Aviso ao leitor
Este livro - As Cartas de Cipriano / Epístolas - é apresentado aqui como correspondência patrística (séc. III), preservada por seu valor histórico, pastoral e disciplinar — registrando decisões, conflitos, orientações e desafios enfrentados pela Igreja de Cartago em contexto de perseguições, debates sobre penitência e unidade eclesial. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, formativa e comparativa, ajudando a compreender a prática cristã antiga e suas tensões reais.
[1] Cipriano a Fortunato, Ahymnus, Optato, Privatiano, Donátulo e Félix, seus irmãos, saudação. Vós me escrevestes, caríssimos irmãos, que, quando estáveis na cidade de Capsa com o propósito de ordenar um bispo, Superius, nosso irmão e colega, apresentou diante de vós o caso de Nino, Clementiano e Floro, nossos irmãos, que, tendo sido antes presos na perseguição e tendo confessado o nome do Senhor, venceram a violência da magistratura e o ataque de uma multidão enfurecida; mas depois, quando foram torturados diante do procônsul com severos sofrimentos, foram vencidos pela agudeza dos tormentos e caíram, por causa de seus prolongados agonizantes padecimentos, do grau de glória para o qual caminhavam na plena virtude da fé; e, após esta grave queda, incorrida não por vontade, mas por necessidade, não cessaram ainda sua penitência pelo espaço de três anos. Sobre eles, julgastes correto consultar se seria bom recebê-los agora à comunhão.[2] E, de fato, quanto à minha própria opinião, penso que a misericórdia do Senhor não faltará àqueles que se sabe terem permanecido nas fileiras do combate, terem confessado o nome, terem vencido a violência dos magistrados e o ímpeto da multidão furiosa com a perseverança de uma fé inabalável, terem suportado a prisão, terem resistido por longo tempo, em meio às ameaças do procônsul e à hostilidade do povo ao redor, a tormentos que os retorciam e dilaceravam em repetidos e prolongados suplícios; de modo que, se no último momento foram vencidos pela enfermidade da carne, isso pode ser atenuado pela consideração de seus méritos anteriores. E pode ser suficiente para tais pessoas terem perdido sua glória; mas não devemos, além disso, fechar-lhes o lugar do perdão, privando-as do amor de seu Pai e da nossa comunhão. A estes, pensamos que pode bastar, para implorar a misericórdia do Senhor, que por três anos contínuos e dolorosos, como escreveis, tenham lamentado com excessivo pranto penitencial. Certamente não penso que a paz seja concedida de modo imprudente e precipitado àqueles que, pela bravura de seu combate, não se mostraram antes faltosos na batalha; e que, se o conflito vier novamente, poderão ser capazes de recuperar sua glória. Pois, quando foi decidido no concílio que os penitentes em perigo por enfermidade deveriam ser socorridos e receber a paz, certamente devem preceder no recebimento da paz aqueles que vemos não terem caído por fraqueza de ânimo, mas que, tendo entrado no combate e tendo sido feridos, não puderam sustentar a coroa de sua confissão por causa da fraqueza da carne; especialmente porque, em seu desejo de morrer, não lhes foi permitido serem mortos, mas os tormentos dilaceraram seus corpos já exaustos por tanto tempo, não para vencer a fé, que é invencível, mas para esgotar a carne, que é fraca.[3] Entretanto, como me escrevestes para considerar plenamente este assunto com muitos dos meus colegas; e um tema tão grande reclama conselho mais amplo e mais cuidadoso a partir da conferência de muitos; e como agora quase todos, durante as primeiras celebrações da Páscoa, estão permanecendo em casa com seus irmãos; quando tiverem completado a solenidade a ser celebrada entre o seu próprio povo e começarem a vir até mim, eu o considerarei mais amplamente com cada um, para que uma opinião definida, pesada no concílio de muitos presbíteros, acerca do assunto sobre o qual me consultastes, seja estabelecida entre nós e vos seja escrita. Eu vos saúdo, caríssimos irmãos; permanecei sempre firmes em paz.

