[1] Embora eu já tenha, antes, no meu diálogo sobre a castidade, lançado de modo tão breve quanto possível os fundamentos, por assim dizer, de um discurso sobre a virgindade, hoje a ocasião trouxe diante de nós todo o tema da glória da virgindade e de sua coroa incorruptível, para a agradável contemplação dos filhos nutridos pela Igreja.
[2] Pois hoje a câmara do conselho dos oráculos divinos está amplamente aberta, e os sinais que prefiguravam este dia glorioso, com seus efeitos e seus desdobramentos, são lidos pelos santos pregadores à Igreja reunida.
[3] Hoje se manifesta gloriosamente ao mundo, em fato e realidade, o cumprimento daquele antigo e verdadeiro desígnio.
[4] Hoje, sem qualquer véu, e de rosto descoberto, contemplamos como em espelho a glória do Senhor e a própria majestade da arca divina.
[5] Hoje a santíssima assembleia, trazendo sobre seus ombros a alegria celestial esperada por gerações, a comunica à raça humana.
[6] As coisas antigas passaram; coisas novas florescem, e florescem de modo que não murcham.
[7] Já não domina o severo decreto da lei, mas reina a graça do Senhor, atraindo todos a si por meio de sua paciência salvadora.
[8] Não é mais um Uzá punido invisivelmente por ousar tocar o que não pode ser tocado, pois o próprio Deus convida, e quem permanecerá hesitante de temor?
[9] Ele diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos.”
[10] Quem, então, não correrá para Ele?
[11] Que nenhum judeu contradiga a verdade, olhando para o tipo que antes esteve na casa de Obede-Edom.
[12] O Senhor veio manifestamente para aquilo que é seu.
[13] E, assentado sobre uma arca viva e não inanimada, como sobre o propiciatório, Ele avança solenemente sobre a terra.
[14] O publicano, ao tocar esta arca, sai justificado.
[15] A prostituta, ao aproximar-se dela, é por assim dizer remodelada e se torna casta.
[16] O leproso, ao tocá-la, é restaurado sem dor.
[17] Ela não repele ninguém.
[18] Ela não recua diante de ninguém.
[19] Ela comunica dons de cura sem contrair doença alguma.
[20] Pois o Senhor, que ama e cuida do homem, nela fez seu lugar de descanso.
[21] Estes são os dons desta nova graça.
[22] Isto é aquela coisa nova e estranha que aconteceu sob o sol, algo que jamais teve lugar antes e jamais tornará a ter.
[23] Aquilo que Deus, em sua compaixão por nós, preordenou, veio a cumprir-se.
[24] Ele lhe deu cumprimento por causa daquele amor pelo homem que tão bem convém a Ele.
[25] Com plena razão, portanto, soou a santa trombeta: “As coisas antigas passaram; eis que tudo se fez novo.”
[26] E que concebirei eu, que direi eu digno deste dia?
[27] Esforço-me por alcançar o inacessível, pois a lembrança desta santa virgem ultrapassa em muito todas as minhas palavras.
[28] Portanto, já que a grandeza do panegírico envergonha completamente nossa limitação, recorramos àquele hino que não está além das nossas forças.
[29] E, gloriando-nos em nossa derrota imutável, juntemo-nos ao coro jubiloso do rebanho de Cristo que celebra esta santa festa.
[30] E vós, meus ouvintes divinos e santos, guardai estrito silêncio, para que, pelo estreito canal dos ouvidos, como para o porto do entendimento, a embarcação carregada da verdade possa navegar em paz.
[31] Celebramos não segundo os costumes vãos da mitologia grega.
[32] Celebramos uma festa que não traz consigo banquetes ridículos ou furiosos dos deuses, mas que nos ensina a maravilhosa condescendência para conosco da terrível glória daquele que é Deus sobre todos.
[33] Vem, portanto, Isaías, o mais solene dos pregadores e o maior dos profetas, e desdobra sabiamente para a Igreja os mistérios desta reunião em glória.
[34] Incita abundantemente os nossos excelentes convidados a se saciarem de manjares duradouros.
[35] Assim, colocando diante do espelho da tua profecia a realidade que possuímos, tu, profeta veraz, baterás palmas com alegria ao ver o cumprimento de tuas predições.
[36] “Aconteceu”, diz ele, “no ano em que morreu o rei Uzias, que vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e a casa estava cheia de sua glória.”
[37] “E os serafins estavam ao redor dele; cada um tinha seis asas.”
[38] “E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.”
[39] “E os umbrais das portas se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça.”
[40] “Então eu disse: Ai de mim, estou ferido no coração, porque sou homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de lábios impuros; porque os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos.”
[41] “Então um dos serafins foi enviado a mim, trazendo na mão uma brasa viva, que havia tomado do altar com uma tenaz.”
[42] “E tocou a minha boca, e disse: Eis que isto tocou os teus lábios; a tua iniquidade foi tirada, e o teu pecado foi purificado.”
[43] “Depois ouvi a voz do Senhor, dizendo: A quem enviarei, e quem irá a este povo?”
[44] “Então eu disse: Eis-me aqui; envia-me.”
[45] “E Ele disse: Vai, e dize a este povo: Ouvireis de fato, mas não entendereis; vereis de fato, mas não percebereis.”
[46] Estas são as proclamações que o profeta fez de antemão pelo Espírito.
[47] Amados, considerai a força destas palavras.
[48] Assim compreendereis o resultado destes símbolos sacramentais, e sabereis o que é e quão grande é esta nossa assembleia.
[49] E, já que o profeta falou antes deste milagre, vinde com o maior ardor, exultação e prontidão de coração, e com a mais aguda perspicácia de entendimento, aproximai-vos de Belém, a célebre, e colocai diante de vossa mente uma imagem clara e distinta, comparando a profecia com o acontecimento real.
[50] Não precisareis de muitas palavras para chegar ao conhecimento da questão.
[51] Basta fixardes os olhos no que ali acontece.
[52] Todas as coisas são de fato claras para os que entendem, e retas para os que encontram conhecimento.
[53] Pois eis que, como um trono alto e elevado pela glória daquele que o formou, a virgem-mãe está ali preparada, e isso evidentemente para o Rei, o Senhor dos Exércitos.
[54] Sobre este trono, contemplai agora o Senhor vindo a vós em carne pecadora.
[55] Sobre este trono virginal, digo, adorai aquele que agora vem a vós por este caminho novo e sempre adorável.
[56] Olhai ao redor com os olhos da fé, e encontrareis em torno dele, como pela ordem de seus turnos, a companhia real e sacerdotal dos serafins.
[57] Estes, como sua guarda, costumam sempre assistir à presença do seu Rei.
[58] Por isso também aqui se diz não somente que louvam com seus cânticos a substância divina da unidade divina, mas também a glória que deve ser adorada por todos daquela pessoa da santa Trindade que, pela aparição de Deus em carne, veio até mesmo à terra.
[59] Eles dizem: “Toda a terra está cheia da sua glória.”
[60] Pois cremos que, juntamente com o Filho, que se fez homem por nossa causa, segundo o beneplácito de sua vontade, também o Pai estava presente, inseparável dele em sua natureza divina, e também o Espírito, que é de uma só e mesma essência com Ele.
[61] Porque, como diz Paulo, intérprete do oráculo divino, “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados”.
[62] Assim ele mostra que o Pai estava no Filho, porque uma só e mesma vontade operava neles.
[63] Portanto, ó amante desta festa, depois de haveres considerado bem os gloriosos mistérios de Belém, que se realizaram por tua causa, une-te alegremente ao exército celestial, que celebra magnificamente a tua salvação.
[64] Como outrora Davi dançou diante da arca, assim também tu, diante deste trono virginal, conduz com alegria a dança.
[65] Canta com hino festivo ao Senhor, que está sempre e em toda parte presente, e àquele que de Temã, como diz o profeta, quis aparecer em carne à raça humana.
[66] Dize com Moisés: “Ele é meu Deus, e eu o glorificarei; o Deus de meu pai, e eu o exaltarei.”
[67] Depois do teu hino de ações de graças, investigaremos utilmente que causa moveu o Rei da Glória a aparecer em Belém.
[68] Sua compaixão por nós constrangeu-o, Ele que não pode ser constrangido, a nascer em corpo humano em Belém.
[69] Mas que necessidade havia de que, sendo um menino de peito, Ele, que embora estivesse no tempo não era limitado pelo tempo, Ele que embora envolto em faixas não estava preso por elas, tivesse de ser exilado e estrangeiro de sua própria terra?
[70] Se desejais saber isso, ó congregação santíssima, sobre a qual soprou o Espírito de Deus, ouvi Moisés proclamando claramente ao povo, estimulando-o, por assim dizer, ao conhecimento deste extraordinário nascimento, e dizendo: “Todo macho que abre o ventre será chamado santo ao Senhor.”
[71] Ó circunstância admirável.
[72] Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus.
[73] Convém, de fato, ao Senhor da lei e dos profetas fazer todas as coisas de acordo com sua própria lei, não anulando a lei, mas cumprindo-a, e antes ligando ao cumprimento da lei o começo de sua graça.
[74] Por isso a mãe, que era superior à lei, se submete à lei.
[75] E ela, a santa e imaculada, observa aquele período de quarenta dias que fora designado para a impureza.
[76] E aquele que nos torna livres da lei se fez sujeito à lei.
[77] E por Ele é oferecido um par de aves limpas, em testemunho daqueles que se aproximam limpos e irrepreensíveis.
[78] Ora, Isaías é nossa testemunha de que esse parto não foi contaminado e não carecia de vítimas expiatórias, pois proclama claramente a toda a terra sob o sol: “Antes que estivesse de parto, ela deu à luz; antes que lhe viessem as dores, foi livre e deu à luz um menino.”
[79] “Quem ouviu tal coisa? Quem viu coisas semelhantes?”
[80] A santíssima mãe virgem, portanto, escapou inteiramente ao modo das mulheres mesmo antes de dar à luz.
[81] Sem dúvida, para que o Espírito Santo, desposando-a consigo e santificando-a, a fizesse conceber sem união com homem.
[82] Ela deu à luz seu Filho primogênito, sim, o unigênito Filho de Deus.
[83] Aquele, digo, que nos céus acima brilhou como unigênito, sem mãe, a partir da substância do Pai, preservando indivisa e inseparável a virgindade de sua unidade natural.
[84] E que na terra, na câmara nupcial da virgem, uniu a si a natureza de Adão como um noivo, por união inalienável, preservando incorrupta e intacta a pureza de sua mãe.
[85] Aquele, enfim, que no céu foi gerado sem corrupção e na terra foi dado à luz de modo inteiramente inefável.
[86] Mas voltemos ao assunto.
[87] Portanto, o profeta trouxe a virgem de Nazaré para que ela desse à luz em Belém o filho que traz salvação, e tornou a levá-la de volta a Nazaré, a fim de manifestar ao mundo a esperança da vida.
[88] Por isso a arca de Deus saiu da hospedaria em Belém, pois ali ele pagou à lei aquela dívida dos quarenta dias, não por justiça, mas por graça, e repousou sobre os montes de Sião.
[89] E, recebendo em seu seio puro, como num trono alto e superior à natureza humana, o Monarca de todas as coisas, ela o apresentou ali a Deus Pai, como coparticipante de seu trono e inseparável de sua natureza, juntamente com aquela carne pura e imaculada que Ele assumiu da sua substância.
[90] A santa mãe sobe ao templo para apresentar à lei uma maravilha nova e estranha: aquele menino há muito esperado, que abriu o ventre virginal e, contudo, não rompeu as barreiras da virgindade.
[91] Aquele menino superior à lei, que, ainda assim, cumpriu a lei.
[92] Aquele menino que era ao mesmo tempo anterior à lei e posterior a ela.
[93] Aquele menino, enfim, que era dela encarnado além da lei da natureza.
[94] Porque, nos outros casos, todo ventre, sendo antes aberto pela união com o homem e fecundado por sua semente, recebe o início da concepção e, pelas dores que completam o parto, traz por fim à luz sua descendência dotada de razão e consistente com sua natureza, segundo a sábia provisão de Deus, seu Criador.
[95] Pois Deus disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra.”
[96] Mas o ventre desta virgem, sem ter sido antes aberto nem fecundado por semente, deu à luz uma descendência que transcendia a natureza, embora ao mesmo tempo lhe fosse cognata, e isso sem prejuízo da unidade indivisível, de modo que o milagre foi tanto mais estupendo quanto também o privilégio da virgindade permaneceu intacto.
[97] Ela sobe, pois, ao templo, ela que era mais exaltada que o templo, vestida de dupla glória.
[98] A glória, digo, da virgindade sem mancha e a da fecundidade inefável.
[99] A bênção da lei e a santificação da graça.
[100] Por isso diz aquele que viu: “E toda a casa estava cheia da sua glória, e os serafins estavam ao redor dele; e um clamava ao outro e dizia: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.”
[101] Assim também o bendito profeta Habacuque cantou com encanto, dizendo: “No meio de dois seres vivos serás conhecido; quando os anos se aproximarem, serás reconhecido; quando chegar o tempo, serás manifestado.”
[102] Vede, peço-vos, a extrema exatidão do Espírito.
[103] Ele fala de conhecimento, reconhecimento e manifestação.
[104] Quando diz: “No meio de dois seres vivos serás conhecido”, refere-se àquela sombra da glória divina que, no tempo da lei, repousava no Santo dos Santos sobre a tampa da arca, entre os querubins típicos, como Ele mesmo disse a Moisés: “Ali me darei a conhecer a ti.”
[105] Mas refere-se também àquela reunião de anjos que agora veio ao nosso encontro pela divina e sempre adorável manifestação do próprio Salvador em carne, embora em sua própria natureza Ele não possa ser contemplado por nós, como Isaías já havia declarado antes.
[106] Mas, quando diz: “Quando os anos se aproximarem, serás reconhecido”, quer dizer, como já foi dito, aquele glorioso reconhecimento do nosso Salvador, Deus em carne, que de outro modo é invisível ao olhar mortal.
[107] Como Paulo, o grande intérprete dos mistérios sagrados, diz em outro lugar: “Mas, vindo a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos.”
[108] E então, quanto ao que se segue: “Quando chegar o tempo, serás manifestado”, que explicação isso requer, se o homem dirigir diligentemente o olhar da mente para a festa que agora celebramos?
[109] Pois então, diz ele, serás manifestado, como sobre uma montaria real, por tua mãe pura e casta, no templo, e isso na graça e beleza da carne que assumiste.
[110] Todas estas coisas o profeta, resumindo para maior clareza, exclama em poucas palavras: “O Senhor está em seu santo templo; trema diante dele toda a terra.”
[111] Tremendo, de fato, é o mistério ligado a ti, ó mãe virgem, tu trono espiritual, glorificado e tornado digno de Deus.
[112] Tu trouxeste à luz, diante dos olhos dos que estão no céu e na terra, um prodígio eminente.
[113] E prova disso, e argumento irrefutável, é que, diante da novidade do teu parto sobrenatural, os anjos cantaram na terra: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra, boa vontade para com os homens”, introduzindo por seu tríplice canto uma tríplice santidade.
[114] Bendita és tu entre as gerações das mulheres, ó tu, a mais bendita de Deus, porque por ti a terra foi cheia daquela glória divina de Deus.
[115] Como nos Salmos se canta: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, e toda a terra se encherá da sua glória. Amém. Amém.”
[116] “E os umbrais da porta”, diz o profeta, “moveram-se à voz daquele que clamava”, pelo que se significa o véu do templo estendido diante da arca da aliança, que te prefigurava.
[117] E isso para que a verdade me fosse aberta e também para que eu fosse ensinado, pelos tipos e figuras que vieram antes, a aproximar-me com reverência e temor para honrar o sagrado mistério que está ligado a ti.
[118] E para que, por meio desta pintura antecipada da lei, eu fosse contido de contemplar com olhar ousado e irreverente aquele que, em sua incompreensibilidade, está assentado muito acima de tudo.
[119] Pois, se à arca, que era imagem e tipo da tua santidade, foi prestada por Deus tamanha honra que a ninguém, senão somente à ordem sacerdotal, se permitia o acesso, ou a entrada para contemplá-la, separando-a o véu e guardando o vestíbulo como o de uma rainha, que veneração, e de que tipo, é devida a ti da nossa parte, nós os menores de toda a criação, a ti que és verdadeiramente rainha?
[120] A ti, a arca viva de Deus, do Legislador.
[121] A ti, o céu que contém aquele que não pode ser contido por ninguém.
[122] Pois, desde que tu, ó santa virgem, surgiste sobre o mundo como um dia brilhante e trouxeste à luz o Sol da Justiça, aquela odiosa escuridão foi afugentada.
[123] O poder do tirano foi quebrado.
[124] A morte foi destruída.
[125] O Hades foi engolido.
[126] E toda inimizade se dissolveu diante da face da paz.
[127] As doenças nocivas agora se afastam, porque a salvação apareceu.
[128] E todo o universo foi cheio da luz pura e clara da verdade.
[129] A estas coisas alude Salomão no Cântico dos Cânticos, quando começa assim: “O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta entre os lírios, até que o dia amanheça e as sombras fujam.”
[130] Desde então o Deus dos deuses apareceu em Sião, e o esplendor de sua beleza apareceu em Jerusalém.
[131] E uma luz surgiu para os justos, e alegria para os retos de coração.
[132] Segundo o bem-aventurado Davi, aquele que aperfeiçoa e é Senhor dos aperfeiçoados chamou, pelo Espírito Santo, o mestre e ministro da lei, para ministrar e dar testemunho destas coisas que aconteceram.
[133] Por isso o ancião Simeão, deixando a fraqueza da carne e revestindo-se da força da esperança, apressou-se, diante da lei, a receber o Ministro da lei, o Mestre com autoridade, o Deus de Abraão, o Protetor de Isaque, o Santo de Israel, o Instrutor de Moisés.
[134] Refiro-me àquele que lhe prometera mostrar sua encarnação divina, por assim dizer suas costas.
[135] Aquele que, em meio à pobreza, era rico.
[136] Aquele que, em sua infância, era anterior aos séculos.
[137] Aquele que, embora visível, era invisível.
[138] Aquele que, embora compreendido, era incompreensível.
[139] Aquele que, embora pequenino, excedia toda grandeza, ao mesmo tempo no templo e nos altíssimos céus, sobre trono real e sobre o carro dos querubins.
[140] Aquele que está continuamente acima e abaixo.
[141] Aquele que está na forma de servo e na forma de Deus Pai.
[142] Sujeito, e contudo Rei de todos.
[143] Ele estava inteiramente entregue ao desejo, à esperança e à alegria.
[144] Já não era de si mesmo, mas daquele que havia sido esperado.
[145] O Espírito Santo lhe havia anunciado a boa nova, e antes mesmo de chegar ao templo, elevado pelos olhos do entendimento, como se já possuísse aquilo que tanto desejara, exultava de alegria.
[146] Assim conduzido, e apressando-se como se pisasse o ar com seus passos, chegou ao santuário até então tido por sagrado.
[147] Mas, sem dar atenção ao templo, estendeu seus braços santos ao Governante do templo, entoando cânticos próprios daquela alegre ocasião.
[148] “Anseio por ti, ó Senhor Deus de meus pais e Senhor de misericórdia, que te dignaste, de tua própria glória e bondade, que tudo provê, de tua graciosa condescendência com que te inclinas para nós, como Mediador que traz paz, estabelecer harmonia entre a terra e o céu.”
[149] “Busco-te, Grande Autor de todas as coisas.”
[150] “Espero-te com anseio, tu que com tua palavra abraças todas as coisas.”
[151] “Aguardo-te, Senhor da vida e da morte.”
[152] “Por ti espero, Doador da lei e Cumpridor da lei.”
[153] “Tenho fome de ti, que vivificas os mortos.”
[154] “Tenho sede de ti, que refrescas os cansados.”
[155] “Desejo-te, Criador e Redentor do mundo.”
[156] “Tu és o nosso Deus, e a ti adoramos.”
[157] “Tu és o nosso santo Templo, e em ti oramos.”
[158] “Tu és o nosso Legislador, e a ti obedecemos.”
[159] “Tu és o Deus de todas as coisas, o Primeiro.”
[160] “Antes de ti não houve outro deus gerado de Deus Pai, nem depois de ti haverá outro filho consubstancial e de uma só glória com o Pai.”
[161] “E conhecer-te é justiça perfeita, e conhecer o teu poder é raiz da imortalidade.”
[162] “Tu és aquele que, para nossa salvação, foste feito a pedra angular principal, preciosa e honrosa, anteriormente anunciada a Sião.”
[163] “Pois todas as coisas estão colocadas sob ti como sua Causa e Autor, como aquele que trouxe todas as coisas à existência a partir do nada e deu ao que era instável firme coerência.”
[164] “Como laço de união e preservador de tudo o que foi trazido à existência.”
[165] “Como formador de coisas naturalmente diversas.”
[166] “Como aquele que, com mão sábia e firme, segura o leme do universo.”
[167] “Como o próprio princípio de toda boa ordem.”
[168] “Como o vínculo irrefutável da concórdia e da paz.”
[169] “Pois em ti vivemos, nos movemos e existimos.”
[170] “Por isso, ó Senhor meu Deus, eu te glorificarei, louvarei o teu nome, porque fizeste maravilhas; teus conselhos antigos são fidelidade e verdade.”
[171] “Tu estás vestido de majestade e honra.”
[172] “Pois o que é mais esplêndido para um rei do que uma veste púrpura bordada de flores e um diadema resplandecente?”
[173] “Ou o que é mais magnífico para Deus, que ama o homem, do que esta misericordiosa assunção da humanidade, iluminando com seus raios resplandecentes os que jazem nas trevas e na sombra da morte?”
[174] “Com razão aquele rei temporal e teu servo cantou outrora acerca de ti, o Rei Eterno, dizendo: Tu és mais belo do que os filhos dos homens, tu que entre os homens és verdadeiramente Deus e homem.”
[175] “Pois pela tua encarnação cingiste os teus lombos com justiça e ungiste tuas veias com fidelidade, sendo tu mesmo a própria justiça e a própria verdade, a alegria e exultação de todos.”
[176] “Portanto, alegrai-vos comigo hoje, ó céus, porque o Senhor usou de misericórdia com o seu povo.”
[177] “Sim, que as nuvens derramem o orvalho da justiça sobre o mundo.”
[178] “Que os fundamentos da terra façam soar a trombeta àqueles que estão no Hades, porque chegou a ressurreição dos que dormem.”
[179] “Que a terra também faça brotar compaixão para os seus habitantes.”
[180] “Porque estou cheio de consolação; transbordo de alegria, porque vi a ti, Salvador dos homens.”
[181] Enquanto o ancião assim exultava e se alegrava com grande e santa alegria, aquilo que antes fora falado em figura pelo profeta Isaías, a santa mãe de Deus o cumpriu agora manifestamente.
[182] Pois, tomando, como de um altar puro e sem mancha, aquele carvão vivo e inefável, revestido de carne humana, no abraço de suas mãos sagradas como com tenazes, estendeu-o àquele justo, dirigindo-lhe e exortando-o, ao que me parece, com palavras como estas.
[183] “Recebe, ó venerando ancião, o mais excelente dos sacerdotes, recebe o Senhor e colhe o pleno fruto de tua esperança, que não foi deixada viúva nem desolada.”
[184] “Recebe, ó mais ilustre dos homens, o tesouro infalível e aquelas riquezas que jamais podem ser tiradas.”
[185] “Abraça, ó mais sábio dos homens, aquele poder inefável, aquela força inescrutável que só ela pode sustentar-te.”
[186] “Cinge-te, ó ministro do templo, da grandeza infinita e da força incomparável.”
[187] “Apega-te àquele que é a própria vida, e vive, ó mais venerável dos homens.”
[188] “Apega-te de perto à incorruptibilidade e sê renovado, ó mais justo dos homens.”
[189] “A tentativa não é ousada demais; não recues diante dela, ó mais santo dos homens.”
[190] “Sacia-te daquele por quem tens esperado, e deleita-te naquele que te foi dado, ou melhor, que se dá a ti mesmo, ó mais divino dos homens.”
[191] “Retira com alegria a tua luz, ó mais piedoso dos homens, do Sol da Justiça, que resplandece ao teu redor por meio do espelho imaculado da carne.”
[192] “Não temas sua mansidão, nem deixes que sua clemência te aterrorize, ó mais bendito dos homens.”
[193] “Não tenhas medo de sua bondade, nem te retraias de sua benignidade, ó mais modesto dos homens.”
[194] “Une-te a Ele com prontidão, e não retardes em obedecer-lhe.”
[195] “Aquilo que te é falado e oferecido não sabe a ousadia excessiva.”
[196] “Não sejas, então, relutante, ó mais decoroso dos homens.”
[197] “A chama da graça do meu Senhor não te consome, mas te ilumina, ó mais justo dos homens.”
[198] “Que a sarça, que me prefigurou quanto à verdade daquele fogo que ainda não tinha subsistência, te ensine isto, ó tu, o mais instruído na lei.”
[199] “Que aquela fornalha que parecia uma brisa a destilar orvalho te convença, ó mestre, da economia deste mistério.”
[200] “Além disso, seja o meu ventre para ti uma prova, no qual foi contido aquele que em nada mais jamais foi contido, e da cuja substância o Verbo encarnado se dignou tornar-se encarnado.”
[201] “O toque da trombeta já não aterroriza os que se aproximam.”
[202] “Nem, pela segunda vez, o monte todo em fumaça causa terror aos que se achegam.”
[203] “Nem tampouco a lei castiga sem piedade os que ousariam tocar.”
[204] “O que aqui está presente fala de amor ao homem; o que aqui aparece, da condescendência divina.”
[205] “Recebe, pois, com gratidão o Deus que vem a ti, porque Ele tirará tuas iniquidades e purificará completamente teus pecados.”
[206] “Em ti tenha lugar primeiro, como em figura, a purificação do mundo.”
[207] “Em ti, e por ti, seja antecipadamente conhecida aos gentios aquela justificação que vem pela graça.”
[208] “Tu és digno das primícias vivificadoras.”
[209] “Fizeste bom uso da lei.”
[210] “Usa agora a graça.”
[211] “Da letra te cansaste; no espírito sê renovado.”
[212] “Despe-te do que é velho e veste-te do que é novo.”
[213] “Pois não penso que ignores estas coisas.”
[214] Diante de tudo isso, aquele justo, tornando-se ousado e cedendo à exortação da mãe de Deus, que é serva de Deus quanto às coisas que dizem respeito aos homens, recebeu em seus braços envelhecidos aquele que na infância era, contudo, o Ancião de Dias, e bendisse a Deus, dizendo.
[215] “Agora, Senhor, despede em paz o teu servo, segundo a tua palavra.”
[216] “Porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante da face de todos os povos.”
[217] “Luz para iluminação dos gentios e glória do teu povo Israel.”
[218] “Recebi de ti uma alegria sem mistura de dor.”
[219] “Recebe-me jubiloso, ó Senhor, e cantando tua misericórdia e compaixão.”
[220] “Tu me deste esta alegria de coração.”
[221] “Rendo-te com alegria o meu tributo de ações de graças.”
[222] “Conheci o poder do amor de Deus.”
[223] “Porque, por minha causa, o Deus de ti gerado, de modo inefável e sem corrupção, tornou-se homem.”
[224] “Conheci a inexplicável grandeza do teu amor e do teu cuidado por nós, pois enviaste as tuas próprias entranhas para virem à nossa libertação.”
[225] “Agora, enfim, entendo o que aprendi de Salomão: Forte como a morte é o amor.”
[226] “Pois por ele será tirado o aguilhão da morte; por ele os mortos verão a vida; por ele até mesmo a morte aprenderá o que é morrer, cessando aquele domínio que exercia sobre nós.”
[227] “Por ele também a serpente, autora dos nossos males, será levada cativa e subjugada.”
[228] “Tu nos deste a conhecer, ó Senhor, a tua salvação, fazendo brotar para nós a planta da paz, e já não andaremos em erro.”
[229] “Tu nos deste a conhecer, ó Senhor, que não desprezaste teus servos até o fim.”
[230] “Nem tu, ó Benfazejo, esqueceste inteiramente as obras de tuas mãos.”
[231] “Pois, por compaixão de nossa condição humilde, derramaste abundantemente sobre nós aquela tua bondade inesgotável, tão própria de tua natureza.”
[232] “E nos redimiste por meio de teu Filho unigênito, que é imutavelmente semelhante a ti e de uma só substância contigo.”
[233] “Julgando indigno de tua majestade e bondade confiar a um servo a obra de salvar e beneficiar teus servos, ou fazer com que os ofendidos fossem reconciliados por meio de um ministro.”
[234] “Mas, por meio daquela luz que é de uma só substância contigo, deste luz aos que jaziam nas trevas e na sombra da morte, para que na tua luz vissem a luz do conhecimento.”
[235] “E te aprouve, por meio de nosso Senhor e Criador, refazer-nos para a imortalidade.”
[236] “E nos concedeste graciosamente o retorno ao paraíso por meio daquele que nos separou das alegrias do paraíso.”
[237] “E por meio daquele que tem poder de perdoar pecados apagaste o escrito de dívida que era contra nós.”
[238] “Por fim, por meio daquele que participa do teu trono e não pode ser separado de tua natureza divina, nos deste o dom da reconciliação e o acesso a ti com confiança.”
[239] “Assim, por meio do Senhor que não reconhece autoridade soberana de ninguém, o Deus verdadeiro e onipotente, a sanção subscrita, por assim dizer, de tantos e tão grandes benefícios constituiu para aqueles que alcançaram misericórdia direitos certos e indubitáveis dos dons justificadores da graça.”
[240] “E isto mesmo o profeta havia anunciado de antemão nestas palavras: Não foi embaixador nem anjo, mas o próprio Senhor que os salvou; porque os amou, os poupou, tomou-os e os exaltou.”
[241] “E tudo isso não veio das obras de justiça que nós tivéssemos feito, nem porque te amamos.”
[242] “Pois nosso primeiro antepassado terreno, que havia sido honradamente recebido na agradável habitação do paraíso, desprezou o teu mandamento divino e salvador, e foi julgado indigno daquele lugar vivificante.”
[243] “E, misturando sua semente com os brotos bastardos do pecado, tornou-a muito fraca.”
[244] “Mas tu, ó Senhor, por ti mesmo e por teu inefável amor para com a obra de tuas mãos, confirmaste tua misericórdia para conosco.”
[245] “E, compadecendo-te do nosso afastamento de ti, moveste-te ao ver nossa degradação para acolher-nos com compaixão.”
[246] “Daqui em diante, portanto, foi estabelecida para nós, da raça de Adão, uma festa jubilosa, porque o primeiro Criador de Adão se tornou, de sua livre vontade, o Segundo Adão.”
[247] “E o resplendor do Senhor nosso Deus desceu para habitar conosco, de modo que vemos Deus face a face e somos salvos.”
[248] “Por isso, ó Senhor, peço-te que me seja permitido partir.”
[249] “Vi a tua salvação; deixa-me ser libertado do jugo curvado da letra.”
[250] “Vi o Rei Eterno, a quem nenhum outro sucede; que eu seja libertado desta cadeia servil e pesada.”
[251] “Vi aquele que por natureza é meu Senhor e Libertador; que eu obtenha, então, o decreto da minha libertação.”
[252] “Liberta-me do jugo da condenação, e põe-me sob o jugo da justificação.”
[253] “Livra-me do jugo da maldição e da letra que mata; e inscreve-me na bendita companhia daqueles que, pela graça deste teu verdadeiro Filho, igual em glória e poder contigo, foram recebidos na adoção de filhos.”
[254] Então, diz ele, baste por ora o que até aqui falei em resumo como minha oferta de graças a Deus.
[255] Mas que direi eu a ti, ó mãe-virgem e virgem-mãe?
[256] Pois até mesmo o louvor daquela que não é obra de homem ultrapassa o poder do homem.
[257] Portanto, iluminarei a obscuridade de minha pobreza com o brilho dos dons dos espíritos que ao redor de ti resplandecem, e oferecendo-te aquilo que é teu, colherei dos prados imortais uma grinalda para a tua cabeça sagrada e divinamente coroada.
[258] Com os teus hinos ancestrais eu te saudarei, ó filha de Davi e mãe do Senhor e Deus de Davi.
[259] Pois seria vergonhoso e de mau agouro adornar-te, tu que na tua própria glória excedes, com aquilo que pertence a outrem.
[260] Recebe, então, ó senhora muitíssimo benigna, dons preciosos e que só a ti convêm, ó tu que és exaltada acima de todas as gerações e que, entre todas as criaturas visíveis e invisíveis, resplandeces como a mais honrada.
[261] Bendita é a raiz de Jessé, e três vezes bendita é a casa de Davi, da qual brotaste.
[262] Deus está no meio de ti, e não serás abalada, porque o Altíssimo santificou o lugar do seu tabernáculo.
[263] Pois em ti os pactos e juramentos feitos por Deus aos pais receberam glorioso cumprimento, porque por ti apareceu o Senhor, o Deus dos Exércitos, conosco.
[264] Aquela sarça que não podia ser tocada, que anteriormente figurou tua imagem revestida de majestade divina, portou Deus sem ser consumida, aquele que se manifestou ao profeta apenas até onde quis ser visto.
[265] E, além disso, aquela pedra dura e áspera, que figurava a graça e o refrigério que de ti brotaram para todo o mundo, fez jorrar abundantemente de seus lados sedentos, no deserto, uma bebida curadora para o povo exausto.
[266] Sim, e mais ainda, a vara do sacerdote que, sem cultivo, floresceu em fruto, penhor e garantia de sacerdócio perpétuo, ofereceu símbolo nada desprezível do teu parto sobrenatural.
[267] Que mais?
[268] Não declarou o poderoso Moisés expressamente que, por causa destes teus tipos difíceis de entender, permaneceu mais tempo no monte, para que aprendesse, ó santa, os mistérios ligados a ti?
[269] Pois, sendo-lhe ordenado construir a arca como sinal e semelhança desta realidade, não foi negligente em obedecer ao mandamento, embora um fato trágico tenha ocorrido em sua descida do monte.
[270] Mas, tendo-a feito de cinco côvados e meio de comprimento, destinou-a a ser receptáculo da lei e a cobriu com as asas dos querubins, prefigurando-te evidentemente, mãe de Deus, que concebeste sem corrupção e de modo inefável trouxeste à luz aquele que é, por assim dizer, a própria consistência da incorruptibilidade, e isso dentro dos limites dos cinco côvados e meio do mundo.
[271] Por tua causa, e pela imaculada encarnação de Deus, o Verbo, que teve lugar por ti em favor daquela carne que permanece com Ele para sempre, imutável e indivisivelmente.
[272] Também o vaso de ouro, como tipo certíssimo, conservou inalterado o maná que continha, o qual, em outras situações, mudava dia após dia, mantendo-o fresco por eras.
[273] O profeta Elias igualmente, prevendo tua castidade e movido de zelo por ela pelo Espírito, cingiu ao redor de si a coroa daquela vida de fogo, sendo, por decreto divino, julgado superior à morte.
[274] Tu também, prefigurando seu sucessor Eliseu, tendo sido instruída por um sábio mestre, e antecipando a tua presença que ainda não havia nascido, por certos indícios seguros das coisas que haviam de acontecer depois, ministraste ajuda e cura aos necessitados, de uma virtude superior à natureza.
[275] Ora, com um vaso novo, que continha sal curador, sarando as águas mortíferas, para mostrar que o mundo seria recriado pelo mistério manifestado em ti.
[276] Ora, com farinha sem fermento, em tipo correspondente ao teu parto, sem ser contaminada por semente de homem, afastando do alimento a amargura da morte.
[277] E ainda, por feitos que transcendiam a natureza, erguendo-te acima dos elementos naturais no Jordão, exibindo assim, em sinais antecipados, a descida de nosso Senhor ao Hades e sua maravilhosa libertação daqueles que estavam presos à corrupção.
[278] Pois todas as coisas cederam e se submeteram àquela imagem divina que te prefigurava.
[279] Mas por que me desvio e prolongo meu discurso, dando-lhe rédeas com estas variadas ilustrações, quando a verdade da tua realidade se ergue diante dos olhos como uma coluna, na qual seria melhor e mais proveitoso deleitar-se?
[280] Portanto, despedindo-me das narrativas espirituais e dos feitos admiráveis dos santos através dos séculos, volto-me para ti, que deves sempre ser lembrada e que, por assim dizer, seguras o leme desta festa.
[281] Bendita és tu, toda-bendita e desejada por todos.
[282] Bendito do Senhor é o teu nome, cheio de graça divina e sobremaneira agradável a Deus, mãe de Deus, tu que dás luz aos fiéis.
[283] Tu és, por assim dizer, a circunscrição daquele que não pode ser circunscrito.
[284] A raiz da mais bela flor.
[285] A mãe do Criador.
[286] A ama daquele que nutre.
[287] A circunferência daquele que abraça todas as coisas.
[288] O sustentáculo daquele que sustenta todas as coisas pela sua palavra.
[289] A porta pela qual Deus aparece em carne.
[290] A tenaz daquele carvão purificador.
[291] O pequeno seio daquele seio que tudo contém.
[292] O velo cuja figura é mistério insolúvel.
[293] O poço de Belém, aquele reservatório da vida que Davi tanto desejou, do qual brotou a bebida da imortalidade.
[294] O propiciatório a partir do qual Deus, em forma humana, foi dado a conhecer aos homens.
[295] A veste sem mancha daquele que se veste de luz como de um manto.
[296] Tu emprestaste a Deus, que de nada necessita, aquela carne que Ele não possuía, para que o Onipotente se tornasse aquilo que lhe aprouve ser.
[297] O que há de mais esplêndido do que isso?
[298] O que há de mais sublime?
[299] Aquele que enche a terra e o céu, a quem pertencem todas as coisas, tornou-se necessitado de ti, pois emprestaste a Deus aquela carne que Ele não possuía.
[300] Vestiste o Poderoso com aquela belíssima armadura do corpo, pela qual se tornou possível que meus olhos o vissem.
[301] E eu, para que pudesse aproximar-me livremente a fim de contemplá-lo, recebi aquilo por meio do qual todos os dardos inflamados do maligno serão apagados.
[302] Salve, salve, mãe e serva de Deus.
[303] Salve, salve, tu a quem o grande Credor de todos se tornou devedor.
[304] Todos nós somos devedores a Deus, mas a ti Ele próprio é devedor.
[305] Pois aquele que disse: “Honra teu pai e tua mãe” certamente guardou inviolada, como querendo ele mesmo ser provado por tais provas, aquela graça e aquele seu decreto para com aquela que lhe ministrou aquele nascimento ao qual Ele voluntariamente se inclinou.
[306] E terá glorificado com honra divina aquela que Ele próprio, sendo sem pai, assim como ela era sem marido, inscreveu como mãe.
[307] E assim deve ser.
[308] Pois os hinos que te oferecemos, ó tu mais santa e admirável habitação de Deus, não são palavras inúteis e ornamentais.
[309] Nem tua espiritual exaltação é divertimento secular ou gritos de falsa lisonja, ó tu que és louvada por Deus.
[310] Tu foste alimentada por Deus.
[311] Tu que, pelo teu parto, dás aos mortais o princípio de existir.
[312] Antes, estas coisas são de clara e evidente verdade.
[313] Mas faltaria tempo a nós, e até mesmo às eras e gerações sucessivas, para render-te a devida saudação como mãe do Rei Eterno.
[314] Como em algum lugar diz o ilustre profeta, ensinando-nos quão incompreensível és.
[315] “Quão grande é a casa de Deus, e quão largo é o lugar da sua possessão.”
[316] “Grande, sem fim, alto e incomensurável.”
[317] Pois, em verdade, este oráculo profético e veracíssimo se refere à tua majestade.
[318] Pois somente tu foste julgada digna de partilhar com Deus as coisas de Deus.
[319] Somente tu trouxeste em tua carne aquele que de Deus Pai era eternamente e unicamente gerado.
[320] Assim creem verdadeiramente os que retêm a fé pura.
[321] Mas, pelo tempo que nos resta, meus ouvintes muito atentos, tomemos o ancião, o portador de Deus e nosso piedoso mestre, que aqui aportou em segurança, por assim dizer, desse mar virginal.
[322] E refresquemo-lo, tendo ele sido saciado em seu divino anseio e transmitido a nós esta teologia tão bendita.
[323] E nós mesmos prossigamos no restante de nosso discurso, dirigindo nosso curso sem erro para o fim que nos foi proposto, sob a condução de Deus Todo-Poderoso.
[324] Assim não seremos achados totalmente infrutíferos e inúteis naquilo que nos é requerido.
[325] Quando, então, para estes ritos sagrados, a profecia e o sacerdócio foram conjuntamente chamados, e aquele par de justos eleitos por Deus — Simeão, quero dizer, e Ana — trazendo em si mesmos muito evidentemente as imagens de ambos os povos, tomaram seu lugar ao lado daquele glorioso e virginal trono.
[326] Pois pelo ancião era representado o povo de Israel e a lei já envelhecida.
[327] Enquanto a viúva representa a Igreja dos gentios, que até aquele momento fora viúva.
[328] O ancião, de fato, personificando a lei, busca sua dispensa.
[329] Mas a viúva, personificando a Igreja, traz sua alegre confissão de fé e fala dele a todos os que esperavam a redenção em Jerusalém, assim como as coisas que foram ditas de ambos foram oportunamente e excelentemente registradas e estão em plena harmonia com a santa festa.
[330] Pois era conveniente e necessário que o ancião, que conhecia com tanta exatidão o decreto da lei no qual está dito: “Ouvi-o, e toda alma que não o escutar será cortada do seu povo”, buscasse uma pacífica dispensa do tutelamento da lei.
[331] Pois, de fato, seria insolência e presunção que, estando o rei presente e dirigindo-se ao povo, um de seus assistentes fizesse discurso diante dele, e para esse homem os seus súditos inclinassem os ouvidos.
[332] Também era necessário que a viúva, enriquecida de dons além da medida, rendesse em tons festivos suas graças a Deus.
[333] E assim, as coisas que ali aconteceram estavam em acordo com a lei.
[334] Mas, quanto ao que resta, é necessário investigar como, visto que os tipos e figuras proféticas guardam, como foi mostrado, certa analogia e relação com esta ilustre festa, se diz que a casa se encheu de fumaça.
[335] Nem o profeta diz isso incidentalmente, mas com significado, falando daquele clamor do Três-Santo proferido pelos serafins celestiais.
[336] Descobrirás o sentido disso, meu atento ouvinte, se apenas tomares e examinares o que segue após esta narração.
[337] Pois: “Ouvindo, ouvireis, e não entendereis; e vendo, vereis, e não percebereis.”
[338] Quando, portanto, os insensatos filhos dos judeus viram as gloriosas maravilhas que, como Davi cantou, o Senhor havia realizado na terra, e viram o sinal vindo do alto e do abismo encontrar-se sem divisão nem confusão, como Isaías antes declarara, isto é, uma mãe além da natureza e um descendente além da razão, uma mãe terrena e um Filho celestial, uma nova assunção da natureza humana por Deus e um parto sem casamento.
[339] Que poderia haver em toda a circunferência da criação mais glorioso e mais digno de ser falado do que isso?
[340] E, contudo, quando viram isso, foi como se não o tivessem visto.
[341] Fecharam seus olhos e, quanto ao louvor, permaneceram insensíveis.
[342] Portanto, a casa em que se vangloriavam encheu-se de fumaça.
[343] E, além disso, quando, além do espetáculo e até para além do espetáculo, ouviram um ancião muito justo, muito digno de crédito e de emulação, inspirado pelo Espírito Santo, mestre da lei, honrado com o sacerdócio, ilustre no dom da profecia, pela esperança que havia concebido de Cristo, prolongando os limites da vida e adiando a dívida da morte.
[344] Quando o viram, digo, saltando de alegria, pronunciando palavras de bom presságio, completamente transformado pela alegria do coração, inteiramente arrebatado em santo e divino êxtase.
[345] Ele que de homem havia sido transformado em anjo por divina mudança, e que, pela imensidão de sua alegria, entoava o seu hino de ações de graças e proclamava abertamente a Luz para iluminação dos gentios e a glória do teu povo Israel.
[346] Nem ainda assim quiseram ouvir aquilo que lhes era posto ao alcance da audição e que era honrado pelos próprios seres celestiais.
[347] Por isso a casa em que se vangloriavam encheu-se de fumaça.
[348] Ora, a fumaça é sinal e prova segura da ira.
[349] Como está escrito: “Subiu fumaça da sua ira, e fogo de sua face devorou.”
[350] E em outro lugar: “Entre o povo desobediente arderá o fogo.”
[351] E disso nosso Senhor deu claro sinal nos venerandos Evangelhos, quando disse aos judeus: “Eis que a vossa casa vos ficará deserta.”
[352] Também em outro lugar: “O rei enviou os seus exércitos, destruiu aqueles homicidas e incendiou-lhes a cidade.”
[353] Tal foi a recompensa adversa dos judeus por sua incredulidade, a qual os levou a recusar pagar à Trindade o tributo do louvor.
[354] Pois, depois que as extremidades da terra foram santificadas e a poderosa casa da Igreja foi cheia, pela proclamação do Três-Santo, da glória do Senhor, como as grandes águas cobrem os mares, então sucederam-lhes aquelas coisas que antes haviam sido declaradas, e o início da profecia foi confirmado pelo seu cumprimento.
[355] O pregador da verdade, como foi dito, significando pelo Espírito Santo, por assim dizer em figura, a terrível destruição que havia de vir sobre eles, disse: “No ano em que morreu o rei Uzias, vi o Senhor.”
[356] Uzias, sem dúvida, como apóstata, é tomado como representante de todo o corpo apóstata, do qual ele certamente era a cabeça.
[357] E ele próprio, sofrendo o castigo devido à sua presunção, trazia na fronte, como numa estátua de bronze, a vingança divina gravada na deformidade da lepra, expondo a todos a retribuição de sua repugnante impiedade.
[358] Por isso, com sabedoria divina, aquele que tinha presciência destes acontecimentos opôs a entrada da agradecida Ana à expulsão da ingrata sinagoga.
[359] O próprio nome dela também prefigura a Igreja, que é justificada no batismo pela graça de Cristo e de Deus.
[360] Pois Ana, por interpretação, é “graça”.
[361] Mas aqui, como em porto, façamos entrar a embarcação que traz o estandarte da cruz, e recolhamos as velas de nossa oração, para que ela guarde a devida medida consigo mesma.
[362] Apenas, primeiro, saudemos, em tão poucas palavras quanto possível, a cidade do Grande Rei junto com todo o corpo da Igreja, como estando presentes com eles em espírito e celebrando a santa festa com o Pai e os irmãos ali mais honrados.
[363] Salve, cidade do Grande Rei, na qual se consomam os mistérios de nossa salvação.
[364] Salve, céu sobre a terra, Sião, cidade para sempre fiel ao Senhor.
[365] Salve e resplandece, Jerusalém, porque a tua luz chegou, a Luz Eterna, a Luz que permanece para sempre, a Luz Suprema, a Luz Imaterial, a Luz de uma só substância com Deus e o Pai, a Luz que está no Espírito e na qual está o Pai.
[366] A Luz que ilumina os séculos.
[367] A Luz que dá luz às coisas mundanas e supramundanas, Cristo nosso verdadeiro Deus.
[368] Salve, cidade santa e eleita do Senhor.
[369] Celebra com alegria os teus dias de festa, pois eles não se multiplicarão para envelhecer e passar.
[370] Salve, cidade felicíssima, porque coisas gloriosas se falam de ti.
[371] Teus sacerdotes serão vestidos de justiça, e teus santos exultarão de alegria, e teus pobres serão saciados de pão.
[372] Salve.
[373] Regozija-te, Jerusalém, porque o Senhor reina no meio de ti.
[374] Aquele Senhor, digo, que, em sua simples e imaterial divindade, entrou em nossa natureza e do ventre da virgem se fez inefavelmente encarnado.
[375] Aquele Senhor que não lançou mão da semente dos anjos, daqueles, digo, que não caíram daquela bela ordem e posição que lhes foi atribuída desde o princípio.
[376] Mas a nós se inclinou, aquele Verbo que sempre coexistiu com o Pai, Deus.
[377] Nem tampouco veio ao mundo para restaurar, nem restaurará, como imaginaram alguns ímpios defensores do diabo, aqueles demônios maus que outrora caíram da luz.
[378] Mas, quando o Criador e Formador de todas as coisas, como diz o diviníssimo Paulo, lançou mão da semente de Abraão e, por meio dele, de toda a raça humana, Ele se fez homem para sempre e sem mudança.
[379] E isso para que, por sua comunhão conosco e por nossa união com Ele, a entrada do pecado em nós fosse interrompida, sua força sendo quebrada pouco a pouco, e ele mesmo sendo derretido como cera por aquele fogo que o Senhor, ao vir, lançou sobre a terra.
[380] Salve, Igreja Católica, plantada em toda a terra, e alegra-te conosco.
[381] Não temas, pequeno rebanho, as tempestades do inimigo, porque é do agrado do vosso Pai dar-vos o reino, e que piseis o pescoço de vossos inimigos.
[382] Salve e alegra-te, tu que outrora eras estéril e sem semente para a piedade, mas que agora tens muitos filhos da fé.
[383] Salve, povo do Senhor, geração escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido para proclamar as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.
[384] E glorificai-o por suas misericórdias.
[385] Salve para sempre, tu, virgem mãe de Deus, nossa alegria incessante, pois é para ti que novamente retorno.
[386] Tu és o começo da nossa festa.
[387] Tu és o seu meio e o seu fim.
[388] A pérola de grande valor que pertence ao reino.
[389] A gordura de toda vítima.
[390] O altar vivo do pão da vida.
[391] Salve, tesouro do amor de Deus.
[392] Salve, fonte do amor do Filho para com o homem.
[393] Salve, monte coberto pela sombra do Espírito Santo.
[394] Tu brilhaste, doce mãe distribuidora de dons, com a luz do sol.
[395] Brilhaste com os fogos insuportáveis de uma caridade ardentíssima, trazendo à luz, no fim, aquele que fora concebido em ti antes do princípio, manifestando o mistério oculto e inefável, o Filho invisível do Pai, o Príncipe da Paz, que de maneira maravilhosa se mostrou menor que toda pequenez.
[396] Por isso te rogamos, a mais excelente entre as mulheres, que gloriaste na confiança das honras maternas, que nos conserves incessantemente em tua memória.
[397] Ó santa mãe de Deus, lembra-te de nós, digo, que nos gloriamos em ti e que, com augustos hinos, celebramos a memória que sempre viverá e jamais se desvanecerá.
[398] E também tu, ó honrado e venerável Simeão, primeiro anfitrião de nossa santa religião e mestre da ressurreição dos fiéis, sê nosso patrono e advogado junto àquele Deus Salvador que foste julgado digno de receber em teus braços.
[399] Nós, juntamente contigo, cantamos nossos louvores a Cristo, que tem o poder da vida e da morte, dizendo.
[400] “Tu és a verdadeira Luz, procedente da verdadeira Luz.”
[401] “O verdadeiro Deus, gerado do verdadeiro Deus.”
[402] “O único Senhor, antes de tua assunção da humanidade.”
[403] “Aquele mesmo, contudo, depois de assumi-la, sempre digno de adoração.”
[404] “Deus de ti mesmo, e não por graça, mas por nossa causa também perfeito homem.”
[405] “Em tua própria natureza, Rei absoluto e soberano; mas, por nós e para nossa salvação, existindo também na forma de servo, ainda assim imaculado e sem contaminação.”
[406] “Pois tu, que és incorruptibilidade, vieste libertar a corrupção, para tornares todas as coisas incorruptas.”
[407] “Pois tua é a glória, e o poder, e a grandeza, e a majestade, com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos. Amém.”

