sinceramente disposto a fazer ou sofrer. Odeio as contendas; não desafiarei ninguém e, em troca, não desejo ser desafiado. Porém, sendo desafiado, não permanecerei calado na causa de Cristo, meu Mestre (Atos 4:20).

[46] Vossa Beatitude poderá, por meio de uma única palavra breve e simples, convocar essas controvérsias diante de vós, suprimi-las e impor silêncio e paz a ambos os lados — palavra que sempre desejei ouvir.

[47] Portanto, meu pai Leão, tende cuidado para não escutar aquelas sereias que vos apresentam não simplesmente como um homem, mas parcialmente como um deus, de maneira que poderíeis ordenar e exigir tudo quanto desejásseis. Isso não acontecerá, nem prevalecereis. Sois o servo dos servos e, mais do que qualquer outro homem, encontrais-vos numa condição extremamente digna de compaixão e perigosa (Marcos 10:43–44).

[48] Não permitais que vos enganem aqueles que afirmam que sois o senhor do mundo; que não permitem que alguém seja cristão sem vossa autoridade; e que tagarelam que possuís poder sobre o céu, o inferno e o purgatório. Esses homens são vossos inimigos e procuram destruir vossa alma, como diz Isaías: “Meu povo, aqueles que te chamam bem-aventurado são os mesmos que te enganam” (Isaías 3:12). Também estão errados aqueles que vos elevam acima dos concílios e da Igreja universal.

[49] Estão errados aqueles que atribuem exclusivamente a vós o direito de interpretar as Escrituras. Todos esses homens procuram estabelecer suas próprias impiedades na Igreja sob vosso nome. E, infelizmente, Satanás conquistou muito por meio deles durante o tempo de vossos predecessores.

[50] Em resumo, não confieis naqueles que vos exaltam, mas naqueles que vos humilham. Pois este é o julgamento de Deus: “Derrubou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes” (Lucas 1:52). Vede quanto Cristo foi diferente de seus sucessores, embora todos queiram que eles sejam seus vigários. Temo que muitos deles tenham sido, num sentido excessivamente sério, verdadeiros vigários de Cristo, pois um vigário representa um príncipe que está ausente.

[51] Portanto, se um pontífice governa enquanto Cristo está ausente e não habita em seu coração, o que ele é senão um vigário de Cristo? E o que é semelhante igreja senão uma multidão sem Cristo? O que é semelhante vigário senão um anticristo e um ídolo? Com muito mais razão falaram os apóstolos, que chamaram a si mesmos de servos de um Cristo presente, e não de vigários de um Cristo ausente (Romanos 1:1; Filipenses 1:1; Tiago 1:1; 2 Pedro 1:1; Judas 1:1).

[52] Talvez eu seja desavergonhadamente ousado ao parecer ensinar uma cabeça tão elevada, pela qual todos os homens deveriam ser ensinados e da qual, como afirmam essas vossas pragas, os tronos dos juízes recebem suas sentenças. Porém, imito São Bernardo em seu livro Da consideração, dirigido a Eugênio, livro que deveria ser conhecido de memória por todo pontífice.

[53] Não faço isso por desejo de ensinar, mas por dever, movido por aquela solicitude simples e fiel que nos ensina a preocupar-nos com tudo aquilo que conduz à segurança de nossos próximos. Essa solicitude não permite que se façam considerações acerca da dignidade ou indignidade das pessoas, mas se ocupa unicamente dos perigos ou das vantagens dos outros.

[54] Pois, visto que sei que Vossa Beatitude é impelida e agitada pelas ondas em Roma, enquanto as profundezas do mar vos pressionam com perigos infinitos, e que trabalhais sob uma condição de tamanha miséria que necessitais até do menor auxílio vindo do menor dos irmãos, não considero estar agindo de maneira inconveniente se me esquecer de vossa majestade até ter cumprido o dever da caridade.

[55] Não vos adularei em questão tão séria e perigosa. Caso não reconheçais nisso que sou vosso amigo e vosso mais verdadeiro súdito, existe Alguém que vê e julga (Hebreus 4:13).

[56] Por fim, para que não me apresente diante de vós de mãos vazias, beatíssimo Pai, trago comigo este pequeno tratado, publicado sob vosso nome, como um bom sinal do estabelecimento da paz e de uma esperança favorável. Por meio dele, podereis perceber em quais ocupações eu preferiria e poderia empregar-me com maior proveito, caso me fosse permitido, ou caso me tivesse sido permitido até agora, por vossos ímpios aduladores (Deuteronômio 16:16).

[57] Trata-se de coisa pequena, quando considerada exteriormente; porém, salvo engano meu, é um resumo da vida cristã reunido em pequeno espaço, caso compreendais seu significado. Em minha pobreza, não tenho outro presente para oferecer-vos, nem necessitais de outra coisa senão ser enriquecido por um dom espiritual (Romanos 1:11). Recomendo-me à vossa Paternidade e Beatitude, a quem o Senhor Jesus preserve para sempre. Amém.

Wittenberg, 6 de setembro de 1520.

VCirculi

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