Aviso ao leitor
Este livro - Orígenes — “Comentário ao Evangelho de Mateus” - é apresentado aqui como literatura patrística e exegética (séc. III), produzida para explicar o Evangelho de Mateus e registrar como um intérprete cristão antigo lia o texto a partir de seu contexto linguístico, teológico e pastoral. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. A obra também é conhecida por ter chegado até nós em transmissão textual complexa e parcialmente preservada (com perdas, fragmentos e dependência de tradições manuscritas antigas), além de refletir métodos de interpretação do período (incluindo leituras alegóricas) que nem sempre equivalem ao consenso posterior. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, teológica e comparativa.
ATENÇÃO
Este escrito de Orígenes possui caráter exegético, teológico e interpretativo, desenvolvendo o Evangelho de Mateus por meio de leituras que combinam exposição do texto, aplicações espirituais e, em vários momentos, interpretações alegóricas e especulativas. Por isso, o comentário não deve ser lido como simples explicação literal da escritura, mas como fruto de um método exegético antigo que frequentemente amplia o texto para construir reflexões mais vastas. Sua preservação nesta biblioteca se dá por valor histórico, teológico e crítico, como testemunho de uma das formas mais influentes de interpretação cristã antiga. Recomenda-se leitura com discernimento, cautela e filtro rigoroso, distinguindo entre comentário contextual do autor, elaboração espiritual e intelectual, e aquilo que deve ser tomado como fundamento normativo da escritura.
[1] E, ao cair da tarde, os seus discípulos vieram a Ele, isto é, na consumação da era, a respeito da qual podemos apropriadamente dizer o que se encontra na Epístola de João: “É a última hora”.[2] Eles, ainda não compreendendo o que o Verbo estava para fazer, dizem-lhe: “O lugar é deserto”, vendo a condição desértica das multidões no que diz respeito a Deus, à Lei e ao Verbo; mas também lhe dizem: “O tempo já passou”, como se a estação apropriada da Lei e dos profetas já tivesse passado.[3] Talvez tenham dito isso em referência à palavra de Jesus, porque, após a decapitação de João, tanto a lei quanto os profetas, que duraram até João, haviam cessado.[4] “O tempo já passou”, dizem eles, e não há alimento à mão, porque a estação dele já não está presente, para que aqueles que te seguiram no deserto possam servir à lei e aos profetas.[5] E, além disso, os discípulos dizem: “Despede-os”, para que cada um compre alimento, se não nas cidades, ao menos nas aldeias — lugares mais humildes.[6] Tais coisas disseram os discípulos porque, depois de abolida a letra da lei e cessadas as profecias, desesperavam de que um alimento inesperado e novo pudesse ser encontrado para as multidões.[7] Mas vê o que Jesus responde aos discípulos, ainda que não o diga em alta voz e de modo explícito: “Vós supondes que, se a grande multidão se afastar de mim necessitada de alimento, o encontrará mais nas aldeias do que comigo, e entre corpos de homens, não de cidadãos, mas de aldeões, e não permanecendo comigo.[8] Mas eu vos declaro que, naquilo de que pensais que eles necessitam, não têm necessidade, pois não precisam ir-se; porém, naquilo de que pensais que não necessitam — isto é, de mim — como se eu não pudesse alimentá-los, nisso, ao contrário da vossa expectativa, têm necessidade.[9] Portanto, já que vos treinei e vos tornei aptos a dar alimento racional aos que dele necessitam, dai de comer às multidões que me seguiram; porque tendes o poder, que recebestes de mim, de alimentar as multidões.[10] E, se tivésseis atentado para isso, teríeis compreendido que eu sou muito mais capaz de alimentá-las e não teríeis dito: ‘Despede as multidões para que vão e comprem alimento para si mesmas’.” Jesus, então, por causa do poder que deu aos discípulos, isto é, o poder de nutrir outros, disse: “Dai-lhes vós de comer”.[11] Mas eles, não negando que podiam dar pães, porém pensando que eram pouquíssimos e insuficientes para alimentar os que seguiam Jesus, e não considerando que, quando Jesus toma cada pão — o Verbo — ele o estende até onde quer e o faz bastar para todos quantos deseja nutrir, dizem: “Temos aqui apenas cinco pães e dois peixes”.[12] Talvez, pelos cinco pães, quisessem fazer uma referência velada às palavras sensíveis das escrituras, correspondendo em número por isso mesmo aos cinco sentidos; mas, pelos dois peixes, ou à palavra expressa e à palavra concebida, que são, por assim dizer, um condimento para as coisas sensíveis contidas nas escrituras; ou, talvez, à palavra que lhes chegara acerca do Pai e do Filho.[13] Por isso também, após a ressurreição, Ele comeu de um peixe assado, tendo tomado uma parte dos discípulos e recebido aquela teologia sobre o Pai que eles eram capazes de lhe declarar em parte.[14] Esta é a contribuição que fomos capazes de dar à exposição da palavra acerca dos cinco pães e dos dois peixes; e provavelmente aqueles que são mais capazes do que nós de reunir entre si os cinco pães e os dois peixes poderiam oferecer uma interpretação mais plena e melhor do seu significado.[15] Deve-se observar, porém, que, enquanto em Mateus, Marcos e Lucas os discípulos dizem que têm os cinco pães e os dois peixes, sem indicar se eram de trigo ou de cevada, somente João diz que os pães eram de cevada.[16] Por isso, talvez, no Evangelho de João os discípulos não reconheçam que os pães estão com eles, mas dizem: “Há aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes”.[17] E, enquanto esses cinco pães e dois peixes não eram carregados pelos discípulos de Jesus, não aumentavam nem se multiplicavam, nem eram capazes de alimentar muitos; mas, quando o Salvador os tomou e, em primeiro lugar, levantou os olhos ao céu, como que atraindo dele, pelos raios dos seus olhos, o poder que se misturaria aos pães e aos peixes que estavam para alimentar os cinco mil; e, depois disso, abençoou os cinco pães e os dois peixes, aumentando-os e multiplicando-os pela palavra e pela bênção; e, em terceiro lugar, dividindo e partindo, deu-os aos discípulos para que os colocassem diante das multidões, então os pães e os peixes bastaram, de modo que todos comeram e se saciaram, e algumas porções dos pães que haviam sido abençoados eles não puderam comer.[18] Pois tanto sobrou para as multidões, e não segundo a capacidade das multidões, mas segundo a dos discípulos, que eram capazes de recolher o que havia sobrado dos pedaços partidos e colocá-lo em cestos cheios daquilo que restara, em número igual ao das tribos de Israel.[19] A respeito de José, então, está escrito nos Salmos: “Suas mãos serviram no cesto”; mas, acerca dos discípulos de Jesus, que recolheram o que sobrou dos pedaços partidos, doze cestos — doze cestos, entendo eu, não meio cheios, mas cheios.[20] E existem, penso eu, até o presente e existirão até a consumação da era, com os discípulos de Jesus, que são superiores às multidões, os doze cestos cheios com os pedaços de pão vivo que as multidões não podem comer.[21] Ora, aqueles que comeram dos cinco pães que existiam antes dos doze cestos que sobraram eram aparentados, em natureza, ao número cinco; porque os que comeram haviam chegado ao estágio das coisas sensíveis, visto que também foram alimentados por aquele que levantou os olhos ao céu, os abençoou e os partiu, e não eram meninos nem mulheres, mas homens.[22] Pois há, penso eu, até mesmo nos alimentos sensíveis, diferenças, de modo que alguns pertencem aos que já deixaram as coisas de menino, e outros aos que ainda são crianças e carnais em Cristo.[23] Dissemos estas coisas por causa das palavras: “Os que comeram foram cinco mil homens, além de meninos e mulheres”, expressão ambígua; pois, ou os que comeram eram cinco mil homens, e entre os que comeram não havia menino nem mulher; ou só os homens eram cinco mil, não sendo contados os meninos e as mulheres.[24] Alguns, então, como dissemos antecipadamente, entenderam a passagem de tal modo que nem meninos nem mulheres estavam presentes quando ocorreu o aumento e a multiplicação dos cinco pães e dos dois peixes.[25] Mas alguém poderia dizer que, embora muitos tenham comido e participado, segundo seu mérito e capacidade, dos pães da bênção, alguns, dignos de serem contados, correspondendo aos homens israelitas de vinte anos para cima que são contados no livro de Números, eram homens israelitas; mas outros, que não eram dignos de tal consideração e contagem, eram meninos e mulheres.[26] Além disso, interpreta comigo alegoricamente os meninos de acordo com a passagem: “Não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a crianças em Cristo”; e as mulheres de acordo com a palavra: “Quero apresentar-vos todos como virgem pura a Cristo”; e os homens segundo a palavra: “Quando me tornei homem, deixei as coisas de menino”.[27] Não passemos sem exposição pelas palavras: “Mandou as multidões assentarem-se sobre a relva; e tomou os cinco pães e os dois peixes, e, levantando os olhos ao céu, abençoou, partiu e deu os pães aos discípulos, e os discípulos às multidões.[28] E todos comeram.” Pois o que significa: “Mandou todas as multidões assentarem-se sobre a relva”?[29] E o que devemos entender na passagem que seja digno do mandamento de Jesus?[30] Ora, penso que Ele mandou as multidões assentarem-se sobre a relva por causa do que é dito em Isaías: “Toda carne é relva”; isto é, mandou que sujeitassem a carne e mantivessem em submissão a mente da carne, para que assim alguém pudesse participar dos pães que Jesus abençoa.[31] Então, como há diferentes ordens dos que necessitam do alimento que Jesus fornece, e nem todos são nutridos por palavras iguais, por isso penso que Marcos escreveu: “Mandou que todos se assentassem em grupos sobre a relva verde; e assentaram-se em fileiras de cem em cem e de cinquenta em cinquenta”; mas Lucas: “Disse aos seus discípulos: fazei-os assentar-se em grupos de cerca de cinquenta cada um.” Pois era necessário que aqueles que haviam de encontrar descanso no alimento de Jesus estivessem ou na ordem do cem — número sagrado, consagrado a Deus por causa da unidade nele — ou na ordem do cinquenta — número que inclui a remissão dos pecados, de acordo com o mistério do jubileu que acontecia a cada cinquenta anos e da festa do Pentecostes.[32] E penso que os doze cestos estavam na posse dos discípulos a quem foi dito: “Assentar-vos-eis sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel.” E assim como o trono daquele que julga a tribo de Rúben poderia ser dito um mistério, e o trono daquele que julga a tribo de Simeão, e outro do que julga a tribo de Judá, e assim por diante com os demais, assim também poderia haver um cesto do alimento de Rúben, outro de Simeão, outro de Levi.[33] Mas não está de acordo com o nosso discurso presente desviar-nos tanto do assunto em mãos a ponto de reunir o que é dito acerca das doze tribos e, separadamente, o que é dito acerca de cada uma delas, e dizer o que cada tribo de Israel pode significar.[34] “E logo constrangeu os discípulos a entrar no barco e ir adiante dele para o outro lado, até que despedisse as multidões.” Deve-se observar quantas vezes, nas mesmas passagens, é mencionada a palavra “multidões” e outra palavra, “discípulos”, para que, observando e reunindo as passagens sobre este assunto, se veja que o objetivo dos evangelistas era representar, por meio da história do evangelho, as diferenças entre aqueles que vêm a Jesus: alguns são as multidões e não são chamados discípulos; outros são os discípulos, que são melhores do que as multidões.[35] Basta-nos, porém, por ora, apresentar algumas poucas palavras, para que qualquer um que seja movido por elas faça o mesmo com o conjunto dos evangelhos.[36] Está escrito, então — como se as multidões estivessem abaixo, mas os discípulos pudessem vir a Jesus quando Ele subia ao monte, onde as multidões não podiam estar — assim: “Vendo as multidões, subiu ao monte e, quando se assentou, seus discípulos vieram a Ele; e, abrindo a boca, ensinava-os, dizendo: bem-aventurados os pobres de espírito”, etc. E, de novo, em outro lugar, como as multidões necessitavam de cura, diz-se: “Muitas multidões o seguiram, e Ele as curou.” Não encontramos nenhuma cura registrada dos discípulos; pois, se alguém já é discípulo de Jesus, está são e, estando bem, necessita de Jesus não como médico, mas segundo os seus outros poderes.[37] Ainda em outro lugar, enquanto falava às multidões, sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora, procurando falar-lhe; isso lhe foi comunicado por alguém, ao que Ele respondeu, estendendo a mão não para as multidões, mas para os discípulos, e disse: “Eis minha mãe e meus irmãos”; e, dando testemunho de que os discípulos fazem a vontade do Pai que está nos céus, acrescentou: “Esse é meu irmão, irmã e mãe.” E, novamente, em outro lugar, está escrito: “Toda a multidão estava na praia, e Ele lhes falou muitas coisas por parábolas.” Depois da parábola da semeadura, já não foram as multidões, mas os discípulos que vieram e lhe disseram, não “Por que nos falas por parábolas?”, mas: “Por que lhes falas por parábolas?” Então também Ele respondeu e disse, não às multidões, mas aos discípulos: “A vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas aos demais em parábolas.” Assim, dentre os que chegam ao nome de Jesus, alguns, que conhecem os mistérios do reino dos céus, seriam chamados discípulos; mas aqueles a quem tal privilégio não é concedido seriam chamados multidões, tidos como inferiores aos discípulos.[38] Observa cuidadosamente que Ele disse aos discípulos: “A vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus”, mas, acerca das multidões: “A eles não é dado.” E, em outro lugar, Ele despede de fato as multidões e entra em casa, mas não despede os discípulos; e vêm a Ele, para dentro de sua casa, não as multidões, mas os seus discípulos, dizendo: “Explica-nos a parábola do joio do campo.” Além disso, em outro lugar, quando Jesus ouviu as coisas acerca de João e retirou-se de barco para um lugar deserto e apartado, as multidões o seguiram; quando saiu e viu uma grande multidão, teve compaixão delas e curou os seus enfermos — os enfermos das multidões, não dos discípulos.[39] E, ao cair da tarde, vieram a Ele, não as multidões, mas os discípulos, como sendo diferentes das multidões, dizendo: “Despede as multidões, para que vão às aldeias e comprem comida para si.” E, mais ainda, quando Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes e, levantando os olhos ao céu, abençoou e partiu os pães, não os deu às multidões, mas aos discípulos, para que os discípulos os dessem às multidões, que não eram capazes de receber dele diretamente, mas recebiam com dificuldade, das mãos dos discípulos, os pães da bênção de Jesus; e nem mesmo comeram tudo isso, pois as multidões se encheram e deixaram o que sobrou em doze cestos cheios.[40] A razão pela qual tratamos deste assunto é a passagem em discussão, que conta que Jesus separou os discípulos das multidões e os constrangeu a entrar no barco e ir adiante dele para o outro lado, até que Ele mesmo despedisse as multidões; pois as multidões não eram capazes de ir para o outro lado, visto que não eram, no sentido místico, hebreus, isto é, “os que habitam do outro lado”.[41] Mas esta era a obra dos discípulos de Jesus — quero dizer, ir para o outro lado e passar além das coisas visíveis e materiais, como temporais, e seguir para as invisíveis e eternas.[42] Ser despedido por Jesus era um suficiente ato de bondade concedido às multidões por Jesus; pois, justamente porque eram multidões, não podiam ir para o outro lado.[43] E este tipo de despedida ninguém tem poder de efetuar, exceto Jesus somente; e não é possível que alguém seja despedido, a menos que primeiro tenha comido dos pães que Jesus abençoa.[44] Nem é possível que alguém coma dos pães da bênção de Jesus, a menos que tenha feito como Jesus mandou e se assentado sobre a relva, como dissemos.[45] Nem, por sua vez, era possível às multidões fazer isso, a não ser que tivessem seguido Jesus desde as suas próprias cidades, quando Ele se retirou para um lugar deserto à parte.[46] E, a princípio, quando os discípulos lhe pediram que despedisse as multidões, Ele não as despediu até tê-las alimentado com os pães da bênção; mas agora as despede, depois de primeiro constranger os discípulos a entrar no barco.[47] E as despede enquanto estavam em algum lugar abaixo — pois o deserto estava abaixo — mas Ele mesmo subiu ao monte para orar.[48] E deves observar isto: imediatamente depois de os cinco mil terem sido alimentados, Jesus constrangeu os discípulos a embarcar no barco e ir adiante dele para o outro lado.[49] Entretanto, os discípulos não foram capazes de ir adiante de Jesus para o outro lado; mas, quando chegaram ao meio do mar e o barco estava sendo açoitado porque o vento lhes era contrário, tiveram medo quando, por volta da quarta vigília da noite, Jesus veio a eles.[50] E, se Jesus não tivesse entrado no barco, nem o vento contrário aos discípulos que navegavam teria cessado, nem os que navegavam teriam atravessado e chegado ao outro lado.[51] E, talvez, desejando ensinar-lhes por experiência que não era possível, sem Ele, ir para o outro lado, constrangeu-os a entrar no barco e ir adiante dele para o outro lado; mas, quando não puderam avançar além do meio do mar, Ele lhes apareceu e fez o que está escrito, mostrando que aquele que chega ao outro lado chega porque Jesus navega com ele.[52] Mas o que é este barco no qual Jesus constrangeu os discípulos a entrar?[53] Seria, talvez, o conflito das tentações e dificuldades ao qual alguém é constrangido pelo Verbo, e para o qual vai, por assim dizer, de má vontade, quando o Salvador deseja exercitar os discípulos nesse barco que é açoitado pelas ondas e pelo vento contrário?[54] Mas, como Marcos fez uma pequena mudança na leitura, e em vez de “Logo constrangeu os discípulos a entrar no barco e ir adiante dele para o outro lado”, escreveu: “Logo constrangeu os seus discípulos a entrar no barco e ir adiante dele para o outro lado, a Betsaida”, devemos atentar para a palavra “constrangeu”, depois de ver a pequena variação em Marcos, que indica algo mais definido pela adição do pronome; pois não é a mesma coisa dizer “logo constrangeu os discípulos”.[55] Algo mais do que simplesmente “os discípulos” está escrito em Marcos, a saber, “os seus discípulos”.[56] Talvez, portanto, para prestar atenção à expressão, os discípulos, que achavam difícil afastar-se de Jesus e não podiam ser separados dele por qualquer causa ordinária, desejassem permanecer com Ele; mas Ele, tendo julgado que deviam experimentar as ondas e o vento contrário — que não lhes seriam contrários se estivessem com Jesus — impôs-lhes a necessidade de serem separados dele e entrarem no barco.[57] O Salvador, então, obriga os discípulos a entrar no barco das tentações e a ir adiante dele para o outro lado, e, por meio da vitória sobre elas, ultrapassar dificuldades críticas; mas, quando chegaram ao meio do mar, às ondas das tentações e aos ventos contrários que os impediam de ir para o outro lado, não eram capazes, lutando como estavam sem Jesus, de vencer as ondas, o vento contrário e alcançar o outro lado.[58] Por isso o Verbo, compadecendo-se deles, que haviam feito tudo o que estava ao seu alcance para chegar ao outro lado, veio a eles andando sobre o mar, que para Ele não tinha ondas nem vento capaz de se opor, se assim o quisesse; pois não está escrito que Ele veio a eles andando sobre as ondas, mas sobre as águas.[59] Assim também Pedro, que, a princípio, quando Jesus lhe disse: “Vem”, desceu do barco e andou, não sobre as ondas, mas sobre as águas, para ir a Jesus; porém, quando duvidou, viu que o vento era forte, o que não era forte para aquele que deixou de lado a sua pequena fé e a sua dúvida.[60] Mas, quando Jesus subiu com Pedro para o barco, o vento cessou, pois não tinha poder para agir contra o barco quando Jesus havia entrado nele.[61] E então os discípulos, tendo atravessado, chegaram à terra de Genesaré, cujo nome, se soubéssemos a interpretação, poderia dar-nos algum auxílio para a exposição da presente passagem.[62] E observa, visto que Deus é fiel e não permitirá que as multidões sejam tentadas acima do que podem, de que modo o Filho de Deus constrangeu os discípulos a entrar no barco, por serem mais fortes e capazes de chegar até o meio do mar e suportar as provações das ondas, até se tornarem dignos de auxílio divino, e verem Jesus e ouvi-lo quando Ele subiu, e atravessarem e chegarem à terra de Genesaré; mas, quanto às multidões, porque eram mais fracas e não experimentaram o barco, as ondas e o vento contrário, a essas Ele despediu e subiu ao monte, à parte, para orar.[63] Para orar por quem?[64] Seria talvez para orar pelas multidões, para que, sendo despedidas depois dos pães da bênção, nada fizessem de contrário à sua despedida por Jesus?[65] E pelos discípulos, para que, tendo sido constrangidos por Ele a entrar no barco e ir adiante dele para o outro lado, nada sofressem no mar nem por causa do vento contrário?[66] E eu diria com confiança que, por causa da oração de Jesus ao Pai pelos discípulos, eles nada sofreram, embora mar, onda e vento contrário lutassem contra eles.[67] O discípulo mais simples, então, pode contentar-se com a narrativa nua; mas lembremo-nos, se algum dia cairmos em tentações aflitivas, de que Jesus nos constrangeu a entrar no barco delas, desejando que vamos adiante dele para o outro lado; pois não nos é possível alcançar o outro lado, a menos que suportemos as tentações das ondas e do vento contrário.[68] Então, quando virmos muitas dificuldades cercando-nos e tivermos atravessado algumas delas com luta moderada, consideremos que o nosso barco está no meio do mar, naquele tempo sendo açoitado pelas ondas que querem fazer-nos naufragar na fé ou em alguma das virtudes; mas, quando virmos o espírito do maligno lutar contra nós, concebamos que então o vento nos é contrário.[69] Quando, pois, em tal sofrimento, tivermos passado três vigílias da noite — isto é, da escuridão que há nas tentações — lutando nobremente com toda a nossa força e vigiando sobre nós mesmos para não naufragarmos na fé ou em alguma das virtudes — a primeira vigília contra o pai da escuridão e da maldade, a segunda contra o seu filho, que se opõe e se exalta contra tudo o que se chama Deus ou é objeto de culto, e a terceira contra o espírito que se opõe ao Espírito Santo — então creiamos que, quando a quarta vigília se aproxima, quando a noite vai alta e o dia está próximo, o Filho de Deus virá a nós, para preparar-nos o mar, caminhando sobre ele.[70] E, quando virmos o Verbo aparecer-nos, de fato ficaremos perturbados antes de compreendermos claramente que é o Salvador quem veio a nós, supondo que ainda estamos vendo uma aparição, e, por medo, gritaremos; mas Ele mesmo imediatamente nos falará, dizendo: “Tende bom ânimo; sou eu; não temais.” E, se, movido calorosamente por esse “Tende bom ânimo”, algum Pedro se encontrar entre nós, alguém que está a caminho da perfeição, mas ainda não se tornou perfeito, tendo descido do barco, como se estivesse saindo daquela tentação em que se achava aflito, ele de fato andará a princípio, querendo ir a Jesus sobre as águas; mas, sendo ainda de pouca fé e ainda duvidando, verá que o vento é forte, terá medo e começará a afundar; contudo, não afundará, porque clamará a Jesus em alta voz e lhe dirá: “Senhor, salva-me.” Então, imediatamente, enquanto esse Pedro ainda fala e diz: “Senhor, salva-me”, o Verbo estenderá a sua mão, oferecendo auxílio a tal homem, e o segurará quando estiver começando a afundar, e o repreenderá por sua pouca fé e sua dúvida.[71] Apenas observa que Ele não disse: “Ó homem sem fé”, mas: “Ó homem de pouca fé”; e que foi dito: “Por que duvidaste?”, pois ele ainda tinha alguma medida de fé, mas também uma inclinação para aquilo que se opõe à fé.[72] Mas, depois disso, tanto Jesus quanto Pedro subirão ao barco, e o vento cessará; e aqueles que estão no barco, percebendo os grandes perigos dos quais foram salvos, o adorarão, dizendo não simplesmente: “Tu és o Filho de Deus”, como também disseram os dois endemoninhados, mas: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus.” Isto dizem os discípulos no barco, pois não penso que outros além dos discípulos o tenham dito.[73] E, depois de termos passado por todas essas experiências, tendo atravessado, chegaremos à terra para onde Jesus nos mandou ir adiante dele.[74] E talvez algum mistério secreto e oculto a respeito de alguns que foram salvos por Jesus esteja indicado nas palavras: “Quando os homens daquele lugar o reconheceram” — claramente do lugar do outro lado — “mandaram avisar toda aquela região em redor” — em redor do outro lado, não do outro lado propriamente dito, mas em redor — “e lhe trouxeram todos os que estavam doentes”.[75] E aqui observa que lhe trouxeram não apenas muitos dos que estavam doentes, mas todos os daquela região em redor; e os enfermos que lhe foram trazidos rogaram-lhe que pudessem tocar, nem que fosse apenas a orla do seu manto, suplicando-lhe essa graça, visto que não eram como a mulher que tinha um fluxo de sangue havia doze anos e que veio por detrás dele e tocou a orla do seu manto, dizendo consigo mesma: “Se eu apenas tocar a sua veste, ficarei curada.” Observa, pois, o que é dito acerca da orla do seu manto, por causa do que o fluxo do sangue dela cessou imediatamente.[76] Mas aqueles da região em redor da terra de Genesaré, à qual Jesus e os seus discípulos haviam atravessado e chegado, não vieram por si mesmos a Jesus, mas foram trazidos por aqueles que tinham enviado a notícia, visto que, por sua extrema fraqueza, não eram capazes de vir por si mesmos.[77] Nem tocaram simplesmente na veste, como a mulher que tinha fluxo de sangue, mas tocaram depois de lhe terem suplicado.[78] Somente, todos quantos tocaram ficaram curados.[79] E se há alguma diferença entre o “foram curados”, dito no caso deles, e o “ser salvo” — pois à mulher com fluxo de sangue foi dito: “A tua fé te salvou” — considera tu mesmo.[80] Então vieram a Ele, de Jerusalém, fariseus e escribas, dizendo: “Por que os teus discípulos transgridem a tradição dos anciãos?[81] Pois não lavam as mãos quando comem pão.” Quem observa em que momento os fariseus e escribas vieram de Jerusalém a Jesus, dizendo: “Por que os teus discípulos transgridem a tradição dos anciãos?”, perceberá que Mateus, por necessidade, não escreveu simplesmente que fariseus e escribas de Jerusalém vieram ao Salvador para interrogá-lo sobre os assuntos diante de nós, mas o colocou assim: “Então vieram a Ele, de Jerusalém.” Que momento, portanto, devemos entender por “então”?[82] No tempo em que Jesus e os seus discípulos atravessaram e chegaram de barco à terra de Genesaré, quando o vento cessou desde o momento em que Jesus entrou no barco, e quando os homens daquele lugar, reconhecendo-o, mandaram avisar toda a região em redor, e lhe trouxeram todos os que estavam doentes, e rogaram-lhe que pudessem tocar, nem que fosse apenas a orla do seu manto, e todos quantos tocaram ficaram curados.[83] Naquele tempo vieram a Ele, de Jerusalém, fariseus e escribas, não impressionados com o poder que havia em Jesus, o qual curava aqueles que apenas tocavam a orla do seu manto, mas em espírito censor, acusando os discípulos diante do seu Mestre, não por transgressão de um mandamento de Deus, mas de uma única tradição dos anciãos judeus.[84] E é provável que essa própria acusação desses homens censuradores seja prova da piedade dos discípulos de Jesus, os quais não deram aos fariseus e escribas ocasião alguma de censura com respeito à transgressão dos mandamentos de Deus; pois eles não teriam trazido a acusação de transgressão contra os discípulos, como transgressores do mandamento dos anciãos, se tivessem tido em seu poder censurar aqueles a quem acusavam e demonstrar que estavam transgredindo um mandamento de Deus.[85] Mas não suponhas que estas coisas sirvam para estabelecer a necessidade de guardar a lei de Moisés segundo a letra, pelo fato de os discípulos de Jesus até aquele tempo a guardarem; pois não antes de sofrer foi Ele quem nos remiu da maldição da lei, tornando-se maldição por nós em seu sofrimento pelos homens.[86] Mas, assim como Paulo se fez judeu para os judeus, para ganhar os judeus, que estranheza há em que os apóstolos, cujo modo de vida se passava entre os judeus, ainda que compreendessem as coisas espirituais na lei, tenham usado um espírito de acomodação, como Paulo também fez quando circuncidou Timóteo e ofereceu sacrifício segundo certo voto legal, como está escrito em Atos dos Apóstolos?[87] Somente, de novo, eles parecem gostar de apresentar acusações, pois não têm acusação a levantar contra os discípulos de Jesus com respeito a um mandamento de Deus, mas apenas com respeito a uma tradição dos anciãos.[88] E especialmente esse amor pela acusação se manifesta nisto: que eles apresentam a acusação na presença das próprias pessoas que haviam sido curadas de suas enfermidades; aparentemente contra os discípulos, mas na realidade querendo caluniar o Mestre deles, como se a tradição dos anciãos fosse que lavar as mãos era algo essencial à piedade.[89] Pois pensavam que as mãos daqueles que não se lavavam antes de comer pão estavam contaminadas e impuras, mas que as mãos daqueles que as haviam lavado com água se tornavam puras e santas, não em sentido figurado, mas em relação direta com a lei de Moisés segundo a letra.[90] Mas nós, não segundo a tradição dos anciãos entre os judeus, e sim segundo a razão sã, esforcemo-nos por purificar as nossas próprias ações e assim lavar as mãos de nossas almas, quando estivermos prestes a comer os três pães que pedimos a Jesus, o qual deseja ser nosso amigo; pois, com mãos contaminadas, não lavadas e impuras, não devemos participar dos pães.[91] Jesus, porém, não os acusa com respeito a uma tradição dos anciãos judeus, mas a respeito de dois mandamentos de Deus dos mais obrigatórios, um dos quais era o quinto do decálogo, assim: “Honra teu pai e tua mãe, para que te vá bem e teus dias se prolonguem sobre a terra que o Senhor teu Deus te dá”; e o outro estava escrito em Levítico assim: “Se um homem falar mal de seu pai ou de sua mãe, morrerá; falou mal de seu pai ou de sua mãe, será culpado.” Mas, quando queremos examinar a própria letra das palavras conforme dadas por Mateus — “Quem falar mal de pai ou mãe, morra de morte” — considera se isso não foi tomado do lugar onde estava escrito: “Quem ferir seu pai ou sua mãe, morrerá de morte; e quem falar mal de pai ou mãe, morrerá de morte.” Pois tais são as palavras exatas tomadas da Lei a respeito dos dois mandamentos; mas Mateus as citou em parte e de forma abreviada, e não com as palavras exatas.[92] Qual é, porém, a natureza da acusação que o Salvador traz contra os fariseus e escribas de Jerusalém, quando diz que eles transgridem o mandamento de Deus por causa da sua tradição, isso devemos considerar.[93] E Deus disse: “Honra teu pai e tua mãe”, ensinando que o filho deve prestar a honra devida aos seus pais.[94] Uma parte dessa honra aos pais consistia em compartilhar com eles as necessidades da vida, como alimento e vestuário, e qualquer outra coisa pela qual fosse possível demonstrar favor para com os próprios pais.[95] Mas os fariseus e escribas promulgavam, em oposição à lei, uma tradição que se encontra de forma um tanto obscura no evangelho e na qual nós mesmos não teríamos pensado, se um dos hebreus não nos tivesse dado os fatos seguintes relativos à passagem.[96] Às vezes, diz ele, quando agiotas encontravam devedores obstinados que podiam, mas não queriam pagar suas dívidas, consagravam o que lhes era devido à conta dos pobres, para os quais se lançava dinheiro no tesouro por parte de cada um dos que queriam dar uma porção de seus bens aos pobres, segundo a sua capacidade.[97] Diziam, então, às vezes, aos seus devedores em sua própria língua: “Aquilo que me deves é Corbã” — isto é, uma oferta — “pois eu o consagrei aos pobres, para a conta da piedade para com Deus.” Então o devedor, não estando mais em dívida com homens, mas com Deus e com a piedade para com Deus, ficava, por assim dizer, encerrado, mesmo sem querer, no pagamento da dívida, não mais ao agiota, mas agora a Deus, por conta dos pobres, em nome do agiota.[98] O que o agiota fazia ao devedor, isso às vezes alguns filhos faziam a seus pais, dizendo-lhes: “Aquilo com que eu poderia beneficiar-te, pai ou mãe, sabe que o receberás de Corbã”, da conta dos pobres que são consagrados a Deus.[99] Então os pais, ouvindo que aquilo que lhes deveria ter sido dado era Corbã — consagrado a Deus — já não queriam recebê-lo de seus filhos, embora estivessem em extrema necessidade das coisas necessárias à vida.[100] Os anciãos, então, declaravam ao povo uma tradição desse tipo: “Quem disser a seu pai ou a sua mãe que aquilo que deveria ser dado a um deles é Corbã e uma oferta, esse homem já não é devedor a seu pai ou a sua mãe quanto ao sustento necessário à vida.” O Salvador censura essa tradição, porque não é sã, mas oposta ao mandamento de Deus.[101] Pois, se Deus diz: “Honra teu pai e tua mãe”, mas a tradição diz que não está obrigado a honrar seu pai ou sua mãe com uma oferta aquele que consagrou a Deus, como Corbã, aquilo que teria sido dado aos seus pais, manifestamente o mandamento de Deus a respeito da honra devida aos pais foi anulado pela tradição dos fariseus e escribas, a qual dizia que aquele que, de uma vez por todas, havia consagrado a Deus aquilo que seus pais receberiam, já não estava obrigado a honrar seu pai ou sua mãe.[102] E os fariseus, amantes do dinheiro, para que sob pretexto dos pobres pudessem receber até mesmo aquilo que teria sido dado aos pais de alguém, ensinavam tais coisas.[103] E o evangelho testemunha o amor deles ao dinheiro, dizendo: “Ora, os fariseus, que eram amantes do dinheiro, ouviam estas coisas e zombavam dele.” Se, pois, algum daqueles que entre nós são chamados anciãos, ou daqueles que de algum modo são governantes do povo, professar dar aos pobres em nome do bem comum, em vez de estar entre aqueles que dão aos seus parentes se estes estiverem porventura em necessidade das coisas necessárias à vida, e aqueles que dão não puderem fazer ambas as coisas, esse homem poderia justamente ser chamado irmão daqueles fariseus que anulavam a palavra de Deus por sua própria tradição e foram acusados pelo Salvador como hipócritas.[104] E, como poderosíssimo freio para impedir que alguém se esforce por tomar da conta dos pobres e pense que a piedade alheia é um meio de ganho, temos não apenas estas coisas, mas também aquilo que está registrado acerca do traidor Judas, que, na aparência, defendia a causa dos pobres e dizia com indignação: “Este unguento poderia ter sido vendido por trezentos dinheiros e dado aos pobres”, mas na realidade era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava.[105] Se, portanto, em nosso tempo alguém que possui a bolsa da igreja fala como Judas em favor dos pobres, mas tira o que nela se põe, seja-lhe atribuída a porção juntamente com Judas, o qual fez estas coisas; por causa delas, roendo como gangrena a sua alma, o diabo lançou isso em seu coração para trair o Salvador; e, quando ele recebeu o dardo inflamado com vista a esse fim, o diabo depois entrou em sua alma e tomou completa posse dele.[106] E talvez, quando o apóstolo diz: “O amor ao dinheiro é raiz de todos os males”, o diga por causa do amor ao dinheiro de Judas, que foi raiz de todos os males cometidos contra Jesus.[107] Mas voltemos ao assunto que temos diante de nós, no qual o Salvador abreviou e expôs dois mandamentos da Lei, um do decálogo em Êxodo e o outro de Levítico, ou de algum outro dos livros do Pentateuco.[108] Já que explicamos de que modo anulavam a palavra de Deus que dizia: “Honra teu pai e tua mãe”, ao dizerem: “Não honrarás teu pai ou tua mãe, aquele que disser ao pai ou à mãe: é oferta aquilo com que poderias ter sido beneficiado por mim”, alguém pode perguntar se as palavras: “Quem falar mal de pai ou mãe, morra de morte” não são estranhas ao assunto.[109] Pois, concedido que não honra pai e mãe quem consagra ao chamado Corbã aquilo que teria sido dado em honra de pai e mãe, de que modo, então, a tradição dos fariseus anula a palavra que dizia: “Quem falar mal de pai ou mãe, morra de morte”?[110] Mas talvez, quando alguém dizia ao seu pai ou à sua mãe: “É oferta aquilo com que poderias ter sido beneficiado por mim”, ele, por assim dizer, lançava insulto sobre seu pai ou sua mãe, como se estivesse chamando seus pais de sacrílegos, por tomarem daquele que consagrou a Corbã aquilo que fora consagrado a Corbã.[111] Os judeus, então, punem seus filhos segundo a Lei, como quem fala mal de pai ou mãe, quando dizem a seu pai ou a sua mãe: “É oferta aquilo com que poderias ter sido beneficiado por mim”; mas vós, por uma de vossas tradições, aniquilais dois mandamentos de Deus.[112] E então não vos envergonhais de acusar os meus discípulos, que não transgridem mandamento algum; pois eles andam em todos os seus mandamentos e ordenanças irrepreensivelmente, mas transgridem uma tradição dos anciãos para não transgredir um mandamento de Deus.[113] E, se tivésseis mantido isso como alvo diante de vós, teríeis guardado o mandamento acerca da honra devida a pai e mãe, e também o que diz: “Quem falar mal de pai e mãe, morra de morte”; mas não teríeis guardado a tradição dos anciãos que se opõe a esses mandamentos.[114] Depois disso, desejando refutar completamente, com as palavras dos profetas, todas essas tradições dos anciãos entre os judeus, Ele lhes apresentou uma palavra de Isaías, que, nas palavras exatas, é assim: “E disse o Senhor: Este povo se aproxima de mim com a boca”, etc.; e, como dissemos antes, Mateus não escreveu a sentença profética com as palavras exatas.[115] E, se for necessário, por causa do seu uso no evangelho, interpretá-la segundo a nossa capacidade, tomaremos também a passagem anterior, que, a meu ver, é assinalada por nós com vantagem para a exposição da passagem no evangelho retirada do profeta.[116] A passagem em Isaías, desde o começo, é esta: “Tornai-vos pasmados e assombrai-vos; embriagai-vos, mas não de vinho nem de bebida forte; porque o Senhor vos deu a beber espírito de torpor e fechará os vossos olhos, tanto dos profetas como dos vossos governantes que veem coisas ocultas.[117] E todas estas palavras serão para vós como as palavras de um livro selado, que, se o derem a um homem que sabe ler, dizendo: Lê isto, ele responderá: Não posso, porque está selado.[118] E o livro será dado às mãos de um homem que não sabe ler, e lhe dirão: Lê isto, e ele dirá: Não sei ler.[119] E disse o Senhor: Este povo está perto de mim”, até as palavras: “Ai dos que, em secreto, formam conselho, e as suas obras estão em trevas.” Tomando, então, a passagem diante de nós no evangelho, coloquei alguns versículos que a antecedem e alguns que a seguem, para mostrar de que maneira o Verbo ameaça fechar os olhos daqueles do povo que estão atônitos e embriagados, aos quais foi dado a beber o espírito de profundo sono.[120] E ameaça também fechar os olhos de seus profetas e de seus governantes, que professam ver coisas ocultas — coisas que, penso eu, aconteceram depois da vinda do Salvador entre aquele povo; pois todas as palavras de todas as escrituras, e também de Isaías, tornaram-se para eles como as palavras de um livro selado.[121] Ora, a expressão “selado” é usada a respeito de um livro fechado por causa de sua obscuridade e não aberto por causa de sua clareza, igualmente obscuro tanto para aqueles que não podem lê-lo de modo algum porque não sabem letras, quanto para os que professam conhecê-las, mas não entendem o significado do que foi escrito.[122] Bem acrescenta ele a isso que, quando o povo, desfalecendo por causa de seus pecados e em estado de loucura, se enfurece contra Ele por meio desses pecados, pelos quais se embriagarão contra Ele com o espírito de torpor que o Senhor lhes dará a beber quando fechar seus olhos, por serem indignos de ver, e também os olhos de seus profetas e de seus governantes, que professam ver as coisas ocultas dos mistérios nas escrituras divinas; e, estando seus olhos fechados, então as palavras proféticas lhes serão seladas e escondidas, como de fato acontece com aqueles que não creem em Jesus como o Cristo.[123] E, quando as palavras proféticas tiverem se tornado como as palavras de um livro selado, não somente para os que não sabem letras, mas também para os que professam sabê-las, então o Senhor disse que o povo dos judeus se aproxima de Deus apenas com a boca e que o honra com os lábios, porque seu coração, por causa da incredulidade em Jesus, está longe do Senhor.[124] E agora, especialmente, desde o tempo em que negaram o nosso Salvador, poderia ser dito acerca deles por Deus: “Em vão me adoram”; pois já não ensinam os preceitos de Deus, mas os dos homens, e doutrinas que são humanas e já não do Espírito de sabedoria.[125] Por isso, quando estas coisas lhes acontecem, Deus removeu o povo dos judeus e fez perecer a sabedoria dos sábios entre eles; pois já não há sabedoria entre eles, assim como já não há profecia; mas Deus destruiu completamente a prudência dos prudentes e a escondeu, e ela já não é esplêndida nem manifesta.[126] Portanto, embora pareçam formar algum conselho de maneira profunda, porque não o fazem por meio do Senhor, são chamados miseráveis; e, ainda que professem contar alguns segredos do conselho divino, mentem, porque suas obras não são obras de luz, mas de trevas e de noite.[127] Julguei correto expor brevemente a profecia e até certo ponto elucidar o seu sentido, visto que Mateus fez menção dela.[128] E Marcos também a mencionou, de quem podemos utilmente registrar as seguintes palavras neste lugar, a respeito da transgressão dos anciãos que sustentavam ser necessário lavar as mãos quando os judeus comiam pão: “Porque os fariseus e todos os judeus, se não lavarem cuidadosamente as mãos, não comem, guardando a tradição dos anciãos; e, quando voltam da praça, se não se lavarem, não comem.[129] E há muitas outras coisas que receberam para observar: lavagens de copos, de jarros, de vasos de bronze e de leitos.” E chamou a si a multidão e lhes disse: “Ouvi e entendei”, etc. Somos claramente ensinados nestas palavras pelo Salvador que, quando lemos em Levítico e Deuteronômio os preceitos acerca de alimentos puros e impuros, por cuja transgressão somos acusados pelos judeus carnais e pelos ebionitas, que pouco diferem deles, não devemos pensar que o alcance da escritura se encontre em qualquer entendimento superficial dessas coisas.[130] Pois, se não é o que entra pela boca que contamina o homem, mas o que procede da boca, e especialmente quando, segundo Marcos, o Salvador disse estas coisas tornando puros todos os alimentos, manifestamente não somos contaminados quando comemos aquelas coisas que os judeus, que desejam estar em servidão à letra da lei, declaram impuras; mas somos então contaminados quando, enquanto nossos lábios deveriam estar guardados com discernimento e deveríamos fazer para eles o que chamamos balança e peso, falamos de improviso e tratamos de assuntos que não deveríamos, dos quais nos vem a fonte dos pecados.[131] E convém, de fato, à lei de Deus proibir aquelas coisas que nascem da maldade e ordenar aquelas que tendem à virtude; mas, quanto às coisas que em sua própria natureza são indiferentes, deixá-las em seu próprio lugar, já que, segundo a nossa escolha e a razão que há em nós, podem ser mal praticadas se pecarmos nelas, mas, se forem corretamente dirigidas por nós, ser bem praticadas.[132] E qualquer um que tenha pensado cuidadosamente nessas matérias verá que, mesmo naquelas coisas que se pensa serem boas, é possível que um homem peque, caso as assuma de modo mau e sob o impulso da paixão; e que estas coisas chamadas impuras podem ser consideradas puras, se usadas por nós de acordo com a razão.[133] Assim, então, como quando o judeu peca sua circuncisão será contada por incircuncisão, mas quando um dos gentios age retamente a sua incircuncisão será contada por circuncisão, assim também as coisas que se pensam puras serão contadas por impuras no caso daquele que não as usa adequadamente, nem quando deve, nem na medida em que deve, nem pela razão por que deve.[134] Mas, quanto às coisas chamadas impuras, “todas as coisas são puras para os puros”, pois “para os contaminados e incrédulos nada é puro, porque tanto a mente quanto a consciência deles estão contaminadas”.[135] E, quando estes estão contaminados, fazem contaminadas todas as coisas em que tocam; assim também, ao contrário, a mente pura e a consciência pura tornam puras todas as coisas, ainda que possam parecer impuras.[136] Pois os justos não usam alimentos ou bebidas por intemperança, nem por amor ao prazer, nem com a dúvida que divide o homem em dois caminhos, mas lembrados do preceito: “Quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” E, se for necessário delinear os alimentos impuros segundo o evangelho, diremos que são aqueles fornecidos pela cobiça, resultado de torpe amor ao lucro, assumidos por amor ao prazer e pela deificação do ventre, o qual é tratado com honra quando ele, com os seus apetites, e não a razão, governa as nossas almas.[137] Mas, quanto a nós, que sabemos que algumas coisas são usadas por demônios — ou, se não sabemos, suspeitamos e temos dúvida acerca disso — se usarmos tais coisas, não as usamos para a glória de Deus nem em nome de Cristo; pois não apenas a suspeita de que as coisas tenham sido sacrificadas aos ídolos condena quem come, mas até mesmo a dúvida a respeito disso; porque “aquele que duvida está condenado se comer, porque não come da fé; e tudo o que não provém de fé é pecado”.[138] Come, portanto, em fé aquele que crê que aquilo que é comido não foi sacrificado nos templos dos ídolos, nem é estrangulado, nem sangue; mas não come em fé aquele que duvida de alguma dessas coisas.[139] E o homem que, sabendo que elas foram sacrificadas aos demônios, ainda assim as usa, torna-se participante com os demônios, ao mesmo tempo em que sua imaginação é poluída com respeito aos demônios que participam do sacrifício.[140] O apóstolo, porém, sabendo que não é a natureza dos alimentos a causa de dano para quem os usa, nem de vantagem para quem se abstém deles, mas as opiniões e a razão que há neles, disse: “A comida não nos recomenda a Deus; pois nem, se comemos, somos melhores, nem, se não comemos, somos piores.” E, porque sabia que aqueles que têm uma concepção mais elevada do que são coisas puras e impuras segundo a lei, desviando-se da distinção supersticiosa acerca do uso de coisas puras e impuras, tornam-se indiferentes ao uso dos alimentos, e por isso são condenados pelos judeus como transgressores da lei, disse, portanto, em algum lugar: “Ninguém, pois, vos julgue por comida ou por bebida”, ensinando-nos que as coisas segundo a letra são sombra, mas que os verdadeiros pensamentos da lei armazenados nelas são os bens futuros, nos quais alguém pode encontrar quais são os alimentos espirituais puros da alma e quais são os alimentos impuros em palavras falsas e contraditórias que prejudicam o homem que delas se nutre; porque “a lei tinha sombra dos bens futuros”.[141] E, como em muitos casos temos de considerar o espanto dos judeus diante das palavras do Salvador, porque eram faladas com autoridade, assim também em relação às palavras neste lugar.[142] Tendo, portanto, chamado as multidões, Ele lhes disse: “Ouvi e entendei”, etc. E disse isto, sendo os fariseus ofendidos por essa palavra, porque, por causa de suas más opiniões e de sua interpretação sem valor da lei, não eram planta de seu próprio Pai celestial e, por isso, estavam sendo arrancados; pois eram arrancados porque não receberam a videira verdadeira, cultivada pelo Pai, que é Jesus Cristo.[143] Pois como poderiam ser planta de seu Pai aqueles que se ofendiam com as palavras de Jesus, palavras que afastam os homens do preceito: “Não manuseies, não proves, não toques” — coisas que todas perecem pelo uso — segundo os preceitos e doutrinas dos homens, mas induzem o ouvinte inteligente delas a buscar as coisas do alto e não as que estão sobre a terra, como fazem os judeus?[144] E, visto que, por causa de suas opiniões más, os fariseus não eram planta do seu Pai celestial, por isso, como acerca de homens incorrigíveis, Ele diz ao discípulo: “Deixai-os.” Disse “deixai-os” por esta razão: sendo cegos, deveriam tornar-se conscientes de sua cegueira e buscar guias; mas eles, inconscientes de sua própria cegueira, professam guiar cegos, sem perceber que cairão num fosso, a respeito do qual está escrito nos Salmos: “Fez um poço, cavou-o, e cairá no buraco que fez.” Novamente, em outro lugar, está escrito: “Vendo as multidões, subiu ao monte e, quando se assentou, seus discípulos vieram a Ele”; mas aqui Ele estende a mão à multidão, chamando-a a si e desviando os seus pensamentos da interpretação literal das questões da lei, quando primeiro lhes disse, a eles que ainda não entendiam o que ouviam: “Ouvi e entendei”, e depois, como em parábolas, lhes disse: “Não é o que entra pela boca que contamina o homem, mas o que sai da boca.” Depois disso, vale a pena examinar a expressão que foi atacada de modo sofístico por aqueles que dizem que o Deus da lei e o Deus do evangelho de Jesus Cristo não são o mesmo; pois dizem que o Pai celestial de Jesus Cristo não é o agricultor daqueles que pensam adorar a Deus segundo a lei de Moisés.[145] O próprio Jesus disse que os fariseus, que adoravam o Deus que criou o mundo e a lei, não eram planta que seu Pai celestial tivesse plantado e que, por isso, estavam sendo arrancados.[146] Mas também se poderia dizer isto: que, ainda que tenha sido o Pai de Jesus quem trouxe e plantou o povo quando saiu do Egito para o monte de sua herança, ao lugar que preparou para habitar, ainda assim Jesus teria dito, a respeito dos fariseus: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada.” A isso responderemos que, todos quantos, por causa de sua interpretação perversa das coisas da lei, não eram planta do seu Pai no céu, foram cegados em suas mentes, por não crerem na verdade, mas terem prazer na injustiça, por aquele que é deificado pelos filhos deste mundo e que, por isso, é chamado por Paulo “o deus deste século”.[147] E não suponhas que Paulo disse que ele era verdadeiramente Deus; pois, assim como o ventre, embora não seja o deus daqueles que prezam demais o prazer e são mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus, é chamado por Paulo de seu deus, assim também o príncipe deste mundo, a respeito de quem o Salvador diz: “Agora o príncipe deste mundo está julgado”, embora não seja Deus, é dito ser o deus daqueles que não desejam receber o espírito de adoção para se tornarem filhos daquele mundo e filhos da ressurreição dentre os mortos e que, por isso, permanecem na filiação deste mundo.[148] Julguei necessário introduzir essas questões, ainda que por via de digressão, por causa da palavra: “São guias cegos de cegos.” Quem são tais?[149] Os fariseus, cujas mentes o deus deste mundo cegou por serem incrédulos, porque não creram em Jesus Cristo; e ele os cegou para que a luz do evangelho da glória de Deus na face de Cristo não lhes brilhasse.[150] Mas não somente devemos evitar ser guiados por esses cegos que têm consciência de precisar de guias, porque ainda não receberam de si mesmos o poder da visão; também no caso de todos os que professam guiar-nos na doutrina sã, devemos ouvir com cuidado e aplicar um juízo sadio ao que é dito, para que, sendo guiados segundo a ignorância daqueles que são cegos e não veem as coisas concernentes à doutrina sã, não venhamos nós mesmos a parecer cegos porque não vemos o sentido das escrituras, de modo que tanto aquele que guia quanto aquele que é guiado caiam no fosso de que falamos antes.[151] Depois disso, está escrito de que modo Pedro respondeu e disse ao Salvador, como se não tivesse entendido a palavra: “Não é o que entra pela boca que contamina o homem, mas o que sai da boca”: “Explica-nos a parábola.” Ao que o Salvador diz: “Também vós ainda estais sem entendimento?” Como se dissesse: “Tendo estado tanto tempo comigo, ainda não compreendeis o sentido do que foi dito, nem percebeis que, por esta razão, aquilo que entra pela boca não contamina o homem, porque vai para o ventre e, saindo dele, é lançado fora na privada?” Não era com respeito à lei, na qual aparentavam crer, que os fariseus não eram planta do Pai de Jesus, mas com respeito à sua interpretação perversa da lei e das coisas nela escritas.[152] Pois, visto que há duas coisas a entender acerca da lei, o ministério da morte gravado em letras e que não tinha parentesco algum com o espírito, e o ministério da vida que é entendido na lei espiritual, aqueles que podiam dizer com coração sincero: “Sabemos que a lei é espiritual” e, portanto, “a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom”, eram a planta que o Pai celestial plantou; mas os que não eram assim, e guardavam cuidadosamente apenas a letra que mata, não eram planta de Deus, mas daquele que lhes endureceu o coração e lhes pôs um véu sobre ele, o qual tinha poder sobre eles enquanto não se voltavam para o Senhor; pois, se alguém se voltar para o Senhor, o véu é retirado, e o Senhor é o Espírito.[153] Ora, alguém, ao tratar da passagem, poderia dizer que, assim como não é o que entra pela boca que contamina o homem, ainda que possa ser considerado impuro pelos judeus, assim também não é o que entra pela boca que santifica o homem, embora o que se chama pão do Senhor possa ser pensado, pelos discípulos mais simples, como algo que santifica.[154] E essa palavra, penso eu, não deve ser desprezada e, por isso, exige uma exposição clara, que me parece ser esta: assim como não é a comida, mas a consciência daquele que come com dúvida, que contamina o que come — pois aquele que duvida está condenado se comer, porque não come de fé — e como nada é puro para aquele que é contaminado e incrédulo, não em si mesmo, mas por causa de sua contaminação e incredulidade, assim também aquilo que é santificado pela palavra de Deus e pela oração não santifica, por sua própria natureza, quem o usa; pois, se assim fosse, santificaria até mesmo quem come indignamente do pão do Senhor, e ninguém, por causa desse alimento, se tornaria fraco, enfermo ou adormecido, como Paulo representou ao dizer: “Por esta causa há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos dormem.” No caso do pão do Senhor, portanto, há proveito para quem o usa quando participa do pão com mente não contaminada e consciência pura.[155] E assim, nem pelo fato de não comermos — quero dizer, pelo próprio fato de não comermos do pão que foi santificado pela palavra de Deus e pela oração — somos privados de algum bem, nem, ao comer, nos tornamos melhores por algum bem; porque a causa de nossa falta é a maldade e os pecados, e a causa de nossa abundância é a justiça e as ações retas; de modo que este é o sentido do que Paulo diz: “Porque nem, se comemos, somos melhores, nem, se não comemos, somos piores.” Ora, se tudo o que entra pela boca vai para o ventre e é lançado fora na privada, até mesmo o alimento que foi santificado pela palavra de Deus e pela oração, quanto ao fato de ser material, vai para o ventre e é lançado fora na privada; mas, no que diz respeito à oração que vem sobre ele, segundo a proporção da fé, torna-se benefício e meio de visão clara para a mente que olha para aquilo que lhe é proveitoso; e não é a matéria do pão, mas a palavra dita sobre ele, que traz proveito ao que o come não indignamente do Senhor.[156] E estas coisas, de fato, são ditas do corpo típico e simbólico.[157] Mas muitas coisas poderiam ser ditas acerca do próprio Verbo, que se fez carne e verdadeira comida, da qual aquele que come certamente viverá para sempre, sendo impossível que alguém indigno a coma; pois, se fosse possível a alguém que continua indigno comer daquele que se fez carne, que era o Verbo e o pão vivo, não estaria escrito que todo aquele que comer deste pão viverá para sempre.[158] Depois disso, vejamos de que modo as coisas que procedem e contaminam o homem não o contaminam por procederem da boca, mas têm a causa da sua contaminação no coração, quando dali saem, antes das coisas que procedem pela boca, os maus pensamentos, cujas espécies são: homicídios, adultérios, prostituições, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias.[159] Estas são as coisas que contaminam o homem quando saem do coração e, saindo dele, procedem pela boca; de modo que, se não saíssem do coração, mas fossem retidas ali em algum lugar em torno do coração e não lhes fosse permitido serem pronunciadas pela boca, desapareceriam muito depressa, e o homem já não ficaria contaminado.[160] A fonte e a origem de todo pecado, então, são os maus pensamentos; pois, a menos que estes ganhem domínio, nem homicídios, nem adultérios, nem qualquer outra coisa semelhante existiriam.[161] Portanto, cada homem deve guardar o seu próprio coração com toda vigilância; pois, quando o Senhor vier no dia do juízo, trará à luz as coisas ocultas das trevas e manifestará os conselhos dos corações, enquanto isso todos os pensamentos dos homens os acusam ou os defendem, quando seus próprios desígnios os cercam.[162] Mas os maus pensamentos são de tal natureza que às vezes tornam dignas de censura até mesmo aquelas coisas que parecem boas e que, segundo o juízo das massas, são dignas de louvor.[163] Assim, se fazemos esmolas diante dos homens, tendo em nossos pensamentos o propósito de parecer filantrópicos diante deles e de ser honrados por causa da filantropia, recebemos a recompensa dos homens; e, universalmente, tudo o que é feito com a consciência do agente de que será glorificado pelos homens não tem recompensa daquele que vê em secreto e recompensa em secreto os que são puros.[164] Assim também sucede com a pureza aparente, se ela for influenciada por considerações de vanglória ou amor ao ganho; e o ensino que se pensa ser o ensino da igreja, se se torna servil pela palavra da bajulação, seja quando é feito desculpa para a cobiça, seja quando alguém busca glória dos homens por causa de seu ensino, não é contado como ensino daqueles que Deus estabeleceu na igreja: primeiro apóstolos, depois profetas e, em terceiro lugar, mestres.[165] E dirás o mesmo acerca daquele que busca o ofício de bispo por causa da glória diante dos homens, ou da bajulação vinda dos homens, ou por causa do ganho recebido daqueles que, vindo à palavra, dão em nome da piedade; pois um bispo desse tipo certamente não deseja uma boa obra, nem pode ser irrepreensível, nem moderado, nem sóbrio, porque está embriagado de glória e dela saciado intemperantemente.[166] E o mesmo também dirás a respeito dos anciãos e dos diáconos.[167] E, se a alguns parecermos ter feito uma digressão ao falar destas coisas, considerem se não era necessário dizê-las, já que os maus pensamentos são a fonte de todos os pecados e podem contaminar até mesmo aquelas ações que, se fossem feitas separadamente dos maus pensamentos, teriam justificado o homem que as praticou.[168] Investigamos assim, conforme nossa capacidade, quais são as coisas que contaminam; mas comer com mãos não lavadas não contamina o homem; porém, se devemos dizê-lo com ousadia, comer qualquer coisa com coração não lavado, sendo essa coisa alimento natural da nossa razão, isso sim contamina o homem.[169] E Jesus saiu dali e retirou-se para as regiões de Tiro e Sidom.[170] E eis que uma mulher cananeia.[171] De onde saiu Ele?[172] Seria da terra de Genesaré, da qual foi dito antes: “Tendo atravessado, chegaram à terra de Genesaré”?[173] Mas Ele se retirou, talvez porque os fariseus se ofenderam ao ouvir que não é o que entra, mas o que sai, que contamina o homem; e que, por serem suspeitos de conspirar contra Ele, se diz “retirou-se”, fica manifesto pela passagem: “Quando ouviu que João fora entregue, retirou-se para a Galileia.” Talvez também por isso, descrevendo as coisas neste lugar, Marcos diz que Ele se levantou e foi para as regiões de Tiro, e, tendo entrado numa casa, não queria que ninguém o soubesse.[174] É provável que Ele procurasse evitar os fariseus que se ofenderam com o seu ensino, aguardando o tempo de seu sofrimento, que era mais apropriado e devidamente determinado.[175] Mas alguém poderia dizer que Tiro e Sidom são usados para os gentios; por isso, quando Ele se retirou de Israel, veio para as regiões dos gentios.[176] Entre os hebreus, Tiro é chamada Sor e é interpretada como “angústia”.[177] Sidom, que também é nome hebraico, é traduzida por “caçadores”.[178] E, entre os gentios igualmente, os caçadores são os poderes maus, e entre eles há grande angústia, a angústia, a saber, que existe na maldade e nas paixões.[179] Quando Jesus, então, saiu de Genesaré, de fato retirou-se de Israel e veio, não a Tiro e Sidom, mas às regiões de Tiro e Sidom, com o resultado de que também agora alguns dentre os gentios creem em parte; de modo que, se tivesse visitado toda Tiro e Sidom, não teria restado nela nenhum incrédulo.[180] Ora, segundo Marcos, Jesus se levantou e foi para as fronteiras de Tiro — isto é, para a angústia dos gentios — a fim de que também aqueles que, a partir dessas fronteiras, creem, possam ser salvos, quando saem delas; pois atende a isto: “E eis que uma mulher cananeia saiu daquelas regiões e clamou, dizendo: Tem misericórdia de mim, Senhor, Filho de Davi; minha filha está horrivelmente endemoninhada.” E penso que, se ela não tivesse saído daquelas regiões, não teria sido capaz de clamar a Jesus com a grande fé à qual foi dado testemunho; e, segundo a medida da fé, alguém sai das fronteiras entre os gentios, fronteiras que o Altíssimo, quando repartiu as nações, estabeleceu segundo o número dos filhos de Israel e lhes impediu avanço posterior.[181] Aqui, então, certas fronteiras são chamadas fronteiras de Tiro e Sidom; mas, em Êxodo, as fronteiras de Faraó, nas quais, dizem, foram formadas as pragas contra os egípcios.[182] E devemos supor que cada um de nós, quando peca, está nas fronteiras de Tiro, de Sidom, ou de Faraó e do Egito, ou de alguma daquelas regiões que estão fora da herança repartida de Deus; mas, quando muda da maldade para a virtude, sai das fronteiras do mal e chega às fronteiras da porção de Deus, havendo também entre estas uma diferença que se tornará manifesta aos que são capazes de compreender as coisas concernentes à divisão e à herança de Israel, em harmonia com a lei espiritual.[183] E observa também o encontro, por assim dizer, que ocorreu entre Jesus e a mulher cananeia; pois Ele vem às regiões de Tiro e Sidom, e ela sai dessas regiões e clama, dizendo: “Tem misericórdia de mim, Senhor, Filho de Davi.” Ora, a mulher era cananeia, o que é traduzido por “preparada para humilhação”.[184] Os justos, de fato, são preparados para o reino dos céus e para a exaltação no reino de Deus; mas os pecadores são preparados para a humilhação da maldade que há neles, dos atos que dela procedem e os preparam para isso, e do pecado que reina em seu corpo mortal.[185] Somente, a mulher cananeia saiu daquelas fronteiras e saiu do estado de estar preparada para humilhação, clamando e dizendo: “Tem misericórdia de mim, Senhor, Filho de Davi.” Agora reúne dos evangelhos aqueles que o chamam Filho de Davi, como ela e os cegos em Jericó; e aqueles que o chamam Filho de Deus, e isso sem o acréscimo “verdadeiramente”, como os endemoninhados que dizem: “Que temos contigo, Filho de Deus?”; e os que o chamam assim com o acréscimo “verdadeiramente”, como os que estavam no barco e o adoraram, dizendo: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus.” Pois a reunião dessas passagens, penso eu, te será útil para ver a diferença entre aqueles que vêm a Jesus: alguns vêm a Ele como àquele que nasceu da descendência de Davi segundo a carne; outros vêm a Ele como àquele que foi declarado Filho de Deus com poder segundo o espírito de santidade; e destes, alguns com o “verdadeiramente”, outros sem ele.[186] Observa ainda que a mulher cananeia lhe rogou não por um filho, que ela parece nem ter dado à luz, mas por uma filha, que estava horrivelmente vexada por um demônio; mas outra mãe recebe de volta vivo o seu filho que estava sendo levado morto.[187] E novamente o chefe da sinagoga faz súplica por uma filha de doze anos, como estando morta, mas o oficial do rei por um filho, como estando ainda doente e à beira da morte.[188] A filha, portanto, que estava afligida por um demônio, e o filho morto procediam de duas mães; e a filha morta e o filho enfermo até a morte procediam de dois pais, dos quais um era chefe da sinagoga e o outro um oficial do rei.[189] E estou persuadido de que estas coisas contêm razões acerca dos diversos tipos de almas que Jesus vivifica e cura.[190] E todas as curas que Ele realiza entre o povo, especialmente aquelas registradas pelos evangelistas, aconteceram naquele tempo para que aqueles que de outro modo não creriam, a não ser vendo sinais e prodígios, viessem a crer; pois as coisas de outrora eram símbolos das coisas que estão sempre sendo realizadas pelo poder de Jesus; porque não há tempo em que cada uma das coisas escritas não seja feita pelo poder de Jesus, segundo o mérito de cada um.[191] A mulher cananeia, portanto, por causa da sua raça, não era digna sequer de receber resposta de Jesus, que reconhecia não ter sido enviado pelo Pai para outra coisa senão para as ovelhas perdidas da casa de Israel — raça perdida de almas dotadas de clara visão; mas, por causa da sua resolução e de ter adorado Jesus como Filho de Deus, obtém uma resposta que a reprova por sua humildade de nascimento e mostra a medida da sua dignidade, a saber, que era digna de migalhas como os cachorrinhos, mas não dos pães.[192] Mas, quando ela, com resolução intensificada, aceitando a palavra de Jesus, faz valer a pretensão de obter migalhas como um cachorrinho e reconhece que os senhores são de raça mais nobre, então obtém uma segunda resposta, que dá testemunho da grandeza de sua fé e lhe promete que lhe será feito como quer.[193] E, correspondendo, penso eu, à Jerusalém de cima, que é livre, a igreja, que é por todos chamada monte, recebe aqueles que são levados a Jesus, em primeiro lugar, por aqueles que os trouxeram.[194] E talvez este monte ao qual Jesus subiu e se assentou seja aquilo que é mais comumente chamado igreja, que foi estabelecida pela palavra de Deus acima do restante do mundo e dos homens que nele estão; para onde não sobem apenas os discípulos, deixando as multidões, como no caso das bem-aventuranças, mas grandes multidões, que não eram acusadas elas mesmas de ser surdas ou de sofrer qualquer enfermidade, mas que levavam consigo pessoas assim.[195] Pois podes ver, junto com as multidões que vêm a este monte onde o Filho de Deus está sentado, alguns que se tornaram surdos às coisas prometidas, outros cegos de alma e sem olhar para a verdadeira luz, outros coxos e incapazes de andar segundo a razão, e outros mutilados, incapazes de agir segundo a razão.[196] Aqueles, portanto, que sofrem na alma tais coisas, embora subam com as multidões ao monte onde Jesus estava, enquanto estão fora dos pés de Jesus não são curados por Ele; mas, quando, como homens que sofrem tais desordens, são lançados pela multidão aos seus pés e às extremidades do corpo de Cristo, não sendo dignos de obter essas coisas quanto a si mesmos, então são curados por Ele.[197] E, quando vês, na congregação do que é mais comumente chamado igreja, os catecúmenos colocados por trás daqueles que estão no extremo dela e, por assim dizer, aos pés do corpo de Jesus — a igreja — vindo a ela com sua própria surdez, cegueira, coxeira e deformidade, e no devido tempo sendo curados segundo o Verbo, não errarás em dizer que esses, tendo subido com as multidões da igreja ao monte onde Jesus estava, são lançados aos seus pés e curados; de modo que a multidão da igreja se admira ao contemplar transformações que ocorreram de males tão grandes para aquilo que é melhor, e pode dizer que os que antes eram mudos depois falam a palavra de Deus, e os coxos andam, cumprindo-se a profecia de Isaías, não apenas em coisas corporais, mas em coisas espirituais, que dizia: “Então o coxo saltará como o cervo, e a língua do que tinha impedimento de fala será desimpedida.” E aí, a menos que a expressão “o coxo saltará como o cervo” deva ser tomada como acidental, diremos que aqueles antes coxos e agora, pelo poder de Jesus, saltando como cervo, não são sem propósito comparados a um cervo, animal puro, hostil às serpentes e que não pode de modo algum ser ferido pelo seu veneno.[198] Mas também, quanto ao fato de os mudos serem vistos falando, cumpre-se a profecia que diz: “A língua do que tinha impedimento será clara”; ou antes a que dizia: “Ouvi, ó surdos”; mas os cegos veem, segundo a profecia seguinte: “Ouvi, ó surdos; e vós, cegos, olhai para cima, para que vejais.” Ora, os cegos veem quando veem o mundo e, pela grande beleza das coisas criadas, contemplam o Criador, correspondente em grandeza e beleza a elas; e quando veem claramente as coisas invisíveis do próprio Deus desde a criação do mundo, sendo percebidas pelas coisas que foram feitas; isto é, veem e entendem com cuidado e clareza.[199] E as multidões, vendo estas coisas, glorificaram o Deus de Israel e o glorificam na persuasão de que é o mesmo Deus, Pai daquele que curou os que foram antes mencionados, e o Deus de Israel.[200] Pois Ele não é Deus apenas dos judeus, mas também dos gentios.[201] Façamos, então, subir conosco ao monte onde Jesus está sentado — a sua igreja — aqueles que desejam subir conosco: os surdos, os cegos, os coxos, os mutilados e muitos outros; e lancemo-los aos pés de Jesus para que Ele os cure, de modo que as multidões se maravilhem com a cura deles; pois não são os discípulos que são descritos como admirando-se de tais coisas, embora estivessem então presentes com Jesus, como é manifesto pelas palavras: “Jesus chamou a si os seus discípulos e disse: Tenho compaixão da multidão”, etc.; e talvez, se atentares cuidadosamente para as palavras “Vieram a Ele grandes multidões”, descobrirás que os discípulos naquele tempo não vieram a Ele, mas já há muito tinham começado a segui-lo e o seguiram ao monte.[202] Mas vieram a Ele aqueles que eram inferiores aos discípulos e então se aproximavam dele pela primeira vez, não tendo a mesma experiência daqueles que haviam subido com eles.[203] Observa, além disso, no evangelho, quem é descrito como tendo seguido Jesus, quem como tendo vindo a Ele e quem como tendo sido trazido a Ele; e a distinção entre os que vão adiante e os que seguem; e, entre os que vieram, quais vieram a Ele em casa, e quais quando Ele estava em outro lugar.[204] Pois, por meio da observação e comparando coisas espirituais com espirituais, encontrarás muitas coisas dignas da sabedoria precisa dos evangelhos.[205] E Jesus chamou a si os seus discípulos e disse.[206] Mais acima, na história semelhante a esta acerca dos pães, antes de os pães serem mencionados, Jesus saiu, viu uma grande multidão, teve compaixão dela e curou os seus enfermos.[207] E, ao cair da tarde, os discípulos vieram a Ele, dizendo: “O lugar é deserto e o tempo já passou; despede-os”, etc. Mas agora, depois da cura dos surdos e dos demais, Ele tem compaixão da multidão que já estava com Ele havia três dias e nada tinha para comer.[208] E lá os discípulos fazem pedido acerca dos cinco mil; mas aqui Ele fala por iniciativa própria acerca dos quatro mil.[209] Aqueles, também, são alimentados ao entardecer, depois de passarem um dia com Ele; mas estes, que recebem testemunho de terem permanecido com Ele três dias, participam dos pães para que não desfaleçam pelo caminho.[210] E lá os discípulos lhe dizem, sem que Ele perguntasse, que tinham apenas cinco pães e dois peixes; mas aqui, diante da pergunta dele, respondem acerca dos sete pães e dos poucos peixinhos.[211] E lá Ele manda que as multidões se assentem ou se reclinem sobre a relva; pois Lucas também escreveu: “Fazei-os assentar”; e Marcos diz: “Mandou que todos se assentassem”; mas aqui Ele não manda, e sim ordena à multidão que se assente.[212] Novamente, lá os três evangelistas dizem com as mesmas palavras que Ele tomou os cinco pães e os dois peixes e, levantando os olhos ao céu, abençoou; mas aqui, como Mateus e Marcos escreveram, Jesus deu graças e partiu.[213] Lá eles se reclinam sobre a relva; aqui se assentam sobre o chão.[214] Investigarás ainda, nos relatos dos diferentes lugares, a variação encontrada em João, que escreveu a respeito daquela ocorrência que Jesus disse: “Fazei assentar os homens” e que, havendo dado graças, distribuiu dos pães aos que estavam assentados, mas não mencionou este milagre de modo algum.[215] Atentando, então, para a diferença entre as coisas que estão escritas nos vários lugares a respeito dos pães, penso que estes pertencem a uma ordem diferente daqueles; por isso estes são alimentados num monte, e aqueles num lugar deserto; e estes depois de terem permanecido três dias com Jesus, mas aqueles um só dia, ao fim do qual foram alimentados.[216] E, além disso, a menos que seja a mesma coisa para Jesus fazer algo por si mesmo e agir depois de ouvir os discípulos, considera se aqueles aos quais Jesus mostra bondade não são superiores quando Ele os alimenta no próprio lugar com o propósito de mostrar-lhes bondade.[217] E, se, segundo João, eram pães de cevada, dos quais sobraram doze cestos, mas nada desse tipo é dito acerca destes, como não seriam estes superiores aos primeiros?[218] E os enfermos daqueles Ele curou; mas aqui cura estes, juntamente com as multidões, que não estavam enfermos, mas cegos, coxos, surdos e mutilados; por isso também, no caso destes, os quatro mil se maravilham, mas, no caso dos enfermos, nada disso é dito.[219] E penso que estes que comeram dos sete pães pelos quais se deram graças são superiores aos que comeram dos cinco que foram abençoados; e estes que comeram dos poucos peixinhos aos que comeram dos dois; e talvez também estes que se assentaram sobre o chão aos que se assentaram sobre a relva.[220] E aqueles, a partir de menos pães, deixam doze cestos; mas estes, a partir de maior número, deixam sete cestos, visto que eram capazes de receber mais.[221] E talvez estes pisem todas as coisas terrenas e se assentem sobre elas; mas aqueles sobre a relva — apenas sobre a sua carne — pois toda carne é relva.[222] Considera também, depois disso, que Jesus não quer despedi-los em jejum, para que não desfaleçam no caminho, por estarem sem os pães de Jesus e, estando ainda a caminho — o caminho para os seus próprios interesses — sofram dano.[223] Observa também os casos em que se registra que Jesus despediu alguém, para que vejas a diferença entre aqueles que foram despedidos por Ele depois de terem sido alimentados e aqueles que haviam sido despedidos de outra maneira; e, como exemplo de alguém que foi despedido de outra forma, toma: “Mulher, estás livre da tua enfermidade.” Mas, além disso, os discípulos, que estão sempre com Jesus, não são despedidos por Ele; porém as multidões, depois de terem comido, são despedidas.[224] Da mesma forma, outra vez, os discípulos, que nada concebem de grande acerca da mulher cananeia, dizem: “Despede-a, porque vem gritando atrás de nós”; mas o Salvador de modo algum parece despedi-la, pois, dizendo-lhe: “Ó mulher, grande é a tua fé; seja-te feito como queres”, Ele curou sua filha desde aquela hora; não está escrito, contudo, que a tenha despedido.[225] Até aqui, por ora, fomos capazes de investigar e penetrar na passagem diante de nós.

