Aviso ao leitor
Este livro - As Cartas de Cipriano / Epístolas - é apresentado aqui como correspondência patrística (séc. III), preservada por seu valor histórico, pastoral e disciplinar — registrando decisões, conflitos, orientações e desafios enfrentados pela Igreja de Cartago em contexto de perseguições, debates sobre penitência e unidade eclesial. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, formativa e comparativa, ajudando a compreender a prática cristã antiga e suas tensões reais.
Argumento: Ele proíbe um ator, se persistir em sua profissão vergonhosa, de se apresentar na Igreja. Tampouco permite que seja desculpa o fato de ele próprio não praticar a arte histriônica, contanto que a ensine a outros; nem o desculpa por falta de recursos, visto que o necessário pode ser suprido pelos recursos da Igreja; e, portanto, se os recursos da Igreja ali forem insuficientes, recomenda-lhe que venha a Cartago.
[1] Cipriano a Eucrácio, seu irmão, saudações. Por causa do nosso amor mútuo e da tua consideração por mim, pensaste, irmão caríssimo, que eu deveria ser consultado quanto à minha opinião a respeito de certo ator que, estando estabelecido entre vós, ainda persiste na desonra de sua mesma arte; e que, como mestre e instrutor, não para a formação, mas para a destruição de meninos, aquilo que aprendeu infelizmente também transmite a outros. Perguntas se tal homem deve ter comunhão conosco.[2] Eu penso que isto não convém nem à majestade divina nem à disciplina do evangelho: que a modéstia e a honra da assembleia sejam manchadas por contágio tão vergonhoso e infame.[3] Pois, se na lei os homens são proibidos de vestir roupa de mulher, e os que ofendem dessa maneira são julgados malditos, quão maior é o crime não apenas de tomar vestes femininas, mas também de representar gestos torpes, afeminados e luxuriosos por meio do ensino de uma arte imodesta.[4] E ninguém se desculpe dizendo que ele mesmo abandonou o teatro, enquanto ainda ensina a arte a outros.[5] Pois não pode parecer tê-la abandonado aquele que põe outros em seu lugar e que, em vez de apenas si mesmo, fornece muitos em seu lugar; indo contra a ordenação de Deus, instruindo e ensinando de que modo um homem pode ser rebaixado à condição de mulher, e seu sexo transformado pela arte, e como o diabo, que contamina a imagem divina, pode ser satisfeito pelos pecados de um corpo corrompido e enfraquecido.[6] Mas, se tal homem alegar pobreza e necessidade de poucos recursos, sua necessidade também pode ser socorrida entre os demais que são mantidos pelo sustento da assembleia, contanto, isto é, que ele se contente com alimento muito frugal, porém inocente.[7] E não pense ele que é resgatado por uma concessão para deixar de pecar, pois isso não é vantagem para nós, mas para ele mesmo.[8] Qualquer outra coisa que deseje, deverá buscá-la dali, proveniente de um ganho que afasta os homens do banquete de Abraão, Isaque e Jacó, e os conduz, engordados neste mundo de modo triste e pernicioso, aos tormentos eternos de fome e sede.[9] Portanto, tanto quanto puderes, chama-o de volta dessa depravação e dessa desonra para o caminho da inocência e para a esperança da vida eterna, para que ele se contente com o sustento da assembleia, modesto, sem dúvida, mas salutar.[10] Mas, se a assembleia entre vós não for suficiente para isso, a fim de prover sustento aos necessitados, ele pode transferir-se para junto de nós e aqui receber o que lhe for necessário para alimento e vestuário; e assim não ensinar coisas mortais a outros fora da assembleia, mas aprender ele mesmo coisas saudáveis na assembleia.[11] Eu te saúdo de coração, irmão caríssimo. Adeus.
