Aviso ao leitor
Este livro - Orígenes — “Sobre os Princípios” / Peri Archon / De Principiis - é apresentado aqui como literatura patrística e teológico-doutrinária da Igreja antiga, relevante para compreender o desenvolvimento inicial de categorias de pensamento cristão. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Por se tratar de uma obra com forte componente especulativo e construída em diálogo com debates do seu tempo, parte de suas formulações foi amplamente debatida e contestada em recepções posteriores; por isso, é disponibilizada para estudo histórico e comparativo, com leitura crítica e contextual.
ATENÇÃO
Este escrito de Orígenes é uma obra de caráter sistemático, especulativo e teológico, na qual o autor busca organizar racionalmente diversos temas da fé cristã. Por isso, o texto contém não apenas exposição doutrinária, mas também hipóteses, desenvolvimentos filosóficos e formulações especulativas que foram amplamente debatidas, questionadas e, em vários pontos, rejeitadas por tradições cristãs posteriores. Além disso, a obra chegou até nós em transmissão complexa, com discussões sobre a forma exata de partes do texto preservado. Sua presença nesta biblioteca se dá por valor histórico, teológico e crítico, como testemunho de uma das tentativas mais influentes e também mais controversas de pensar a fé cristã antiga em diálogo intenso com categorias filosóficas. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre investigação teológica do autor, especulação intelectual e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] Mas, como não é suficiente, na discussão de assuntos de tamanha importância, confiar a decisão aos sentidos humanos e ao entendimento humano, e pronunciar-nos sobre coisas invisíveis como se fossem vistas por nós, devemos, para firmar as posições que estabelecemos, apresentar o testemunho da Escritura Sagrada. E, para que esse testemunho produza uma crença segura e sem hesitação, tanto a respeito do que ainda temos de expor quanto do que já foi dito, parece necessário mostrar, em primeiro lugar, que as próprias Escrituras são divinas, isto é, foram inspiradas pelo Espírito de Deus. Por isso, com toda a brevidade possível, tiraremos das próprias Escrituras Sagradas provas sobre esse ponto que possam causar em nós uma impressão adequada, tomando nossas citações de Moisés, o primeiro legislador da nação hebraica, e das palavras de Jesus Cristo, o Autor e Chefe do sistema religioso cristão. Pois, embora tenha havido numerosos legisladores entre gregos e bárbaros, e também incontáveis mestres e filósofos que professaram declarar a verdade, não nos lembramos de nenhum legislador que tenha sido capaz de produzir na mente de nações estrangeiras uma afeição e um zelo por si que as levassem, ou a adotar voluntariamente suas leis, ou a defendê-las com todas as forças da mente. Ninguém, portanto, conseguiu introduzir e tornar conhecida a verdade que lhe parecia verdadeira, não digo entre muitas nações estrangeiras, mas nem mesmo entre os indivíduos de uma única nação, de tal maneira que o conhecimento e a crença nela se estendessem a todos. E, no entanto, não há dúvida de que era desejo dos legisladores que suas leis fossem observadas por todos os homens, se possível; e dos mestres, que aquilo que lhes parecia ser a verdade fosse conhecido por todos. Mas, sabendo que de modo algum conseguiriam produzir em si mesmos um poder tão grande que levasse nações estrangeiras a obedecer às suas leis ou a dar crédito às suas afirmações, não ousaram sequer tentar isso, para que o fracasso da empreitada não marcasse sua conduta com o selo da imprudência. E, contudo, há por todo o mundo — por toda a Grécia e por todos os países estrangeiros — incontáveis pessoas que abandonaram as leis de sua terra e aqueles que antes criam ser deuses, e se entregaram à obediência da lei de Moisés e ao discipulado e culto de Cristo; e fizeram isso não sem despertar contra si o ódio intenso dos adoradores de imagens, ficando assim frequentemente expostas a cruéis torturas e, às vezes, até mesmo à morte. E, ainda assim, abraçam e conservam com todo afeto as palavras e o ensino de Cristo.[2] E podemos ver, além disso, como essa própria religião cresceu em pouco tempo, avançando por meio do castigo e da morte de seus adoradores, pelo saque de seus bens e pelos tormentos de toda espécie que suportaram; e esse resultado é ainda mais admirável porque até mesmo seus próprios mestres não eram homens de grande habilidade, nem eram numerosos; e, no entanto, essas palavras são pregadas em todo o mundo, de modo que gregos e bárbaros, sábios e simples, acolhem as doutrinas da religião cristã. Disso se conclui, sem dúvida, que não é por poder ou força humana que as palavras de Jesus Cristo prevalecem, com toda fé e poder, sobre os entendimentos e as almas de todos os homens. Pois é claro, por Suas próprias palavras, que esses resultados foram tanto preditos por Ele quanto estabelecidos por respostas divinas procedentes dEle: “Sereis levados perante governadores e reis por Minha causa, para testemunho contra eles e contra os gentios”. E ainda: “Este evangelho do reino será pregado entre todas as nações”. E também: “Muitos Me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não comemos e bebemos em Teu nome, e em Teu nome não expulsamos demônios? E Eu lhes direi: Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade; nunca vos conheci”. Se essas palavras tivessem sido pronunciadas por Ele e, ainda assim, essas predições não se tivessem cumprido, talvez pudessem parecer falsas e sem autoridade. Mas agora, quando Suas declarações se cumprem, visto que foram preditas com tal poder e autoridade, mostra-se com toda clareza que Ele, ao fazer-Se homem, entregou aos homens os preceitos da salvação.[3] Que diremos, então, daquilo que os profetas haviam predito a respeito dEle, a saber, que não cessariam os príncipes de Judá, nem os governantes dentre as suas coxas, até que viesse Aquele para quem isso foi reservado, isto é, o reino, e até que chegasse a expectativa dos gentios? Pois é claríssimo, tanto pela própria história quanto pelo que se vê no presente, que desde os tempos de Cristo já não houve reis entre os judeus. Mais ainda: todos aqueles objetos de orgulho judaico, dos quais tanto se gloriavam e nos quais exultavam, quer se tratasse da beleza do templo, quer dos ornamentos do altar, bem como as faixas sacerdotais e as vestes dos sumos sacerdotes, tudo foi destruído juntamente. Cumpriu-se, assim, a profecia que declarara: “Os filhos de Israel ficarão muitos dias sem rei e sem príncipe; não haverá vítima, nem altar, nem sacerdócio, nem respostas”. Esses testemunhos, portanto, nós os empregamos contra aqueles que parecem afirmar que o que é dito em Gênesis por Jacó se refere a Judá, e que ainda resta um príncipe da raça de Judá — aquele, isto é, que é o príncipe da nação deles, a quem chamam Patriarca — e que não faltará um governante de sua descendência, que permanecerá até a vinda daquele Cristo que eles imaginam para si. Mas, se as palavras do profeta são verdadeiras quando diz: “Os filhos de Israel ficarão muitos dias sem rei, sem príncipe; e não haverá vítima, nem altar, nem sacerdócio”; e se, certamente, desde a destruição do templo, nem vítimas são oferecidas, nem altar algum é encontrado, nem sacerdócio existe, então é absolutamente certo que, como está escrito, os príncipes se retiraram de Judá, e o governante dentre as suas coxas, até a vinda dAquele para quem isso foi reservado. Fica estabelecido, então, que já veio Aquele para quem isso foi reservado e em quem está a expectativa dos gentios. E isso claramente parece cumprir-se na multidão dos que, dentre as diferentes nações, creram em Deus por meio de Cristo.[4] Também no cântico de Deuteronômio é declarado profeticamente que, por causa dos pecados do povo anterior, haveria a eleição de uma nação insensata — e não outra, certamente, senão aquela realizada por Cristo; pois assim dizem as palavras: “Eles Me provocaram à ira com suas imagens, e Eu os provocarei ao ciúme; Eu os excitarei à ira por meio de uma nação insensata”. Podemos, portanto, ver claramente como os hebreus, que são descritos como tendo despertado a ira de Deus por meio daquelas coisas que não são deuses, e como tendo inflamado Sua indignação por suas imagens, foram também eles mesmos levados ao ciúme por meio de uma nação insensata, a qual Deus escolheu pela vinda de Jesus Cristo e de Seus discípulos. Pois a linguagem do apóstolo é esta: “Vede, irmãos, a vossa vocação: não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres; mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo, e as que não são, para destruir as que antes existiam”. O Israel carnal, portanto, não deve se gloriar; pois tal é o termo usado pelo apóstolo: “Nenhuma carne, digo eu, se glorie na presença de Deus”.[5] Que diremos ainda a respeito das profecias acerca de Cristo contidas nos Salmos, especialmente naquele que traz por título “Cântico para o Amado”, no qual se declara que Sua língua é pena de escriba destro; que Ele é mais formoso do que os filhos dos homens; e que a graça foi derramada em Seus lábios? Ora, a indicação de que a graça foi derramada sobre Seus lábios é esta: que, depois de transcorrido curto espaço de tempo — pois Ele ensinou apenas durante um ano e alguns meses —, o mundo inteiro, contudo, foi cheio de Sua doutrina e da fé em Sua religião. Surgiram, então, em Seus dias justos e abundância de paz, permanecendo até o fim, fim esse que é chamado de o desaparecimento da lua; e Seu domínio se estenderá de mar a mar, e desde o rio até os confins da terra. Também foi dado um sinal à casa de Davi. Pois uma virgem concebeu e deu à luz Emanuel, que, interpretado, significa “Deus conosco”: “Sabei-o, ó nações, e sede vencidas”. Porque nós fomos vencidos e subjugados, nós que somos dos gentios, e permanecemos como despojos de Sua vitória, nós que submetemos nossos pescoços à Sua graça. Até o lugar de Seu nascimento foi predito nas profecias de Miqueias, que disse: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre os chefes de Judá; porque de ti sairá um Governante, que apascentará o Meu povo Israel”. Também se cumpriram as semanas de anos que o profeta Daniel havia predito, estendendo-se até o governo de Cristo. Além disso, está próximo Aquele que, no livro de Jó, é dito estar prestes a destruir a grande besta, e que também deu aos Seus próprios discípulos poder para pisarem serpentes e escorpiões e todo o poder do inimigo, sem serem por ele feridos. Mas, se alguém considerar as viagens dos apóstolos de Cristo pelos diversos lugares, nos quais, como Seus mensageiros, pregaram o evangelho, verá que tanto o que ousaram empreender excede o poder humano, quanto o que lhes foi dado realizar procede somente de Deus. Se considerarmos como homens, ao ouvirem que uma nova doutrina era introduzida por eles, puderam recebê-los — ou melhor, quando muitas vezes desejaram destruí-los, foram impedidos por um poder divino que havia neles —, descobriremos que, nisso, nada foi realizado por força humana, mas que o todo foi resultado do poder e da providência divina, com sinais e maravilhas, manifestos acima de toda dúvida, dando testemunho à palavra e à doutrina deles.[6] Estando agora brevemente estabelecidos esses pontos, isto é, a respeito da divindade de Cristo e do cumprimento de tudo quanto foi profetizado sobre Ele, penso que também esta posição foi confirmada: a saber, que as próprias Escrituras, que continham essas predições, foram divinamente inspiradas — aquelas, isto é, que anunciaram de antemão Sua vinda, ou o poder de Sua doutrina, ou a conversão de todas as nações à Sua obediência. A isso deve ser acrescentada esta observação: que a divindade e a inspiração tanto das predições dos profetas quanto da lei de Moisés foram claramente reveladas e confirmadas, especialmente desde a vinda de Cristo ao mundo. Pois, antes do cumprimento daqueles acontecimentos por eles preditos, não se podia demonstrar que fossem verdadeiros e inspirados por Deus, embora o fossem, porque ainda não haviam sido cumpridos. Mas a vinda de Cristo foi a declaração de que suas palavras eram verdadeiras e divinamente inspiradas, embora antes disso fosse certamente duvidoso se haveria ou não o cumprimento das coisas preditas. Se, além disso, alguém considerar as palavras dos profetas com todo o zelo e reverência que lhes convêm, certamente, ao lê-las e examiná-las atentamente, sentirá a mente e os sentidos tocados por um sopro divino, e reconhecerá que as palavras que lê não são enunciados humanos, mas linguagem de Deus; e, a partir das próprias emoções, perceberá que esses livros não são composição de habilidade humana nem de eloquência mortal, mas, por assim dizer, de um estilo divino. O esplendor da vinda de Cristo, portanto, ao iluminar a lei de Moisés com a luz da verdade, retirou o véu que havia sido colocado sobre a letra da lei e descerrou, para todo aquele que crê nEle, todas as bênçãos que estavam ocultas sob o revestimento da palavra.[7] É, contudo, tarefa que exige considerável esforço mostrar, em cada caso, como e quando as predições dos profetas se cumpriram, de modo a confirmar aqueles que duvidam, visto que qualquer pessoa que deseje tornar-se mais plenamente familiarizada com essas coisas pode recolher provas abundantes dos próprios registros da verdade. Mas, se o sentido da letra, que está além do homem, não se apresenta de imediato, à primeira vista, àqueles que são menos versados na disciplina divina, isso não é de modo algum surpreendente, porque as coisas divinas descem aos homens de forma algo lenta e se esquivam do olhar na medida em que alguém é cético ou indigno. Pois, embora seja certo que tudo quanto existe neste mundo, ou nele ocorre, seja ordenado pela providência de Deus, alguns acontecimentos de fato aparecem com suficiente clareza como estando sob o governo de Sua providência, ao passo que outros se desdobram de modo tão misterioso e incompreensível que o plano da providência divina a respeito deles fica completamente oculto; de modo que, ocasionalmente, alguns chegam a crer que certos acontecimentos não pertencem ao plano da Providência, porque lhes escapa o princípio segundo o qual as obras da providência divina são administradas com habilidade indescritível. Esse princípio de administração, porém, não é igualmente oculto a todos. Pois, mesmo entre os homens, um lhe dedica menos atenção, outro mais; e, por todo homem, Aquele que está na terra e Aquele que habita o céu é reconhecido em graus diferentes. A natureza dos corpos nos é clara de um modo; a das árvores, de outro; a dos animais, de um terceiro; a natureza das almas, por sua vez, fica oculta de maneira diversa; e o modo como os diversos movimentos dos entendimentos racionais são ordenados pela Providência escapa à vista dos homens em grau ainda maior e, em minha opinião, não em pequeno grau também à dos anjos. Mas, assim como a existência da providência divina não é refutada por aqueles que, sobretudo, têm certeza de sua existência, ainda que não compreendam seus funcionamentos e disposições pelos poderes da mente humana, assim também a inspiração divina da santa Escritura, que se estende por todo o seu corpo, não deve ser considerada inexistente porque a fraqueza do nosso entendimento não consegue descobrir o sentido oculto e secreto em cada palavra individual, estando o tesouro da sabedoria divina escondido em vasos vulgares e sem polimento de palavras, como o apóstolo também assinala ao dizer: “Temos este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus”; e isso para que o vigor do poder divino brilhe ainda mais intensamente, sem que qualquer coloração de eloquência humana se misture à verdade das doutrinas. Pois, se nossos livros levassem os homens a crer por serem compostos com arte retórica ou com sabedoria filosófica, então, sem dúvida, nossa fé seria tida como fundada na arte das palavras e na sabedoria humana, e não no poder de Deus; enquanto agora é conhecido por todos que a palavra desta pregação foi aceita por multidões em quase todo o mundo porque entenderam que sua fé repousava não em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas na manifestação do Espírito e de poder. Por isso, sendo conduzidos por um poder celeste — antes, mais do que celeste — à fé e à aceitação, para que adoremos o único Criador de todas as coisas como nosso Deus, esforcemo-nos também ao máximo para, deixando a linguagem dos elementos de Cristo, que são apenas os primeiros princípios da sabedoria, avançarmos para a perfeição, a fim de que a sabedoria dada aos que são perfeitos também nos seja concedida. Pois esta é a promessa daquele a quem foi confiada a pregação dessa sabedoria, nas palavras: “Falamos sabedoria entre os perfeitos; contudo, não a sabedoria deste mundo, nem a dos príncipes deste mundo, que serão reduzidos a nada”; com o que ele mostra que essa nossa sabedoria nada tem em comum, quanto à beleza da linguagem, com a sabedoria deste mundo. Essa sabedoria, então, será inscrita mais clara e perfeitamente em nossos corações se nos for tornada conhecida segundo a revelação do mistério que esteve oculto desde a eternidade, mas agora se manifesta por meio das Escrituras proféticas e da vinda de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, a quem seja glória para sempre. Amém. Muitos, por não compreenderem as Escrituras em sentido espiritual, mas de forma incorreta, caíram em heresias.[8] Tendo, pois, exposto brevemente esses pontos acerca da inspiração das Escrituras sagradas pelo Espírito Santo, parece necessário explicar também isto: como certas pessoas, por não as lerem corretamente, se entregaram a opiniões errôneas, visto que o procedimento a ser seguido para alcançar a compreensão dos escritos santos é desconhecido por muitos. Os judeus, enfim, por causa da dureza do coração e do desejo de parecerem sábios aos próprios olhos, não creram em nosso Senhor e Salvador, julgando que aquelas declarações feitas a Seu respeito deviam ser entendidas literalmente; isto é, que Ele deveria, de modo sensível e visível, anunciar libertação aos cativos, e primeiro reconstruir uma cidade que eles realmente consideram ser a cidade de Deus, e ao mesmo tempo eliminar os carros de Efraim e o cavalo de Jerusalém; que Ele também deveria comer manteiga e mel, para escolher o bem antes de vir a saber como produzir o mal. Pensam também que foi predito que o lobo — aquele animal de quatro patas —, na vinda de Cristo, se alimentaria com os cordeiros, e o leopardo se deitaria com os cabritos, e o bezerro e o novilho pastariam com os leões, e que todos seriam conduzidos por uma criança pequena ao pasto; que o boi e o urso repousariam juntos nos campos verdes, e que seus filhotes seriam alimentados juntos; que também os leões frequentariam os currais com os bois e comeriam palha. E, vendo que, segundo a história, não houve cumprimento de nenhuma daquelas coisas preditas a respeito dEle, nas quais criam que os sinais da vinda de Cristo deveriam ser observados especialmente, recusaram-se a reconhecer a presença de nosso Senhor Jesus Cristo; e, mais ainda, contra todos os princípios da lei humana e divina, isto é, contra a fé da profecia, O crucificaram por haver assumido para Si o nome de Cristo. Em seguida, os hereges, lendo que está escrito na lei: “Acendeu-se um fogo em Minha ira”; e que “Eu, o Senhor, sou Deus zeloso, que visito os pecados dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração”; e que “Arrependo-Me de ter ungido Saul rei”; e: “Eu sou o Senhor, que faço a paz e crio o mal”; e ainda: “Não há mal na cidade que o Senhor não tenha feito”; e: “Males desceram do Senhor sobre as portas de Jerusalém”; e: “Um espírito maligno do Senhor atormentava Saul”; e lendo muitas outras passagens semelhantes, encontradas na Escritura, não ousaram afirmar que estas não fossem Escrituras de Deus, mas consideraram-nas palavras daquele Deus criador a quem os judeus adoravam e que, segundo julgavam, devia ser considerado apenas justo, e não também bom; e que o Salvador teria vindo para nos anunciar um Deus mais perfeito, que, alegam eles, não é o criador do mundo — havendo entre eles, aliás, opiniões diferentes e discordantes até sobre esse ponto —, porque, uma vez que se afastam da fé em Deus, o Criador e Senhor de todos, entregam-se a várias invenções e fábulas, forjando certas ficções e afirmando que algumas coisas visíveis foram feitas por um deus, e outras invisíveis foram criadas por outro, segundo as sugestões vãs e fantasiosas de suas próprias mentes. E não poucos também dos mais simples dentre aqueles que parecem manter-se dentro da fé da Igreja opinam que não há Deus maior do que o Criador, sustentando nisso uma opinião correta e sã; e, ainda assim, concebem a respeito dEle ideias que não conceberiam nem mesmo acerca do mais injusto e cruel dos homens.[9] Ora, a razão da compreensão errônea de todos esses pontos por parte daqueles que mencionamos não é outra senão esta: que a santa Escritura não é entendida por eles segundo seu sentido espiritual, mas segundo seu sentido literal. Por isso, procuraremos, na medida em que nossa capacidade limitada o permitir, mostrar àqueles que creem que as santas Escrituras não são composições humanas, mas foram escritas por inspiração do Espírito Santo e nos foram transmitidas e confiadas pela vontade de Deus Pai, por meio de Seu Filho unigênito Jesus Cristo, qual nos parece ser, a nós que observamos as coisas por uma reta via de entendimento, a norma e a disciplina entregues aos apóstolos por Jesus Cristo e por eles transmitidas em sucessão à sua posteridade, os mestres da santa Igreja. Ora, que existem certas economias místicas indicadas na santa Escritura, penso que é admitido por todos, até pelos mais simples dos fiéis. Mas quais sejam essas economias, ou de que natureza sejam, aquele que é são de mente e não vencido pelo vício da vanglória reconhecerá escrupulosamente que as ignora. Pois, se alguém, por exemplo, trouxesse o caso das filhas de Ló, que parecem, contra a lei de Deus, ter se unido a seu pai; ou o das duas mulheres de Abraão; ou o das duas irmãs que foram dadas em casamento a Jacó; ou o das duas servas que aumentaram o número de seus filhos, que outra resposta poderia ser dada senão que essas coisas eram certos mistérios e figuras de realidades espirituais, mas que ignoramos de que natureza são? Mais ainda: quando lemos sobre a construção do tabernáculo, temos por certo que as descrições escritas são figuras de certas coisas ocultas; mas adaptá-las aos seus padrões apropriados, e abrir e discutir cada ponto individualmente, considero ser extremamente difícil, para não dizer impossível. Que essa descrição, contudo, é, como disse, cheia de mistérios, isso não escapa nem ao entendimento comum. Mas toda a parte narrativa, que trata quer dos casamentos, quer da geração dos filhos, quer de batalhas de diferentes tipos, quer de quaisquer outras histórias, que outra coisa se deve supor que sejam senão formas e figuras de coisas ocultas e sagradas? Os homens, porém, fazem pouco esforço para exercitar o intelecto, ou imaginam que possuem conhecimento antes de realmente aprender, e a consequência é que nunca chegam a ter conhecimento; ou, se não há falta de desejo, pelo menos não há mestre; mas, se o conhecimento divino é buscado como convém, em espírito religioso e santo, e na esperança de que muitos pontos serão abertos pela revelação de Deus — já que, para o sentido humano, são extremamente difíceis e obscuros —, então, talvez, aquele que assim busca encontre aquilo que é lícito descobrir.[10] Mas, para que essa dificuldade não pareça existir apenas na linguagem dos profetas, já que todos admitem que o estilo profético abunda em figuras e enigmas, o que encontramos quando chegamos aos Evangelhos? Não está ali também escondido um sentido interior, isto é, divino, revelado somente por aquela graça recebida por quem disse: “Nós, porém, temos a mente de Cristo, para conhecermos as coisas gratuitamente dadas por Deus; as quais também falamos, não com palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito”? E, se alguém agora lesse as revelações feitas a João, quão admirado não ficaria ao perceber que nelas há tão grande quantidade de mistérios ocultos e inefáveis, nos quais é claramente compreendido, até por aqueles que não conseguem captar o que está escondido, que ali certamente há algo oculto. E não estão também as Epístolas dos apóstolos, que a alguns parecem mais claras, cheias de sentidos tão profundos que, por meio delas, como por um pequeno recipiente, parece derramar-se sobre aqueles que são capazes de compreender o sentido da sabedoria divina a claridade de uma luz incalculável? E, por isso, visto que assim é, e visto que há muitos que erram nesta vida, não considero ser fácil afirmar, sem perigo, que alguém conhece ou entende aquelas coisas que, para serem abertas, necessitam da chave do conhecimento; chave essa que o Salvador declarou estar com aqueles que eram peritos na lei. E aqui, embora seja uma digressão, penso que devemos perguntar àqueles que afirmam que antes da vinda do Salvador não havia verdade entre os que se dedicavam ao estudo da lei, como pôde nosso Senhor Jesus Cristo dizer que as chaves do conhecimento estavam com eles, os quais tinham em suas mãos os livros dos profetas e da lei. Pois assim Ele falou: “Ai de vós, intérpretes da lei, que tirastes a chave do conhecimento; vós mesmos não entrastes, e impedistes os que queriam entrar”.[11] Mas, como já havíamos começado a observar, o caminho que nos parece correto para a compreensão das Escrituras e para a investigação do seu sentido é o seguinte: somos instruídos pela própria Escritura quanto às ideias que devemos formar a seu respeito. Nos Provérbios de Salomão encontramos estabelecida mais ou menos esta regra acerca da consideração da santa Escritura: “E escreve estas coisas para ti de modo tríplice, em conselho e conhecimento, para que respondas palavras de verdade aos que tas propuserem”. Cada um, pois, deve descrever em sua própria mente, de modo tríplice, a compreensão das letras divinas; isto é, para que todos os mais simples sejam edificados, por assim dizer, pelo próprio corpo da Escritura — pois assim chamamos o sentido comum e histórico; enquanto, se alguns tiverem começado a fazer progresso considerável e forem capazes de ver algo além disso, sejam edificados pela própria alma da Escritura. Aqueles, por sua vez, que são perfeitos e se assemelham àqueles de quem o apóstolo diz: “Falamos sabedoria entre os perfeitos, não, porém, a sabedoria deste mundo, nem a dos príncipes deste mundo, que serão reduzidos a nada; mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, que Deus preordenou antes dos séculos para a nossa glória” — todos esses podem ser edificados pela própria lei espiritual, que contém a sombra dos bens futuros, como se pelo Espírito. Pois, assim como se diz que o homem consiste de corpo, alma e espírito, assim também a santa Escritura, concedida pela bondade divina para a salvação do homem; e isso, além do mais, vemos indicado no pequeno livro de O Pastor, que parece ser desprezado por alguns, onde Hermas é mandado escrever dois pequenos livros e depois anunciar aos presbíteros da Igreja o que aprendera do Espírito. Pois estas são as palavras escritas: “Escreverás”, diz ele, “dois livros; darás um a Clemente e o outro a Grapte. E Grapte admoestará as viúvas e os órfãos, e Clemente enviará pelas cidades de fora, enquanto tu anunciarás aos presbíteros da Igreja”. Grapte, portanto, a quem é ordenado admoestar os órfãos e as viúvas, é a compreensão pura da própria letra, por meio da qual são admoestadas aquelas mentes juvenis que ainda não mereceram ter Deus como Pai e por isso são chamadas órfãs. As viúvas, por sua vez, são aquelas que se afastaram do homem injusto a quem estavam unidas contra a lei, mas permaneceram viúvas porque ainda não avançaram ao ponto de se unirem ao Esposo celestial. Clemente, além disso, é ordenado a enviar às cidades de fora aquilo que foi escrito àqueles indivíduos que já estão se afastando da letra — como se o sentido fosse destinado àquelas almas que, sendo por isso edificadas, começaram a elevar-se acima dos cuidados do corpo e dos desejos da carne; ao passo que ele mesmo, que aprendera do Espírito Santo, é mandado anunciar, não por letra nem por livro, mas por voz viva, aos presbíteros da Igreja de Cristo, isto é, àqueles que possuem uma faculdade madura de sabedoria, capaz de receber ensino espiritual.[12] Este ponto, de fato, não deve passar sem observação: há certas passagens da Escritura nas quais esse corpo, como o chamamos, isto é, esse sentido histórico inferencial, nem sempre se encontra, como mostraremos adiante, mas nas quais só se pode entender aquilo que chamamos de alma ou espírito. E isso, penso eu, é indicado nos Evangelhos, onde se diz que foram colocadas, segundo o modo de purificação dos judeus, seis talhas de água, contendo duas ou três medidas cada uma; pelas quais, como já disse, a linguagem do Evangelho parece indicar, com respeito àqueles que secretamente são chamados pelo apóstolo de “judeus”, que eles são purificados pela palavra da Escritura — recebendo às vezes duas medidas, isto é, a compreensão da alma ou do espírito, segundo a explicação acima; e às vezes até três, quando, na leitura da Escritura, o sentido corporal, que é o histórico, pode ser preservado para a edificação do povo. Agora, fala-se apropriadamente de seis talhas em relação àquelas pessoas que são purificadas enquanto colocadas no mundo; pois lemos que em seis dias — número perfeito — este mundo e todas as coisas nele foram concluídos. Quão grande, então, é a utilidade desse primeiro sentido histórico que mencionamos, é atestado pela multidão de todos os crentes, que creem com fé suficiente e simplicidade, e não requer muitos argumentos, porque é abertamente manifesto a todos; ao passo que do sentido que acima chamamos, por assim dizer, de alma da Escritura, o apóstolo Paulo nos deu numerosos exemplos na primeira Epístola aos Coríntios. Pois encontramos a expressão: “Não amordaces a boca do boi que debulha”. E depois, explicando que preceito deve ser entendido com isso, acrescenta as palavras: “Porventura Deus se preocupa com bois? Ou o diz inteiramente por nossa causa? Sem dúvida, foi por nossa causa que isso foi escrito: que o que lavra, lavre com esperança, e o que debulha, o faça na esperança de participar”. Muitas outras passagens dessa natureza, explicadas desse modo a partir da lei, transmitem ampla instrução aos ouvintes.[13] Ora, uma interpretação espiritual é desta natureza: quando alguém é capaz de mostrar quais são as coisas celestiais das quais estas servem de modelo e sombra, quem são os judeus segundo a carne, e de quais coisas futuras a lei contém sombra, bem como quaisquer outras expressões desse tipo que possam ser encontradas na santa Escritura; ou quando se investiga o que é essa sabedoria escondida em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória, e que nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; ou o sentido da linguagem do apóstolo quando, empregando certas ilustrações do Êxodo ou de Números, diz: “Essas coisas lhes aconteceram como figura e foram escritas para nossa advertência, sobre quem os fins dos séculos têm chegado”. Ora, é-nos dada oportunidade de compreender de que coisas eram figuras aquelas que lhes aconteceram quando ele acrescenta: “E beberam da Rocha espiritual que os seguia, e a Rocha era Cristo”. Também em outra Epístola, ao referir-se ao tabernáculo, menciona a ordem dada a Moisés: “Farás tudo conforme o modelo que te foi mostrado no monte”. E, escrevendo aos Gálatas, e repreendendo certos indivíduos que pareciam a si mesmos ler a lei e, contudo, sem entendê-la, por ignorarem que sob o que está escrito se encontra um sentido alegórico, ele lhes diz em tom de repreensão: “Dizei-me, vós que quereis estar debaixo da lei, não ouvis a lei? Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e outro da livre. Mas o da escrava nasceu segundo a carne; o da livre, por promessa. Essas coisas são alegorias, porque estas mulheres são as duas alianças”. E aqui convém notar este ponto: o cuidado com que o apóstolo usa a expressão: “Vós que estais debaixo da lei, não ouvis a lei?” Não ouvis, isto é, não compreendeis e não conheceis? Na Epístola aos Colossenses, novamente, resumindo e condensando o sentido de toda a lei, diz: “Ninguém, pois, vos julgue por comida, ou bebida, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombra das coisas futuras”. Escrevendo também aos Hebreus e tratando daqueles que pertencem à circuncisão, ele diz: “Os que servem de exemplo e sombra das coisas celestiais”. Ora, talvez, por meio dessas ilustrações, nenhuma dúvida reste quanto aos cinco livros de Moisés, para aqueles que aceitam os escritos do apóstolo como divinamente inspirados. E, se exigirem quanto ao restante da história que os acontecimentos nela contidos sejam considerados como tendo ocorrido para exemplo daqueles de quem se fala, observamos que isso também foi afirmado na Epístola aos Romanos, onde o apóstolo aduz um exemplo do terceiro livro dos Reis, dizendo: “Reservei para Mim sete mil homens que não dobraram o joelho a Baal”; expressão que Paulo entendeu como sendo falada figuradamente dos que são chamados israelitas segundo a eleição, para mostrar que a vinda de Cristo não aproveitou somente agora aos gentios, mas que também muitíssimos da própria raça de Israel foram chamados à salvação.[14] Sendo este o estado da questão, esboçaremos, como por via de ilustração e modelo, o que nos ocorre a respeito do modo pelo qual a santa Escritura deve ser entendida nesses vários pontos, repetindo primeiro e indicando este fato: que o Espírito Santo, pela providência e vontade de Deus, mediante o poder de Seu Verbo unigênito, que no princípio era Deus com Deus, iluminou os ministros da verdade, os profetas e apóstolos, para compreender os mistérios daquelas coisas ou causas que acontecem entre os homens ou a respeito dos homens. E por homens quero agora dizer almas colocadas em corpos, que, relatando esses mistérios que lhes eram conhecidos e revelados por Cristo como se fossem uma espécie de acontecimentos humanos, ou transmitindo certas observâncias e mandamentos legais, os descreveram figuradamente; não para que qualquer um que quisesse pudesse considerar essas exposições dignas de serem pisadas, mas para que aquele que se entregasse com toda castidade, sobriedade e vigilância a estudos desse tipo pudesse, por esse meio, rastrear o sentido do Espírito de Deus, talvez profundamente oculto, e o contexto, que pode apontar em outra direção diferente daquela que o uso ordinário da linguagem indicaria. E assim ele poderia tornar-se participante do conhecimento do Espírito e do conselho divino, porque a alma não pode chegar à perfeição do conhecimento de outro modo senão pela inspiração da verdade da sabedoria divina. Consequentemente, é a respeito de Deus, isto é, do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que esses homens, cheios do Espírito divino, tratam principalmente; em seguida, os mistérios relativos ao Filho de Deus — como o Verbo se fez carne e por que desceu até assumir a forma de servo — são objeto, como eu disse, de explicação por aqueles que estão cheios do Espírito divino. Seguia-se então, necessariamente, que instruíssem os mortais por ensinamento divino a respeito das criaturas racionais, tanto as celestes quanto as mais felizes da terra; e que explicassem também as diferenças entre as almas e a origem dessas diferenças; e então mostrassem o que é este mundo e por que foi criado; e de onde brotou também a grande e terrível maldade que se espalha sobre a terra. E se essa maldade se encontra apenas nesta terra ou também em outros lugares, isso era um ponto que precisávamos aprender pelo ensino divino. Sendo, pois, intenção do Espírito Santo iluminar, a respeito desses e de assuntos semelhantes, aquelas almas santas que se haviam dedicado ao serviço da verdade, teve-se em vista, em segundo lugar, isto: que, por causa daqueles que não podiam ou não queriam entregar-se a esse trabalho e esforço pelos quais poderiam tornar-se dignos de ser instruídos ou de reconhecer coisas de tamanho valor e importância, fossem envoltos e ocultos, como dissemos antes, em linguagem comum, sob o véu de certa história e narrativa de coisas visíveis, mistérios escondidos. Assim, introduz-se a narrativa da criação visível, e a criação e formação do primeiro homem; depois, relatam-se os descendentes que dele se seguiram sucessivamente, e algumas das ações praticadas pelos bons entre a sua posteridade, e ocasionalmente também certos crimes que se diz terem cometido como homens; e depois também certos atos impuros ou ímpios são narrados como ações dos maus. A descrição das batalhas, além disso, é dada de modo admirável, e as alternâncias entre vencedores e vencidos, pelas quais certos mistérios inefáveis são dados a conhecer aos que sabem investigar declarações desse tipo. E, por uma admirável disciplina de sabedoria, a lei da verdade, inclusive a dos profetas, é implantada nas Escrituras da lei, cada uma delas tecida por uma arte divina de sabedoria como um tipo de cobertura e véu de verdades espirituais; e isso é o que chamamos de corpo da Escritura, de modo que também, assim, aquilo que chamamos de cobertura da letra, tecida pela arte da sabedoria, pudesse ser capaz de edificar e beneficiar muitos, quando outros nada tirariam dela.[15] Mas, se em todos os casos dessa cobertura, isto é, dessa história, tivesse sido preservada a conexão lógica e a ordem da lei, certamente não creríamos, possuindo assim o sentido da Escritura em série contínua, que nela houvesse algo mais além do que aparece na superfície; e, por essa razão, a sabedoria divina cuidou para que certos tropeços, ou interrupções, do sentido histórico ocorressem, mediante a introdução, no meio da narrativa, de certas impossibilidades e incongruências; para que, desse modo, a própria interrupção da narrativa pudesse, como pela interposição de um ferrolho, apresentar um obstáculo ao leitor, pelo qual ele se recusasse a reconhecer o caminho que conduz ao sentido comum; e, sendo assim excluído e barrado desse caminho, pudéssemos ser reconduzidos ao início de outro, a fim de que, entrando por uma senda estreita e passando a uma estrada mais alta e mais sublime, se revelasse a imensa largura da sabedoria divina. Isto, porém, não deve passar despercebido por nós: como o principal objetivo do Espírito Santo é preservar a coerência do sentido espiritual, seja naquelas coisas que devem ser feitas, seja naquelas que já foram realizadas, se em algum lugar Ele encontra que os acontecimentos que, segundo a história, ocorreram podem ser adaptados a um sentido espiritual, Ele compôs uma tessitura de ambos os tipos num só estilo de narração, sempre ocultando mais profundamente o significado escondido; mas, onde a narrativa histórica não podia ser tornada apropriada à coerência espiritual dos acontecimentos, Ele inseriu às vezes certas coisas que ou não ocorreram ou não poderiam ter ocorrido; e, às vezes, também o que poderia acontecer, mas não aconteceu; e faz isso ora em poucas palavras, que, tomadas em seu sentido corporal, parecem incapazes de conter a verdade, ora pela inserção de muitas. E encontramos frequentemente ser esse o caso nas partes legislativas, onde há muitas coisas manifestamente úteis entre os preceitos corporais, mas também grande número de outras nas quais não se percebe absolutamente nenhum princípio de utilidade, e às vezes até coisas julgadas impossíveis. Ora, tudo isso, como observamos, foi feito pelo Espírito Santo para que, vendo que os acontecimentos que estão na superfície não podem ser nem verdadeiros nem úteis, sejamos conduzidos à investigação daquela verdade mais profundamente escondida e à descoberta de um sentido digno de Deus naquelas Escrituras que cremos serem por Ele inspiradas.[16] E não foi somente com respeito às Escrituras compostas até a vinda de Cristo que o Espírito Santo assim procedeu; mas, sendo um e o mesmo Espírito, e procedendo de um só Deus, agiu do mesmo modo com os evangelistas e apóstolos. Pois até mesmo aquelas narrativas que Ele os inspirou a escrever não foram compostas sem o auxílio daquela Sua sabedoria cuja natureza acima explicamos. Donde, também nelas, se misturaram não poucas coisas pelas quais, sendo interrompida e quebrada a ordem histórica da narrativa, a atenção do leitor poderia ser trazida de volta, pela impossibilidade do caso, ao exame do sentido interior. Mas, para que nosso propósito seja confirmado pelos próprios fatos, examinemos as passagens da Escritura. Ora, quem há, pergunto, que possua entendimento e considere apropriada a afirmação de que o primeiro dia, o segundo e o terceiro, nos quais também são mencionados tarde e manhã, existiram sem sol, lua e estrelas — e o primeiro dia até sem céu? E quem será tão ignorante a ponto de supor que Deus, como se fosse um agricultor, plantou árvores no paraíso, no Éden, para o lado do oriente, e ali uma árvore da vida, isto é, uma árvore visível e palpável de madeira, de modo que quem dela comesse com dentes corporais obtivesse vida, e, tornando a comer de outra árvore, viesse ao conhecimento do bem e do mal? Ninguém, penso eu, pode duvidar de que a afirmação de que Deus andava à tarde no paraíso e que Adão se escondeu debaixo de uma árvore é relatada figuradamente na Escritura, para que algum sentido místico seja por isso indicado. A saída de Caim da presença do Senhor levará manifestamente um leitor cuidadoso a investigar o que é a presença de Deus e como alguém pode sair dela. Mas, para não estender além do devido limite a tarefa que temos diante de nós, é muito fácil para qualquer um que queira colher da santa Escritura o que é de fato registrado como tendo sido feito, mas que, no entanto, não pode ser acreditado como tendo ocorrido razoável e apropriadamente segundo a narrativa histórica. O mesmo estilo de narrativa escriturística ocorre abundantemente nos Evangelhos, como quando se diz que o diabo colocou Jesus sobre um alto monte para lhe mostrar dali todos os reinos do mundo e a glória deles. Como poderia acontecer literalmente, ou que Jesus fosse levado pelo diabo a um alto monte, ou que este lhe mostrasse todos os reinos do mundo — como se estivessem abaixo de Seus olhos corporais e adjacentes a um único monte —, isto é, os reinos dos persas, dos citas e dos indianos? Ou como poderia mostrar de que maneira os reis desses reinos são glorificados pelos homens? E muitos outros exemplos semelhantes serão encontrados nos Evangelhos por qualquer um que os leia com atenção e observe que, nessas narrativas que parecem estar registradas literalmente, foram inseridas e entretecidas coisas que não podem ser admitidas historicamente, mas podem ser aceitas em significação espiritual.[17] Também nas passagens que contêm mandamentos se encontram coisas semelhantes. Pois, na lei, Moisés é mandado exterminar todo macho que não for circuncidado ao oitavo dia, o que é extremamente incongruente; pois seria necessário, se se contasse que a lei foi executada segundo a história, ordenar que fossem punidos tanto os pais que não circuncidassem seus filhos quanto aqueles que eram amas de criancinhas. A declaração da Escritura, com efeito, é esta: “O macho incircunciso, isto é, o que não houver sido circuncidado, será eliminado do meio do seu povo”. E, se investigarmos as impossibilidades da lei, encontramos um animal chamado cabra-cervo, que de forma alguma pode existir, mas que, estando contado entre os animais puros, Moisés manda que seja comido; e um grifo, de que ninguém jamais se lembra ou ouviu dizer que tenha sido submetido ao poder humano, mas que o legislador proíbe usar como alimento. Acerca também da famosa observância do sábado ele fala assim: “Assentai-vos, cada um em vossas moradas; ninguém saia do seu lugar no dia de sábado”. Preceito este impossível de observar literalmente, porque homem algum pode ficar sentado o dia inteiro sem se mover do lugar em que se sentou. A respeito de cada um desses pontos, os que pertencem à circuncisão, e todos os que não querem encontrar na santa Escritura outro sentido além daquele indicado pela letra, entendem que não deve haver investigação alguma a respeito do cabra-cervo, do grifo e do abutre; e inventam algumas histórias vazias e frívolas sobre o sábado, tiradas de certas tradições, alegando que o lugar de cada um é calculado em até dois mil côvados. Outros, entre os quais está Dositeu, o samaritano, censuram de fato exposições desse tipo, mas eles mesmos estabelecem algo ainda mais ridículo, a saber: que cada um deve permanecer até a tarde na postura, lugar ou posição em que se encontrava no dia de sábado; isto é, se for encontrado sentado, deve sentar-se o dia inteiro; ou, se reclinado, deve permanecer reclinado o dia inteiro. Além disso, o mandamento que diz: “Não leveis carga no dia de sábado” parece-me uma impossibilidade. Pois os doutores judeus, em consequência desses preceitos, entregaram-se, como diz o santo apóstolo, a fábulas sem número, dizendo que não é considerado carga se alguém usa sapatos sem pregos, mas que é carga se os sapatos tiverem pregos; e que, se algo é levado sobre um ombro, consideram isso uma carga, mas, se sobre os dois, declaram que não é.[18] E agora, se fizermos exame semelhante a respeito dos Evangelhos, como parecerá de outro modo senão absurdo tomar literalmente a ordem: “Não saudeis ninguém pelo caminho”? E, no entanto, há pessoas simples que pensam que nosso Salvador deu esse mandamento aos Seus apóstolos! Como também poderá parecer possível observar uma ordem como esta, especialmente naquelas regiões onde há inverno rigoroso, com geada e gelo, isto é, que alguém não possua nem duas túnicas nem sapatos? E ainda isto: que, quando alguém for ferido na face direita, deve oferecer também a esquerda, já que todo aquele que bate com a mão direita atinge a face esquerda? Também este preceito nos Evangelhos deve ser contado entre as impossibilidades: que, se o olho direito te faz tropeçar, ele deve ser arrancado; pois, ainda que supuséssemos que se fala de olhos corporais, como parecerá apropriado que, tendo ambos os olhos a capacidade de ver, a responsabilidade pela ofensa seja transferida a um só olho, e justamente ao direito? Ou quem será considerado isento de crime gravíssimo se puser as mãos sobre si mesmo? Mas talvez as Epístolas do apóstolo Paulo pareçam ir além disso. Pois, que quer ele dizer quando afirma: “Foi alguém chamado sendo circuncidado? Não se faça incircunciso”. Esta expressão, em primeiro lugar, após exame cuidadoso, não parece ser dita em referência ao assunto de que tratava então, pois esse discurso consistia em instruções relativas ao casamento e à castidade; e estas palavras, portanto, terão a aparência de um acréscimo desnecessário a tal assunto. Em segundo lugar, que objeção haveria se, para evitar a deformidade causada pela circuncisão, um homem pudesse tornar-se incircunciso? E, em terceiro lugar, isso é totalmente impossível. O propósito de todas essas observações de nossa parte é mostrar que era intenção do Espírito Santo, que Se dignou conceder-nos as Escrituras sagradas, mostrar que não deveríamos ser edificados somente pela letra, ou por tudo o que há nela — coisa que vemos ser frequentemente impossível e inconsistente; pois, desse modo, não somente absurdos, mas impossibilidades, resultariam —, mas que devemos entender que certos acontecimentos foram entrelaçados nessa história visível os quais, quando considerados e compreendidos em seu sentido interior, fazem emergir uma lei vantajosa aos homens e digna de Deus.[19] Ninguém, porém, suspeite que não cremos que alguma história da Escritura seja real, porque desconfiamos que certos acontecimentos nela relatados não tenham ocorrido; ou que nenhum preceito da lei deva ser tomado literalmente, porque consideramos certos deles, nos quais a própria natureza ou possibilidade da coisa assim o exige, incapazes de ser observados; ou que não cremos que as predições escritas a respeito do Salvador tenham sido cumpridas de modo palpável aos sentidos; ou que Seus mandamentos não devam ser obedecidos literalmente. Devemos, portanto, declarar em resposta, já que manifestamente somos dessa opinião, que a verdade da história pode e deve ser preservada na maioria dos casos. Pois quem pode negar que Abraão foi sepultado na cova dupla em Hebrom, assim como Isaque e Jacó, e cada uma de suas esposas? Ou quem duvida de que Siquém foi dada como porção a José? Ou de que Jerusalém é a metrópole da Judeia, na qual o templo de Deus foi construído por Salomão? E assim incontáveis outras declarações. Pois as passagens que se sustentam em sua acepção histórica são muito mais numerosas do que aquelas que contêm um sentido puramente espiritual. Além disso, quem não sustentaria que o mandamento “Honra teu pai e tua mãe, para que te vá bem” é suficiente por si mesmo, sem qualquer sentido espiritual, e necessário para os que o observam? Especialmente quando Paulo também confirmou esse mandamento repetindo-o com as mesmas palavras. E que necessidade há de falar das proibições: “Não adulterarás”, “Não furtarás”, “Não dirás falso testemunho”, e outras do mesmo tipo? E quanto aos preceitos ordenados nos Evangelhos, não pode haver dúvida de que muitíssimos deles devem ser observados literalmente, como, por exemplo, quando nosso Senhor diz: “Eu, porém, vos digo: não jureis de maneira nenhuma”; e quando diz: “Todo aquele que olhar para uma mulher com intenção impura já adulterou com ela em seu coração”; assim como as admoestações encontradas nos escritos do apóstolo Paulo: “Admoestai os desordeiros, consolai os desanimados, amparai os fracos, sede pacientes com todos”, e muitas outras. E, no entanto, não tenho dúvida de que um leitor atento, em numerosos casos, hesitará se esta ou aquela história pode ser considerada literalmente verdadeira ou não; ou se este ou aquele preceito deve ou não ser observado segundo a letra. Por isso, grande esforço e trabalho devem ser empregados, até que cada leitor compreenda reverentemente que está tratando com palavras divinas e não humanas inseridas nos livros sagrados.[20] O entendimento, portanto, da santa Escritura que consideramos dever ser mantido de maneira devida e coerente é do seguinte tipo. Uma certa nação é declarada pela santa Escritura como tendo sido escolhida por Deus sobre a terra, e essa nação recebeu vários nomes; pois, às vezes, o conjunto dela é chamado Israel, e às vezes Jacó; e foi dividida por Jeroboão, filho de Nebate, em duas porções; e as dez tribos que se formaram sob ele foram chamadas Israel, enquanto as duas restantes, com as quais se uniu a tribo de Levi e aquela que descendia da linhagem real de Davi, receberam o nome de Judá. Ora, toda a terra possuída por essa nação, a qual ela recebera de Deus, foi chamada Judeia, e nela se situava a metrópole, Jerusalém; e é chamada metrópole por ser, por assim dizer, a mãe de muitas cidades, cujos nomes encontrarás frequentemente mencionados aqui e ali nos outros livros da Escritura, mas que estão reunidos num só catálogo no livro de Josué, filho de Num.[21] Sendo assim, o santo apóstolo, desejando elevar um pouco e erguer nosso entendimento acima da terra, diz em certo lugar: “Vede Israel segundo a carne”; com o que certamente quer dizer que há outro Israel que não é segundo a carne, mas segundo o Espírito. E novamente, em outra passagem: “Nem todos os que são de Israel são israelitas”.[22] Sendo ensinados, então, por ele que há um Israel segundo a carne e outro segundo o Espírito, quando o Salvador diz: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”, não entendemos essas palavras como aqueles que saboreiam as coisas terrenas, isto é, os ebionitas, que derivam a denominação de “pobres” do próprio nome, pois “Ebion” significa “pobre” em hebraico; mas entendemos que existe uma raça de almas que é chamada “Israel”, como o indica a própria interpretação do nome: pois “Israel” é interpretado como “mente”, ou “homem que vê Deus”. O apóstolo, novamente, faz revelação semelhante a respeito de Jerusalém, dizendo: “A Jerusalém de cima é livre, a qual é mãe de todos nós”. E em outra de suas Epístolas ele diz: “Mas tendes chegado ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e a uma incontável companhia de anjos, e à igreja dos primogênitos inscritos nos céus”. Se, então, há certas almas neste mundo que são chamadas Israel, e uma cidade no céu que é chamada Jerusalém, segue-se que aquelas cidades que se dizem pertencer à nação de Israel têm a Jerusalém celestial como sua metrópole; e que, de acordo com isso, entendemos como referentes ao todo de Judá — sobre o qual também julgamos que os profetas falaram em certas narrativas místicas — quaisquer predições pronunciadas a respeito da Judeia ou de Jerusalém, ou quaisquer invasões que as histórias sagradas declaram ter acontecido à Judeia ou a Jerusalém. Tudo, pois, o que é narrado ou predito sobre Jerusalém deve, se aceitarmos as palavras de Paulo como palavras de Cristo falando nele, ser entendido em conformidade com sua opinião acerca daquela cidade que ele chama Jerusalém celestial, e de todos aqueles lugares ou cidades que se diz serem cidades da terra santa, das quais Jerusalém é a metrópole. Pois devemos supor que é a partir dessas mesmas cidades que o Salvador, desejando elevar-nos a um grau mais alto de inteligência, promete àqueles que bem administraram o dinheiro a eles confiado por Ele que terão autoridade sobre dez ou cinco cidades. Se, então, as profecias proferidas acerca da Judeia, de Jerusalém, de Judá, de Israel e de Jacó, não sendo entendidas por nós em sentido carnal, significam certos mistérios divinos, segue-se certamente que também aquelas profecias proferidas acerca do Egito ou dos egípcios, da Babilônia e dos babilônios, de Sidom e dos sidônios, não devem ser entendidas como faladas daquele Egito que está na terra, nem da Babilônia terrena, de Tiro ou de Sidom. Nem podem as predições que o profeta Ezequiel pronunciou a respeito de Faraó, rei do Egito, aplicar-se a algum homem que tenha reinado sobre o Egito, como a própria natureza da passagem declara. De modo semelhante, o que se fala do príncipe de Tiro não pode ser entendido de algum homem ou rei de Tiro. E como poderíamos aceitar, como sendo dito de um homem, o que se relata em muitas passagens da Escritura e, especialmente, em Isaías, a respeito de Nabucodonosor? Pois não é um homem aquele de quem se diz que “caiu do céu”, ou que era “Lúcifer”, ou que “se levantava pela manhã”. E, quanto às predições encontradas em Ezequiel acerca do Egito, como aquela de que seria destruído por quarenta anos, de modo que o pé de homem não se acharia ali, e que sofreria tal devastação que em toda a terra o sangue dos homens subiria até os joelhos, não sei como qualquer pessoa dotada de entendimento poderia referir isso àquele Egito terreno que se confina com a Etiópia. Mas vejamos se não se pode entender de modo mais apropriado da seguinte maneira: assim como há uma Jerusalém celestial e uma Judeia celestial, e sem dúvida uma nação que as habita e é chamada Israel, assim também é possível que haja certas regiões próximas a estas que possam ser chamadas Egito, Babilônia, Tiro ou Sidom, e que os príncipes desses lugares e as almas, se é que as há, que os habitam, sejam chamados egípcios, babilônios, tírios e sidônios. Deles também, segundo o modo de vida que levam ali, pareceria resultar uma espécie de cativeiro, em consequência do qual se diz que caíram da Judeia para a Babilônia ou para o Egito, de uma condição mais alta e melhor, ou que foram espalhados por outros países.[23] Pois talvez, assim como aqueles que, deixando este mundo em virtude daquela morte comum a todos, são distribuídos, conforme suas ações e méritos — segundo forem julgados dignos —, uns no lugar chamado inferno, outros no seio de Abraão, e em diferentes localidades ou moradas; assim também, daqueles lugares, como se ali morressem, se é que a expressão pode ser usada, descem do mundo superior para este inferno. Pois esse inferno para o qual as almas dos mortos são conduzidas a partir deste mundo é, creio eu, por causa dessa distinção, chamado pela Escritura de “inferno mais baixo”, como se diz no livro dos Salmos: “Livraste a minha alma do mais profundo inferno”. Cada um, portanto, dos que descem à terra é, segundo seus méritos, ou conforme a posição que ali ocupava, destinado a nascer neste mundo em um país diferente, ou entre uma nação diferente, ou em um modo de vida diferente, ou cercado por enfermidades de tipo diverso, ou descendendo de pais piedosos, ou de pais que não são piedosos; de modo que às vezes acontece de um israelita descer entre os citas, e um pobre egípcio ser trazido à Judeia. E, no entanto, nosso Salvador veio reunir as ovelhas perdidas da casa de Israel; e, como muitos dos israelitas não aceitaram Seu ensino, aqueles que pertenciam aos gentios foram chamados. Disso parecerá seguir-se que aquelas profecias dirigidas às nações individuais devem ser referidas antes às almas e às suas diferentes moradas celestiais. Mais ainda: as narrativas dos acontecimentos que se diz terem sucedido à nação de Israel, ou a Jerusalém, ou à Judeia, quando assaltadas por esta ou aquela nação, em muitos casos não podem ser entendidas como tendo realmente ocorrido, e são muito mais apropriadas àquelas nações de almas que habitam esse céu do qual se diz que passará, ou que ainda agora se supõe serem seus habitantes. Se alguém agora exigir de nós declarações claras e distintas sobre esses pontos a partir da santa Escritura, devemos responder que foi intenção do Espírito Santo, nas partes que parecem relatar a história dos acontecimentos, antes encobrir e esconder o sentido; nessas passagens, por exemplo, onde se diz que desceram ao Egito, ou foram levados cativos para a Babilônia, ou quando, nesses mesmos países, alguns são ditos ter sido reduzidos a extrema humilhação e colocados em servidão a seus senhores, enquanto outros, novamente, nesses mesmos países de seu cativeiro, eram tidos em honra e estima, a ponto de ocuparem posições de dignidade e poder e serem postos no governo de províncias — todas essas coisas, como dissemos, são mantidas escondidas e veladas nas narrativas da santa Escritura, porque “o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo; o qual, quando um homem o encontra, o esconde, e, por causa da alegria, vai, vende tudo quanto tem e compra aquele campo”. Por essa semelhança, considera se não se aponta que o próprio solo e superfície, por assim dizer, da Escritura — isto é, o sentido literal — é o campo, cheio de plantas e flores de toda espécie; enquanto aquele sentido espiritual mais profundo e mais elevado são os próprios tesouros escondidos de sabedoria e conhecimento, que o Espírito Santo por Isaías chama de tesouros obscuros, invisíveis e ocultos, para cuja descoberta é necessário o auxílio divino; pois somente Deus pode romper as portas de bronze pelas quais estão encerrados e ocultos, e quebrar os ferrolhos e alavancas de ferro pelos quais se impede o acesso a todas aquelas coisas que estão escritas e escondidas em Gênesis a respeito dos diferentes tipos de almas e daquelas sementes e gerações que ou têm estreita conexão com Israel ou estão muito afastadas de sua descendência; assim como também o que significa aquela descida de setenta almas ao Egito, as quais setenta almas se tornaram naquela terra como as estrelas do céu em multidão. Mas, como nem todas elas eram a luz deste mundo — pois nem todos os que são de Israel são Israel —, elas crescem de setenta almas até se tornarem um povo numeroso como a areia do mar, inumerável.

