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[1] Ora, somos ordenados a reverenciar e honrar o mesmo, persuadidos de que Ele é o Verbo, Salvador e Guia, e, por meio d’Ele, ao Pai, não em dias especiais, como alguns outros, mas fazendo isso continuamente em toda a nossa vida e de toda maneira. Certamente a raça eleita, justificada pelo preceito, diz: “Sete vezes por dia eu te louvei.” Portanto, não em lugar determinado, ou templo escolhido, ou em certas festas e dias assinalados, mas durante toda a sua vida, o Gnóstico, em todo lugar, ainda que esteja sozinho, e onde quer que tenha consigo alguns dos que exercitaram a mesma fé, honra a Deus, isto é, reconhece sua gratidão pelo conhecimento do modo de viver.

[2] E, se a presença de um homem bom, pelo respeito e reverência que inspira, sempre melhora aquele com quem se associa, com muito mais razão não cresce em todos os aspectos acima de si mesmo, em conduta, em palavras e em disposição, aquele que mantém contínua conversa com Deus por meio do conhecimento, da vida e da ação de graças? Tal homem está persuadido de que Deus está sempre ao seu lado e não supõe que Ele esteja confinado a certos lugares limitados, de modo que, sob a ideia de que em certos momentos está sem Ele, pudesse entregar-se a excessos de noite e de dia.

[3] Celebrando, então, festa em toda a nossa vida, persuadidos de que Deus está completamente presente por todos os lados, cultivamos nossos campos louvando; navegamos o mar entoando hinos; em todo o restante de nossa conversação, conduzimo-nos segundo a regra. O Gnóstico, então, está intimamente unido a Deus, sendo ao mesmo tempo grave e alegre em todas as coisas: grave por causa da inclinação de sua alma para a Divindade, e alegre por causa da consideração das bênçãos da humanidade que Deus nos deu.

[4] Ora, a excelência do conhecimento é claramente apresentada pelo profeta quando diz: “Benignidade, instrução e conhecimento ensina-me”, exaltando a supremacia da perfeição por uma gradação ascendente.

[5] Ele é, então, o homem verdadeiramente régio; ele é o sagrado sumo sacerdote de Deus. E isso ainda agora é observado entre os mais sábios dos bárbaros, ao elevarem a casta sacerdotal ao poder régio. Portanto, ele jamais se entrega à turba que reina soberana sobre os teatros, nem admite sequer em sonho as coisas que são ditas, feitas e vistas para seduzir por prazeres; nem, portanto, aos prazeres da vista, nem aos vários prazeres encontrados em outros deleites, como incensos e odores caros que enfeitiçam as narinas, ou preparações de carnes e indulgências em diversos vinhos que enredam o paladar, ou buquês perfumados de muitas flores, que, por meio dos sentidos, efeminizam a alma. Mas, sempre remontando a Deus o gozo sóbrio de todas as coisas, ele oferece as primícias do alimento, da bebida e dos ungüentos ao Doador de tudo, reconhecendo sua gratidão no dom e no uso deles pelo Verbo que lhe foi dado. Raramente vai a banquetes de toda sorte de gente, a menos que o anúncio do caráter amistoso e harmonioso da reunião o leve a ir. Pois está convencido de que Deus conhece e percebe todas as coisas, não apenas as palavras, mas também o pensamento; uma vez que até mesmo nosso sentido da audição, que age pelos canais do corpo, apreende não por poder corpóreo, mas por percepção psíquica e pela inteligência que distingue sons significativos. Deus, então, não possui forma humana para ouvir; nem necessita de sentidos, como decidiram os estóicos, especialmente audição e visão, pois de outro modo jamais poderia apreender. Mas a sutileza do ar, a percepção intensíssima dos anjos e o poder que alcança a consciência da alma, por poder inefável e sem audição sensível, conhecem todas as coisas no instante do pensamento. E, ainda que alguém diga que a voz não alcança Deus, mas desce rolando pelo ar, os pensamentos dos santos não atravessam apenas o ar, mas o mundo inteiro. E o poder divino, com a velocidade da luz, vê através da alma inteira. Ora! Também as volições não falam a Deus, emitindo sua voz? E não são elas transmitidas pela consciência? E que voz esperará Ele, que, segundo o seu propósito, conhece os eleitos já antes de seu nascimento, conhece o que há de ser como já existente? A luz do poder não resplandece até o fundo de toda a alma, a lâmpada do conhecimento, como diz a Escritura, sondando os recessos? Deus é todo ouvido e todo olho, se nos for permitido usar tais expressões.

[6] Em geral, então, uma opinião indigna de Deus não preserva piedade alguma, seja em hinos, discursos, escritos ou dogmas, mas desvia para ideias e noções rasteiras e indecorosas. Por isso, o louvor da multidão em nada difere da censura, por causa de sua ignorância da verdade. Os objetos dos desejos e aspirações, em uma palavra, os impulsos da mente, são os assuntos das orações. Portanto, ninguém deseja um gole, mas beber o que é bebível; ninguém deseja uma herança, mas herdar. Do mesmo modo, ninguém deseja conhecimento, mas conhecer; nem um governo reto, mas participar do governo. Os assuntos de nossas orações, então, são os assuntos de nossos pedidos, e os assuntos dos pedidos são os objetos dos desejos. Oração e desejo, pois, seguem em ordem, com o propósito de possuir as bênçãos e vantagens oferecidas.

[7] O Gnóstico, então, que é tal por posse, faz sua oração e seu pedido pelas coisas verdadeiramente boas que pertencem à alma, e ora contribuindo ele próprio com seus esforços para alcançar o hábito da bondade, para não mais ter as coisas boas como certas lições que lhe pertencem, mas para ser bom.

[8] Portanto, é sumamente necessário que tal homem ore, conhecendo corretamente a Divindade e possuindo a excelência moral adequada a ela; sabendo quais coisas são realmente boas, o que deve ser pedido, e quando e como em cada caso particular. É a maior estupidez pedir a quem não é deus como se fosse deus; ou pedir coisas que não são benéficas, suplicando males para si mesmo sob a aparência de bens.

[9] Donde, como é justo, havendo um só Deus bom, para que algumas coisas boas sejam dadas somente por Ele, e para que outras permaneçam, nós e os anjos oramos. Mas não da mesma maneira. Pois não é a mesma coisa orar para que o dom permaneça e esforçar-se para obtê-lo pela primeira vez.

[10] O afastamento dos males é uma espécie de oração; mas tal oração jamais deve ser usada para prejudicar homens, exceto que o Gnóstico, ao dedicar-se à justiça, possa usar essa petição no caso dos que já perderam toda sensibilidade.

[11] A oração é, então, para falar mais ousadamente, conversa com Deus. Embora cochichemos, consequentemente, e não abramos os lábios, falamos em silêncio, ainda assim clamamos interiormente. Pois Deus ouve continuamente toda a conversa interior. Assim também erguemos a cabeça e levantamos as mãos ao céu, e pomos os pés em movimento na conclusão da oração, seguindo o ardor do espírito dirigido à essência intelectual; e, procurando abstrair o corpo da terra juntamente com o discurso, elevamos a alma, alada pelo anseio de coisas melhores, e a compelimos a avançar para a região da santidade, desprezando magnanimamente a cadeia da carne. Pois sabemos muito bem que o Gnóstico atravessa de bom grado o mundo inteiro, como os judeus certamente atravessaram o Egito, mostrando claramente, acima de tudo, que deseja estar o mais próximo possível de Deus.

[12] Ora, se alguns fixam horas determinadas para oração, como, por exemplo, a terceira, a sexta e a nona, ainda assim o Gnóstico ora durante toda a sua vida, esforçando-se, por meio da oração, para ter comunhão com Deus. E, em suma, tendo chegado a isso, deixa para trás tudo o que não lhe serve, como quem já recebeu a perfeição do homem que age pelo amor. Mas a distribuição das horas numa divisão tripla, honrada com tantas orações, é conhecida por aqueles que conhecem a bendita tríade das santas moradas.

[13] Chegado a este ponto, recordo as doutrinas introduzidas por certos heterodoxos, a saber, os seguidores da heresia de Pródico, segundo as quais não há necessidade de orar. Para que, então, não se inflem de orgulho por causa dessa sua sabedoria ímpia, como se fosse algo estranho, aprendam que ela já havia sido abraçada antes pelos filósofos chamados cirenaicos. Contudo, o conhecimento profano dos falsamente chamados gnósticos será refutado em ocasião apropriada, para que o ataque contra eles, de modo algum breve, não interrompa o discurso em andamento, sendo introduzido no comentário, no qual estamos mostrando que o único homem realmente santo e piedoso é aquele que é verdadeiramente Gnóstico segundo a regra da Igreja, a quem somente é concedida a petição feita de acordo com a vontade de Deus, ao pedir e ao pensar. Pois, assim como Deus pode fazer tudo o que quer, assim o Gnóstico recebe tudo o que pede. Porque, universalmente, Deus conhece os que são e os que não são dignos de coisas boas; por isso, dá a cada um o que é adequado. Portanto, aos indignos, ainda que peçam muitas vezes, Ele não dará; mas dará aos que são dignos.

[14] Nem a petição é supérflua, embora as coisas boas sejam dadas sem reivindicação.

[15] Ora, a ação de graças e o pedido pela conversão de nossos próximos é função do Gnóstico; assim também o Senhor orou, dando graças pelo cumprimento de seu ministério, pedindo que o maior número possível alcançasse o conhecimento; para que, nos salvos, por meio da salvação mediante o conhecimento, Deus fosse glorificado, e Aquele que é o único bom e o único Salvador fosse reconhecido por meio do Filho de século em século. Também a fé de que se receberá é uma espécie de oração, gnóstica e entesourada.

[16] Mas, se toda ocasião de conversar com Deus se torna oração, nenhuma oportunidade de acesso a Deus deve ser omitida. Sem dúvida, a santidade do Gnóstico, unida à bendita Providência de Deus, manifesta, na confissão voluntária, a perfeita beneficência divina. Pois a santidade do Gnóstico e a benevolência recíproca do amigo de Deus são como um movimento correspondente da providência. Pois Deus não é bom involuntariamente, como o fogo aquece; mas, n’Ele, a concessão de bens é voluntária, ainda que receba o pedido de antemão. Nem aquele que é salvo será salvo contra a própria vontade, pois não é inanimado; ao contrário, acima de tudo correrá para a salvação voluntária e livremente. Por isso o homem recebeu os mandamentos, para que fosse movido por si mesmo a escolher o que quisesse entre as coisas a serem escolhidas e evitadas. Portanto, Deus não faz o bem por necessidade, mas beneficia, por livre escolha, aqueles que espontaneamente se voltam para Ele. Pois a Providência que de Deus se estende a nós não é ministerial, como o serviço que procede dos inferiores para os superiores. Mas, por piedade para com nossa fraqueza, as contínuas dispensações da Providência operam como o cuidado de pastores para com as ovelhas e de um rei para com seus súditos; nós mesmos também nos conduzindo obedientemente para com nossos superiores, que tomam conta de nós, conforme designados de acordo com a comissão de Deus com a qual foram investidos.

[17] Consequentemente, aqueles que prestam o serviço mais livre e mais régio, que é resultado de uma mente piedosa e do conhecimento, são servos e assistentes da Divindade. Cada lugar, então, e cada tempo em que entretivermos a ideia de Deus é, na realidade, sagrado.

[18] Quando, então, o homem que escolhe o que é reto e ao mesmo tempo possui coração agradecido faz seu pedido em oração, ele contribui para obtê-lo, apoderando-se com alegria, na oração, da coisa desejada. Pois, quando o Doador de bens percebe a receptividade de nossa parte, todos os bens seguem imediatamente a concepção deles. Certamente, na oração o caráter é peneirado, para ver como está em relação ao dever.

[19] Mas, se a voz e a expressão nos são dadas por causa do entendimento, como não ouvirá Deus a própria alma e a mente, já que certamente alma ouve alma e mente ouve mente? Por isso Deus não espera línguas loquazes, como intérpretes entre homens, mas conhece absolutamente os pensamentos de todos; e aquilo que a voz nos comunica, nosso pensamento, que Ele já antes da criação sabia que viria à nossa mente, fala a Deus. A oração, então, pode ser proferida sem voz, concentrando toda a natureza espiritual no interior, em expressão pela mente, num voltar-se para Deus sem distração.

[20] E, visto que a alvorada é imagem do dia do nascimento, e desde esse ponto aumenta a luz que primeiro resplandeceu das trevas, também sobre os envolvidos em trevas raiou um dia do conhecimento da verdade. Em conformidade com o modo do nascer do sol, fazem-se orações olhando para o nascente, no oriente. Donde também os templos mais antigos olhavam para o ocidente, para que o povo fosse ensinado a voltar-se para o oriente quando estivesse diante das imagens. “Seja dirigida a minha oração diante de ti como incenso, o levantar das minhas mãos como sacrifício da tarde”, dizem os Salmos.

[21] No caso dos homens maus, portanto, a oração é sumamente prejudicial, não apenas aos outros, mas também a si mesmos. Se, então, pedem e recebem o que chamam de pedaços de boa fortuna, isso lhes faz mal depois que recebem, por não saberem usá-los. Pois oram para possuir o que não têm, e pedem coisas que parecem, mas não são, bens. Mas o Gnóstico pedirá a permanência das coisas que possui, adequação para o que há de acontecer e a eternidade das coisas que receberá. E as coisas realmente boas, as coisas que dizem respeito à alma, ele pede que lhe pertençam e permaneçam com ele. E assim não deseja nada ausente, contentando-se com o que está presente. Pois não é carente das coisas boas próprias de si, sendo já suficiente para si mesmo por graça divina e conhecimento. E, tendo-se tornado suficiente em si mesmo, não sente necessidade de outras coisas. Mas, conhecendo a vontade soberana e possuindo assim que ora, sendo posto em estreito contato com o poder onipotente e desejando ardentemente ser espiritual, por amor sem limites ele se une ao Espírito.

[22] Assim, sendo magnânimo, possuindo por meio do conhecimento aquilo que é o mais precioso de tudo, o melhor de tudo, sendo pronto em dedicar-se à contemplação, retém em sua alma a energia permanente dos objetos de sua contemplação, isto é, a agudeza penetrante do conhecimento. E essa força ele se esforça ao máximo para adquirir, obtendo domínio sobre todas as influências que guerreiam contra a mente; e aplicando-se sem interrupção à especulação; exercitando-se no treino da abstinência dos prazeres e da reta conduta no que faz; e, além disso, provido de grande experiência tanto no estudo quanto na vida, possui liberdade de palavra, não o poder de uma língua tagarela, mas um poder que emprega linguagem clara e que não oculta, nem por favor nem por medo, nenhuma das coisas que possam ser dignamente ditas no tempo oportuno em que é altamente necessário dizê-las. Ele, então, tendo recebido as coisas concernentes a Deus do coro místico da própria verdade, emprega linguagem que exalta a magnitude da virtude de acordo com seu valor e mostra seus frutos com uma elevação inspirada de oração, estando associado gnósticamente, tanto quanto possível, a objetos intelectuais e espirituais.

[23] Por isso ele é sempre manso e humilde, acessível, afável, longânimo, agradecido, dotado de boa consciência. Tal homem é firme, não apenas de modo a não ser corrompido, mas de modo a nem sequer ser tentado. Pois jamais expõe sua alma à sujeição ou captura nas mãos do Prazer e da Dor. Se o Verbo, que é Juiz, o chamar, ele, tendo-se tornado inflexível e sem conceder nada às paixões, anda sem desviar-se para onde a justiça o aconselha a ir; muito bem persuadido de que todas as coisas são administradas de modo consumadamente bom, e de que o progresso para o que é melhor prossegue no caso das almas que escolheram a virtude, até que cheguem ao próprio Bem, ao vestíbulo do Pai, por assim dizer, perto do grande Sumo Sacerdote. Tal é o nosso Gnóstico, fiel, persuadido de que os assuntos do universo são administrados da melhor maneira. Particularmente, ele se compraz com tudo o que acontece. De acordo com a razão, então, não pede nenhuma daquelas coisas da vida necessárias ao uso ordinário, persuadido de que Deus, que conhece todas as coisas, supre os bons com tudo o que lhes é proveitoso, mesmo que não peçam.

[24] Pois meu parecer é que, assim como todas as coisas são supridas ao homem da arte segundo as regras da arte, e ao gentio de modo gentílico, assim também ao Gnóstico todas as coisas são supridas gnósticamente. E o homem que se volta dentre os gentios pedirá fé, enquanto aquele que ascende ao conhecimento pedirá a perfeição do amor. E o Gnóstico, que chegou ao cume, orará para que a contemplação cresça e permaneça, assim como o homem comum ora por saúde contínua.

[25] Mais ainda, ele orará para jamais cair da virtude, dando sua cooperação mais vigorosa para tornar-se infalível. Pois sabe que alguns dos anjos, por negligência, foram precipitados à terra, não tendo ainda alcançado plenamente aquele estado de unidade, ao se desembaraçarem da propensão para a dualidade.

[26] Mas para aquele que, a partir disso, treinou-se até o ápice do conhecimento e a elevada altura do homem perfeito, todas as coisas relacionadas ao tempo e ao lugar cooperam, agora que fez sua escolha de viver infalivelmente e se sujeita ao treinamento para alcançar a estabilidade do conhecimento por todos os lados. Mas, no caso daqueles em que ainda existe um canto pesado, inclinado para baixo, até mesmo a parte que foi elevada pela fé é arrastada para baixo. Naquele, então, que pela disciplina gnóstica adquiriu virtude que não pode ser perdida, o hábito se torna natureza. E, assim como o peso numa pedra, o conhecimento de tal homem é incapaz de ser perdido. Não sem o exercício da vontade, mas por meio dele, e pela força da razão, do conhecimento e da Providência, ele chega a tornar-se incapaz de ser perdido. Pelo cuidado, ele se torna incapaz de ser perdido. Empregará cautela para evitar pecar, e consideração para impedir a perda da virtude.

[27] Ora, o conhecimento parece produzir consideração, ensinando a perceber as coisas capazes de contribuir para a permanência da virtude. A coisa mais alta, então, é o conhecimento de Deus; por isso também, por meio dele, a virtude é preservada de tal modo que não pode ser perdida. E aquele que conhece Deus é santo e piedoso. O Gnóstico, consequentemente, foi demonstrado por nós como o único homem piedoso.

[28] Ele se alegra com os bens presentes e se regozija por causa dos prometidos, como se já estivessem presentes. Pois eles não escapam à sua percepção como se ainda estivessem ausentes, porque sabe de antemão que espécie de coisas são. Estando, então, persuadido pelo conhecimento de como cada coisa futura será, ele a possui. Pois a falta e a carência medem-se com referência ao que pertence a alguém. Se, então, possui sabedoria, e a sabedoria é uma coisa divina, aquele que participa do que não tem falta não terá ele mesmo falta. Pois a comunicação da sabedoria não se dá por atividade e receptividade movendo-se e parando uma à outra, nem por algo ser abstraído ou tornar-se defeituoso. A atividade é, portanto, mostrada como não diminuída no ato de comunicar. Assim, então, o nosso Gnóstico possui todos os bens, tanto quanto possível, mas não igualmente em número; pois, de outro modo, seria incapaz de mudar de lugar através dos devidos e inspirados estágios de progresso e atos de administração.

[29] Deus o ajuda, honrando-o com vigilância mais próxima. Pois não foram todas as coisas feitas por causa dos homens bons, para sua posse e vantagem, ou antes, salvação? Ele não privará, então, das coisas que existem em favor da virtude, aqueles por cuja causa elas foram criadas. Pois, evidentemente, em honra de sua excelente natureza e de sua santa escolha, Ele inspira aqueles que escolheram uma vida boa com força para o restante de sua salvação, exortando uns e ajudando outros que por si mesmos se tornaram dignos. Pois todo bem é capaz de ser produzido no Gnóstico, se de fato for seu alvo conhecer e fazer tudo inteligentemente. E, assim como o médico ministra saúde aos que cooperam com ele para a saúde, assim também Deus ministra salvação eterna aos que cooperam para a obtenção do conhecimento e da boa conduta; e, visto que aquilo que os mandamentos ordenam está em nosso poder, juntamente com sua prática, a promessa se cumpre.

[30] E o que segue parece-me ter sido excelentemente dito pelos gregos. Um atleta de não pequena reputação entre os antigos, tendo durante longo tempo submetido seu corpo a duro treinamento para alcançar força viril, ao subir aos jogos olímpicos lançou os olhos sobre a estátua do Zeus pisano e disse: “Ó Zeus, se todas as preparações necessárias para a disputa foram feitas por mim, vem, dá-me a vitória, como é justo.” Assim também, no caso do Gnóstico, que de modo irrepreensível e com boa consciência cumpriu tudo quanto dependia dele na direção do aprendizado, do treinamento, do bem-fazer e de agradar a Deus, o conjunto todo contribui para levar a salvação à perfeição. De nós, então, são exigidas as coisas que estão em nosso próprio poder, e, das coisas que nos concernem, tanto presentes quanto ausentes, a escolha, o desejo, a posse, o uso e a permanência.

[31] Portanto, também aquele que conversa com Deus deve ter a alma imaculada e puríssima, sendo necessário ter-se feito perfeitamente bom.

[32] Mas também convém que ele faça todas as suas orações com mansidão, juntamente com os bons. Pois é coisa perigosa participar dos pecados alheios. Assim, o Gnóstico orará junto com os que creram mais recentemente por aquelas coisas em relação às quais é dever deles agir em conjunto. E toda a sua vida é uma santa festa. Seus sacrifícios são orações, louvores e leituras nas Escrituras antes das refeições, salmos e hinos durante as refeições e antes de dormir, e ainda orações de novo durante a noite. Por meio disso, ele se une ao coro divino, em contínua recordação, empenhado em contemplação que possui memória duradoura.

[33] E mais: não conhece ele também a outra espécie de sacrifício, que consiste em dar tanto doutrinas quanto dinheiro aos necessitados? Sem dúvida. Mas não usa oração palavrosa pela boca, tendo aprendido a pedir do Senhor o que é necessário. Em todo lugar, portanto, mas não ostensivamente e visivelmente diante da multidão, ele orará. Mas, enquanto caminha, enquanto conversa, enquanto está em silêncio, enquanto lê e trabalha segundo a razão, em toda disposição ele ora. Se apenas formar o pensamento no aposento secreto de sua alma e chamar o Pai com gemidos inexprimidos, Ele está perto e ao seu lado, enquanto ainda fala. Visto que há apenas três fins de toda ação, ele faz tudo por sua excelência e utilidade; mas fazer qualquer coisa por causa do prazer, ele deixa para os que seguem a vida comum.

[34] O homem de caráter provado em tal piedade está longe de ter inclinação a mentir e jurar. Pois um juramento é uma afirmação decisiva com o uso do nome divino. Como pode aquele que uma vez foi fiel mostrar-se infiel, a ponto de necessitar de juramento, e a ponto de sua vida não ser um juramento seguro e decisivo? Ele vive, caminha e demonstra a confiabilidade de sua afirmação por uma vida e fala firmes e constantes. E, se o mal está no juízo daquele que faz e diz algo, e não no sofrimento daquele que foi lesado, ele não mentirá nem cometerá perjúrio para ofender a Divindade, sabendo que ela, por natureza, é incapaz de ser lesada. Nem mentirá nem cometerá transgressão por causa do próximo, a quem aprendeu a amar, ainda que não seja íntimo dele. Muito menos, consequentemente, mentirá ou perjurar-se-á por causa de si mesmo, já que nunca poderá ser achado, por sua própria vontade, praticando mal contra si.

[35] Mas ele sequer jura, preferindo fazer afirmação, no sim por sim, e na negação por não. Pois jurar, ou produzir algo da mente como confirmação em forma de juramento, é um juramento. Basta-lhe, então, acrescentar a uma afirmação ou negação a expressão: “Digo verdadeiramente”, para confirmação diante daqueles que não percebem a certeza de sua resposta. Pois ele deve, penso eu, manter uma vida calculada para inspirar confiança diante dos de fora, de modo que um juramento sequer lhe seja pedido; e diante de si mesmo e daqueles com quem convive, boa disposição, que é justiça voluntária.

[36] O Gnóstico jura verdadeiramente, mas não é inclinado a jurar, recorrendo raramente a juramento, como dissemos. E seu dizer a verdade sob juramento procede de seu acordo com a verdade. Esse dizer a verdade sob juramento, então, mostra-se resultado da correção nos deveres. Onde, então, está a necessidade de juramento para aquele que vive de acordo com o extremo da verdade? Portanto, aquele que nem sequer jura estará longe de perjurar-se. E aquele que não transgride no que é ratificado por pactos jamais jurará, já que a ratificação da violação e do cumprimento se dá por ações; assim como, certamente, a mentira e o perjúrio ao afirmar e jurar são contrários ao dever. Mas aquele que vive justamente, não transgredindo em nenhum de seus deveres, quando o juízo da verdade é examinado, jura a verdade por seus atos. Consequentemente, em seu caso, o testemunho da língua é supérfluo.

[37] Portanto, persuadido sempre de que Deus está em toda parte, não temendo falar a verdade, e sabendo que é indigno dele mentir, ele se contenta apenas com a consciência divina e a sua própria. E assim não mente, nem faz qualquer coisa contrária aos seus pactos. E assim não jura nem mesmo quando lhe pedem juramento; nem jamais nega de modo a falar falsidade, ainda que viesse a morrer sob torturas.

[38] A dignidade gnóstica é ampliada e aumentada naquele que assumiu o primeiro lugar no ensino dos outros e recebeu a dispensação, por palavra e obra, do maior bem sobre a terra, pelo qual medeia contato e comunhão com a Divindade. E, assim como os que adoram coisas terrenas lhes oram como se ouvissem, confirmando pactos diante delas, assim, em homens que são imagens vivas, a verdadeira majestade do Verbo é recebida pelo mestre digno de confiança; e a beneficência exercida para com eles sobe ao Senhor, segundo cuja imagem aquele que é verdadeiro homem pela instrução cria e harmoniza, renovando para salvação o homem que recebe instrução. Pois, assim como os gregos chamavam ao aço “Ares” e ao vinho “Dionísio”, por certa relação, assim o Gnóstico, considerando o benefício do próximo como sua própria salvação, pode ser chamado imagem viva do Senhor, não quanto à peculiaridade da forma, mas como símbolo do poder e semelhança da pregação.

[39] Tudo, pois, o que ele tem em mente, traz na língua para aqueles que são dignos de ouvir, falando assim como vive, a partir de assentimento e inclinação. Pois ele pensa e fala a verdade, a não ser que, em algum momento, medicinalmente, como um médico para a segurança dos enfermos, possa enganar ou dizer algo não verdadeiro, segundo os sofistas.

[40] Para ilustrar: o nobre apóstolo circuncidou Timóteo, embora declarasse e escrevesse em alta voz que a circuncisão feita por mãos nada aproveita. Mas, para não arrastar de uma vez da Lei à circuncisão do coração pela fé aqueles hebreus ouvintes relutantes, e assim obrigá-los a romper com a sinagoga, acomodando-se aos judeus, tornou-se judeu para ganhar a todos. Aquele, então, que se submete a acomodar-se meramente para o benefício dos seus próximos, para a salvação daqueles por cuja causa se acomoda, não participando de qualquer dissimulação por causa do perigo que paira sobre os justos por parte dos que os invejam, de modo algum age constrangido. Mas somente para o benefício dos seus próximos fará coisas que primariamente não teria feito, se não as fizesse por causa deles. Tal homem entrega-se pela Igreja, pelos discípulos que gerou na fé, para exemplo dos que são capazes de receber a suprema economia do Instrutor filantrópico e amante de Deus, para confirmação da verdade de suas palavras, para exercício do amor ao Senhor. Tal homem não é escravizado pelo medo, é verdadeiro na palavra, perseverante no labor, nunca disposto a mentir por palavra pronunciada, e nela sempre preservando a ausência de pecado; pois a falsidade, sendo dita com certo engano, não é palavra inerte, mas opera para dano.

[41] Em toda parte, então, somente o Gnóstico dá testemunho da verdade em obra e palavra. Pois ele sempre faz corretamente todas as coisas, tanto em palavra quanto em ação, e no próprio pensamento.

[42] Tal é, então, para falar resumidamente, a piedade do cristão. Se, pois, faz essas coisas segundo o dever e a reta razão, ele as faz piedosa e justamente. E, se assim é, somente o Gnóstico é realmente ao mesmo tempo piedoso, justo e temente a Deus.

[43] O cristão não é ímpio. Pois esse era o ponto que nos incumbia demonstrar aos filósofos; de modo que ele jamais fará, de maneira alguma, algo mau ou vil, o que é injusto. Consequentemente, portanto, ele não é ímpio; mas somente ele teme a Deus, adorando santa e devidamente o verdadeiro Deus, o Governante universal, Rei e Soberano, com a verdadeira piedade.

[44] Pois o conhecimento, para falar em geral, enquanto aperfeiçoamento do homem como homem, consuma-se pelo conhecimento das coisas divinas, no caráter, na vida e na palavra, em conformidade e consonância consigo mesmo e com o Verbo divino. Pois, por ele, a fé é aperfeiçoada, na medida em que somente por ele o crente se torna perfeito. A fé é um bem interior e, sem buscar a Deus, confessa sua existência e o glorifica como existente. Portanto, partindo dessa fé e sendo por ela desenvolvida, pela graça de Deus deve-se adquirir, tanto quanto possível, o conhecimento a seu respeito.

[45] Ora, afirmamos que o conhecimento difere da sabedoria, que é resultado do ensino. Pois, na medida em que algo é conhecimento, nessa mesma medida certamente é sabedoria; mas, na medida em que algo é sabedoria, não é certamente conhecimento. Porque o termo sabedoria parece aplicar-se apenas ao conhecimento da palavra pronunciada.

[46] Mas não é duvidar em referência a Deus, e sim crer, que é o fundamento do conhecimento. Mas Cristo é ao mesmo tempo o fundamento e a superestrutura, por quem são tanto o princípio quanto os fins. E os extremos, o princípio e o fim — quero dizer, fé e amor — não são ensinados. Mas o conhecimento, transmitido pela comunicação por meio da graça de Deus como um depósito, é confiado aos que se mostram dignos dele; e dele o valor do amor resplandece de luz em luz. Pois está dito: “Ao que tem será dado”: à fé, conhecimento; ao conhecimento, amor; e ao amor, a herança.

[47] E isso acontece quando alguém se prende ao Senhor pela fé, pelo conhecimento, pelo amor, e ascende com Ele até onde está o Deus e guardião de nossa fé e amor. Portanto, por fim, por causa da necessidade de grandíssima preparação e treinamento prévio, tanto para ouvir o que é dito quanto para a compostura da vida e para avançar inteligentemente para além da justiça da Lei, o conhecimento é confiado aos aptos e escolhidos para ele. Ele nos conduz ao fim sem fim e perfeito, ensinando-nos de antemão a vida futura que viveremos segundo Deus e com os deuses, depois de termos sido libertos de todo castigo e pena que sofremos por causa dos pecados, para disciplina salutar. Após essa redenção, a recompensa e as honras são atribuídas aos que se tornaram perfeitos, quando terminam com a purificação e cessam de todo serviço, ainda que santo, e entre santos. Então, tornando-se puros de coração e próximos do Senhor, espera-os a restauração para a contemplação eterna; e são chamados pelo título de deuses, estando destinados a sentar-se em tronos com os outros deuses que primeiro foram postos em seus lugares pelo Salvador.

[48] O conhecimento é, portanto, rápido para purificar e apto para aquela transformação aceitável para o melhor. Por isso também, com facilidade, remove a alma para aquilo que é afim da alma, divino e santo, e por sua própria luz conduz o homem pelos estágios místicos do progresso; até restaurar os puros de coração ao lugar coroado de descanso; ensinando a contemplar Deus face a face, com conhecimento e compreensão. Pois nisso consiste a perfeição da alma gnóstica: estar com o Senhor, onde permanece em sujeição imediata a Ele, após elevar-se acima de toda purificação e de todo serviço.

[49] A fé é então, por assim dizer, um conhecimento abrangente dos elementos essenciais; e o conhecimento é a demonstração forte e segura daquilo que é recebido pela fé, construída sobre a fé pelo ensino do Senhor, conduzindo a alma à infalibilidade, ciência e compreensão. E, em minha opinião, a primeira mudança salvadora é aquela do paganismo para a fé, como já disse antes; e a segunda, da fé para o conhecimento. E este último, terminando em amor, depois entrega o que ama ao Amado, e o que conhece àquilo que é conhecido. E, talvez, tal homem já tenha alcançado a condição de ser igual aos anjos. Assim, depois da mais alta excelência na carne, mudando sempre devidamente para melhor, ele apressa seu voo para a morada ancestral, através da santa setenária das moradas celestes, para a própria casa do Senhor; para ser luz, firme e permanente para sempre, inteira e em toda parte imutável.

[50] O primeiro modo da operação do Senhor mencionado por nós é a exibição da recompensa resultante da piedade. Do grande número de testemunhos que existem, apresentarei um, assim resumidamente expresso pelo profeta Davi: “Quem subirá ao monte do Senhor, ou quem estará em seu santo lugar? Aquele que é inocente em suas mãos e puro em seu coração; que não elevou sua alma à vaidade, nem jurou enganosamente ao seu próximo. Este receberá bênção do Senhor e misericórdia de Deus, seu Salvador. Esta é a geração dos que buscam o Senhor, dos que buscam a face do Deus de Jacó.” O profeta, em minha opinião, indicou concisamente o Gnóstico. Davi, ao que parece, demonstrou de modo sucinto que o Salvador é Deus, ao chamá-lo de face do Deus de Jacó, que pregou e ensinou acerca do Espírito. Por isso também o apóstolo designa o Filho como “a expressão exata da glória do Pai”, aquele que ensinou a verdade a respeito de Deus e expressou o fato de que o Todo-Poderoso é o único Deus e Pai, a quem ninguém conhece senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Que Deus é um só é insinuado por aqueles que buscam a face do Deus de Jacó; a quem, sendo o único Deus, o nosso Salvador e Deus caracteriza como o Bom Pai. E a geração daqueles que o buscam é a raça eleita, devotada à busca do conhecimento. Por isso também o apóstolo diz: “De nada vos aproveitarei, se não vos falar por revelação, ou por conhecimento, ou por profecia, ou por doutrina.”

[51] Embora mesmo por aqueles que não são Gnósticos algumas coisas sejam feitas corretamente, ainda assim não segundo a razão, como no caso da fortaleza. Pois alguns, que são naturalmente altivos e depois fomentaram essa disposição sem razão, precipitam-se em muitas coisas e agem como valentes, de modo que às vezes chegam a realizar as mesmas coisas; assim como a resistência é fácil para os artesãos. Mas não provém da mesma causa, nem com o mesmo objetivo; nem ainda que entregassem o corpo inteiro. Pois não têm amor, segundo o apóstolo.

[52] Toda ação, então, de um homem possuidor de conhecimento é ação reta; e a ação feita por um homem não possuidor de conhecimento é ação errada, ainda que siga um plano, pois não age corajosamente por reflexão, nem dirige sua ação naquelas coisas que procedem de virtude a virtude para qualquer fim útil.

[53] O mesmo vale também para as outras virtudes. Assim também se conserva a analogia na religião. O nosso Gnóstico, então, não é tal apenas em referência à santidade; mas, correspondentes à piedade do conhecimento, estão os mandamentos relativos a todo o restante da conduta da vida. Pois nosso propósito no momento é descrever a vida do Gnóstico, e não apresentar o sistema dos dogmas, que depois explicaremos em ocasião apropriada, preservando a ordem dos assuntos.

[54] Quanto ao universo, ele o concebe verdadeira e grandiosamente em virtude de ter recebido instrução divina. Começando, então, pela admiração da criação, e dando de si mesmo prova de sua capacidade para receber conhecimento, torna-se pronto discípulo do Senhor. Logo ao ouvir sobre Deus e a Providência, creu por causa da admiração que nutria. Pela força do impulso daí derivado, dedica suas energias de todo modo ao aprendizado, fazendo todas as coisas por meio das quais poderá adquirir o conhecimento daquilo que deseja. E o desejo misturado com a investigação surge à medida que a fé avança. E isso é tornar-se digno da contemplação, de tal caráter e de tal importância. Assim o Gnóstico provará a vontade de Deus. Pois não são os ouvidos, mas a alma, que ele entrega às coisas significadas pelo que é dito. Assim, apreendendo essências e coisas por meio das palavras, conduz sua alma, como convém, ao que é essencial; apreendendo, por exemplo, no modo peculiar como são ditos ao Gnóstico, os mandamentos: “Não adulterarás”, “Não matarás”, e não como são entendidos pelos outros. Exercitando-se, então, na especulação científica, prossegue a exercitar-se em generalizações maiores e proposições mais grandiosas, sabendo muito bem que Aquele que ensina ao homem o conhecimento, segundo o profeta, é o Senhor, o Senhor agindo pela boca do homem. Assim também Ele assumiu carne.

[55] Como é justo, então, ele jamais prefere o agradável ao útil; nem mesmo se uma bela mulher o seduzisse, quando alcançado por circunstâncias, incitando-o lascivamente; visto que a mulher do senhor de José não conseguiu desviá-lo de sua firmeza; mas, agarrando ela violentamente o seu manto, ele se despiu dele, tornando-se nu de pecado, mas vestido de decoro no caráter. Pois, se os olhos do senhor, quero dizer, o egípcio, não viram José, os do Todo-Poderoso o contemplavam. Pois nós ouvimos a voz e vemos as formas corporais; mas Deus escrutina a própria coisa da qual procedem o falar e o olhar.

[56] Consequentemente, ainda que doença, acidente e, o mais terrível de tudo, a morte, venham sobre o Gnóstico, ele permanece inflexível na alma, sabendo que todas essas coisas são uma necessidade da criação e que, também pelo poder de Deus, se tornam remédio de salvação, beneficiando pela disciplina aqueles que são difíceis de reformar; distribuídas segundo o merecimento, pela Providência, que é verdadeiramente boa.

[57] Usando, então, das criaturas quando o Verbo prescreve, e na medida em que prescreve, no exercício da gratidão ao Criador, ele se torna senhor do gozo delas.

[58] Nunca nutre ressentimento nem abriga rancor contra ninguém, embora alguém mereça ódio por sua conduta. Pois ele adora o Criador e ama aquele que compartilha a vida, compadecendo-se dele e orando por sua ignorância. Ele participa, de fato, das afeições do corpo, ao qual, suscetível por natureza ao sofrimento, está ligado. Mas na sensação não é ele o sujeito principal.

[59] Assim, então, em circunstâncias involuntárias, retirando-se dos problemas para as coisas que realmente lhe pertencem, não se deixa levar pelo que lhe é estranho. E só se acomoda às coisas necessárias a ele, na medida em que a alma é preservada ilesa. Pois não é em suposição ou aparência que quer ser fiel, mas em conhecimento e verdade, isto é, em ato seguro e palavra eficaz. Por isso, ele não apenas louva o que é nobre, mas esforça-se ele mesmo por ser nobre, mudando por amor de servo bom e fiel para amigo, pela perfeição do hábito que adquiriu na pureza da verdadeira instrução e grande disciplina.

[60] Esforçando-se, então, por alcançar o cume do conhecimento; decoroso no caráter; composto no porte; possuindo todas aquelas vantagens que pertencem ao verdadeiro Gnóstico; fixando os olhos em belos modelos, nos muitos patriarcas que viveram retamente, em muitos profetas e anjos contados sem número e, acima de tudo, no Senhor, que ensinou e mostrou ser possível a ele alcançar a mais alta vida de todas; ele, portanto, não ama todos os bens do mundo que estão ao seu alcance, para não permanecer no chão, mas as coisas esperadas, ou antes, já conhecidas, esperadas para serem apreendidas.

[61] Assim, ele suporta trabalhos, provações e aflições, não como aqueles entre os filósofos dotados de bravura, na esperança de que os problemas presentes cessem e de voltar a participar do agradável; mas o conhecimento o inspirou com a mais firme persuasão de receber as esperanças do futuro. Por isso, não despreza apenas as dores deste mundo, mas também todos os seus prazeres.

[62] Dizem, consequentemente, que o bem-aventurado Pedro, ao ver sua esposa sendo levada à morte, alegrou-se por causa de seu chamado e condução para casa, e chamou-a de modo muito encorajador e consolador, dirigindo-se a ela pelo nome: “Lembra-te do Senhor.” Tal foi o matrimônio dos bem-aventurados e sua disposição perfeita para com os que lhes eram mais caros.

[63] Assim também o apóstolo diz que aquele que se casa deve ser como se não fosse casado, e considerar seu matrimônio livre de afeição desordenada e inseparável do amor ao Senhor; amor ao qual o verdadeiro marido exortou sua esposa a apegar-se em sua partida desta vida para o Senhor.

[64] Não era, então, conspícua a fé na esperança após a morte no caso daqueles que davam graças a Deus até mesmo nos extremos de seus castigos? Pois firme, em minha opinião, era a fé que possuíam, e que era seguida por obras de fé.

[65] Em todas as circunstâncias, então, a alma do Gnóstico é forte, em condição de saúde e vigor extremos, como o corpo de um atleta.

[66] Pois ele é prudente nos assuntos humanos, ao julgar o que deve ser feito pelo homem justo; tendo recebido os princípios de Deus do alto e tendo adquirido, para a semelhança divina, moderação nas dores e prazeres corporais. E luta corajosamente contra os medos, confiando em Deus. Certamente, então, a alma gnóstica, adornada de virtude perfeita, é a imagem terrena do poder divino; seu desenvolvimento sendo o resultado conjunto da natureza, do treinamento e da razão. Essa beleza da alma torna-se templo do Espírito Santo quando adquire uma disposição em toda a vida correspondente ao evangelho. Tal homem, consequentemente, resiste a todo medo de tudo o que é terrível, não apenas da morte, mas também da pobreza e da doença, da ignomínia e de coisas semelhantes; sendo inconquistável pelo prazer e senhor dos desejos irracionais. Pois sabe bem o que deve e o que não deve ser feito; estando perfeitamente ciente de que coisas realmente devem ser temidas, e quais não. Por isso suporta inteligentemente aquilo que o Verbo lhe indica ser necessário e indispensável; discernindo com inteligência o que é realmente seguro, isto é, bom, daquilo que apenas parece ser; e as coisas a temer daquilo que apenas parece sê-lo, como morte, doença e pobreza, que o são mais na opinião do que na verdade.

[67] Este é o homem realmente bom, que é sem paixões; tendo, pelo hábito ou disposição da alma dotada de virtude, transcendido toda a vida passional. Ele tem tudo dependente de si mesmo para atingir o fim. Pois aqueles acidentes chamados terríveis não são formidáveis para o homem bom, porque não são maus. E as coisas realmente temíveis são estranhas ao cristão gnóstico, sendo diametralmente opostas ao que é bom, porque são más; e é impossível que contrários se encontrem na mesma pessoa ao mesmo tempo. Ele, então, que sem falha representa o drama da vida que Deus lhe deu para representar, sabe tanto o que deve ser feito quanto o que deve ser suportado.

[68] Não é, então, da ignorância do que é e do que não é temível que nasce a covardia? Consequentemente, o único homem corajoso é o Gnóstico, que conhece tanto os bens presentes quanto os futuros; juntamente com estes, conhecendo também, como já disse, as coisas que na realidade não devem ser temidas. Porque, conhecendo somente o vício como odioso e destruidor do que contribui para o conhecimento, protegido pela armadura do Senhor, faz guerra contra ele.

[69] Pois, se algo é causado pela insensatez e pela operação, ou melhor, cooperação, do diabo, essa coisa não é imediatamente o diabo nem a insensatez. Pois nenhuma ação é sabedoria. Porque sabedoria é um hábito. E nenhuma ação é um hábito. A ação, então, que surge da ignorância não é já a própria ignorância, mas um mal por ignorância, não a ignorância em si. Pois nem perturbações da mente nem pecados são vícios, ainda que procedam do vício.

[70] Ninguém, então, que seja irracionalmente bravo é Gnóstico; pois alguém poderia chamar crianças de corajosas, já que, por ignorância do que deve ser temido, suportam coisas assustadoras. Assim, tocam até mesmo no fogo. E as feras que se lançam sobre as pontas das lanças, tendo uma coragem bruta, poderiam ser chamadas valentes. E pessoas assim talvez chamassem de valentes os malabaristas que se lançam sobre espadas com certa destreza, praticando uma arte nociva por mísero ganho. Mas aquele que é verdadeiramente bravo, com o perigo decorrente do mau sentimento da multidão diante dos olhos, espera corajosamente tudo o que vier. Assim ele se distingue dos outros chamados mártires, já que alguns provocam ocasiões para si, e se lançam ao coração dos perigos, não sei como, enquanto eles, em conformidade com a reta razão, protegem-se; e então, quando Deus realmente os chama, prontamente se entregam e confirmam o chamado, por estarem conscientes de nenhuma precipitação, apresentando o homem a ser provado no exercício da verdadeira fortaleza racional. Não suportando, então, perigos menores por medo de maiores, como outras pessoas, nem temendo censura da parte dos seus iguais e dos de sentimentos semelhantes, continuam na confissão de sua vocação; mas, por amor a Deus, obedecem voluntariamente ao chamado, sem outro objetivo senão agradar a Deus, e não por causa da recompensa de seus trabalhos.

[71] Pois alguns sofrem por amor à glória, outros por medo de algum castigo mais severo, e outros por causa de prazeres e deleites após a morte, sendo crianças na fé; benditos, sem dúvida, mas ainda não feitos homens no amor a Deus, como o Gnóstico. Pois há, como nas competições gimnásticas, assim também na Igreja, coroas para homens e para crianças. Mas o amor deve ser escolhido por si mesmo, e por nada mais. Portanto, no Gnóstico, juntamente com o conhecimento, a perfeição da fortaleza é desenvolvida a partir da disciplina da vida, ele tendo sempre estudado adquirir domínio sobre as paixões.

[72] Assim, o amor faz de seu próprio atleta alguém destemido, intrépido e confiante no Senhor, ungindo-o e treinando-o; assim como a justiça lhe assegura veracidade em toda a sua vida. Pois foi um compêndio da justiça dizer: “Seja o vosso sim, sim; e o vosso não, não.”

[73] E o mesmo vale com o domínio próprio. Pois não é nem por amor à honra, como os atletas por causa de coroas e fama; nem, por outro lado, por amor ao dinheiro, como alguns fingem exercer domínio próprio, perseguindo o bem com terrível sofrimento. Nem é por amor ao corpo, em vista da saúde. Tampouco é verdadeiramente homem de domínio próprio aquele que o é por rusticidade, sem haver provado prazeres. Certamente, aqueles que levaram vida laboriosa, ao provar prazeres, imediatamente quebram a inflexibilidade da temperança em prazeres. Tais são os que são refreados pela lei e pelo medo. Pois, encontrando oportunidade favorável, fraudam a lei, escapando do bem. Mas o domínio próprio, desejável por si mesmo, aperfeiçoado pelo conhecimento e permanecendo sempre, faz do homem senhor e mestre de si mesmo; de modo que o Gnóstico é temperante e impassível, incapaz de ser dissolvido por prazeres e dores, como dizem que o diamante não o é pelo fogo.

[74] A causa de tudo isso, então, é o amor, a mais sagrada e mais soberana de todas as ciências.

[75] Pois, pelo serviço daquilo que é melhor e mais excelso, caracterizado pela unidade, ele torna o Gnóstico ao mesmo tempo amigo e filho, tendo na verdade crescido como homem perfeito, até a medida da estatura completa.

[76] Além disso, concordância na mesma coisa é consentimento. Mas o que é o mesmo é um. E a amizade se consuma na semelhança; a comunhão repousando na unidade. O Gnóstico, consequentemente, em virtude de ser amante do único Deus verdadeiro, é o homem realmente perfeito e amigo de Deus, e é colocado na categoria de filho. Pois estes são nomes de nobreza, de conhecimento e de perfeição na contemplação de Deus; passo culminante de progresso que a alma gnóstica recebe quando se tornou completamente pura, julgada digna de contemplar eternamente o Deus Todo-Poderoso face a face, como se diz. Pois, tendo-se tornado inteiramente espiritual e, na Igreja espiritual, ido ao que lhe é afim por natureza, ela permanece no descanso de Deus.

[77] Sejam assim, então, estas coisas. E sendo tal a disposição do Gnóstico para com o corpo e a alma, para com seus próximos, seja um doméstico, um inimigo legítimo ou qualquer outro, ele se mostra equilibrado e semelhante. Pois não despreza seu irmão, que, segundo a lei divina, é do mesmo pai e da mesma mãe. Certamente socorre o aflito, ajudando-o com consolações, encorajamentos e as necessidades da vida; dando a todos os que precisam, embora não igualmente, mas com justiça, segundo o merecimento; além disso, até àquele que o persegue e odeia, se ele precisar; dando pouca importância aos que lhe dizem que deu por medo, se não é por medo que o faz, mas para socorrer. Pois quanto mais aqueles que, para com os seus inimigos, são livres do amor ao dinheiro e odiadores do mal, são animados de amor para com os que lhes pertencem?

[78] Tal homem, a partir disso, prossegue para o conhecimento exato de a quem deve dar principalmente, quanto, quando e como.

[79] E quem poderia, com alguma razão, tornar-se inimigo de um homem que de modo algum dá causa à inimizade? E não é exatamente assim também no caso de Deus? Dizemos que Deus não é adversário de ninguém, nem inimigo de ninguém, pois Ele é o Criador de todos, e nada do que existe é aquilo que Ele não quer que exista; mas afirmamos que os desobedientes e os que não andam segundo seus mandamentos são inimigos d’Ele, por serem hostis à sua aliança. Encontraremos precisamente o mesmo no caso do Gnóstico, pois ele jamais pode, de modo algum, tornar-se inimigo de alguém; mas podem ser considerados inimigos dele aqueles que se voltam para o caminho contrário.

[80] Em particular, o hábito de liberalidade que prevalece entre nós é chamado justiça; mas o poder de discernir segundo o merecimento, quanto a mais e menos, com referência àqueles que são sujeitos apropriados dela, é uma forma da mais alta justiça.

[81] Há coisas praticadas de modo vulgar por algumas pessoas, como o controle dos prazeres. Pois, assim como entre os pagãos há aqueles que, por não poderem obter o que veem, por medo dos homens e também por causa de prazeres maiores, abstêm-se dos deleites que estão diante deles, assim também, no caso da fé, alguns praticam domínio próprio, quer por consideração à promessa, quer por temor de Deus. Ora, tal domínio próprio é a base do conhecimento, uma aproximação a algo melhor e um esforço rumo à perfeição. Pois “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria”. Mas o homem perfeito, por amor, suporta todas as coisas, sofre todas as coisas, não agradando a homens, mas a Deus. Embora o louvor o siga como consequência, não é para seu próprio proveito, mas para a imitação e o benefício daqueles que o louvam.

[82] Segundo outra perspectiva, não é chamado continente aquele que meramente controla as paixões, mas aquele que também alcançou o domínio sobre coisas boas e adquiriu seguramente os grandes feitos da ciência, dos quais produz como frutos as atividades da virtude. Assim, o Gnóstico jamais, na ocorrência de uma emergência, é deslocado do hábito próprio dele. Pois a posse científica do bem é firme e imutável, sendo o conhecimento das coisas divinas e humanas. O conhecimento, então, jamais se torna ignorância, nem o bem muda em mal. Portanto, também ele come, bebe e se casa, não como fins principais da existência, mas como coisas necessárias. Nomeio até mesmo o casamento, se o Verbo o prescrever, e como for conveniente. Pois, tendo-se tornado perfeito, ele tem os apóstolos por exemplos; e não se mostra realmente homem pelo simples fato de escolher a vida solteira, mas supera os homens aquele que, disciplinado pelo casamento, pela geração de filhos e pelo cuidado da casa, sem prazer nem dor, em sua solicitude pela casa permaneceu inseparável do amor de Deus e resistiu a toda tentação surgida por causa de filhos, esposa, servos e bens. Mas aquele que não tem família está, em grande medida, livre de tentação. Cuidando, então, apenas de si mesmo, é superado por aquele que lhe é inferior quanto à sua salvação pessoal, mas superior na condução da vida, preservando certamente, em seu cuidado pela verdade, uma imagem diminuta.

[83] Mas devemos, tanto quanto possível, sujeitar a alma a variados exercícios preparatórios, para que se torne suscetível de receber o conhecimento. Não vês como a cera é amolecida e o cobre purificado, para receber a marca aplicada? Assim como a morte é a separação da alma do corpo, assim o conhecimento é como a morte racional, impelindo o espírito para longe e separando-o das paixões, conduzindo-o à vida do bem-fazer, para que então diga com confiança a Deus: “Eu vivo como tu queres.” Pois aquele que faz de seu propósito agradar aos homens não pode agradar a Deus, visto que a multidão escolhe não o que é proveitoso, mas o que é agradável. Mas, agradando a Deus, alguém recebe por consequência o favor dos bons entre os homens. Como, então, aquilo que se refere a comida, bebida e prazer amoroso poderia ser agradável a tal homem? Pois ele olha com suspeita até mesmo para uma palavra que produz prazer, e para um movimento e ato agradáveis da mente. Pois ninguém pode servir a dois senhores, Deus e Mamom, isto é dito; querendo significar não simplesmente o dinheiro, mas os recursos provenientes do dinheiro gastos em vários prazeres. Na realidade, não é possível que aquele que magnânima e verdadeiramente conhece Deus sirva a prazeres antagônicos.

[84] Há um só, então, que desde o princípio esteve livre da concupiscência: o Senhor filantrópico, que por nós se tornou homem. E todos quantos se esforçam por ser assimilados à impressão por Ele dada esforçam-se, pelo exercício, por se tornarem livres da concupiscência. Pois aquele que exerceu concupiscência e depois se conteve é como uma viúva que volta a ser virgem pela continência. Tal é a recompensa do conhecimento, prestada ao Salvador e Mestre, a qual Ele mesmo pediu: abstinência do mal e atividade no bem, pela qual se adquire a salvação.

[85] Assim como os que aprenderam as artes obtêm seu sustento por aquilo que lhes foi ensinado, assim também o Gnóstico é salvo, obtendo vida pelo que conhece. Pois aquele que não formou o desejo de extirpar a paixão da alma mata a si mesmo. Mas, ao que parece, a ignorância é a fome da alma, e o conhecimento, seu alimento.

[86] Tais são as almas gnósticas, que o evangelho comparou às virgens consagradas que aguardam o Senhor. Pois são virgens quanto à abstinência do mal. E, quanto a esperar por amor ao Senhor e acender sua luz para a contemplação das coisas, são almas sábias, dizendo: “Senhor, há muito desejamos receber-te; vivemos segundo o que nos ordenaste, sem transgredir nenhum de teus mandamentos. Portanto, também reivindicamos as promessas. E oramos pelo que é benéfico, pois não é necessário pedir-te aquilo que é o mais excelente. E tomaremos tudo por bem, ainda que os exercícios que nos sobrevêm, que tua disposição nos traz para disciplina de nossa firmeza, pareçam ser maus.”

[87] O Gnóstico, então, por causa de sua santidade superabundante, está mais preparado para falhar quando pede do que para receber quando não pede.

[88] Sua vida inteira é oração e conversa com Deus. E, se estiver puro de pecados, de toda maneira obterá o que deseja. Pois Deus diz ao justo: “Pede, e eu te darei; pensa, e eu farei.” Se for benéfico, o receberá de imediato; e, se for prejudicial, jamais o pedirá, e portanto não o receberá. Assim será como ele deseja.

[89] Mas, se alguém nos disser que até mesmo alguns pecadores obtêm segundo seus pedidos, diremos que isso raramente acontece, por causa da bondade justa de Deus. E é concedido àqueles que são capazes de fazer bem a outros. Donde o dom não é feito por causa daquele que o pediu; mas a dispensação divina, prevendo que alguém seria salvo por meio dele, torna o benefício novamente justo. E aos dignos, coisas realmente boas são dadas, mesmo sem que peçam.

[90] Sempre que alguém é justo, não por necessidade, ou por medo, ou por esperança, mas por livre escolha, isso é chamado o caminho real, pelo qual viaja a raça real. Mas os atalhos são escorregadios e precipitados. Se, então, alguém remover o medo e a honra, não sei se os ilustres entre os filósofos, que usam tal liberdade de fala, suportariam ainda as aflições.

[91] Ora, as concupiscências e os outros pecados são chamados de sarças e espinhos. Assim, o Gnóstico trabalha na vinha do Senhor, plantando, podando e regando, sendo o lavrador divino daquilo que foi plantado na fé. Aqueles, então, que não fizeram mal acham justo receber o salário do descanso. Mas aquele que fez o bem por livre escolha exige a recompensa como bom operário. Ele certamente receberá salário dobrado, tanto pelo que não fez quanto pelo bem que fez.

[92] Tal Gnóstico não é tentado por ninguém senão com permissão de Deus, e isso para o benefício dos que estão com ele; e ele os fortalece para a fé, encorajando-os com perseverança viril. E certamente foi para esse fim, para o estabelecimento e confirmação das igrejas, que os benditos apóstolos foram levados à provação e ao martírio.

[93] O Gnóstico, então, ouvindo uma voz soar em seu ouvido, que diz: “De quem eu ferir, compadece-te”, suplica que aqueles que o odeiam se arrependam. Pois o castigo dos malfeitores, a ser consumado nas estradas, é para que crianças o vejam; pois não há possibilidade de o Gnóstico, que por escolha treinou-se para ser excelente e bom, ser instruído ou deleitar-se com tais espetáculos. E assim, tendo-se tornado incapaz de ser amolecido por prazeres, e nunca caindo em pecados, não é corrigido pelos exemplos dos sofrimentos de outros homens. E está muito longe de ser agradado com prazeres terrenos e espetáculos aquele que demonstrou nobre desprezo pelas perspectivas oferecidas neste mundo, ainda que sejam divinas.

[94] Nem todo aquele, portanto, que diz: “Senhor, Senhor”, entrará no reino de Deus, mas aquele que faz a vontade de Deus. Tal é o trabalhador gnóstico, que domina os desejos mundanos mesmo ainda na carne; e que, com respeito às coisas futuras e ainda invisíveis que conhece, tem tão firme persuasão que as considera mais presentes do que as coisas ao alcance da mão. Esse hábil trabalhador se alegra com o que conhece, mas é apertado por estar envolvido nas necessidades da vida, ainda não considerado digno da participação ativa naquilo que conhece. Assim, ele usa esta vida como se pertencesse a outro, isto é, na medida do necessário.

[95] Ele conhece também os enigmas do jejum daqueles dias, quero dizer, a Quarta e a Preparação. Pois uma tem seu nome de Hermes, e a outra de Afrodite. Ele jejua em sua vida no que toca à cobiça e à voluptuosidade, de onde todos os vícios crescem. Pois já mostramos muitas vezes acima as três variedades de fornicação, segundo o apóstolo: amor do prazer, amor do dinheiro, idolatria. Ele jejua, então, segundo a Lei, abstendo-se de más obras e, segundo a perfeição do evangelho, de maus pensamentos. Tentações lhe são aplicadas, não para sua purificação, mas, como dissemos, para o bem de seus próximos, se, tendo experimentado trabalhos e dores, as desprezou e passou por elas.

[96] O mesmo vale para o prazer. Pois a maior realização é que alguém, depois de tê-lo provado, se abstenha. Pois que grande coisa é um homem refrear-se naquilo que não conhece? Ele, em cumprimento do preceito, segundo o evangelho, guarda o dia do Senhor quando abandona uma disposição má e assume a do Gnóstico, glorificando em si mesmo a ressurreição do Senhor. Além disso, quando recebeu a compreensão da especulação científica, considera que vê o Senhor, dirigindo os olhos para as coisas invisíveis, embora pareça olhar para o que não deseja olhar; castigando a faculdade da visão quando percebe estar sendo afetado prazerosamente pela aplicação dos olhos, pois deseja ver e ouvir apenas aquilo que lhe convém.

[97] No ato de contemplar as almas dos irmãos, ele contempla também a beleza da carne juntamente com a própria alma, habituada a olhar apenas para aquilo que é bom, sem prazer carnal. E eles são realmente irmãos, uma vez que, em razão de sua criação eleita, de sua unidade de caráter e da natureza de suas obras, fazem, pensam e falam as mesmas obras santas e boas, de acordo com os sentimentos com que o Senhor quis que fossem inspirados como eleitos.

[98] Pois a fé se mostra em escolherem as mesmas coisas; e o conhecimento, em aprenderem e pensarem as mesmas coisas; e a esperança, em desejarem as mesmas coisas.

[99] E, se por necessidade da vida ele gastar pequena porção de tempo com seu sustento, considera-se defraudado, sendo desviado pelos negócios. Assim, nem mesmo em sonhos olha para qualquer coisa imprópria a um homem eleito. Pois é verdadeiramente estrangeiro e peregrino em toda a vida todo homem assim, que, habitando a cidade, despreza as coisas da cidade admiradas pelos outros, e vive na cidade como num deserto, de modo que não seja o lugar a constrangê-lo, mas seu modo de vida a mostrar que ele é justo.

[100] Este Gnóstico, para falar compendiosamente, supre a ausência dos apóstolos pela retidão de sua vida, pela exatidão de seu conhecimento, beneficiando seus próximos, removendo as montanhas de seus vizinhos e afastando as irregularidades de sua alma. Embora cada um de nós seja sua própria vinha e seu próprio trabalhador.

[101] Também ele, ao fazer as coisas mais excelentes, deseja escapar à observação dos homens, persuadindo o Senhor juntamente consigo de que vive de acordo com os mandamentos, preferindo essas coisas por crer que elas existem. Pois onde está a mente de alguém, aí também está o seu tesouro.

[102] Ele empobrece a si mesmo para jamais deixar passar despercebido um irmão que tenha sido lançado em aflição, por causa da perfeição que está no amor, especialmente se souber que suportará ele mesmo a necessidade com mais facilidade do que seu irmão. Considera, assim, a dor do outro como sua própria tristeza; e se, contribuindo de sua própria indigência para fazer o bem, sofrer alguma dureza, não se irrita com isso, mas aumenta ainda mais sua beneficência. Pois possui em sua sinceridade a fé exercitada com referência aos assuntos da vida, e louva o evangelho na prática e na contemplação. E, na verdade, ganha seu louvor não dos homens, mas de Deus, pelo cumprimento do que o Senhor ensinou.

[103] Ele, atraído por sua própria esperança, não prova os bens que estão no mundo, entretendo nobre desprezo por todas as coisas daqui; compadecendo-se daqueles que são castigados após a morte, os quais, por meio do castigo, fazem confissão contra a própria vontade; tendo consciência limpa com relação à sua partida, e estando sempre pronto, como estrangeiro e peregrino, quanto às heranças daqui; atento apenas às que são suas, e considerando todas as coisas daqui como não sendo suas; não apenas admirando os mandamentos do Senhor, mas, por assim dizer, tornando-se pelo próprio conhecimento participante da vontade divina; um verdadeiro íntimo escolhido do Senhor e de seus mandamentos em virtude de ser justo; principesco e régio por ser Gnóstico; desprezando todo o ouro sobre a terra e sob a terra, e o domínio de costa a costa do oceano, para apegar-se somente ao serviço do Senhor. Por isso também, ao comer, beber e casar-se, se o Verbo o ordenar, e até mesmo ao sonhar, faz e pensa o que é santo.

[104] Assim, ele está sempre puro para a oração. Ora também na companhia dos anjos, por já ser de ordem angélica, e nunca está fora de sua santa guarda; e, ainda que ore sozinho, tem o coro dos santos de pé com ele.

[105] Ele reconhece um elemento duplo na fé: tanto a atividade daquele que crê quanto a excelência daquilo em que se crê segundo o seu valor; visto que também a justiça é dupla, aquela que procede do amor e aquela que procede do temor. Assim, está dito: “O temor do Senhor é puro, permanecendo para sempre.” Pois aqueles que do temor se voltam para a fé e para a justiça permanecem para sempre. Ora, o temor opera abstinência do mal; mas o amor exorta à prática do bem, edificando até o ponto da espontaneidade; para que alguém ouça do Senhor: “Já não vos chamo servos, mas amigos”, e possa agora aplicar-se à oração com confiança.

[106] E a forma de sua oração é ação de graças pelo passado, pelo presente e pelo futuro, como já presentes pela fé. Isso é precedido pela recepção do conhecimento. E ele pede viver a vida que lhe foi designada na carne como Gnóstico, como livre da carne, alcançar as melhores coisas e fugir das piores.

[107] Pede também alívio naquelas coisas em que pecamos e conversão para o reconhecimento delas.

[108] Ele segue, em sua partida, Aquele que o chama, tão rapidamente, por assim dizer, quanto Aquele que vai adiante chama, apressando-se, por causa de uma boa consciência, a dar graças; e, tendo chegado ali com Cristo, mostra-se digno, por sua pureza, de possuir, por um processo de mistura, o poder de Deus comunicado por Cristo. Pois não deseja aquecer-se por participação no calor, nem ser luminoso por participação na chama, mas ser inteiramente luz.

[109] Conhece com precisão a declaração: “Se não odiardes pai e mãe, e ainda a vossa própria vida, e se não levardes o sinal da cruz…” Pois odeia as afeições desordenadas da carne, que possuem o poderoso encantamento do prazer; e alimenta nobre desprezo por tudo o que pertence à criação e alimento da carne. Também resiste à alma corpórea, pondo freio no espírito irracional indócil: “Porque a carne luta contra o Espírito.” E levar o sinal da cruz é trazer consigo a morte, despedindo-se de todas as coisas ainda em vida; pois não há igual amor em ter semeado a carne e em ter formado a alma para o conhecimento.

[110] Tendo adquirido o hábito de fazer o bem, exerce bem a beneficência, mais rápido do que a fala; orando para que lhe seja dada parte nos pecados de seus irmãos, a fim de que haja confissão e conversão da parte dos seus próximos; e ansioso por repartir com os mais queridos seus próprios bens. E assim estes lhe são amigos. Promovendo, então, o crescimento das sementes depositadas nele, segundo a agricultura ordenada pelo Senhor, continua livre de pecado, torna-se continente e vive em espírito com os que lhe são semelhantes, entre os coros dos santos, embora ainda detido na terra.

[111] Ele, todo dia e noite, falando e praticando os mandamentos do Senhor, alegra-se muitíssimo, não apenas ao levantar-se de manhã e ao meio-dia, mas também quando caminha, quando dorme, quando se veste e se despe; e ensina o filho, se tem um filho. É inseparável do mandamento e da esperança, e está sempre dando graças a Deus, como as criaturas viventes figurativamente mencionadas por Isaías; e, submisso em toda provação, diz: “O Senhor deu, e o Senhor tomou.” Pois assim também era Jó, que, depois do saque de seus bens, juntamente com a saúde do corpo, resignou tudo por amor ao Senhor. Pois era, diz-se, justo, santo e apartado de toda maldade. Ora, a palavra “santo” aponta para todos os deveres para com Deus e todo o curso da vida. Sabendo isso, ele era um Gnóstico. Pois não devemos apegar-nos demais a tais coisas, mesmo se forem boas, por serem humanas; nem, por outro lado, detestá-las, se forem más; mas devemos estar acima de ambas, pisando as últimas e transmitindo as primeiras aos que delas necessitam. Mas o Gnóstico é cauteloso na acomodação, para que não passe despercebido ou para que a acomodação não se torne disposição.

[112] Ele nunca se lembra daqueles que pecaram contra ele, mas os perdoa. Por isso também ora justamente, dizendo: “Perdoa-nos, pois nós também perdoamos.” Pois também isso é uma das coisas que Deus quer: nada cobiçar, ninguém odiar. Pois todos os homens são obra de uma só vontade. E não é o Salvador, que deseja que o Gnóstico seja perfeito como o Pai celestial, isto é, Ele mesmo, quem diz: “Vinde, filhos, ouvi de mim o temor do Senhor”? Ele deseja que ele já não necessite de ajuda por anjos, mas a receba d’Ele mesmo, tendo-se tornado digno, e que tenha proteção d’Ele mesmo por obediência.

[113] Tal homem exige do Senhor e não apenas pede. E, no caso de seus irmãos necessitados, o Gnóstico não pedirá para si abundância de riquezas para repartir, mas orará para que o suprimento do que eles necessitam lhes seja fornecido. Pois assim o Gnóstico dá sua oração aos necessitados, e por sua oração eles são supridos, sem seu conhecimento e sem vaidade.

[114] Penúria e doença, e provações semelhantes, são muitas vezes enviadas para advertência, para correção do passado e para cuidado do futuro. Tal homem ora por alívio delas, em virtude de possuir a prerrogativa do conhecimento, não por vanglória; mas, pelo próprio fato de ser Gnóstico, opera beneficência, tendo-se tornado instrumento da bondade de Deus.

[115] Dizem as tradições que o apóstolo Mateus dizia constantemente que, se o vizinho de um homem eleito pecar, o homem eleito pecou. Pois, se ele houvesse conduzido a si mesmo como o Verbo prescreve, também seu próximo teria sido preenchido de tal reverência pela vida que ele levava, que não pecaria.

[116] Que diremos, então, do próprio Gnóstico? “Não sabeis”, diz o apóstolo, “que sois o templo de Deus?” O Gnóstico é, consequentemente, divino, e já santo, portador de Deus e levado por Deus. Ora, a Escritura, mostrando que pecar lhe é estranho, diz àqueles que caíram para longe: “Não olhes para uma mulher estranha, para a cobiça”, pronunciando claramente que o pecado é estranho e contrário à natureza do templo de Deus. Ora, o templo é grande, como a Igreja, e é pequeno, como o homem que preserva a semente de Abraão. Portanto, aquele em quem Deus repousa não desejará mais nada. Abandonando de imediato todos os empecilhos e desprezando toda matéria que o distrai, fende o céu pelo conhecimento. E, passando através das essências espirituais, de todo principado e autoridade, toca os mais altos tronos, apressando-se somente para aquilo pelo qual somente conheceu.

[117] Misturando, então, a serpente com a pomba, ele vive ao mesmo tempo perfeitamente e com boa consciência, mesclando fé com esperança, em ordem à expectativa do futuro. Pois está consciente do benefício que recebeu, tendo-se tornado digno de obtê-lo; e é trasladado da escravidão para a adoção, como consequência do conhecimento; conhecendo a Deus, ou antes, sendo conhecido por Ele, para o fim, ele põe em operação energias correspondentes ao valor da graça. Pois as obras seguem o conhecimento como a sombra segue o corpo.

[118] Corretamente, então, ele não se perturba com coisa alguma que aconteça; nem suspeita daquelas coisas que, pela disposição divina, ocorrem para o bem. Nem se envergonha de morrer, tendo boa consciência e sendo apto para ser visto pelas Potestades. Purificado, por assim dizer, de todas as manchas da alma, sabe muito bem que lhe será melhor após a partida.

[119] Por isso ele nunca prefere prazer e lucro à disposição divina, já que se exercita pelos mandamentos para, em todas as coisas, ser agradável ao Senhor e louvável à vista do mundo, uma vez que todas as coisas dependem do único Deus Soberano. “O Filho de Deus veio para os seus, e os seus não o receberam.” Portanto, também no uso das coisas do mundo ele não apenas dá graças e louva a criação, mas ainda, usando-as como convém, é louvado; pois o fim que tem em vista termina em contemplação por atividade gnóstica de acordo com os mandamentos.

[120] Daí agora, reunindo pelo conhecimento materiais para serem alimento da contemplação, tendo abraçado nobremente a magnitude do conhecimento, avança para a santa recompensa da trasladação daqui. Pois ouviu o Salmo que diz: “Rodeai Sião e cercai-a, contai suas torres.” Pois isso indica, penso eu, aqueles que abraçaram sublimemente o Verbo, de modo a se tornarem altas torres e a permanecerem firmes na fé e no conhecimento.

[121] Que estas afirmações acerca do Gnóstico, contendo os germes do assunto nos termos mais breves possíveis, sejam feitas aos gregos. Mas saiba-se que, se o mero crente fizer corretamente uma ou duas dessas coisas, ainda assim não as fará todas, nem com o mais alto conhecimento, como o Gnóstico.

[122] Quanto àquilo que posso chamar de impassibilidade atribuída ao Gnóstico — na qual a perfeição do fiel, avançando pelo amor, chega ao homem perfeito, à medida da plena estatura, pela assimilação a Deus e por tornar-se verdadeiramente angélico — muitas outras passagens das Escrituras me ocorrem para apresentar. Mas, por causa da extensão do discurso, penso ser melhor deixar essa honra aos que quiserem dedicar-se a isso, elaborando os dogmas mediante a seleção das Escrituras.

[123] Referirei, portanto, uma passagem em termos brevíssimos, para que o tema não fique sem explicação.

[124] Pois na primeira carta aos coríntios o divino apóstolo diz: “Ousa algum de vós, tendo questão contra outro, ir a juízo perante os injustos, e não perante os santos? Não sabeis que os santos hão de julgar o mundo?” e assim por diante.

[125] Como a seção é muito longa, exporemos o sentido da fala apostólica usando as expressões mais pertinentes, do modo mais breve e quase em forma de síntese, interpretando o discurso em que ele descreve a perfeição do Gnóstico. Pois ele não apenas apresenta o Gnóstico como alguém que prefere sofrer injustiça a praticá-la; ele ensina também que ele não guarda memória das ofensas e nem sequer lhe permite orar contra quem lhe fez mal. Pois sabe que o Senhor ordenou expressamente que se ore pelos inimigos.

[126] Dizer, então, que o homem ofendido vai a juízo diante dos injustos não é outra coisa senão dizer que ele manifesta desejo de revidar e vontade de ferir o segundo em troca, o que também é ele mesmo praticar injustiça.

[127] E ao dizer que deseja que alguns vão a juízo perante os santos, ele aponta para aqueles que, por oração, pedem que os que praticaram injustiça sofram retribuição por sua injustiça, insinuando que estes segundos são melhores do que os primeiros; mas ainda não são obedientes, se, não se tornando inteiramente livres de ressentimento, não oram até mesmo por seus inimigos.

[128] Convém, então, que recebam disposições corretas por meio do arrependimento, que resulta em fé. Pois, ainda que a verdade pareça ganhar inimigos mal-intencionados, ela não é hostil a ninguém. Pois Deus faz nascer o seu sol sobre justos e injustos, e enviou o próprio Senhor aos justos e aos injustos. E aquele que se empenha sinceramente em assimilar-se a Deus, exercendo grande ausência de rancor, perdoa setenta vezes sete, por assim dizer, durante toda a sua vida e em todo o curso desta existência — sendo isso indicado pela enumeração dos setes — mostrando clemência a cada um e a todos, se durante todo o tempo da vida na carne alguém fizer mal ao Gnóstico. Pois ele não apenas considera justo que o homem bom entregue seus bens aos outros, mesmo estando entre os que o prejudicaram; deseja também que o justo peça àqueles juízes perdão pelas ofensas dos que lhe fizeram mal. E com razão, se de fato é apenas no que é exterior e diz respeito ao corpo, ainda que isso chegue até a morte, que os que tentam feri-lo levam vantagem; nada disso pertencendo verdadeiramente ao Gnóstico.

[129] E como julgará os anjos apóstatas aquele que ele mesmo se tornou apóstata desse esquecimento das ofensas que é segundo o evangelho? “Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sois antes defraudados? Vós mesmos fazeis injustiça e defraudais”, manifestamente ao orar contra os que transgridem em ignorância e ao privar, quanto depende de vós, da filantropia e bondade de Deus aqueles contra quem orais, e esses vossos irmãos — não entendendo apenas os que estão na fé, mas também os prosélitos. Pois ainda não sabemos se aquele que agora é hostil depois crerá. Daí segue claramente esta conclusão: se ainda nem todos são nossos irmãos, devem ser considerados nessa luz. E agora somente o homem de conhecimento reconhece todos os homens como obra de um só Deus, revestidos de uma só imagem em uma só natureza, embora alguns possam ser mais turvos que outros; e nas criaturas ele reconhece a operação pela qual, uma vez mais, adora a vontade de Deus.

[130] “Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus?” Age injustamente quem revida, seja por obra, por palavra ou pela concepção do desejo, coisa que, depois da disciplina da Lei, o evangelho rejeita.

[131] “E tais fostes alguns de vós” — tais, manifestamente, como ainda são aqueles a quem não perdoais; “mas fostes lavados”, não simplesmente como os demais, mas com conhecimento; lançastes fora as paixões da alma, para vos tornardes, quanto possível, semelhantes à bondade da providência de Deus, pela longanimidade e pelo perdão para com justos e injustos, lançando sobre eles o brilho da benignidade em palavras e obras, como o sol.

[132] O Gnóstico alcançará isso ou por grandeza de alma, ou por imitação daquilo que é melhor. E essa é uma terceira causa. “Perdoai, e sereis perdoados”; o mandamento, por assim dizer, constrangendo à salvação por superabundância de bondade.

[133] “Mas fostes santificados.” Pois aquele que chegou a esse estado está em condição de ser santo, não caindo de modo algum em nenhuma paixão, mas como que já desencarnado e já tornado santo sem esta terra.

[134] Por isso, diz ele: “fostes justificados no nome do Senhor.” Sois feitos, por assim dizer, por Ele, justos como Ele é, e mesclados, tanto quanto possível, com o Espírito Santo. Pois “todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma”, a ponto de fazer, pensar ou dizer algo contrário ao evangelho. “Os alimentos são para o ventre e o ventre para os alimentos, mas Deus destruirá a ambos” — isto é, aqueles que pensam e vivem como se tivessem sido feitos para comer, e não comem como consequência de viver, e não se aplicam ao conhecimento como fim principal. E não diz ele que estes são, por assim dizer, as partes carnais do corpo santo? Como corpo, é simbolizada a Igreja do Senhor, o coro espiritual e santo. Daí que os que apenas são chamados, mas não vivem segundo a palavra, são as partes carnais. Ora, esse corpo espiritual, a santa Igreja, não é para fornicação. Nem se devem adotar, por apostasia do evangelho, as coisas que pertencem à vida gentílica. Pois aquele que se conduz de modo pagão na Igreja, seja por obra, por palavra ou mesmo em pensamento, comete fornicação em relação à Igreja e ao seu próprio corpo. Quem assim se une à prostituta, isto é, ao modo de viver contrário à Aliança, torna-se outro corpo, não santo, e uma só carne, e tem uma vida gentílica e outra esperança. Mas aquele que se une ao Senhor em espírito se torna corpo espiritual por outro tipo de união.

[135] Tal homem é inteiramente filho, santo, impassível, gnóstico, perfeito, formado pelo ensino do Senhor; para que, em obra, em palavra e no próprio espírito, sendo aproximado do Senhor, receba a morada devida àquele que assim alcançou a maturidade.

[136] Basta esse exemplo para os que têm ouvidos. Pois não é preciso desvendar o mistério, mas apenas indicar o suficiente para que os participantes do conhecimento se lembrem; eles compreenderão também como foi dito pelo Senhor: “Sede perfeitos como vosso Pai”, isto é, perfeitos em perdoar pecados, esquecer injúrias e viver no hábito da impassibilidade. Pois, assim como chamamos perfeito um médico e perfeito um filósofo, assim também, a meu ver, chamamos perfeito um Gnóstico. Mas nenhum desses pontos, embora importantíssimos, é assumido para igualar-se a Deus. Pois não dizemos, como fazem os estóicos com máxima impiedade, que a virtude no homem e em Deus seja a mesma. Não devemos então ser perfeitos como o Pai quer? Pois é absolutamente impossível que alguém se torne perfeito como Deus é. Ora, o Pai quer que sejamos perfeitos vivendo irrepreensivelmente, segundo a obediência do evangelho.

[137] Se, então, sendo elíptica a afirmação, entendermos o que falta para completar a passagem em favor dos que não conseguem compreender o que foi omitido, conheceremos a vontade de Deus e andaremos ao mesmo tempo com piedade e magnanimidade, como convém à dignidade do mandamento.

[138] Como agora vem em seguida responder às objeções levantadas contra nós por gregos e judeus, e como, em algumas das questões já tratadas, também as seitas que aderem a outro ensino nos dão ocasião para isso, convém primeiro remover os obstáculos que estão diante de nós e, depois, assim preparados para resolver as dificuldades, avançar para a miscelânea seguinte.

[139] Primeiro, então, levantam contra nós esta objeção, dizendo que não se deve crer por causa da discórdia das seitas. Pois a verdade é distorcida quando uns ensinam um conjunto de dogmas e outros, outro.

[140] A esses respondemos que, entre vós que sois judeus, e entre os mais famosos filósofos gregos, surgiram muitíssimas seitas. E, no entanto, não dizeis que alguém deva hesitar em filosofar ou em judaizar por causa da falta de acordo entre as vossas seitas. E, além disso, que heresias seriam semeadas em meio à verdade, como joio entre o trigo, foi predito pelo Senhor; e o que foi predito haveria de acontecer.

[141] Devem, portanto, ser cridos aqueles que se apegam firmemente à verdade. E podemos fazer uso amplo desta regra: o que concorda com a verdade é verdadeiro; o que diverge dela é falso.

[142] Além disso, está dito que é por causa dos aprovados que existem heresias.

[143] Por essa razão, então, requer-se de nós maior atenção e exame, para investigar como precisamente se dá a distinção entre aquilo que é verdadeiro e aquilo que apenas parece ser.

[144] Por causa das heresias, portanto, deve-se empreender o trabalho da descoberta; mas não devemos, por causa delas, desertar da verdade. Assim como, havendo uma única estrada real, há muitas outras, umas levando a precipícios, outras a pântanos e outras a regiões intransitáveis, assim também a verdade é uma só, mas os desvios são muitos.

[145] Tendo, então, por natureza abundantes meios para examinar as afirmações feitas, devemos descobrir as demonstrações concernentes à verdade.

[146] Esse pretexto, portanto, no caso dos gregos, é inútil; pois os que querem podem encontrar a verdade. Nem a diversidade das escolas destrói a filosofia, nem a multiplicidade das seitas anula a verdade.

[147] Ora, dos que se desviam da verdade, alguns tentam enganar apenas a si mesmos, e outros também aos vizinhos.

[148] Mas, a meu ver, a natureza dos argumentos plausíveis é de um caráter, e a dos argumentos verdadeiros, de outro. E sabemos que o nome das heresias deve ser expresso por contraste com a verdade; pois os sofistas, tirando certas coisas para perdição dos homens e enterrando-as em artes humanas por eles inventadas, gloriam-se mais em estar à frente de uma escola do que em presidir à Igreja.

[149] Mas aqueles que estão dispostos a trabalhar nas ocupações mais excelentes não desistirão da busca da verdade até obterem a demonstração a partir das próprias Escrituras.

[150] Há certos critérios comuns aos homens, como os sentidos; e outros pertencem àqueles que empregaram vontade e energia no que é verdadeiro — os métodos seguidos pela mente e pela razão para distinguir entre proposições verdadeiras e falsas.

[151] Ora, é grande coisa abandonar a opinião, colocando-se entre o conhecimento exato e a sabedoria temerária da opinião, e saber que aquele que espera o descanso eterno sabe também que a entrada nele é laboriosa e estreita. E aquele que uma vez recebeu o evangelho, mesmo na própria hora em que chegou ao conhecimento da salvação, não volte atrás, como a mulher de Ló, nem retorne nem à vida anterior, apegada às coisas sensíveis, nem às heresias. Pois estas formam o caráter sem conhecer o verdadeiro Deus. “Quem ama pai ou mãe mais do que a mim”, ao Pai e Mestre da verdade, que regenera, recria e nutre a alma eleita, “não é digno de mim” — isto é, de ser filho de Deus e discípulo de Deus, e ao mesmo tempo amigo e de natureza afim. Pois “ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus”.

[152] Mas, ao que parece, muitos ainda até nosso tempo consideram Maria, por causa do parto de seu filho, como tendo entrado em estado puerperal, embora não o tenha sido. Pois alguns dizem que, depois de dar à luz, foi constatado, quando examinada, que ela era virgem.

[153] Ora, assim são para nós as Escrituras do Senhor, que deram à luz a verdade e continuam virgens, no ocultamento dos mistérios da verdade. E a Escritura diz: ela deu à luz e, contudo, não deu à luz, por ter concebido de si mesma e não por conjunção. Por isso as Escrituras conceberam para os Gnósticos; mas as heresias, não as tendo aprendido, as despediram como se não houvessem concebido.

[154] Todos os homens, tendo o mesmo juízo, alguns, seguindo a Palavra que fala, constroem para si suas provas; outros, entregando-se aos prazeres, torcem a Escritura segundo suas concupiscências. E o amante da verdade, penso eu, precisa de força de alma. Pois aqueles que empreendem as maiores tentativas falham nas coisas de maior importância, a menos que, recebendo da própria verdade a regra da verdade, apeguem-se à verdade. Mas tais pessoas, por se desviarem do caminho reto, erram em muitos pontos particulares, como seria de esperar de quem não treinou estritamente a faculdade de julgar o verdadeiro e o falso, para escolher o que é essencial. Pois, se a tivessem, teriam obedecido às Escrituras.

[155] Assim como, se um homem, semelhantemente aos enfeitiçados por Circe, se transformasse em besta, assim também aquele que desprezou a tradição eclesiástica e correu para as opiniões de homens heréticos deixou de ser homem de Deus e de permanecer fiel ao Senhor. Mas aquele que retorna desse engano, ao ouvir as Escrituras e converter sua vida à verdade, é, por assim dizer, transformado de homem em deus.

[156] Pois temos como fonte do ensino o Senhor, tanto pelos profetas como pelo evangelho e pelos benditos apóstolos, em muitos modos e em diversos tempos, conduzindo desde o princípio do conhecimento até o fim. Mas, se alguém supuser que outra origem seria necessária, então já não se preservaria verdadeiramente uma origem.

[157] Aquele, pois, que por si mesmo crê na Escritura e na voz do Senhor, a qual pelo Senhor age em benefício dos homens, é justamente considerado fiel. Certamente a usamos como critério para a descoberta das coisas. O que é submetido à crítica não é crido antes de o ser; de modo que aquilo que necessita de crítica não pode ser princípio primeiro. Portanto, de maneira razoável, apreendendo pela fé o princípio primeiro indemonstrável e recebendo abundantemente desse mesmo princípio as demonstrações relativas a ele, somos treinados pela voz do Senhor no conhecimento da verdade.

[158] Pois não devemos aderir a homens por mera afirmação deles, já que poderiam dizer igualmente o contrário. Mas, se não basta simplesmente declarar uma opinião e se o que é dito precisa ser confirmado, não esperamos o testemunho dos homens; estabelecemos a questão em exame pela voz do Senhor, que é a mais segura de todas as demonstrações — ou melhor, a única demonstração. Nessa ciência, os que apenas provaram as Escrituras são crentes; enquanto os que avançaram mais e se tornaram intérpretes corretos da verdade são Gnósticos. E assim como, no que concerne à vida, os artífices são superiores às pessoas comuns e moldam o que está além das noções ordinárias, assim também nós, oferecendo uma exposição completa das Escrituras a partir das próprias Escrituras, persuadimos pela demonstração a partir da fé.

[159] E se também os que seguem heresias ousam valer-se das Escrituras proféticas, em primeiro lugar não usarão todas as Escrituras; em segundo, não as citarão por inteiro, nem segundo o corpo e a tessitura da profecia. Mas, escolhendo expressões ambíguas, torcem-nas para suas próprias opiniões, reunindo poucas expressões aqui e ali; não atentando para o sentido, mas usando apenas as palavras. Pois em quase todas as citações que fazem, verás que se prendem apenas aos nomes, enquanto alteram os significados; nem conhecendo, como afirmam, nem usando segundo sua verdadeira natureza as passagens que aduzem.

[160] Mas a verdade não se encontra mudando os sentidos — pois assim se subverte todo verdadeiro ensinamento — e sim na consideração do que pertence perfeitamente e convém ao Deus Soberano, e em estabelecer novamente cada um dos pontos demonstrados nas Escrituras a partir de Escrituras semelhantes. Eles, então, nem querem voltar-se para a verdade, envergonhados de abandonar as pretensões do amor-próprio; nem conseguem governar suas opiniões sem violentar as Escrituras. Mas, tendo primeiro promulgado falsos dogmas aos homens e lutando abertamente contra quase toda a Escritura, sendo constantemente refutados por nós que os contradizemos, de resto, ainda agora, em parte recusam admitir as Escrituras proféticas e, em parte, nos desprezam como sendo de natureza diversa e incapazes de compreender o que lhes seria próprio. E às vezes chegam até a negar seus próprios dogmas quando estes são refutados, envergonhados de admitir publicamente aquilo de que em privado se gloriam ao ensinar. Pois isso pode ser visto em todas as heresias quando examinas a iniquidade de seus dogmas. Quando são derrubadas por nossa demonstração clara de que estão em oposição às Escrituras, percebe-se que uma de duas coisas foi feita pelos defensores do dogma: ou desprezam a coerência de seus próprios dogmas, ou desprezam a própria profecia — ou antes, sua própria esperança. E invariavelmente preferem o que lhes parece mais evidente ao que foi dito pelo Senhor por meio dos profetas e do evangelho, e, além disso, atestado e confirmado pelos apóstolos.

[161] Vendo, portanto, o perigo em que estão — não quanto a um só dogma, mas quanto à manutenção das heresias — de não descobrir a verdade; pois, enquanto leem os livros que temos prontos à mão, desprezam-nos como inúteis, mas em seu anseio de exceder a fé comum desviaram-se da verdade. Pois, por não aprenderem os mistérios do conhecimento eclesiástico e por não terem capacidade para a grandeza da verdade, indolentes demais para descer ao fundo das coisas e lendo superficialmente, despediram-se das Escrituras. Exaltados, então, por opinião vã, vivem incessantemente em contendas e mostram claramente que se importam mais em parecer filósofos do que em sê-lo. Não lançando como fundamentos os primeiros princípios necessários das coisas, e influenciados por opiniões humanas, moldando depois o fim conforme lhes convém pela força; por serem refutados, pelejam contra os que se ocupam da verdadeira filosofia e suportam tudo, como dizem, remando com todos os remos, chegando até à impiedade por desacreditar as Escrituras, antes que serem removidos das honras da heresia e do tão jactado primeiro assento em suas igrejas; por causa do qual também abraçam avidamente aquele leito de honra do ágape falsamente assim chamado.

[162] O conhecimento da verdade entre nós, a partir do que já é crido, produz fé no que ainda não é crido; essa fé sendo, por assim dizer, a essência da demonstração. Mas, ao que parece, nenhuma heresia tem ouvidos para ouvir o que é útil, mas apenas abertos para o que conduz ao prazer. E se qualquer um deles obedecesse à verdade, seria curado.

[163] Ora, a cura da presunção, como de toda enfermidade, é tríplice: descobrir a causa, descobrir o modo de removê-la e, em terceiro lugar, treinar a alma e acostumá-la a assumir a atitude correta diante dos juízos alcançados. Pois, assim como um olho enfermo, também a alma obscurecida por dogmas não naturais não pode perceber distintamente a luz da verdade, mas até deixa de ver o que está diante dela.

[164] Dizem, então, que em águas turvas as enguias são apanhadas quando cegadas. E, assim como meninos travessos barram a entrada do mestre, assim esses excluem as profecias de sua igreja, olhando para elas com suspeita por causa da repreensão e da admoestação. Na verdade, costuram uma multidão de mentiras e invenções, para parecer que agem segundo a razão ao não admitir as Escrituras. Portanto, não são piedosos, visto que não se agradam dos mandamentos divinos, isto é, do Espírito Santo. E, assim como se chamam vazias aquelas amêndoas cujo conteúdo é sem valor, e não aquelas em que nada há, assim também chamamos vazios esses heréticos, desprovidos dos conselhos de Deus e das tradições de Cristo; amargos, de fato, como a amêndoa selvagem, seus dogmas nascendo deles mesmos, excetuadas aquelas verdades que, por causa de sua evidência, não puderam rejeitar nem ocultar.

[165] Assim como, na guerra, o soldado não deve abandonar o posto que o comandante lhe designou, assim também nós não devemos desertar o posto atribuído pela Palavra, a quem recebemos como guia do conhecimento e da vida. Mas a maioria nem sequer investigou se há um a quem devemos seguir, quem é esse e como deve ser seguido. Pois, tal como é a Palavra, assim também deve ser a vida do fiel, para poder seguir a Deus, que conduz todas as coisas ao seu fim desde o começo pelo curso reto.

[166] Mas quando alguém transgrediu contra a Palavra e, portanto, contra Deus, se isso ocorreu por ter-se tornado impotente em consequência de alguma impressão súbita, deve cuidar de ter à mão as impressões das razões. E se tornou comum, como diz a Escritura, por ter sido vencido pelos hábitos que antes dominavam sobre ele, esses hábitos devem ser completamente interrompidos, e a alma treinada para lhes resistir. E, se parecer que dogmas conflitantes desviam alguns, estes devem ser removidos do caminho, e deve-se recorrer àqueles que reconciliam os dogmas e, pelo encanto das Escrituras, domam os indoutos que são tímidos, explicando a verdade pela conexão dos Testamentos.

[167] Mas, ao que parece, inclinamo-nos mais a ideias fundadas em opinião, ainda que sejam contrárias, do que à verdade. Pois a verdade é austera e grave. Ora, como há três estados da alma — ignorância, opinião e conhecimento — os que estão na ignorância são os gentios; os que estão no conhecimento, a verdadeira Igreja; e os que estão na opinião, os heréticos. Nada, então, pode ser visto com maior clareza do que isto: os que conhecem fazem afirmações a respeito do que conhecem, e os outros a respeito daquilo que sustentam pela força da opinião, ao menos no que toca à afirmação sem prova.

[168] Eles, por conseguinte, desprezam-se e riem uns dos outros. E acontece que o mesmo pensamento é tido em altíssima estima por uns e condenado como loucura por outros. E, de fato, aprendemos que a voluptuosidade, atribuída aos gentios, é uma coisa; a disputa contenciosa, preferida entre as seitas heréticas, é outra; a alegria, apropriada à Igreja, é outra; e o deleite, que se deve atribuir ao verdadeiro Gnóstico, é outra. E assim como, se alguém se dedicar a Iscômaco, ele o fará agricultor; a Lampis, marinheiro; a Caridemo, comandante militar; a Simão, cavaleiro; a Perdices, comerciante; a Cróbilo, cozinheiro; a Arquelau, dançarino; a Homero, poeta; a Pirro, briguento; a Demóstenes, orador; a Crisipo, dialético; e a Aristóteles, naturalista; e a Platão, filósofo; assim também quem ouve o Senhor e segue a profecia dada por Ele será perfeitamente formado à semelhança do mestre — tornando-se um deus que anda na carne.

[169] Por isso caem dessa elevação aqueles que não seguem a Deus para onde Ele os conduz. E Ele nos conduz nas Escrituras inspiradas.

[170] Embora as ações dos homens sejam dez mil, as fontes de todo pecado são apenas duas: ignorância e incapacidade. E ambas dependem de nós mesmos, visto que não queremos aprender nem, por outro lado, refrear a concupiscência. E destas, uma é aquela em consequência da qual as pessoas não julgam corretamente; e a outra é aquela em consequência da qual não conseguem cumprir os julgamentos corretos. Pois nem aquele que está iludido em sua mente poderá agir retamente, ainda que tenha plena capacidade de fazer o que sabe; nem aquele que é capaz de julgar o que é necessário manter-se-á livre de culpa, se carecer de poder na ação. Consequentemente, então, são atribuídas duas espécies de correção aplicáveis aos dois tipos de pecado: para um, o conhecimento e a demonstração clara a partir do testemunho das Escrituras; para o outro, o treinamento segundo a Palavra, regulado pela disciplina da fé e do temor. E ambos se desenvolvem em amor perfeito. Pois o fim do Gnóstico aqui, a meu juízo, é duplo: em parte contemplação científica, em parte ação.

[171] Oxalá, então, esses heréticos aprendessem e fossem corrigidos por estas observações, e se voltassem para o Deus soberano. Mas, se como serpentes surdas não escutam o cântico chamado novo, embora seja muito antigo, que sejam castigados por Deus e passem por admoestações paternas antes do juízo, até que se envergonhem e se arrependam, mas não corram por incredulidade precipitada e se lancem no julgamento.

[172] Pois há correções parciais, chamadas castigos, que muitos de nós, tendo transgredido, sofremos ao cair para longe do povo do Senhor. Mas, assim como as crianças são castigadas por seu mestre ou por seu pai, assim também nós o somos pela Providência. Deus, porém, não pune, pois punição é retribuição do mal. Ele castiga, no entanto, para o bem dos que são castigados, coletiva e individualmente.

[173] Trouxe essas coisas por desejar desviar os que são zelosos por aprender do risco de cair em heresias, e por querer livrá-los da ignorância superficial, da estupidez, da má disposição, ou seja lá como se deva chamar isso. E, na tentativa de persuadir e conduzir à verdade os que não são inteiramente incuráveis, usei essas palavras. Pois há alguns que não suportam de modo algum ouvir os que os exortam a voltar-se para a verdade; antes, procuram brincar com isso, derramando blasfêmias contra a verdade e reivindicando para si o conhecimento das maiores coisas do universo, sem terem aprendido, investigado, trabalhado ou descoberto a sequência coerente das ideias — pessoas das quais se deve ter pena, e não ódio, por tal perversidade.

[174] Mas, se alguém é curável, capaz de suportar — como o fogo ou o aço — a franqueza da verdade, que corta e queima suas falsas opiniões, que empreste os ouvidos da alma. E isso acontecerá, a menos que, por inclinação à preguiça, afastem a verdade, ou, pelo desejo de fama, tentem inventar novidades. Pois preguiçosos são os que, podendo tirar das próprias Escrituras as provas apropriadas para as Escrituras divinas, escolhem apenas o que contribui para os seus prazeres. E desejosos de glória são aqueles que, voluntariamente, esquivam-se por argumentos de vários tipos das coisas transmitidas pelos benditos apóstolos e mestres, casadas com palavras inspiradas, opondo a tradição divina aos ensinamentos humanos para estabelecer a heresia. Pois, na verdade, o que restava a ser dito — quero dizer, no conhecimento eclesiástico — por homens como Marcião, Pródico e outros semelhantes, que não andaram no caminho reto? Pois não poderiam ter superado seus predecessores em sabedoria, a ponto de descobrir algo além do que por eles fora dito; pois se dariam por satisfeitos se tivessem conseguido aprender as coisas antes estabelecidas.

[175] O nosso Gnóstico, então, e somente ele, tendo envelhecido nas Escrituras e mantendo ortodoxia apostólica e eclesiástica nas doutrinas, vive retissimamente segundo o evangelho e descobre, na Lei e nos profetas, as provas que porventura tenha procurado, enviado como é pelo Senhor. Pois a vida do Gnóstico, em minha visão, nada mais é do que obras e palavras correspondentes à tradição do Senhor. Mas nem todos têm conhecimento. “Não quero, irmãos, que ignoreis que todos estiveram sob a nuvem e todos participaram do alimento e da bebida espirituais”, afirmando claramente que nem todos os que ouviram a palavra acolheram a grandeza do conhecimento em obra e palavra. Por isso também acrescentou: “Mas de muitos deles Ele não se agradou.” Quem é esse? Aquele que disse: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis a vontade de meu Pai?” Esse é o ensino do Salvador, que para nós é alimento espiritual e bebida que não conhece sede, a água da vida gnóstica. Além disso, diz-se que o conhecimento ensoberbece. A isso respondemos: talvez se diga que o conhecimento aparente ensoberbece, se alguém supuser que a expressão significa inchar-se. Mas se, como antes parece ser o caso, a expressão do apóstolo significa ter pensamentos grandes e verdadeiros, a dificuldade está resolvida. Sigamos, então, as Escrituras para firmar o que foi dito: “A sabedoria”, diz Salomão, “engrandou seus filhos.” Pois o Senhor não produziu vaidade pelos pormenores de seu ensino; antes produz confiança na verdade e expansão da mente, no conhecimento comunicado pelas Escrituras, e desprezo pelas coisas que arrastam ao pecado — e esse é o sentido da expressão engrandecer. Ela ensina a magnificência da sabedoria implantada em seus filhos pela instrução. Ora, o apóstolo diz: “Conhecerei não a fala dos ensoberbecidos, mas o poder”, se entenderes as Escrituras magnanimamente, isto é, verdadeiramente; pois nada é maior do que a verdade. Pois nisso está o poder dos filhos da sabedoria que foram engrandecidos. É como se dissesse: verei se pensais correta e grandemente a respeito do conhecimento. Pois Deus, segundo Davi, “é conhecido em Judá”, isto é, naqueles que são israelitas segundo o conhecimento. Pois Judá é interpretado como Confissão. Portanto, o apóstolo diz corretamente: “Não adulterarás, não furtarás, não cobiçarás; e, se há algum outro mandamento, tudo se resume nesta palavra: amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

[176] Pois nunca devemos, como fazem os que seguem heresias, adulterar a verdade ou furtar o cânon da Igreja, gratificando nossas próprias paixões e vaidade, e defraudando o próximo; a quem, acima de tudo, é nosso dever, no exercício do amor, ensinar a apegar-se à verdade. Por isso se diz expressamente: “Anunciai entre os gentios os seus estatutos”, para que não sejam julgados, mas para que aqueles que antes deram ouvidos se convertam. Mas os que falam traiçoeiramente com a língua têm as penas registradas.

[177] Aqueles, então, que se apegam a palavras ímpias e as ditam aos outros, uma vez que não fazem uso reto, mas perverso, das palavras divinas, nem eles mesmos entram no reino dos céus nem permitem que os que enganaram alcancem a verdade. Pois não têm a chave da entrada, mas uma chave falsa — como diz a expressão comum —, uma contrachave, pela qual não entram como nós entramos, pela tradição do Senhor, afastando o véu; mas arrombando pela porta lateral, cavando clandestinamente o muro da Igreja e passando por cima da verdade, fazem-se mistagogos da alma do ímpio.

[178] E que as assembleias humanas por eles realizadas são posteriores à Igreja Católica não exige muitas palavras para ser demonstrado.

[179] Pois o ensino de nosso Senhor em sua vinda, começando com Augusto e Tibério, completou-se na metade do reinado de Tibério.

[180] E o ensino dos apóstolos, abrangendo o ministério de Paulo, termina com Nero. Foi mais tarde, no tempo do rei Adriano, que surgiram os inventores das heresias; e elas se estenderam até a idade de Antonino, o Velho, como, por exemplo, Basílides, embora ele reivindique — como se vangloriam — Gláucias, intérprete de Pedro, como seu mestre.

[181] Do mesmo modo, alegam que Valentino foi ouvinte de Teudas; e este foi discípulo de Paulo. Pois Marcião, que surgiu na mesma época que eles, viveu como homem idoso junto aos heréticos mais jovens. E depois dele Simão ouviu por pouco tempo a pregação de Pedro.

[182] Sendo assim, é evidente, pela alta antiguidade e pela perfeita verdade da Igreja, que essas heresias tardias, e ainda as que lhes sucederam no tempo, foram invenções novas falsificadas a partir da verdade.

[183] Do que foi dito, portanto, sou de opinião que a verdadeira Igreja, aquela que é realmente antiga, é uma só, e que nela estão inscritos aqueles que, segundo o propósito de Deus, são justos. Pois pelo próprio fato de Deus ser um e o Senhor ser um, aquilo que é sumamente honroso é louvado por sua singularidade, sendo imitação do primeiro princípio uno. Na natureza do Um, então, está associada, em herança comum, a única Igreja, que eles se esforçam por dividir em muitas seitas.

[184] Portanto, em substância e ideia, em origem e em preeminência, dizemos que a antiga e católica Igreja é única, reunindo na unidade da única fé — resultante dos Testamentos particulares, ou antes, do único Testamento em tempos diversos, pela vontade do único Deus, por meio de um só Senhor — aqueles já ordenados, a quem Deus predestinou, sabendo antes da fundação do mundo que seriam justos.

[185] Mas a preeminência da Igreja, como princípio de união, está em sua unicidade: nisso ela supera todas as demais coisas, não tendo nada semelhante nem igual a si. Mas disso falaremos depois.

[186] Das heresias, algumas recebem o nome de uma pessoa, como a que se chama por Valentino, a de Marcião e a de Basílides, embora se gabem de citar a opinião de Mateus sem verdade; pois, assim como o ensino, também a tradição dos apóstolos era uma só. Algumas tomam a designação de um lugar, como os Peratas; outras, de uma nação, como a heresia dos frígios; outras, de uma prática, como a dos encratitas; outras, de dogmas peculiares, como a dos docetas e a dos hematitas; outras, de suposições e de indivíduos que honraram, como os chamados cainitas e ofitas; e outras, de práticas nefastas e monstruosidades, como os simonianos chamados entiquitas.

[187] Depois de mostrar uma pequena fresta àqueles que gostam de contemplar a Igreja a partir da lei dos sacrifícios, no que diz respeito aos animais puros e impuros — visto que assim os judeus comuns e os heréticos se distinguem misticamente da Igreja divina —, levemos o discurso ao seu encerramento.

[188] Pois, dentre os sacrifícios, aqueles que têm o casco fendido e ruminam, a Escritura os representa como puros e aceitáveis a Deus; visto que os justos têm acesso ao Pai e ao Filho pela fé. Pois esta é a estabilidade dos que fendemm o casco: os que estudam os oráculos de Deus dia e noite e os ruminam no receptáculo da alma para instrução; exercício gnóstico que a Lei exprime sob a figura da ruminação do animal puro. Mas os que não têm uma nem outra dessas qualidades ela separa como impuros.

[189] Ora, os que ruminam, mas não fendemm o casco, indicam a maioria dos judeus, que possuem de fato os oráculos de Deus, mas não têm a fé nem o passo que, apoiado na verdade, conduz ao Pai pelo Filho. Daí também esse tipo de gado ser propenso a escorregar, não tendo divisão no pé nem apoiando-se no duplo suporte da fé. Pois “ninguém conhece o Pai senão aquele a quem o Filho o quiser revelar”.

[190] E também são igualmente impuros os que fendemm o casco, mas não ruminam. Pois estes apontam para os heréticos, que de fato andam sob o nome do Pai e do Filho, mas são incapazes de triturar e moer a declaração clara dos oráculos, e, além disso, praticam as obras da justiça de modo grosseiro e sem exatidão, se é que as praticam. A tais o Senhor diz: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo?”

[191] E aqueles que nem fendemm o casco nem ruminam são inteiramente impuros.

[192] “Mas vós, megarenses”, diz Teógnis, “não sois nem terceiros, nem quartos, nem duodécimos, nem na conta nem no número”.

[193] Antes, sois como a palha que o vento leva da face da terra, e como uma gota que cai de um vaso.

[194] Tendo, pois, esses pontos sido anteriormente tratados com profundidade, e tendo o departamento da ética sido esboçado de modo sumário e fragmentário, como prometemos, e tendo espalhado aqui e ali os dogmas que são sementes do verdadeiro conhecimento, para que a descoberta das tradições sagradas não seja fácil a qualquer não iniciado, prossigamos para o que prometemos.

[195] Ora, as Miscelâneas não são como canteiros dispostos e plantados em ordem regular para deleite dos olhos, mas antes como um monte sombrio e espesso, plantado com loureiro, hera, macieiras, oliveiras e figueiras; sendo o plantio propositalmente uma mistura de árvores frutíferas e infrutíferas, porque a composição visa ao ocultamento, por causa daqueles que ousam furtar e roubar os frutos maduros. Desses, contudo, os lavradores, transplantando brotos e plantas, adornarão um belo parque e um bosque agradável.

[196] As Miscelâneas, então, não se ocupam nem de arranjo nem de estilo; pois há casos em que até os gregos deliberadamente quiseram que a dicção ornamentada estivesse ausente, lançando quase imperceptivelmente a semente dos dogmas, não segundo a verdade, tornando trabalhosa a leitura e rápida a descoberta. Pois muitos e variados são os anzóis para os diversos tipos de peixes.

[197] E agora, depois desta nossa sétima Miscelânea, daremos a exposição do que se segue, em ordem, a partir de um novo começo.

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