[1] As anteriores foram as visões mais eminentes dos próprios benditos mártires Sáturo e Perpétua, as quais eles mesmos entregaram por escrito. Mas Deus chamou Secúndulo, enquanto ele ainda estava na prisão, por uma saída mais precoce do mundo, não sem favor, de modo a dar uma pausa às feras. Contudo, ainda que sua alma não reconhecesse motivo de gratidão, certamente sua carne o reconheceu.
[2] Mas, quanto a Felicidade — pois também a ela o favor do Senhor se aproximou do mesmo modo —, quando já estava grávida de oito meses, pois estava grávida quando foi presa, à medida que se aproximava o dia do espetáculo, ela estava em grande tristeza, temendo que, por causa de sua gravidez, fosse adiada, porque mulheres grávidas não têm permissão para ser punidas publicamente; e temendo que derramasse seu sangue sagrado e inocente entre alguns que depois haviam sido ímpios. Além disso, também seus companheiros mártires estavam dolorosamente entristecidos, para que não deixassem sozinha, no caminho da mesma esperança, uma amiga tão excelente e, por assim dizer, companheira. Portanto, unindo seu clamor comum, derramaram sua oração ao Senhor três dias antes do espetáculo. Imediatamente depois da oração deles, vieram-lhe as dores; e, quando, com a dificuldade natural de um parto de oito meses, ela sofria no trabalho de dar à luz, um dos servos dos Cataractários lhe disse: “Tu, que agora estás em tal sofrimento, o que farás quando fores lançada às feras, as quais desprezaste quando recusaste sacrificar?” E ela respondeu: “Agora sou eu que sofro aquilo que sofro; mas então haverá outro em mim, que sofrerá por mim, porque também eu estou prestes a sofrer por Ele.” Assim ela deu à luz uma menina, que certa irmã criou como sua filha.
[3] Visto, então, que o Espírito Santo permitiu e, permitindo, quis que os acontecimentos daquele espetáculo fossem entregues por escrito, embora sejamos indignos de completar a descrição de tão grande glória, ainda assim obedecemos como que ao mandamento da muitíssimo bendita Perpétua, antes, ao seu sagrado encargo, e acrescentamos mais um testemunho acerca de sua constância e de sua elevação de mente. Enquanto eram tratados com maior severidade pelo tribuno, porque, pelas insinuações de certos homens enganadores, ele temia que fossem retirados da prisão por algum tipo de encantamento mágico, Perpétua respondeu diante de sua face e disse: “Por que ao menos não permites que sejamos revigorados, visto que somos, como somos, desagradáveis ao nobilíssimo César, e temos de lutar no dia de seu nascimento? Ou não é tua glória se formos apresentados mais gordos naquela ocasião?” O tribuno estremeceu e corou, e ordenou que fossem mantidos com mais humanidade, de modo que foi dada permissão a seus irmãos e a outros para entrarem e serem revigorados com eles; até mesmo o guarda da prisão agora confiava neles.
[4] Além disso, no dia anterior, naquela última refeição, que chamam de refeição livre, participavam, tanto quanto podiam, não de uma ceia livre, mas de um ágape; com a mesma firmeza proferiam palavras como estas ao povo, denunciando contra eles o juízo do Senhor, dando testemunho da felicidade de sua paixão, rindo da curiosidade do povo que se reunia; enquanto Sáturo dizia: “Amanhã não vos basta, para contemplardes com prazer aquilo que odiais. Amigos hoje, inimigos amanhã. Contudo, observai cuidadosamente nossos rostos, para que os reconheçais naquele dia do juízo.” Assim todos se retiraram dali admirados, e por causa dessas coisas muitos creram.

