Skip to main content
search
[1] Uma vez que nas nossas buscas sobre realidades tão importantes não nos basta apelar para as concepções comuns e para a evidência do que se vê, mas que, além disso, para demonstrar o que dizemos, tomamos os testemunhos que vêm das Escrituras que temos como divinos, tanto do chamado Antigo Testamento como do que é dito Novo Testamento, tentamos confirmar a nossa fé pela razão, mas ainda não estabelecemos a divindade das Escrituras. Aceitai, pois, nossa exposição sobre algumas poucas coisas, como que num resumo, explicando para isso o que nos leva a considerar as Escrituras como divinas. Mas, antes de utilizar as próprias Escrituras e o que nelas se diz, vamos começar por apresentar o legislador dos hebreus, Moisés, e o autor das doutrinas salvadoras do cristianismo, Jesus Cristo. Houve certamente muitos legisladores entre os gregos e os bárbaros, muitos mestres que pregavam doutrinas prometendo a verdade; mas não sabemos de nenhum legislador que tenha feito nascer nas outras nações o desejo de receber as suas palavras; e, enquanto aqueles que prometiam filosofar a respeito da verdade vinham equipados com provas e demonstrações que pareciam razoáveis, nenhum difundiu essa verdade, em que acreditava, entre nações diferentes, ou mesmo entre um número suficiente de pessoas numa só nação. E, contudo, bem que os legisladores teriam gostado que as leis que lhes pareciam boas tivessem autoridade – se fosse possível – sobre todo o gênero humano; e os mestres gostariam que o que eles têm como verdade se difundisse sobre toda a terra. Mas, como não podem exortar aqueles que são de outros idiomas, ou pertencem a numerosas nações, a cumprir as suas leis, e a receber os seus ensinamentos, nem sequer começaram a fazê-lo, pois, com toda a razão, percebiam que lhes era impossível chegar lá. Porém, em todas as terras, quer sejam gregas, quer bárbaras, há milhares de nossos fiéis, que renunciaram às leis dos seus pais e aos que presumiam ser seus deuses, para observar as leis de Moisés e para seguir as palavras de Cristo, como seus discípulos. E, contudo, aqueles que se entregaram à Lei de Moisés são odiados pelos que adoram imagens, e aqueles que aceitaram a palavra de Jesus Cristo arriscam-se, ainda, por causa desse ódio, a uma sentença de morte.

[2] Se considerarmos como é que, em tão poucos anos, apesar das armadilhas que ameaçam aqueles que professam o cristianismo, apesar mesmo da morte de alguns, e a espoliação de outros, a palavra pôde, sem possuir grande quantidade de mestres, ser pregada em toda a terra, de tal modo que gregos e bárbaros, sábios e ignorantes, se uniram à religião anunciada por Jesus, não podemos duvidar de que esse fato está acima das forças do homem, porque Jesus ensinou com toda a autoridade e a força de persuasão necessárias para que a Palavra se imponha. Assim podemos com todo o direito considerar as suas palavras como predições, por exemplo: “Sereis conduzidos perante os reis e os chefes por causa de mim, para dar testemunho perante eles e diante das nações” (Mt 10,18), e ainda: “Nesse dia muitos me dirão: Senhor, Senhor! Não foi em teu nome que nós comemos, em teu nome que nós bebemos, e em teu nome que expulsamos os demônios? E eu lhes direi: afastai-vos de mim, vós que violais a lei, pois eu nunca vos conheci” (Mt 7,22-23). Se fosse possível que essas coisas tivessem sido ditas em vão, tais palavras não seriam verdadeiras; mas, uma vez que se cumpriu aquilo que ele disse com tanta autoridade, isso mostra que ele é realmente Deus, posto em natureza humana para dar aos homens suas doutrinas salutares.

[3] Que se deve dizer do fato de Cristo ter sido profetizado? Então “não faltarão aqueles que são chamados príncipes vindos de Judá nem os chefes que saíram da sua estirpe até que venha aquele para o qual está reservado” (isto é: o reino) e “chegar a esperança dos povos” (Gn 49,10). Porque a história, e tudo o que se vê hoje, mostra claramente que, desde o tempo de Jesus, não houve mais rei dos judeus que tivesse esse título, porque todas as realidades que eram o orgulho dos judeus, isto é, o que dizia respeito ao templo, ao altar, ao culto que aí se celebrava e às vestes do sumo sacerdote fora destruído. Assim se cumpriu a profecia: “Durante muitos dias, os filhos de Israel ficarão sem rei, nem príncipe, sem vítima, nem altar, nem sacerdócio nem oráculos” (Os 3,4). Utilizamos esse texto contra aqueles que dizem, perturbados pelas palavras que no Gênesis Jacó dirige a Judá, que o etnarca, saído da estirpe de Judá, comandará o povo sem que falem aqueles que vêm do seu sêmen, até a vinda de Cristo, tal como eles o imaginam. Pois, se “durante muitos dias os filhos de Israel ficarão sem rei, nem príncipe, sem vítima, nem altar, nem sacerdócio nem oráculos” – e depois da destruição do templo não houve mais vítimas, nem altar, nem sacerdócio –, é claro que faltou um príncipe vindo de Judá e um chefe saído da sua estirpe. Uma vez que a profecia diz: “Não faltarão aqueles que são chamados príncipes vindos de Judá nem os chefes que saíram da sua estirpe até que venha aquele para o qual está reservado”, é evidente que ele veio, aquele a quem pertence o que lhe está reservado, a esperança das nações. E isso é evidente em decorrência da multidão de nações daqueles que acreditaram por Cristo em Deus.

[4] O Cântico do Deuteronômio mostra profeticamente que a escolha das nações sem inteligência em consequência dos pecados do primeiro povo não foi feita por outro senão por Jesus Cristo. Porque ele diz: “Eles me tornaram ciumento por causa do que não é Deus, eles me irritaram com seus ídolos; e eu farei com que fiquem ciumentos por causa do que nem é uma nação, eu os irritarei com uma nação sem inteligência” (Dt 32,21). Pode-se compreender com muita clareza de que maneira os hebreus que, segundo a Escritura, tornaram Deus ciumento por causa do que não é Deus, irritaramno com seus ídolos, e eles próprios se irritaram até o ciúme por causa do que não é nem uma nação, por causa da nação sem inteligência que Deus escolheu pela vinda de Jesus Cristo e pelos seus discípulos. Vemos assim “como é que fomos chamados: não temos muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres; mas Deus escolheu o que é louco neste mundo para confundir os sábios, e Deus escolheu o que não tem nascimento, é desprezado, que nem existe, para destruir o que existia antes” (1Cor 1,26-27). E que Israel, segundo a carne, a quem o Apóstolo chama carne, não se glorifique diante de Deus.

[5] Que dizer das profecias sobre Cristo contidas nos salmos, no cântico que tem por título: “Para o bem-amado” (Sl 44,1-3), cuja língua é chamada “a pena de um escriba que escreve depressa, cuja beleza se mostra entre os filhos dos homens, e em seus lábios a graça foi derramada”. Um indício dessa graça derramada sobre os lábios é que, passado o curto momento do seu ensinamento – ensinou cerca de um ano e alguns meses –, toda a terra ficou cheia da sua doutrina e da religião que ele introduziu. Pois “nesses dias se levantaram a justiça e abundância de paz” (Sl 71,7) subsistindo até a consumação que é chamada de destruição da lua, e subsiste, dominando “de um mar a outro mar e dos rios até os confins da terra” (Sl 71,8). Foi dado um sinal à casa de Davi porque “a virgem concebeu e deu à luz um filho que se chama Emanuel, quer dizer, Deus-conosco” (Is 7,14). Cumpriu-se o que diz o mesmo profeta: “Deus-conosco: sabei, nações, e sede vencidas, sede vencidos vós, os poderosos” (Is 8,8). Nós ficamos por baixo e fomos vencidos, nós que vimos das nações, tomados pela graça da sua palavra. Mas o local do seu nascimento está predito em Miqueias: “E tu, Belém, terra de Judá, tu não és de modo nenhum a menor entre as chefias de Judá, pois de ti sairá o chefe que comandará o meu povo de Israel” (Mq 5,2). E, conforme Daniel, as setenta semanas se cumpriram (Dn 9,24) até Jesus Cristo ser o chefe. Ele veio também segundo Jó, aquele que dominou o monstro das águas (Jó 3,8). E que deu a seus autênticos discípulos o poder de pisar serpentes e escorpiões com os pés e também todo o poder do inimigo, sem dele receber nenhum mal (Lc 10,19). Que se pense sobre a vinda dos apóstolos a todos os lugares, daqueles que foram enviados por Jesus para anunciar o Evangelho, e se verá que a audácia deles era sobre-humana e que era Deus que os dirigia. E quando examinamos como os homens que escutavam esse novo ensino e essas palavras estrangeiras se chegaram a eles, vencidos, quando queriam, era lhes preparar ciladas, pois um poder divino os protegia, não ficamos incrédulos a respeito dos prodígios que eles fizeram, pois Deus trazia às palavras deles seu testemunho por meio de sinais, prodígios e diversos poderes.

[6] Ao mostrar sucintamente o que é da divindade de Jesus, servindo-nos das palavras proféticas que se referem a ele, mostramos também que as Escrituras que profetizaram a seu respeito estavam inspiradas por Deus, bem como os escritos que anunciaram a sua vinda, que relataram um ensino dado com poder e autoridade, e que por isso dominou aqueles que foram escolhidos entre as nações. É preciso dizer que a inspiração divina das palavras proféticas e a natureza espiritual da Lei de Moisés resplandeceram com a vinda de Jesus. Antes da vinda de Cristo, a inspiração divina das antigas Escrituras não era fácil de demonstrar com evidência; mas a vinda de Jesus levou aqueles que podiam supor que a Lei e os profetas não eram divinos a constatar com evidência que eles tinham sido escritos com o auxílio de uma graça celeste. Quem estudar com cuidado e atenção as palavras proféticas sentirá, quando as ler, um traço de entusiasmo, e esse sentimento persuadi-lo-á de que não são escritos de homens aquilo que acreditamos serem as palavras de Deus. E a luz que se contém na Lei de Moisés, antes escondida debaixo de um véu, brilhou com a vinda de Jesus, que afastou o véu e deu a conhecer pouco a pouco os bens cuja sombra a Lei possuía.

[7] Seria excessivo passar agora em revista as profecias muito antigas concernentes a cada uma das realidades futuras, a fim de que aquele que duvida, impressionado pela inspiração divina delas, afaste toda hesitação e falta de atenção e se entregue com toda a alma às palavras de Deus. Mas se, para aqueles que não são instruídos, o caráter sobre-humano dos pensamentos não aparece na letra de cada passagem, não há aí nada com que se admirar: com efeito, no que se refere às obras da Providência que se estende a todo o universo, algumas aparecem claramente enquanto obras da Providência, mas outras estão escondidas, para tornar possível a descrença a respeito de Deus que governa todas as coisas com arte e poder indizíveis. A maneira como o Deus providente opera quando se trata das realidades terrenas não é tão clara como quando se trata do sol, da lua ou das estrelas; mas também não é tão clara no que se refere aos acontecimentos humanos como é quanto às almas e aos corpos dos animais, porque nestes o motivo e a finalidade podem ser perfeitamente encontrados por aqueles que se interessam pelos instintos, as imaginações e as naturezas dos animais e pela constituição dos corpos. Mas a Providência não se enfraquece por causa das nossas ignorâncias, pelo menos aos olhos daqueles que a aceitaram de uma vez por todas; assim é com a divindade da Escritura, que se estende a toda ela, se bem que a nossa fraqueza não seja capaz de ressaltar em cada uma das suas expressões o esplendor escondido das doutrinas que está conservado numa redação vulgar e pouco atraente: “Com efeito, temos esse tesouro em vasos de barro a fim de que resplandeça como é extraordinário o poder de Deus” (2Cor 4,7) e que não se pense que vem de nós, os homens. Na verdade, se fosse pelos métodos de demonstração que são habituais entre os homens, e que estão consignados, que a Escritura tivesse convencido a humanidade, com razão se suporia que a nossa fé teria por origem a sabedoria dos homens, e não o poder de Deus; mas agora, desde que se levante a vista, é claro que a palavra e a pregação têm poder sobre a multidão, não pela persuasão das expressões sábias, mas pela manifestação do espírito e do poder. É por isso que, agora que um poder celeste, ou melhor, supraceleste, nos atingiu, incitando-nos a adorar somente o nosso Criador, esforcemo-nos por deixar o conhecimento inicial de Cristo, quer dizer, seus rudimentos, para sermos levados à perfeição, a fim de que a sabedoria da qual se fala entre os perfeitos, se fale também entre nós. Com efeito, a sabedoria, que aquele que a adquiriu promete falar entre os perfeitos, é diferente da sabedoria deste século, e da sabedoria dos príncipes deste mundo, que será destruída. Essa sabedoria será impressa em nós claramente “conforme a revelação do mistério que ficou escondido durante séculos sem fim, que agora foi desvelado pelas Escrituras proféticas e pela manifestação de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (Rm 16,25-27; 2Tm 1,10), a quem se dê glória por todos os séculos. Amém. 2. Entendimento literal das Escrituras

[8] Depois de ter falado rapidamente acerca das Escrituras divinas inspiradas por Deus, é preciso discorrer sobre o modo de as ler e as compreender, pois numerosos enganos se cometem porque há muitos que não encontraram o caminho pelo qual se devem ler as divinas Escrituras. Os da circuncisão, por causa da dureza de coração e da pouca inteligência, não acreditaram em nosso Salvador, porque seguem à letra as profecias que se referem a ele, e porque não o veem de maneira sensível pregar a remissão aos prisioneiros, nem construir aquela que eles verdadeiramente acreditam ser a cidade de Deus; nem destruir os carros de Efraim nem os cavalos de Jerusalém, nem comer manteiga e mel, e, antes de conhecer e escolher o mal, escolher o bem. Pensaram também que, conforme a profecia, um lobo, animal quadrúpede, iria pastar com o cordeiro, e uma pantera descansaria ao lado do cabrito; que um bezerro, um touro e um leão deviam pastar juntos e ser conduzidos por um menino; que um boi e um urso deviam pastar juntos e suas crias serem criadas umas com as outras, que um leão comeria palha como um boi; e não tendo eles visto nada disso se realizar materialmente, quando veio aquele Cristo no qual nós acreditamos, não aceitaram Nosso Senhor Jesus, mas crucificaram-no por ele indevidamente afirmar que era o Cristo. Quanto aos hereges, eles leem: “Um fogo se acendeu com a minha cólera” (Jr 15,14), e: “Eu sou um Deus ciumento, que castiga os pecados dos pais sobre os filhos até a terceira e à quarta geração” (Ex 20,5); “Arrependi-me de ter ungido Saul como rei” (1Sam 15,11); “ou um Deus que estabelece a paz e produz o que é mau” (Is 45,7), e: “Na cidade não há mal que não tenha sido produzido pelo Senhor” (Am 3,6), e ainda: “O mal desceu de junto do Senhor sobre as portas de Jerusalém” (Mq 1,12); “Um espírito mau vindo de Deus atormentava Saul” (1Sm 18,10); e muitas outras coisas como essas; contudo, não se atreveram a não acreditar que as Escrituras eram de um Deus; mas acreditaram que elas eram do demiurgo adorado pelos judeus, e pensaram que, já que esse demiurgo era imperfeito e não bom, o Salvador tinha vindo anunciar um Deus mais perfeito, que eles dizem que não é o demiurgo e têm a respeito dele outra opinião. Uma vez que eles se afastaram do demiurgo, que é o único Deus não gerado, entregaram-se a invenções, fabricando eles mesmos suposições míticas sobre a criação das realidades visíveis e sobre a de outras não visíveis, que a alma deles representou em imagens. Certamente, os mais simples entre aqueles que se orgulham de pertencer à Igreja não aceitaram outro Deus maior que o Criador, e nisso procedem com mente sã; contudo, aceitam a respeito dele o que não suporiam do mais cruel e do mais injusto dos homens.

[9] Para todos estes de quem acabamos de falar, a causa dessas falsas opiniões, dessas impiedades e dessas palavras insensatas a respeito de Deus não parece que seja outra senão o fato de interpretarem a Escritura apenas à letra, e não no seu sentido espiritual. Há ainda aqueles que estão convencidos de que os santos livros não são escritos de homens, mas que foram redigidos pela inspiração do Espírito Santo segundo a vontade do Pai do universo por meio de Jesus Cristo, e que assim chegaram até nós; para estes, que conservam as normas da Igreja celeste de Jesus Cristo transmitidas pela sucessão dos apóstolos, é preciso, pois, mostrar o que nos parece ser o método adequado para entendê-los. Mesmo os mais simples entre os que são da Palavra acreditam que se mostram nas divinas Escrituras alguns planos espirituais, ou economias místicas; mas até os sábios modestamente confessam que não sabem o que elas são. Se alguém ficar perplexo por causa do incesto de Lot, ou por causa das duas esposas de Abraão, e das duas irmãs casadas com Jacó, e das duas criadas que tiveram filhos dele, dirá somente que há aí mistérios que não compreendemos. E quando leem como é que o tabernáculo foi construído, convencidos de que o que está escrito é símbolo, procuram a quem poderá aplicar-se cada um dos detalhes indicados a propósito do tabernáculo; eles não se enganam quando estão persuadidos de que o tabernáculo é símbolo de alguma coisa, mas, por vezes, se perdem quando querem aplicar de modo digno a palavra da Escritura a tal realidade da qual o tabernáculo é símbolo. E todo relato que se crê referente a núpcias, nascimentos, guerras, ou seja o que for que o povo entende como estórias, afirma que são símbolos. Mas não chega a esclarecer completamente o sentido de cada coisa quanto a saber de que são símbolos, quer devido à sua pouco exercitada capacidade, quer pela temeridade, às vezes mesmo apesar do exercício e da reflexão, por causa da desmedida dificuldade que os homens têm para perceber as realidades.

[10] Que dizer então das profecias que nós sabemos que estão cheias de enigmas e de palavras obscuras? Chegando aos Evangelhos, onde está o pensamento de Cristo, para compreender seu pensamento exato, é preciso a graça que foi concedida àquele que diz: “Nós temos o pensamento de Cristo para que saibamos o que Deus nos concedeu: aquilo que dizemos não o dizemos com palavras aprendidas pela sabedoria humana, mas com palavras aprendidas no Espírito” (1Cor 2,16 e 12-13). Quanto ao que foi revelado a João, qual o leitor que não se admirará de constatar que aí estão escondidos mistérios inefáveis, que até mesmo aquele que não compreende o que está escrito sabe que lá estão? Os textos das epístolas dos apóstolos pareceriam claros e fáceis de compreender, àqueles que os sabem examinar, quando neles há também tantas passagens que dão azo a entrever, como que através de uma fresta, pensamentos tão sublimes e tão numerosos? Sendo esse o estado da questão, e muitas pessoas enganando-se, é por isso que, quando se lê a Escritura, é perigoso afirmar com firmeza que se compreende, pois isso exige a posse da chave do conhecimento, que, segundo diz o Senhor, está com os doutores da Lei. Esses que não querem aceitar que, antes da vinda de Cristo, a verdade se encontrava com os doutores da Lei que nos digam como é que Nosso Senhor Jesus Cristo nos declara que a chave do conhecimento está com eles, quando, segundo os que nos contradizem, eles não têm os livros que contêm os mistérios secretos e perfeitos do conhecimento. Com efeito, o texto é este: “Ai de vós, doutores da Lei, porque ficastes com a chave do conhecimento – vós não entrastes nele e impedistes os outros de entrarem!” (Lc 11,52).

[11] O método que se nos mostra impor-se no estudo das Escrituras e da compreensão do seu sentido é este, que já está indicado nas próprias Escrituras. Nos Provérbios de Salomão, encontramos esta diretriz concernente às doutrinas das divinas Escrituras: “E tu inscreve estas coisas três vezes na consciência e no conhecimento, para que possas responder com palavras verdadeiras às perguntas que te fizerem” (Pr 22,20-21). É preciso, portanto, inscrever três vezes na própria alma os pensamentos das Escrituras santas: quem é mais simples a fim de que seja edificado pelo que é como que a carne da Escritura – assim chamamos o sentido imediato; o que ascendeu um pouco que o seja pelo que é como que a alma; mas o perfeito, o seja pela lei espiritual, que contém uma sombra dos bens que hão de vir, semelhante àquele do qual diz o Apóstolo: “Falamos da sabedoria entre os perfeitos, não daquela sabedoria deste mundo nem dos príncipes deste século que são destruídos, mas falamos da sabedoria de Deus escondida no mistério, que Deus predestinou antes de todos os séculos para a nossa glória” (1Cor 2,6-7). Assim como o homem é composto de corpo, de alma e de espírito, assim é a Escritura que, na sua providência, Deus deu para a salvação dos homens. Também tomamos essa explicação de uma passagem do livro que alguns menosprezam, o Pastor: Hermas recebe a ordem de escrever dois livros, e depois anunciar aos presbíteros da Igreja o que ele aprendeu do Espírito. A leitura é a seguinte: “Escreverás dois livros e os darás a Clemente e a Grapté. Grapté advertirá as viúvas e os órfãos, e Clemente o enviará às cidades de fora, enquanto tu o anunciarás aos presbíteros da Igreja” ( Pastor, Visão II, 4, 3). Grapté, aquela que adverte as viúvas e os órfãos, é a letra simples que adverte pela alma as crianças que não têm a Deus como Pai, e por isso são chamadas órfãos; e adverte também as que se separaram do esposo injusto e ilegítimo, mas são ainda viúvas porque elas ainda não se tornaram dignas do esposo celeste. De Clemente, aquele que já passou além da letra, se diz que enviou o escrito às cidades de fora, isto é, às almas que estão fora das realidades corporais e dos pensamentos desse mundo. Já não é com escritos, mas com palavras vivas que o discípulo do Espírito recebe a ordem de anunciar aos presbíteros de toda a Igreja de Deus, confiáveis pela sua prudência.

[12] Mas como algumas Escrituras não têm nenhum tipo de sentido corporal, como a seguir vamos demonstrar, há casos em que só se pode procurar a alma e – por assim dizer – o espírito da Escritura. É talvez por isso que as ânforas de água que se diz servirem à purificação dos judeus, como se lê no Evangelho segundo João, contêm dois ou três alqueires: a Palavra insinua, desse modo, a propósito daqueles que o Apóstolo chama os judeus secretos, que estes são purificados pela palavra das Escrituras, contendo umas vezes dois alqueires, isto é, o sentido psíquico e o espiritual, outras vezes, três, porque alguns possuem, além desses que indicamos, o sentido corporal que pode edificar. As seis ânforas aplicam-se justamente àqueles que são purificados estando neste mundo, porque o mundo foi feito em seis dias, número perfeito.

[13] O grande número daqueles que creem sinceramente e da maneira mais simples é testemunho de que é possível tirar proveito desse primeiro significado, que para isso tem vantagem. Como exemplo de uma interpretação relacionada à alma, pode-se citar a passagem de Paulo na primeira Carta aos Coríntios: “Está escrito: não porás focinheira no boi que debulha o grão” (1Cor 9,9; Dt 25,4). A seguir, para explicar essa norma, ele acrescenta: “Deus preocupa-se com os bois? Ou será que ele diz isso só para nós? Para nós é que foi escrito, porque aquele que lavra deve lavrar na esperança, e aquele que debulha o grão tem esperança de obter a sua parte” (1Cor 9,10). Outras interpretações correntes, que são adaptadas à multidão e que edificam aqueles que não podem compreender explicações mais elevadas, têm aproximadamente a mesma característica. A interpretação espiritual é para aquele que pode mostrar quais são as realidades celestes das quais se encontram os símbolos e as sombras no culto dos judeus segundo a carne e quais são os bens que hão de vir e dos quais a Lei possui a sombra (Hb 8,5; Rm 8,5; Hb 10,1). Em resumo: em todas as coisas, conforme o mandamento apostólico, é preciso procurar “a sabedoria escondida no mistério, aquela que Deus predestinou antes de todos os séculos para a glória dos justos, aquela que nenhum dos dirigentes deste mundo conheceu” (1Cor 2,7). Em alguma parte diz o Apóstolo, servindo-se de palavras do Êxodo e dos Números, que “isso lhes aconteceu como em figuras, mas foi escrito para nós, para quem sobreveio no fim dos séculos” (1Cor 10,11). E ele indica como compreender do que esses acontecimentos eram figuras, quando diz: “Bebiam do rochedo espiritual que os acompanhava, e esse rochedo era Cristo” (1Cor 10,4). E, para esboçar o que diz respeito ao tabernáculo, numa outra carta ele utilizou a frase: “ Farás tudo segundo o modelo que te foi mostrado na montanha” (Hb 8,5). Certamente na Carta aos Gálatas, como que para repreender aqueles que supõem ler a Lei e não a compreendem, julgando que eles não a compreendem porque creem que nesses escritos não há alegorias, lhes diz: “Dizei-me, vós que quereis estar sob a Lei, não entendeis a Lei? Está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava, outro da mulher livre. Mas o da escrava nasceu segundo a carne, o da livre, segundo a promessa: são alegorias. De fato, são os dois Testamentos etc.” (Gl 4,21-22). É preciso prestar atenção a cada uma das suas palavras, pois ele diz: “Vós que quereis estar sob a Lei” e não “os que estais sob a Lei”; e “Não escutais a Lei?”. Ele entende que escutar quer dizer compreender e conhecer. E na Carta aos Colossenses, ele resume a intenção de toda a legislação, quando diz: “Que ninguém vos julgue acerca da comida ou da bebida, acerca das festas, ou sábados, ou da lua nova, pois eles são as sombras das realidades futuras” (Cl 2,16). Escrevendo também aos hebreus e tratando dos da circuncisão, escreve: “Aqueles que adoram realidades celestes segundo a figura e a sombra” (Hb 8,5). Os que uma vez aceitaram o Apóstolo como homem de Deus provavelmente também não duvidavam dos cinco livros que são atribuídos a Moisés; mas, no que se refere aos demais acontecimentos, querem saber se também eles aconteceram em figuras. Repare-se nesta passagem da Carta aos Romanos: “Eu reservei para mim sete mil homens que não dobraram o joelho diante de Baal” (Rm 11,4). Que se encontra no Terceiro Livro dos Reis (19,18). Paulo o entendeu dos israelitas segundo a escolha divina, pois nem só os gentios, mas também alguns do povo de Deus tiraram proveito da vinda de Cristo.

[14] Sendo essa a questão, precisamos esboçar o que pensamos das características dessa compreensão das Escrituras. Em decorrência da providência divina, há um Espírito que ilumina os dispensadores da verdade – profetas e apóstolos – por meio da Palavra que desde o princípio está junto de Deus. Precisamos antes de mais demonstrar que o seu propósito visa principalmente aos mistérios inefáveis que se referem aos assuntos que dizem respeito aos homens; por homens, entendo aqui as almas que usam corpos. Assim, aquele que pode ser ensinado, tendo examinado os textos e se dedicado a buscar o seu sentido profundo, repassa a todas as doutrinas o que esse sentido exprime. Para conhecer os mistérios que dizem respeito às almas – que não podem obter de outro modo a perfeição sem participar em toda a riqueza e sabedoria da verdade sobre Deus –, os mistérios concernentes a Deus estão necessariamente em primeiro lugar, como os mais importantes, como também os que se referem ao seu Filho Único: qual é a sua natureza, de que modo é que ele é Filho de Deus, quais são as causas da sua descida até a carne humana e de se ter assumido totalmente como homem, qual é a sua atividade, sobre quem e quando ela se exerce? Seria preciso ainda receber o que diz o ensinamento divino acerca das criaturas racionais, as aparentadas conosco, e as outras, as mais divinas, e aquelas que caíram da beatitude, e tratar das causas da sua queda; saber também o que diz a respeito às diferenças das almas, a origem dessas diferenças, a natureza do mundo e a causa da sua existência; e, ainda, é necessário aprender de onde vêm tantos e tão grandes males sobre a terra, e não somente à terra, mas em outros lugares.

[15] Essas e outras eram as intenções do Espírito, que ilumina as almas dos santos que distribuem a verdade. Para aqueles que não têm condições de alcançar e descobrir todos esses mistérios, havia um segundo objetivo, que é o de ocultar a doutrina referente ao que acabamos de dizer em textos cujas narrativas expõem a criação dos seres sensíveis, a do homem e a dos numerosos homens que foram sucessivamente gerados a partir dos primeiros até serem multidão; e em outras histórias que contam as ações dos justos e os pecados que eles, que são homens, cometeram, e ainda as impudicícias, os excessos e a prepotência dos iníquos e dos ímpios. O que é de admirar é que, mediante histórias de guerras, de vencedores e de vencidos, coisas inefáveis são esclarecidas àqueles que sabem investigar. E o que é ainda mais admirável é que, por meio das prescrições que contém a Escritura, as leis da verdade são reveladas, e tudo está escrito numa ordem coerente, com um poder que verdadeiramente é adequado à sabedoria de Deus. A finalidade era, na maior parte dos casos, apresentar o revestimento dos sentidos espirituais, quer dizer: o sentido corporal das Escrituras, que não é inútil, pois é capaz de melhorar a maior parte dos homens, na medida das suas capacidades.

[16] Mas se a própria utilidade dessas prescrições aparecesse claramente em todas as passagens, assim como a ordem e arte do relato histórico, nós não acreditaríamos que se pudesse compreender nas Escrituras outra coisa que não fosse o sentido imediato. Foi por isso que a Palavra de Deus fez de modo a inserir no meio da Lei e do relato como que pedras e obstáculos, passagens chocantes e impossibilidades, para que não acontecesse que, arrastados completamente pelo encanto sem defeito do texto, ou não nos afastássemos finalmente das doutrinas como se nelas não aprendêssemos nada digno de Deus, ou, não encontrando nenhum estímulo na letra, não aprendêssemos nada de mais divino. Devemos também saber que, uma vez que a finalidade principal é apresentar a coerência das realidades espirituais por meio dos acontecimentos que se produziram e das ações que devem ser feitas, onde a Palavra encontra que os fatos históricos poderiam se harmonizar com as realidades místicas, ela se serviu deles para esconder a quase todos o sentido mais profundo. Onde, pela exposição da lógica das realidades inteligíveis, a ação de tal ou qual, antes descrita, não concordava com ela por causa dos significados mais místicos, a Escritura teceu no relato aquilo que não se passou, ou porque isso não poderia ter se passado, ou porque isso poderia ter acontecido, mas não aconteceu. Por vezes, há poucas frases que são desse modo acrescentadas, mesmo que elas não sejam verdadeiras no sentido corporal, e outras vezes as há demasiadas. É preciso tratar de modo semelhante a legislação: muitas vezes encontramos nela preceitos que por eles mesmos são úteis e adaptados de maneira oportuna à legislação, mas, às vezes, essa utilidade não aparece. E outras vezes, são até coisas impossíveis que são prescritas, por causa daqueles que são mais diligentes e gostam mais da pesquisa, para que eles se entreguem ao estudo e à investigação daquilo que está escrito, e que eles fiquem suficientemente persuadidos da necessidade de procurar aí um sentido digno de Deus. Não é somente pelos livros anteriores à vinda de Cristo que o Espírito assim dispôs as coisas, mas, como ele é o mesmo Espírito e provém do mesmo Deus, agiu com os Evangelhos da mesma maneira, e com os apóstolos, pois também neles o relato é por vezes misturado com adendos que foram tecidos segundo o sentido corporal, mas que não correspondem a acontecimentos reais; e de modo semelhante, a legislação e os preceitos não mostram sempre discursos coerentes. 3. Exegese

[17] Quem é que, sendo sensato, é capaz de pensar que houve um primeiro, e um segundo e um terceiro dias, e uma manhã, quando ainda não havia nem sol, nem lua nem estrelas? E, de modo semelhante, um primeiro dia sem céu? Quem é que será tão tolo que pense que, como se fosse um homem agricultor, Deus plantou um paraíso do Éden do lado do Oriente, e nele fez uma árvore da vida visível e sensível, de tal modo que aquele que provasse da sua fruta com dentes corporais receberia a vida? E, do mesmo modo, que alguém participa do bem e do mal por ter mastigado o que pegou dessa árvore? Se Deus é representado passeando à tarde no jardim, e Adão escondendo-se debaixo da árvore, penso que não se pode duvidar de que tudo isso, exposto numa estória que parece que aconteceu, mas não aconteceu corporalmente, indica certos mistérios; de acordo com a opinião expressa de pessoas competentes, a passagem de Caim fugindo diante de Deus levará aquele que faça uma reflexão sobre isso a se perguntar o que é a face de Deus e o que é fugir diante dela. Que podemos acrescentar a tudo isso? Aqueles que não têm uma inteligência completamente obtusa podem recolher muitas coisas semelhantes, que são representadas como se se tivessem passado, quando afinal não aconteceram desse modo. Mas também os Evangelhos estão cheios de expressões desse tipo: o diabo levou Jesus a uma montanha alta para lhe mostrar lá de cima os reinos de todo o mundo e a sua glória. Quando isso é lido sem superficialidade, não se criticará aqueles que pensam que, com o olho do corpo que precisa de certa altura para perceber o que está mais embaixo, se podem ver os reinos dos persas, dos citas, dos indianos e dos partos, e a glória que os soberanos deles recebem dos homens? O leitor atento pode verificar outras expressões semelhantes, em grande número, nos Evangelhos, e admitirá que, nas histórias relatadas literalmente, há muitas outras entretecidas que não aconteceram.

[18] No que diz respeito à Lei de Moisés, há muitos preceitos que são claramente incoerentes, ou mesmo impossíveis. Entre os que não são razoáveis, está o de proibir de comer urubus, pois nem nas piores fomes ninguém foi de tal maneira constrangido pela penúria que chegasse a comer um animal desses. Quando se manda exterminar do povo os meninos de uma semana que não foram circuncidados, seria preciso, se tal legislação devesse ser cumprida literalmente, que seus pais, ou aqueles que os criam, fossem condenados à morte. Mas a Escritura diz: “Todo macho não circuncidado, que não foi circuncidado até o oitavo dia, será exterminado do povo” (Gn 17,4). Se o que quereis ver são preceitos impossíveis, reparemos que o bode-veado é um animal que não pode existir e, contudo, como é puro, Moisés manda que o ofereçamos em sacrifício. Ninguém diz que um grifo tenha alguma vez caído nas mãos de um homem, e contudo, o legislador proíbe que seja comido. Se se prestar atenção sobre o conhecido preceito do sábado, do qual tanto se fala: “Cada um de vós estará sentado na sua casa e que ninguém se mova do seu lugar no sétimo dia” (Ex 16,29) – é impossível de cumpri-lo à letra, porque nenhum ser vivo pode ficar sentado o dia todo e ficar sem se mexer depois que se sentou. É por isso que os que pertencem à circuncisão, e todos aqueles que recusam ver seja o que for de superior à letra, nunca começaram a se colocar as questões sobre certos temas, como no que se refere ao tragélafo, ao grifo e ao urubu; mas sobre outros pontos eles insistem, falando muito e sem sentido, aduzindo doutrinas estéreis, como quando dizem, a propósito do sábado, que o espaço que se permite a cada um para as suas deslocações é de dois mil côvados. Outros, como Dositeu Samaritano, mesmo reprovando essas explicações, pensam que se deve ficar até o anoitecer na posição em que estava ao amanhecer do sábado. E também é impossível não “carregar o fardo do dia do sábado” (Jr 17,21); é por isso que os doutores dos judeus chegaram a falatórios intermináveis, dizendo que tal tipo de sapato é um fardo, e outro não é, que a sandália com pregos é um fardo, mas não o é aquela que não os tem, que o que se carrega no ombro é um fardo, mas o que se carrega nos dois não o é.

[19] Se procuramos expressões semelhantes no Evangelho, veremos que não há nada tão insensato como: “Não cumprimenteis a ninguém no caminho” (Lc 10,4), mas os simples pensam que o Senhor ordenou isso aos apóstolos. Quando, porém, fala sobre bater no lado direito da face, isso é inverossímil, pois todo aquele que bate, a não ser que tenha algum defeito por natureza, bate com a mão direita na face esquerda do outro (Mt 5,39). É impossível tirar o olho direito que é motivo de pecado, como diz o Evangelho (Mt 5,28-29): estamos de acordo em que, por causa da vista, alguém possa pecar, mas, se os dois olhos são a causa do escândalo, como atribuí-lo somente ao olho direito? Aquele que se repreender a si mesmo por ter olhado para uma mulher e a desejado, e acusasse somente o seu olho direito, teria motivo para arrancá-lo? Mais ainda: o Apóstolo legisla nestes termos: “Alguém era circuncidado quando foi chamado? Que não refaça seu prepúcio” (1Cor 7,18). Quem prestar atenção, logo se dará conta de que essas palavras estão fora do contexto: se de fato se está a tratar das leis sobre o casamento e a castidade, essa frase não parece interpolada ao acaso? Além disso: pode-se dizer que está errado aquele que se submete a essa operação, já que a maior parte vê inconveniência na circuncisão?

[20] Dissemos tudo isso para mostrar que a finalidade fixada pelo poder divino que nos deu as santas Escrituras não é compreender somente o que a letra apresenta, pois às vezes o que é tomado à letra não é verdade, e chega a ser incoerente e impossível; mas que certas coisas foram entretecidas na trama da história que aconteceu e da legislação que é útil em sentido literal. Porém, ninguém suspeite, generalizando, que dizemos que nada é história porque alguns acontecimentos não aconteceram, e que nenhuma legislação é para cumprir à letra só porque algumas determinações não são razoáveis, e são impossíveis; e que o que se diz do Salvador não é verdade no seu significado sensível, ou que não se deve cumprir os seus mandamentos e preceitos. Pelo contrário: é preciso dizer que a verdade histórica de alguns fatos é clara: Abraão foi sepultado numa caverna dupla no Hebron, tal como Isaac e Jacó e uma das mulheres de cada um deles; Siquém foi entregue em partilha a Josué; Jerusalém é a capital da Judeia, e nela Salomão construiu o templo de Deus; e muitas outras coisas. Muito mais importante em quantidade é o que é verdadeiro historicamente do que o que foi entremeado como puramente espiritual. Do mesmo modo, quem não diria que o preceito “Honra teu pai e tua mãe pois isso é bom para ti” (Ex 20,12) é útil para além de qualquer alegorização e deve ser observado e que o apóstolo Paulo dele se serve repetindo-o à letra? Que dizer de: “Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não darás falsos testemunhos” (Ex 20,13-16)? De modo semelhante, no Evangelho, há preceitos expressos, e não investigamos se devemos observá-los à letra, ou não, como: “Eu vos digo: se alguém se irrita contra o seu irmão etc., eu vos digo para nunca jurar” (Mt 5,22 e 34). E é preciso cumprir o que foi dito pelo Apóstolo: “Adverti os indisciplinados, encorajai os desanimados, apoiai os fracos, sede generosos com todos” (1Ts 5,14), mesmo se, para os mais zelosos, cada um dos preceitos pode ser ainda interpretado de um modo conforme às profundezas da sabedoria divina, contanto que não se menospreze a letra do preceito.

[21] Contudo, aquele que quer compreender exatamente ficará perplexo perante certas passagens, pois não será capaz, sem muitas pesquisas, de decidir o que é que deve ser tido como história acontecida segundo a letra, ou não; e se o sentido literal de certa legislação deve ou não ser observado. Por isso aquele que se dedica a esse estudo com exatidão, fiel ao mandamento do Salvador: “Investigai as Escrituras” (Jo 5,39), deve examinar com atenção onde é que o sentido literal é verídico, e onde é que ele é impossível, e com todas as suas forças procure, a partir de expressões semelhantes dispersas nas Escrituras, qual é o sentido daquilo que, pela letra, é impossível. Contudo, já que, como os estudiosos sabem muito bem, a conexão no que respeita ao sentido literal é impossível, e, quanto ao sentido que deve ser preferido, ela não é impossível, mas verdadeira, é preciso esforçar-se por compreender todo o sentido, relacionando-o com o plano das realidades inteligíveis, de modo que o significado do que é impossível pela letra se ligue com o que não só não é impossível mas ainda seja uma história verdadeira, entendendo alegoricamente o que não aconteceu segundo a letra. No que se refere ao conjunto da divina Escritura, nossa disposição é aceitar que ela tem sempre um sentido espiritual, mas que não tem sempre um sentido corporal, pois já se demonstrou muitas vezes que o sentido corporal é impossível. Por isso, é preciso dedicar-se com muita aplicação e cautela ao estudo dos escritos divinos como livros divinos, pois essa é que me parece a maneira correta de compreendê-los.

[22] As palavras divinas nos ensinam que Deus escolheu sobre a terra uma nação, que é chamada com muitos nomes. O conjunto dessa nação é chamado de Israel; mas Jacó também é assim chamado. Porém, quando ela foi dividida no tempo de Jeroboão filho de Nabat, as dez tribos que ficaram sob sua autoridade receberam o nome de Israel, e as outras duas e a de Levi, o de Judá, governadas estas pelos reis da estirpe de Davi. Toda a região habitada por essa nação, e que lhes tinha sido dada por Deus, se chamou Judeia, e sua capital é Jerusalém, metrópole certamente de muitas cidades, cujos nomes estão dispersos por muitos lugares das Escrituras, mas relacionados no livro de Josué, filho de Navé. Sendo assim, em algum lugar diz o Apóstolo, para elevarmos a nossa inteligência: “Vede Israel segundo a carne” (1Cor 10,18), havendo, pois, um Israel pelo espírito. E diz noutro lugar: “Não são os filhos da carne que são filhos de Deus” (Rm 9,8) e “nem todos os que são de Israel são Israel” (Rm 9,6). Também “não é o que se apresenta como judeu nem o que se apresenta como sendo da circuncisão segundo a carne, mas é judeu o que o é interiormente e da circuncisão do coração, no espírito e não na letra” (Rm 2,28-29). Mas se estamos analisando a questão do judeu oculto, é preciso compreender que, assim como há um povo de judeus pelo corpo, assim também há uma nação de judeus ocultos, sua alma possuindo tal nobreza segundo razões inefáveis. Mas numerosas profecias dizem respeito a Israel e Judá, predizendo o que deverá lhes acontecer. E não terão certamente necessidade de uma interpretação mística tão grandes promessas como as que lhes são feitas na Escritura, que, tomadas à letra, são inferiores e não apresentam nenhuma elevação digna das promessas de Deus? Trata-se de promessas espirituais feitas por meio de realidades sensíveis, mas aqueles a quem essas promessas são feitas não são corporais.

[23] Para não nos demorarmos mais a falar do judeu secreto e do homem interior israelita, tudo isso suficiente para quem não é desprovido de inteligência, continuamos, conforme nossos propósitos, e dizemos que Jacó foi o pai dos doze patriarcas, estes, dos chefes do povo, e estes últimos, dos israelitas que lhes sucederam. Desse modo, os israelitas segundo o corpo remontam aos chefes do povo, os chefes do povo, aos patriarcas, os patriarcas, a Jacó e seus antepassados; mas os israelitas espirituais, cujos corpos eram símbolos, não vêm dos povoados, os povoados vindo das tribos e as tribos de um só homem, que não teve um nascimento corporal comum, mas um melhor, pois ele foi gerado por Isaac, que descendia de Abraão, todos eles se reportando em imagem àquele Adão que o Apóstolo diz ser o Cristo? O princípio de cada uma das linhagens daqueles que são descendentes do Deus do universo toma o seu princípio em Cristo, que, depois do Deus e Pai do universo, é também o Pai de todas as almas, como Adão é o pai de todos os homens. Se Eva foi tomada por Paulo como uma alegoria da Igreja, nada há que nos admire, uma vez que Caim nasceu de Eva, e que toda a sua posteridade remonta a Eva, vendo-se aí imagens da Igreja, pois todos, num sentido preeminente, provêm da Igreja. (24) Impressiona-nos constatar o que se diz a respeito de Israel, das suas tribos e dos seus povoados, quando o Salvador diz: “Eu só vim para as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24); mas nós não compreendemos isso como os ebionitas, pobres de inteligência (pois eles tiram seu nome da pobreza da sua inteligência – ebion em hebraico quer dizer pobre), de modo que entendem que Cristo veio principalmente para os israelitas carnais. Porque “não são os filhos da carne que são filhos de Deus” (Rm 9,8). O Apóstolo ensina de novo essas coisas sobre Jerusalém, porque “a Jerusalém do alto é livre, ela é a nossa mãe” (Gl 4,26). E noutra carta: “Vós viestes à montanha de Sião e à cidade do Deus vivo, a uma Jerusalém celeste, e à assembleia dos anjos por miríades, à Igreja dos primogênitos que estão inscritos nos céus” (Hb 12,22-23). Portanto, se há, entre as almas, um Israel, e no céu uma cidade de Jerusalém, segue-se que as cidades de Israel têm por metrópole a Jerusalém que está nos céus, e assim é, em consequência, em toda a Judeia. Tudo o que tenha sido profetizado sobre Jerusalém e dito sobre ela, se entendemos o que Paulo diz falando da parte de Deus e exprimindo sabedoria, é da cidade celeste e de toda a região que contém as cidades da Terra Santa que é preciso compreender o que as Escrituras anunciam. Pois pode ser que, para nós, o Salvador designa essas cidades de modo alegórico, quando, àqueles que foram bem avaliados pela sua boa gestão do dinheiro, ele doa o governo de dez ou de cinco cidades (Lc 19,17-20). (25) Se, portanto, as profecias sobre a Judeia, Jerusalém, Israel, Judá, Jacó, quando não as compreendemos segundo a carne, supõem tal ou qual mistério oculto, seguir-se-ia que as que dizem respeito ao Egito e aos egípcios, à Babilônia e aos babilônios, a Tiro e aos tirenses, a Sidon e aos sidônios, assim como às outras nações, não profetizam somente sobre egípcios, babilônios, tirenses e sidônios corporais. Se há israelitas segundo o espírito, segue-se que há egípcios e babilônios em espírito. Pois o que diz Ezequiel do faraó, rei do Egito, não concorda com um homem que governou, ou governará o Egito, como ficará claro a quem lhe prestar atenção. Do mesmo modo, o que diz respeito ao governante de Tiro não se pode compreender de um homem que estará no comando de Tiro. E o que muitas vezes se diz de Nabucodonosor, sobretudo em Isaías, como é possível compreendê-lo desse homem? Pois ele não caiu do céu, ele não era a estrela da manhã, ele não surgiu de manhã acima da terra, esse homem Nabucodonosor. Também o que Ezequiel diz do Egito: que ficará deserto quarenta anos, de tal modo que não se encontrará aí nem vestígio de pegada humana, e que de tal modo lhe será feita guerra que sobre toda a sua extensão se mergulhará no sangue até o joelho (Ez 29,8-16; 30,7-10; 32,515). Qual o homem de são juízo que entenderá que isso se diz do Egito vizinho dos etíopes de corpo enegrecido pelo sol? (26) Pode ser que, quando eles morrem de morte comum, alcancem um destino conforme ao que aqui fizeram, em lugares diferentes, de acordo com o grau de seus pecados, tal como os daqui, se são julgados dignos do lugar chamado Hades; e do mesmo modo, os do alto por assim dizer descem ao Hades, julgados dignos de ocupar, em todo o espaço que está em torno da terra, locais diversos, melhores ou piores, ou com estes ou aqueles pais. Assim pode acontecer a um israelita cair entre os citas, e a um egípcio descer na Judeia. Mas o Salvador veio reunir as ovelhas perdidas da casa de Israel: e como muitos de Israel não se submeteram ao seu ensinamento, então os das nações foram chamados. (27) Tudo isso, cremos nós, está escondido nestes relatos: “Pois o reino de Deus é semelhante a um tesouro escondido num campo. Aquele que o encontra esconde-o outra vez e cheio de alegria vai vender tudo o que tem para comprar o campo” (Mt 13,44). Perguntemo-nos se o conjunto do campo, cheio de toda espécie de plantas, não seria o que na Escritura está à vista, superficial e evidente, e se o que nele se contém, que não é visto por todos, mas está de algum modo escondido debaixo das plantas, que se veem, não seriam os tesouros escondidos da sabedoria e do conhecimento que o Espírito, por meio de Isaías, chama secretos, invisíveis e escondidos. Para encontrá-los, temos necessidade de Deus, o único que pode quebrar as portas de bronze que as escondem, e quebrar os ferrolhos que estão nessas portas, para encontrar o que está escrito no Gênesis a propósito das várias espécies de verdadeiras almas, ou como que sementes próximas ou afastadas de Israel; e também a descida ao Egito das setenta almas para se tornarem “tão numerosas como as estrelas do céu” (Dt 10,22). Mas como nem todas as que saem dela são luzes do mundo – porque “nem todos os que vêm de Israel são Israel” (Rm 9,6) –, os descendentes dos setenta tornam-se “como as areias que estão ao longo da praia do mar e que são inumeráveis” (Gn 22,17).

[24] Essa descida dos santos pais ao Egito, quer dizer, a este mundo, poderá parecer concedida pela providência divina para a iluminação dos outros e a instrução do gênero humano, para que as outras almas sejam auxiliadas por eles. “Eles são os primeiros a quem foram entregues as palavras de Deus” (Rm 3,2), pois só eles são da estirpe da qual se diz que vê Deus – é o que quer dizer a interpretação do nome de Israel. Daqui se segue que devemos explicar e interpretar por esse significado: as dez pragas que castigaram o Egito para que ao povo de Deus fosse permitido partir; ou as coisas que aconteceram ao povo no deserto; ou que foi construído o tabernáculo e tecida a veste do sumo sacerdote com a contribuição de todo o povo; ou tudo o que se diz dos vasos do culto – pois que, verdadeiramente, como está escrito, tudo isso contém a sombra e a figura das realidades celestes. Destes diz Paulo claramente que “servem a sombra e a imagem das realidades celestes” (Hb 8,5). Nessa mesma Lei estão ainda contidas todas as leis e todos os ensinamentos de que viverão na Terra Santa. Mas também há ameaças expressas para aqueles que transgredirem a lei; e também se descrevem, para aqueles que tiverem necessidade de purificação, vários tipos de purificação, pois estavam sujeitos a se mancharem com frequência, a fim de que chegassem assim àquela única purificação depois da qual não é mais possível se manchar. Mas o próprio povo também foi recenseado, porém não todo, pois as almas infantis ainda não têm, segundo o preceito divino, idade necessária para fazê-lo (Nm 1,26); é também o caso das almas que não podem tornarse cabeça de outra, mas que são elas mesmas submissas a outra como a sua cabeça, as almas que a Escritura chamou mulheres; elas não estão compreendidas no recenseamento ordenado por Deus, mas só são recenseados os que são chamados varões; isso mostra que elas não podem ser recenseadas separadamente, mas que elas estão compreendidas naquelas chamadas varões. Vêm, contudo, em primeiro lugar neste censo sagrado aqueles que estão prontos para partir para as guerras de Israel, que podem combater contra as forças hostis e inimigas que o Pai submeteu ao Filho que está à sua direita para que ele destrua todo principado e potestade; assim, por essas suas formações de soldados que, militando por Deus, não se envolvem nos assuntos seculares, arrasa os reinos do adversário. Em volta deles estão os escudos da fé, brandindo as armas da sabedoria; sobre eles brilham os elmos da esperança na salvação, e a couraça da caridade protege o peito deles cheio de Deus. Tais são os soldados que assim me parecem indicados, e assim estão preparados para esse gênero de guerra aqueles que recebem a ordem de se fazer recensear nos livros santos. Mas entre eles são designados como muito mais insignes e perfeitos aqueles dos quais se diz que até os cabelos da sua cabeça estão contados. Quanto àqueles que foram punidos pelos seus pecados e cujos corpos caíram no deserto, parecem simbolizar os que realizaram não poucos progressos, mas deles se diz que não puderam chegar até o fim da perfeição por diversas causas, ou por ter murmurado, ou venerado ídolos, ou fornicado, ou por outra coisa que não é permitido à mente conceber. Mas aqui há um ponto que, penso eu, não tenha um significado vazio: pois alguns, possuindo muitas reses e animais, precederam os outros e se apoderaram de lugares próprios para pastagens e para a alimentação do gado, o primeiro território de que o exército israelita se tinha apoderado pela guerra (Nm 32,1-5). Tendo-o eles solicitado a Moisés, assim se separaram do outro lado das correntes do Jordão, excluindo-se da posse da Terra Santa. Esse Jordão pode ser considerado, enquanto símbolo das realidades celestes, como aquele que irriga e inunda as almas sedentas e as inteligências que estão próximas dele. Aqui não parece supérfluo o fato de que Moisés ouviu de Deus o que é relatado na lei do Levítico, mas que o povo se tornou ouvinte de Moisés no Deuteronômio e aprendeu dele o que não pode ouvir de Deus. É por isso que o Deuteronômio recebeu o nome de segunda lei; alguns pensam que, quando cessou a primeira, a que foi dada por meio de Moisés, uma segunda legislação parece ter se formado, que foi especialmente confiada por Moisés ao seu sucessor Josué: esse último simboliza, segundo se crê, o nosso Salvador, cuja segunda lei, isto é, os preceitos do Evangelho, conduz todas as coisas à sua perfeição.

[25] É preciso ver se porventura não parece que se indica desse modo também o seguinte: assim como o Deuteronômio promulga uma legislação mais precisa e mais clara do que na que tinha sido antes redigida, do mesmo modo, com relação à vinda do Salvador, que realizou na humildade quando assumiu a forma de escravo, não estará indicada uma segunda vinda mais brilhante, a mais gloriosa, na glória do Pai, e então se realizará a imagem que dá o Deuteronômio, quando todos os santos viverão no reino dos céus segundo as leis desse Evangelho eterno. Assim como na sua vinda aqui ele cumpriu a lei que tinha a sombra dos bens futuros, assim nessa vinda gloriosa ele realizará e conduzirá à sua perfeição a sombra dessa vinda. É assim que fala dele o profeta: “Cristo Senhor, o nosso sopro de vida, do qual dissemos: à sua sombra viveremos entre as nações” (Lm 4,20), porque, de uma maneira digna, ele transferirá todos os santos do Evangelho temporal para o Evangelho eterno, conforme o nome que João lhe dá no Apocalipse (14,6).

[26] Em tudo isso, porém, seja suficiente conformar a nossa mente à regra da religião, e de pensar das palavras do Espírito Santo que a relação do discurso não se apoia na fragilidade da eloquência humana, mas que, como está escrito, “Toda a glória do rei está no interior” (Sl 44,14), o tesouro dos significados divinos está contido dentro do vaso frágil da letra vulgar. Mas se há alguém mais curioso que procura explicação dos detalhes, venha então conosco ouvir como o apóstolo Paulo, perscrutando as profundezas da sabedoria divina e do divino conhecimento, com a ajuda do Espírito Santo que perscruta até as profundezas de Deus, e não tendo a força de chegar ao fim e de alcançar por assim dizer um conhecimento íntimo, exclama, em seu desespero e espanto: “Ó profundeza das riquezas da sabedoria e do conhecimento de Deus!” (Rm 11,33). E o quanto nessa exclamação ele se desespera de alcançar a perfeita compreensão, nós o percebemos nestas palavras: “Como os juízos de Deus são impossíveis de perscrutar e as suas vias difíceis de acompanhar!” (Rm 11,33). De fato, ele não diz que é difícil poder perscrutar os juízos de Deus, mas que não se pode de modo nenhum: não diz que é difícil de acompanhar seus caminhos, mas que isso não se pode fazer. Por mais que se avance nesse exame, e se progrida aplicando-se cada vez mais intensamente, pela graça de Deus que ilumina a inteligência, não se poderá atingir perfeitamente o fim daquilo que se procura. Nenhuma inteligência criada tem a possibilidade de chegar a um conhecimento absoluto, mas, desde que encontre algo do que procura, verá outras coisas a procurar; e, se chegar a essas, verá muitas outras que ainda estão por procurar. É por isso que o grande sábio Salomão, contemplando com sabedoria a natureza das coisas, afirmou: “Eu disse: me tornarei um sábio. E essa sabedoria afastou-se de mim, ainda mais longe do que estava antes. Quem encontrará a imensidão da sua profundidade?” (Ecl 7,23-24). E Isaías, sabendo que os princípios das coisas não podem ser encontrados por uma natureza mortal nem por aquelas naturezas que, sendo mais divinas do que a humana, contudo também foram feitas e criadas, sabendo que nenhuma delas pode encontrar nem o princípio nem o fim, diz: “Dizei o que aconteceu antes e saberemos que sois deuses; anunciai o que haverá por último e veremos que sois deuses” (Is 41,22-23). Pois um doutor hebreu assim o explicava: o princípio e o fim de todas as coisas não pode ser compreendido por ninguém, a não ser unicamente pelo Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito Santo, e é por isso que Isaías dizia sob a forma de visão que os dois Serafins são os únicos que com duas asas cobrem a face de Deus, com duas outras, os pés, e com duas asas voam gritando um ao outro: “Santo! Santo! Santo! O Senhor Sabaoth, toda a terra está cheia da tua glória” (Is 6,2-3). Uma vez que somente os dois Serafins é que têm suas asas sobre a face de Deus e sobre os seus pés, temos de ousar afirmar que nem os exércitos dos santos Anjos nem os santos Tronos, nem Dominações, nem Principados e Potestades podem conhecer inteiramente o começo de tudo, e o fim do universo. Mas é preciso compreender que esses santos espíritos e poderes aqui mencionados estão próximos a esses princípios e os alcançam mais do que outros o possam fazer; contudo, seja o que for que esses poderes aprenderam pela revelação do Filho de Deus e do Espírito Santo, seja qual for a quantidade de conhecimentos que eles puderam alcançar, certamente maiores para os poderes superiores do que para os inferiores, é-lhes, porém, impossível compreender tudo, pois está escrito: “A maior parte das obras de Deus está escondida” (Sir 16,21). Por isso é desejável que cada um, esquecendo o que deixou para trás, na medida das suas forças se dirija para o que é prioritário, tanto para as obras melhores quanto para um entendimento mais puro, por Jesus Cristo Nosso Salvador, a quem se dê glória pelos séculos.

[27] Todo aquele que cuida da verdade não se deve ocupar com as palavras e as expressões, pois em cada povo as palavras têm usos diversos; deve prestar mais atenção naquilo que é significado do que com quais palavras é significado, sobretudo quando se trata de realidades tão elevadas e difíceis. Por exemplo, quando alguém se pergunta se existe uma substância à qual não se pode atribuir nem cor, nem forma, nem toque, nem grandeza, uma substância que só a mente possa perceber e cada um designa como quer: os gregos chamam-lhe asômaton, quer dizer, não corporal, enquanto as divinas Escrituras dizem invisível, pois o Apóstolo afirma que Deus é invisível: de fato, diz que Cristo é a imagem do Deus invisível. Mas logo acrescenta que, por meio de Cristo, tudo foi criado, o visível e o invisível. Assim ele afirma que, entre as criaturas, há substâncias invisíveis com qualidades próprias. Mas estas se servem de corpos, mesmo não sendo elas corporais, e sejam superiores às naturezas corporais. Mas a substância da Trindade, princípio e causa de todas as coisas, da qual e na qual tudo existe, é preciso ver que ela não é um corpo nem está num corpo, mas é totalmente incorporal. Tudo isso que nós expusemos, levados pelo andamento do assunto, embora breve, seja suficiente para mostrar que há realidades cujo significado não pode ser adequadamente explicado por nenhuma exposição de linguagem humana, mas que são afirmadas mais por um ato de simples inteligência do que pelas qualidades das palavras. Deve-se conservar essa regra para a compreensão das divinas Escrituras, ou seja, avaliar o que é dito não pela baixa qualidade das expressões, mas pela divindade do Espírito Santo que lhe inspirou a redação. 4. Recapitulação sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo e os outros assuntos que foram acima apresentados

[28] Depois de ter percorrido, conforme pudemos, o que foi dito acima, chegou o momento de recapitular cada um dos termos que tratamos separadamente, e em primeiro lugar repetir tudo sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Como Deus Pai é invisível e inseparável do seu Filho, não o gerou por prolação, como pensam alguns. Com efeito, se o Filho é uma prolação do Pai, e como esse termo, prolação, exprime um modo de geração, semelhante ao modo de reprodução comum dos animais e dos homens, seria necessário que aquele que produziu e aquele que foi produzido sejam corpos. Portanto, não dizemos que uma parte da substância de Deus se converteu no Filho, como supõem os hereges, ou que o Filho foi procriado pelo Pai a partir da ausência de substância, isto é, fora da sua substância, de tal modo que tivesse havido um momento em que ele não existia; mas, suprimindo qualquer sentido corporal, dizemos que a Palavra e a Sabedoria foram geradas do Pai invisível e não corporal, sem que nada se produza de modo corporal, tal como a vontade procede da inteligência. Não parecerá absurdo, uma vez que ele é chamado Filho da Caridade, pensar que ele é também Filho da vontade. Mas João indica também que Deus é luz, e Paulo mostra que o Filho é o esplendor da luz eterna. Assim como a luz nunca pode existir sem seu esplendor, assim o Filho não pode ser compreendido sem o Pai, ele que é chamado a imagem expressa da sua substância, sua palavra e sabedoria. Como é que se pode dizer que houve um momento em que o Filho não existiu? Isso equivale a dizer que houve um momento em que a Verdade não existiu, em que não houve Sabedoria, em que não havia vida, quando em todos esses aspectos se mostra perfeitamente a substância do Pai; não podem ser separados dele e nunca podem ser separados da sua substância. Mesmo que se diga que eles são múltiplos para o olhar da inteligência, contudo, eles são um só pela sua substância, e neles se encontra a plenitude da divindade. Quanto ao que dissemos: que nunca houve um tempo em que o Filho não existiu, deve entender-se de modo flexível, pois as próprias palavras produzem um significado de vocabulário temporal, isto é, um “quando” e um “nunca”; mas o que se deve entender daquilo que se diz do Pai, do Filho e do Espírito Santo está para além de qualquer ideia de tempo, de século e de duração interminável. Apenas a Trindade é a única que está para além de qualquer sentido de caráter não somente temporal, mas de duração interminável; pois os outros seres, fora da Trindade, são mensuráveis pelos séculos e pelo tempo. Consequentemente, ninguém vai pensar que o Filho de Deus que, como Palavra, é Deus, que estava no princípio junto de Deus, esteja contido num lugar qualquer, nem enquanto Sabedoria, nem como Verdade, nem enquanto ele é Vida, Justiça, Santificação, Redenção, pois tudo isso não precisa de lugar para fazer ou operar seja o que for, mas cada uma delas deve compreender-se em função daqueles que participam do seu poder e do seu agir.

[29] Se alguém dissesse que, por meio daqueles que participam na Palavra de Deus, ou na sua Sabedoria, na Verdade e na sua Vida, a Palavra e a Sabedoria parece que estão elas mesmas num lugar, é preciso responder que sem dúvida Cristo se encontrava em Paulo, como Palavra, Sabedoria e as outras denominações, e é por isso que ele dizia: “procurais uma prova daquele que fala em mim, Cristo?”, e também: “Não sou mais eu que vivo, mas Cristo é que vive em mim” (2Cor 13,3; Gl 2,20). Mas então, quando estava em Paulo, pode-se duvidar de que estivesse de modo semelhante em Pedro, em João e em cada um dos santos, e não somente nos que estão na terra, mas também nos que estão nos céus? Com efeito, é absurdo dizer que Cristo estava em Pedro e em Paulo, mas não no arcanjo Miguel ou em Gabriel. Assim se mostra claramente que a divindade do Filho não está restrita a um lugar, caso contrário ele só estaria ali e não noutro lugar; mas como ele não fica restrito a um lugar, conforme a majestade da natureza não corporal, é preciso compreender também que ele não está ausente em nenhum. A única diferença que é preciso notar é que, mesmo estando em lugares diferentes, em Pedro ou em Paulo ou Miguel ou Gabriel, como dissemos, não está em todos da mesma maneira. Encontra-se mais plenamente, mais gloriosamente, e por assim dizer mais abertamente nos arcanjos do que nos outros varões santos. Isso é claro, porque, quando todos os santos chegarem ao auge da sua perfeição, diz-se que serão feitos semelhantes aos anjos e iguais a eles segundo a palavra evangélica. Por isso, é claro que Cristo tanto se forma em cada um quanto o permite a medida dos seus méritos.

[30] Agora que repetimos brevemente acerca da natureza da Trindade, precisamos a seguir recordar igualmente o que se diz do Filho: “que por ele tudo foi criado, tudo o que está no céu e tudo o que está na terra, o visível e o invisível, os Tronos, as Dominações, os Principados e as Potestades; tudo foi criado por ele e nele, e ele é antes de todos, e todas as coisas se mantêm por ele, que é a cabeça” (Cl 1,16-18). Com o que concorda João no seu Evangelho: “tudo foi feito por ele e sem ele nada foi feito” (Jo 1,3). E Davi, expressando que todo o mistério da Trindade está presente na criação do universo, diz: “os céus foram fixados pela Palavra do Senhor e todo o seu poder pelo Espírito da sua boca” (Sl 32,6). Depois disso, convém que recordemos sobre a vinda corporal e a encarnação do Filho Unigênito de Deus. Não se deve compreender como se toda a glória da divindade ficasse enclausurada nos limites de um corpo tão pequeno, de modo que toda a Palavra de Deus, sua Sabedoria e sua Verdade substancial, e sua Vida ou tivessem sido arrancadas ao Pai, ou constrangidas a se circunscrever na pequenez desse corpo, sem que se possa pensar que depois também agissem alhures; mas a profissão de fé deve ficar prudentemente entre estes dois: acreditar que alguma coisa da divindade teria faltado em Cristo, e pensar que teria acontecido como que uma retirada da substância do Pai que está em toda a parte. Pois João Batista exprime também algo assim ao dizer às multidões, quando Jesus estava corporalmente ausente: “No meio de vós encontra-se aquele que ignorais, que veio depois de mim e do qual não sou digno de desatar a correia das sandálias” (Jo 1,26-27). De alguém que estivesse corporalmente ausente não poderia ter dito que estava no meio deles, se estivesse falando de presença corporal. Isso mostra que o Filho de Deus estava inteiramente presente em seu corpo e todo também em toda a parte.

[31] Não se deve pensar que desse modo afirmamos que estava em Cristo uma parte da divindade do Filho de Deus, e o restante estaria em outro lugar, ou por toda a parte; pensa assim quem ignora a natureza da substância não corporal e invisível. É impossível falar de uma parte do não corporal, ou que nele haja uma divisão; mas ele está em tudo, e através de tudo e acima de tudo da maneira antes indicada, isto é, que ele é compreendido como Sabedoria, Palavra, Vida e Verdade, compreensão que exclui, sem dúvida nenhuma, que ele esteja confinado num lugar. Portanto, o Filho de Deus, querendo se mostrar aos homens e conviver com os homens pela salvação do gênero humano, recebeu não somente um corpo humano, como alguns pensam, mas também uma alma, semelhante às nossas pela sua natureza, mas semelhante a ele, o Filho, pelas suas intenções e sua virtude, de tal maneira que pudesse realizar sem nenhuma deficiência todas as vontades e todos os desígnios da Palavra e da Sabedoria. O próprio Salvador afirma muito claramente nos Evangelhos que tinha uma alma, ao dizer: “Ninguém me tira minha alma, mas sou eu mesmo que a entrego. Tenho o poder de a entregar e o poder de a retomar” (Jo 10,18); e ainda: “Minha alma está triste até a morte” (Mt 26,38); e também: “Agora a minha alma está perturbada” (Jo 12,27). Não se deve entender que a Palavra de Deus é uma alma triste e perturbada, pois, com a autoridade da divindade, diz: “Tenho o poder de entregar a minha alma”. Também não dizemos que o Filho de Deus se encontrasse nessa alma como estava na alma de Paulo, ou de Pedro ou de outros santos, nos quais se crê que Cristo falava, como em Paulo. Mas de todos estes é preciso pensar o que diz a Escritura: “Ninguém está isento de mancha, mesmo se sua vida não durou mais do que um dia” (Jó 14,4-5). Mas a alma que estava em Jesus antes “de conhecer o mal conheceu o bem” (Is 7,15) e porque “amou a justiça e odiou a iniquidade por causa disso Deus a ungiu com o óleo da alegria mais do que às suas companheiras” (Sl 44,8). Ela foi ungida com o óleo da alegria quando se uniu à Palavra de Deus por uma união sem mancha, e, por causa disso, única entre todas as almas, era incapaz de pecar, porque ela estava apta a receber o Filho de Deus de uma maneira boa e plena; é por isso que ela é um com ele, é designada pelos mesmos termos dele, e é chamada Jesus Cristo, por quem se diz que tudo foi feito. É dessa alma que, no meu entender, disse o Apóstolo: “Vossa vida está escondida com Cristo em Deus; quando Cristo, vossa vida, aparecer, então vós aparecereis na glória com ele” (Cl 3,3-4), pois ela tinha recebido toda a sabedoria de Deus, toda a sua verdade e sua vida. Que se deve entender aqui pelo Cristo, de quem se diz que estava escondido em Deus e devendo aparecer depois, senão aquele que, como é relatado, foi ungido com o óleo da alegria, isto é, foi preenchido substancialmente por Deus, no qual agora se diz que está escondido? Por isso é que Cristo é apresentado como exemplo para todos os crentes, porque como ele sempre, e antes mesmo de conhecer o mal, por mínimo que fosse, escolheu o bem, amou a justiça e odiou a iniquidade, por essa razão foi ungido por Deus com o óleo da alegria; assim, aquele que pecou ou errou purifique-se das suas manchas segundo o exemplo proposto, e que, tendo-o como guia do seu caminho, avance no duro caminho da virtude para que talvez assim, na medida do possível, sejamos feitos, ao imitá-lo, participantes da natureza divina, tal como está escrito: “Aquele que diz que crê em Cristo deve proceder como ele procedia” (1Jo 2,6). Portanto, essa Palavra e essa Sabedoria, por cuja imitação se diz de nós que somos sábios ou que agimos pela razão, se faz tudo em todos para a todos ganhar: com os fracos, torna-se fraco para ganhar os fracos; e porque se tornou fraco, dele se diz: “Mesmo que tenha sido crucificado por causa da fraqueza, nele está a força divina” (2Cor 13,4). De fato, entre os coríntios que eram fracos, Paulo julga que, quando está com eles, “não conhece nada a não ser Jesus Cristo e esse crucificado” (1Cor 2,2).

[32] Alguns querem aplicar à própria alma, quando, de Maria, ela tomou um corpo, o que diz o Apóstolo: “Quando tinha a forma de Deus, não pensou que fosse roubo o ser igual a Deus, mas se aniquilou a si mesmo, tomando a forma de escravo” (Fl 2,6-7), a fim, sem dúvida, de a restaurar na forma de Deus pelos melhores exemplos e ensinamentos, e de a reconduzir à plenitude de onde ela se tinha aniquilado. Assim como a participação no Filho de Deus faz de alguém filho adotivo e a participação na Sabedoria torna sábio em Deus, assim a participação no Espírito Santo torna santo e espiritual. Participar no Espírito Santo, e participar no Pai e no Filho, é uma só e a mesma coisa, porque a natureza da Trindade é una e incorporal. O que dissemos da participação da alma é preciso entendê-lo também dos Anjos e das Potências celestes, da mesma maneira que das almas, porque toda criatura racional tem necessidade de participar na Trindade. Quanto à maneira de ser deste mundo visível, cuja natureza habitualmente constitui um grande problema, já falamos acima, conforme foi possível, sobre as qualidades com que se apresenta, para aqueles que, partilhando a nossa fé, costumam procurar as razões para acreditar; e também para aqueles que levantam contra nós combates heréticos, e têm o costume de agitar constantemente a palavra “matéria”, que eles mesmos até agora não puderam entender o que é que significa. Por isso penso que é necessário voltar brevemente a esse assunto.

[33] Em primeiro lugar, deve-se saber que, até o presente, nunca encontramos nas Escrituras canônicas essa palavra, matéria, para designar a substância que se considera como subjacente aos corpos. Quando Isaías diz: “Ele comerá hylé como se fosse feno” (Is 10,17) – hylé, isto é, matéria –, fala daqueles que se encontram em tormentos, e por matéria designa os pecados. E se em algum outro lugar for possível se encontrar escrito o termo matéria, creio eu que em nenhum lugar ele significa aquilo de que falamos. A única exceção é na Sabedoria atribuída a Salomão, livro cuja autoridade não é reconhecida por todos. Aí se encontra escrito deste modo: “A tua mão todo-poderosa que criou o mundo a partir da matéria informe não estava impedida de lhes enviar uma multidão de ursos ou de leões ferozes” (Sb 11,17). Certamente, muitos pensam que, no que Moisés escreveu no início do Gênesis: “No princípio, Deus fez o céu e a terra; a terra era invisível e sem ordem” (Gn 1,1) se trata da própria matéria das coisas, e que por essa “terra invisível e sem ordem” parece que Moisés não teria indicado outra coisa a não ser a matéria informe. Se ali se trata mesmo da matéria, segue-se que os princípios dos corpos não são conversíveis. Pois aqueles que puseram como princípios das coisas corporais os átomos, quer os que não podem ser divididos, quer os que podem sê-lo em partes iguais, ou qualquer outro elemento, não puderam colocar entre os princípios o termo matéria, isto é, aquilo que antes de mais nada define a matéria. Quando eles fazem da matéria o substrato de todos os corpos, como se fosse uma substância conversível, ou mutável, ou divisível de todas as maneiras, não o poderão fazer segundo a sua natureza própria, com abstração das qualidades. Concordamos com o que eles dizem, nós que recusamos de todas as formas dizer que a matéria é incriada ou não feita, como o mostramos mais acima, conforme nos foi possível, quando assinalamos que os diversos tipos de frutas são produzidos por diferentes espécies de árvores, a partir da água e da terra, do ar e do calor, e quando ensinamos que o fogo, o ar, a água e a terra se mudam um no outro e que cada elemento se resolve em um outro em resultado de uma afinidade recíproca; de modo semelhante, quando provamos que entre os homens e os animais a substância da carne tira a sua existência do alimento, e que o humor do sêmen natural se converte em uma carne sólida e em ossos. Tudo isso demonstra que a substância corporal é permutável, e que ela passa de qualquer qualidade a qualquer outra.

[34] Contudo, é preciso saber que a substância nunca subsiste sem qualidades e que apenas a inteligência distingue que o que é o substrato dos corpos, e é capaz de receber uma qualidade, é a matéria. Houve quem, querendo entregar-se nesse assunto, a uma pesquisa mais profunda, ousou dizer que a natureza corporal não é nada mais do que as qualidades. Com efeito, se a dureza e a brandura, o quente e o frio, o úmido e o seco são qualidades, quando elas são suprimidas junto com as outras desse tipo, nos damos conta de que não há mais substrato, e então parecerá que as qualidades são tudo. É por isso que os adeptos dessa tese tentaram sustentar o seguinte: já que todos aqueles que admitem uma matéria não criada reconhecem que as qualidades foram feitas por Deus, conclui-se, então, que até para eles a própria matéria não é incriada, porque as qualidades são tudo, e todos eles, sem oposição, afirmam que elas foram feitas por Deus. Mas aqueles que querem mostrar que as qualidades são acrescentadas de fora a certa matéria subjacente, servem-se de exemplos deste tipo: Paulo está, sem dúvida, ou calado ou falando; ou está acordado, ou dorme; e tem determinada posição do seu corpo, isto é, ou está sentado, ou de pé, ou deitado. Tudo isso para os homens são características acidentais, mas quase nunca podem ser encontrados sem elas. Contudo, a ideia que nós temos de homem não inclui claramente nenhuma dessas características, mas nós o entendemos e consideramos sem ter em conta de modo nenhum a sua atitude, quer ele esteja acordado ou dormindo, falando ou calado, nem as outras circunstâncias acidentais às quais os homens necessariamente estão sujeitos. Assim como consideramos Paulo sem nenhuma dessas características acidentais, assim podemos compreender o substrato sem as qualidades. Quando o nosso entendimento, tendo afastado da sua compreensão todas as qualidades, contempla, se assim podemos dizer, o ponto da substância isolada subjacente, e presta atenção nela, sem olhar à dureza ou à brandura, ao quente ou ao frio, ao úmido ou ao seco que afetam essa substância, então, numa espécie de artifício do pensamento, parecerá que ela contempla a matéria despojada de todas as qualidades.

[35] Talvez alguém se pergunte se, nas Escrituras, é possível encontrar algum indício que permita aceitar isso. Parece-me que, nos Salmos, algo está significado por esta palavra do profeta: “Os meus olhos viram a tua incompletude” (Sl 138,16). Parece que a mente do profeta, examinando os princípios das coisas com um olhar mais perspicaz, e, apenas com a inteligência e a razão, distinguindo a matéria das qualidades, sentiu em Deus uma incompletude que se completa, como se deve compreender, pela adição das qualidades. No seu livro, E no que diz assim: “Caminhei até o que é imperfeito” (1 Enoque 21,1), e suponho que se pode compreendê-lo de modo parecido: a mente do profeta caminhou, perscrutando e discutindo uma a uma todas as coisas visíveis, até chegar àquele princípio onde se vê a matéria imperfeita sem as qualidades. Realmente, no mesmo livro está escrito o que diz Enoque: “Considerei todas as matérias” (2 Enoque 40,1). Deve-se compreender deste modo: examinei todas as divisões da matéria, que, a partir da unidade, se separaram em cada espécie, ou seja: a dos homens, a dos animais, a do céu, a do sol, e a de tudo o que está neste mundo. Em seguida, mostramos, conforme pudemos, nas páginas precedentes, que tudo o que existe foi feito por Deus, e que nada existe que não tenha sido feito, exceto a natureza do Pai, do Filho e do Espírito Santo; e, além disso, que Deus, que é bom por natureza, querendo ter seres a quem fizesse o bem, seres que se alegrassem de ter recebido os seus benefícios, fez criaturas dignas dele, isto é, que o possam compreender dignamente – delas ele diz que gerou filhos. Fez assim todas as coisas com número e medida; de fato, para Deus nada é sem limite e sem medida. Pelo seu poder, Deus compreende todas as coisas, e ele mesmo não é compreendido pela inteligência de nenhuma criatura. Só mesmo ele conhece a sua natureza. Com efeito, só o Pai conhece o Filho, e só o Filho conhece o Pai, e só o Espírito Santo perscruta até as alturas de Deus. Portanto, toda a criatura se distingue junto dele como compreendida num número ou medida determinados, isto é, o número para os seres racionais, a medida para a matéria corporal. Era necessário que a natureza intelectual se servisse de corpos, pois ela é entendida como mutável e conversível pelo simples fato da condição de ser criada. Aquilo que não existia e começou a ser por isso mesmo se manifesta como tendo uma natureza mutável e é por isso que a sua virtude e a sua maldade não são substanciais, mas acidentais. Por causa dessa mutabilidade e conversibilidade da natureza racional, ela devia se servir segundo seus méritos, como dissemos, de uma vestimenta corporal de natureza diversa, tendo tal ou qual qualidade. Por todas essas razões, Deus, que conhecia com anterioridade as variações futuras das almas, ou das potências espirituais, necessariamente criou a natureza corporal capaz de se transformar segundo a vontade do criador, pelas mutações das suas qualidades, em todos os estados que as situações exigissem. É preciso que ela subsista todo o tempo que subsistem os seres que dela têm necessidade como vestimenta. Ora, haverá sempre naturezas racionais que precisarão de vestimenta corporal, por conseguinte, sempre haverá uma natureza corporal da qual as criaturas racionais deverão se servir como vestimenta, a não ser que alguém possa mostrar e provar que a natureza racional possa viver sem corpo nenhum. Acima nós mostramos, discutindo-o em pormenor, o quanto isso é difícil e quase impossível para a nossa inteligência.

[36] Creio que não é contrário ao nosso trabalho voltar ainda, o mais brevemente possível, à imortalidade das criaturas racionais. Todo ser que participa em alguma realidade é sem dúvida de uma só substância e de uma só natureza com todos os outros seres que participam da mesma realidade. Por exemplo: todos os olhos participam da luz, e é por isso que todos os olhos que participam da luz têm uma mesma natureza; mas, mesmo que todos os olhos participem da luz, contudo, um vê de modo mais nítido, e outro de modo mais embaciado, e portanto nem todos os olhos participam igualmente da luz. Por sua vez, todos os ouvidos percebem a voz ou o som, e é por isso que todos os ouvidos têm uma só natureza; mas, segundo a qualidade de pureza e de boa conservação, cada ouvido escuta mais rápida ou mais lentamente. Passemos, pois, desses exemplos tomados aos sentidos para a contemplação dos que são intelectuais. Toda inteligência que participa da luz intelectual, sem dúvida, deve ser da mesma natureza de outra inteligência que participa igualmente da luz intelectual. Se, portanto, as potências celestes têm participação na luz intelectual, isto é, na natureza divina, porque elas participam na sabedoria e na santificação, e se a alma humana tem participação nessa mesma luz e sabedoria, umas e outras serão de uma só natureza e de uma só substância. Ora, as potências celestiais são incorruptas e imortais: sem dúvida a substância da alma humana é incorrupta e imortal. E não só isso: uma vez que a natureza do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que é a única luz intelectual da qual toda a criação tira a sua participação, é incorrupta e eterna, é muito coerente e necessário que toda substância que tira a sua participação dessa natureza eterna seja ela mesma sempre incorruptível e eterna, de modo que a eternidade da bondade divina seja percebida também no fato de que são eternos aqueles mesmos que recebem seus benefícios. Mas, do mesmo modo que vimos pelos exemplos que a luz é percebida de maneira distinta, conforme a vista daquele que olha, tem qualidades de mais esbatida ou de mais aguda, assim também, quando se trata do Pai, do Filho e do Espírito Santo, é preciso respeitar a diversidade na maneira de participar neles segundo a intenção do pensamento e a capacidade da mente. Por outro lado, consideremos se não parece contrário à religião dizer que a mente, que é capaz de compreender a Deus, possa receber a morte na sua substância, como se o fato de poder compreender a Deus e nela pensar não fosse suficiente para lhe conferir a perpetuidade. Tanto mais que, mesmo que a mente, por negligência, chegue ao ponto de não poder receber Deus nela com pureza e integridade, contudo, ela possui sempre em si mesma como que sementes que lhe permitem restaurar e reencontrar uma compreensão melhor, uma vez que o homem interior, do qual se diz que é racional, se renova segundo a imagem e a semelhança de Deus, que o criou. É por isso que o profeta diz: “Todos os confins da terra se lembrarão do Senhor e se voltarão para ele, e todas as famílias das nações o adorarão na sua presença” (Sl 21,28).

[37] Se alguém ousa atribuir àquele que foi feito à imagem e semelhança de Deus uma corrupção que atinja a própria substância, ele estende, penso eu, o motivo da sua ofensa à religião e até o próprio Filho de Deus, pois nas Escrituras o Filho também é chamado imagem de Deus. Aquele que mantém essa opinião acusa certamente a autoridade da Escritura, que diz que o homem foi feito à imagem de Deus. Está claro que os sinais dessa imagem de Deus no homem não podem ser reconhecidos nas formas do corpo que se corrompe, mas pela prudência de ânimo, pela justiça, pela moderação, pela fortaleza, pela sabedoria, pela disciplina, em resumo, em todo o conjunto das virtudes presentes em Deus de modo substancial, e no homem pelo seu esforço e pela imitação de Deus, conforme o que diz o Senhor no Evangelho: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36), e “Sede perfeitos como vosso Pai é perfeito” (Mt 5,48). Isso mostra com evidência que em Deus todas essas virtudes existem sempre, sem poder progredir nem regredir, mas que nos homens são adquiridas pouco a pouco e uma de cada vez. É por aqui que os homens parecem ter certo parentesco com Deus, pois Deus conhece tudo e nenhuma realidade intelectual lhe fica escondida. Com efeito, só Deus, o Pai, o Filho único, e o Espírito Santo, não somente conhece o que criou, mas ainda possui o conhecimento de si mesmo. Contudo, a mente pode, progredindo do menor até o maior, e do visível para o invisível, chegar a uma compreensão mais perfeita. De fato, ela está colocada num corpo e deve progredir das realidades sensíveis, que são corporais, para aquelas que não são sensíveis, mas incorporais e intelectuais. Mas para que não pareça inconveniente dizer que as realidades intelectuais não podem ser alcançadas pelos sentidos, utilizamos como exemplo uma afirmação de Salomão: “Encontrarás também uma sensibilidade divina” (Pr 2,5). Isso mostra que as realidades intelectuais são procuradas não com um sentido corporal, mas com outro sentido, chamado divino. É com esse sentido que devemos contemplar cada um dos seres racionais de que falamos acima, é com esse sentido que devemos entender aquilo de que falamos, e considerar o que escrevemos. Pois a natureza divina conhece até o que pensamos interiormente, em silêncio. É preciso julgar o que dizemos e todas as consequências que daí se podem tirar de acordo com os princípios expostos acima.

VCirculi

Author VCirculi

More posts by VCirculi
Close Menu