Aviso ao leitor
Este livro - As Cartas de Cipriano / Epístolas - é apresentado aqui como correspondência patrística (séc. III), preservada por seu valor histórico, pastoral e disciplinar — registrando decisões, conflitos, orientações e desafios enfrentados pela Igreja de Cartago em contexto de perseguições, debates sobre penitência e unidade eclesial. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, formativa e comparativa, ajudando a compreender a prática cristã antiga e suas tensões reais.
[1] Cipriano a Cecílio, seu irmão, saudações. Embora eu saiba, caríssimo irmão, que muitíssimos dos bispos que foram colocados sobre as igrejas do Senhor pela condescendência divina, em todo o mundo, mantêm a norma da verdade evangélica e da tradição do Senhor, e não se afastam, por instituição humana e nova, daquilo que Cristo, nosso Mestre, tanto prescreveu quanto fez; ainda assim, visto que alguns, por ignorância ou simplicidade, ao santificar o cálice do Senhor e ao ministrá-lo ao povo, não fazem aquilo que Jesus Cristo, nosso Senhor e Deus, fundador e mestre deste sacrifício, fez e ensinou, considerei ser coisa tanto religiosa quanto necessária escrever-te esta carta, para que, se alguém ainda estiver retido nesse erro, possa contemplar a luz da verdade e retornar à raiz e à origem da tradição do Senhor. E não deves pensar, caríssimo irmão, que escrevo pensamentos meus ou de homem algum, nem que assumo isto para mim com ousadia por minha própria vontade, pois sempre conservo minha pequenez com humilde e modesta moderação. Mas, quando algo é prescrito pela inspiração e pelo mandamento de Deus, é necessário que um servo fiel obedeça ao Senhor, absolvido de toda acusação de presumir arrogantemente algo de si mesmo, visto que é constrangido a temer ofender o Senhor, caso não faça o que lhe foi ordenado.[2] Sabe, pois, que fui advertido de que, ao oferecer o cálice, deve ser observada a tradição do Senhor, e que nada deve ser feito por nós senão aquilo que o Senhor primeiro fez por nós, isto é: que o cálice que é oferecido em memória dele seja oferecido misturado com vinho. Porque, quando Cristo diz: “Eu sou a videira verdadeira”, certamente o sangue de Cristo não é água, mas vinho; nem pode parecer estar no cálice o seu sangue, pelo qual fomos redimidos e vivificados, quando no cálice não há vinho pelo qual o sangue de Cristo seja manifestado, o qual é declarado pelo sacramento e pelo testemunho de todas as escrituras.[3] Pois encontramos também em Gênesis, no que respeita ao sacramento em Noé, que isso mesmo foi para eles precursor e figura da paixão do Senhor: que ele bebeu vinho; que se embriagou; que foi deixado nu em sua casa; que estava deitado com as coxas desnudas e expostas; que a nudez do pai foi observada por seu segundo filho e divulgada, mas foi coberta por dois, o mais velho e o mais novo; e outras coisas que não é necessário seguir em detalhe, pois basta para nós reter isto apenas: que Noé, apresentando um tipo da verdade futura, não bebeu água, mas vinho, e assim expressou a figura da paixão do Senhor.[4] Também no sacerdote Melquisedeque vemos prefigurado o sacramento do sacrifício do Senhor, conforme a escritura divina testifica e diz: “E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho.” Ora, ele era sacerdote do Deus Altíssimo e abençoou Abraão. E que Melquisedeque portava um tipo de Cristo, o Espírito Santo declara nos Salmos, dizendo, da pessoa do Pai ao Filho: “Antes da estrela da manhã eu te gerei; tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”; ordem esta que certamente procede daquele sacrifício e dele descende: que Melquisedeque era sacerdote do Deus Altíssimo; que ofereceu vinho e pão; que abençoou Abraão. Pois quem é mais sacerdote do Deus Altíssimo do que nosso Senhor Jesus Cristo, que ofereceu sacrifício a Deus Pai e ofereceu precisamente aquilo mesmo que Melquisedeque havia oferecido, isto é, pão e vinho, a saber, seu corpo e seu sangue? E quanto a Abraão, aquela bênção que veio antes pertencia ao nosso povo. Porque, se Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça, certamente todo aquele que crê em Deus e vive na fé é achado justo e já é abençoado em Abraão, o fiel, e é apresentado como justificado; como o bem-aventurado apóstolo Paulo prova quando diz: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça. Sabei, pois, que os da fé, esses são filhos de Abraão. E a escritura, prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, anunciou previamente a Abraão que nele seriam benditas todas as nações; portanto, os da fé são benditos com o fiel Abraão.” Donde encontramos no evangelho que filhos de Abraão são levantados das pedras, isto é, são reunidos dentre os gentios. E quando o Senhor louvou Zaqueu, respondeu e disse: “Hoje veio salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão.” Assim, em Gênesis, para que a bênção referente a Abraão por Melquisedeque, o sacerdote, fosse devidamente celebrada, precede a figura do sacrifício de Cristo, isto é, ordenada em pão e vinho; coisa essa que o Senhor, completando e cumprindo, ofereceu em pão e no cálice misturado com vinho, e assim ele, que é a plenitude da verdade, cumpriu a verdade da figura prefigurada.[5] Além disso, o Espírito Santo, por meio de Salomão, mostra de antemão o tipo do sacrifício do Senhor, fazendo menção da vítima imolada, do pão e do vinho, e, além disso, do altar e dos apóstolos, e diz: “A Sabedoria edificou sua casa, firmou suas sete colunas; matou suas vítimas; misturou seu vinho no cálice; também preparou sua mesa; enviou seus servos, convocando com alta proclamação ao seu cálice, dizendo: Quem é simples, volte-se para mim; e aos que carecem de entendimento ela disse: Vinde, comei do meu pão e bebei do vinho que misturei para vós.” Ele declara o vinho misturado; isto é, prediz com voz profética o cálice do Senhor misturado com água e vinho, para que se manifeste que, na paixão de nosso Senhor, foi feito aquilo que havia sido antes predito.[6] Na bênção de Judá, também essa mesma coisa é significada, onde igualmente se expressa uma figura de Cristo: que ele receberia louvor e adoração de seus irmãos; que pisaria as costas de seus inimigos rendidos e fugitivos com as mãos com que levou a cruz e venceu a morte; e que ele mesmo é o Leão da tribo de Judá, e que se reclinaria dormindo em sua paixão, e se levantaria, e seria ele mesmo a esperança dos gentios. A essas coisas a escritura divina acrescenta e diz: “Lavará sua veste no vinho e sua roupa no sangue da uva.” Mas, quando se menciona o sangue da uva, o que mais se apresenta senão o vinho do cálice do sangue do Senhor?[7] Também em Isaías o Espírito Santo testifica essa mesma coisa a respeito da paixão do Senhor, dizendo: “Por que estão vermelhas as tuas vestes, e o teu traje como o daquele que pisa no lagar cheio e bem calcado?” Pode a água tornar vermelhas as vestes? Ou é água no lagar aquilo que é pisado pelos pés ou espremido pela prensa? Certamente, portanto, menciona-se o vinho para que se entenda o sangue do Senhor, e para que aquilo que depois foi manifestado no cálice do Senhor fosse predito pelos profetas que o anunciaram. Também o pisar e a pressão do lagar são repetidamente destacados, porque, assim como não se pode chegar ao beber do vinho a menos que primeiro o cacho de uvas seja pisado e espremido, assim também nós não poderíamos beber o sangue de Cristo se Cristo primeiro não tivesse sido esmagado e comprimido, e primeiro não tivesse bebido o cálice do qual também daria aos crentes para beber.[8] Mas, sempre que a água é nomeada sozinha nas santas escrituras, refere-se ao batismo, como vemos indicado em Isaías: “Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Eis que farei coisa nova, que agora brotará; e vós a conhecereis. Farei até um caminho no deserto e rios em terra seca, para dar de beber ao meu povo escolhido, ao povo que adquiri para que anunciasse meu louvor.” Aí Deus predisse pelo profeta que, entre as nações, em lugares que antes eram secos, rios passariam depois a correr abundantemente e dariam água ao povo eleito de Deus, isto é, àqueles que foram feitos filhos de Deus pela geração do batismo. Mais ainda, novamente é predito e anunciado de antemão que os judeus, se tivessem sede e buscassem a Cristo, beberiam conosco, isto é, alcançariam a graça do batismo. “Se tiverem sede”, diz ele, “ele os conduzirá pelos desertos, fará brotar para eles água da rocha; a rocha será fendida, e a água correrá, e o meu povo beberá”; o que se cumpre no evangelho, quando Cristo, que é a Rocha, é ferido pelo golpe da lança em sua paixão; ele também, recordando o que antes fora anunciado pelo profeta, clama e diz: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.” E, para que ficasse ainda mais evidente que ali o Senhor falava, não do cálice, mas do batismo, a escritura acrescenta, dizendo: “Isto ele dizia do Espírito, que haviam de receber os que nele cressem.” Porque, pelo batismo, o Espírito Santo é recebido; e assim, pelos que são batizados e alcançaram o Espírito Santo, alcança-se o beber do cálice do Senhor. E que isso não perturbe ninguém, o fato de que, quando a escritura divina fala do batismo, diz que temos sede e bebemos, pois também o Senhor diz no evangelho: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça”; porque aquilo que é recebido com desejo faminto e sedento é bebido de modo mais pleno e abundante. Assim também, em outro lugar, o Senhor fala à mulher samaritana, dizendo: “Quem beber desta água tornará a ter sede; mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede.” Com isso também se significa o próprio batismo da água salvadora, que de fato é recebido uma só vez e não é repetido. Mas do cálice do Senhor sempre se tem sede e dele sempre se bebe na igreja.[9] E não há necessidade de muitíssimos argumentos, caríssimo irmão, para provar que o batismo é sempre indicado pela designação de água, e que assim devemos entendê-lo, pois o Senhor, quando veio, manifestou a verdade do batismo e do cálice ao ordenar que aquela água fiel, a água da vida eterna, fosse dada aos crentes no batismo, mas ensinando, pelo exemplo de sua própria autoridade, que o cálice devia ser misturado com a união de vinho e água. Pois, tomando o cálice na véspera de sua paixão, abençoou-o e o deu a seus discípulos, dizendo: “Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue do Novo Testamento, que será derramado por muitos para remissão dos pecados. Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai.” Nesta passagem encontramos que o cálice que o Senhor ofereceu era misturado, e que aquilo que ele chamou seu sangue era vinho. Donde se vê que o sangue de Cristo não é oferecido se não houver vinho no cálice, nem o sacrifício do Senhor é celebrado com consagração legítima se nossa oblação e sacrifício não corresponderem à sua paixão. Mas como beberemos com Cristo o vinho novo do fruto da videira no reino de seu Pai, se no sacrifício de Deus Pai e de Cristo não oferecemos vinho, nem misturamos o cálice do Senhor segundo a própria tradição do Senhor?[10] Além disso, o bem-aventurado apóstolo Paulo, escolhido e enviado pelo Senhor, e estabelecido pregador da verdade do evangelho, estabelece essas mesmas coisas em sua epístola, dizendo: “O Senhor Jesus, na mesma noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Do mesmo modo, depois de cear, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha.” Mas, se isso é ordenado pelo Senhor e a mesma coisa é confirmada e transmitida por seu apóstolo, que tantas vezes quantas bebemos façamos em memória do Senhor a mesma coisa que o Senhor também fez, então verificamos que aquilo que foi mandado não é observado por nós, a menos que façamos também o que o Senhor fez; e que, misturando do mesmo modo o cálice do Senhor, não nos afastemos do ensinamento divino; mas que de modo algum devemos afastar-nos dos preceitos evangélicos, e que os discípulos também devem observar e fazer as mesmas coisas que o Mestre tanto ensinou quanto fez. O bem-aventurado apóstolo, em outro lugar, ensina com mais empenho e mais força, dizendo: “Admiro-me de que tão depressa estejais passando daquele que vos chamou na graça para outro evangelho, o qual não é outro; mas há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós, ou mesmo um anjo do céu, vos pregue de outro modo além do que vos pregamos, seja anátema. Como já dissemos antes, agora também digo novamente: se alguém vos prega outro evangelho além do que recebestes, seja anátema.”[11] Visto, então, que nem o próprio apóstolo nem um anjo do céu podem pregar ou ensinar de outro modo senão como Cristo ensinou uma vez e seus apóstolos anunciaram, admiro-me grandemente de onde se originou esta prática de que, contra a disciplina evangélica e apostólica, se ofereça em alguns lugares água no cálice do Senhor, água essa que por si só não pode expressar o sangue de Cristo. O Espírito Santo também não se cala nos Salmos sobre o sacramento desta realidade, quando faz menção ao cálice do Senhor e diz: “Teu cálice inebriante, quão excelente é!” Ora, o cálice que inebria certamente é misturado com vinho, pois a água não inebria ninguém. E o cálice do Senhor inebria de tal maneira como Noé também se embriagou bebendo vinho, em Gênesis. Mas, porque a embriaguez do cálice e do sangue do Senhor não é tal como a embriaguez do vinho do mundo, já que o Espírito Santo disse no Salmo: “Teu cálice inebriante”, acrescentou: “quão excelente é!”, porque sem dúvida o cálice do Senhor embriaga os que bebem de modo que os torna sóbrios; de modo que restaura suas mentes à sabedoria espiritual; de modo que cada um recobra, deixando o sabor deste mundo, o entendimento de Deus; e, da mesma maneira que, pelo vinho comum, a mente se dissolve, a alma se afrouxa e toda tristeza é deixada de lado, assim, quando o sangue do Senhor e o cálice da salvação são bebidos, a memória do velho homem é deixada para trás, e surge esquecimento da antiga conversação mundana, e o peito triste e pesaroso, que antes estava oprimido por pecados atormentadores, é aliviado pela alegria da misericórdia divina; porque somente aquilo pode alegrar aquele que bebe na igreja e que, ao beber, conserva a verdade do Senhor.[12] E quão perverso e quão contrário é isto: que, embora o Senhor nas bodas tenha feito vinho da água, nós façamos água do vinho, quando até mesmo o sacramento dessa realidade deveria antes nos advertir e instruir a oferecer vinho nos sacrifícios do Senhor. Pois, porque entre os judeus havia falta da graça espiritual, o vinho também faltava. Porque a vinha do Senhor dos Exércitos era a casa de Israel; mas Cristo, ao ensinar e mostrar que o povo dos gentios os sucederia, e que, pelo mérito da fé, alcançaríamos depois o lugar que os judeus perderam, fez da água vinho; isto é, mostrou que, nas bodas de Cristo e da igreja, ao falharem os judeus, o povo das nações é que deveria confluir e reunir-se. Pois a escritura divina, no Apocalipse, declara que as águas significam os povos, dizendo: “As águas que viste, sobre as quais se assenta a prostituta, são povos e multidões, nações gentílicas e línguas”; o que evidentemente vemos estar contido também no sacramento do cálice.[13] Porque, visto que Cristo nos carregou a todos, na medida em que também levou nossos pecados, vemos que na água se entende o povo, mas no vinho se mostra o sangue de Cristo. Mas, quando a água é misturada com o vinho no cálice, o povo se faz um com Cristo, e a assembleia dos crentes é associada e unida àquele em quem crê; associação e união de água e vinho tão misturadas no cálice do Senhor que essa mistura já não pode ser separada. Donde, além disso, nada pode separar a igreja — isto é, o povo estabelecido na igreja, perseverando fiel e firmemente naquilo em que creu — de Cristo, de tal modo que impeça seu amor indiviso de sempre permanecer e aderir a ele. Assim, portanto, na consagração do cálice do Senhor, não pode ser oferecida água sozinha, assim como também não pode ser oferecido vinho sozinho. Porque, se alguém oferece somente vinho, o sangue de Cristo fica dissociado de nós; mas, se a água está sozinha, o povo fica dissociado de Cristo. Porém, quando ambos são misturados e unidos um ao outro por estreita união, completa-se um sacramento espiritual e celestial. Assim, o cálice do Senhor não é de fato água apenas, nem vinho apenas, a menos que cada um seja misturado com o outro; assim como, por outro lado, o corpo do Senhor não pode ser somente farinha ou somente água, a menos que ambos sejam unidos, ligados e compactados na massa de um só pão; em cujo sacramento o nosso povo é mostrado como feito um, de modo que, assim como muitos grãos, recolhidos, moídos e misturados em uma só massa, fazem um só pão, assim também em Cristo, que é o pão celestial, saibamos que há um só corpo, ao qual nosso número é unido e incorporado.[14] Não há, então, motivo, caríssimo irmão, para que alguém pense que se deva seguir o costume de certas pessoas que, em tempos passados, acharam que se devia oferecer água apenas no cálice do Senhor. Pois devemos investigar a quem eles próprios seguiram. Porque, se no sacrifício que Cristo ofereceu ninguém deve ser seguido senão Cristo, certamente convém que obedeçamos e façamos aquilo que Cristo fez e aquilo que mandou fazer, uma vez que ele mesmo diz no evangelho: “Se fizerdes tudo o que eu vos mando, já não vos chamo servos, mas amigos.” E que só a Cristo se deve ouvir, o Pai também testifica do céu, dizendo: “Este é meu Filho amado, em quem me comprazo; ouvi-o.” Portanto, se só a Cristo se deve ouvir, não devemos atentar para o que outro antes de nós possa ter pensado que devia ser feito, mas para o que Cristo, que é antes de todos, primeiro fez. Nem convém seguir a prática do homem, mas a verdade de Deus; pois Deus fala por Isaías, o profeta, e diz: “Em vão me adoram, ensinando mandamentos e doutrinas de homens.” E novamente o Senhor, no evangelho, repete essa mesma palavra e diz: “Vós rejeitais o mandamento de Deus para guardar a vossa própria tradição.” Ademais, em outro lugar ele a estabelece, dizendo: “Quem quebrar um destes menores mandamentos e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus.” Mas, se não nos é permitido quebrar sequer os menores mandamentos do Senhor, quanto mais é proibido violar aqueles tão importantes, tão grandes, tão ligados ao próprio sacramento da paixão do nosso Senhor e da nossa redenção, ou alterá-los por tradição humana em qualquer outra coisa além do que foi divinamente estabelecido! Pois, se Jesus Cristo, nosso Senhor e Deus, é ele mesmo o sumo sacerdote de Deus Pai, e primeiro ofereceu a si mesmo em sacrifício ao Pai, e ordenou que isto fosse feito em memória de si mesmo, certamente exerce verdadeiramente o ofício de Cristo o sacerdote que imita aquilo que Cristo fez; e então oferece um sacrifício verdadeiro e pleno na igreja a Deus Pai, quando procede a oferecê-lo segundo o que vê que o próprio Cristo ofereceu.[15] Mas a disciplina de toda religião e verdade é subvertida, se aquilo que foi espiritualmente prescrito não for fielmente observado; a não ser que talvez alguém tema, nos sacrifícios da manhã, que pelo sabor do vinho exale o sangue de Cristo. Assim, a fraternidade começa até mesmo a ser afastada da paixão de Cristo nas perseguições, ao aprender, nas ofertas, a inquietar-se por causa do seu sangue e do derramamento do seu sangue. Além disso, o Senhor diz no evangelho: “Qualquer que de mim se envergonhar, dele o Filho do Homem se envergonhará.” E o apóstolo também diz: “Se eu agradasse aos homens, não seria servo de Cristo.” Mas como poderemos derramar nosso sangue por Cristo, se coramos de beber o sangue de Cristo?[16] Acaso alguém se consola com esta ideia: que, embora de manhã se veja oferecer apenas água, quando chegamos à ceia oferecemos o cálice misturado? Mas, quando ceamos, não podemos reunir o povo ao nosso banquete, a fim de celebrar a verdade do sacramento na presença de toda a fraternidade. E, no entanto, não foi de manhã, mas depois da ceia, que o Senhor ofereceu o cálice misturado. Devemos então celebrar o cálice do Senhor depois da ceia, para que, por repetição contínua da ceia do Senhor, ofereçamos o cálice misturado? Convinha que Cristo oferecesse por volta do entardecer do dia, para que a própria hora do sacrifício mostrasse o declínio e o entardecer do mundo; como está escrito em Êxodo: “E toda a congregação dos filhos de Israel o imolará à tarde.” E novamente nos Salmos: “Seja o levantar das minhas mãos como sacrifício da tarde.” Mas nós celebramos a ressurreição do Senhor pela manhã.[17] E, porque fazemos menção de sua paixão em todos os sacrifícios — pois a paixão do Senhor é o sacrifício que oferecemos —, nada mais devemos fazer senão aquilo que ele fez. Pois a escritura diz: “Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha.” Portanto, todas as vezes que oferecemos o cálice em comemoração do Senhor e de sua paixão, façamos aquilo que se sabe que o Senhor fez. E chegue-se a esta conclusão, caríssimo irmão: se entre nossos predecessores alguns, por ignorância ou simplicidade, não observaram e guardaram isso que o Senhor por seu exemplo e ensino nos instruiu a fazer, pela misericórdia do Senhor pode ser concedido perdão à sua simplicidade. Mas nós não podemos ser perdoados, nós que agora somos advertidos e instruídos pelo Senhor a oferecer o cálice do Senhor misturado com vinho segundo aquilo que o Senhor ofereceu, e também a dirigir cartas aos nossos colegas sobre isso, para que a lei evangélica e a tradição do Senhor sejam guardadas em toda parte, e não haja afastamento daquilo que Cristo tanto ensinou quanto fez.[18] Negligenciar essas coisas por mais tempo e perseverar no erro anterior, o que é isso senão cair sob a repreensão do Senhor, que no salmo repreende e diz: “Que tens tu que declarar meus estatutos, ou tomar minha aliança em tua boca, visto que odeias a instrução e lançaste minhas palavras para trás? Quando viste um ladrão, consentiste com ele, e foste participante com adúlteros.” Pois declarar a justiça e a aliança do Senhor, e não fazer a mesma coisa que o Senhor fez, o que mais é senão rejeitar suas palavras e desprezar a instrução do Senhor, cometendo não furtos e adultérios terrenos, mas espirituais? Enquanto alguém furta da verdade evangélica as palavras e os atos de nosso Senhor, corrompe e adultera os preceitos divinos, como está escrito em Jeremias. Ele diz: “Que tem a palha com o trigo? Portanto, eis que eu sou contra os profetas, diz o Senhor, os quais furtam minhas palavras cada um do seu próximo, e fazem meu povo errar por suas mentiras e por sua leviandade.” Também no mesmo profeta, em outro lugar, ele diz: “Ela adulterou com troncos e pedras e, apesar de tudo isso, não voltou para mim.” Para que este furto e este adultério não nos alcancem também, devemos ser ansiosamente cuidadosos e vigiar com temor e reverência. Pois, se somos sacerdotes de Deus e de Cristo, não sei quem devemos seguir antes de tudo senão a Deus e a Cristo, uma vez que ele mesmo diz claramente no evangelho: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida.” Portanto, para que não andemos em trevas, devemos seguir a Cristo e observar seus preceitos, porque ele mesmo disse a seus apóstolos, em outro lugar, ao enviá-los: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado.” Portanto, se desejamos andar na luz de Cristo, não nos afastemos de seus preceitos e advertências, dando graças porque, enquanto ele nos instrui para o futuro quanto ao que devemos fazer, perdoa quanto ao passado, no qual, em nossa simplicidade, erramos. E porque já sua segunda vinda se aproxima de nós, sua benigna e liberal condescendência ilumina cada vez mais nossos corações com a luz da verdade.[19] Portanto, convém à nossa religião, ao nosso temor, ao próprio lugar e ao ofício do nosso sacerdócio, caríssimo irmão, que, ao misturar e oferecer o cálice do Senhor, guardemos a verdade da tradição do Senhor e, mediante a advertência do Senhor, corrijamos aquilo que parece ter sido errôneo em alguns; para que, quando ele começar a vir em seu brilho e majestade celestial, encontre-nos guardando o que nos advertiu, observando o que ensinou e fazendo o que fez. Saúdo-te, caríssimo irmão, e desejo-te de todo o coração paz e firmeza.

