Aviso ao leitor
O texto frequentemente chamado de - Martinho Lutero — “Sobre a Liberdade Cristã”, também conhecido como “A Liberdade do Cristão” / De Libertate Christiana - é apresentado aqui como literatura teológica da Reforma Protestante (séc. XVI), escrita no contexto dos debates sobre fé, graça, justificação, obras e vida cristã. A obra é historicamente importante por formular a ideia de que o cristão é livre diante de Deus pela fé e, ao mesmo tempo, servo do próximo pelo amor. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa, nem deve ser tratado como Escritura ou como norma doutrinária universal. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, teológica e comparativa, ajudando a compreender a espiritualidade e a argumentação reformadora de Lutero, sem implicar canonização nem equiparação de autoridade às Escrituras reconhecidas por qualquer tradição cristã.
ATENÇÃO
O escrito de Martinho Lutero, conhecido como Sobre a Liberdade Cristã, deve ser lido com atenção crítica especial, pois é uma obra teológica, pastoral e reformadora, produzida em meio às tensões iniciais da Reforma Protestante e centrada na relação entre fé, graça, justificação, obras, liberdade e serviço cristão.
Sua leitura exige cuidado porque o texto trabalha uma formulação paradoxal da vida cristã: o cristão é livre diante de Deus pela fé, mas torna-se servo do próximo pelo amor. Essa ênfase possui grande valor espiritual, mas precisa ser lida com discernimento para evitar tanto o antinomismo, que usa a liberdade como desculpa para desprezar a obediência, quanto o legalismo, que transforma obras, méritos ou práticas religiosas em fundamento de salvação. Também é necessário distinguir entre a crítica de Lutero aos abusos religiosos de seu tempo, os contornos próprios da teologia luterana e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
Sua preservação nesta biblioteca se dá por alto valor histórico, teológico, pastoral e crítico, especialmente para compreender a doutrina reformadora da fé, a distinção entre justificação e obras, e a relação entre liberdade diante de Deus e serviço ao próximo. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre liberdade evangélica, exortação pastoral, ênfase confessional luterana, crítica reformadora ao contexto medieval e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
DA LIBERDADE CRISTÃ
[1] Para muitos, a fé cristã tem parecido uma coisa fácil; na verdade, não são poucos os que chegam a contá-la entre as virtudes civis. Fazem isso porque nunca a experimentaram nem provaram a sua eficácia. Pois ninguém pode escrever corretamente a respeito dela, nem compreender corretamente aquilo que sobre ela foi escrito, sem que alguma vez tenha provado seu espírito sob a pressão da tribulação. Aquele, porém, que a provou, ainda que minimamente, jamais consegue escrever, falar, pensar ou ouvir o suficiente a respeito dela. Pois ela é uma fonte viva, que jorra para a vida eterna, como Cristo a chama em João 4:14.[2] Embora eu não possa me gloriar de possuir essa fé em abundância e saiba quão pobremente estou provido, espero que, depois de ter sido afligido por diversas tentações, tenha alcançado ao menos uma pequena gota de fé. Espero também poder falar desse assunto, se não com maior elegância, pelo menos com maior solidez do que aqueles disputadores literalistas e excessivamente sutis que até agora discorreram sobre ele sem compreender as próprias palavras. Para abrir um caminho mais fácil aos ignorantes — pois somente a eles procuro servir —, estabeleço primeiramente estas duas proposições acerca da liberdade e da servidão espirituais:[3] O cristão é o senhor mais livre de todos e não está sujeito a ninguém. O cristão é o servo mais dedicado de todos e está sujeito a todos.[4] Embora essas afirmações pareçam contraditórias, quando se descobrir que concordam entre si, elas servirão perfeitamente ao meu propósito. Ambas são declarações do próprio Paulo, que diz: “Embora seja livre de todos, fiz-me servo de todos” (1 Coríntios 9:19); e: “A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros” (Romanos 13:8). Ora, o amor, por sua própria natureza, serve e obedece àquele que é amado. Assim, o próprio Cristo, embora Senhor de todas as coisas, nasceu de mulher e nasceu sob a Lei; era, ao mesmo tempo, livre e servo; estava, ao mesmo tempo, na forma de Deus e na forma de servo (Gálatas 4:4; Filipenses 2:6–7).[5] Examinemos o assunto segundo um princípio mais profundo e menos simples. O ser humano é composto de uma natureza dupla: espiritual e corporal. Quanto à natureza espiritual, chamada alma, ele é denominado homem espiritual, interior e novo. Quanto à natureza corporal, chamada carne, ele é denominado homem carnal, exterior e velho. O apóstolo fala disso: “Ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia” (2 Coríntios 4:16). O resultado dessa diversidade é que, nas Escrituras, afirmações opostas são feitas acerca do mesmo homem, pois dentro do mesmo homem esses dois homens se opõem: a carne deseja contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne (Gálatas 5:17).[6] Aproximemo-nos primeiramente do tema do homem interior, para vermos por qual meio alguém se torna justificado, livre e verdadeiramente cristão, isto é, um homem espiritual, novo e interior. É certo que absolutamente nenhuma coisa exterior, seja qual for o nome que lhe seja dado, exerce qualquer influência para produzir a justiça ou a liberdade cristã; e, da mesma forma, nenhuma coisa exterior produz injustiça ou escravidão. Isso pode ser demonstrado por um argumento simples.[7] Que proveito pode trazer à alma o fato de o corpo estar saudável, livre e cheio de vida, alimentando-se, bebendo e agindo segundo seu prazer, quando até os mais ímpios escravos de toda espécie de vício prosperam nessas coisas? Por outro lado, que dano a enfermidade, a escravidão, a fome, a sede ou qualquer outro mal exterior pode causar à alma, quando até os homens mais piedosos e mais livres na pureza de sua consciência são afligidos por essas coisas? Nenhuma dessas condições tem relação com a liberdade ou com a escravidão da alma.[8] Portanto, nada aproveitará ao corpo ser adornado com vestes sagradas, habitar lugares santos, ocupar-se de ofícios religiosos, orar, jejuar, abster-se de certos alimentos ou realizar quaisquer obras que possam ser feitas pelo corpo e no corpo. Algo inteiramente diferente será necessário para a justificação e para a liberdade da alma, pois todas as coisas mencionadas podem ser praticadas por qualquer pessoa ímpia, e a devoção a elas produz somente hipócritas. Por outro lado, em nada prejudicará a alma o corpo vestir roupas comuns, habitar lugares comuns, comer e beber da maneira habitual, não orar em voz alta e deixar de praticar todas as coisas mencionadas, que também podem ser realizadas por hipócritas.[9] Para deixar tudo mais de lado, nem mesmo as especulações, meditações e tudo aquilo que pode ser realizado pelos esforços da própria alma trazem proveito. Uma coisa, e somente uma, é necessária para a vida, a justificação e a liberdade cristã: a santíssima Palavra de Deus, o Evangelho de Cristo. Ele diz: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim jamais morrerá” (João 11:25–26). Também diz: “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36); e: “O homem não viverá somente de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mateus 4:4).[10] Portanto, consideremos certo e firmemente estabelecido que a alma pode passar sem todas as coisas, exceto a Palavra de Deus, sem a qual nenhuma de suas necessidades é suprida. Possuindo a Palavra, porém, ela é rica e de nada necessita, pois essa é a Palavra da vida, da verdade, da luz, da paz, da justificação, da salvação, da alegria, da liberdade, da sabedoria, da virtude, da graça, da glória e de todo bem. É por isso que o profeta, em todo o Salmo 119 e em muitos outros lugares, suspira pela Palavra de Deus e clama por ela com tantos gemidos e palavras.[11] Além disso, não existe golpe mais cruel da ira de Deus do que quando ele envia fome de ouvir suas palavras (Amós 8:11). Da mesma maneira, não existe favor maior da parte de Deus do que o envio de sua Palavra, conforme está escrito: “Enviou a sua palavra, e os sarou, e os livrou da destruição” (Salmos 107:20). Cristo não foi enviado para outro ofício senão o da Palavra. A ordem dos apóstolos, a dos bispos e todo o corpo do clero foram chamados e instituídos com um único propósito: o ministério da Palavra.[12] Você perguntará: “Que Palavra é essa e de que maneira deve ser utilizada, visto que existem tantas palavras de Deus?” Respondo: o apóstolo Paulo explica o que ela é: o Evangelho de Deus acerca de seu Filho, que se encarnou, sofreu, ressuscitou e foi glorificado mediante o Espírito santificador (Romanos 1:1–4). Pregar Cristo é alimentar a alma, justificá-la, libertá-la e salvá-la, desde que ela creia na pregação. Pois somente a fé e o uso eficaz da Palavra de Deus trazem salvação. “Se com a tua boca confessares Jesus como Senhor e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10:9). E ainda: “Cristo é o fim da Lei para justiça de todo aquele que crê” (Romanos 10:4); e: “O justo viverá pela fé” (Romanos 1:17). A Palavra de Deus não pode ser recebida nem honrada por obra alguma, mas somente pela fé. Assim, fica claro que, da mesma maneira que a alma necessita somente da Palavra para a vida e a justificação, ela é justificada somente pela fé, e não por qualquer obra. Pois, se pudesse ser justificada por outro meio, não necessitaria da Palavra nem, consequentemente, da fé.[13] Essa fé não pode coexistir com as obras quando você imagina que pode ser justificado juntamente por ela e por essas obras, quaisquer que sejam. Isso seria hesitar entre dois pensamentos, adorar Baal e beijar-lhe a mão, o que, como diz Jó, constitui grande iniquidade (1 Reis 18:21; Jó 31:27–28). Portanto, quando você começa a crer, aprende ao mesmo tempo que tudo o que existe em você é completamente culpado, pecaminoso e condenável, conforme está escrito: “Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3:23); e: “Não há justo, nem sequer um. Todos se desviaram e juntamente se tornaram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Romanos 3:10–12). Depois de aprender isso, você compreenderá que Cristo lhe é necessário, pois ele sofreu e ressuscitou por você, para que, crendo nele, você se torne outro homem por meio dessa fé, tendo todos os seus pecados perdoados e sendo justificado pelos méritos de outro, isto é, somente pelos méritos de Cristo.[14] Uma vez que essa fé só pode reinar no homem interior, conforme está escrito: “Com o coração se crê para a justiça” (Romanos 10:10), e visto que somente ela justifica, torna-se evidente que o homem interior não pode ser justificado, libertado nem salvo por qualquer obra ou esforço exterior, e que obra alguma possui relação com sua justificação. Do mesmo modo, é somente pela impiedade e pela incredulidade do coração que ele se torna culpado e escravo do pecado, merecedor da condenação, e não por qualquer pecado ou obra exterior. Portanto, a primeira preocupação de todo cristão deve ser abandonar toda confiança nas obras, fortalecer cada vez mais somente a fé e, por meio dela, crescer no conhecimento, não das obras, mas de Jesus Cristo, que sofreu e ressuscitou por ele, como Pedro ensina ao ordenar que cresçamos na graça e no conhecimento de Cristo (2 Pedro 3:18). Nenhuma outra obra faz de alguém um cristão. Assim, quando os judeus perguntaram a Cristo o que deveriam fazer para realizar as obras de Deus, ele rejeitou a multidão de obras das quais os viu orgulhosos e lhes ordenou somente uma coisa: “A obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou”, pois “Deus, o Pai, o selou” (João 6:27,29).[15] Por isso, a verdadeira fé em Cristo é um tesouro incomparável, trazendo consigo a salvação universal e preservando de todo mal, conforme está escrito: “Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado” (Marcos 16:16). Isaías, contemplando esse tesouro, predisse: “A destruição determinada transbordará em justiça, pois o Senhor Deus dos Exércitos executará, no meio de toda a terra, uma destruição determinada” (Isaías 10:22–23). É como se dissesse: “A fé, que é o cumprimento breve e completo da Lei, encherá os que creem de tamanha justiça que nada mais necessitarão para sua justificação”. Assim também Paulo diz: “Com o coração se crê para a justiça” (Romanos 10:10).[16] Você perguntará como pode acontecer que somente a fé justifique e conceda, sem as obras, tão grande tesouro de bens, quando tantas obras, cerimônias e leis nos são prescritas nas Escrituras. Respondo: antes de todas as coisas, tenha em mente o que já disse: somente a fé, sem as obras, justifica, liberta e salva, como demonstrarei mais claramente a seguir.[17] É necessário observar, entretanto, que toda a Escritura de Deus se divide em duas partes: mandamentos e promessas. Os mandamentos certamente nos ensinam o que é bom, mas aquilo que ensinam não é imediatamente realizado. Eles mostram o que devemos fazer, mas não nos dão o poder para fazê-lo. Foram estabelecidos com o propósito de revelar o homem a si mesmo, para que, por meio deles, aprenda sua própria incapacidade para o bem e desespere de suas próprias forças. Por essa razão, são chamados Antigo Testamento e verdadeiramente o são.[18] Por exemplo, “Não cobiçarás” é um mandamento pelo qual todos somos convencidos de pecado, pois nenhum homem consegue deixar de cobiçar, por maiores que sejam seus esforços em sentido contrário (Êxodo 20:17; Romanos 7:7–8). Portanto, para cumprir o mandamento e não cobiçar, ele é forçado a desesperar de si mesmo e procurar, em outro lugar e por meio de outro, o auxílio que não encontra em si. Conforme está escrito: “Ó Israel, você destruiu a si mesmo, mas em mim está o seu auxílio” (Oseias 13:9). O que acontece com esse mandamento acontece com todos os demais, pois todos são igualmente impossíveis de serem cumpridos por nossas próprias forças.[19] Quando, por meio dos mandamentos, o homem aprende sua própria incapacidade e se torna ansioso para descobrir como poderá satisfazer a Lei — pois a Lei deve ser satisfeita, de maneira que nem um jota nem um traço passem, caso contrário ele será irremediavelmente condenado —, então, verdadeiramente humilhado e reduzido a nada aos próprios olhos, não encontra dentro de si recurso algum para a justificação e a salvação (Mateus 5:18).[20] Então se apresenta a outra parte das Escrituras: as promessas de Deus, que anunciam a glória divina e dizem: “Caso queira cumprir a Lei e, conforme ela exige, não cobiçar, veja: creia em Cristo, em quem lhe são prometidas graça, justificação, paz e liberdade”. Você possuirá todas essas coisas se crer e não as possuirá se não crer. Aquilo que lhe é impossível por meio de todas as numerosas e, contudo, inúteis obras da Lei, você cumprirá de maneira fácil e resumida por meio da fé, porque Deus Pai fez todas as coisas dependerem da fé: aquele que a possui tem todas as coisas, e aquele que não a possui nada tem. “Deus encerrou todos debaixo da incredulidade, para usar de misericórdia para com todos” (Romanos 11:32). Assim, as promessas de Deus concedem aquilo que os mandamentos exigem e realizam aquilo que a Lei ordena, de modo que tudo procede unicamente de Deus: tanto os mandamentos como seu cumprimento. Somente ele ordena e somente ele também cumpre. Consequentemente, as promessas de Deus pertencem ao Novo Testamento; na verdade, elas são o Novo Testamento.[21] Uma vez que essas promessas de Deus são palavras de santidade, verdade, justiça, liberdade e paz, estando cheias de todo bem, a alma que se apega a elas com fé firme fica tão unida a elas, tão completamente absorvida por elas, que não apenas participa de todas as virtudes dessas palavras, mas é por elas penetrada e saturada. Se o toque de Cristo curava, quanto mais esse delicadíssimo toque espiritual — ou, melhor, essa absorção da Palavra — comunica à alma tudo aquilo que pertence à Palavra! Desse modo, somente pela fé e sem obras, a alma é justificada, santificada, revestida de verdade, paz e liberdade pela Palavra de Deus, sendo completamente preenchida com todo bem e verdadeiramente feita filha de Deus, conforme está escrito: “A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, aos que creem em seu nome” (João 1:12).[22] Com tudo isso, é fácil compreender por que a fé possui tão grande poder e por que nenhuma boa obra, nem todas as boas obras reunidas, pode ser comparada a ela. Nenhuma obra pode apegar-se à Palavra de Deus nem habitar na alma. Somente a fé e a Palavra reinam nela. A alma se torna semelhante à Palavra, assim como o ferro exposto ao fogo brilha como fogo por causa de sua união com o fogo. Fica claro, portanto, que, para o cristão, sua fé é suficiente para todas as coisas e que ele não necessita de obras para sua justificação. Se não necessita de obras, também não necessita da Lei; e, se não necessita da Lei, certamente está livre da Lei. É verdadeira a declaração: “A Lei não foi feita para o justo” (1 Timóteo 1:9). Essa é a liberdade cristã: nossa fé. Seu efeito não é fazer com que sejamos negligentes ou levemos uma vida má, mas fazer com que ninguém necessite da Lei ou das obras para a justificação e a salvação.[23] Consideremos isso a primeira virtude da fé e observemos também a segunda. Também é função da fé honrar com a mais elevada veneração e reputação aquele em quem se crê, reconhecendo-o como verdadeiro e digno de confiança. Não existe honra semelhante à reputação de verdade e justiça que atribuímos àquele em quem cremos. Que crédito mais elevado podemos atribuir a alguém do que verdade, justiça e bondade absoluta? Por outro lado, não existe insulto maior do que atribuir a alguém reputação de falsidade e injustiça ou suspeitar que essas coisas nele existam, como fazemos quando não acreditamos nele.[24] Assim, ao crer firmemente nas promessas de Deus, a alma o reconhece como verdadeiro e justo e não pode atribuir-lhe glória maior. O mais elevado culto prestado a Deus consiste em atribuir-lhe verdade, justiça e todas as qualidades que devemos atribuir àquele em quem cremos. Fazendo isso, a alma se mostra preparada para cumprir toda a vontade de Deus; santifica o nome dele e entrega-se para ser tratada segundo o que lhe agradar. Ela se apega às suas promessas e jamais duvida de que ele é verdadeiro, justo e sábio, e de que fará, disporá e providenciará todas as coisas da melhor maneira. Semelhante alma, por meio dessa fé, não é obediente a Deus em todas as coisas? Que mandamento resta que não tenha sido abundantemente cumprido por tal obediência? Que cumprimento pode ser mais completo do que a obediência universal? Isso não é realizado pelas obras, mas somente pela fé.[25] Por outro lado, que rebelião, impiedade ou insulto contra Deus pode ser maior do que não acreditar em suas promessas? O que é isso senão fazer de Deus um mentiroso ou duvidar de sua verdade, isto é, atribuir a verdade a nós mesmos e a falsidade e a inconstância a Deus? Ao fazer isso, o homem não está negando Deus e colocando a si mesmo como um ídolo em seu coração? Que proveito podem trazer as obras realizadas em semelhante estado de impiedade, ainda que fossem obras angelicais ou apostólicas? Corretamente Deus encerrou todos, não sob a ira ou a cobiça, mas sob a incredulidade, para que aqueles que alegam cumprir a Lei mediante obras de pureza e benevolência — que são virtudes civis e humanas — não presumam que, por isso, serão salvos; mas, sendo incluídos no pecado da incredulidade, busquem a misericórdia ou sejam justamente condenados (Romanos 11:32).[26] Quando, porém, Deus vê que a verdade lhe é atribuída e que, pela fé de nosso coração, é honrado com toda a honra da qual é digno, então, em retribuição, ele nos honra por causa dessa fé, atribuindo-nos verdade e justiça. A fé pratica a verdade e a justiça ao entregar a Deus aquilo que lhe pertence; e, em resposta, Deus concede glória à nossa justiça. É verdadeiro e justo que Deus seja verdadeiro e justo. Confessar isso e atribuir-lhe essas qualidades é ser verdadeiro e justo. Assim ele diz: “Aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1 Samuel 2:30). Paulo também diz que a fé de Abraão lhe foi atribuída como justiça, porque, por meio dela, ele deu glória a Deus; e que também a nós, pela mesma razão, a fé será atribuída como justiça, se crermos (Romanos 4:3,20–24).[27] A terceira graça incomparável da fé é esta: ela une a alma a Cristo como a esposa ao marido. Por meio desse mistério, conforme ensina o apóstolo, Cristo e a alma se tornam uma só carne (Efésios 5:31–32). Sendo eles uma só carne e tendo sido realizado entre eles um casamento verdadeiro — na realidade, o mais perfeito de todos os casamentos, pois os casamentos humanos são apenas frágeis representações dessa grande união —, segue-se que tudo o que possuem se torna comum a ambos, tanto as coisas boas quanto as más. Assim, tudo quanto Cristo possui, a alma crente pode tomar para si e gloriar-se como se fosse seu; e tudo aquilo que pertence à alma, Cristo toma para si como se fosse dele.[28] Comparando essas posses, veremos quão inestimável é o ganho. Cristo está cheio de graça, vida e salvação; a alma está cheia de pecado, morte e condenação. Que a fé intervenha, e então o pecado, a morte e o inferno pertencerão a Cristo, enquanto a graça, a vida e a salvação pertencerão à alma. Pois, sendo ele o Marido, deve tomar para si aquilo que pertence à esposa e, ao mesmo tempo, comunicar à esposa aquilo que lhe pertence. Ao entregar-lhe seu próprio corpo e a si mesmo, como poderia deixar de lhe dar tudo o que possui? E, ao tomar para si o corpo de sua esposa, como poderia deixar de tomar tudo aquilo que pertence a ela?[29] Nisso se manifesta o agradável espetáculo não apenas da comunhão, mas de uma guerra vitoriosa, de vitória, salvação e redenção. Cristo é Deus e homem, uma pessoa que não pecou, não morre nem é condenada; na verdade, não pode pecar, morrer nem ser condenada. Sua justiça, vida e salvação são invencíveis, eternas e onipotentes. Quando semelhante pessoa, mediante a aliança matrimonial da fé, participa dos pecados, da morte e do inferno de sua esposa, fazendo-os seus e tratando-os como se realmente lhe pertencessem e como se ele próprio tivesse pecado; quando sofre, morre e desce ao inferno para vencer todas essas coisas; e quando o pecado, a morte e o inferno não conseguem engoli-lo, necessariamente são engolidos por ele nesse combate extraordinário. Sua justiça é superior aos pecados de todos os homens; sua vida é mais poderosa do que toda morte; sua salvação é mais invencível do que todo o inferno.[30] Assim, a alma crente, mediante o penhor de sua fé em Cristo, torna-se livre de todo pecado, destemida diante da morte, protegida do inferno e revestida da justiça, da vida e da salvação eternas de seu marido, Cristo. Desse modo, ele apresenta a si mesmo uma noiva gloriosa, sem mancha nem ruga, purificando-a pela lavagem da água mediante a Palavra, isto é, pela fé na Palavra da vida, da justiça e da salvação (Efésios 5:26–27). Ele a desposa consigo “em justiça, em juízo, em benignidade, em misericórdias e em fidelidade” (Oseias 2:19–20).[31] Quem pode estimar suficientemente essas núpcias reais? Quem consegue compreender as riquezas da glória dessa graça? Cristo, o rico e piedoso Marido, toma por esposa uma prostituta necessitada e ímpia, redimindo-a de todos os seus males e suprindo-a com todos os seus bens. Agora é impossível que os pecados dela a destruam, pois foram colocados sobre Cristo e engolidos nele. Em Cristo, seu Marido, ela possui uma justiça que pode reivindicar como sua e apresentar com confiança contra todos os seus pecados, contra a morte e contra o inferno, dizendo: “Ainda que eu tenha pecado, meu Cristo, em quem creio, não pecou. Tudo o que é meu pertence a ele, e tudo o que pertence a ele é meu”, conforme está escrito: “O meu amado é meu, e eu sou dele” (Cântico dos Cânticos 2:16). É isso o que Paulo diz: “Graças a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo”, vitória sobre o pecado e sobre a morte; pois “o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a Lei” (1 Coríntios 15:56–57).[32] Com tudo isso, você compreenderá novamente por que se atribui tamanha importância à fé, de modo que somente ela pode cumprir a Lei e justificar sem obra alguma. Você percebe que o primeiro mandamento, “Não terás outros deuses diante de mim”, é cumprido somente pela fé (Êxodo 20:3). Ainda que você fosse composto inteiramente de boas obras, desde a planta dos pés até o alto da cabeça, não estaria adorando a Deus nem cumprindo o primeiro mandamento, pois é impossível adorar a Deus sem atribuir-lhe a glória da verdade e da bondade universal que verdadeiramente lhe pertence. Isso não é feito pelas obras, mas somente pela fé do coração. Não é trabalhando, mas crendo, que glorificamos a Deus e confessamos que ele é verdadeiro. Por essa razão, somente a fé é a justiça do cristão e o cumprimento de todos os mandamentos. Para aquele que cumpre o primeiro mandamento, a tarefa de cumprir todos os outros é fácil.[33] As obras, por serem coisas desprovidas de razão, não podem glorificar a Deus, embora possam ser realizadas para a glória de Deus quando a fé está presente. Entretanto, neste momento, não investigamos a qualidade das obras realizadas, mas aquele que as realiza, que glorifica a Deus e produz boas obras. Esse é a fé do coração, cabeça e substância de toda a nossa justiça. Portanto, é cega e perigosa a doutrina que ensina que os mandamentos são cumpridos por meio das obras. Os mandamentos precisam ter sido cumpridos antes de qualquer boa obra, e as boas obras seguem o cumprimento deles, como veremos.[34] Para contemplarmos mais amplamente a graça que nosso homem interior possui em Cristo, devemos saber que, no Antigo Testamento, Deus santificou para si todo primogênito do sexo masculino (Êxodo 13:2). A primogenitura possuía grande valor, concedendo superioridade sobre os demais mediante a dupla honra do sacerdócio e da realeza. O irmão primogênito era sacerdote e senhor de todos os outros.[35] Sob essa figura foi prefigurado Cristo, o verdadeiro e único Primogênito de Deus Pai e da Virgem Maria, verdadeiro Rei e Sacerdote, não em sentido carnal e terreno. Seu reino não é deste mundo (João 18:36). Ele reina e exerce o sacerdócio nas coisas celestiais e espirituais, que são a justiça, a verdade, a sabedoria, a paz, a salvação e outras semelhantes. Isso não significa que todas as coisas, inclusive as da terra e do inferno, não lhe estejam sujeitas — pois, de outro modo, como poderia defender-nos e salvar-nos delas? —, mas seu reino não consiste nelas nem é estabelecido por meio delas.[36] Da mesma maneira, seu sacerdócio não consiste na manifestação exterior de vestes e gestos, como acontecia no sacerdócio humano de Arão e acontece atualmente em nosso sacerdócio eclesiástico. Consiste nas coisas espirituais, nas quais, em seu ofício invisível, ele intercede por nós diante de Deus no céu, oferece a si mesmo e cumpre todos os deveres de um sacerdote, conforme Paulo o descreve na Epístola aos Hebreus sob a figura de Melquisedeque (Hebreus 5:5–10; 7:1–28; 9:11–14). Ele não apenas ora e intercede por nós, mas também nos ensina interiormente, no espírito, mediante os ensinamentos vivos de seu Espírito. Essas são as duas funções especiais de um sacerdote, representadas, no caso dos sacerdotes carnais, pelas orações e pregações visíveis.[37] Assim como Cristo obteve por sua primogenitura essas duas dignidades, ele as transmite e comunica a todo aquele que nele crê, sob aquela lei matrimonial da qual falamos anteriormente, segundo a qual tudo o que pertence ao marido também pertence à esposa. Por essa razão, todos nós que cremos em Cristo somos reis e sacerdotes em Cristo, conforme está escrito: “Vós sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido, para anunciardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9).[38] Essas duas coisas se apresentam da seguinte maneira. Primeiramente, quanto à realeza, todo cristão é tão exaltado pela fé acima de todas as coisas que, em poder espiritual, é completamente senhor de todas elas. Nada pode causar-lhe dano; na verdade, todas as coisas lhe estão sujeitas e são obrigadas a servir à sua salvação. Assim Paulo diz: “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que são chamados” (Romanos 8:28); e também: “Seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso; e vós sois de Cristo” (1 Coríntios 3:22–23).[39] Isso não significa que algum cristão tenha sido constituído para possuir e governar corporalmente todas as coisas, segundo a ideia insana e irracional de certos eclesiásticos. Esse é o ofício dos reis, dos príncipes e dos homens que governam sobre a terra. Na experiência da vida, vemos que estamos sujeitos a todas as coisas e sofremos muitas coisas, até mesmo a morte. Na verdade, quanto mais cristão é um homem, a tanto mais males, sofrimentos e mortes fica sujeito, como vemos primeiramente em Cristo, o Primogênito, e em todos os seus santos irmãos.[40] Esse é um poder espiritual que governa no meio dos inimigos e é poderoso no meio das aflições. Não significa outra coisa senão que o poder se aperfeiçoa em minha fraqueza e que posso direcionar todas as coisas para o proveito de minha salvação, de modo que até a cruz e a morte são obrigadas a me servir e a cooperar para minha salvação (2 Coríntios 12:9). Essa é uma dignidade elevada e eminente, um domínio verdadeiro e onipotente, um império espiritual no qual não existe coisa tão boa nem tão má que não coopere para meu bem, desde que eu creia. Ainda assim, não existe nada de que eu necessite — pois somente a fé é suficiente para minha salvação —, a não ser que, nela, a fé exercite o poder e o domínio de sua liberdade. Esse é o inestimável poder e a liberdade dos cristãos.[41] Não somos apenas reis e os mais livres de todos os homens, mas também sacerdotes para sempre, dignidade muito mais elevada do que a realeza. Por meio desse sacerdócio, somos dignos de comparecer diante de Deus, orar pelos outros e ensinar uns aos outros as coisas de Deus. Esses são os deveres dos sacerdotes e não podem, de maneira alguma, ser concedidos a um incrédulo. Cristo obteve para nós, caso creiamos nele, o favor de que, assim como somos seus irmãos, coerdeiros e corregentes com ele, também sejamos sacerdotes com ele. Dessa forma, mediante o espírito da fé, ousamos entrar com confiança na presença de Deus, clamar: “Aba, Pai!”, orar uns pelos outros e realizar tudo aquilo que vemos ser praticado e representado no ofício sacerdotal visível e corporal (Romanos 8:15–17; Gálatas 4:6; Hebreus 10:19–22). Para o incrédulo, porém, nada serve nem coopera para o bem. Ele próprio está sujeito a todas as coisas, e todas elas se transformam em mal para ele, pois as utiliza impiamente em proveito próprio, e não para a glória de Deus. Portanto, não é sacerdote, mas pessoa profana, cujas orações se transformam em pecado; ele jamais comparece diante de Deus, porque Deus não ouve os pecadores (João 9:31).[42] Quem pode compreender a grandeza dessa dignidade cristã que, por seu poder real, governa todas as coisas, até mesmo a morte, a vida e o pecado; e, por sua glória sacerdotal, possui tanto poder diante de Deus, visto que Deus realiza aquilo que ela procura e deseja? Conforme está escrito: “Ele cumprirá o desejo dos que o temem; ouvirá o seu clamor e os salvará” (Salmos 145:19). Essa glória certamente não pode ser alcançada por quaisquer obras, mas somente pela fé.[43] Com essas considerações, qualquer pessoa pode perceber claramente como o cristão é livre de todas as coisas. Ele não necessita de obras para ser justificado e salvo, mas recebe esses dons abundantemente somente da fé. Caso fosse tão insensato a ponto de pretender ser justificado, libertado, salvo e feito cristão mediante alguma boa obra, perderia imediatamente a fé e todos os seus benefícios. Essa insensatez é bem representada na fábula do cão que, correndo junto à água e carregando na boca um verdadeiro pedaço de carne, é enganado pelo reflexo da carne na água. Ao abrir a boca para agarrar o reflexo, perde ao mesmo tempo a carne e sua imagem.[44] Você perguntará: “Se todos os que pertencem à Igreja são sacerdotes, por qual característica aqueles que atualmente chamamos sacerdotes devem ser distinguidos dos leigos?” Respondo: por meio do uso das palavras “sacerdote”, “clero”, “pessoa espiritual” e “eclesiástico”, cometeu-se uma injustiça. Elas foram retiradas do restante do corpo dos cristãos e transferidas para aqueles poucos que agora, por um costume prejudicial, são chamados eclesiásticos. As Sagradas Escrituras não estabelecem distinção entre eles, exceto pelo fato de chamarem aqueles que hoje são orgulhosamente denominados papas, bispos e senhores de ministros, servos e administradores. Eles devem servir aos demais no ministério da Palavra, ensinando a fé de Cristo e a liberdade dos crentes. Embora seja verdade que todos somos igualmente sacerdotes, nem todos podemos — e, mesmo que pudéssemos, não deveríamos — ministrar e ensinar publicamente. Assim Paulo diz: “Que os homens nos considerem ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus” (1 Coríntios 4:1).[45] Esse sistema perverso resultou em tão pomposa exibição de poder e em tão terrível tirania que nenhum governo terreno pode ser comparado a ele, como se os leigos fossem algo diferente dos cristãos. Por meio dessa perversão, aconteceu que o conhecimento da graça cristã, da fé, da liberdade e do próprio Cristo desapareceu completamente, sendo substituído por uma intolerável escravidão às obras e leis humanas. Segundo as Lamentações de Jeremias, tornamo-nos escravos dos homens mais desprezíveis da terra, que abusam de nossa miséria para todos os propósitos vergonhosos e desonrosos de sua vontade: “Servos dominam sobre nós, e ninguém há que nos livre de suas mãos” (Lamentações 5:8).[46] Retornando ao assunto que começamos, penso que essas considerações deixam claro que não é suficiente nem cristão pregar as obras, a vida e as palavras de Cristo de maneira meramente histórica, como acontecimentos cujo conhecimento bastaria como exemplo para moldarmos nossa vida, como fazem aqueles que atualmente são considerados os melhores pregadores. Muito menos é correto silenciar completamente acerca dessas coisas e ensinar, em seu lugar, as leis dos homens e os decretos dos Pais. Atualmente, não são poucas as pessoas que pregam e leem sobre Cristo com o objetivo de provocar nas emoções humanas compaixão por Cristo, indignação contra os judeus e outras absurdidades infantis e sentimentais dessa espécie.[47] A pregação deve ter por objetivo promover a fé em Cristo, para que ele não seja apenas Cristo, mas Cristo para você e para mim, e para que aquilo que se diz a respeito dele e os nomes que lhe são atribuídos operem dentro de nós. Essa fé é produzida e preservada pela pregação das razões pelas quais Cristo veio, daquilo que nos trouxe e concedeu e do proveito e vantagem com que deve ser recebido. Isso acontece quando a liberdade cristã que recebemos do próprio Cristo é corretamente ensinada e quando nos é mostrado de que maneira todos nós, cristãos, somos reis e sacerdotes, senhores de todas as coisas, podendo confiar que tudo quanto fazemos na presença de Deus é agradável e aceitável a ele.[48] Que coração não se alegraria em seu íntimo ao ouvir essas coisas? Que coração, recebendo tão grande consolação, não se tornaria doce pelo amor de Cristo, amor que jamais poderá alcançar por quaisquer leis ou obras? Quem poderia ferir semelhante coração ou fazê-lo temer? Se a consciência do pecado ou o horror da morte o assaltarem, ele estará preparado para esperar no Senhor, não temerá esses males e não será perturbado até contemplar seus inimigos de cima. Ele crê que a justiça de Cristo é sua e que seu pecado já não lhe pertence, mas pertence a Cristo. Por causa de sua fé em Cristo, todo o seu pecado deve necessariamente ser engolido diante da justiça de Cristo, como já foi dito. Ele também aprende, juntamente com o apóstolo, a zombar da morte e do pecado e dizer: “Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó sepultura, a tua vitória? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a Lei. Graças a Deus, porém, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Coríntios 15:55–57). A morte é engolida pela vitória, não somente pela vitória de Cristo, mas também pela nossa, pois, por meio da fé, a vitória dele se torna nossa e nela também vencemos.[49] Que isso seja suficiente acerca do homem interior, de sua liberdade e da justiça da fé, que não necessita de leis nem de boas obras. Na verdade, as leis e as obras são prejudiciais a essa justiça quando alguém pretende ser justificado por meio delas.[50] Passemos agora à outra parte: o homem exterior. Aqui responderemos a todos aqueles que, ofendidos pela palavra da fé e por aquilo que afirmei, dizem: “Se a fé realiza todas as coisas e é, por si mesma, suficiente para a justificação, por que as boas obras são ordenadas? Devemos então permanecer ociosos, sem realizar obra alguma, satisfeitos com a fé?” De maneira alguma, homens ímpios; de maneira alguma. Isso realmente aconteceria se fôssemos homens completa e perfeitamente interiores e espirituais. Entretanto, isso não acontecerá antes do último dia, quando os mortos ressuscitarem. Enquanto vivemos na carne, apenas começamos e avançamos naquilo que será completado na vida futura. Por essa razão, o apóstolo chama aquilo que possuímos nesta vida de “primícias do Espírito” (Romanos 8:23). No futuro, receberemos a plenitude do Espírito. A essa parte pertence a afirmação feita anteriormente: o cristão é servo de todos e está sujeito a todos. Na parte em que é livre, não realiza obras; na parte em que é servo, realiza todas as obras. Vejamos por qual princípio isso acontece.[51] Embora, como disse, interiormente e segundo o espírito, o homem seja abundantemente justificado pela fé, possuindo tudo aquilo de que necessita — exceto que essa própria fé e abundância devem aumentar diariamente até a vida futura —, ele ainda permanece nesta vida mortal sobre a terra, na qual necessita governar o próprio corpo e relacionar-se com outros homens. É aqui que começam as obras. Aqui ele não deve permanecer ocioso. Deve cuidar de exercitar o corpo mediante jejuns, vigílias, trabalhos e outras disciplinas razoáveis, para que seja submetido ao espírito, obedeça e se conforme ao homem interior e à fé, não se rebelando nem os impedindo, como é de sua natureza fazer quando não é mantido sob domínio. O homem interior, conformado a Deus e criado novamente à imagem de Deus pela fé, alegra-se e deleita-se em Cristo, no qual recebeu tantas bênçãos. Por isso, possui diante de si apenas esta tarefa: servir a Deus com alegria, gratuitamente e em amor livre.[52] Ao fazer isso, porém, encontra a vontade contrária em sua própria carne, que se esforça para servir ao mundo e buscar a própria satisfação. O espírito da fé não pode nem quer suportar isso, mas aplica-se alegre e zelosamente a dominá-la e contê-la, como diz Paulo: “Segundo o homem interior, tenho prazer na Lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei, que guerreia contra a lei da minha mente e me leva cativo à lei do pecado” (Romanos 7:22–23). E novamente: “Esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado” (1 Coríntios 9:27); e: “Os que pertencem a Cristo crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos” (Gálatas 5:24).[53] Essas obras, contudo, não devem ser realizadas com a ideia de que, por meio delas, o homem pode ser justificado diante de Deus — pois a fé, que é a única justiça diante de Deus, não tolera semelhante falsa concepção —, mas unicamente com o propósito de submeter o corpo e purificá-lo de seus maus desejos, para que nossos olhos se voltem apenas à eliminação desses desejos. Quando a alma é purificada pela fé e levada a amar a Deus, deseja que todas as coisas sejam igualmente purificadas, especialmente seu próprio corpo, para que todas elas se unam a ela no amor e no louvor a Deus. Assim, por causa das necessidades do próprio corpo, o homem não pode permanecer ocioso, mas é obrigado a realizar muitas boas obras para submetê-lo. Essas obras, porém, não são o meio de sua justificação diante de Deus. Ele as realiza por amor desinteressado ao serviço de Deus, sem buscar outro fim senão fazer aquilo que agrada a quem deseja obedecer dedicadamente em todas as coisas.[54] Segundo esse princípio, cada pessoa pode facilmente instruir a si mesma sobre a medida e as distinções com que deve disciplinar o próprio corpo. Jejuará, vigiará e trabalhará na medida que considerar suficiente para conter a rebeldia e a cobiça do corpo. Aqueles que pretendem ser justificados pelas obras, porém, não observam a mortificação de seus desejos, mas apenas as próprias obras. Pensam que tudo estará bem e que serão justificados se conseguirem realizar o maior número e as maiores obras possíveis. Algumas vezes chegam a prejudicar o cérebro, destruir a natureza ou, pelo menos, torná-la inútil. É enorme insensatez e ignorância da vida e da fé cristãs alguém procurar ser justificado e salvo pelas obras sem possuir fé.[55] Para tornar mais compreensível o que dissemos, apresentemos uma figura. As obras do cristão que é justificado e salvo por sua fé, mediante a misericórdia pura e gratuita de Deus, devem ser consideradas da mesma maneira que seriam consideradas as obras de Adão e Eva no paraíso e de todos os seus descendentes caso não tivessem pecado. A respeito deles está escrito: “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo” (Gênesis 2:15). Adão havia sido criado por Deus justo e correto, de modo que não necessitava ser justificado e feito justo por guardar e trabalhar no jardim. Entretanto, para que não permanecesse desocupado, Deus lhe deu a tarefa de guardar e cultivar o paraíso. Essas teriam sido obras de perfeita liberdade, realizadas sem outro objetivo senão agradar a Deus, e não para obter a justificação, que Adão já possuía plenamente e que teria sido inata em todos nós.[56] Assim também acontece com as obras do crente. Tendo sido novamente colocado no paraíso e recriado mediante sua fé, ele não necessita das obras para sua justificação, mas as realiza para não permanecer ocioso, para exercitar e preservar o próprio corpo. Suas obras devem ser realizadas livremente, com o único objetivo de agradar a Deus. Apenas ainda não fomos completamente recriados em perfeita fé e amor. Essas coisas precisam aumentar, não, porém, mediante as obras, mas por seu próprio crescimento.[57] Um bispo, quando consagra uma igreja, confirma crianças ou realiza qualquer outro dever de seu ofício, não é consagrado bispo por meio dessas obras. Na verdade, caso não tivesse sido anteriormente consagrado bispo, nenhuma dessas obras teria validade; seriam tolas, infantis e ridículas. Da mesma forma, o cristão, tendo sido consagrado por sua fé, pratica boas obras, mas não é por essas obras que se torna pessoa mais santa ou mais cristã. Isso é efeito somente da fé. Na verdade, caso não fosse anteriormente crente e cristão, nenhuma de suas obras teria qualquer valor; seriam pecados verdadeiramente ímpios e condenáveis.[58] Portanto, são verdadeiras estas duas afirmações: “As boas obras não fazem um homem bom, mas um homem bom pratica boas obras”; e: “As obras más não fazem um homem mau, mas um homem mau pratica obras más”. É sempre necessário que a substância ou a pessoa seja boa antes que possa praticar qualquer boa obra, e que as boas obras sigam e procedam de uma pessoa boa. Como Cristo diz: “A árvore boa não pode produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons” (Mateus 7:18). Está claro que o fruto não sustenta a árvore nem que a árvore cresce sobre o fruto. Pelo contrário, as árvores produzem os frutos, e os frutos crescem nas árvores.[59] Assim como as árvores precisam existir antes de seus frutos, e os frutos não tornam a árvore boa ou má, mas uma árvore de cada espécie produz frutos segundo sua espécie, a pessoa precisa primeiramente ser boa ou má antes de poder realizar uma obra boa ou má. Suas obras não a tornam boa ou má; ela própria torna suas obras boas ou más.[60] Podemos observar a mesma coisa em todos os ofícios. Uma casa boa ou má não faz um construtor bom ou mau; um construtor bom ou mau é que faz uma casa boa ou má. De modo geral, nenhuma obra torna o trabalhador semelhante a ela; o trabalhador torna a obra semelhante a si mesmo. Assim também acontece com as obras humanas. Conforme o próprio homem é, na fé ou na incredulidade, assim também é sua obra: boa quando realizada na fé e má quando realizada na incredulidade. O contrário, porém, não é verdadeiro: a obra não torna o homem crente ou incrédulo. Assim como as obras não fazem de alguém um crente, também não o fazem justificado. A fé, porém, ao tornar o homem crente e justificado, também torna boas as suas obras.[61] Uma vez que as obras não justificam ninguém e que o homem precisa ser justificado antes de praticar qualquer boa obra, torna-se completamente evidente que somente a fé, pela pura misericórdia de Deus mediante Cristo e por meio de sua Palavra, pode justificar e salvar digna e suficientemente a pessoa. O cristão não necessita de obra nem de lei alguma para sua salvação, pois, pela fé, está livre de toda a Lei e, em perfeita liberdade, realiza gratuitamente tudo quanto faz. Não busca proveito nem salvação, pois, pela graça de Deus, já está salvo e enriquecido com todas as coisas por meio de sua fé; busca somente aquilo que agrada a Deus.[62] Da mesma forma, nenhuma boa obra pode aproveitar ao incrédulo para a justificação e a salvação. Por outro lado, nenhuma obra má o torna uma pessoa má e condenada; é a incredulidade, que torna a pessoa e a árvore más, que também torna suas obras más e condenadas. Portanto, quando alguém se torna bom ou mau, isso não procede de suas obras, mas de sua fé ou incredulidade. Como diz o sábio: “O princípio do orgulho é afastar-se de Deus”, isto é, não crer (Eclesiástico 10:12). Paulo diz: “Aquele que se aproxima de Deus deve crer que ele existe” (Hebreus 11:6). Cristo diz a mesma coisa: “Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má e o seu fruto mau” (Mateus 12:33). É como se dissesse: aquele que deseja ter bons frutos deve começar pela árvore e plantar uma árvore boa. Da mesma forma, aquele que deseja realizar boas obras deve começar não pelas obras, mas pela fé, pois é a fé que torna boa a pessoa. Nada torna a pessoa boa senão a fé, e nada a torna má senão a incredulidade.[63] É certamente verdade que, diante dos homens, alguém se torna bom ou mau por suas obras. Contudo, “tornar-se”, nesse caso, significa que se demonstra e se reconhece quem é bom ou mau, como Cristo diz: “Por seus frutos os conhecereis” (Mateus 7:20). Tudo isso, porém, permanece nas aparências e nas coisas exteriores. Nesse assunto, muitas pessoas enganam a si mesmas quando presumem escrever e ensinar que somos justificados pelas boas obras, sem sequer mencionar a fé. Seguem seus próprios caminhos, enganando e sendo enganadas, indo de mal a pior, cegos guiando cegos, fatigando-se com muitas obras e, contudo, nunca alcançando a verdadeira justiça (2 Timóteo 3:13; Mateus 15:14). A respeito delas, Paulo diz: “Tendo aparência de piedade, mas negando seu poder; sempre aprendendo e nunca podendo chegar ao conhecimento da verdade” (2 Timóteo 3:5,7).[64] Portanto, aquele que não deseja se perder juntamente com esses cegos precisa olhar além das obras da Lei e da doutrina das obras. Na verdade, deve desviar os olhos das obras e contemplar a pessoa e a maneira pela qual ela pode ser justificada. Ela é justificada e salva não por obras ou leis, mas pela Palavra de Deus, isto é, pela promessa de sua graça, para que a glória pertença à majestade divina, que nos salvou, a nós que cremos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, mediante a Palavra de sua graça (Tito 3:5; Atos 20:32).[65] Com tudo isso, é fácil perceber segundo qual princípio as boas obras devem ser rejeitadas ou acolhidas e por qual regra todos os ensinamentos acerca das obras devem ser compreendidos. Quando as obras são apresentadas como fundamentos da justificação e realizadas sob a falsa convicção de que podemos pretender ser justificados por elas, impõem sobre nós o jugo da necessidade, extinguem a liberdade juntamente com a fé e, por esse próprio acréscimo ao seu uso, deixam de ser boas e se tornam verdadeiramente condenáveis. Tais obras não são livres, mas blasfemam contra a graça de Deus, à qual somente pertence justificar e salvar mediante a fé. As obras não podem realizar isso; contudo, mediante ímpia presunção e por nossa insensatez, assumem para si essa função, invadindo violentamente o ofício e a glória da graça.[66] Portanto, não rejeitamos as boas obras; pelo contrário, nós as acolhemos e as ensinamos no mais elevado grau. Não as condenamos por causa delas mesmas, mas por causa desse acréscimo ímpio e da concepção perversa de buscar a justificação por meio delas. Essas coisas fazem com que as obras sejam boas apenas exteriormente, mas não verdadeiramente boas, pois, por meio delas, os homens enganam a si mesmos e aos outros, como lobos vorazes vestidos de ovelhas (Mateus 7:15).[67] Esse leviatã, essa concepção pervertida acerca das obras, é invencível quando falta a fé sincera. Os praticantes de obras, considerados santos, não conseguem deixar de sustentá-la até que a fé, que a destrói, venha e reine no coração. A natureza não consegue expulsá-la por seu próprio poder; na verdade, não consegue sequer reconhecê-la como realmente é, mas a considera uma vontade santíssima. Quando o costume também intervém e fortalece essa perversidade natural, como aconteceu por meio de mestres ímpios, então o mal se torna incurável e conduz multidões a uma ruína irreparável. Portanto, embora seja bom pregar e escrever acerca do arrependimento, da confissão e da satisfação, quando paramos nisso e não prosseguimos para ensinar a fé, semelhante ensinamento é, sem dúvida, enganoso e diabólico. Cristo, falando por meio de seu servo João, não disse apenas: “Arrependei-vos”, mas acrescentou: “Porque o Reino dos céus está próximo” (Mateus 3:2).[68] Não se deve pregar apenas uma palavra de Deus, mas ambas. Devem-se retirar do tesouro coisas novas e velhas, tanto a voz da Lei como a Palavra da graça (Mateus 13:52). A voz da Lei deve ser apresentada para que os homens sejam aterrorizados e conduzidos ao conhecimento de seus pecados e, a partir disso, convertidos ao arrependimento e a uma vida melhor. Entretanto, não devemos parar nesse ponto. Isso seria apenas ferir sem tratar, golpear sem curar, matar sem vivificar, fazer descer ao inferno sem trazer de volta, humilhar sem exaltar. Por isso, também deve ser pregada a Palavra da graça e da prometida remissão dos pecados, para ensinar e estabelecer a fé. Sem essa Palavra, a contrição, o arrependimento e todos os outros deveres são realizados e ensinados em vão.[69] É verdade que ainda existem pregadores de arrependimento e graça, mas eles não explicam a Lei e as promessas de Deus com o propósito e o espírito necessários para que os homens aprendam de onde procedem o arrependimento e a graça. O arrependimento procede da Lei de Deus; a fé ou a graça procede das promessas de Deus, conforme está escrito: “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela Palavra de Deus” (Romanos 10:17). Assim acontece que o homem, depois de ser humilhado e levado ao conhecimento de si mesmo pelas ameaças e pelos terrores da Lei, é consolado e levantado pela fé na promessa divina. Desse modo, “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmos 30:5). Isso é suficiente acerca das obras em geral e também das obras que o cristão pratica em relação ao próprio corpo.[70] Por fim, falaremos também das obras que ele realiza em favor do próximo. O homem não vive somente para si mesmo neste corpo mortal, a fim de trabalhar apenas em benefício próprio, mas vive também para todos os homens sobre a terra. Na verdade, vive somente para os outros, e não para si. É com esse objetivo que submete o próprio corpo, para poder servir aos outros com maior sinceridade e liberdade. Paulo diz: “Nenhum de nós vive para si e nenhum morre para si. Se vivemos, para o Senhor vivemos; e, se morremos, para o Senhor morremos” (Romanos 14:7–8). Portanto, é impossível que o cristão permaneça ocioso nesta vida sem trabalhar para o bem de seus próximos, pois necessariamente precisa falar, agir e conviver com os homens, assim como Cristo foi feito à semelhança dos homens, encontrado em forma humana e viveu entre os homens (Filipenses 2:7–8; Baruque 3:38).[71] Contudo, o cristão não necessita de nenhuma dessas coisas para a justificação e a salvação. Em todas as suas obras, deve manter este propósito e contemplar unicamente este objetivo: servir e ser útil aos outros em tudo o que faz, mantendo diante dos olhos apenas as necessidades e o benefício do próximo. Assim, o apóstolo nos ordena trabalhar com as próprias mãos para termos o que repartir com aquele que necessita (Efésios 4:28). Poderia ter dito: “Para que possamos sustentar a nós mesmos”; entretanto, ordena que tenhamos para dar aos necessitados. É próprio do cristão cuidar do próprio corpo com o propósito de que, por sua saúde e bem-estar, possa trabalhar, adquirir e conservar bens para ajudar aqueles que passam necessidade. Assim, o membro mais forte serve ao mais fraco, e somos filhos de Deus, atentos e ocupados uns com os outros, carregando os fardos uns dos outros e cumprindo a Lei de Cristo (Romanos 15:1; Gálatas 6:2).[72] Eis a vida verdadeiramente cristã. Eis a fé operando verdadeiramente pelo amor, quando o homem se dedica com alegria e amor às obras daquela servidão extremamente livre, na qual serve aos outros voluntariamente e sem recompensa, estando ele próprio abundantemente satisfeito com a plenitude e as riquezas de sua fé (Gálatas 5:6).[73] Assim, depois de ensinar aos filipenses como haviam sido enriquecidos por aquela fé em Cristo na qual receberam todas as coisas, Paulo prossegue: “Portanto, se há alguma consolação em Cristo, algum conforto de amor, alguma comunhão do Espírito, alguma profunda afeição e compaixão, completai a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, sendo unidos de alma e tendo o mesmo sentimento. Nada façais por rivalidade ou vanglória, mas, com humildade, cada um considere os outros superiores a si mesmo. Cada um não considere somente os próprios interesses, mas também os interesses dos outros” (Filipenses 2:1–4).[74] Nisso vemos claramente que o apóstolo estabelece esta regra para a vida cristã: todas as nossas obras devem ser direcionadas ao benefício dos outros, pois todo cristão possui tamanha abundância por meio de sua fé que todas as suas outras obras e toda a sua vida lhe restam para que, por meio delas, sirva e beneficie espontaneamente seu próximo.[75] Para esse propósito, Paulo apresenta Cristo como exemplo, dizendo: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, existindo na forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus algo a que devia se apegar; mas esvaziou a si mesmo, tomando a forma de servo e sendo feito à semelhança dos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou a si mesmo, tornando-se obediente até a morte” (Filipenses 2:5–8). Essa declaração extremamente saudável do apóstolo foi obscurecida para nós por homens que, interpretando de maneira completamente equivocada as expressões “forma de Deus”, “forma de servo”, “forma” e “semelhança dos homens”, aplicaram-nas exclusivamente às naturezas divina e humana. O significado de Paulo é este: Cristo, estando cheio da forma de Deus e possuindo abundantemente todos os bens, de modo que não necessitava de obras ou sofrimentos para ser justo e salvo — pois possuía todas essas coisas desde o princípio —, não se ensoberbeceu por causa delas nem se elevou acima de nós, reivindicando poder sobre nós, embora pudesse legitimamente fazê-lo. Pelo contrário, trabalhou, agiu, sofreu e morreu de maneira semelhante aos demais homens, como um homem em sua aparência e conduta, como se necessitasse de todas as coisas e nada possuísse da forma de Deus. Contudo, fez tudo isso por nossa causa, para nos servir e para que todas as obras realizadas sob a forma de servo se tornassem nossas.[76] Da mesma forma, o cristão, à semelhança de Cristo, sua Cabeça, estando cheio e enriquecido por sua fé, deve estar satisfeito com essa forma de Deus recebida pela fé, exceto que, como já disse, precisa fazer essa fé crescer até que seja aperfeiçoada. Essa fé é sua vida, sua justificação e sua salvação; preserva sua pessoa, torna-a agradável a Deus e lhe concede tudo aquilo que Cristo possui, como disse anteriormente e como Paulo afirma: “A vida que agora vivo na carne, vivo pela fé no Filho de Deus” (Gálatas 2:20). Embora seja assim livre de todas as obras, o cristão deve esvaziar-se dessa liberdade, tomar sobre si a forma de servo, tornar-se semelhante aos homens, ser encontrado em forma humana, servir, ajudar e agir de todas as maneiras em favor do próximo, conforme vê que Deus, mediante Cristo, agiu e continua agindo em seu favor. Deve fazer tudo isso livremente, sem considerar nada além da boa vontade de Deus, raciocinando desta maneira:[77] Eis que meu Deus, sem mérito algum de minha parte e por sua pura e gratuita misericórdia, concedeu a mim, criatura indigna, condenada e desprezível, todas as riquezas da justificação e da salvação em Cristo, de modo que já não necessito de coisa alguma, exceto da fé para crer que isso é verdadeiro. Por que, então, em favor de semelhante Pai, que me cobriu com essas suas riquezas inestimáveis, eu não faria livremente, alegremente, com todo o coração e por zelo voluntário tudo aquilo que sei ser agradável e aceitável diante dele? Portanto, entregarei a mim mesmo como uma espécie de Cristo ao meu próximo, assim como Cristo entregou a si mesmo por mim. Nada farei nesta vida, exceto aquilo que perceber ser necessário, proveitoso e saudável para meu próximo, pois, mediante a fé, possuo abundantemente todos os bens em Cristo.[78] Assim, da fé procedem o amor e a alegria no Senhor; e do amor procede um espírito alegre, disposto e livre, preparado para servir voluntariamente ao próximo, sem considerar gratidão ou ingratidão, louvor ou censura, ganho ou perda. Seu objetivo não é colocar os homens sob obrigação. Ele não distingue entre amigos e inimigos nem considera gratidão ou ingratidão, mas entrega a si mesmo e seus bens com a maior liberdade e disposição, quer os perca pela ingratidão, quer obtenha benevolência. Assim fez seu Pai, distribuindo todas as coisas abundante e gratuitamente a todos os homens e fazendo seu sol nascer sobre justos e injustos (Mateus 5:45). Assim também o filho nada faz nem sofre senão pela livre alegria com que, mediante Cristo, deleita-se em Deus, o doador de tão grandes presentes.[79] Você percebe, portanto, que, quando reconhecemos aqueles grandes e preciosos dons que, como diz Pedro, nos foram concedidos, o amor é rapidamente derramado em nosso coração por meio do Espírito (2 Pedro 1:4; Romanos 5:5). Pelo amor, tornamo-nos livres, alegres, poderosos, trabalhadores ativos, vencedores sobre todas as nossas tribulações, servos do próximo e, ao mesmo tempo, senhores de todas as coisas. Para aqueles que não reconhecem os bens concedidos mediante Cristo, porém, Cristo nasceu em vão. Essas pessoas caminham segundo as obras e jamais alcançarão o gosto e a percepção dessas grandes coisas. Portanto, assim como nosso próximo passa necessidade e necessita de nossa abundância, nós também, diante de Deus, passávamos necessidade e necessitávamos de sua misericórdia. E, assim como nosso Pai celestial nos auxiliou gratuitamente em Cristo, devemos auxiliar gratuitamente nosso próximo por meio de nosso corpo e de nossas obras. Cada um deve tornar-se para o outro uma espécie de Cristo, para que sejamos mutuamente Cristos uns para com os outros e para que o mesmo Cristo esteja em todos nós, isto é, para que sejamos verdadeiramente cristãos.[80] Quem pode compreender as riquezas e a glória da vida cristã? Ela pode todas as coisas, possui todas as coisas e de nada necessita. É senhora sobre o pecado, a morte e o inferno e, ao mesmo tempo, serva obediente e útil de todos. Contudo, infelizmente, essa vida é atualmente desconhecida em todo o mundo. Não é pregada nem procurada, de modo que ignoramos completamente nosso próprio nome e por que somos e somos chamados cristãos. Certamente somos assim chamados por causa de Cristo, que não está ausente, mas habita entre nós, desde que creiamos nele e sejamos, recíproca e mutuamente, cada um o Cristo do outro, fazendo ao próximo aquilo que Cristo faz por nós. Atualmente, porém, pelas doutrinas humanas, somos ensinados somente a buscar méritos, recompensas e coisas que já nos pertencem, e transformamos Cristo em um legislador muito mais severo do que Moisés.[81] A bem-aventurada Virgem, mais do que qualquer outra pessoa, apresenta-nos um exemplo dessa mesma fé. Ela foi purificada segundo a Lei de Moisés, como todas as outras mulheres, embora não estivesse sujeita a semelhante lei nem necessitasse de purificação (Levítico 12:1–8; Lucas 2:22–24). Ainda assim, submeteu-se à Lei voluntariamente e por amor livre, tornando-se semelhante às outras mulheres para não ofendê-las nem desprezá-las. Ela não foi justificada por fazer isso; estando já justificada, realizou-o livre e gratuitamente. Assim também nossas obras devem ser realizadas, e não para que sejamos justificados por elas. Tendo sido primeiramente justificados pela fé, devemos realizar todas as nossas obras livre e alegremente em favor dos outros.[82] São Paulo circuncidou seu discípulo Timóteo, não porque este necessitasse da circuncisão para sua justificação, mas para não ofender ou desprezar aqueles judeus fracos na fé que ainda não conseguiam compreender a liberdade da fé (Atos 16:3). Por outro lado, quando eles desprezaram a liberdade e insistiram que a circuncisão era necessária para a justificação, Paulo lhes resistiu e não permitiu que Tito fosse circuncidado (Gálatas 2:3–5). Assim como não queria ofender nem desprezar a fraqueza de fé de alguém, mas por algum tempo cedia à vontade dos fracos, também não permitia que a liberdade da fé fosse ofendida ou desprezada por aqueles endurecidos em sua justiça própria. Caminhava por uma via intermediária, poupando os fracos por algum tempo e resistindo sempre aos endurecidos, a fim de conduzir todos à liberdade da fé. Segundo o mesmo princípio, devemos agir: recebendo aqueles que são fracos na fé e resistindo corajosamente aos mestres endurecidos das obras, acerca dos quais falaremos posteriormente de maneira mais ampla (Romanos 14:1).[83] Quando cobraram de seus discípulos o tributo do templo, Cristo perguntou a Pedro se os filhos de um rei não eram livres dos impostos. Pedro concordou. Ainda assim, Jesus lhe ordenou que fosse ao mar, dizendo: “Para não os escandalizarmos, vá ao mar, lance o anzol e tome o primeiro peixe que subir. Ao abrir-lhe a boca, você encontrará uma moeda. Tome-a e entregue-a por mim e por você” (Mateus 17:24–27).[84] Esse exemplo é muito apropriado ao nosso propósito, pois nele Cristo chama a si mesmo e seus discípulos de homens livres e filhos de um Rei, que de nada necessitam; contudo, submete-se voluntariamente e paga o tributo. Na mesma medida em que essa obra era necessária ou útil para a justificação e salvação de Cristo, todas as demais obras dele ou de seus discípulos também servem para a justificação. Elas são verdadeiramente livres, posteriores à justificação e realizadas somente para servir aos outros e dar-lhes exemplo.[85] Dessa natureza são as obras que Paulo ensinou quando ordenou que os cristãos fossem sujeitos aos principados e às autoridades e estivessem preparados para toda boa obra (Tito 3:1). Isso não acontece para que sejam justificados por essas coisas — pois já foram justificados pela fé —, mas para que, em liberdade de espírito, sirvam aos outros, submetam-se às autoridades e obedeçam à vontade delas por amor gratuito.[86] Dessa natureza também deveriam ser as obras de todas as instituições religiosas, mosteiros e sacerdotes. Cada pessoa deveria realizar as obras de sua profissão e condição de vida não para ser justificada por elas, mas para submeter o próprio corpo, servir de exemplo aos outros, que também necessitam dominar seus corpos, e adaptar-se à vontade alheia por amor livre. Devemos, porém, guardar-nos cuidadosamente contra qualquer confiança vã ou presunção de sermos justificados, adquirirmos méritos ou sermos salvos por essas obras, pois isso pertence somente à fé, como tantas vezes afirmei.[87] Aquele que possui esse conhecimento pode facilmente evitar o perigo existente entre os incontáveis mandamentos e preceitos do papa, dos bispos, dos mosteiros, das igrejas, dos príncipes e dos magistrados, que alguns pastores insensatos nos impõem como necessários para a justificação e a salvação, chamando-os preceitos da Igreja, quando absolutamente não o são. O cristão livre dirá: “Jejuarei, orarei e farei esta ou aquela coisa ordenada pelos homens, não porque necessite delas para a justificação ou a salvação, mas para concordar com a vontade do papa, do bispo, de determinada comunidade, de determinado magistrado ou de meu próximo e para lhe servir de exemplo. Por essa razão, farei e sofrerei todas as coisas, assim como Cristo fez e sofreu muito mais por mim, embora não necessitasse fazer isso em benefício próprio. Ele se submeteu à Lei por minha causa, quando não estava pessoalmente sob a Lei (Gálatas 4:4). E, embora os tiranos possam me causar violência ou injustiça ao exigirem obediência a essas coisas, não me fará mal realizá-las, desde que não sejam contrárias a Deus.”[88] Com tudo isso, cada pessoa poderá alcançar julgamento seguro e fiel discernimento entre todas as obras e leis e saber quem são os pastores cegos e insensatos e quem são os verdadeiros e bons. Toda obra que não seja direcionada ao único objetivo de submeter o corpo ou servir ao próximo — desde que ele não exija nada contrário à vontade de Deus — não é uma obra boa ou cristã. Por essa razão, temo grandemente que hoje poucas ou nenhuma instituição religiosa, mosteiro, altar ou função eclesiástica sejam verdadeiramente cristãos; e o mesmo pode ser dito dos jejuns e das orações especiais dirigidas a determinados santos. Temo que, em todas essas coisas, esteja sendo buscado apenas aquilo que já nos pertence, enquanto imaginamos que, por meio delas, nossos pecados são purificados e a salvação é alcançada, destruindo completamente a liberdade cristã. Isso procede da ignorância da fé e da liberdade cristãs.[89] Essa ignorância e esse esmagamento da liberdade são diligentemente promovidos pelos ensinamentos de muitos pastores cegos. Eles despertam e incentivam o povo ao zelo por essas coisas, elogiando-as e tornando-as grandiosas mediante suas indulgências, mas jamais ensinando a fé. Eu o aconselharia, caso deseje orar, jejuar ou estabelecer fundações em igrejas, como dizem, a ter cuidado para não fazer isso com o objetivo de obter qualquer vantagem, temporal ou eterna. Fazendo isso, você prejudicaria sua fé, que é a única coisa que lhe concede todos os bens. Deve preocupar-se somente com o crescimento dessa fé, seja trabalhando, seja sofrendo. Aquilo que você der, entregue livremente e sem preço, para que os outros prosperem e sejam enriquecidos por você e por sua bondade. Assim você será verdadeiramente uma pessoa boa e cristã. Pois que valor possuem para você seus bens e suas obras, realizados além do necessário para a submissão do corpo, uma vez que, por sua fé, você possui abundância para si mesmo e, nela, Deus já lhe concedeu todas as coisas?[90] Estabelecemos esta regra: os bens que recebemos de Deus devem fluir de uma pessoa para outra e se tornar comuns a todos, de modo que cada um de nós se revista, por assim dizer, de seu próximo e se comporte para com ele como se estivesse em seu lugar. Esses bens fluíram e continuam fluindo de Cristo para nós. Ele se revestiu de nós e agiu em nosso favor como se fosse aquilo que somos. De nós, esses bens fluem para aqueles que deles necessitam. Assim, devo apresentar diante de Deus minha fé e minha justiça como cobertura e intercessão pelos pecados de meu próximo, tomando-os sobre mim e trabalhando e servindo neles como se fossem meus próprios pecados, pois foi assim que Cristo fez por nós. Esse é o verdadeiro amor e a genuína verdade da vida cristã. Contudo, ela só é verdadeira e genuína onde existe fé verdadeira e genuína. Por isso, o apóstolo atribui ao amor esta característica: “O amor não busca os próprios interesses” (1 Coríntios 13:5).[91] Concluímos, portanto, que o cristão não vive em si mesmo, mas em Cristo e em seu próximo; caso contrário, não é cristão. Vive em Cristo por meio da fé e em seu próximo por meio do amor. Pela fé, é elevado acima de si mesmo em direção a Deus; pelo amor, desce novamente abaixo de si mesmo em direção ao próximo, permanecendo, contudo, sempre em Deus e em seu amor. Assim diz Cristo: “Em verdade vos digo que, daqui em diante, vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (João 1:51).[92] Isso é suficiente acerca da liberdade, que, como você vê, é uma liberdade verdadeira e espiritual, libertando nosso coração de todos os pecados, leis e mandamentos, conforme Paulo diz: “A Lei não foi feita para o justo” (1 Timóteo 1:9). Ela supera todas as demais liberdades exteriores tanto quanto o céu está acima da terra. Que Cristo nos faça compreender e preservar essa liberdade. Amém.[93] Por fim, por causa daqueles a quem nada pode ser dito tão corretamente que não o compreendam mal e o distorçam, devemos acrescentar uma palavra, caso consigam compreender até mesmo isto. Existem muitas pessoas que, ao ouvirem falar dessa liberdade da fé, imediatamente a transformam em oportunidade para a libertinagem. Pensam que agora todas as coisas lhes são permitidas e não desejam demonstrar que são homens livres e cristãos de outra maneira senão desprezando e censurando as cerimônias, as tradições e as leis humanas. Agem como se fossem cristãos somente porque se recusam a jejuar nos dias determinados, comem carne enquanto os outros jejuam ou deixam de realizar as orações habituais. Zombam dos preceitos humanos, mas ignoram completamente tudo o mais que pertence à religião cristã. Por outro lado, são obstinadamente enfrentadas por aqueles que procuram a salvação somente pela observância e reverência às cerimônias, como se fossem salvos apenas porque jejuam em determinados dias, abstêm-se de carne ou realizam orações formais. Falam ruidosamente acerca dos preceitos da Igreja e dos Pais, mas não dão qualquer importância às coisas que pertencem à fé genuína. Ambos os grupos são claramente culpados, pois negligenciam assuntos de grande importância e necessários à salvação, enquanto discutem ruidosamente acerca de coisas sem importância e desnecessárias.[94] Quanto mais corretamente o apóstolo Paulo nos ensina a caminhar pela via intermediária, condenando ambos os extremos e dizendo: “Aquele que come não despreze o que não come; e aquele que não come não julgue o que come” (Romanos 14:3). Veja como o apóstolo repreende aqueles que, não por sentimento religioso, mas por simples desprezo, negligenciam e ridicularizam as observâncias cerimoniais. Ele os ensina a não desprezar, pois “o conhecimento ensoberbece”. Ao mesmo tempo, ensina os defensores obstinados dessas coisas a não julgarem seus opositores, pois nenhum dos grupos demonstra para com o outro o amor que edifica (1 Coríntios 8:1). Nesse assunto, devemos ouvir as Escrituras, que nos ensinam a não nos desviarmos nem para a direita nem para a esquerda, mas a seguir os retos preceitos do Senhor, que alegram o coração (Deuteronômio 5:32; Salmos 19:8). Assim como um homem não é justo simplesmente porque serve e se dedica às obras e aos ritos cerimoniais, também não será considerado justo simplesmente porque os negligencia e despreza.[95] Não é das obras que somos libertados pela fé em Cristo, mas da crença nas obras, isto é, da insensata presunção de buscar a justificação por meio delas. A fé redime nossa consciência, torna-a correta e a preserva, pois mediante ela reconhecemos a verdade de que a justificação não depende de nossas obras, embora as boas obras não possam nem devam estar ausentes, assim como não podemos existir sem alimentos, bebidas e todas as funções deste corpo mortal. Ainda assim, nossa justificação não se fundamenta nessas coisas, mas na fé; contudo, elas não devem, por essa razão, ser desprezadas ou negligenciadas. Neste mundo, somos compelidos pelas necessidades da vida corporal, mas não somos justificados por elas. Cristo diz: “Meu reino não é daqui nem deste mundo”; contudo, não diz: “Meu reino não está aqui nem neste mundo” (João 18:36). Paulo também diz: “Embora andemos na carne, não militamos segundo a carne” (2 Coríntios 10:3); e: “A vida que agora vivo na carne, vivo pela fé no Filho de Deus” (Gálatas 2:20). Assim, nossas ações, nossa vida e nossa existência em obras e cerimônias procedem das necessidades desta vida e têm por objetivo governar nosso corpo. Contudo, não somos justificados por essas coisas, mas pela fé no Filho de Deus.[96] Portanto, o cristão deve caminhar pela via intermediária, mantendo diante dos olhos essas duas classes de pessoas. Pode encontrar cerimonialistas endurecidos e obstinados que, como serpentes surdas, recusam-se a ouvir a verdade da liberdade e exaltam, ordenam e impõem suas cerimônias como se pudessem nos justificar sem a fé (Salmos 58:4–5). Assim eram os antigos judeus, que se recusavam a compreender para que pudessem agir corretamente. Devemos resistir a esses homens, agir de modo contrário ao que fazem e ousar escandalizá-los, para que, mediante sua concepção ímpia, não enganem muitas pessoas juntamente consigo mesmos. Diante deles, é conveniente comer carne, romper jejuns e, em defesa da liberdade da fé, realizar aquilo que consideram os maiores pecados. Devemos dizer a respeito deles: “Deixai-os; são cegos guiando cegos” (Mateus 15:14). Foi assim que Paulo se recusou a permitir que Tito fosse circuncidado, embora aqueles homens insistissem nisso; e Cristo defendeu os apóstolos quando colheram espigas no sábado (Gálatas 2:3–5; Mateus 12:1–8). Existem muitos outros exemplos semelhantes.[97] Podemos, por outro lado, encontrar pessoas simples e ignorantes, fracas na fé, como o apóstolo as chama, que ainda não conseguem compreender a liberdade da fé, embora desejem fazê-lo. Devemos poupá-las para não as escandalizarmos. Precisamos suportar sua fraqueza até que sejam mais plenamente instruídas. Como não agem dessa maneira por malícia endurecida, mas apenas por fraqueza de fé, devemos guardar os jejuns e realizar outras coisas que consideram necessárias, a fim de evitar que sejam escandalizadas. Isso é exigido de nós pelo amor, que não prejudica ninguém, mas serve a todos. Não é culpa dessas pessoas serem fracas, mas culpa de seus pastores, que, mediante as armadilhas e armas de suas tradições, as conduziram à escravidão e feriram suas almas, quando deveriam tê-las libertado e curado por meio do ensino da fé e da liberdade. Assim diz o apóstolo: “Se o alimento escandaliza meu irmão, nunca mais comerei carne, para não escandalizar meu irmão” (1 Coríntios 8:13). E novamente: “Sei e estou convencido no Senhor Jesus de que nada é impuro em si mesmo; mas, para aquele que considera alguma coisa impura, para esse ela é impura. É mau para o homem comer com escândalo” (Romanos 14:14,20).[98] Portanto, embora devamos resistir corajosamente aos mestres das tradições, e embora as leis dos pontífices pelas quais atacam o povo de Deus mereçam severa censura, devemos poupar a multidão temerosa, mantida em cativeiro pelas leis daqueles tiranos ímpios, até que seja libertada. Lute vigorosamente contra os lobos, mas em favor das ovelhas, e não contra elas. Você pode fazer isso investindo contra as leis e os legisladores e, ao mesmo tempo, observando essas leis junto dos fracos, para que não sejam escandalizados, até que eles mesmos reconheçam a tirania e compreendam sua liberdade. Caso deseje utilizar sua liberdade, faça-o secretamente, como diz Paulo: “Você tem fé? Tenha-a para si mesmo diante de Deus” (Romanos 14:22). Tenha cuidado, porém, para não utilizá-la na presença dos fracos. Por outro lado, na presença dos tiranos e dos opositores obstinados, utilize sua liberdade apesar deles e com a maior firmeza, para que também compreendam que são tiranos, que suas leis são inúteis para a justificação e que não possuíam o direito de estabelecer semelhantes leis.[99] Uma vez que não podemos viver neste mundo sem cerimônias e obras; que a juventude, em seu período ardente e inexperiente, necessita ser contida e protegida por semelhantes barreiras; e que cada pessoa está obrigada a dominar o próprio corpo mediante a atenção a essas coisas, o ministro de Cristo deve ser prudente e fiel ao governar e ensinar o povo de Cristo em todos esses assuntos. Deve agir para que nenhuma raiz de amargura brote entre eles e, por meio dela, muitos sejam contaminados, como Paulo advertiu aos hebreus (Hebreus 12:15). Isso significa que não devem perder a fé nem começar a ser contaminados pela crença de que as obras são o meio de justificação. Isso acontece facilmente e contamina muitas pessoas quando a fé não é constantemente ensinada juntamente com as obras. É impossível evitar esse mal quando a fé é silenciada e se ensinam somente as determinações humanas, como tem acontecido até agora por meio das tradições pestilentas, ímpias e destruidoras de almas de nossos pontífices e das opiniões de nossos teólogos. Um número incontável de almas foi arrastado ao inferno por essas armadilhas, de modo que você pode reconhecer nelas a obra do anticristo.[100] Em resumo, assim como a pobreza corre perigo no meio das riquezas; a honestidade, no meio dos negócios; a humildade, no meio das honras; a abstinência, no meio dos banquetes; e a pureza, no meio dos prazeres, a justificação pela fé corre perigo no meio das cerimônias. Salomão diz: “Pode alguém colocar fogo no peito sem que suas roupas se queimem?” (Provérbios 6:27). Contudo, assim como precisamos viver entre riquezas, negócios, honras, prazeres e banquetes, também precisamos viver entre cerimônias, isto é, entre perigos. Assim como as crianças pequenas necessitam ser cuidadas no colo e sob os cuidados das jovens para não morrerem, mas, depois de crescerem, correm perigo ao continuarem vivendo entre elas, os jovens inexperientes e fervorosos necessitam ser contidos e restringidos pelas barreiras das cerimônias, ainda que fossem de ferro, para que sua mente fraca não se precipite no vício. Todavia, seria mortal para eles perseverarem na crença de que podem ser justificados por essas coisas. Devem ser ensinados que foram assim restringidos não com o propósito de serem justificados ou adquirirem méritos dessa maneira, mas para evitarem o mal e serem mais facilmente instruídos naquela justiça que procede da fé, coisa que o caráter impetuoso da juventude não suportaria sem restrições.[101] Portanto, na vida cristã, as cerimônias devem ser consideradas da mesma maneira que os construtores e trabalhadores consideram os preparativos para uma construção ou trabalho. Esses preparativos não são feitos com a intenção de permanecerem para sempre nem de serem alguma coisa em si mesmos, mas somente porque, sem eles, não poderia haver construção nem trabalho. Quando a estrutura é concluída, são removidos. Veja que não desprezamos esses preparativos; pelo contrário, atribuímos-lhes grande valor. O que desprezamos é a crença neles, pois ninguém considera que constituam a estrutura verdadeira e permanente. Caso alguém estivesse tão manifestamente fora de si que não possuísse outro objetivo na vida senão levantar esses preparativos com toda despesa, diligência e perseverança possíveis, sem jamais pensar na própria estrutura, mas satisfazendo-se e gloriando-se nesses preparativos e suportes inúteis, não teríamos todos compaixão de sua loucura e pensaríamos que, com os recursos assim desperdiçados, poderia ter sido erguido um grande edifício?[102] Da mesma forma, não desprezamos as obras e as cerimônias; pelo contrário, atribuímos-lhes grande valor. Desprezamos, porém, a crença nas obras, que ninguém deve considerar como verdadeira justiça, como fazem os hipócritas que empregam e desperdiçam toda a vida na busca pelas obras e jamais alcançam aquilo em razão do qual as obras são realizadas. Conforme diz o apóstolo, estão “sempre aprendendo e nunca podendo chegar ao conhecimento da verdade” (2 Timóteo 3:7). Parecem desejar construir e realizam preparativos, mas nunca constroem. Assim, permanecem com aparência de piedade, mas nunca alcançam seu poder (2 Timóteo 3:5).[103] Enquanto isso, satisfazem-se com essa busca zelosa e chegam a julgar todos os demais, a quem não veem adornados com tão brilhante exibição de obras. Contudo, caso tivessem sido preenchidos pela fé, poderiam ter realizado grandes coisas para sua própria salvação e para a salvação dos outros com os mesmos recursos que agora desperdiçam, abusando dos dons de Deus. Entretanto, como a natureza humana e a razão natural, como a chamam, são naturalmente supersticiosas e prontas a crer que a justificação pode ser alcançada mediante quaisquer leis ou obras que lhes sejam propostas; e como a natureza também é exercitada e confirmada nessa mesma concepção pela prática de todos os legisladores terrenos, ela jamais poderá, por seu próprio poder, libertar-se dessa escravidão às obras e chegar ao reconhecimento da liberdade da fé.[104] Portanto, precisamos orar para que Deus nos conduza e nos torne ensinados por ele, isto é, dispostos a aprender dele, e para que ele próprio, conforme prometeu, escreva sua Lei em nosso coração; de outro modo, não existe esperança para nós (Isaías 54:13; João 6:45; Jeremias 31:33). Se ele mesmo não nos ensinar interiormente essa sabedoria oculta em mistério, a natureza necessariamente a condenará e a considerará herética (1 Coríntios 2:7,14). Ela se escandaliza com essa sabedoria, que lhe parece insensatez, exatamente como vemos ter acontecido antigamente com os profetas e os apóstolos, e como os pontífices cegos e ímpios, juntamente com seus aduladores, fazem agora comigo e com aqueles que são semelhantes a mim. Que Deus finalmente tenha misericórdia deles e de nós e faça resplandecer sobre eles a luz de seu rosto, para que conheçamos seu caminho sobre a terra e sua salvação entre todas as nações (Salmos 67:1–2). Ele é bendito para sempre. Amém.No ano do Senhor de 1520.

