Skip to main content
search
[1] Cipriano, e os demais seus colegas que estavam presentes no concílio, em número de sessenta e seis, ao irmão Fido, saudações. Lemos tua carta, caríssimo irmão, na qual informaste a respeito de Vítor, outrora presbítero, que nosso colega Terapio, de modo precipitado, cedo demais e com excessiva pressa, concedeu-lhe a paz antes que ele tivesse se arrependido plenamente e satisfeito ao Senhor Deus, contra quem havia pecado. Isso nos perturbou ainda mais porque houve afastamento da autoridade de nossa decisão, ao ter sido a paz concedida antes do tempo legítimo e completo de satisfação, e sem o pedido e a ciência do povo — não havendo enfermidade que tornasse isso urgente, nem necessidade que o exigisse. Contudo, depois de longo exame entre nós, considerou-se suficiente repreender nosso colega Terapio por haver procedido assim temerariamente, e instruí-lo para que não fizesse o mesmo em qualquer outro caso. Ainda assim, não entendemos que a paz, uma vez concedida de algum modo por um sacerdote de Deus, devesse ser retirada; e, por essa razão, permitimos que Vítor usufruísse da comunhão que lhe fora concedida.

[2] Mas, quanto ao caso dos infantes, acerca dos quais dizes que não devem ser batizados no segundo ou no terceiro dia após o nascimento, e que se deveria observar a lei da antiga circuncisão, de modo que pensas que aquele que acaba de nascer não deve ser batizado e santificado antes do oitavo dia, todos nós julgamos de modo muito diferente em nosso concílio. Nesse parecer que pensavas dever ser seguido, ninguém concordou; antes, todos julgamos que a misericórdia e a graça de Deus não devem ser recusadas a ninguém que tenha nascido do homem. Pois, como o Senhor diz em seu evangelho: “O Filho do Homem não veio para destruir as vidas dos homens, mas para salvá-las” (Lucas 9:56). Portanto, quanto estiver ao nosso alcance, devemos nos empenhar para que, se possível, nenhuma alma se perca. Pois o que falta àquele que uma vez foi formado no ventre pela mão de Deus? A nós, de fato, e aos nossos olhos, segundo o curso temporal deste mundo, os que nascem parecem receber crescimento. Mas tudo quanto é feito por Deus é completado pela majestade e pela obra de Deus, seu Criador.

[3] Além disso, a fé na escritura divina nos declara que, entre todos, quer sejam infantes quer sejam mais velhos, há a mesma igualdade no dom divino. Eliseu, rogando a Deus, deitou-se sobre o filho da viúva, que jazia morto, de tal modo que sua cabeça foi posta sobre a cabeça do menino, seu rosto sobre o rosto dele, e os membros de Eliseu se estenderam e se ajustaram a cada um dos membros da criança, e seus pés aos pés dela. Se isso for considerado segundo a desigualdade de nosso nascimento e de nosso corpo, um infante não poderia ser igualado a uma pessoa crescida e madura, nem seus pequenos membros poderiam ajustar-se e igualar-se aos membros maiores de um homem. Mas nisso se expressa a igualdade divina e espiritual: que todos os homens são semelhantes e iguais, uma vez que foram feitos por Deus. Nossa idade pode ter diferença no crescimento do corpo segundo o mundo, mas não segundo Deus; a menos que se diga também que a própria graça dada aos batizados é dada em maior ou menor medida segundo a idade dos que a recebem. Entretanto, o Espírito Santo não é dado por medida, mas pelo amor e pela misericórdia do Pai igualmente a todos. Pois Deus, assim como não faz acepção de pessoas, também não faz acepção de idade, visto que se mostra Pai de todos com igualdade bem ponderada para a obtenção da graça celestial.

[4] Quanto ao que dizes, que o aspecto de um infante nos primeiros dias após o nascimento não é puro, de modo que algum de nós ainda se enojaria ao beijá-lo, não pensamos que isso deva ser alegado como impedimento à graça celestial. Pois está escrito: “Para os puros, todas as coisas são puras” (Tito 1:15). E nenhum de nós deve se afastar com repulsa daquilo que Deus se dignou fazer. Pois, embora o infante esteja ainda recém-saído do nascimento, não é tal que alguém deva hesitar em beijá-lo ao lhe conceder a graça e ao estabelecer a paz; porque, ao beijar um infante, cada um de nós deve considerar, por motivo da própria religião, as mãos ainda recentes de Deus, as quais, de certo modo, beijamos no homem recém-formado e recém-nascido, quando abraçamos aquilo que Deus fez. Quanto à observância do oitavo dia na circuncisão judaica da carne, um sacramento foi dado antes em sombra e em figura; mas, quando Cristo veio, isso se cumpriu em verdade. Porque o oitavo dia, isto é, o primeiro dia depois do sábado, havia de ser aquele em que o Senhor ressuscitaria, nos daria vida e nos concederia a circuncisão do espírito. Por isso, o oitavo dia — isto é, o primeiro dia depois do sábado, o dia do Senhor — veio primeiro como figura; e essa figura cessou quando, em seguida, veio a verdade, e a circuncisão espiritual nos foi dada.

[5] Por essa razão, entendemos que ninguém deve ser impedido de obter a graça por causa dessa lei que já havia sido estabelecida, e que a circuncisão espiritual não deve ser impedida pela circuncisão carnal; pelo contrário, absolutamente todo homem deve ser admitido à graça de Cristo. Pois também Pedro, nos Atos dos Apóstolos, fala e diz: “O Senhor me disse que a nenhum homem eu chamasse comum ou impuro” (Atos 10:28). Mas, se alguma coisa pudesse impedir os homens de obter a graça, pecados mais graves deveriam antes impedir aqueles que são maduros, crescidos e de mais idade. E, no entanto, se até mesmo aos maiores pecadores, e àqueles que muito pecaram contra Deus, quando depois creram, é concedida a remissão dos pecados — e ninguém é impedido do batismo e da graça — quanto mais devemos evitar impedir um infante, que, tendo nascido há pouco, não pecou, exceto por isto: que, nascendo segundo a carne conforme Adão, contraiu desde o primeiro nascimento o contágio da antiga morte. E ele se aproxima tanto mais facilmente da recepção do perdão dos pecados justamente por isso: porque a ele são remitidos, não os seus próprios pecados, mas os pecados de outro.

[6] Portanto, caríssimo irmão, esta foi nossa opinião no concílio: que por nós ninguém deve ser impedido do batismo e da graça de Deus, que é misericordioso, benigno e amoroso para com todos. E, visto que isso deve ser observado e mantido com respeito a todos, entendemos que deve ser observado ainda mais com respeito aos infantes e aos recém-nascidos, os quais, por essa mesma razão, merecem ainda mais nosso auxílio e a misericórdia divina, porque imediatamente, no próprio início de seu nascimento, lamentando e chorando, nada fazem além de suplicar. Desejamos-te, caríssimo irmão, de todo o coração, que passes bem sempre.

VCirculi

Author VCirculi

More posts by VCirculi
Close Menu