[1] Devemos agora dizer, no devido tempo, como devemos nos entregar ao sono, em memória dos preceitos da temperança.
[2] Pois, depois da refeição, tendo dado graças a Deus por nossa participação nos bens recebidos e pelo feliz transcurso do dia, nossa conversa deve voltar-se ao sono.
[3] A magnificência das roupas de cama, os tapetes bordados de ouro, os tapetes lisos trabalhados com ouro, as longas vestes finas de púrpura, os mantos caros e felpudos, as colchas fabricadas em púrpura, os mantos de espessa felpa e os leitos mais macios do que o próprio sono devem ser banidos.
[4] Pois, além da censura de voluptuosidade, dormir sobre penas macias é prejudicial, quando nossos corpos afundam como em cavidade aberta, por causa da moleza da cama.
[5] Tais leitos não são convenientes para quem dorme e se vira neles, porque a cama se eleva como um monte de cada lado do corpo.
[6] Nem são adequados para a digestão do alimento, mas antes para queimá-lo e assim destruir o nutrimento.
[7] Ao contrário, estender-se em leitos planos, oferecendo uma espécie de ginásio natural ao sono, contribui para a digestão do alimento.
[8] E aqueles que conseguem voltar-se em outros leitos, tendo este, por assim dizer, como ginásio natural do sono, digerem o alimento com mais facilidade e se tornam mais aptos para as emergências.
[9] Além disso, leitos com pés de prata demonstram grande ostentação.
[10] E o marfim nos leitos, depois que o corpo deixa a alma, não é permitido aos santos, sendo artifício preguiçoso de repouso.
[11] Não devemos ocupar nossos pensamentos com essas coisas.
[12] Pois o uso delas não é proibido àqueles que as possuem.
[13] Mas a solicitude por elas é proibida, porque a felicidade não se encontra nelas.
[14] Por outro lado, cheira a vaidade cínica um homem agir como Diomedes: “e estendeu-se sobre uma pele de touro selvagem”, a menos que as circunstâncias o obriguem.
[15] Ulisses corrigiu a irregularidade do leito nupcial com uma pedra.
[16] Tal frugalidade e autossuficiência eram praticadas não apenas por particulares, mas também pelos chefes dos antigos gregos.
[17] Mas por que falar deles?
[18] Jacó dormiu sobre a terra, e uma pedra lhe serviu de travesseiro.
[19] E então foi considerado digno de contemplar a visão que estava acima do homem.
[20] E, conforme a razão, o leito que usamos deve ser simples e frugal, e de tal modo construído que, evitando os extremos de excessiva indulgência e de excessivo rigor, possa ser confortável: se estiver quente, para proteger-nos; se estiver frio, para aquecer-nos.
[21] Mas que o leito não seja elaborado, e que tenha pés lisos.
[22] Pois entalhes trabalhados às vezes formam caminhos para criaturas rastejantes, que se enrolam nas fendas da obra e não escorregam para fora.
[23] Especialmente convém ao homem uma suavidade moderada no leito.
[24] Pois o sono não deve servir para o total enfraquecimento do corpo, mas para o seu relaxamento.
[25] Por isso digo que não deve vir sobre nós por amor à indulgência, mas a fim de repousarmos da ação.
[26] Devemos, portanto, dormir de modo a ser facilmente despertados.
[27] Pois está dito: “Estejam cingidos os vossos lombos, e acesas as vossas lâmpadas.”
[28] “E sede vós mesmos semelhantes a homens que aguardam o seu senhor, para que, quando ele voltar do casamento e vier bater, logo lhe abram.”
[29] “Bem-aventurados aqueles servos a quem o Senhor, quando vier, encontrar vigilantes.”
[30] Pois de nada serve um homem adormecido, assim como não serve um morto.
[31] Portanto, muitas vezes devemos levantar-nos durante a noite e bendizer a Deus.
[32] Porque bem-aventurados são os que vigiam por ele, e assim se tornam semelhantes aos anjos, aos quais chamamos vigilantes.
[33] Mas um homem adormecido nada vale, como se nem estivesse vivo.
[34] Aquele, porém, que possui a luz vigia, e a escuridão não o domina, nem o sono, porque a escuridão não domina.
[35] Aquele que foi iluminado está, portanto, desperto para Deus, e tal homem vive.
[36] Pois “o que nele foi feito era a vida”.
[37] “Bem-aventurado o homem”, diz a Sabedoria, “que me ouvir, e o homem que guardar os meus caminhos, vigiando às minhas portas, observando diariamente os umbrais das minhas entradas.”
[38] Não durmamos, pois, como os outros, mas vigiemos, diz a escritura, e sejamos sóbrios.
[39] Porque os que dormem, dormem de noite; e os que se embriagam, embriagam-se de noite, isto é, na escuridão da ignorância.
[40] Mas nós, que somos do dia, sejamos sóbrios.
[41] Pois “todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; não somos da noite nem das trevas”.
[42] Mas aquele de nós que é mais zeloso por viver a verdadeira vida e por nutrir sentimentos nobres permanecerá desperto o máximo de tempo possível, reservando para si apenas o que, nisso, for útil à sua saúde.
[43] E isso não é muito.
[44] Pois a dedicação à atividade gera uma vigília duradoura depois dos trabalhos.
[45] Não nos sobrecarregue o alimento, mas antes nos torne leves, para que sejamos o menos possível prejudicados pelo sono, como os que nadam com pesos dependurados são arrastados para baixo.
[46] Ao contrário, que a temperança nos erga, como do abismo, às empresas da vigília.
[47] Pois a opressão do sono é semelhante à morte, que nos força à insensibilidade, cortando a luz pelo fechar das pálpebras.
[48] Não fechemos, então, nós que somos filhos da verdadeira luz, a porta contra essa luz.
[49] Antes, voltando-nos para dentro de nós mesmos, iluminando os olhos do homem oculto, contemplando a própria verdade e recebendo seus fluxos, manifestemos com clareza e inteligência até mesmo aqueles sonhos que são verdadeiros.
[50] Mas os soluços daqueles que estão carregados de vinho, os roncos dos que estão empanturrados de comida, o ressonar enrolado entre as roupas da cama e os rumores dos estômagos doloridos cobrem o olho clarividente da alma, enchendo a mente de dez mil fantasias.
[51] E a causa é o excesso de alimento, que arrasta a parte racional do homem para uma condição de estupidez.
[52] Porque muito sono não traz benefício nem ao corpo nem à alma.
[53] Nem convém de forma alguma àqueles processos que têm a verdade por alvo, embora agrade à natureza.
[54] Ora, o justo Ló — pois passo por agora a narrativa da economia da regeneração — não teria sido arrastado àquela união profana, se não tivesse sido embriagado por suas filhas e vencido pelo sono.
[55] Se, portanto, cortarmos as causas que inclinam fortemente ao sono, dormiremos com mais sobriedade.
[56] Pois aqueles que têm a Palavra vigilante habitando neles não devem dormir a noite toda.
[57] Antes, devem levantar-se à noite, especialmente quando os dias começam a declinar.
[58] E um deve dedicar-se à leitura, outro começar sua arte, as mulheres tomarem a roca, e todos nós devemos, por assim dizer, combater contra o sono, acostumando-nos a isso suave e gradualmente, para que, por meio da vigília, participemos da vida por mais tempo.
[59] Nós, então, que reservamos a melhor parte da noite para a vigília, de modo nenhum devemos dormir durante o dia.
[60] E acessos de inutilidade, cochilos, espreguiçar-se e bocejar são manifestações de frivolidade e inquietação da alma.
[61] E, além de tudo, devemos saber isto: que a necessidade do sono não está na alma.
[62] Pois ela é incessantemente ativa.
[63] Mas o corpo é aliviado quando é entregue ao repouso, enquanto a alma, sem agir através do corpo, exerce inteligência dentro de si mesma.
[64] Assim também os sonhos que são verdadeiros, para aquele que reflete corretamente, são pensamentos de uma alma sóbria, não perturbada naquele momento pelas afeições do corpo, e que aconselha a si mesma do melhor modo.
[65] Pois a alma cessar de agir em si mesma seria destruição para ela.
[66] Portanto, contemplando sempre a Deus e, por contínuo trato com ele, inoculando no corpo a vigília, ela eleva o homem à igualdade com a graça angélica e, da prática da vigília, alcança a eternidade da vida.
[67] O tempo oportuno da união deve ser considerado somente por aqueles que estão unidos em matrimônio.
[68] E para os que estão unidos em matrimônio, o alvo e o propósito são a geração de filhos.
[69] E o fim é que os filhos sejam bons.
[70] Assim como para o agricultor a causa do lançar da semente é o cuidado de obter alimento, mas o fim da agricultura é a colheita dos frutos.
[71] Mas muito melhor é o agricultor que cultiva terra viva.
[72] Pois aquele cuida do alimento para um tempo, enquanto este exerce o ofício de agricultor em favor de algo duradouro.
[73] E aquele planta por si mesmo, mas este por causa de Deus.
[74] Pois foi dito: “Multiplicai-vos.”
[75] E aqui se deve subentender: assim o homem se torna imagem de Deus, enquanto coopera na geração do homem.
[76] Nem toda terra é apta a receber sementes.
[77] E, ainda que fosse qualquer terra, nem toda convém ao mesmo agricultor.
[78] Nem se deve semear sobre pedra.
[79] Nem a semente deve ser ultrajada, ela que é guia e princípio da geração, e substância que contém em si as razões implantadas da natureza.
[80] Injuriar as razões que são segundo a natureza, confiando-as, contra a razão, a passagens contrárias à natureza, é grande impiedade.
[81] Vede, então, como o sapientíssimo Moisés rejeitou simbolicamente certa semeadura infrutífera, dizendo: “Não comerás a lebre nem a hiena.”
[82] Não quer que os homens se tornem participantes de sua qualidade, nem provem apetites iguais aos seus.
[83] Pois esses animais são levados ao coito por uma espécie de furor insano.
[84] Quanto à lebre, dizem que a cada ano multiplica o ânus, conforme o número dos anos que viveu, adquirindo novos orifícios.
[85] E assim, ao proibir o comer da lebre, significa que desaconselha o amor a meninos.
[86] E quanto à hiena, dizem que ela muda alternadamente de sexo a cada ano, passando do masculino ao feminino.
[87] E, ao abster-se da hiena, significaria que não se deve precipitar em adultérios.
[88] Também eu concordo que Moisés, homem consumadamente sábio, indica claramente por essa proibição que não devemos assemelhar-nos a tais animais.
[89] Mas não concordo com a explicação do que foi dito simbolicamente.
[90] Pois a natureza jamais pode ser forçada a mudar.
[91] Aquilo que uma vez foi impresso nela não pode ser transformado em seu oposto por paixão.
[92] Porque a paixão não é natureza.
[93] E a paixão costuma desfigurar a forma, não lançá-la numa nova configuração.
[94] Ainda que muitas aves se digam mudar conforme as estações, tanto na cor quanto na voz, como o melro, que de negro se torna amarelado, e de pássaro cantor em tagarela.
[95] Do mesmo modo também o rouxinol alterna tanto sua cor como sua nota.
[96] Mas não alteram a própria natureza a ponto de, na transformação, tornarem-se fêmea em vez de macho.
[97] Antes, a nova plumagem, como roupa nova, produz uma espécie de coloração nas penas, e pouco depois ela desaparece no rigor do inverno, como a flor quando perde a cor.
[98] E do mesmo modo a própria voz, prejudicada pelo frio, enfraquece.
[99] Porque, em consequência de a pele exterior ser engrossada pelo ar ao redor, as artérias ao redor do pescoço, comprimidas e cheias, apertam fortemente a respiração.
[100] E essa, muito confinada, emite som abafado.
[101] Quando, por outro lado, a respiração se assimila ao ar circundante e se solta na primavera, é libertada de seu estado de confinamento e levada pelas artérias dilatadas, antes obstruídas.
[102] Então já não solta mais melodia moribunda, mas agora emite nota aguda.
[103] E a voz flui amplamente, e a primavera se torna o canto da voz das aves.
[104] Não se deve, portanto, de modo algum crer que a hiena alguma vez mude sua natureza.
[105] Pois o mesmo animal não possui ao mesmo tempo ambos os órgãos pudendos de macho e fêmea, como alguns imaginaram, inventando prodigiosamente hermafroditas e introduzindo entre macho e fêmea essa natureza macho-fêmea.
[106] Mas erram grandemente, porque não observaram quão amante dos filhos é a Natureza, mãe e geradora de todos.
[107] Porque este animal, a hiena, é extremamente lascivo.
[108] E sob a cauda, antes da via do excremento, tem-lhe aderida certa excrescência carnosa, semelhante na figura ao órgão feminino.
[109] Mas essa figura carnosa não possui passagem que conduza a alguma parte útil, seja ao útero, seja ao intestino reto.
[110] Tem apenas grande cavidade para receber luxúria vazia, quando os canais destinados à concepção do feto estão ocupados.
[111] E essa mesma parte está aderida tanto ao macho quanto à fêmea da hiena, porque ela é notavelmente dada à passividade vergonhosa.
[112] Pois o macho alternadamente age e sofre.
[113] E por isso também raramente se pode encontrar uma hiena fêmea.
[114] Pois esse animal não concebe com frequência, já que neles transborda abundantemente o que é uma semeadura contra a natureza.
[115] Por essa razão, parece-me também que Platão, no Fedro, repelindo o amor a meninos, o chamou de fera.
[116] Pois aqueles que mordem o freio, entregando-se aos prazeres, unem-se como quadrúpedes e tentam semear em filhos.
[117] “Deus os entregou”, como diz o apóstolo, “a paixões de ignomínia.”
[118] “Porque as suas mulheres mudaram o uso natural no que é contra a natureza.”
[119] “E semelhantemente os homens, deixando o uso natural da mulher, inflamaram-se em seu desejo uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida paga do seu erro.”
[120] Ora, nem mesmo aos animais mais licenciosos a natureza concedeu introduzir semente no canal do excremento.
[121] Pois a urina é lançada na bexiga, o alimento umedecido é levado ao ventre, a lágrima ao olho, o sangue às veias, a sujeira aos ouvidos, o muco às narinas.
[122] E ao fim do intestino reto adere o assento, pelo qual se evacuam os excrementos.
[123] Portanto, somente na hiena a natureza engenhosa inventou essa parte supérflua para cópula supérflua.
[124] E por isso ela também é por algum tempo côncava, para servir às partes prurientes.
[125] Depois, porém, essa cavidade se fecha.
[126] Pois não foi formada para a geração.
[127] Daí nos fica manifesto e absolutamente evidente que devem ser evitados os coitos entre machos, as semeaduras infrutíferas, a Vênus pervertida e as uniões andróginas, que não podem coalescer segundo a natureza.
[128] Devemos seguir a própria natureza, que proíbe isso pela constituição das partes, visto que fez o macho não para receber semente, mas para derramá-la.
[129] E Jeremias, ou melhor, o Espírito falando por ele, quando diz: “Minha casa tornou-se caverna de hienas”, repreende, com sábia alegoria, o culto aos ídolos, detestando alimento proveniente de corpos mortos.
[130] Pois verdadeiramente convém que a casa do Deus vivo seja pura de ídolos.
[131] Novamente, Moisés também proíbe comer a lebre.
[132] Pois a lebre copula em todo tempo e salta continuamente, abordando a fêmea por trás.
[133] Porque é dos animais que montam por detrás.
[134] E concebe a cada mês.
[135] E superfeta.
[136] E entra em gestação e dá à luz.
[137] E, depois de ter dado à luz, é imediatamente coberta por qualquer lebre macho, pois não se contenta com um só matrimônio.
[138] E torna a conceber ainda amamentando.
[139] Pois possui útero com dois compartimentos, e não apenas uma só cavidade vazia do útero.
[140] E assim há nela assento suficiente para o receptáculo do coito.
[141] Porque tudo o que está vazio deseja ser cheio.
[142] E acontece que, enquanto está prenhe, uma parte do útero é ainda tomada pelo desejo e se enfurece em luxúria.
[143] Por isso ocorrem nela superfetações.
[144] A proibição desse enigma nos exorta, portanto, a abster-nos de apetites violentos, de congressos incessantes, de uniões com mulheres grávidas, de coberturas alternadas, de corrupção de meninos, de adultérios e de luxúria.
[145] Por isso Moisés proibiu claramente, e não por enigmas: “Não fornicarás.”
[146] “Não adulterarás.”
[147] “Não farás violência a meninos.”
[148] Portanto, o mandamento da Palavra deve ser observado com todas as forças.
[149] E nada se deve fazer de modo algum contra as leis.
[150] Nem os mandamentos devem ser enfraquecidos.
[151] Pois o nome do desejo mau é petulância, isto é, insolência.
[152] E Platão chamou fogoso o cavalo da concupiscência, quando leu: “Tornastes-vos para mim como cavalos furiosos atrás das mulheres.”
[153] Mas aqueles anjos que foram a Sodoma nos farão conhecer o castigo das luxúrias.
[154] Pois queimaram os que quiseram ultrajá-los, juntamente com a própria cidade, descrevendo por esse sinal evidente o fogo que é fruto da luxúria.
[155] Pois “as coisas que aconteceram aos antigos”, como já dissemos, “foram escritas para nossa advertência”, para que não sejamos dominados pelos mesmos vícios e nos guardemos de incorrer em castigos semelhantes.
[156] Convém considerar os filhos como filhos, e as esposas alheias como próprias filhas.
[157] Pois conter os prazeres e dominar o ventre e as partes abaixo do ventre é o maior dos governos.
[158] Se, com efeito, a razão não permite ao sábio mover sequer o dedo temerariamente, como admitem os estóicos, quanto mais os que buscam a sabedoria devem obter domínio sobre a parte com a qual se copula?
[159] E por esta causa parece ter sido chamada pudenda, porque com esta parte do corpo se deve usar mais pudor do que com qualquer outra.
[160] Pois a natureza, assim como nos permitiu usar dos alimentos, assim também nos permitiu usar das núpcias legítimas, quanto convém, de modo útil e decoroso.
[161] Permitiu, porém, desejar a procriação dos filhos.
[162] Mas todos os que perseguem o que excede a medida caem fora do que é segundo a natureza, ferindo-se a si mesmos por meio de congressos contrários à lei.
[163] Antes de tudo, é correto que nunca usemos a prática de Vênus com adolescentes, como com mulheres.
[164] E por isso diz, aquele que foi tornado filósofo por Moisés, que não se deve semear em pedras e rochas, porque a semente genital nunca lançará ali raízes segundo a natureza.
[165] A Palavra, portanto, por meio de Moisés, ordenou clarissimamente: “Com macho não te deitarás como se deita com mulher; é abominação.”
[166] E além disso, deve-se abster-se de todo campo feminino que não seja o próprio.
[167] E o excelente Platão, recolhendo isso das divinas escrituras, aconselhou por lei, tomada dali: “Não darás o sêmen do teu concúbito à mulher do teu próximo, para te contaminares com ela.”
[168] São vãs e adúlteras as sementes das concubinas.
[169] Não semeies onde não queres que te nasça o que semeaste.
[170] E não toques mulher alguma, exceto a tua própria esposa, da qual unicamente te é lícito colher os prazeres da carne para suscitar legítima sucessão.
[171] Pois somente estas coisas são legítimas segundo a Palavra.
[172] E certamente, para aqueles que participam do dom divino na obra da produção, a semente não deve ser desperdiçada, nem maltratada, nem semeada como se a lançasses em chifres.
[173] O próprio Moisés proíbe até o contato com as próprias esposas, se por acaso elas estiverem retidas pelos fluxos menstruais.
[174] Pois não é justo poluir com o fluxo purgativo do corpo a semente genital e aquilo que em breve se tornará homem.
[175] Nem inundar e cobrir com fluxo impuro da matéria, e com os resíduos que se expelem, aquilo que é destinado à geração.
[176] Pois a semente da geração degenera e se torna inepta se for privada dos sulcos do útero.
[177] E jamais apresentou algum dos antigos hebreus unindo-se à esposa grávida.
[178] Pois, se alguém também usar o prazer dentro do matrimônio, somente o prazer, isso é contra a lei, injusto e alheio à razão.
[179] Novamente Moisés afasta os homens das mulheres grávidas até que deem à luz.
[180] Pois, na verdade, o útero, situado abaixo da bexiga e acima do intestino chamado reto, estende o colo entre os ombros da bexiga.
[181] E a boca do colo, na qual chega a semente, uma vez preenchida, fecha-se.
[182] E torna-se novamente vazia quando, purificada pelo parto, depõe o fruto.
[183] Depois de ter depositado o fruto, então recebe a semente.
[184] E não é vergonhoso para nós nomear, para utilidade dos ouvintes, as partes em que se dá a concepção do feto, pois delas Deus não se envergonhou ao fabricá-las.
[185] O útero, portanto, sedento da procriação dos filhos, recebe a semente.
[186] E, depois da semeadura, de boca fechada, rejeita o coito vergonhoso e repreensível, excluindo totalmente a luxúria.
[187] E seus apetites, que antes se voltavam aos abraços amorosos, tendo-se voltado para dentro e ocupado na procriação da prole, cooperam com o Artífice.
[188] É, portanto, profanação importunar a natureza quando já está trabalhando, irrompendo desnecessariamente em luxúria petulante.
[189] E a petulância, que tem muitos nomes e muitas espécies, quando se inclina a esta intemperança venérea, chama-se lascívia.
[190] E por esse nome se designa inclinação libidinosa, pública e incestuosa ao coito.
[191] E, quando ela cresce, grande multidão de doenças a acompanha: o desejo de iguarias, a embriaguez, o amor às mulheres, o luxo e o estudo de todos os prazeres.
[192] E sobre tudo isso obtém tirania a concupiscência.
[193] E com estas aumentam-se inumeráveis afecções aparentadas, pelas quais os costumes intemperantes são levados ao extremo.
[194] Diz a escritura: “Açoites estão preparados para os intemperantes, e castigos para os ombros dos insensatos.”
[195] Chamando ombros dos insensatos às forças da intemperança e à sua constante tolerância.
[196] Por isso: “Afasta de teus servos as esperanças vãs, e desvia de mim os desejos indecorosos.”
[197] “Que o apetite do ventre e do coito não me dominem.”
[198] Portanto, devem ser removidas para longe as múltiplas ciladas dos que armam maldades.
[199] Pois para nossa cidade não navega o parasita tolo, nem o prostituto libidinoso, que se deleita com a parte posterior.
[200] Nem a meretriz enganadora, nem qualquer outra fera de prazer semelhante.
[201] Antes, por toda a vida, semeie-se em nós ocupação boa e honesta.
[202] Em suma, ou é preciso unir-se em matrimônio, ou guardar-se inteiramente puro do matrimônio.
[203] Pois nisso consiste a questão, e isso já nos foi exposto no livro Sobre a Continência.
[204] E, se vier a ser considerada esta mesma questão — se convém tomar esposa —, como se poderá permitir livremente usar sempre tanto do alimento como do coito, como se fossem coisas necessárias?
[205] Pois daí se pode ver que os nervos, como fios, se distendem e se rompem na veemência da união.
[206] Além disso, o coito lança turvação sobre os sentidos e enfraquece as forças.
[207] Isso é claro tanto nos animais irracionais quanto nos corpos exercitados.
[208] Pois entre estes, os que se abstêm vencem os adversários nos combates.
[209] E aqueles animais que são afastados do coito andam em círculos e quase são arrastados, por terem finalmente perdido toda a força e ímpeto.
[210] O sofista de Abdera chamava o coito de pequena epilepsia, considerando-o doença sem remédio.
[211] Pois não se seguem daí relaxamentos, atribuídos ao esvaziamento e à grandeza do que se desprende?
[212] Porque o homem nasce do homem e é arrancado do homem.
[213] Vê a grandeza da perda.
[214] O homem inteiro é abstraído na evacuação do coito.
[215] Pois foi dito: “Isto agora é osso dos meus ossos e carne da minha carne.”
[216] O homem, portanto, esvazia-se tanto em semente quanto se mostra em corpo.
[217] Pois aquilo que sai é o princípio da geração.
[218] Mais ainda, a ebulição da matéria perturba e abala a constituição do corpo.
[219] Com graça falou, portanto, aquele que, interrogado sobre como ainda se relacionava com as coisas venéreas, respondeu: “Boa linguagem! Eu, por minha parte, fugi disso com o maior prazer, como de senhor agreste e louco.”
[220] Conceda-se, sim, e admita-se o matrimônio.
[221] Pois o Senhor quer que a raça humana seja multiplicada.
[222] Mas não diz: sede devassos.
[223] Nem quis que vos entregásseis ao prazer como se tivésseis nascido para o coito.
[224] Que o Pedagogo, porém, nos envergonhe, clamando por Ezequiel: “Circuncidai as vossas fornicações.”
[225] Também os animais irracionais têm um tempo oportuno para semear.
[226] Coabitar, porém, de outro modo que não seja para a procriação de filhos é fazer injúria à natureza.
[227] E a ela convém observar diligentemente, como mestra, as oportunidades de tempo que prudentemente introduz: refiro-me à velhice e à infância.
[228] Porque à infância ela ainda não concedeu isso, e à velhice já não quer mais dar esposas.
[229] Mas não quer que os homens estejam sempre entregues ao matrimônio.
[230] Ora, matrimônio é desejo de geração de filhos, não emissão desordenada de sêmen, que é coisa contrária à lei e alheia à razão.
[231] E toda a nossa vida seguirá segundo a natureza, se desde o princípio contivermos os desejos, e não eliminarmos, por artes perversas e malignas, o gênero humano que nasce pela providência divina.
[232] Pois essas mulheres, para ocultar a fornicação, aplicando drogas mortíferas que conduzem totalmente à perdição, destroem ao mesmo tempo com o feto toda a humanidade.
[233] Além disso, aos que é permitido tomar esposas, será necessário o Pedagogo, para que os mistérios da natureza não se celebrem de dia.
[234] Nem para que alguém, por exemplo, vindo pela manhã da igreja ou do fórum, copule como galo, quando esse é o tempo da oração, da leitura e das obras que convém fazer durante o dia.
[235] Mas à tarde convém repousar depois da refeição e após a ação de graças feita a Deus pelos bens recebidos.
[236] Nem sempre a natureza concede tempo para consumar a união matrimonial.
[237] Pois a união é tanto mais desejável quanto mais espaçada.
[238] Nem mesmo à noite convém comportar-se de forma imodesta e intemperante, como se estivesse nas trevas.
[239] Antes, a modéstia, que é luz da razão, deve ser encerrada na alma.
[240] Pois em nada diferiremos de Penélope, tecendo de dia a trama da temperança e desfazendo-a de noite quando vamos ao leito.
[241] Pois, se convém exercitar a honestidade, muito mais se deve mostrar honestidade à própria esposa, evitando uniões desonestas.
[242] E o fato de te comportares castamente com os de fora deve ter em casa testemunho digno de fé.
[243] Pois nada pode ser tido por honesto por aquela diante de quem a honestidade não é comprovada em tais prazeres agudos, como por certo testemunho.
[244] A benevolência, porém, quando precipitada para o congresso carnal, floresce por pouco tempo e envelhece com o corpo.
[245] E às vezes envelhece antes, quando já a libido se afrouxa, e as luxúrias de meretriz corrompem a temperança matrimonial.
[246] Pois os corações dos amantes são volúveis, e os estímulos do amor muitas vezes se apagam pelo arrependimento.
[247] E o amor muitas vezes se converte em ódio, quando a saciedade sente a repreensão.
[248] Quanto às palavras impudicas, às figuras torpes, aos beijos meretrícios e às demais lascívias deste tipo, nem sequer se devem nomear.
[249] Sigamos o apóstolo bem-aventurado, que diz claramente: “Mas fornicação e toda impureza, ou avareza, nem sequer se nomeiem entre vós, como convém aos santos.”
[250] Com razão, portanto, parece ter dito alguém: “A ninguém o coito aproveitou; mas vai bem com aquele a quem não prejudicou.”
[251] Pois até o coito legítimo é perigoso, exceto enquanto se ocupa da procriação de filhos.
[252] Acerca do que é contra a lei, a escritura diz: “A mulher prostituta será reputada como uma porca.”
[253] “Mas a que está sujeita a um marido é torre de morte para os que usam dela.”
[254] Comparou a afeição da meretriz ao capro ou ao porco.
[255] E chamou morte ao adultério que se comete na meretriz que é guardada.
[256] E chamou casa e cidade àquela em que exercem a sua intemperança.
[257] Até mesmo a vossa poesia, de certo modo reprovando isso, escreve: “Contigo estão o adultério e o nefando coito, o pacto feminino, ó cidade péssima, totalmente impura.”
[258] Ao contrário, admira os castos: “Aqueles que não foram tomados por desejo vergonhoso de outro leito, nem suportaram jamais estupros torpes e odiosos.”
[259] Pois muitos pensam que prazeres são apenas essas coisas que são contra a natureza, tais como estes pecados deles.
[260] E os que são melhores do que eles sabem que são pecados, mas são vencidos pelos prazeres, e a escuridão é o véu de suas práticas viciosas.
[261] Porque viola adulteramente seu matrimônio aquele que o usa de maneira meretrícia.
[262] E não ouve a voz do Instrutor, que clama: “O homem que sobe ao seu leito e diz em sua alma: Quem me vê? As trevas me cercam, e as paredes são meu abrigo, e ninguém vê os meus pecados. Por que temeria eu que o Altíssimo se lembrasse?”
[263] Miserabilíssimo é tal homem, que teme apenas os olhos dos homens e pensa escapar ao olhar de Deus.
[264] Pois não sabe, diz a escritura, que os olhos do Altíssimo são dez mil vezes mais brilhantes que o sol, contemplando todos os caminhos dos homens e lançando seu olhar sobre as partes ocultas.
[265] Assim novamente o Instrutor os ameaça, falando por Isaías: “Ai dos que tomam conselho em segredo e dizem: Quem nos vê?”
[266] Pode alguém escapar da luz dos sentidos, mas é impossível escapar da luz da mente.
[267] Pois, como diz Heráclito, como poderá alguém escapar ao olhar daquele que nunca se põe?
[268] Não nos cubramos, pois, de modo algum com as trevas.
[269] Porque a luz habita em nós.
[270] Pois está dito: “As trevas não a compreenderam.”
[271] E a própria noite é iluminada pela razão temperante.
[272] A escritura chamou os pensamentos dos bons de lâmpadas insones.
[273] E, ainda que alguém tente apenas praticar a ocultação no que faz, isso é confessadamente pecar.
[274] E todo aquele que peca não fere tanto o próximo, quando comete adultério, quanto a si mesmo, porque cometeu adultério, além de tornar-se pior e menos estimado.
[275] Pois aquele que peca, na medida em que peca, torna-se pior e de menor valor do que antes.
[276] E aquele que foi vencido por prazeres vis traz agora a lascívia inteiramente agarrada a si.
[277] Portanto, aquele que fornica está totalmente morto para Deus e é abandonado pela Palavra como um corpo morto pelo espírito.
[278] Pois o que é santo, como é justo, abomina ser poluído.
[279] Mas é sempre lícito ao puro tocar o puro.
[280] Não retires, eu te peço, a modéstia ao mesmo tempo em que tiras as vestes.
[281] Porque nunca é correto que o homem justo se despoje da continência.
[282] Pois, eis, este mortal revestir-se-á de imortalidade.
[283] Quando a insaciabilidade do desejo, que corre para a lascívia, tendo sido treinada para a continência e libertada do amor à corrupção, entregará o homem à castidade eterna.
[284] Pois “neste mundo casam-se e dão-se em casamento”.
[285] Mas, tendo deixado as obras da carne e sido revestidos de imortalidade, sendo a própria carne pura, buscamos o que está segundo a medida dos anjos.
[286] Assim, no Filebo, Platão, discípulo da filosofia bárbara, chamou misticamente de ateus aqueles que destroem e poluem, quanto neles está, a divindade que habita neles — isto é, a Palavra — pela associação com seus vícios.
[287] Aqueles, portanto, que foram consagrados a Deus jamais devem viver mortalmente.
[288] Nem, como diz Paulo, convém fazer os membros de Cristo membros de prostituta.
[289] Nem o templo de Deus deve tornar-se templo de paixões vis.
[290] Lembrai-vos dos vinte e quatro mil que foram rejeitados por causa da fornicação.
[291] Mas as experiências daqueles que cometeram fornicação, como já disse, são tipos destinados a corrigir nossos desejos.
[292] Além disso, o Pedagogo nos adverte com máxima clareza: “Não sigas as tuas concupiscências e abstém-te dos teus apetites.”
[293] “Porque vinho e mulheres afastarão o sábio.”
[294] “E aquele que se apega às prostitutas tornar-se-á mais ousado.”
[295] “A corrupção e o verme o herdarão, e ele será exposto publicamente a maior vergonha.”
[296] E novamente, pois ele não se cansa de fazer o bem: “Aquele que desvia os olhos do prazer coroa a sua vida.”
[297] Portanto, não é justo ser vencido pelas coisas venéreas, nem abrir-se tolamente às concupiscências, nem ser movido por apetites alheios à razão, nem desejar ser contaminado.
[298] Somente àquele que tomou esposa, e que então é agricultor, é permitido semear, quando o tempo admite a semeadura.
[299] Contra outra forma de intemperança, o melhor remédio é, certamente, a razão.
[300] Também traz auxílio a falta de saciedade, pela qual as libidos inflamadas se lançam aos prazeres.
[301] Portanto, não devemos prover para nós roupas caras, do mesmo modo que não devemos procurar variedade de alimentos.
[302] O próprio Senhor, dividindo seus preceitos em coisas relativas ao corpo, à alma e, em terceiro lugar, às coisas exteriores, nos aconselha a prover as coisas externas por causa do corpo.
[303] E governa o corpo por meio da alma e disciplina a alma, dizendo: “Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir.”
[304] “Pois a vida é mais do que o alimento, e o corpo mais do que a veste.”
[305] E acrescenta um exemplo claro de ensino: “Considerai os corvos, que não semeiam nem ceifam, não têm celeiro nem armazém, e Deus os alimenta.”
[306] “Não valeis vós muito mais do que as aves?”
[307] Até aqui quanto ao alimento.
[308] De modo semelhante, com respeito à roupa, que pertence à terceira divisão, a das coisas exteriores, ele ordena: “Considerai os lírios, como não fiam nem tecem.”
[309] “Mas eu vos digo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles.”
[310] E o rei Salomão se empenhou sobremaneira em exibir-se por causa de suas riquezas.
[311] Que coisa, pergunto, mais graciosa, mais variegada, do que as flores?
[312] Que coisa, digo, mais deleitosa do que os lírios ou as rosas?
[313] “E, se Deus assim veste a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada ao forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé?”
[314] Aqui a partícula “que” elimina a variedade no alimento.
[315] Pois isso se mostra pela escritura: “Não andeis ansiosos pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber.”
[316] Porque preocupar-se com essas coisas revela avareza e luxo.
[317] Ora, comer, considerado em si mesmo, é sinal de necessidade.
[318] A saciedade, como dissemos, é o remédio da carência.
[319] Tudo o que vai além disso é sinal de superfluidade.
[320] E a escritura declara que o supérfluo é do diabo.
[321] A expressão acrescentada torna claro o sentido.
[322] Pois, tendo dito: “Não busqueis o que haveis de comer, nem o que haveis de beber”, acrescentou: “Nem andeis em soberba inquieta.”
[323] Ora, o orgulho e o luxo tornam os homens vacilantes em relação à verdade.
[324] E a voluptuosidade, que se entrega às superfluidades, afasta da verdade.
[325] Por isso ele diz muito belamente: “Porque todas estas coisas os gentios do mundo buscam.”
[326] Os gentios são os dissolutos e tolos.
[327] E que coisas são estas que ele especifica?
[328] O luxo, a voluptuosidade, a cozinha requintada, a alimentação delicada e a glutonaria.
[329] Estas são as coisas do “que”.
[330] Mas quanto ao sustento simples, seco e úmido, por serem necessários, ele diz: “Vosso Pai sabe que necessitais dessas coisas.”
[331] E, se em uma palavra somos naturalmente dados a buscar, não destruamos a faculdade de buscar, dirigindo-a ao luxo.
[332] Antes, despertemo-la para a descoberta da verdade.
[333] Pois ele diz: “Buscai o reino de Deus, e os materiais do sustento vos serão acrescentados.”
[334] Se, então, ele afasta o cuidado ansioso pelas roupas, pelo alimento e pelas superfluidades em geral, como desnecessárias, que se deve imaginar acerca do amor ao ornamento, do tingimento da lã, da variedade de cores, da preocupação excessiva com pedras preciosas, do trabalho requintado do ouro e, mais ainda, dos cabelos artificiais e cachos arranjados?
[335] E, além disso, do pintar dos olhos, de arrancar pêlos, de pintar com vermelhão e alvaiade, de tingir os cabelos e das artes perversas empregadas em tais enganos?
[336] Não poderíamos muito bem suspeitar que o que foi dito pouco acima a respeito da erva tenha sido dito também dessas amantes desprovidas de ornamento interior e apaixonadas por adornos?
[337] Pois o campo é o mundo.
[338] E nós, regados pela graça de Deus, somos a erva.
[339] E, embora cortados, brotamos novamente, como se mostrará mais longamente no livro Sobre a Ressurreição.
[340] Mas o feno designa figuradamente a turba vulgar, apegada ao prazer passageiro, florescendo por um pouco, amante do ornamento, amante do louvor e tudo, menos amante da verdade, boa apenas para ser queimada no fogo.
[341] “Havia certo homem”, disse o Senhor, narrando, “muito rico, que se vestia de púrpura e escarlate e se regalava splendidamente todos os dias.”
[342] Este era o feno.
[343] “E certo pobre, chamado Lázaro, jazia à porta do rico, coberto de chagas, desejando fartar-se das migalhas que caíam da mesa do rico.”
[344] Esta é a erva.
[345] Ora, o rico foi castigado no Hades, tornando-se participante do fogo.
[346] Enquanto o outro refloriu no seio do Pai.
[347] Eu admiro aquela antiga cidade dos lacedemônios, que permitia somente às prostitutas usar roupas floridas e ornamentos de ouro, proibindo às mulheres honestas o amor ao adorno e permitindo que apenas as cortesãs se enfeitassem.
[348] Por outro lado, os arcontes de Atenas, afetando modo de vida polido, esquecidos de sua virilidade, usavam túnicas até os pés e traziam o crobilo, espécie de nó no cabelo, adornado com gafanhotos de ouro, para mostrar, vejam só, sua origem da terra, na ostentação da licenciosidade.
[349] E a rivalidade desses arcontes estendeu-se também aos outros jônios, a quem Homero, para mostrar sua efeminação, chama de longas-vestes.
[350] Aqueles, portanto, que se dedicam à imagem do belo, isto é, ao amor da ostentação, e não ao belo em si, e que novamente, sob belo nome, praticam idolatria, devem ser banidos para longe da verdade, como aqueles que por opinião e não por conhecimento sonham com a natureza do belo.
[351] E assim a vida aqui lhes é apenas sono profundo de ignorância.
[352] Desse sono convém despertarmo-nos e apressarmo-nos para aquilo que é verdadeiramente belo e formoso.
[353] E desejar agarrar somente isso, deixando ao mundo os adornos da terra e despedindo-nos deles antes que adormeçamos por completo.
[354] Digo, então, que o homem precisa de roupa por nenhum outro motivo senão para cobrir o corpo, para defendê-lo contra o excesso de frio e a intensidade do calor, para que a inclemência do ar não nos cause dano.
[355] E, se esse é o fim da roupa, vê que não se atribua um tipo aos homens e outro às mulheres.
[356] Pois é comum a ambos o cobrir-se, como também o comer e o beber.
[357] Sendo, pois, comum a necessidade, julgamos que a provisão também deve ser semelhante.
[358] Porque, assim como é comum a ambos precisar de coisas que os cubram, assim também suas coberturas devem ser semelhantes.
[359] Embora tal cobertura deva ser assumida de modo que se requeira também cobrir os olhos das mulheres.
[360] Pois, se o sexo feminino, por causa de sua fraqueza, deseja mais, devemos culpar o hábito desse mau treinamento, pelo qual muitas vezes homens criados em maus costumes se tornam mais efeminados do que as próprias mulheres.
[361] Mas não se deve ceder a isso.
[362] E, se alguma acomodação tiver de ser feita, pode-se permitir-lhes usar vestes mais macias.
[363] Contanto que se afastem os tecidos insensatamente finos e curiosamente trabalhados na tecelagem.
[364] E deem adeus aos bordados de ouro, às sedas indianas e aos elaborados bombices.
[365] Estes, a princípio, são verme; depois deles se produz lagarta peluda; e então a criatura sofre nova transformação numa terceira forma, que chamam larva, da qual se produz longo filamento, como o fio da aranha.
[366] Pois esses materiais supérfluos e diáfanos são prova de mente fraca, cobrindo a vergonha do corpo com véu delgado.
[367] Porque a roupa luxuosa, que não pode ocultar a forma do corpo, já não é mais cobertura.
[368] Pois tal veste, caindo ajustada ao corpo, toma-lhe facilmente a forma e, aderindo por assim dizer à carne, recebe-lhe o contorno e desenha a figura da mulher, de modo que toda a conformação do corpo se torna visível aos espectadores, embora não vejam o corpo em si.
[369] Também o tingimento das roupas deve ser rejeitado.
[370] Pois está longe tanto da necessidade quanto da verdade, além do fato de que dele brota a censura nos costumes.
[371] Pois o uso das cores não é útil, já que não serve contra o frio.
[372] Nem acrescenta à cobertura mais do que qualquer outra roupa, exceto apenas a vergonha.
[373] E o agrado da cor aflige os olhos cobiçosos, inflamando-os para cegueira insensata.
[374] Mas para aqueles que são brancos e sem mancha por dentro, convém muito mais usar vestes brancas e simples.
[375] Claramente e sem rodeios, portanto, o profeta Daniel diz: “Foram postos tronos, e um semelhante ao Ancião de Dias se assentou, e sua veste era branca como neve.”
[376] O Apocalipse também diz que o próprio Senhor apareceu vestido com tal roupa.
[377] Diz ainda: “Vi as almas dos que haviam dado testemunho sob o altar, e foi dada a cada uma delas uma veste branca.”
[378] E, se fosse necessário procurar alguma outra cor, bastaria a cor natural da verdade.
[379] Mas as vestes que se parecem com flores devem ser abandonadas às loucuras báquicas e aos ritos de iniciação, juntamente com a púrpura e a prataria, como diz o poeta cômico: úteis para os tragediógrafos, não para a vida.
[380] E a nossa vida deve ser tudo, menos espetáculo.
[381] Portanto, a tintura de Sardes, a de oliva, a verde, a cor de rosa, o escarlate e dez mil outras tintas foram inventadas com muito trabalho para voluptuosidade maligna.
[382] Essas vestes são feitas para serem vistas, não para cobrir.
[383] As roupas variadas com ouro, as púrpuras e aquela peça de luxo cujo nome deriva de feras figuradas, e aquela veste de cor de açafrão embebida de unguento, e aquelas roupas caras e multicoloridas de membranas brilhantes, devemos despedir-nos delas e também da própria arte.
[384] Pois que coisa prudente poderiam ter feito essas mulheres, diz a comédia, que se sentam cobertas de flores, usando vestido cor de açafrão, pintadas?
[385] O Instrutor admoesta expressamente: “Não te glories da veste da tua roupa, nem te ensoberbeças por causa de qualquer glória.”
[386] Assim, zombando dos que se vestem luxuosamente, diz ele no evangelho: “Eis que os que vivem em roupas suntuosas e em delícias estão nos palácios dos reis.”
[387] Ele diz nos palácios perecíveis, onde estão amor da ostentação, amor da popularidade, lisonja e engano.
[388] Mas aqueles que assistem à corte celeste ao redor do Rei de todos são santificados na veste imortal do Espírito, isto é, na carne, e assim se revestem de incorruptibilidade.
[389] Assim, portanto, como a mulher solteira se dedica somente a Deus e seu cuidado não é dividido, mas a casada casta divide sua vida entre Deus e seu marido, enquanto a que é de outra disposição se entrega inteiramente ao matrimônio, isto é, à paixão.
[390] Do mesmo modo penso que a esposa casta, quando se dedica ao seu marido, serve sinceramente a Deus.
[391] Mas, quando se apaixona pelos adornos, afasta-se de Deus e do matrimônio casto, trocando o marido pelo mundo, à maneira daquela cortesã argiva, Erífila, “que recebeu ouro em maior estima do que o seu querido marido”.
[392] Por isso admiro o sofista de Ceos, que delineou imagens adequadas e semelhantes da Virtude e do Vício.
[393] Representou a Virtude em pé, simples, vestida de branco e pura, adornada apenas com a modéstia.
[394] Pois assim deve ser a verdadeira esposa, dotada de modéstia.
[395] A outra, ao contrário, o Vício, introduz-se vestida com traje supérfluo, brilhando com cor que não é sua.
[396] E seu andar e atitude são descritos como estudados para dar prazer, traçando o retrato das mulheres devassas.
[397] Mas aquele que segue a Palavra não se entregará a prazer algum vil.
[398] Por isso também, no que diz respeito à roupa, deve-se preferir o que é útil.
[399] E, se a Palavra, falando do Senhor por Davi, canta: “As filhas dos reis te alegraram com honra; a rainha está à tua direita, vestida de ouro e cingida com franjas douradas”, não indica roupa luxuosa.
[400] Antes, mostra o adorno imortal, tecido de fé, daqueles que encontraram misericórdia, isto é, da igreja.
[401] Nela Jesus sem malícia brilha como ouro, e os eleitos são as franjas douradas.
[402] E, se tais coisas devem ser tecidas para as mulheres, teçamos roupas agradáveis e suaves ao toque, não floridas como quadros para deleitar os olhos.
[403] Pois o quadro desaparece com o tempo, e a lavagem e o molho nos sucos medicados da tintura gastam a lã e enfraquecem os tecidos.
[404] E isso não favorece a economia.
[405] É o cúmulo da insensata ostentação andar em agitação por peplos, xystides, ephaptides, mantos, túnicas e o que cobre a vergonha, como diz Homero.
[406] Pois, na verdade, eu me envergonho ao ver tanta riqueza derramada sobre a cobertura da nudez.
[407] Porque o homem primitivo no paraíso preparou cobertura para sua vergonha com ramos e folhas.
[408] E agora, já que as ovelhas foram criadas para nós, não sejamos tão tolos quanto as ovelhas, mas, treinados pela Palavra, condenemos a suntuosidade das roupas, dizendo: “Tu és lã de ovelha.”
[409] Ainda que Mileto se glorie, e a Itália seja louvada, e a lã, por causa da qual muitos enlouquecem, seja protegida sob peles, ainda assim não devemos fixar nela o coração.
[410] O bem-aventurado João, desprezando os pelos das ovelhas como cheirando a luxo, escolheu pelos de camelo e vestiu-se deles, fazendo-se exemplo de frugalidade e simplicidade de vida.
[411] Pois ele também comia gafanhotos e mel silvestre, alimento doce e espiritual, preparando como estava os caminhos humildes e castos do Senhor.
[412] Pois como poderia ter vestido púrpura aquele que se afastou do aparato das cidades e retirou-se para a solidão do deserto, para viver em calma com Deus, longe de todas as frivolidades, longe de toda aparência falsa de bem, longe de toda baixeza?
[413] Elias usava um manto de pele de ovelha e cingia a pele com cinto de pelos.
[414] E Isaías, outro profeta, andou nu e descalço, e muitas vezes vestido de saco, que é traje de humildade.
[415] E, se chamares Jeremias, ele tinha apenas um cinto de linho.
[416] Pois, assim como corpos bem nutridos, quando despidos, mostram mais claramente seu vigor, assim também a beleza do caráter mostra sua magnanimidade, quando não está envolvida em tolices ostentosas.
[417] Mas arrastar as roupas, deixando-as cair até as solas dos pés, é suprema afetação, impedindo a atividade no andar, varrendo a sujeira do chão como vassoura.
[418] Porque até mesmo aquelas criaturas emasculadas, os dançarinos, que transferem sua muda e impudente devassidão ao palco, não desprezam a roupa que desce a tal indignidade.
[419] E suas vestes curiosas, as franjas, e os movimentos estudados das figuras mostram o arrastar de efeminação sórdida.
[420] Se alguém quiser aduzir a veste do Senhor que descia até os pés, aquela túnica multicolorida mostra as flores da sabedoria, as escrituras variadas e imperecíveis, os oráculos do Senhor resplandecentes com os raios da verdade.
[421] Com veste semelhante o Espírito revestiu o Senhor por meio de Davi, quando cantou: “Estavas vestido de confissão e formosura, cobrindo-te de luz como de veste.”
[422] Assim, portanto, como, no fabrico de nossas roupas, devemos evitar toda estranheza, também no seu uso devemos guardar-nos da extravagância.
[423] Pois nem convém que as roupas fiquem acima do joelho, como se dizia das virgens lacedemônias.
[424] Nem é adequado que qualquer parte de uma mulher fique exposta.
[425] Embora possas muito apropriadamente usar a linguagem dirigida àquele que disse: “Teu braço é belo”; sim, mas não para o olhar público.
[426] “Tuas coxas são belas”; sim, foi a resposta, mas somente para o meu marido.
[427] “E teu rosto é formoso”; sim, mas apenas para aquele que me desposou.
[428] Mas eu não quero que mulheres castas deem ocasião a tais louvores àqueles que, por meio de elogios, procuram motivos de censura.
[429] E não somente porque é proibido mostrar o tornozelo, mas porque também foi ordenado que a cabeça estivesse velada e o rosto coberto.
[430] Pois é coisa perversa que a beleza seja laço para os homens.
[431] Nem é apropriado que a mulher queira tornar-se notada usando véu púrpura.
[432] Oxalá fosse possível abolir a púrpura das vestes, para não atrair os olhos dos espectadores ao rosto das que a usam.
[433] Mas as mulheres, na confecção de todo o resto de sua roupa, fizeram tudo de púrpura, inflamando assim as concupiscências.
[434] E, na verdade, aquelas mulheres que enlouquecem por essas púrpuras tolas e luxuosas foram tomadas por morte púrpura, segundo o dito poético.
[435] Por causa dessa púrpura, Tiro e Sidom, e os arredores do mar lacedemônio, são muitíssimo desejados.
[436] E também seus tintureiros, os pescadores da púrpura e os próprios peixes púrpura, porque seu sangue produz a púrpura, são tidos em grande estima.
[437] Mas mulheres astutas e homens efeminados, que misturam essas tintas enganosas com tecidos delicados, levam seus desejos insanos além de todo limite.
[438] E exportam suas finas roupas de linho não mais do Egito apenas, mas também outros tecidos da terra dos hebreus e dos cilícios.
[439] Nada digo dos linhos de Amorgos e do bisso.
[440] O luxo ultrapassou a própria nomenclatura.
[441] A cobertura, em meu juízo, deve mostrar que aquilo que ela cobre é melhor do que ela mesma, assim como a imagem é superior ao templo, a alma ao corpo, e o corpo às roupas.
[442] Mas agora ocorre precisamente o contrário.
[443] O corpo dessas senhoras, se fosse vendido, jamais obteria mil dracmas áticas.
[444] E, comprando um único vestido por dez mil talentos, mostram-se menos úteis e menos valiosas do que o tecido.
[445] Por que, afinal, buscas o raro e o caro, em vez do que está à mão e é barato?
[446] É porque não conheces o que é verdadeiramente belo, o que é verdadeiramente bom, e procuras avidamente aparências em lugar de realidades, como os loucos que imaginam preto ser branco.
[447] As mulheres amigas da ostentação agem do mesmo modo com relação aos calçados, mostrando nisso também grande luxo.
[448] Vis, na verdade, são aquelas sandálias às quais se prendem ornamentos de ouro.
[449] E ainda consideram valioso ter as solas cravejadas com fileiras de pregos em espiral.
[450] Muitas também gravam nelas abraços amorosos, como se quisessem comunicar à terra, por meio do andar, movimento harmonioso, e imprimir nela a devassidão de seu espírito.
[451] Adeus, portanto, às engenhocas perniciosas de sandálias folheadas a ouro e cravejadas de pedras.
[452] Adeus também às botinas áticas e sicionianas, às botas persas e tirrênicas.
[453] E, propondo diante de nós o alvo reto, como é costume da nossa verdade, devemos escolher o que está de acordo com a natureza.
[454] Pois o uso do calçado serve em parte para cobrir, em parte para defesa quando tropeçamos em objetos, e para proteger a planta do pé da aspereza dos caminhos montanhosos.
[455] Às mulheres se deve permitir calçado branco, exceto quando estiverem em viagem; e então deve-se usar calçado untado.
[456] Em viagem, precisam de calçado com pregos.
[457] Além disso, em geral, devem usar calçados.
[458] Pois não é apropriado mostrar o pé nu.
[459] Além disso, a mulher é criatura delicada, facilmente ferida.
[460] Mas para o homem, os pés descalços convêm muito bem, exceto quando está em serviço militar.
[461] Pois estar calçado é quase vizinho de estar atado.
[462] Andar descalço é muitíssimo apropriado ao exercício, e o mais adaptado à saúde e ao conforto, a não ser quando a necessidade impeça.
[463] Mas, se não estamos em viagem e não suportamos andar descalços, podemos usar sandálias ou sapatos brancos.
[464] Os áticos os chamavam de pés empoeirados, penso eu, porque aproximam os pés do pó.
[465] Como testemunha da simplicidade nos calçados, baste João, que confessou não ser digno de desatar a correia do calçado do Senhor.
[466] Pois aquele que mostrou aos hebreus o tipo da verdadeira filosofia não usava calçado elaborado.
[467] O que mais isso possa significar, será mostrado em outro lugar.
[468] É infantil admirar excessivamente pedras muito escuras ou verdes, e coisas lançadas pelo mar em praias estrangeiras, partículas da terra.
[469] Pois correr atrás de pedras translúcidas, de cores peculiares, e de vidro tingido, é próprio apenas de gente tola, atraída por coisas de aparência brilhante.
[470] Assim as crianças, ao verem o fogo, correm para ele atraídas por seu brilho, sem compreender, por insensatez, o perigo de tocá-lo.
[471] Tal é o caso das pedras que mulheres tolas usam presas em correntes e colocadas em colares: ametistas, ceraunitas, jaspes, topázios e a esmeralda milesiana.
[472] E a pérola, tão estimada, invadiu os aposentos das mulheres em extremo excesso.
[473] Ela é produzida num tipo de ostra semelhante aos mexilhões e é aproximadamente do tamanho do olho de um peixe grande.
[474] E as desventuradas criaturas não se envergonham de dedicar tanto esforço a essa pequena ostra, quando poderiam adornar-se com a joia sagrada, a Palavra de Deus, a qual a escritura em certo lugar chamou de pérola: o puro e translúcido Jesus, o olho que vigia na carne, a Palavra transparente, por quem a carne, regenerada pela água, se torna preciosa.
[475] Pois aquela ostra que está na água cobre toda a carne ao redor, e dela é produzida a pérola.
[476] Ouvimos também que a Jerusalém do alto é murada com pedras sagradas.
[477] E concedemos que as doze portas da cidade celeste, feitas semelhantes a pedras preciosas, indicam a graça transcendente da voz apostólica.
[478] Pois as cores são lançadas nas pedras preciosas, e essas cores são preciosas, enquanto as outras partes permanecem de matéria terrosa.
[479] Com essas pedras, simbolicamente e como convém, é murada a cidade dos santos, edificada espiritualmente.
[480] Por esse brilho das pedras, portanto, entende-se o brilho inimitável do espírito, a imortalidade e a santidade do ser.
[481] Mas essas mulheres, que não compreendem o simbolismo da escritura, abrem a boca o quanto podem por joias, trazendo a espantosa desculpa: “Por que não poderia eu usar o que Deus expôs?”
[482] E: “Se o tenho comigo, por que não poderia dele gozar?”
[483] E: “Para quem, então, foram feitas essas coisas, senão para nós?”
[484] Tais são as falas daqueles que ignoram totalmente a vontade de Deus.
[485] Pois, em primeiro lugar, as coisas necessárias, como a água e o ar, ele fornece gratuitamente a todos.
[486] E aquilo que não é necessário ele escondeu na terra e na água.
[487] Por isso as formigas escavam, os grifos guardam o ouro e o mar esconde a pedra de pérola.
[488] Mas vós vos ocupais com aquilo de que não necessitais.
[489] Eis que todo o céu está iluminado, e não buscais a Deus.
[490] Mas o ouro oculto e as joias são arrancados por aqueles dentre nós que estão condenados à morte.
[491] E vós também vos opõeis à escritura, vendo que ela clama expressamente: “Buscai primeiro o reino dos céus, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.”
[492] Mas, se todas as coisas vos foram concedidas e permitidas, e se todas são lícitas, ainda assim “nem todas convêm”, diz o apóstolo.
[493] Deus introduziu nossa raça na comunhão, primeiro comunicando o que era seu próprio, quando deu sua própria Palavra, comum a todos, e fez todas as coisas para todos.
[494] Portanto, todas as coisas são comuns, e não devem os ricos apropriar-se de parcela indevida.
[495] A expressão, então, “eu possuo, e possuo em abundância; por que, então, não hei de desfrutar?”, não convém nem ao homem nem à sociedade.
[496] Mas muito mais digno de amor é isto: “Tenho; por que não hei de dar aos que necessitam?”
[497] Pois tal homem, que cumpre o mandamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, é perfeito.
[498] Porque este é o verdadeiro luxo: a riqueza entesourada no bem.
[499] Mas aquilo que é desperdiçado em concupiscências tolas deve ser contado como desperdício, não como gasto.
[500] Pois Deus nos deu, eu bem sei, a liberdade de uso, mas somente na medida do necessário.
[501] E determinou que o uso fosse comum.
[502] E é monstruoso que um viva em luxo enquanto muitos padecem necessidade.
[503] Quanto mais glorioso é fazer o bem a muitos do que viver suntuosamente.
[504] Quanto mais sábio é gastar dinheiro com seres humanos do que com joias e ouro.
[505] Quanto mais útil é adquirir amigos decorosos do que adornos sem vida.
[506] A quem jamais beneficiaram tanto os campos quanto os favores concedidos beneficiaram?
[507] Resta, portanto, desfazer esta alegação: “Quem, então, terá as coisas mais suntuosas, se todos escolherem as mais simples?”
[508] Os homens, eu diria, se delas fizerem uso imparcial e indiferente.
[509] Mas, se é impossível a todos exercer a temperança, ainda assim, visando ao uso do necessário, devemos procurar o que mais facilmente se possa obter, despedindo-nos longamente dessas superfluidades.
[510] Enfim, devem lançar fora inteiramente os adornos como bugigangas de meninas, rejeitando o próprio enfeite por completo.
[511] Pois devem adornar-se interiormente e mostrar bela a mulher interior.
[512] Porque apenas na alma se mostra a beleza e a deformidade.
[513] Por isso também só o homem virtuoso é realmente belo e bom.
[514] E está estabelecido como doutrina que somente o belo é bom.
[515] E a excelência aparece somente através do corpo belo, florescendo na carne, exibindo a amável formosura do domínio próprio, sempre que o caráter, como um raio de luz, reluz na figura.
[516] Pois a beleza de cada planta e animal consiste em sua excelência própria.
[517] E a excelência do homem é justiça, temperança, coragem e piedade.
[518] Belo homem é, então, o que é justo, temperante e, em uma palavra, bom, e não o rico.
[519] Mas agora até os soldados querem adornar-se com ouro, não tendo lido aquele dito poético: “Com tolice infantil veio à guerra, carregado de muito ouro.”
[520] Mas o amor ao ornamento, que está longe de preocupar-se com a virtude e reivindica o corpo para si, quando o amor ao belo se converte em pura aparência, deve ser inteiramente expulso.
[521] Pois aplicar ao corpo coisas impróprias, como se fossem adequadas, gera prática de mentira e hábito de falsidade.
[522] E mostra não o que é decoroso, simples e verdadeiramente infantil, mas o que é pomposo, luxuoso e efeminado.
[523] Essas mulheres obscurecem a verdadeira beleza, cobrindo-a com ouro.
[524] E não sabem quão grande é sua transgressão ao prender ao redor de si dez mil cadeias ricas, visto que se diz que entre os bárbaros os malfeitores são acorrentados com ouro.
[525] As mulheres me parecem imitar esses ricos prisioneiros.
[526] Pois o colar de ouro não é uma coleira?
[527] E os ornamentos que chamam catéteres não ocupam o lugar das correntes?
[528] E, de fato, entre os áticos são chamados por este mesmo nome.
[529] E aquelas coisas sem graça ao redor dos pés das mulheres, Filêmon, no Synephebus, chamou de grilhões de tornozelo: “Vestes conspícuas e uma espécie de grilhão dourado.”
[530] O que mais é, então, esse desejado adornar-se, ó senhoras, senão apresentar-vos acorrentadas?
[531] Pois, se o material retira o opróbrio, suportar as correntes é coisa indiferente.
[532] A mim, portanto, aquelas que se põem voluntariamente em cadeias parecem gloriar-se em calamidades ricas.
[533] Talvez também sejam tais correntes aquelas que a fábula poética diz terem sido lançadas ao redor de Afrodite, quando cometia adultério, referindo-se aos adornos como não sendo outra coisa senão o emblema do adultério.
[534] Pois Homero também chamou essas coisas de correntes de ouro.
[535] Mas as novas mulheres não se envergonham de usar os sinais mais manifestos do maligno.
[536] Porque, assim como a serpente enganou Eva, assim também o ornamento de ouro enlouqueceu outras mulheres para práticas viciosas, usando como isca a forma da serpente, e modelando moreias e serpentes para adorno.
[537] Por isso o poeta cômico Nicóstrato diz: “Correntes, colares, anéis, braceletes, serpentes, tornozeleiras e brincos.”
[538] Em termos da mais forte censura, Aristófanes, nas Tesmoforiantes, expõe todo o aparato do enfeite feminino em catálogo: “toucas, faixas, natrão e aço; pedra-pomes, banda, faixa das costas, véu traseiro, pinturas, colares, tintas para os olhos, roupa macia, rede para o cabelo, cinto, xale, borda púrpura delicada, manto longo, túnica, Barathrum, túnica redonda.”
[539] E ainda não mencionei o principal.
[540] E o que é?
[541] “Pendentes de orelha, joias, brincos; tornozeleiras em cachos de cor de malva; fivelas, presilhas, colares, grilhões, selos, correntes, anéis, pós, relevos, faixas, olisbos, pedras sardianas, abanadores, helicteres.”
[542] Estou cansado e contrariado de enumerar a multidão de adornos.
[543] E sou forçado a admirar como aquelas que suportam tal carga não morrem de tédio.
[544] Ó trabalho tolo.
[545] Ó insensata mania de exibição.
[546] Derramam, como meretrizes, a riqueza sobre o que é vergonhoso.
[547] E, em seu amor pela ostentação, desfiguram os dons de Deus, imitando a arte do maligno.
[548] O rico que acumulava em seus celeiros e dizia a si mesmo: “Tens muitos bens guardados para muitos anos; come, bebe, regala-te”, o Senhor no evangelho chamou claramente de tolo.
[549] “Porque nesta noite pedirão de ti a tua alma; e o que preparaste, para quem será?”
[550] Apeles, o pintor, vendo um de seus discípulos pintar uma figura carregada de ouro para representar Helena, disse-lhe: “Rapaz, sendo incapaz de pintá-la bela, fizeste-a rica.”
[551] Tais Helenas são as senhoras do presente, não verdadeiramente belas, mas ricamente arranjadas.
[552] Sobre elas o Espírito profetiza por Sofonias: “Nem a sua prata nem o seu ouro poderão livrá-las no dia da ira do Senhor.”
[553] Mas às mulheres que foram treinadas em Cristo convém adornar-se não com ouro, mas com a Palavra, pela qual somente o ouro vem à luz.
[554] Felizes teriam sido, então, os antigos hebreus se houvessem lançado fora os adornos de suas mulheres, ou apenas os derretido.
[555] Mas, tendo lançado seu ouro na forma de um boi e rendido a ele culto idólatra, não colheram proveito nem da arte nem da empreitada.
[556] E assim ensinaram expressissimamente às nossas mulheres a afastarem-se dos adornos.
[557] A luxúria que fornica com o ouro torna-se ídolo e é provada pelo fogo.
[558] Pois somente para isso o luxo é guardado, como sendo ídolo e não realidade.
[559] Daí a Palavra, censurando os hebreus pelo profeta, dizer: “Fizeram para Baal coisas de prata e ouro”, isto é, adornos.
[560] E, ameaçando muito claramente, diz: “Castigá-la-ei pelos dias dos baalins, nos quais sacrificava para eles e se adornava com seus brincos e colares.”
[561] E acrescentou a causa do adorno, ao dizer: “E ela foi após seus amantes, mas se esqueceu de mim, diz o Senhor.”
[562] Renunciando, portanto, a essas bugigangas ao próprio senhor perverso da astúcia, não tomemos parte nesse adorno meretrício, nem pratiquemos idolatria sob pretexto vistoso.
[563] Admiravelmente, portanto, o bem-aventurado Pedro diz: “Do mesmo modo, que as mulheres se adornem não com tranças, ou ouro, ou roupas caras, mas, como convém a mulheres que professam piedade, com boas obras.”
[564] E com razão ele ordena que o enfeite seja mantido longe delas.
[565] Pois, concedendo que sejam belas, a natureza basta.
[566] Não contenda a arte contra a natureza; isto é, não lute a mentira contra a verdade.
[567] E, se são por natureza feias, são convictas, pelas coisas que aplicam a si mesmas, daquilo que não possuem.
[568] Convém, portanto, às mulheres que servem a Cristo adotarem a simplicidade.
[569] Pois, na realidade, a simplicidade prepara a santidade, reduzindo os excessos à igualdade e fornecendo, a partir do que está à mão, o deleite buscado nas superfluidades.
[570] Porque a simplicidade, como o nome mostra, não é vistosa, não é inflada nem empolada em coisa alguma, mas é inteiramente plana, suave, igual e livre de excesso, e assim suficiente.
[571] E a suficiência é um estado que alcança seu fim próprio sem excesso nem falta.
[572] A mãe dessas coisas é a justiça.
[573] E sua ama é a independência.
[574] E este é um estado satisfeito com o necessário e que, por si mesmo, fornece o que contribui para a vida bem-aventurada.
[575] Haja, então, nos frutos de vossas mãos ordem sagrada, comunicação liberal e atos de economia.
[576] Pois “aquele que dá ao pobre empresta a Deus.”
[577] E “as mãos dos varonis serão enriquecidas”.
[578] Ele chama varonis aqueles que desprezam as riquezas e são livres em distribuí-las.
[579] E em vossos pés apareça diligente prontidão para o bem e caminhada rumo à justiça.
[580] Modéstia e castidade são colares e gargantilhas.
[581] Tais são as correntes que Deus forja.
[582] “Bem-aventurado o homem que encontrou sabedoria, e o mortal que conhece o entendimento”, diz o Espírito por Salomão.
[583] “Porque é melhor adquiri-la do que tesouros de ouro e prata, e ela é mais valiosa do que as pedras preciosas.”
[584] Pois ela é o verdadeiro ornamento.
[585] E que não perfurem as orelhas contra a natureza, para nelas prender brincos e pingentes.
[586] Pois não é correto forçar a natureza contra a sua vontade.
[587] Nem poderia haver melhor adorno para os ouvidos do que a verdadeira instrução, que entra naturalmente pelos canais da audição.
[588] E olhos ungidos pela Palavra, e ouvidos perfurados para a percepção, fazem do homem ouvinte e contemplador das coisas divinas e sagradas.
[589] Pois a Palavra exibe verdadeiramente a verdadeira beleza, aquela que olho não viu nem ouvido ouviu antes.

