Aviso ao leitor
Este livro - Orígenes — “Comentário ao Evangelho de João” - é apresentado aqui como literatura patrística e exegética (séc. III), composta para explicar o Evangelho de João e registrar como um mestre cristão antigo interpretava o texto em seu contexto histórico, linguístico e teológico. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Além disso, a obra chegou até nós de forma parcial (com livros preservados de modo incompleto e, em alguns casos, por fragmentos/citações), o que recomenda leitura crítica e contextual. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, teológica e comparativa.
ATENÇÃO
Este escrito de Orígenes possui caráter exegético, teológico e profundamente especulativo, desenvolvendo uma leitura extensa do Evangelho de João por meio de interpretações espirituais, alegóricas e conceituais. Por isso, o texto não se limita a explicar o sentido imediato da escritura, mas frequentemente avança para construções teológicas complexas, marcadas pelo ambiente intelectual de Alexandria e pelo diálogo intenso com categorias filosóficas de seu tempo. Sua preservação nesta biblioteca se dá por valor histórico, teológico e crítico, como testemunho de uma das mais influentes e ao mesmo tempo mais debatidas formas de interpretação cristã antiga. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre exegese espiritual do autor, elaboração especulativa e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] Aquele que distingue em si mesmo a voz, o significado e as coisas às quais o significado se refere não se ofenderá com a rudeza da linguagem se, ao examinar, encontrar sãs as coisas que são ditas. Isso é ainda mais verdadeiro quando nos lembramos de como os homens santos reconhecem que sua fala e sua pregação não consistem em persuasão pela sabedoria das palavras, mas em demonstração do Espírito e de poder.[2] Os apóstolos não ignoram que, em algumas coisas, causam ofensa, e que, em certos aspectos, sua cultura é deficiente; por isso confessam, conforme 2 Coríntios 11:6, ser rudes na fala, mas não no conhecimento; pois devemos considerar que os outros apóstolos também diriam isso, assim como Paulo. Quanto ao texto de 2 Coríntios 4:7, “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós”, nós o interpretamos desta maneira. Por tesouros entendemos aqui, como em outras passagens, o tesouro do conhecimento e da sabedoria oculta. Por vasos de barro entendemos a dicção humilde das escrituras, que o grego poderia tão prontamente ser levado a desprezar, e na qual a excelência do poder de Deus aparece de modo tão claro. O mistério da verdade e o poder das coisas ditas não foram impedidos, por causa da humildade da linguagem, de chegar aos confins da terra, nem de sujeitar à palavra de Cristo não apenas as coisas loucas do mundo, mas às vezes também as suas coisas sábias. Pois vemos o nosso chamado, segundo 1 Coríntios 1:26-27: não que não haja nenhum sábio segundo a carne, mas que não são muitos os sábios segundo a carne. Mas Paulo, em sua pregação do evangelho, é devedor, conforme Romanos 1:14, para anunciar a palavra não apenas aos bárbaros, mas também aos gregos; e não somente aos ignorantes, que facilmente concordariam com ele, mas também aos sábios. Pois ele foi tornado suficiente por Deus, segundo 2 Coríntios 3:6, para ser ministro da Nova Aliança, manejando a demonstração do Espírito e de poder, para que, quando os crentes concordassem com ele, sua fé não estivesse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. Pois, talvez, se a escritura possuísse, como as obras que os gregos admiram, elegância e domínio de expressão, então estaria aberta a suposição de que não foi a verdade dela que se apoderou dos homens, mas que a sequência aparente e o esplendor da linguagem arrebatariam os ouvintes e os levariam pelo engano.

