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[1] Quando falsas testemunhas depuseram contra nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, Ele permaneceu em silêncio; e, quando acusações infundadas foram levantadas contra Ele, não respondeu coisa alguma, crendo que toda a sua vida e conduta entre os judeus eram refutação melhor do que qualquer resposta ao falso testemunho ou do que qualquer defesa formal contra as acusações. E não sei, meu piedoso Ambrósio, por que desejaste que eu escrevesse uma resposta às falsas acusações levantadas por Celso contra os cristãos e às acusações dirigidas, em seu tratado, contra a fé das igrejas; como se os próprios fatos não fornecessem uma refutação manifesta, e a doutrina uma resposta melhor do que qualquer escrito, visto que ela desfaz as falsidades e não deixa às acusações qualquer credibilidade ou validade. Ora, quanto ao silêncio de nosso Senhor quando falsas testemunhas depuseram contra Ele, basta por enquanto citar as palavras de Mateus, pois o testemunho de Marcos é do mesmo teor. E as palavras de Mateus são estas: “E o sumo sacerdote e o conselho procuravam falso testemunho contra Jesus para o matarem, mas nada acharam, ainda que muitas falsas testemunhas se apresentassem. Por fim vieram duas falsas testemunhas e disseram: Este homem disse: Posso destruir o templo de Deus e, em três dias, reedificá-lo. E, levantando-se o sumo sacerdote, disse-lhe: Nada respondes ao que estes depõem contra ti? Jesus, porém, guardava silêncio.” E que Ele nada respondeu quando falsamente acusado, vê-se também na seguinte passagem: “E Jesus estava diante do governador; e este o interrogou, dizendo: És tu o Rei dos judeus? E Jesus lhe respondeu: Tu o dizes. E, sendo acusado pelos principais sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. Então Pilatos lhe disse: Não ouves quantas coisas depõem contra ti? E não lhe respondeu nem uma palavra, a ponto de o governador muito se maravilhar.”

[2] Foi, de fato, motivo de espanto até para homens de inteligência comum que alguém acusado e atacado por falso testemunho, mas capaz de defender-se e de mostrar que não era culpado de nenhuma das acusações alegadas, e que poderia ter enumerado os feitos louváveis de sua própria vida e seus milagres realizados pelo poder divino, de modo a dar ao juiz ocasião de pronunciar juízo mais honroso a seu respeito, não tenha procedido assim, mas tenha desprezado tal método e, na nobreza de sua natureza, tenha tratado seus acusadores com desdém. Que o juiz, sem hesitação, o teria libertado se Ele tivesse apresentado defesa, fica claro pelo que dele se narra quando disse: “Qual dos dois quereis que eu vos solte, Barrabás ou Jesus, chamado Cristo?”; e também pelo que a escritura acrescenta: “Porque sabia que por inveja o haviam entregado.” Jesus, porém, é em todos os tempos assaltado por falsas testemunhas e, enquanto a maldade permanecer no mundo, estará sempre exposto à acusação. E ainda agora Ele continua em silêncio diante dessas coisas e não dá resposta audível, mas põe sua defesa na vida de seus discípulos genuínos, que é um testemunho eminente, superior a todo falso testemunho, e que refuta e derruba todas as acusações e imputações sem fundamento.

[3] Ouso, então, dizer que esta apologia que me pedes para compor enfraquecerá um tanto aquela defesa do cristianismo que repousa nos fatos e naquele poder de Jesus que é manifesto aos que não são totalmente desprovidos de percepção. Não obstante, para que não pareçamos relutantes em empreender a tarefa que nos impuseste, temos nos esforçado, conforme nossa capacidade, por sugerir, em resposta a cada uma das afirmações apresentadas por Celso, aquilo que nos pareceu adequado para refutá-las, embora seus argumentos não tenham força para abalar a fé de qualquer verdadeiro crente. E longe esteja que se encontre alguém que, tendo participado de tão grande amor de Deus quanto o manifestado em Cristo Jesus, pudesse ser abalado em seu propósito pelos argumentos de Celso ou de qualquer outro semelhante a ele. Pois Paulo, ao enumerar as incontáveis causas que geralmente separam os homens do amor de Cristo e do amor de Deus em Cristo Jesus, causas sobre as quais o amor que havia nele triunfava, não incluiu argumento entre os fundamentos de separação. Observa, pois, que ele diz, em primeiro lugar: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte o dia todo; fomos reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por aquele que nos amou.” E, em segundo lugar, quando apresenta outra série de causas que naturalmente tendem a separar os que não estão firmemente alicerçados em sua religião, diz: “Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem potestades, nem coisas presentes, nem futuras, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.”

[4] Ora, na verdade, é próprio que nos alegremos porque aflições, ou aquelas outras causas enumeradas por Paulo, não nos separam de Cristo; mas não que Paulo e os demais apóstolos, e quaisquer outros semelhantes a eles, nutrissem esse sentimento como se estivessem apenas escapando por pouco, pois estavam muito acima dessas coisas quando disseram: “Em todas estas coisas somos mais que vencedores por aquele que nos amou”, o que é afirmação mais forte do que dizer simplesmente que são vencedores. Mas, se é próprio aos apóstolos alegrar-se por não serem separados do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor, esse sentimento será deles porque nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem qualquer das coisas que se seguem podem separá-los do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. Por isso, eu não felicito aquele crente em Cristo cuja fé pode ser abalada por Celso — que já não compartilha a vida comum dos homens, mas há muito partiu — ou por qualquer aparência de plausibilidade argumentativa. Pois não sei em que classe colocar aquele que precisa de argumentos escritos em livros em resposta às acusações de Celso contra os cristãos, para impedir que seja abalado em sua fé e para confirmá-lo nela. Contudo, já que, entre a multidão dos que são tidos por crentes, pode haver alguns cuja fé seria abalada e derrubada pelos escritos de Celso, mas que poderiam ser preservados por uma resposta capaz de refutar suas afirmações e de expor a verdade, julgamos correto ceder à tua exortação e fornecer uma resposta ao tratado que nos enviaste, embora eu não pense que alguém, mesmo tendo avançado apenas um pouco em filosofia, conceda que ele seja um “Discurso Verdadeiro”, como Celso o intitulou.

[5] Paulo, de fato, observando que na filosofia grega há certas coisas que não devem ser levadas levianamente, coisas plausíveis aos olhos da multidão, mas que apresentam a falsidade como verdade, diz a respeito delas: “Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua por meio da filosofia e de vã sutileza, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo.” E, vendo que havia certa grandeza manifesta nas palavras da sabedoria do mundo, disse que as palavras dos filósofos eram segundo os rudimentos do mundo. Homem sensato algum, porém, diria que as de Celso eram sequer segundo os rudimentos do mundo. Ora, essas palavras, que continham algum elemento de engano, o apóstolo chamou de “vã sutileza”, provavelmente para distingui-las de um engano que não fosse vão; e o profeta Jeremias, percebendo isso, ousou dizer a Deus: “Senhor, tu me persuadiste, e eu fui persuadido; foste mais forte do que eu e prevaleceste.” Mas, na linguagem de Celso, parece-me não haver engano algum, nem mesmo o que é vão; quero dizer, aquele engano que se encontra na linguagem dos que fundaram seitas filosóficas e que foram dotados de talento nada comum para tais ocupações. E assim como ninguém diria que algum erro comum nas demonstrações geométricas foi intencionalmente produzido para enganar, nem o descreveria como exercício em tais matérias, assim também as opiniões que devem ser chamadas de “vã sutileza”, “tradição dos homens” e “segundo os rudimentos do mundo” precisam ter alguma semelhança com as concepções dos fundadores de seitas filosóficas, se tais títulos lhes devem ser aplicados de modo apropriado.

[6] Depois de avançar nesta obra até o ponto em que Celso introduz o judeu debatendo com Jesus, resolvi prefixar este prefácio ao início do tratado, para que o leitor de nossa resposta a Celso o encontrasse primeiro e visse que este livro foi composto não para os que são plenamente crentes, mas para aqueles que ou são totalmente desconhecedores da fé cristã ou para aqueles que, como o apóstolo os chama, são fracos na fé, acerca dos quais ele diz: “Recebei ao que é fraco na fé.” E este prefácio deve ser minha justificativa por começar minha resposta a Celso de um modo e prossegui-la de outro. Pois minha primeira intenção era indicar suas objeções principais e, em seguida, de modo breve, as respostas dadas a elas, e posteriormente elaborar um tratado sistemático de todo o discurso. Mas depois as próprias circunstâncias me sugeriram que eu fosse econômico com meu tempo e que, satisfeito com o que já havia dito no começo, eu me dedicasse na parte seguinte a enfrentar de perto, da melhor maneira possível, as acusações de Celso. Tenho, portanto, de pedir indulgência pelas partes que seguem ao prefácio, no início do livro. E, se não fores impressionado pelos poderosos argumentos que vêm adiante, então, pedindo igual indulgência também quanto a eles, remeto-te, se ainda desejares uma solução argumentativa para as objeções de Celso, àqueles homens que são mais sábios do que eu e que são capazes, por palavras e tratados, de derrubar as acusações que ele levanta contra nós. Mas melhor é o homem que, mesmo encontrando a obra de Celso, não necessita de resposta alguma a ela, antes despreza todo o seu conteúdo, porque ele é desprezado, e com razão, por todo aquele que crê em Cristo, pelo Espírito que está nele.

[7] O primeiro ponto que Celso apresenta em seu desejo de lançar descrédito sobre o cristianismo é que os cristãos se uniam em associações secretas uns com os outros, contrárias à lei, dizendo que, das associações, algumas são públicas e estas estão em conformidade com as leis, ao passo que outras são secretas e mantidas em violação das leis. E sua intenção é desacreditar o que se chama entre os cristãos de ágapes, como se tivessem sua origem no perigo comum e fossem mais obrigatórios do que quaisquer juramentos. Já que, então, ele tagarela acerca da lei pública, alegando que as associações dos cristãos a violam, temos de responder que, se um homem fosse colocado entre os citas, cujas leis fossem ímpias, e, não tendo oportunidade de escapar, fosse compelido a viver entre eles, tal homem faria muito bem, por causa da lei da verdade, a qual os citas considerariam maldade, em entrar em associações contrárias às leis deles com os que pensassem como ele; assim, se a verdade deve decidir, as leis dos pagãos que dizem respeito a imagens e a um politeísmo ateísta são leis citas, ou ainda mais ímpias do que estas, se é que existem leis mais ímpias. Portanto, não é irracional formar associações em oposição às leis existentes, se isso é feito por causa da verdade. Pois, assim como fariam bem aqueles que entrassem em associação secreta para matar um tirano que tivesse usurpado as liberdades de um estado, assim também os cristãos, quando tiranizados por aquele que é chamado diabo e pela falsidade, formam ligas contrárias às leis do diabo, contra o seu poder, e para a salvação daqueles outros a quem conseguirem persuadir a revoltar-se contra um governo que é, por assim dizer, cítico e despótico.

[8] Em seguida, Celso passa a dizer que o sistema de doutrina, isto é, o judaísmo, do qual o cristianismo depende, era bárbaro em sua origem. E, com aparência de imparcialidade, ele não reprova o cristianismo por ter origem entre bárbaros, mas dá crédito a estes por sua capacidade de descobrir tais doutrinas. A isso, porém, acrescenta a afirmação de que os gregos são mais hábeis do que quaisquer outros em julgar, estabelecer e pôr em prática as descobertas das nações bárbaras. Ora, esta é nossa resposta às suas alegações e nossa defesa das verdades contidas no cristianismo: se alguém viesse do estudo das opiniões e costumes gregos para o evangelho, não apenas julgaria verdadeiras as suas doutrinas, mas pela prática estabeleceria sua verdade e supriria o que, do ponto de vista grego, parecesse faltar à sua demonstração, confirmando assim a verdade do cristianismo. Temos ainda de dizer que o evangelho tem uma demonstração própria, mais divina do que qualquer demonstração estabelecida pela dialética grega. E este método mais divino é chamado pelo apóstolo de “manifestação do Espírito e de poder”: do Espírito, por causa das profecias, que são suficientes para produzir fé em qualquer um que as leia, especialmente naquelas coisas que dizem respeito a Cristo; e de poder, por causa dos sinais e prodígios que devemos crer terem sido realizados, tanto por muitos outros fundamentos quanto por este: que os vestígios deles ainda permanecem entre os que regulam suas vidas pelos preceitos do evangelho.

[9] Depois disso, Celso, falando dos cristãos que ensinam e praticam suas doutrinas prediletas em segredo e dizendo que fazem isso por alguma conveniência, pois assim escapam da pena de morte que os ameaça, compara seus perigos com aqueles enfrentados por homens como Sócrates por causa da filosofia; e aqui ele poderia ter mencionado também Pitágoras e outros filósofos. Mas nossa resposta é que, no caso de Sócrates, os atenienses logo depois se arrependeram, e não permaneceu em suas mentes qualquer amargura contra ele; o mesmo aconteceu na história de Pitágoras. Os seguidores deste, de fato, por bastante tempo estabeleceram suas escolas naquela parte da Itália chamada Magna Grécia; mas, no caso dos cristãos, o Senado romano, os príncipes do tempo, a soldadesca, o povo e os parentes daqueles que se haviam convertido à fé fizeram guerra à sua doutrina e teriam impedido seu progresso, vencendo-a por uma confederação tão poderosa, se ela, com a ajuda de Deus, não tivesse escapado do perigo e se elevado acima dele, a ponto de finalmente derrotar o mundo inteiro em sua conspiração contra ela.

[10] Notemos também como ele pensa lançar descrédito sobre nosso sistema moral, alegando que ele é comum a nós e a outros filósofos, e não um ramo venerável ou novo de instrução. Em resposta, temos de dizer que, se todos os homens não tivessem naturalmente impressas em suas mentes ideias sãs de moralidade, a doutrina da punição dos pecadores teria sido excluída por aqueles que trazem sobre si os justos juízos de Deus. Não é, pois, motivo de surpresa que o mesmo Deus tenha semeado nos corações de todos os homens aquelas verdades que ensinou pelos profetas e pelo Salvador, para que, no juízo divino, cada homem fique sem desculpa, tendo os requisitos da lei escritos em seu coração — verdade obscuramente aludida pela escritura naquilo que os gregos consideram um mito, quando ela representa Deus escrevendo com o próprio dedo os mandamentos e dando-os a Moisés, e quando a maldade dos adoradores do bezerro fez com que ele os quebrasse, como se uma torrente de perversidade, por assim dizer, os tivesse levado embora. Mas Moisés, tendo de novo lavrado tábuas de pedra, Deus escreveu os mandamentos uma segunda vez e os deu a ele, preparando a palavra profética a alma, por assim dizer, após a primeira transgressão, para a segunda escrita de Deus.

[11] Tratando das prescrições acerca da idolatria como algo peculiar ao cristianismo, Celso reconhece sua correção ao dizer que os cristãos não consideram como deuses aqueles que são feitos por mãos humanas, com o fundamento de que não está em conformidade com a reta razão supor que imagens, moldadas pelos mais vis e depravados artífices, e em muitos casos também providas por homens perversos, possam ser consideradas deuses. No que segue, porém, querendo mostrar que essa é uma opinião comum e não descoberta primeiramente pelo cristianismo, ele cita um dito de Heráclito nestes termos: “Aqueles que se aproximam de imagens sem vida como se fossem deuses agem de modo semelhante aos que tentariam conversar com casas.” A respeito disso, temos de dizer que ideias dessa natureza foram implantadas nas mentes dos homens, assim como os princípios da moralidade, dos quais não apenas Heráclito, mas qualquer outro grego ou bárbaro poderia, por reflexão, deduzir a mesma conclusão; pois ele afirma que também os persas eram da mesma opinião, citando Heródoto como sua autoridade. Podemos acrescentar ainda Zenão de Cítio, que, em sua República, diz: “E não haverá necessidade de construir templos, pois nada deve ser tido como sagrado, ou de grande valor, ou santo, que seja obra de construtores e de homens inferiores.” É evidente, então, com relação a essa opinião, como a outras, que foi gravado no coração dos homens, pelo dedo de Deus, um senso do dever requerido.

[12] Depois disso, por influência de algum motivo que me é desconhecido, Celso afirma que é pelos nomes de certos demônios e pelo uso de encantamentos que os cristãos parecem possuir poder miraculoso, insinuando, suponho, as práticas daqueles que expulsam espíritos malignos por encantamentos. E aqui ele claramente se mostra maldizente do evangelho. Pois não é por encantamentos que os cristãos parecem prevalecer sobre os espíritos malignos, mas pelo nome de Jesus, acompanhado do anúncio das narrativas que lhe dizem respeito; pois a repetição delas tem frequentemente sido o meio de expulsar demônios dos homens, especialmente quando os que as repetiam o faziam com espírito são e fé genuína. Tão grande é, de fato, o poder do nome de Jesus sobre os espíritos malignos, que houve casos em que ele foi eficaz mesmo quando pronunciado por homens maus, o que o próprio Jesus ensinou que aconteceria, quando disse: “Muitos me dirão naquele dia: Em teu nome expulsamos demônios e em teu nome fizemos muitas maravilhas.” Se Celso omitiu isso por malícia deliberada ou por ignorância, não sei. E então ele passa a levantar uma acusação contra o próprio Salvador, alegando que foi por meio de feitiçaria que Ele conseguiu realizar as maravilhas que operou; e que, prevendo que outros alcançariam o mesmo conhecimento e fariam as mesmas coisas, vangloriando-se de fazê-las com a ajuda do poder de Deus, Ele exclui tais pessoas de seu reino. E sua acusação é a seguinte: se eles são justamente excluídos, enquanto Ele mesmo é culpado das mesmas práticas, então Ele é um homem mau; mas, se Ele não é culpado de maldade ao fazer tais coisas, tampouco o são os que fazem o mesmo que Ele. Porém, mesmo que fosse impossível mostrar por que poder Jesus realizou esses milagres, é claro que os cristãos não empregam fórmulas mágicas nem encantamentos, mas o simples nome de Jesus e certas outras palavras nas quais depositam fé, conforme as santas escrituras.

[13] Além disso, já que ele frequentemente chama a doutrina cristã de um sistema secreto de crença, devemos refutá-lo também neste ponto, visto que quase o mundo inteiro está mais bem informado sobre aquilo que os cristãos pregam do que sobre as opiniões favoritas dos filósofos. Pois quem ignora a afirmação de que Jesus nasceu de uma virgem, foi crucificado, e que sua ressurreição é artigo de fé entre muitos, e que se anuncia um juízo geral vindouro no qual os ímpios serão punidos segundo seus merecimentos e os justos devidamente recompensados? E, no entanto, o mistério da ressurreição, por não ser compreendido, é tornado objeto de zombaria entre os incrédulos. Nestas circunstâncias, falar da doutrina cristã como se fosse um sistema secreto é totalmente absurdo. Mas o fato de haver certas doutrinas não dadas a conhecer à multidão, que são reveladas depois que as exteriores já foram ensinadas, não é peculiar apenas ao cristianismo, mas também aos sistemas filosóficos, nos quais certas verdades são exotéricas e outras esotéricas. Alguns ouvintes de Pitágoras se contentavam com o seu “ele mesmo disse”; outros eram ensinados em segredo naquelas doutrinas que não eram julgadas adequadas para serem comunicadas a ouvidos profanos e insuficientemente preparados. Além disso, todos os mistérios celebrados por toda a Grécia e entre os povos bárbaros, embora guardados em segredo, não são por isso desacreditados; de modo que ele se esforça em vão por caluniar as doutrinas secretas do cristianismo, visto que não compreende corretamente sua natureza.

[14] Com certa eloquência, aliás, ele parece defender a causa daqueles que dão testemunho da verdade do cristianismo por sua morte, nas seguintes palavras: “Eu não sustento que, se um homem que adotou um bom sistema de doutrina tiver de incorrer em perigo por causa disso, deva ele apostatar, fingir apostasia, ou negar abertamente suas opiniões.” E ele condena aqueles que, mantendo opiniões cristãs, ou fingem que não as têm, ou as negam, dizendo que aquele que sustenta certa opinião não deve fingir retratação nem desmenti-la publicamente. E aqui Celso precisa ser convencido de contradição consigo mesmo. Pois, por outros tratados seus, se sabe que ele era epicurista; mas aqui, porque pensou que poderia atacar o cristianismo com mais eficácia se não professasse as opiniões de Epicuro, finge que há algo no homem melhor do que a parte terrena de sua natureza, algo aparentado com Deus, e diz que aqueles em quem esse elemento, isto é, a alma, está em condição saudável, estão sempre buscando a natureza que lhes é afim, isto é, Deus, e sempre desejando ouvir algo a seu respeito e trazê-lo à memória. Observa agora a falta de sinceridade de seu caráter! Tendo dito pouco antes que o homem que abraçou um bom sistema de doutrina não deve, mesmo se exposto a perigo por causa disso, nem negá-lo, nem fingir tê-lo negado, nem tampouco desmenti-lo abertamente, ele agora se envolve em toda sorte de contradições. Pois sabia que, se reconhecesse ser epicurista, não obteria crédito algum ao acusar aqueles que, em algum grau, introduzem a doutrina da providência e colocam um Deus sobre o mundo. E ouvimos dizer que havia dois indivíduos chamados Celso, ambos epicuristas: o mais antigo viveu no tempo de Nero, mas este, no de Adriano e depois dele.

[15] Em seguida, ele recomenda que, ao adotar opiniões, sigamos a razão e um guia racional, pois aquele que dá assentimento a opiniões sem seguir esse caminho está muito sujeito ao engano. E compara os crentes inconsiderados a metragirtas, adivinhos, mitraístas, sabadianos, e a qualquer outra coisa semelhante que se possa encontrar, e aos fantasmas de Hécate, ou de qualquer outro demônio ou demônios. Pois, assim como entre tais pessoas frequentemente se encontram homens perversos que, aproveitando-se da ignorância dos facilmente enganáveis, os conduzem para onde querem, assim também, diz ele, acontece entre os cristãos. E afirma que certas pessoas, que não querem nem dar nem receber razão para a sua fé, vivem repetindo: “Não examines, mas crê!”, e: “Tua fé te salvará!” E alega também que tais pessoas dizem: “A sabedoria desta vida é má, mas a tolice é uma coisa boa!” Ao que temos de responder que, se fosse possível a todos abandonar os negócios da vida e dedicar-se à filosofia, nenhum outro método deveria ser adotado por ninguém senão este. Pois também no sistema cristão se encontrará, sem falar arrogantemente, ao menos tanto exame de artigos de fé, tanta explicação de ditos obscuros presentes nos escritos proféticos, nas parábolas dos evangelhos e em incontáveis outras coisas narradas ou realizadas com significado simbólico quanto em outros sistemas. Mas, já que esse curso é impossível, em parte por causa das necessidades da vida e em parte por causa da fraqueza humana, visto que apenas pouquíssimos se dedicam intensamente ao estudo, que método melhor poderia ser concebido para ajudar a multidão do que aquele entregue por Jesus aos gentios? E investiguemos, quanto à grande multidão dos crentes que lavaram a lama da maldade em que antes chafurdavam, se foi melhor para eles crer sem uma razão e assim terem sido reformados e melhorados em seus hábitos, pela crença de que os homens são castigados por seus pecados e honrados por suas boas obras, ou se teria sido melhor não se deixarem converter com base na simples fé, mas esperar até que pudessem dedicar-se a um exame completo das razões necessárias. Pois é manifesto que, seguindo tal plano, todos os homens, com raríssimas exceções, não obteriam essa melhora de conduta que alcançaram mediante uma fé simples, mas continuariam na prática de uma vida perversa. Ora, qualquer outra prova que se possa apresentar do fato de que não foi sem intervenção divina que o plano filantrópico do cristianismo foi introduzido entre os homens, esta também deve ser acrescentada. Pois um homem piedoso não crerá que até mesmo um médico do corpo, que restaura os doentes a uma saúde melhor, possa estabelecer-se em alguma cidade ou país sem permissão divina, já que nenhum bem acontece aos homens sem a ajuda de Deus. E se aquele que curou os corpos de muitos, ou os restaurou a melhor saúde, não efetua suas curas sem o auxílio de Deus, quanto mais Aquele que curou as almas de muitos, converteu-as à virtude, melhorou sua natureza, ligou-as a Deus, que está sobre todas as coisas, e as ensinou a referir cada ação ao seu beneplácito, e a evitar tudo o que lhe desagrada, até mesmo em suas menores palavras ou obras, ou até nos pensamentos de seus corações?

[16] Em seguida, uma vez que nossos adversários vivem repetindo aquelas afirmações sobre a fé, devemos dizer que, considerando-a útil para a multidão, admitimos que ensinamos a crer sem razões aqueles homens que não são capazes de abandonar todas as demais ocupações e dedicar-se ao exame dos argumentos; e nossos adversários, ainda que não o reconheçam, na prática fazem o mesmo. Pois quem há que, ao lançar-se ao estudo da filosofia e ingressar nas fileiras de alguma seita, seja por acaso, seja porque conta com um mestre dessa escola, proceda assim por outra razão senão porque crê que sua seita particular é superior a qualquer outra? Pois, sem esperar ouvir os argumentos de todos os demais filósofos e de todas as diferentes seitas, e as razões para condenar um sistema e apoiar outro, ele assim escolhe tornar-se, por exemplo, estoico, ou platônico, ou peripatético, ou epicurista, ou adepto de outra escola qualquer, e deste modo é levado, embora não o admitam, por uma espécie de impulso irracional à prática do estoicismo, por exemplo, com desprezo das demais; desdenhando o platonismo, talvez, por ser marcado por maior humildade do que os outros; ou o peripatetismo, por ser mais humano e admitir com mais equidade do que outros sistemas as bênçãos da vida humana. E alguns também, alarmados à primeira vista com a doutrina da providência, ao verem o que acontece no mundo aos viciosos e aos virtuosos, concluíram temerariamente que não há providência divina alguma e adotaram as opiniões de Epicuro e de Celso.

[17] Portanto, já que, como a razão ensina, devemos depositar fé em algum daqueles que introduziram seitas entre gregos ou bárbaros, por que não crer antes em Deus, que está sobre todas as coisas, e naquele que ensina que a adoração deve ser prestada somente a Deus e que as demais coisas devem ser deixadas de lado, quer como não existentes, quer como realmente existentes e dignas de honra, mas não de culto e reverência? E a respeito dessas coisas, aquele que não apenas crê, mas contempla com o olho da razão, apresentará as demonstrações que lhe ocorrerem e que resultam de investigação cuidadosa. E por que não seria mais razoável, já que todas as coisas humanas dependem da fé, crer em Deus antes do que nelas? Pois quem entra numa viagem, ou contrai casamento, ou se torna pai de filhos, ou lança semente à terra, sem crer que disso resultarão coisas melhores, embora o contrário possa e às vezes aconteça? E, no entanto, é a crença de que melhores coisas, de acordo com os seus desejos, se seguirão que leva todos os homens a aventurar-se em empreendimentos incertos, que podem terminar de maneira diversa daquela que esperam. E, se a esperança e a crença num futuro melhor são o sustentáculo da vida em todo empreendimento incerto, por que essa fé não haveria de ser racionalmente aceita por aquele que crê, com melhores fundamentos do que quem navega, lavra a terra, toma esposa ou se dedica a qualquer outra ocupação humana, na existência de um Deus que foi o Criador de todas essas coisas, e naquele que, com sabedoria suprema e grandeza divina de espírito, ousou tornar conhecida esta doutrina aos homens em todas as partes do mundo, ao custo de grande perigo e de uma morte considerada infame, que suportou em favor do gênero humano; tendo também ensinado aos que foram persuadidos a abraçar sua doutrina desde o princípio a irem, sob risco de todo perigo e de morte iminente, a todas as regiões do mundo para assegurar a salvação dos homens?

[18] Em seguida, quando Celso diz expressamente: “Se eles me respondessem, não como se eu estivesse pedindo informação, pois conheço todas as suas opiniões, mas porque tomo interesse igual por todas elas, seria bom. E, se não o quiserem, mas continuarem repetindo, como geralmente fazem, ‘não investigues’, etc., então devem ao menos explicar-me de que natureza são essas coisas de que falam e de onde provêm, etc.” Ora, quanto à sua afirmação de que conhece todas as nossas doutrinas, temos de dizer que se trata de uma pretensão ousada e presunçosa. Pois, se tivesse lido em particular os profetas, que estão cheios de dificuldades reconhecidas e de declarações obscuras para a multidão; e, se tivesse percorrido as parábolas dos evangelhos, os outros escritos da lei e da história judaica, e as palavras dos apóstolos, lendo-os com sinceridade e desejo de penetrar-lhes o sentido, ele não se expressaria com tamanha ousadia, nem diria que conhecia todas as suas doutrinas. Nem mesmo nós, que dedicamos muito estudo a esses escritos, diríamos que conhecemos tudo, porque temos respeito pela verdade. Nenhum de nós afirmará: “Eu conheço todas as doutrinas de Epicuro”, nem terá confiança de que conhece todas as de Platão, sabendo quantas diferenças de opinião existem entre os intérpretes desses sistemas. Pois quem seria tão ousado a ponto de dizer que conhece todas as opiniões dos estoicos ou dos peripatéticos? A menos, é claro, que tenha ouvido esta bravata — “eu sei tudo” — de alguns ignorantes e insensatos, que não percebem sua própria ignorância, e tenha imaginado, por ter tido tais homens como mestres, que conhecia tudo. Tal pessoa me parece agir exatamente como alguém que tivesse visitado o Egito — onde os sábios egípcios, instruídos na literatura de seu país, se entregam intensamente a filosofar sobre aquelas coisas que entre eles são consideradas divinas, enquanto o povo comum, ouvindo certos mitos cujas razões não compreende, se enche de orgulho por causa de seu suposto conhecimento — e imaginasse conhecer todo o círculo do saber egípcio, depois de ter sido discípulo apenas dos ignorantes, sem ter convivido com nenhum dos sacerdotes, nem aprendido de outra fonte os mistérios dos egípcios. E o que eu disse dos instruídos e dos ignorantes entre os egípcios, poderia também dizer dos persas; entre eles há mistérios conduzidos sobre princípios racionais pelos instruídos, mas entendidos em sentido simbólico pelos mais superficiais da multidão. O mesmo se aplica aos sírios, aos indianos e a todos os que possuem literatura e mitologia.

[19] Mas, já que Celso declarou ser um dito de muitos cristãos que a sabedoria desta vida é algo mau, enquanto a tolice é algo bom, temos de responder que ele calunia o evangelho, não citando as palavras como de fato ocorrem nos escritos de Paulo, onde elas são assim: “Se alguém entre vós se julga sábio neste século, faça-se louco para tornar-se sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus.” O apóstolo, portanto, não diz simplesmente que a sabedoria é loucura diante de Deus, mas “a sabedoria deste mundo”. E novamente, não: “Se alguém entre vós se julga sábio, faça-se louco” universalmente; mas: “faça-se louco neste mundo, para tornar-se sábio”. Chamamos, então, de sabedoria deste mundo todo sistema falso de filosofia que, segundo as escrituras, é reduzido a nada; e chamamos de boa a loucura não sem restrição, mas quando um homem se faz louco para este mundo. Como se disséssemos que o platônico, que crê na imortalidade da alma e na doutrina da metempsicose, incorre em acusação de loucura perante os estoicos, que rejeitam essa opinião; e perante os peripatéticos, que tagarelam sobre as sutilezas de Platão; e perante os epicuristas, que chamam de superstição introduzir uma providência e colocar um Deus sobre todas as coisas. Além disso, que está em consonância com o espírito do cristianismo dar muito mais importância ao assentimento a doutrinas sobre fundamentos de razão e sabedoria do que apenas com base na fé, e que somente em certas circunstâncias o segundo caminho foi desejado pelo cristianismo, para não deixar os homens totalmente sem ajuda, isso é mostrado por aquele genuíno discípulo de Jesus, Paulo, quando diz: “Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação.” Ora, por essas palavras se mostra claramente que é pela sabedoria de Deus que Deus deve ser conhecido. Mas, como isso não aconteceu, aprouve a Deus uma segunda vez salvar os que creem, não por uma loucura universal, mas por aquela loucura que dependia da pregação. Pois a pregação de Jesus Cristo crucificado é a “loucura da pregação”, como também percebeu Paulo quando disse: “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gregos; mas para os que são chamados, tanto judeus quanto gregos, Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus.”

[20] Celso, tendo a opinião de que se encontra entre muitas nações certa relação geral de doutrina, enumera todas as nações que deram origem a tais e tais opiniões; mas, por algum motivo que me é desconhecido, despreza os judeus, não os incluindo entre os demais, seja como tendo trabalhado juntamente com eles e chegado às mesmas conclusões, seja como tendo sustentado opiniões semelhantes em muitos assuntos. Convém, portanto, perguntar-lhe por que dá crédito às histórias de bárbaros e gregos no tocante à antiguidade das nações de que fala, mas marca como falsas as histórias apenas desta nação. Pois, se os respectivos autores relataram os acontecimentos contidos nessas obras em espírito de verdade, por que deveríamos desconfiar somente dos profetas dos judeus? E, se Moisés e os profetas registraram muitas coisas em sua história por desejo de favorecer seu próprio sistema, por que não diríamos o mesmo dos historiadores de outros países? Ou, quando os egípcios ou suas histórias falam mal dos judeus, devem ser cridos nesse ponto; mas os judeus, quando dizem as mesmas coisas dos egípcios e declaram ter sofrido grande injustiça às suas mãos, e que por isso foram castigados por Deus, devem ser acusados de falsidade? E isso vale não somente para os egípcios, mas também para outros; pois encontraremos que houve ligação entre os assírios e os judeus, e que isso está registrado nas antigas histórias dos assírios. Do mesmo modo, os historiadores judeus — evito usar a palavra profetas, para não parecer prejulgar a causa — relataram que os assírios eram inimigos dos judeus. Observa, então, de imediato, o procedimento arbitrário deste homem, que crê nas histórias dessas nações com base em serem elas nações cultas, e condena outras como totalmente ignorantes. Pois ouve a afirmação de Celso: “Há”, diz ele, “uma narrativa autorizada desde o princípio, a respeito da qual existe constante concordância entre todas as nações, cidades e homens mais eruditos.” E, no entanto, ele não chamará os judeus de nação erudita do mesmo modo como chama os egípcios, assírios, indianos, persas, odrísios, samotrácios e eleusínios.

[21] Quão mais imparcial que Celso é Numênio, o pitagórico, que deu muitas provas de ser homem muito eloquente, que examinou cuidadosamente muitas opiniões e reuniu de muitas fontes aquilo que tinha aparência de verdade; pois, no primeiro livro de seu tratado Sobre o Bem, ao falar das nações que adotaram a opinião de que Deus é incorpóreo, ele enumera também os judeus entre os que sustentam tal doutrina, sem mostrar qualquer relutância em usar inclusive a linguagem de seus profetas em seu tratado e em dar-lhe um sentido metafórico. Diz-se, além disso, que Hermipo registrou, em seu primeiro livro Sobre os Legisladores, que foi do povo judeu que Pitágoras derivou a filosofia que introduziu entre os gregos. E existe ainda uma obra do historiador Hecateu tratando dos judeus, na qual se concede a essa nação tão alto caráter quanto ao seu saber, que Herênio Fílon, em seu tratado Sobre os Judeus, primeiro duvida se ela é realmente composição do historiador; e, em segundo lugar, afirma que, se de fato for dele, é provável que tenha sido levado pela plausibilidade da história judaica e assim dado seu assentimento ao sistema deles.

[22] Preciso expressar meu espanto pelo fato de Celso classificar os odrísios, os samotrácios, os eleusínios e os hiperbóreos entre as nações mais antigas e mais cultas, e não considerar os judeus dignos de um lugar entre tais povos, seja por sua erudição, seja por sua antiguidade, embora haja muitos tratados em circulação entre egípcios, fenícios e gregos que testemunham a existência deles como povo antigo, tratados que considerei desnecessário citar. Pois qualquer um que quiser pode ler o que Flávio Josefo registrou em seus dois livros Sobre a Antiguidade dos Judeus, onde reúne grande quantidade de escritores que dão testemunho da antiguidade do povo judeu; e existe também o Discurso aos Gregos, de Taciano, o mais jovem, no qual, com grande erudição, ele enumera os historiadores que trataram da antiguidade da nação judaica e de Moisés. Parece, então, que não é por amor à verdade, mas por espírito de ódio, que Celso faz essas afirmações, pois seu objetivo é difamar a origem do cristianismo, que está ligada ao judaísmo. Mais ainda, ele chama os galactófagos de Homero, os druidas dos gauleses e os getas de tribos antiquíssimas e sapientíssimas, por causa da semelhança entre suas tradições e as dos judeus, embora eu não saiba se alguma de suas histórias sobrevive; mas aos hebreus somente, no que depende dele, priva da honra tanto da antiguidade quanto da erudição. E, de novo, ao fazer uma lista de homens antigos e eruditos que beneficiaram seus contemporâneos por seus feitos e a posteridade por seus escritos, excluiu Moisés do número; enquanto de Lino, a quem Celso concede lugar destacado em sua lista, não existem nem leis nem discursos que tenham produzido melhora em tribo alguma; ao passo que uma nação inteira, dispersa por todo o mundo, obedece às leis de Moisés. Considera, pois, se não é por aberta malevolência que ele expulsou Moisés de seu catálogo de homens sábios, enquanto afirma que Lino, Museu, Orfeu, Ferecides, o persa Zoroastro e Pitágoras discutiram esses assuntos, e que suas opiniões foram depositadas em livros e assim preservadas até o presente. E é também de propósito que ele omitiu menção ao mito, sobretudo adornado por Orfeu, no qual os deuses são descritos como sujeitos a fraquezas e paixões humanas.

[23] No que segue, Celso, atacando a história mosaica, censura aqueles que lhe dão significação figurada e alegórica. E aqui alguém poderia dizer a esse grande homem, que inscreveu em sua própria obra o título de Discurso Verdadeiro: Por que, meu caro, te glorias de que se registre que os deuses se envolvam nas aventuras descritas por teus poetas e filósofos eruditos, sejam culpados de intrigas abomináveis, travem guerras contra seus próprios pais, cortem-lhes as partes secretas e ousem cometer e sofrer tais enormidades; enquanto Moisés, que nada conta desse gênero a respeito de Deus, nem mesmo acerca dos santos anjos, e que narra feitos de muito menor atrocidade acerca dos homens — pois em seus escritos ninguém ousou cometer crimes tais como Cronos contra Urano, ou Zeus contra seu pai, ou aquele do pai dos homens e dos deuses que teve comércio com a própria filha — deva ser considerado como tendo enganado os que estavam sob suas leis e como tendo-os conduzido ao erro? E aqui Celso me parece agir de certo modo como Trasímaco, o filósofo platônico, quando não quis permitir que Sócrates respondesse sobre a justiça como desejava, mas disse: “Cuidado para não dizer que a utilidade é justiça, ou dever, ou algo desse tipo.” De modo semelhante, Celso assalta, como pensa, as histórias mosaicas e censura os que as entendem alegoricamente, ao mesmo tempo concedendo-lhes algum louvor, no sentido de que são mais imparciais do que os que não o fazem; e assim, por meio de suas objeções capciosas, impede, por assim dizer, que aqueles que são capazes de mostrar o verdadeiro estado do caso ofereçam a defesa que gostariam de apresentar.

[24] E, desafiando uma comparação de livro com livro, eu diria: Vamos, meu caro, toma os poemas de Lino, de Museu e de Orfeu, e os escritos de Ferecides, e compara-os cuidadosamente com as leis de Moisés — histórias com histórias, discursos éticos com leis e mandamentos — e vê quais dos dois são mais aptos a transformar o caráter do ouvinte no próprio ato de ouvi-los, e quais a endurecê-lo em sua maldade; e observa que tua série de escritores demonstra pouca preocupação com os leitores que hão de lê-los imediatamente e sem auxílio, tendo composto sua filosofia, como a chamas, para aqueles que são capazes de compreender seu significado metafórico e alegórico; ao passo que Moisés, como orador distinto que medita alguma figura de retórica e cuidadosamente introduz em toda parte uma linguagem de duplo sentido, fez isso em seus cinco livros: não oferecendo, na parte relativa à moral, qualquer oportunidade para seus súditos judeus praticarem o mal; nem, por outro lado, dando aos poucos dotados de maior sabedoria, e capazes de investigar o seu sentido, um tratado desprovido de material para especulação. Mas os escritos de vossos poetas eruditos pareceriam nem mesmo ter sido preservados, embora tivessem sido cuidadosamente guardados se os leitores tivessem percebido algum benefício neles; ao passo que as obras de Moisés moveram muitos, até mesmo estranhos aos costumes dos judeus, à crença de que, como esses escritos testificam, o primeiro que promulgou essas leis e as entregou a Moisés foi o Deus criador do mundo. Pois convinha ao Criador do universo, depois de estabelecer leis para seu governo, conferir às suas palavras um poder que pudesse subjugar todos os homens em todas as partes da terra. E isso sustento sem ainda ter iniciado investigação alguma a respeito de Jesus, mas demonstrando apenas que Moisés, muito inferior ao Senhor, é, como o Discurso mostrará, grandemente superior a vossos poetas e filósofos sábios.

[25] Depois dessas afirmações, Celso, por um desejo secreto de lançar descrédito sobre o relato mosaico da criação, que ensina que o mundo ainda não tem dez mil anos, mas muito menos do que isso, embora esconda sua intenção, insinua concordar com aqueles que sustentam que o mundo é incriado. Pois, ao afirmar que houve desde toda a eternidade muitos incêndios e muitos dilúvios, e que o dilúvio que ocorreu recentemente no tempo de Deucalião é comparativamente moderno, ele demonstra claramente, aos que são capazes de entendê-lo, que, em sua opinião, o mundo é incriado. Mas que esse atacante da fé cristã nos diga com que argumentos foi compelido a aceitar a afirmação de que houve muitos incêndios e muitos cataclismos, e de que o dilúvio ocorrido no tempo de Deucalião, e o incêndio no de Faetonte, foram mais recentes do que quaisquer outros. E, se ele apresentar os diálogos de Platão como prova dessas coisas, nós lhe diremos que também nos é permitido crer que residia na alma pura e piedosa de Moisés, que se elevou acima de todas as coisas criadas, uniu-se ao Criador do universo e tornou conhecidas as coisas divinas com muito mais clareza do que Platão ou quaisquer outros sábios entre gregos e romanos, um espírito divino. E, se ele exigir de nós as razões de tal crença, dê primeiro os fundamentos para suas próprias afirmações sem prova, e então mostraremos que nossa posição é a correta.

[26] E, no entanto, contra a própria vontade, Celso se vê enredado em dar testemunho de que o mundo é comparativamente moderno e ainda não tem dez mil anos, quando diz que os gregos consideram certas coisas como antigas porque, em razão dos dilúvios e incêndios, não viram nem receberam memória de acontecimentos mais antigos. Mas que Celso tenha por autoridades, para o mito dos incêndios e inundações, aquelas pessoas que, em sua opinião, são as mais eruditas entre os egípcios, cuja sabedoria deixa vestígios no culto de animais irracionais e em argumentos que procuram provar que tal culto a Deus está em conformidade com a razão e possui caráter secreto e misterioso. Os egípcios, então, quando altivamente apresentam sua própria explicação da divindade dos animais, devem ser considerados sábios; mas, se algum judeu, professando adesão à lei e ao legislador, refere tudo ao Criador do universo e ao único Deus, ele é, na opinião de Celso e dos que pensam como ele, tido por inferior àquele que degrada a divindade não apenas ao nível de animais racionais e mortais, mas até de irracionais! — concepção que vai muito além da doutrina mítica da transmigração, segundo a qual a alma cai do cume do céu e entra no corpo de animais brutos, tanto domésticos quanto selvagens. E, se os egípcios narraram fábulas desse tipo, acredita-se que suas adivinhações e mistérios encerram sentido filosófico; mas, se Moisés compõe e deixa para uma nação inteira histórias e leis, estas devem ser consideradas fábulas vazias, cuja linguagem não admite qualquer sentido alegórico!

[27] Esta é a opinião de Celso e dos epicuristas: Moisés, diz ele, tendo aprendido a doutrina que já existia entre nações sábias e homens eloquentes, alcançou reputação de divindade. Ora, em resposta a isso temos de dizer que se lhe pode conceder que Moisés realmente ouviu alguma doutrina antiga e a transmitiu aos hebreus; mas, se a doutrina que ouviu fosse falsa, nem piedosa nem venerável, e mesmo assim a tivesse recebido e transmitido aos que estavam sob sua autoridade, seria passível de censura; porém, se, como tu afirmas, ele aderiu a opiniões sábias e verdadeiras e educou seu povo por meio delas, que fez ele, pergunto, que mereça condenação? Quem dera que não apenas Epicuro, mas também Aristóteles, cujos sentimentos acerca da providência não são tão ímpios quanto os do primeiro, e os estoicos, que afirmam que Deus é um corpo, tivessem ouvido tal doutrina! Então o mundo não estaria cheio de opiniões que ou negam ou enfraquecem a ação da providência, ou introduzem um princípio corporal corruptível, segundo o qual o deus dos estoicos é um corpo, acerca do qual eles não receiam dizer que é capaz de mudança e pode ser alterado e transformado em todas as suas partes, e, em geral, que é suscetível de corrupção, caso haja alguém para corrompê-lo, mas que tem a sorte de escapar da corrupção porque não existe quem o corrompa. Ao passo que a doutrina dos judeus e dos cristãos, que preserva a imutabilidade e a inalterabilidade da natureza divina, é estigmatizada como ímpia, não por participar da profanação daqueles cujas noções de Deus são marcadas pela impiedade, mas porque diz na súplica dirigida à Divindade: “Tu és o mesmo”, sendo além disso artigo de fé que Deus disse: “Eu não mudo.”

[28] Depois disso, Celso, sem condenar a circuncisão tal como praticada pelos judeus, afirma que esse costume foi derivado dos egípcios, acreditando assim mais nos egípcios do que em Moisés, que diz que Abraão foi o primeiro entre os homens a praticar esse rito. E não é Moisés apenas que menciona o nome de Abraão, atribuindo-lhe grande intimidade com Deus; muitos também daqueles que se entregam à prática da conjuração de espíritos malignos usam em seus encantamentos a expressão “Deus de Abraão”, apontando pelo próprio nome a amizade que existia entre aquele homem justo e Deus. E, no entanto, enquanto fazem uso da expressão “Deus de Abraão”, não sabem quem é Abraão! O mesmo se aplica a Isaque, Jacó e Israel; nomes que, embora confessadamente hebraicos, são frequentemente introduzidos por aqueles egípcios que professam produzir algum resultado maravilhoso por meio de seu conhecimento. O rito da circuncisão, porém, que começou com Abraão e foi descontinuado por Jesus, que desejou que seus discípulos não o praticassem, não está agora diante de nós para explicação; a presente ocasião não nos leva a falar dessas coisas, mas a fazer esforço para refutar as acusações levantadas por Celso contra a doutrina dos judeus, pois ele pensa que mais facilmente estabelecerá a falsidade do cristianismo se, atacando sua origem no judaísmo, puder mostrar que este também é falso.

[29] Depois disso, Celso afirma que “esses pastores e guardadores de rebanhos que seguiram Moisés como seu líder tiveram suas mentes iludidas por enganos vulgares e assim supuseram que havia um só Deus”. Que ele mostre, então, como, após esse afastamento irracional, como ele o considera, desses pastores e guardadores de rebanhos da adoração de muitos deuses, ele próprio é capaz de estabelecer a multiplicidade de divindades encontradas entre os gregos ou entre outras nações chamadas bárbaras. Que prove, portanto, a existência de Mnemosine, mãe das Musas por Zeus; ou de Têmis, mãe das Horas; ou que demonstre que as Graças sempre nuas podem ter existência real e substancial. Mas ele não será capaz de mostrar, a partir de quaisquer de suas ações, que essas representações fictícias dos gregos, que têm aparência de estar revestidas de corpos, sejam realmente deuses. E por que as fábulas gregas acerca dos deuses seriam verdadeiras mais do que as dos egípcios, por exemplo, que em sua língua nada sabem de uma Mnemosine, mãe das nove Musas, nem de uma Têmis, mãe das Horas, nem de uma Eufrosine, uma das Graças, nem de qualquer outro desses nomes? Quanto mais manifesto, e quanto melhor que todas essas invenções, é que, convencidos pelo que vemos na admirável ordem do mundo, adoremos o seu Artífice como o único Autor de um único efeito, o qual, sendo completamente harmonioso em si mesmo, não pode por isso ter sido obra de muitos artífices; e que creiamos que o céu inteiro não é mantido pelo movimento de muitas almas, pois basta uma, que conduz toda a esfera dos não errantes do leste ao oeste e abrange em si todas as coisas de que o mundo necessita e que não existem por si mesmas! Pois todas são partes do mundo, enquanto Deus não é parte do todo. Mas Deus não pode ser imperfeito, como uma parte é imperfeita. E talvez uma consideração mais profunda mostre que, assim como Deus não é parte, assim também não é propriamente o todo, já que o todo é composto de partes; e a razão não nos permite crer que o Deus que está sobre todas as coisas seja composto de partes, cada uma das quais não pode fazer o que todas as outras podem.

[30] Depois disso ele continua: “Esses pastores e guardadores de rebanhos concluíram que havia apenas um Deus, chamado ou o Altíssimo, ou Adonai, ou o Celestial, ou Sabaoth, ou por algum outro daqueles nomes com os quais se comprazem em designar este mundo; e nada sabiam além disso.” E em parte posterior de sua obra diz que “não faz diferença se o Deus que está sobre todas as coisas for chamado pelo nome de Zeus, corrente entre os gregos, ou por aquele, por exemplo, usado entre indianos ou egípcios”. Ora, em resposta a isso, temos de observar que aqui se toca num assunto profundo e misterioso — a saber, a natureza dos nomes: se, como pensa Aristóteles, os nomes foram dados por convenção; ou, como sustentam os estoicos, por natureza, sendo as primeiras palavras imitações das coisas, conforme as quais os nomes foram formados e em conformidade com as quais introduzem certos princípios de etimologia; ou se, como ensina Epicuro, diferindo nisso dos estoicos, os nomes foram dados por natureza, isto é, os primeiros homens proferindo certas palavras variáveis segundo as circunstâncias em que se encontravam. Se, então, pudermos estabelecer, com referência à afirmação anterior, a natureza dos nomes poderosos, alguns dos quais são usados pelos instruídos entre os egípcios, ou pelos magos entre os persas, ou pelos filósofos indianos chamados brâmanes, ou pelos samanianos, e por outros em diferentes países; e se pudermos mostrar que a chamada magia não é, como pensam os seguidores de Epicuro e Aristóteles, uma coisa totalmente incerta, mas é, como os entendidos nela demonstram, um sistema coerente, possuindo palavras conhecidas de pouquíssimos; então diremos que o nome Sabaoth, Adonai e os outros nomes tratados com tanta reverência entre os hebreus não se aplicam a quaisquer coisas criadas comuns, mas pertencem a uma teologia secreta que se refere ao Formador de todas as coisas. Esses nomes, portanto, quando pronunciados com aquele conjunto de circunstâncias que convém à sua natureza, possuem grande poder; e outros nomes, correntes na língua egípcia, são eficazes contra certos demônios que só podem fazer determinadas coisas; e outros nomes, na língua persa, têm poder correspondente sobre outros espíritos; e assim por diante, em cada nação individualmente, para diferentes propósitos. E assim se verá que, entre os vários demônios sobre a terra, aos quais foram atribuídas diferentes localidades, cada um carrega um nome apropriado aos vários dialetos de lugar e país. Aquele, pois, que tiver uma ideia mais nobre, por menor que seja, destas coisas, terá cuidado de não aplicar nomes diferentes a coisas diferentes, para não se assemelhar aos que aplicam por engano o nome de Deus à matéria sem vida, ou que arrastam o título de o Bem desde a Causa Primeira, ou desde a virtude e a excelência, e o aplicam ao cego Pluto, ou a uma mistura saudável e bem proporcionada de carne, sangue e ossos, ou ao que se considera nobre nascimento.

[31] E talvez haja um perigo tão grande quanto aquele de degradar o nome de Deus, ou do Bem, a objetos impróprios, em mudar o nome de Deus segundo algum sistema secreto e aplicar os nomes que pertencem a seres inferiores aos superiores, e vice-versa. E não me detenho nisto: que, quando o nome Zeus é pronunciado, ao mesmo tempo se ouve o do filho de Cronos e Reia, marido de Hera, irmão de Poseidon, pai de Atena e de Ártemis, e que cometeu incesto com a própria filha Perséfone; ou que Apolo sugere imediatamente o filho de Leto e Zeus, irmão de Ártemis e meio-irmão de Hermes; e assim com todos os demais nomes inventados por esses sábios de Celso, pais dessas opiniões e antigos teólogos dos gregos. Pois com que fundamento se decide que alguém deve, de um lado, ser propriamente chamado Zeus e, de outro, não ter Cronos por pai e Reia por mãe? E o mesmo argumento vale para todos os outros chamados deuses. Mas essa acusação não se aplica de modo algum àqueles que, por alguma razão misteriosa, referem a palavra Sabaoth, ou Adonai, ou qualquer outro desses nomes, ao verdadeiro Deus. E, quando alguém é capaz de filosofar sobre o mistério dos nomes, encontrará muito a dizer a respeito dos títulos dos anjos de Deus, dos quais um é chamado Miguel, outro Gabriel e outro Rafael, apropriadamente segundo as funções que desempenham no mundo, conforme a vontade do Deus de todas as coisas. E filosofia semelhante dos nomes aplica-se também ao nosso Jesus, cujo nome já se mostrou, de modo inequívoco, ter expulsado miríades de espíritos malignos das almas e dos corpos dos homens, tão grande era o poder que exercia sobre aqueles dos quais os espíritos eram expulsos. E, ainda tratando dos nomes, temos de mencionar que aqueles peritos no uso de encantamentos relatam que a pronúncia do mesmo encantamento em sua própria língua pode realizar aquilo a que o feitiço se propõe; mas, quando traduzido para qualquer outra língua, observa-se que ele se torna ineficaz e fraco. E assim não são as coisas significadas, mas as qualidades e peculiaridades das palavras que possuem certo poder para este ou aquele propósito. E com bases como estas defendemos a conduta dos cristãos, quando lutam até a morte para evitar chamar Deus pelo nome de Zeus, ou dar-lhe nome tomado de qualquer outra língua. Pois eles usam ou o nome comum — Deus — de modo indefinido, ou com algum acréscimo como “o Criador de todas as coisas”, “o Criador do céu e da terra”, “aquele que enviou ao gênero humano aqueles homens bons, a cujos nomes, acrescido o de Deus, se realizam certas obras poderosas entre os homens”. Muito mais ainda poderia ser dito sobre este assunto dos nomes, contra aqueles que pensam que deveríamos ser indiferentes no uso deles. E, se a observação de Platão no Filebo nos causa admiração, quando ele diz: “Meu temor, ó Protágoras, a respeito dos nomes dos deuses não é pequeno”, visto que Filebo em sua discussão com Sócrates havia chamado o prazer de deus, quanto mais não aprovaremos a piedade dos cristãos, que não aplicam ao Criador do mundo nenhum dos nomes usados nas mitologias? E basta, por ora, sobre este assunto.

[32] Mas vejamos agora de que maneira esse Celso, que professa saber tudo, traz falsa acusação contra os judeus, ao alegar que eles adoram anjos e se entregam à feitiçaria, na qual Moisés foi seu instrutor. Ora, em que parte dos escritos de Moisés ele encontrou o legislador prescrevendo a adoração de anjos, que o diga, ele que professa saber tudo sobre cristianismo e judaísmo; e mostre também como pode existir feitiçaria entre aqueles que aceitaram a lei mosaica e leem a injunção: “Nem busqueis os magos, para vos contaminardes com eles.” Além disso, ele promete mostrar depois de que modo foi por ignorância que os judeus foram enganados e conduzidos ao erro. Ora, se tivesse descoberto que a ignorância dos judeus a respeito de Cristo era efeito de não terem ouvido as profecias acerca dele, mostraria com verdade de que modo os judeus caíram em erro. Mas, sem querer absolutamente que isso apareça, ele considera como erros judaicos aquilo que não são erros de modo algum. E Celso, tendo prometido tornar-nos conhecidos, numa parte posterior de sua obra, os ensinamentos do judaísmo, passa primeiro a falar do nosso Salvador como tendo sido o líder de nossa geração, na medida em que somos cristãos, e diz que há poucos anos começou a ensinar essa doutrina, sendo considerado pelos cristãos como o Filho de Deus. Ora, com respeito a esse ponto — o seu surgimento há poucos anos — temos de observar o seguinte. Poderia ter ocorrido sem assistência divina que Jesus, desejando nesses anos espalhar suas palavras e ensinamento, tivesse sido tão bem-sucedido que em toda a terra, não poucos, gregos e bárbaros, instruídos e ignorantes, adotaram sua doutrina, a ponto de lutarem até a morte em sua defesa, em vez de negá-la, o que nunca se relata de ninguém em favor de qualquer outro sistema? Eu mesmo, não por desejo de lisonjear o cristianismo, mas por querer examinar os fatos a fundo, diria que mesmo aqueles que se ocupam em curar grande número de enfermos não alcançam seu objetivo — a cura do corpo — sem auxílio divino; e, se alguém conseguisse libertar almas de uma torrente de maldade, excessos, injustiças e desprezo de Deus, e mostrasse como prova do resultado cem pessoas melhoradas em sua natureza, ninguém diria razoavelmente que foi sem auxílio divino que implantou nessas cem pessoas uma doutrina capaz de remover tantos males. E, se alguém, numa consideração sincera dessas coisas, admitir que nenhuma melhora jamais ocorre entre os homens sem ajuda divina, com quanto mais confiança não fará a mesma afirmação acerca de Jesus, quando compara a vida anterior de muitos convertidos à sua doutrina com a conduta posterior deles, e reflete em que atos de licenciosidade, injustiça e avareza antes se entregavam, até que, como alegam Celso e os que pensam com ele, foram enganados e aceitaram uma doutrina que, segundo esses indivíduos afirmam, é destrutiva da vida humana; mas que, desde o momento em que a adotaram, se tornaram de algum modo mais mansos, mais religiosos e mais coerentes, de sorte que certos dentre eles, por desejo de extrema castidade e vontade de adorar a Deus com maior pureza, se abstêm até mesmo dos prazeres permitidos do amor legítimo.

[33] Qualquer um que examine o assunto verá que Jesus tentou e realizou com sucesso obras acima do alcance do poder humano. Pois, embora desde o princípio todas as coisas se opusessem à difusão de sua doutrina no mundo — tanto os príncipes do tempo, quanto seus principais capitães e generais, e todos, de modo geral, que possuíam a menor influência, e além destes os governantes das diversas cidades, os soldados e o povo —, ainda assim ela saiu vencedora, por ser a Palavra de Deus, cuja natureza é tal que não pode ser impedida; e, tornando-se mais poderosa do que todos esses adversários, apoderou-se de toda a Grécia e de considerável parte das terras bárbaras, e reuniu incontáveis multidões de almas para sua religião. E, embora, entre a multidão dos convertidos ao cristianismo, os simples e ignorantes necessariamente superassem em número os mais inteligentes, como a primeira classe sempre supera a segunda, Celso, recusando-se a perceber isso, pensa que esta doutrina filantrópica, que alcança toda alma debaixo do sol, é vulgar e, por causa de sua vulgaridade e de sua suposta carência de força racional, só conseguiu firmar-se entre os ignorantes. E, no entanto, ele mesmo admite que não foram apenas os simples que foram levados pela doutrina de Jesus a adotar sua religião; pois reconhece que havia entre eles algumas pessoas de inteligência moderada, de disposição gentil, possuidoras de entendimento e capazes de compreender alegorias.

[34] E, já que, à imitação de um retórico treinando um aluno, ele introduz um judeu que entra em discussão pessoal com Jesus e fala de maneira muito pueril, totalmente indigna dos cabelos grisalhos de um filósofo, deixe-me esforçar-me, o melhor que puder, por examinar suas afirmações e mostrar que ele não mantém, ao longo de toda a discussão, a coerência devida ao caráter de um judeu. Pois ele o representa disputando com Jesus e refutando-o, segundo pensa, em muitos pontos; e, em primeiro lugar, acusa-o de ter inventado seu nascimento de uma virgem e o censura por haver nascido numa certa aldeia judaica, de uma pobre mulher do campo, que ganhava a subsistência fiando e que foi expulsa de casa por seu marido, carpinteiro de ofício, por ter sido convencida de adultério; afirma ainda que, depois de ter sido expulsa pelo marido e de andar errante por algum tempo, deu à luz Jesus vergonhosamente, como filho ilegítimo, e que este, tendo-se alugado como servo no Egito por causa de sua pobreza e ali adquirido certos poderes miraculosos, dos quais os egípcios muito se vangloriam, voltou para sua própria terra, grandemente exaltado por causa deles, e por meio desses poderes proclamou-se Deus. Ora, já que não posso permitir que qualquer coisa dita por incrédulos permaneça sem exame, mas devo investigar tudo desde o começo, dou como minha opinião que todas essas coisas se harmonizam dignamente com as predições de que Jesus é o Filho de Deus.

[35] Pois o nascimento é auxílio para que um indivíduo se torne famoso, distinto e falado; isto é, quando os pais de um homem se acham numa posição de categoria e influência, possuem riqueza e podem gastá-la na educação do filho, e quando o lugar de seu nascimento é grande e ilustre. Mas, quando um homem, tendo todas essas coisas contra si, é capaz, apesar desses obstáculos, de fazer-se conhecido, de produzir impressão sobre os que ouvem falar dele, de tornar-se distinto e visível a todo o mundo, que fala dele como antes não falava, como não admirar tal natureza, nobre em si mesma, dedicada a grandes feitos e possuidora de coragem nada desprezível? E, se alguém examinasse mais profundamente a história de tal homem, por que não investigaria de que modo, tendo sido criado em frugalidade e pobreza, sem receber educação completa e sem ter estudado sistemas e opiniões pelos quais poderia ter adquirido confiança para associar-se com multidões, agir como demagogo e atrair a si muitos ouvintes, ainda assim se dedicou a ensinar novas opiniões, introduzindo entre os homens uma doutrina que não apenas subverteu os costumes dos judeus, mantendo porém o devido respeito a seus profetas, mas especialmente derrubou as observâncias estabelecidas dos gregos concernentes à Divindade? E como poderia tal pessoa — alguém assim criado e que, como admitem seus caluniadores, não aprendera nada grandioso dos homens — ter sido capaz de ensinar, de modo nada desprezível, doutrinas como as que ensinou acerca do juízo divino, dos castigos que sobrevirão à maldade e das recompensas que serão conferidas à virtude; de sorte que não apenas camponeses e ignorantes foram ganhos por suas palavras, mas também não poucos daqueles distinguidos por sabedoria e capazes de discernir o sentido oculto naquelas doutrinas mais comuns, como eram consideradas, que circulavam e envolviam, por assim dizer, algum significado ainda mais recôndito? O serifiano, em Platão, que repreende Temístocles depois de este se ter tornado célebre por sua habilidade militar, dizendo que sua reputação se devia não a seus próprios méritos, mas à boa fortuna de ter nascido no país mais ilustre da Grécia, recebeu do bondoso ateniense, que percebia que sua terra natal de fato contribuía para sua fama, a seguinte resposta: “Nem eu, se fosse serifiano, teria sido tão distinto quanto sou; nem tu terias sido um Temístocles, ainda que tivesses a boa fortuna de ser ateniense.” E agora nosso Jesus, a quem se reprova haver nascido numa aldeia, e nem sequer grega, nem pertencente a nação muito estimada, e ser desprezado como filho de uma pobre trabalhadora, e por causa de sua pobreza ter deixado sua terra natal e alugado seus serviços no Egito, e ser, para usar o exemplo citado, não apenas um serifiano, por assim dizer, natural de uma pequeníssima e obscura ilha, mas até, por assim dizer, o mais insignificante dos serifianos, ainda assim foi capaz de abalar o mundo inteiro habitado, não apenas em grau muito acima do que Temístocles, o ateniense, jamais o fez, mas além do que Pitágoras, Platão, ou qualquer outro sábio em qualquer parte do mundo, ou qualquer príncipe ou general, jamais conseguiram realizar.

[36] Ora, não ficaria admirado qualquer um que, com cuidado ordinário, investigasse a natureza desses fatos? — admirado com a vitória desse homem, com seu sucesso completo em superar por sua reputação todas as causas que tendiam a desacreditá-lo, e com sua superioridade sobre todos os demais indivíduos ilustres do mundo? E, no entanto, é raro que homens notáveis consigam adquirir reputação por várias coisas ao mesmo tempo. Pois um homem é admirado por sua sabedoria, outro por sua habilidade militar, alguns dos bárbaros por seus maravilhosos poderes de encantamento, uns por uma qualidade, outros por outra; mas não muitos têm sido admirados e alcançado fama por muitas coisas simultaneamente; enquanto esse homem, além de seus outros méritos, é objeto de admiração tanto por sua sabedoria quanto por seus milagres e por seu poder de governo. Pois persuadiu alguns a afastarem-se de suas leis e a passarem para o seu lado, não como faz um tirano, nem como um ladrão que arma seus seguidores contra os homens, nem como um rico que distribui ajuda aos que vêm até ele, nem como um daqueles que confessadamente merecem censura, mas como mestre da doutrina acerca do Deus de todas as coisas, do culto que lhe pertence e de todos os preceitos morais capazes de assegurar o favor do Deus Supremo àquele que ordena sua vida em conformidade com eles. Ora, a Temístocles, ou a qualquer outro homem distinto, nada sobreveio que servisse de obstáculo à sua reputação; ao passo que a este homem, além do que já enumeramos, e que bastaria para cobrir de desonra a alma de um homem de natureza nobilíssima, sobreveio aquela morte aparentemente infame de crucifixão, suficiente para apagar a glória anteriormente adquirida e levar aqueles que, como afirmam os que rejeitam sua doutrina, antes haviam sido enganados por ele, a abandonarem seu engano e a condenarem o seu enganador.

[37] E além disso, bem se pode admirar como aconteceu que os discípulos — se, como dizem os caluniadores de Jesus, não o viram depois de sua ressurreição dentre os mortos e não foram persuadidos de sua divindade — não tiveram medo de suportar os mesmos sofrimentos que seu Mestre, de se expor ao perigo e de deixar sua terra natal para ensinar, conforme o desejo de Jesus, a doutrina por ele entregue a eles. Pois penso que ninguém que examine sinceramente os fatos dirá que esses homens se consagraram a uma vida de perigo por causa da doutrina de Jesus, sem profunda convicção da verdade que Ele havia operado em suas mentes, ensinando-os não apenas a conformar-se a seus preceitos, mas também a ensinar outros, e, ademais, a conformar-se quando manifesta destruição da vida pendia sobre aquele que ousasse introduzir essas novas opiniões em todos os lugares e diante de todos os públicos, e que não poderia reter como amigo nenhum ser humano que aderisse às opiniões e costumes anteriores. Pois os discípulos de Jesus não viram, quando ousaram provar não apenas aos judeus, por suas escrituras proféticas, que este é aquele de quem falaram os profetas, mas também às demais nações gentílicas, que aquele que foi crucificado ontem ou anteontem sofreu essa morte voluntariamente em favor do gênero humano — que isso era análogo ao caso daqueles que morreram por sua pátria para afastar pestilência, esterilidade, tempestades ou outras calamidades? Pois é provável que haja, na própria natureza das coisas, por certas razões misteriosas difíceis de ser entendidas pela multidão, tal virtude que um homem justo, morrendo voluntariamente pelo bem comum, possa ser meio de remover espíritos malignos, que são a causa de pestes, esterilidade, tempestades e males semelhantes. Que aqueles, portanto, que recusam crer na morte de Jesus em favor dos homens, nos digam se em algum tempo já se levantou alguém que, morrendo por um povo, tenha produzido tão grande efeito em tantas almas.

[38] Mas voltemos agora ao ponto em que o judeu é introduzido, falando da mãe de Jesus e dizendo que, estando ela grávida, foi expulsa de casa pelo carpinteiro com quem estava prometida, por ter sido culpada de adultério, e que deu à luz um filho de certo soldado chamado Pantera; e vejamos se aqueles que cegamente forjaram essas fábulas sobre o adultério da virgem com Pantera e sua rejeição pelo carpinteiro não inventaram essas histórias para derrubar sua concepção miraculosa pelo Espírito Santo. Pois poderiam ter falsificado a história de outra maneira, por causa de seu caráter extremamente milagroso, e não ter admitido, por assim dizer contra a própria vontade, que Jesus não nasceu de casamento humano comum. Era de se esperar, de fato, que aqueles que não quisessem crer no nascimento milagroso de Jesus inventassem alguma falsidade. E o fato de não o fazerem de maneira plausível, mas conservarem o ponto de que não foi por José que a virgem concebeu Jesus, tornou a falsidade muito evidente para os que podem compreender e detectar tais invenções. Concorda de algum modo com a razão que aquele que ousou fazer tanto pelo gênero humano, e isso não apenas segundo o julgamento dos cristãos, mas até segundo a confissão dos inimigos, tivesse vindo ao mundo por um nascimento ordinário? Pois, se alguém afirma que uma alma humana, por razões misteriosas, não merece ser colocada no corpo de um ser totalmente irracional, nem num ser puramente racional, mas é revestida de um corpo monstruoso, de tal modo que a razão não pode exercer sua função numa criatura assim formada, cuja cabeça é desproporcional às demais partes e totalmente curta; e que outra recebe um corpo tal que a alma é um pouco mais racional do que a outra; e outra ainda mais, sendo a natureza do corpo mais ou menos contrária à recepção do princípio racional; por que não poderia haver também alguma alma que recebesse um corpo inteiramente milagroso, possuindo algumas qualidades em comum com as de outros homens, de modo a poder passar pela vida junto deles, mas possuindo também alguma qualidade superior, para que a alma pudesse permanecer incontaminada pelo pecado?

[39] Ora, se uma determinada alma, por certas razões misteriosas, não merece ser colocada no corpo de um ser completamente irracional, nem ainda no de um puramente racional, mas é revestida de um corpo monstruoso, de modo que a razão não pode cumprir suas funções numa criatura assim moldada, cuja cabeça é desproporcional às demais partes e inteiramente curta; e outra recebe tal corpo que a alma é um pouco mais racional do que a outra; e outra ainda mais, a natureza do corpo contrariando em grau maior ou menor a recepção do princípio racional; por que não haveria também alguma alma que recebesse um corpo inteiramente miraculoso, possuindo algumas qualidades comuns às dos outros homens, de modo que possa atravessar a vida entre eles, mas possuindo também alguma qualidade superior, de tal maneira que a alma possa permanecer sem mancha de pecado? E, se há alguma verdade na doutrina dos fisionomistas, quer Zópiro, quer Loxo, quer Polemon, ou qualquer outro que escreveu sobre tal assunto e professava saber de modo admirável que todos os corpos são adaptados aos hábitos das almas, então não deveria haver, para aquela alma que haveria de habitar com maravilhosa excelência, um corpo correspondente, superior aos demais, embora não tão diferente que impedisse sua convivência com os homens? Pois, assim como acreditamos que muitas coisas são providencialmente ordenadas segundo as condições das almas, também não seria absurdo crer que o corpo de Jesus foi modelado de modo singular e admirável para uma alma singular e admirável.

[40] Mas era, como também os profetas predisseram, de uma virgem que haveria de nascer, segundo o sinal prometido, aquele que daria seu nome ao fato, mostrando que em seu nascimento Deus estaria com o homem. Ora, parece-me apropriado ao caráter de um judeu ter citado a profecia de Isaías, que diz que Emanuel haveria de nascer de uma virgem. Isto, porém, Celso, que professa saber tudo, não fez, seja por ignorância, seja por indisposição — se a leu e voluntariamente a deixou em silêncio — de fornecer um argumento que pudesse derrotar seu intento. E a predição é a seguinte: “E o Senhor falou outra vez a Acaz, dizendo: Pede para ti um sinal do Senhor teu Deus; pede-o ou embaixo nas profundezas ou em cima nas alturas. Mas Acaz disse: Não pedirei, nem tentarei o Senhor. Então ele disse: Ouvi agora, ó casa de Davi: acaso é pouco para vós cansardes os homens, para também cansardes o meu Deus? Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel”, que, traduzido, é “Deus conosco”. E que foi por malícia deliberada que Celso não citou esta profecia, parece-me claro pelo fato de que, ao tocar em outras passagens relativas ao nascimento de Jesus, passou por esta em silêncio. Pois certamente convinha, se ele quisesse sustentar com alguma seriedade a fala do judeu que introduziu, apresentar e atacar a profecia mais evidente de todas. Porém, ao omiti-la, deixou claro que não ignorava sua força, mas preferiu contorná-la.

[41] Mas, para que não pareça que, por causa de uma palavra hebraica, tentamos persuadir aqueles que não conseguem decidir se devem crer ou não que o profeta falou desse homem como tendo nascido de uma virgem porque em seu nascimento foram pronunciadas as palavras “Deus conosco”, confirmemos nosso ponto pelas próprias palavras. Diz-se que o Senhor falou assim a Acaz: “Pede para ti um sinal do Senhor teu Deus, ou embaixo nas profundezas ou em cima nas alturas”; e depois o sinal é dado: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho.” Que tipo de sinal seria, então, uma jovem que não fosse virgem dar à luz um filho? E qual das duas é mais apropriada como mãe de Emanuel, isto é, “Deus conosco”: uma mulher que teve relação com homem e concebeu segundo o modo comum das mulheres, ou uma que ainda é pura e santa virgem? Certamente só convém à segunda gerar um ser em cujo nascimento se diz: “Deus conosco”. E, se alguém for tão capcioso a ponto de dizer que a ordem “pede para ti um sinal do Senhor teu Deus” foi dirigida a Acaz, perguntaremos em resposta: quem, no tempo de Acaz, deu à luz um filho em cujo nascimento foi usada a expressão “Emanuel”, isto é, “Deus conosco”? E, se ninguém puder ser encontrado, então é manifesto que o que foi dito a Acaz foi dito à casa de Davi, porque está escrito que o Salvador nasceu da casa de Davi segundo a carne; e esse sinal é dito estar “nas profundezas” ou “nas alturas”, porque “aquele que desceu é o mesmo que também subiu muito acima de todos os céus, para encher todas as coisas”. E estes argumentos eu emprego contra um judeu que crê na profecia. Que Celso agora me diga, ou qualquer daqueles que pensam como ele, com que sentido o profeta profere essas declarações acerca do futuro, ou as demais contidas nas profecias. É com alguma previsão do futuro ou não? Se com previsão do futuro, então os profetas foram divinamente inspirados; se sem previsão alguma, que ele explique o significado daquele que fala tão ousadamente do futuro e que é admirado entre os judeus por seus poderes proféticos.

[42] E agora, já que tocamos no assunto dos profetas, o que vamos apresentar será útil não só aos judeus, que creem que eles falaram por inspiração divina, mas também aos gregos mais sinceros. A estes dizemos que necessariamente devemos admitir que os judeus tiveram profetas, se haviam de ser mantidos unidos sob aquele sistema de lei que lhes fora dado, e se haviam de crer, como tinham aprendido, no Criador do mundo, e ficar, no que toca à lei, sem pretextos para apostatar ao politeísmo dos pagãos. E estabelecemos essa necessidade do seguinte modo. Pois as nações, como está escrito na própria lei dos judeus, dão ouvidos a agoureiros e adivinhos; mas a esse povo foi dito: “Quanto a ti, o Senhor teu Deus não te permitiu assim fazer.” E a isso é acrescentada a promessa: “Um profeta, do meio de teus irmãos, o Senhor teu Deus te suscitará.” Já que, portanto, os pagãos empregam modos de adivinhação por meio de oráculos, presságios, aves, ventríloquos, daqueles que professam a arte do sacrifício, ou genealogistas caldeus — práticas todas proibidas aos judeus —, esse povo, se não tivesse meio algum de alcançar conhecimento do futuro, levado pela paixão comum à humanidade de saber o que virá, teria desprezado seus próprios profetas como destituídos de qualquer parcela de divindade; e não teria aceitado profeta algum depois de Moisés, nem preservado seus oráculos por escrito, mas espontaneamente teria recorrido aos costumes divinatórios dos pagãos, ou tentado estabelecer práticas semelhantes entre si. Não há, portanto, absurdo em que seus profetas tenham pronunciado previsões até mesmo acerca de acontecimentos sem importância, para acalmar os que desejam tais coisas, como quando Samuel profetiza a respeito das três jumentas que se haviam perdido, ou quando se faz menção, no terceiro livro dos Reis, da enfermidade que caiu sobre o filho de um rei.

[43] Penso, então, que ficou suficientemente estabelecido não apenas que nosso Salvador haveria de nascer de uma virgem, mas também que havia entre os judeus profetas que pronunciavam não meramente predições gerais sobre o futuro — como, por exemplo, acerca de Cristo e dos reinos do mundo, e dos acontecimentos que sobreviriam a Israel, e das nações que creriam no Salvador, e de muitas outras coisas concernentes a Ele —, mas também profecias relativas a eventos particulares; como, por exemplo, a maneira como seriam encontradas as jumentas perdidas de Quis, ou acerca da doença que acometera o filho do rei de Israel, e quaisquer outras circunstâncias registradas de natureza semelhante. Mas, como resposta adicional aos gregos que não creem no nascimento de Jesus a partir de uma virgem, temos de dizer que o Criador mostrou, pela geração de diversas espécies de animais, que aquilo que fez no caso de um animal poderia, se lhe agradasse, fazer também no de outros, e também no do próprio homem. Pois está averiguado que há um certo animal fêmea que não tem relação com o macho — como dizem os escritores sobre os animais ser o caso dos abutres — e esse animal, sem união sexual, preserva a sucessão da espécie. Que incredulidade há, portanto, em supor que, se Deus desejou enviar um mestre divino ao gênero humano, fez com que Ele nascesse de algum modo diferente do comum nascimento humano? Pois, se alguém não crê nisso, dê ao menos alguma explicação plausível de como aquele que fez tanto e ensinou de modo tão admirável entrou na vida humana.

[44] Além disso, tomando a narrativa contida no evangelho segundo Mateus sobre a descida de nosso Senhor ao Egito, ele se recusa a crer nas circunstâncias milagrosas que a acompanham, isto é, quer no aviso divino dado pelo anjo, quer no fato de que a saída de nosso Senhor da Judeia e sua permanência no Egito tenha sido evento de algum significado; antes inventa algo totalmente diferente, admitindo de algum modo as obras maravilhosas feitas por Jesus, por meio das quais Ele induziu a multidão a segui-lo como o Cristo. E, no entanto, deseja desacreditá-las, como se tivessem sido feitas com ajuda de magia e não por poder divino; pois afirma que Jesus, tendo sido criado como filho ilegítimo, servido por salário no Egito e depois vindo ao conhecimento de certos poderes miraculosos, retornou dali ao seu país e, por meio desses poderes, proclamou-se deus. Ora, não entendo como um mágico se empenharia em ensinar uma doutrina que nos persuade a agir sempre como se Deus fosse julgar cada homem por seus atos; e como teria instruído seus discípulos, que haveria de usar como ministros de sua doutrina, nessa mesma crença. Pois estes impressionaram seus ouvintes depois de terem sido assim ensinados a realizar milagres, ou o fizeram sem auxílio desses milagres? A afirmação, portanto, de que não fizeram milagre algum, mas que, após entregarem sua fé a uma doutrina enganosa, persuadiram multidões sem quaisquer sinais, é ainda mais absurda do que a primeira.

[45] Não penso ser necessário lutar seriamente com um argumento apresentado não com seriedade, mas em espírito de escárnio, como o seguinte: “Se a mãe de Jesus era bela, então o deus, cuja natureza não é amar um corpo corruptível, teve relação com ela porque ela era bela”; ou: “Era improvável que o deus se apaixonasse por ela, porque ela não era rica nem de linhagem real, visto que ninguém, nem mesmo dentre seus vizinhos, a conhecia.” E é com o mesmo espírito zombeteiro que ele acrescenta: “Quando, odiada por seu marido e expulsa de casa, ela não foi salva por poder divino, nem sua história foi acreditada, que ligação têm tais coisas com o reino dos céus?” Em que difere tal linguagem da dos que insultam os outros nas ruas públicas, e cujas palavras são indignas de qualquer atenção séria?

[46] Depois dessas afirmações, ele toma do evangelho de Mateus, e talvez também dos outros evangelhos, o relato da pomba descendo sobre nosso Salvador em seu batismo por João, e deseja lançar descrédito sobre a declaração, alegando que a narrativa é ficção. Tendo, como imaginava, disposto completamente da história do nascimento de nosso Senhor de uma virgem, não procede de modo ordenado ao tratar dos relatos que a seguem; pois a paixão e o ódio não observam ordem alguma, antes homens irados e vingativos caluniam aqueles que odeiam à medida que o impulso lhes sobrevém, impedidos por sua paixão de organizar suas acusações num plano cuidadoso e metódico. Pois, se tivesse observado arranjo apropriado, teria tomado o evangelho e, visando atacá-lo, teria objetado à primeira narrativa, passado então à segunda, e assim às demais. Mas agora, depois do nascimento virginal, esse Celso, que professa conhecer toda a nossa história, ataca o relato da aparição do Espírito Santo em forma de pomba no batismo. Depois disso, procura lançar descrédito sobre a predição de que nosso Senhor viria ao mundo. Em seguida, corre para aquilo que segue imediatamente à narrativa do nascimento de Jesus — o relato da estrela e dos magos que vieram do oriente adorar o menino. E tu verás, à medida que prosseguirmos, quão sem ordem ele conduz suas objeções.

[47] Mas, para que não pareça que passamos intencionalmente por suas acusações por incapacidade de refutá-las, resolvemos responder a cada uma separadamente segundo nossa capacidade, atendendo não à conexão e sequência naturais das próprias coisas, mas ao arranjo dos assuntos conforme aparecem neste livro. Consideremos, portanto, o que ele tem a dizer a fim de impugnar a aparição corporal do Espírito Santo ao nosso Salvador em forma de pomba. E é um judeu quem dirige a Ele, a quem reconhecemos como nosso Senhor Jesus, a seguinte linguagem: “Quando estavas sendo batizado”, diz o judeu, “ao lado de João, dizes que algo com aparência de ave vindo do ar pousou sobre ti.” E então esse mesmo judeu, prosseguindo em seus interrogatórios, pergunta: “Que testemunha digna de crédito contemplou essa aparição? Ou quem ouviu a voz do céu declarando-te Filho de Deus? Que prova há disso, senão tua própria afirmação e a palavra de outro daqueles indivíduos que foram punidos contigo?”

[48] Antes de começarmos nossa resposta, temos de observar que o esforço para mostrar, a respeito de quase qualquer história, por mais verdadeira que seja, que ela realmente ocorreu, e para produzir uma concepção inteligente acerca dela, é uma das tarefas mais difíceis que se podem empreender, e em alguns casos é mesmo impossível. Suponhamos que alguém afirmasse que jamais houve guerra de Troia, principalmente por causa das narrativas impossíveis entretecidas com ela — sobre certo Aquiles ser filho da deusa marinha Tétis e do homem Peleu, ou Sarpédon ser filho de Zeus, ou Ascalafos e Iálmeno filhos de Ares, ou Eneias filho de Afrodite — como provaríamos que tal foi o caso, especialmente sob o peso da ficção ligada, não sei como, à opinião universalmente difundida de que realmente houve guerra em Ílion entre gregos e troianos? E suponhamos também que alguém descrêsse da história de Édipo e Jocasta, e de seus dois filhos Etéocles e Polinices, por causa da esfinge, espécie de animal meio virgem e meio leão, introduzida no relato; ou negasse o acontecimento de Hércules com a Hidra de Lerna, ou qualquer outra coisa semelhante, por causa daquilo que é tido por impossível nessas narrativas. Como provaríamos os fatos aos que, a partir do inacreditável, quisessem rejeitar tudo? A mesma dificuldade está presente nas histórias registradas pelos gregos, ainda que aceitas por muitos deles; e, no entanto, não se conclui por isso que tudo seja falso.

[49] E, se fosse possível demonstrar de modo rigoroso cada detalhe dos fatos históricos, nem por isso os que querem contradizer deixariam de inventar novas dúvidas. Pois até sobre coisas recentes e verificáveis por muitos testemunhos, surgem pessoas que não se deixam convencer. Quanto mais em relação a acontecimentos antigos, transmitidos em narrativas! Não é, portanto, surpreendente que o mesmo aconteça com os relatos concernentes a Jesus. Ainda assim, se alguém examinar não apenas a história isoladamente, mas também a transformação operada em tantos e tão diversos homens por causa da fé nele, verá que a narrativa não é indigna de crédito. Pois o caráter dos que a aceitaram e se reformaram por meio dela, bem como a grandeza da doutrina a ela ligada, servem também como testemunhas em seu favor. E assim, embora não possamos produzir uma demonstração segundo o método daqueles que exigem sempre provas sensíveis e imediatas, apresentamos, contudo, uma prova moral e racional, fundada nos próprios efeitos daquilo que foi anunciado.

[50] Mas o judeu de Celso pergunta quem ouviu a voz do céu, e pensa que, se não houve grande número de testemunhas, a narrativa deve ser rejeitada. Como se, em toda manifestação divina, fosse necessário que multidões estivessem presentes! Ora, até entre os profetas, não raro certas visões e vozes foram concedidas a indivíduos particulares. E, se alguém não crê nem mesmo neles, tampouco crerá aqui. Mas, se admite que Deus falou a Ezequiel, a Isaías, a Daniel e a outros, por que achará incrível que uma voz tenha sido ouvida por João e por aquele sobre quem a manifestação desceu? Além disso, mesmo quando muitas pessoas estavam presentes, nem todas percebiam igualmente o que ocorria; pois os ouvidos do corpo nem sempre captam aquilo que atinge em primeiro lugar a mente. Assim também em outras passagens se relata que uns ouviram, outros julgaram ter sido trovão. Não há, portanto, absurdo em que o testemunho não seja da multidão toda, mas daqueles a quem foi dado compreender o sinal.

[51] Se o judeu, porém, insiste em que não crerá sem testemunha pública e universal, terá de rejeitar com isso grande parte daquilo que ele próprio aceita. Pois quem, dentre a multidão, viu Moisés subir ao monte e entrar na nuvem? Quem contemplou de modo claro a glória sobre o propiciatório? Quem ouviu todas as palavras dirigidas aos profetas? E, todavia, os judeus, com razão, admitem essas coisas, baseando-se na autoridade dos homens santos e nos frutos de suas missões. Também nós admitimos o testemunho acerca de Jesus não por leviandade, mas porque ele é coerente com toda a economia divina manifestada nas escrituras, com a santidade daquele que o recebeu e com os efeitos do seu ensino. Pois não se trata de um fabulador que, após alegar ter visto um sinal, nada deixa além de palavras vãs; trata-se daquele cuja vida, atos, morte e poder subsequente confirmam o testemunho de modo muitíssimo mais forte do que qualquer voz isoladamente considerada.

[52] Também não deve causar admiração que Deus tenha dado testemunho a Jesus em seu batismo, uma vez que este era o início público de seu ministério, em que convinha que fossem assinalados ao menos para alguns o seu caráter e sua missão. Pois, assim como entre os homens se dá um testemunho mais solene quando alguém é introduzido em função importante, assim também, de modo muito mais elevado, houve sinal divino quando aquele que havia de ensinar ao mundo se apresentou. E, se Celso rejeita isso, não o faz por alguma dificuldade inerente ao fato, mas por disposição hostil à pessoa de Jesus. Porque, na verdade, ele não julga com a mesma severidade as narrativas dos gregos sobre manifestações divinas, ainda quando repletas de elementos muito mais incríveis e menos úteis à vida moral. Aqui, porém, onde tudo tende à piedade, ao juízo, à virtude e ao retorno das almas a Deus, ele prefere zombar a investigar.

[53] E talvez alguém pudesse dizer, a partir daquilo que Josefo escreveu, que a destruição de Jerusalém não sobreveio por causa de Jesus, mas, se se deve relacioná-la a algum justo, antes por causa de Tiago, o irmão de Jesus chamado Cristo, pois os judeus o mataram embora fosse homem justíssimo. Contudo, ainda que aceitemos a observação de Josefo, ela não enfraquece o nosso ponto, mas antes o fortalece; porque, se por causa de um justo tão excelente desolação tão grande atingiu Jerusalém, quanto mais por causa daquele de quem Tiago era discípulo e servo, isto é, Jesus Cristo! E, se Josefo, embora não tenha aceitado Jesus como Cristo, não hesitou em atribuir a catástrofe a uma injustiça cometida contra um homem justo, tanto mais nós, que reconhecemos em Jesus o Justo por excelência, podemos ver na ruína da cidade o cumprimento de juízos divinos ligados à rejeição dele.

[54] Embora o judeu, então, não ofereça defesa alguma para si mesmo nos casos de Ezequiel e Isaías, quando comparamos a abertura dos céus a Jesus e a voz ouvida por Ele com casos semelhantes registrados em Ezequiel, Isaías ou qualquer outro dos profetas, ainda assim, na medida de nossa capacidade, sustentaremos nossa posição, mantendo que, assim como é matéria de fé que, em sonho, impressões foram trazidas às mentes de muitos, umas relativas a coisas divinas, outras a acontecimentos futuros desta vida, e isso ora com clareza, ora de forma enigmática — fato manifesto a todos os que aceitam a doutrina da providência —, assim não há absurdo em dizer que a mente que pode receber impressões em sonho possa também ser impressionada em visão desperta, para benefício daquele sobre quem as impressões recaem, ou dos que haverão de ouvir dele o relato. E, assim como no sonho imaginamos ouvir, e os órgãos da audição parecem realmente impressionados, e imaginamos ver com os olhos — embora nem os órgãos corpóreos da visão nem os da audição sejam afetados, mas seja apenas a mente que tem essas sensações —, assim não há absurdo em crer que coisas semelhantes ocorreram aos profetas, quando se registra que testemunharam ocorrências de caráter admirável, como quando ouviram as palavras do Senhor ou contemplaram os céus abertos. Pois aquilo que é visto não precisa necessariamente ser algo corporal visto por olhos corpóreos; pode ser percepção concedida à mente por Deus, ainda que descrita segundo a linguagem comum da visão e da audição.

[55] Depois disso ele põe de lado deliberadamente, não sei por quê, a prova mais forte em confirmação das reivindicações de Jesus, a saber: que sua vinda foi predita pelos profetas judeus — Moisés e os que sucederam, como também os que precederam, aquele legislador — por incapacidade, como penso, de enfrentar o argumento de que nem os judeus nem qualquer outra seita herética recusam crer que Cristo foi objeto de profecia. Mas talvez desconhecesse as profecias relativas a Cristo. Pois ninguém que estivesse familiarizado com as afirmações dos cristãos, de que muitos profetas predisseram a vinda do Salvador, teria atribuído a um judeu sentimentos que conviriam mais a um samaritano ou a um saduceu; nem o judeu do diálogo teria se expressado em linguagem como a seguinte: “Mas meu profeta certa vez declarou em Jerusalém que o Filho de Deus virá como Juiz dos justos e Punidor dos ímpios.” Ora, não foi apenas um dos profetas que predisse a vinda de Cristo. E, embora samaritanos e saduceus, que recebem apenas os livros de Moisés, digam que neles se contêm predições relativas a Cristo, certamente não em Jerusalém — cidade que nem sequer é mencionada no tempo de Moisés — foi pronunciada tal profecia. Seria desejável, de fato, que todos os acusadores do cristianismo fossem tão ignorantes quanto Celso, não apenas dos fatos, mas também das escrituras que pretendem atacar.

[56] Em seguida, como se o único evento predito fosse este — que Ele seria o Juiz dos justos e o Punidor dos ímpios —, e como se nem o lugar de seu nascimento, nem os sofrimentos que haveria de suportar às mãos dos judeus, nem sua ressurreição, nem as maravilhas que haveria de realizar tivessem sido objeto de profecia, ele prossegue: “Por que deverias ser tu, e não inúmeros outros que existiram depois de publicadas as profecias, aquele a quem tais predições se aplicam?” E, desejando, não sei como, sugerir a outros a possibilidade de que eles próprios fossem as pessoas visadas pelos profetas, diz que alguns, levados por entusiasmo, e outros tendo reunido uma multidão de seguidores, proclamam que o Filho de Deus desceu do céu. Ora, não averiguamos que tais ocorrências sejam admitidas como tendo acontecido entre os judeus. Temos, então, de observar, em primeiro lugar, que muitos dos profetas pronunciaram predições de toda sorte a respeito de Cristo; uns por meio de ditos obscuros, outros em alegorias ou de algum outro modo, e alguns também em palavras expressas. E, uma vez que, no que segue, ele diz, na personagem do judeu dirigindo-se aos convertidos de sua própria nação, e repetindo com ênfase maliciosa, que as profecias referentes aos acontecimentos da vida de Jesus poderiam também ajustar-se a outros acontecimentos, mostraremos que isso não é assim, mas que as marcas específicas assinaladas pelos profetas convergem de maneira singular para Jesus.

[57] Ora, a escritura fala assim sobre o lugar do nascimento do Salvador — que o Governante sairia de Belém: “E tu, Belém, casa de Efrata, de modo algum és a menor entre os milhares de Judá; porque de ti sairá para mim aquele que há de governar Israel; e suas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade.” Ora, esta profecia não poderia convir a nenhum daqueles que, como diz o judeu de Celso, eram fanáticos e agitadores de multidão, e que proclamavam ter descido do céu, a menos que se mostrasse claramente que ele nasceu em Belém, ou, como outro poderia dizer, saiu de Belém para tornar-se líder do povo. Quanto ao nascimento de Jesus em Belém, se alguém desejar, depois da profecia de Miqueias e depois da história registrada nos evangelhos pelos discípulos de Jesus, ter prova adicional de outras fontes, saiba que, em conformidade com a narrativa do evangelho acerca de seu nascimento, é mostrada em Belém a caverna onde Ele nasceu e a manjedoura na caverna onde foi envolto em faixas. E essa visão é muito comentada nos lugares ao redor, até mesmo entre os inimigos da fé, dizendo-se que naquela caverna nasceu aquele Jesus que é adorado e reverenciado pelos cristãos. Além disso, sou de opinião que, antes da vinda de Cristo, os principais sacerdotes e escribas do povo judeu sabiam, por causa da profecia, que o Cristo havia de nascer em Belém; e foi por isso que, quando Herodes perguntou-lhes onde o Cristo deveria nascer, responderam sem hesitar: “Em Belém da Judeia.”

[58] A disputa e o preconceito são instrumentos poderosos para levar os homens a desconsiderar até mesmo aquelas coisas abundantemente claras; de modo que aqueles que de algum modo se familiarizaram com certas opiniões, que impregnaram profundamente suas mentes e nelas imprimiram determinado caráter, não as abandonam facilmente. Pois um homem deixará seus hábitos em relação a outras coisas, embora talvez lhe seja difícil arrancar-se deles, com mais facilidade do que entregará suas opiniões. E nem mesmo os primeiros são facilmente postos de lado por aqueles que se acostumaram a eles; assim, nem casas, nem cidades, nem aldeias, nem amizades íntimas são abandonadas de boa vontade quando temos preconceito em seu favor. Esta, portanto, foi uma razão pela qual muitos dos judeus daquele tempo desprezaram o claro testemunho das profecias, dos milagres que Jesus operou e dos sofrimentos que se relata ter Ele padecido. E que a natureza humana é assim afetada ficará manifesto àqueles que observarem que os que uma vez se tornaram preconceituosos em favor das mais desprezíveis e insignificantes tradições de seus antepassados e concidadãos dificilmente as deixam. Por exemplo, ninguém poderia facilmente persuadir um egípcio a desprezar o que aprendeu de seus pais, de modo a não mais considerar este ou aquele animal irracional como deus, ou a não guardar-se de comer, ainda sob pena de morte, do alimento proibido por seus costumes. De modo semelhante, os judeus, presos a certas concepções tradicionais e ofendidos com a aparência humilde de Jesus, resistiram às provas mais claras.

[59] E, se pedíssemos uma segunda profecia, que a nós parecesse ter clara referência a Jesus, citaríamos aquela escrita por Moisés muitíssimos anos antes da vinda de Cristo, quando faz Jacó, ao partir desta vida, pronunciar predições a respeito de cada um de seus filhos e dizer de Judá, juntamente com os demais: “O cetro não se arredará de Judá, nem o legislador dentre seus lombos, até que venha aquele a quem isso está reservado.” Ora, qualquer um que encontre esta profecia, que na realidade é muito mais antiga do que Moisés, a ponto de um não crente poder suspeitar que não foi escrita por ele, admirar-se-á de que Moisés tenha sido capaz de predizer que os príncipes dos judeus, embora haja entre eles doze tribos, nasceriam da tribo de Judá e seriam governantes do povo; razão pela qual também a nação inteira é chamada de judaica, recebendo nome da tribo governante. E, em segundo lugar, aquele que considerar com sinceridade a profecia se admirará de que, depois de declarar que os governantes e chefes do povo procederiam da tribo de Judá, ele determine também o limite de seu governo, dizendo que o cetro não se apartaria de Judá nem o legislador de seus lombos até que viesse aquele para quem essas coisas estavam reservadas, e que “ele é a esperança dos gentios”. Pois veio aquele por quem essas coisas foram reservadas, e desde então cessou o governo nacional dos judeus segundo a antiga ordem.

[60] E, visto que Celso, embora professe conhecer tudo sobre o evangelho, reprova o Salvador por causa de seus sofrimentos, dizendo que Ele não recebeu ajuda do Pai nem foi capaz de ajudar a si mesmo, temos de afirmar que seus sofrimentos foram objeto de profecia, juntamente com a causa deles; porque era para benefício da humanidade que Ele morresse por causa dela e sofresse açoites por sua condenação. Foi também predito que alguns dentre os gentios viriam ao conhecimento dele — entre os quais os profetas não se incluem —; e foi declarado que Ele seria visto sob forma considerada desonrosa entre os homens. As palavras da profecia são estas: “Eis que meu Servo procederá com entendimento, será exaltado e glorificado, e elevado mui alto. Assim como muitos se espantaram de ti, tão desfigurado estava o seu rosto, mais do que o de qualquer homem, e a sua aparência, mais do que a dos filhos dos homens; assim maravilhará muitas nações; os reis fecharão a boca por causa dele; porque aquilo que não lhes fora anunciado verão, e aquilo que não ouviram entenderão. Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Porque foi subindo como renovo perante ele e como raiz de uma terra seca. Não tinha forma nem glória; e nós o vimos, e não havia nele beleza nem formosura; antes era desprezado e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores e experimentado nos sofrimentos.” E o resto da profecia prossegue mostrando de modo admirável a causa de seus padecimentos e os frutos deles para muitos.

[61] Lembro-me agora de que, certa vez, numa disputa travada com alguns judeus tidos por sábios, citei essas profecias; ao que meu oponente judeu respondeu que essas predições se referiam ao povo inteiro, considerado como um só indivíduo e como estando em estado de dispersão e sofrimento, a fim de que muitos prosélitos fossem ganhos por causa da dispersão dos judeus entre numerosas nações pagãs. E assim ele explicava as palavras: “Sua forma não terá aparência entre os homens”; e depois: “Aqueles a quem não foi anunciada mensagem a respeito dele verão”; e a expressão: “Homem sujeito a sofrimento”. Muitos argumentos foram usados naquela ocasião para provar que essas predições a respeito de uma pessoa particular não eram corretamente aplicadas por eles à nação inteira. E eu perguntei a que personagem conviriam as expressões: “Este homem leva os nossos pecados e sofre dores em nosso favor”; e esta: “Mas ele foi ferido por nossos pecados e esmagado por nossas iniquidades”; e a quem pertenciam propriamente as palavras: “Por suas pisaduras fomos sarados”. Pois é manifesto que são aqueles que haviam sido pecadores e haviam sido curados pelos sofrimentos do Salvador — quer pertencessem à nação judaica, quer fossem convertidos dentre os gentios — que usam tal linguagem nos escritos do profeta que previu esses acontecimentos e que, sob a influência do Espírito Santo, aplicou essas palavras a uma pessoa. Mas pareceu que os apertávamos mais fortemente com a expressão: “Por causa das iniquidades do meu povo foi ele levado à morte.” Pois, se o povo, segundo eles, é o sujeito da profecia, como se diz que esse homem foi levado à morte por causa das iniquidades do povo de Deus, a menos que ele seja pessoa diferente desse povo de Deus? E quem é essa pessoa senão Jesus Cristo, por cujas pisaduras são curados os que nele creem, depois de ele ter despojado os principados e potestades que estavam sobre nós e tê-los exposto publicamente em sua cruz? Em outra ocasião poderemos explicar as várias partes da profecia, sem deixar nenhuma sem exame. Mas esses assuntos foram tratados mais longamente, e com razão, penso eu, por causa da linguagem do judeu tal como citada na obra de Celso.

[62] Escapou, porém, à percepção de Celso, do judeu que ele introduziu e de todos os que não creem em Jesus, que as profecias falam de duas vindas de Cristo: a primeira caracterizada pelo sofrimento humano e pela humildade, para que Cristo, estando com os homens, pudesse dar a conhecer o caminho que conduz a Deus e não deixasse a ninguém nesta vida qualquer desculpa para dizer que ignorava o juízo vindouro; e a segunda distinguida apenas por glória e divindade, sem qualquer elemento de enfermidade humana misturado à sua grandeza divina. Citar longamente as profecias seria tedioso; e considero suficiente por enquanto citar parte do Salmo 45, que traz esta inscrição, entre outras: “Salmo para o Amado”, onde Deus é evidentemente interpelado nestas palavras: “A graça se derramou em teus lábios; por isso Deus te abençoou para sempre. Cinge tua espada sobre a coxa, ó Poderoso, na tua beleza e na tua majestade. Avança, prospera e reina, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e tua destra te conduzirá maravilhosamente. Tuas flechas são agudas, ó Poderoso; os povos cairão debaixo de ti no coração dos inimigos do Rei.” Mas observa atentamente o que vem a seguir, onde Ele é chamado Deus: “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de retidão é o cetro do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria acima dos teus companheiros.” E observa que o profeta, falando familiarmente a Deus, cujo trono é para todo o sempre e cujo cetro de retidão é o cetro de seu reino, diz que esse Deus foi ungido por um Deus que era seu Deus, e ungido porque, mais do que seus companheiros, amou a justiça e odiou a iniquidade. E lembro-me de que pressionei bastante o judeu, tido como homem instruído, com essa passagem; e ele, perplexo a respeito dela, deu resposta de acordo com suas opiniões judaizantes, dizendo que as palavras “Teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de retidão é o cetro do teu reino” são ditas do Deus de todas as coisas; e estas, “Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso teu Deus te ungiu”, etc., referem-se ao Messias.

[63] O judeu, além disso, no tratado, dirige-se assim ao Salvador: “Se dizes que todo homem, nascido segundo o decreto da Providência Divina, é filho de Deus, em que aspecto diferes de outro qualquer?” Ao que respondemos que todo homem que, como Paulo se expressa, já não está sob temor como sob um aio, mas escolhe o bem por amor ao próprio bem, é filho de Deus; mas este homem se distingue, amplamente e acima de todos os homens chamados, por causa de suas virtudes, filhos de Deus, visto ser, por assim dizer, uma espécie de fonte e princípio de todos eles. As palavras de Paulo são estas: “Porque não recebestes o espírito de servidão outra vez para temor, mas recebestes o Espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai.” Mas, segundo o judeu de Celso, inúmeros indivíduos convencerão Jesus de falsidade, alegando que as predições faladas dele foram dirigidas a eles próprios. Na verdade, não sabemos se Celso conhecia alguém que, vindo a este mundo e desejando agir como Jesus, tenha se declarado também filho de Deus ou poder de Deus. Contudo, uma vez que examinamos cada passagem em espírito de verdade, mencionaremos que houve entre os judeus, antes do nascimento de Cristo, certo Teudas, que se apresentou como alguém importante, mas depois de sua morte seus seguidores iludidos se dispersaram completamente. E, depois dele, nos dias do recenseamento, quando parece ter nascido Jesus, um Judas, galileu, reuniu ao seu redor muitos do povo judeu, dizendo ser homem sábio e mestre de certas doutrinas novas. E, quando também ele pagou o preço de sua rebelião, sua doutrina foi derrubada, tendo conquistado pouquíssimas pessoas, e essas da condição mais humilde. E, depois dos tempos de Jesus, Dositeu, o samaritano, também quis persuadir os samaritanos de que era o Cristo predito por Moisés; e parece ter atraído alguns às suas opiniões. Mas não é absurdo, ao citar a observação extremamente sábia daquele Gamaliel mencionado no livro de Atos, mostrar como as pessoas acima mencionadas eram estranhas à promessa, não sendo nem filhos de Deus nem poderes de Deus, ao passo que Cristo Jesus era verdadeiramente o Filho de Deus. Ora, Gamaliel, na passagem referida, disse: “Se este conselho ou esta obra é de homens, se desfará” — como também se desfizeram os desígnios daqueles homens depois de sua morte — “mas, se é de Deus, não podereis destruir esta doutrina, para que não aconteça serdes também achados combatendo contra Deus.” Houve também Simão, o mágico samaritano, que quis atrair alguns por suas artes mágicas. E nessa ocasião ele foi bem-sucedido; mas hoje em dia é impossível encontrar, suponho, trinta de seus seguidores em todo o mundo, e provavelmente exagero até esse número. Há pouquíssimos na Palestina; e, no resto do mundo, por onde quis espalhar a glória de seu nome, não encontras menção alguma a ele. E, onde ela é encontrada, é encontrada citada nos Atos dos Apóstolos; de modo que ele deve aos cristãos essa menção de si mesmo, tendo o resultado inequívoco provado que Simão não tinha absolutamente nada de divino.

[64] Depois dessas coisas, esse judeu de Celso, em vez dos magos mencionados no evangelho, diz que são caldeus aqueles que Jesus afirma terem sido levados a ir até ele em seu nascimento e adorá-lo, ainda infante, como Deus, e a tornar isso conhecido a Herodes, o tetrarca; e que este enviou homens para matar todos os meninos nascidos ao mesmo tempo, pensando assegurar assim a morte de Jesus entre os demais; e que foi levado a fazer isso pelo medo de que, se Jesus vivesse até idade suficiente, obtivesse o trono. Vê agora, neste caso, o erro de alguém que não consegue distinguir entre magos e caldeus, nem perceber que o que professam é diverso, e assim falsifica a narrativa evangélica. Não sei, ademais, por que ele passou em silêncio a causa que levou os magos a vir, e por que não afirmou, segundo o relato da escritura, que foi uma estrela vista por eles no oriente. Vejamos agora que resposta temos a dar a essas afirmações. A estrela que foi vista no oriente consideramos ter sido uma estrela nova, diversa de quaisquer dos outros corpos planetários conhecidos, quer dos que estão no firmamento superior, quer dos que estão entre as órbitas inferiores, mas participando da natureza daqueles corpos celestes que aparecem ocasionalmente, como cometas ou meteoros que se assemelham a vigas, ou barbas, ou jarros de vinho, ou qualquer outro daqueles nomes com que os gregos costumam descrever suas variadas aparências. E estabelecemos nossa posição do seguinte modo.

[65] Foi observado que, por ocasião de grandes eventos e de poderosas mudanças nas coisas terrenas, costumam aparecer tais estrelas, indicando ou a remoção de dinastias, ou a irrupção de guerras, ou o surgimento de circunstâncias que causam comoções sobre a terra. Mas lemos no Tratado sobre os Cometas, de Queremom, o estoico, que em certas ocasiões também, quando algo bom estava para acontecer, cometas apareciam; e ele dá exemplos de tais casos. Se, então, no começo de novas dinastias ou por ocasião de outros eventos importantes surge um cometa assim chamado, ou qualquer corpo celeste semelhante, por que seria motivo de admiração que, no nascimento daquele que haveria de introduzir uma nova doutrina ao gênero humano e tornar conhecido seu ensino não apenas aos judeus, mas também aos gregos e, além deles, a muitas nações bárbaras, uma estrela tivesse surgido? Ora, eu diria que, com respeito aos cometas, não circula profecia alguma afirmando que tal ou tal cometa surgiria em conexão com determinado reino ou determinado tempo; mas, com respeito ao aparecimento de uma estrela no nascimento de Jesus, existe uma profecia de Balaão, registrada por Moisés, nestes termos: “Surgirá uma estrela de Jacó, e levantar-se-á um homem de Israel.” E agora, se se julgar necessário examinar a narrativa sobre os magos e o aparecimento da estrela no nascimento de Jesus, isto é o que temos a dizer, em parte em resposta aos gregos e em parte aos judeus.

[66] Aos gregos, então, tenho de dizer que os magos, estando em familiaridade com espíritos malignos e invocando-os para os fins a que seu conhecimento e seus desejos se estendem, produzem apenas resultados que não parecem exceder o poder e a força sobre-humanos dos espíritos malignos e dos encantamentos que os invocam; mas, quando ocorre alguma manifestação maior de divindade, então os poderes dos espíritos malignos são derrubados, incapazes de resistir à luz da divindade. É provável, portanto, que, como no nascimento de Jesus uma multidão do exército celestial, conforme Lucas registra e como eu creio, louvou a Deus dizendo: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra e boa vontade entre os homens”, os espíritos malignos por isso enfraqueceram e perderam seu vigor, sendo manifesta a falsidade de sua magia e quebrado o seu poder; essa derrota sendo causada não apenas pelos anjos terem visitado as regiões terrestres por causa do nascimento de Jesus, mas também pelo poder do próprio Jesus e por sua divindade inata. Os magos, portanto, desejando produzir os resultados costumeiros que antes realizavam por meio de certos encantamentos e feitiços, procuraram saber a razão de seu fracasso, conjecturando que a causa seria algo grandioso; e, contemplando no céu um sinal divino, desejaram aprender o seu significado. Sou, pois, de opinião que, possuindo como possuíam as profecias de Balaão, também registradas por Moisés, visto que Balaão era célebre por tais predições, e encontrando entre elas a profecia acerca da estrela e as palavras “Eu o mostrarei a ele, mas não agora; eu o considero bem-aventurado, embora não esteja próximo”, conjeturaram que o homem cuja aparição fora predita juntamente com a da estrela realmente viera ao mundo; e, tendo previamente determinado que ele era superior em poder a todos os demônios e a todas as aparições e poderes comuns, resolveram prestar-lhe homenagem. Vieram, assim, à Judeia, persuadidos de que algum rei havia nascido; mas, não sabendo sobre que reino ele haveria de reinar, nem o lugar de seu nascimento, trouxeram presentes, que lhe ofereceram como a alguém cuja natureza participava, se assim posso falar, tanto de Deus quanto de homem mortal — ouro, como a um rei; mirra, como a alguém mortal; e incenso, como a um Deus — e trouxeram essas ofertas depois de aprender o lugar de seu nascimento. Mas, como ele era Deus, Salvador do gênero humano, elevado muito acima de todos os anjos que servem aos homens, um anjo recompensou a piedade dos magos por sua adoração a Ele, fazendo-lhes saber que não deviam voltar a Herodes, mas retornar a suas casas por outro caminho.

[67] Que Herodes conspirou contra o Menino, embora o judeu de Celso não creia que isso realmente tenha acontecido, não é motivo de espanto. Pois a maldade, em certo sentido, é cega e desejaria derrotar o destino, como se fosse mais forte do que ele. E, sendo esta a condição de Herodes, ele ao mesmo tempo cria que nascera um rei dos judeus e, ainda assim, alimentava um propósito contraditório a essa crença; não vendo que o Menino certamente ou é rei e chegará ao trono, ou não é para ser rei, e então sua morte não serviria para nada. Desejou, portanto, matá-lo, sua mente agitada por paixões conflitantes por causa de sua maldade, e instigada pelo diabo cego e perverso que desde o princípio tramava contra o Salvador, imaginando que Ele era e viria a ser algum grande personagem. Um anjo, porém, percebendo o curso dos acontecimentos, comunicou a José, ainda que Celso talvez não creia nisso, que devia retirar-se para o Egito com o Menino e sua mãe, enquanto Herodes matava todos os meninos que havia em Belém e nos arredores, na esperança de destruir assim também aquele que nascera rei dos judeus. Pois ele não via o poder vigilante e insonte que está em torno daqueles que merecem ser protegidos e preservados para a salvação dos homens, dos quais Jesus é o primeiro, superior a todos em honra e excelência, e que havia realmente de ser rei, mas não no sentido que Herodes imaginava, e sim naquele em que convinha a Deus conceder um reino — para benefício daqueles que estariam sob seu governo, a quem Ele não havia de conferir bênçãos comuns e insignificantes, mas treinar e sujeitar a leis verdadeiramente vindas de Deus. E Jesus, sabendo bem isso e negando ser rei no sentido esperado pela multidão, mas declarando a superioridade de seu reino, diz: “Se o meu reino fosse deste mundo, meus servos lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é deste mundo.” Ora, se Celso tivesse visto isso, não teria dito: “Mas, se isso foi feito para que tu não reinasses em lugar dele quando chegasses à idade adulta, por que, depois de atingir essa idade, não te tornas rei, em vez de tu, o Filho de Deus, andares por aí em condição tão humilde, escondendo-te por medo e levando vida miserável e errante?” Ora, não é desonroso evitar expor-se aos perigos, mas precaver-se cuidadosamente contra eles, quando isso se faz não por medo da morte, mas por desejo de beneficiar outros, permanecendo em vida até que chegue o tempo oportuno para alguém que assumiu a natureza humana morrer uma morte útil à humanidade. E isso é claro para quem reflete que Jesus morreu em favor dos homens, ponto de que falamos, conforme nossa capacidade, nas páginas precedentes.

[68] E, depois de tais afirmações, mostrando sua ignorância até mesmo do número dos apóstolos, prossegue assim: “Jesus, tendo reunido ao seu redor dez ou onze pessoas de caráter notoriamente infame, os mais perversos entre cobradores de impostos e marinheiros, fugia em companhia deles de um lugar para outro e obtinha seu sustento de maneira vergonhosa e importuna.” Vejamos, o melhor que pudermos, quanta verdade há em tal afirmação. É manifesto para todos nós, que possuímos as narrativas evangélicas, as quais Celso parece nem mesmo ter lido, que Jesus escolheu doze apóstolos, e que destes apenas Mateus era cobrador de impostos; e, ao chamá-los indistintamente de marinheiros, provavelmente se refere a Tiago e João, porque deixaram seu barco e seu pai Zebedeu e seguiram Jesus; pois Pedro e seu irmão André, que usavam rede para ganhar o sustento necessário, devem ser classificados não como marinheiros, mas, como a escritura os descreve, como pescadores. Também Levi, seguidor de Jesus, pode ter sido cobrador de impostos; mas não pertencia ao número dos apóstolos, exceto segundo uma leitura em uma das cópias do evangelho de Marcos. E não averiguamos quais eram os ofícios dos demais discípulos, pelos quais ganhavam a vida antes de se tornarem discípulos de Jesus. Afirmo, portanto, em resposta a tais declarações, que é claro para todos os capazes de realizar exame inteligente e sincero da história dos apóstolos de Jesus, que foi com auxílio de um poder divino que esses homens ensinaram o cristianismo e conseguiram levar outros a abraçar a Palavra de Deus. Pois não foi algum poder de fala, nem alguma organização ordenada de sua mensagem segundo as artes da dialética ou da retórica gregas, que neles foi a causa eficaz da conversão de seus ouvintes. Não; sou de opinião que, se Jesus tivesse escolhido alguns indivíduos sábios segundo a apreciação da multidão e aptos tanto a pensar quanto a falar de modo a agradá-la, e os tivesse usado como ministros de sua doutrina, Ele teria muito justamente sido suspeito de empregar artifícios, como aqueles filósofos que são chefes de certas seitas; e, consequentemente, a promessa concernente à divindade de sua doutrina não se teria manifestado. Pois, se a doutrina e a pregação consistissem na fala persuasiva e no arranjo de palavras, então a fé também, como a dos filósofos do mundo em suas opiniões, seria pela sabedoria dos homens e não pelo poder de Deus. Ora, quem há que, vendo pescadores e cobradores de impostos, que não haviam adquirido sequer os rudimentos do saber — como o evangelho relata a respeito deles, e quanto ao que Celso crê que dizem a verdade, na medida em que registram a própria ignorância —, discursando com ousadia não só entre os judeus acerca da fé em Jesus, mas também pregando-o com sucesso entre outras nações, não perguntaria de onde derivaram tal poder de persuasão, visto que certamente não usavam o método comum seguido pela multidão? E quem não diria que a promessa “Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens” se cumpriu por uma espécie de poder divino na história dos apóstolos? E a isso também Paulo, referindo-se elogiosamente, como já dissemos um pouco acima, diz: “E a minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.” Pois, segundo as predições dos profetas que anunciavam a pregação do evangelho, “o Senhor deu a palavra com grande poder aos que a pregavam”, até “o Rei dos poderes do Amado”, para que se cumprisse a profecia que dizia: “Suas palavras correm velozmente.” E vemos que “a voz dos apóstolos de Jesus saiu por toda a terra, e suas palavras até os confins do mundo”. Por isso, aqueles que ouvem a palavra poderosamente proclamada se enchem de poder, o qual manifestam tanto em suas disposições e suas vidas quanto em lutar até a morte em favor da verdade; ao passo que alguns estão totalmente vazios, embora professem crer em Deus por meio de Jesus, porquanto, não possuindo qualquer poder divino, têm apenas a aparência de terem sido convertidos à Palavra de Deus. E, embora eu já tenha mencionado uma declaração evangélica pronunciada pelo Salvador, citá-la-ei novamente, por ser apropriada à ocasião, pois confirma tanto a manifestação divina da presciência de nosso Salvador quanto à pregação de seu evangelho, quanto o poder de sua palavra, que, sem auxílio de mestres, conquista aqueles que dão assentimento à persuasão acompanhada de poder divino; e as palavras de Jesus em questão são estas: “A seara é grande, mas poucos os ceifeiros; rogai, pois, ao Senhor da seara que mande ceifeiros para a sua seara.”

[69] E, visto que Celso chamou os apóstolos de Jesus de homens de notória infâmia, dizendo que eram cobradores de impostos e marinheiros do pior caráter, temos de observar, quanto a essa acusação, que ele parece, a fim de levantar acusação contra o cristianismo, crer nos relatos evangélicos apenas onde lhe convém, e expressar sua incredulidade em relação a eles onde não quer ser forçado a admitir as manifestações da Divindade registradas nesses mesmos livros; ao passo que aquele que vê o espírito de verdade pelo qual os escritores são movidos deveria, a partir de sua narração de coisas de menor importância, crer também no relato das coisas divinas. Ora, na epístola geral de Barnabé, da qual talvez Celso tenha tomado a afirmação de que os apóstolos eram homens notoriamente perversos, está registrado que Jesus escolheu seus próprios apóstolos como homens mais culpados de pecado do que todos os demais malfeitores. E, no evangelho segundo Lucas, Pedro diz a Jesus: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou homem pecador.” Além disso, Paulo, que ele próprio mais tarde também se tornou apóstolo de Jesus, diz em sua epístola a Timóteo: “Fiel é esta palavra: que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar pecadores, dos quais eu sou o principal.” E não sei como Celso esqueceu ou não pensou em dizer algo sobre Paulo, o fundador, depois de Jesus, das igrejas que estão em Cristo. Viu, provavelmente, que qualquer coisa que dissesse acerca desse apóstolo exigiria explicação, em consistência com o fato de que, depois de ter sido perseguidor da igreja de Deus e amargo adversário dos crentes, chegando até a entregar à morte os discípulos de Jesus, sobreveio-lhe posteriormente mudança tão grande que pregou o evangelho de Jesus desde Jerusalém até o Ilírico, e tinha a ambição de levar as boas novas onde não precisasse edificar sobre fundamento alheio, mas a lugares onde o evangelho de Deus em Cristo não havia sido de modo algum proclamado. Que absurdo há, portanto, em que Jesus, desejando manifestar ao gênero humano o poder que possui para curar almas, tenha escolhido homens notórios e maus e os tenha elevado a tal grau de excelência moral que se tornaram modelo da mais pura virtude para todos os que, por seu intermédio, foram convertidos ao evangelho de Cristo?

[70] Mas, se fôssemos censurar os convertidos por suas vidas anteriores, então teríamos ocasião de acusar também Fedon, mesmo depois de ele haver se tornado filósofo; já que, como a história relata, foi atraído por Sócrates de uma casa de má fama para as ocupações da filosofia. Sim, até a vida licenciosa de Polemon, sucessor de Xenócrates, seria motivo de censura contra a filosofia; quando, mesmo nesses casos, deveríamos considerar como motivo de louvor que a razão, pelo poder persuasivo desses homens, foi capaz de converter da prática de tais vícios aqueles que antes estavam enredados neles. Ora, entre os gregos houve apenas um Fedon, não sei se houve um segundo, e um Polemon, que se voltaram para a filosofia depois de uma vida licenciosa e extremamente perversa; enquanto com Jesus havia não apenas, no tempo de que falamos, os doze discípulos, mas muitos outros em todos os tempos, que, tornando-se um grupo de homens sóbrios, falam nos seguintes termos de suas vidas anteriores: “Pois nós também éramos outrora insensatos, desobedientes, enganados, servindo a várias concupiscências e deleites, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros. Mas, quando apareceu a bondade e o amor de Deus, nosso Salvador, para com os homens, pela lavagem da regeneração e renovação do Espírito Santo, que ele derramou abundantemente sobre nós, tornamo-nos o que somos.” Pois “Deus enviou sua Palavra e os curou, e os livrou de suas destruições”, como ensinou o profeta no livro dos Salmos. E, além do que já foi dito, acrescentaria o seguinte: que Crisipo, em seu tratado Sobre a Cura das Paixões, em seus esforços para conter as paixões da alma humana, sem pretender determinar quais opiniões são as verdadeiras, diz que, segundo os princípios das diferentes seitas, devem ser curados aqueles que foram levados sob o domínio das paixões; e prossegue: “E, se o prazer é um fim, então por ele devem as paixões ser curadas; e, se há três espécies de bens principais, ainda assim, segundo essa doutrina, é do mesmo modo que devem ser libertados de suas paixões os que estão sob seu domínio.” Ao passo que os atacantes do cristianismo não veem em quantas pessoas as paixões foram contidas, a torrente da maldade foi detida e os costumes ferozes foram suavizados por meio do evangelho. De modo que convinha muito àqueles que estão sempre se vangloriando de seu zelo pelo bem público fazer reconhecimento público de gratidão àquela doutrina que, por um novo método, levou os homens a abandonar muitos vícios, e dar ao menos este testemunho dela: que, ainda que não fosse a verdade, em todo caso teria sido produtiva de benefício ao gênero humano.

[71] E, visto que Jesus, ao ensinar seus discípulos a não serem culpados de temeridade, lhes deu o preceito: “Se vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra; e, se vos perseguirem na outra, fugi novamente para uma terceira”, a cujo ensino Ele acrescentou o exemplo de uma vida coerente, agindo de modo a não se expor ao perigo temerária, inoportuna ou infundadamente, Celso aproveita isso para trazer acusação maliciosa e caluniosa — dizendo o judeu que ele introduz a Jesus: “Em companhia de teus discípulos vais e te escondes em diferentes lugares.” Ora, semelhante ao que assim foi convertido em fundamento de calúnia contra Jesus e seus discípulos, dizemos ter sido a conduta registrada de Aristóteles. Este filósofo, vendo que um tribunal estava prestes a ser convocado para julgá-lo, sob a acusação de impiedade por causa de certas de suas teses filosóficas que os atenienses julgavam ímpias, retirou-se de Atenas e fixou sua escola em Cálcis, defendendo seu procedimento diante de seus amigos com estas palavras: “Partamos de Atenas, para não darmos aos atenienses ocasião de incorrer culpa pela segunda vez, como antes no caso de Sócrates, e assim impedi-los de cometer um segundo ato de impiedade contra a filosofia.” Ele ainda diz que Jesus andava com seus discípulos e obtinha o sustento de maneira vergonhosa e importuna. Que ele mostre em que consistia o elemento vergonhoso e importuno em seu modo de sustento. Pois relata-se nos evangelhos que havia certas mulheres que haviam sido curadas de suas enfermidades, entre as quais também Susana, que, com os bens que possuíam, proporcionavam aos discípulos os meios de subsistência. E quem há entre os filósofos que, dedicando-se ao serviço de seus conhecidos, não esteja acostumado a receber deles o que é necessário para suas necessidades? Ou será que somente neles tais atos são próprios e convenientes; mas, quando os discípulos de Jesus fazem o mesmo, Celso os acusa de obter o sustento por importunação vergonhosa?

[72] E, além do que foi dito, este judeu de Celso dirige-se depois a Jesus: “Que necessidade havia, ademais, de que, ainda infante, fosses levado ao Egito? Era para escapar de seres morto? Mas então não era provável que um Deus tivesse medo da morte; e, no entanto, um anjo desceu do céu, ordenando a ti e aos teus que fugísseis, para que não fosses capturado e morto! E não seria o grande Deus, que já enviara dois anjos por tua causa, capaz de guardar-te ali em segurança, sendo tu seu Filho unigênito?” Por essas palavras Celso parece pensar que não havia elemento algum de divindade no corpo e na alma humanos de Jesus, mas que seu corpo não era sequer tal como é descrito nas fábulas de Homero; e, zombando também do sangue de Jesus derramado na cruz, acrescenta que não era “ícor”, tal como corre nas veias dos deuses bem-aventurados. Nós agora, crendo no próprio Jesus, quando diz a respeito de sua divindade: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, e emprega outros termos de sentido semelhante; e quando diz, quanto ao fato de estar revestido de corpo humano: “Mas agora procurais matar-me, a mim, homem que vos disse a verdade”, concluímos que Ele era um ser, por assim dizer, composto. E assim convinha àquele que estava providenciando sua permanência no mundo como ser humano não se expor de modo inoportuno ao perigo de morte. Do mesmo modo, era necessário que fosse levado por seus pais, agindo sob instruções de um anjo do céu, que lhes comunicava a vontade divina, dizendo, na primeira ocasião: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua esposa; porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo”; e, na segunda: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito; e fica lá até que eu te avise, porque Herodes procurará o menino para o matar.” Ora, o que está registrado nessas palavras me parece nada maravilhoso. Pois, em cada uma dessas passagens da escritura, declara-se que foi em sonho que o anjo falou essas palavras; e que, em sonho, certas pessoas possam receber instruções sobre coisas que devam fazer é ocorrência frequente para muitos indivíduos, sendo a impressão produzida na mente quer por um anjo, quer por alguma outra causa. Onde está, então, o absurdo em crer que aquele que uma vez se encarnou também fosse guiado, por direção humana, a esquivar-se dos perigos? Não, na verdade, por impossibilidade de que pudesse ser de outro modo, mas pela conveniência moral de que meios e modos fossem empregados para garantir a segurança de Jesus. E era certamente melhor que o menino Jesus escapasse da armadilha de Herodes e residisse com seus pais no Egito até a morte do conspirador, do que a Providência Divina impedir o livre-arbítrio de Herodes em seu desejo de matar a criança, ou que fosse usado o fabuloso elmo poético de Hades, ou que qualquer coisa semelhante fosse feita em relação a Jesus, ou ainda que os que vieram destruí-lo fossem feridos de cegueira como o povo de Sodoma. Pois o envio de socorro a Ele de maneira muito miraculosa e desnecessariamente pública não teria sido de utilidade alguma para aquele que desejava mostrar que, como homem de quem Deus dava testemunho, possuía dentro daquela forma visível aos olhos dos homens algum elemento mais elevado de divindade — aquele que era propriamente o Filho de Deus, Deus Palavra, poder de Deus e sabedoria de Deus, aquele que é chamado Cristo. Mas não é esta a ocasião adequada para discutir a natureza composta de Jesus encarnado; a investigação de tal assunto é, por assim dizer, uma espécie de questão privada para os crentes.

[73] Depois disso, esse judeu de Celso, como se fosse um grego amante do saber e bem instruído na literatura grega, prossegue: “As velhas fábulas mitológicas, que atribuíam origem divina a Perseu, Anfião, Éaco e Minos, não eram acreditadas por nós. Contudo, para que não parecessem indignas de crédito, representavam os feitos dessas personagens como grandes, maravilhosos e verdadeiramente acima do poder do homem; mas que fizeste tu de nobre ou maravilhoso, seja em obra, seja em palavra? Não nos deste manifestação alguma, embora te desafiassem no templo a exibir algum sinal inequívoco de que eras o Filho de Deus.” Ao que temos de responder: Que os gregos nos mostrem, entre aqueles que enumeraram, algum cujos feitos tenham sido marcados por utilidade e esplendor que se estendam às gerações posteriores, e que tenham sido tão grandes a ponto de produzir fé nas fábulas que os representavam como de origem divina. Mas esses gregos nada podem mostrar acerca daqueles homens de que falam que não seja, em altíssimo grau, inferior ao que Jesus fez; a menos que nos reconduzam às suas fábulas e histórias, querendo que nelas creiamos sem fundamento racional algum, e que desacreditemos os relatos evangélicos mesmo depois da prova mais clara. Pois afirmamos que o mundo habitado inteiro contém prova das obras de Jesus, na existência daquelas igrejas de Deus que, por meio dele, foram fundadas por aqueles que se converteram da prática de incontáveis pecados. E o nome de Jesus ainda hoje pode remover perturbações das mentes dos homens, expulsar demônios, afastar doenças e produzir admirável mansidão de espírito, mudança completa de caráter, humanidade, bondade e doçura naqueles indivíduos que não fingem ser cristãos em busca de sustento ou da satisfação de quaisquer necessidades mortais, mas que aceitaram honestamente a doutrina concernente a Deus, a Cristo e ao juízo vindouro.

[74] Mas, depois disso, Celso, suspeitando que as grandes obras realizadas por Jesus, das quais mencionamos algumas dentre muitas, seriam trazidas à consideração, afeta conceder que possam ser verdadeiras aquelas declarações feitas a respeito de suas curas, de sua ressurreição, ou da alimentação de uma multidão com poucos pães, da qual sobraram muitos fragmentos, ou aquelas outras histórias que Celso pensa que os discípulos registraram como maravilhosas; e acrescenta: “Bem, admitamos que estas coisas realmente foram feitas por ti.” Mas logo em seguida as compara aos truques de ilusionistas, que professam fazer coisas mais maravilhosas, e aos feitos realizados por homens instruídos pelos egípcios, que no meio do mercado, em troca de poucos óbolos, ensinam o conhecimento de suas artes mais veneradas, expulsam demônios dos homens, dissipam doenças, invocam as almas dos heróis, exibem banquetes caros, mesas, pratos e iguarias que não têm existência real, e põem em movimento, como se vivas, coisas que na verdade não são animais vivos, mas apenas têm aparência de vida. E pergunta: “Sendo assim, já que tais pessoas podem realizar tais proezas, concluiremos necessariamente que são ‘filhos de Deus’, ou devemos admitir que são operações de homens maus sob influência de espírito maligno?” Vês que, por essas expressões, ele admite, por assim dizer, a existência da magia. Não sei, contudo, se é o mesmo que escreveu vários livros contra ela. Mas, como isso servia ao seu propósito, compara os milagres narrados de Jesus aos resultados produzidos pela magia. Haveria, de fato, semelhança entre eles se Jesus, como os praticantes de artes mágicas, tivesse realizado suas obras apenas para exibição; mas agora não há sequer um só ilusionista que, por meio de seus procedimentos, convide os espectadores a reformar seus costumes, ou eduque no temor de Deus aqueles que se admiram com o que veem, ou procure persuadi-los a viver como homens que serão justificados por Deus. E os ilusionistas nada disso fazem, porque não têm nem poder, nem vontade, nem desejo algum de ocupar-se com a reforma dos homens, uma vez que suas próprias vidas estão cheias dos pecados mais grosseiros e notórios. Mas como não haveria de manifestar-se como modelo da vida mais virtuosa possível, não só a seus discípulos genuínos, mas também a outros, aquele que, pelos milagres que realizou, induziu os que contemplavam os excelentes resultados a empreender a reforma de seu caráter, a fim de que seus discípulos se dedicassem à obra de instruir os homens na vontade de Deus, e que os outros, depois de serem mais plenamente instruídos por sua palavra e caráter do que por seus milagres acerca de como deveriam conduzir suas vidas, tivessem em toda a sua conduta constante referência ao beneplácito do Deus universal? E, se tal foi a vida de Jesus, como poderia alguém compará-lo com seitas de impostores e não, antes, crer, segundo a promessa, que Ele era Deus, que apareceu em forma humana para fazer bem à nossa raça?

[75] Depois disso, Celso, confundindo a doutrina cristã com as opiniões de alguma seita herética e apresentando-as como acusações aplicáveis a todos os que creem na palavra divina, diz: “Um corpo como o vosso não poderia ter pertencido a Deus.” Ora, em resposta a isso, temos de dizer que Jesus, ao entrar no mundo, assumiu, como nascido de mulher, um corpo humano e um corpo capaz de sofrer morte natural. Por isso, entre outras razões, dizemos também que Ele foi grande lutador, tendo, por causa de seu corpo humano, sido tentado em todos os aspectos como os demais homens, mas não mais como os homens com o pecado por consequência, e sim completamente sem pecado. Pois nos é perfeitamente claro que “Ele não cometeu pecado, nem se achou engano em sua boca”; e, como aquele que não conheceu pecado, Deus o entregou como puro por todos os que haviam pecado. Então Celso diz: “O corpo de deus não teria sido gerado como tu, ó Jesus, foste.” Ele viu, além disso, que, se, como está escrito, realmente havia nascido, seu corpo de algum modo poderia ser ainda mais divino do que o da multidão e, em certo sentido, um corpo de deus. Mas ele não crê nos relatos de sua concepção pelo Espírito Santo e acredita que foi gerado por certo Pantera, que corrompeu a Virgem, porque um corpo de deus não teria sido gerado como o teu foi. Mas já falamos dessas coisas com mais extensão nas páginas precedentes.

[76] Ele afirma, ademais, que o corpo de um deus não é alimentado com tal alimento como era o de Jesus, já que é capaz de provar, pelas narrativas evangélicas, tanto que Ele participou de alimento quanto de alimento de certo tipo. Pois bem, seja assim. Que ele afirme que Jesus comeu a páscoa com seus discípulos, quando não apenas usou as palavras “Desejei muito comer esta páscoa convosco”, mas também de fato a comeu. E que diga também que Ele sentiu sede junto ao poço de Jacó e bebeu da água do poço. Em que esses fatos militam contra o que dissemos a respeito da natureza de seu corpo? Além disso, parece indubitável que, depois de sua ressurreição, Ele comeu um pedaço de peixe; pois, segundo nossa visão, assumiu um corpo verdadeiro, como quem nasceu de mulher. Mas, objeta Celso, o corpo de um deus não usa uma voz como a de Jesus, nem emprega tal método de persuasão. Estas são, de fato, objeções frívolas e inteiramente desprezíveis. Pois nossa resposta será que aquele que entre os gregos é tido por deus, isto é, o Apolo pítico e o Apolo didimeu, usa tal voz por meio de sua sacerdotisa em Delfos e de sua profetisa em Mileto; e, no entanto, nem o pítico nem o didimeu são acusados pelos gregos de não serem deuses, nem qualquer outra divindade grega cujo culto esteja estabelecido em algum lugar. E era certamente muito melhor que um deus empregasse uma voz que, por ser proferida com poder, produzisse uma espécie indescritível de persuasão nas mentes dos ouvintes.

[77] Continuando a derramar injúrias sobre Jesus, como alguém que, por causa de sua impiedade e de suas opiniões perversas, era, por assim dizer, odiado por Deus, ele afirma que essas doutrinas dele eram as de um feiticeiro perverso e odiado por Deus. E, no entanto, se o nome e a coisa forem devidamente examinados, ver-se-á ser impossível que um homem seja odiado por Deus, visto que Deus ama todas as coisas existentes e não odeia nada do que fez, pois nada criou em espírito de ódio. E, se certas expressões nos profetas transmitem tal impressão, devem ser interpretadas de acordo com o princípio geral segundo o qual a escritura usa, com relação a Deus, uma linguagem como se Ele estivesse sujeito a afeições humanas. Mas que resposta precisa ser dada àquele que, enquanto professa trazer afirmações críveis, julga-se obrigado a usar calúnias e difamações contra Jesus, como se Ele fosse um feiticeiro perverso? Tal não é o procedimento de quem busca sustentar sua causa, mas de alguém que está em estado de espírito ignorante e antifilosófico, visto que o curso adequado é expor a questão, investigá-la com sinceridade e, segundo o melhor de sua capacidade, apresentar o que lhe ocorre a respeito dela. Mas, assim como o judeu de Celso, com as observações acima, encerrou suas acusações contra Jesus, assim também nós encerraremos aqui o conteúdo de nosso primeiro livro em resposta a ele. E, se Deus conceder o dom daquela verdade que destrói toda falsidade, de acordo com as palavras da oração “Corta-os em tua verdade”, começaremos, no que segue, a considerar a segunda aparição do judeu, no qual Celso o representa dirigindo-se àqueles que se tornaram convertidos a Jesus.

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