Aviso ao leitor
Este livro - As Cartas de Cipriano / Epístolas - é apresentado aqui como correspondência patrística (séc. III), preservada por seu valor histórico, pastoral e disciplinar — registrando decisões, conflitos, orientações e desafios enfrentados pela Igreja de Cartago em contexto de perseguições, debates sobre penitência e unidade eclesial. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, formativa e comparativa, ajudando a compreender a prática cristã antiga e suas tensões reais.
[1] Cipriano e outros, a Estêvão, seu irmão, saudações. Julgamos necessário, para o ordenamento de certos assuntos, caríssimo irmão, e para sua averiguação mediante o exame de um concílio comum, reunir-nos e realizar um concílio, no qual muitos presbíteros se achavam reunidos ao mesmo tempo; nele, além disso, muitas coisas foram apresentadas e tratadas. Mas o assunto a respeito do qual principalmente tivemos de escrever-te e de conferenciar com tua gravidade e sabedoria é aquele que diz respeito, de modo especial, tanto à autoridade sacerdotal quanto à unidade e também à dignidade da Igreja Católica, que procedem da ordenação do desígnio divino; a saber: que aqueles que foram lavados lá fora, fora da Igreja, e foram manchados entre hereges e cismáticos pela contaminação de uma água profana, quando vêm a nós e à Igreja, que é una, devem ser batizados, porque é coisa pequena impor-lhes as mãos para que recebam o Espírito Santo, se não receberem também o batismo da Igreja. Pois somente então podem, enfim, ser plenamente santificados e tornar-se filhos de Deus, se nascerem de ambos os sacramentos; visto que está escrito: “Se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.” Encontramos também, nos Atos dos Apóstolos, que isso foi mantido pelos apóstolos e conservado na verdade da fé salvadora, de tal modo que, quando, na casa de Cornélio, o centurião, o Espírito Santo desceu sobre os gentios que ali estavam, fervorosos no ardor da fé e crendo no Senhor de todo o coração; e quando, cheios do Espírito, bendiziam a Deus em diversas línguas, ainda assim o bem-aventurado apóstolo Pedro, lembrado do preceito divino e do evangelho, ordenou que esses mesmos homens fossem batizados, embora já estivessem cheios do Espírito Santo, para que nada parecesse negligenciado na observância, segundo a instrução apostólica, em todas as coisas da lei do preceito divino e do evangelho. Mas que aquilo que os hereges usam não é batismo, e que nenhum dos que se opõem a Cristo pode aproveitar-se da graça de Cristo, isso foi recentemente exposto com cuidado na carta que foi escrita sobre esse assunto a Quinto, nosso colega estabelecido na Mauritânia; bem como numa carta que anteriormente nossos colegas escreveram aos nossos co-bispos que presidem na Numídia, de ambas as quais anexei cópias.[2] Acrescentamos, contudo, e ligamos ao que dissemos, caríssimo irmão, por consentimento e autoridade comuns, que, se também alguns presbíteros ou diáconos, que ou foram antes ordenados na Igreja Católica e depois se apresentaram como traidores e rebeldes contra a Igreja, ou foram promovidos entre os hereges por uma ordenação profana, pelas mãos de falsos bispos e anticristos, contra a instituição de Cristo, e tentaram oferecer, em oposição ao único e divino altar, sacrifícios falsos e sacrílegos fora dele, também estes, quando retornarem, sejam recebidos sob esta condição: que comunguem como leigos, e que se considere suficiente que sejam recebidos à paz, depois de terem se mostrado inimigos da paz; e que não devem, ao retornar, conservar aquelas armas de ordenação e de honra com as quais se rebelaram contra nós. Pois convém que sacerdotes e ministros, que servem ao altar e aos sacrifícios, sejam sãos e sem mancha; visto que o Senhor Deus fala em Levítico e diz: “Nenhum homem que tenha mancha ou defeito se aproximará para oferecer dons ao Senhor.” Além disso, em Êxodo, prescreve a mesma coisa e diz: “E os sacerdotes que se aproximam do Senhor Deus santifiquem-se, para que o Senhor não os abandone.” E novamente: “E, quando se aproximarem para ministrar no altar do lugar santo, não levarão sobre si iniquidade, para que não morram.” Mas que iniquidade pode ser maior, ou que mancha pode ser mais odiosa, do que ter-se colocado em oposição a Cristo; do que ter dispersado a sua Igreja, que Ele comprou e fundou com o seu sangue; do que, esquecidos da paz e do amor evangélicos, ter combatido com a loucura da discórdia hostil contra o povo de Deus unânime e concorde? Tais homens, ainda que eles mesmos retornem à Igreja, não podem, contudo, restaurar nem trazer de volta consigo aqueles que, seduzidos por eles e surpreendidos pela morte do lado de fora, pereceram fora da Igreja, sem comunhão e sem paz; as almas desses, no dia do juízo, serão requeridas das mãos daqueles que se apresentaram como autores e guias de sua ruína. Portanto, para tais pessoas, quando retornam, é suficiente que se lhes conceda perdão; pois certamente a perfídia não deve receber promoção na casa da fé. Pois o que reservamos para os bons e inocentes, e para aqueles que não se afastam da Igreja, se honramos aqueles que se apartaram de nós e se levantaram contra a Igreja?[3] Levamos essas coisas ao teu conhecimento, caríssimo irmão, por causa da nossa honra mútua e de sincera afeição, crendo que, segundo a verdade da tua religião e da tua fé, aprovarás aquilo que não é menos religioso do que verdadeiro. Mas sabemos que alguns não abandonarão o que uma vez absorveram, e não mudam facilmente seu propósito; porém, conservando firme o vínculo da paz e da concórdia entre seus colegas, mantêm certas coisas peculiares a si mesmos, que uma vez foram adotadas entre eles. Nisso, de nossa parte, não constrangemos ninguém nem impomos lei a pessoa alguma, visto que cada prelado, na administração da Igreja, tem livre o exercício de sua própria vontade, e dará conta de sua conduta ao Senhor. Desejamos-te, caríssimo irmão, de todo o coração, permanente despedida em paz.

