[1] As escamas de peixes, por exemplo as do cavalo-marinho, fazem as estrelas parecerem visíveis.
[2] As escamas são embebidas numa mistura de água e goma.
[3] E são fixadas no teto, em intervalos.
[4] Produzem a sensação de terremoto de tal modo que todas as coisas parecem postas em movimento.
[5] Isso é feito queimando excremento de doninha com uma pedra magnética sobre brasas.
[6] E exibem um fígado como se trouxesse uma inscrição da seguinte maneira.
[7] Com a mão esquerda, ele escreve o que deseja.
[8] E acrescenta isso à pergunta.
[9] E as letras são traçadas com suco de noz-de-galha e vinagre forte.
[10] Depois, tomando o fígado e conservando-o na mão esquerda, ele faz alguma demora.
[11] E então o órgão absorve a impressão.
[12] E supõe-se que tenha, por assim dizer, uma escrita sobre si.
[13] Mas, colocando um crânio no chão, fazem-no falar desta maneira.
[14] O próprio crânio é feito do cúlon de um boi.
[15] E, sendo moldado na forma requerida, por meio de cera etrusca e goma preparada.
[16] E, quando essa membrana é colocada ao redor, apresenta a aparência de um crânio.
[17] O qual parece a todos falar quando o artifício opera.
[18] Do mesmo modo como explicamos no caso dos jovens assistentes.
[19] Quando, tendo conseguido a traqueia de um grou, ou de algum animal semelhante de pescoço comprido.
[20] E prendendo-a secretamente ao crânio.
[21] O cúmplice profere o que deseja.
[22] E, quando deseja que o crânio se torne invisível, ele aparenta estar queimando incenso.
[23] Colocando ao redor, para esse fim, certa quantidade de brasas.
[24] E, quando a cera recebe o calor destas, ela derrete.
[25] E assim se supõe que o crânio se torne invisível.
[26] Estes são os feitos dos mágicos.
[27] E há inúmeros outros truques desse tipo.
[28] Os quais atuam sobre a credulidade dos enganados por meio de palavras bem equilibradas.
[29] E pela aparência de atos plausíveis.
[30] E os heresiarcas, admirados da arte desses feiticeiros, os imitaram.
[31] Em parte transmitindo suas doutrinas em segredo e nas trevas.
[32] E em parte apresentando esses ensinamentos como se fossem seus.
[33] Por essa razão, desejando advertir a multidão, fomos ainda mais cuidadosos.
[34] A fim de não omitir nenhum expediente praticado pelos mágicos.
[35] Em benefício daqueles que estejam inclinados a ser enganados.
[36] Fomos, contudo, levados, não sem razão, a detalhar alguns dos mistérios secretos dos feiticeiros.
[37] Os quais, certamente, não são muito necessários em relação ao assunto principal em mãos.
[38] Mas, para prevenir contra a arte vilanesca e incoerente dos mágicos, podem ser considerados úteis.
[39] Portanto, já que, tanto quanto a exposição permite, explicamos as opiniões de todos os especuladores.
[40] Dedicando especial atenção à elucidação das opiniões introduzidas como novidades pelos heresiarcas.
[41] Opiniões que, quanto à piedade, são vãs e espúrias.
[42] E que talvez nem mesmo entre eles próprios sejam tidas como dignas de consideração séria.
[43] Tendo seguido esse curso de investigação, parece conveniente que, por meio de um discurso resumido, tragamos de volta à memória do leitor as afirmações feitas anteriormente.
[44] Entre todos os que, por toda a terra, como filósofos e teólogos, realizaram investigações, prevaleceu diversidade de opinião acerca da Divindade, quanto à sua essência ou natureza.
[45] Pois alguns afirmam que Ele é fogo.
[46] E outros, espírito.
[47] E outros, água.
[48] Enquanto outros dizem que Ele é terra.
[49] E cada um dos elementos sofre alguma deficiência.
[50] E um é vencido pelo outro.
[51] Aos sábios do mundo, porém, ocorreu isto, o que é evidente aos que possuem entendimento.
[52] Refiro-me a que, contemplando as obras estupendas da criação, ficaram confusos a respeito da substância das coisas existentes.
[53] Supondo que estas eram demasiado vastas para admitir derivação de geração a partir de outra coisa.
[54] E, ao mesmo tempo, afirmando que nem o próprio universo é Deus.
[55] Quanto à teologia, contudo, eles declararam uma única causa para as coisas que caem sob o conhecimento da visão.
[56] Cada qual supondo como causa aquilo que julgava mais razoável.
[57] E assim, ao contemplarem os objetos feitos por Deus.
[58] E aqueles que são os mais insignificantes em comparação com Sua majestade esmagadora.
[59] Não sendo, porém, capazes de elevar a mente à magnitude de Deus tal como Ele realmente é.
[60] Divinizaram essas obras do mundo exterior.
[61] Os persas, porém, supondo ter penetrado mais profundamente nos limites da verdade, afirmaram que a Divindade é luminosa.
[62] Uma luz contida no ar.
[63] Os babilônios, entretanto, afirmavam que a Divindade é escura.
[64] E essa mesma opinião também parece consequência da outra.
[65] Pois o dia segue a noite.
[66] E a noite, o dia.
[67] Não falam, porém, os egípcios, que se supõem mais antigos do que todos, do poder da Divindade?
[68] Eles avaliam esse poder calculando os intervalos das partes do zodíaco.
[69] E, como por uma inspiração profundissimamente divina, afirmaram que a Divindade é uma mônada indivisível.
[70] Gerando a si mesma.
[71] E que de ela foram formadas todas as coisas.
[72] Pois esta, dizem eles, sendo não gerada, produz os números sucessivos.
[73] Por exemplo, a mônada, acrescentada a si mesma, gera a díade.
[74] E, do mesmo modo, acrescentada à díade, à tríade e assim por diante, produz a tríade e a tétrade, até a década.
[75] A qual é o princípio e o fim dos números.
[76] Por isso a primeira e a décima mônada são geradas.
[77] Porque a década é equivalente em força.
[78] E é contada como uma mônada.
[79] E porque esta, multiplicada dez vezes, se tornará cem.
[80] E novamente se torna uma mônada.
[81] E o cem, multiplicado dez vezes, produzirá mil.
[82] E este será uma mônada.
[83] Deste modo também o mil, multiplicado dez vezes, completa a soma total de uma miríade.
[84] E, do mesmo modo, esta será uma mônada.
[85] Mas, por comparação de quantidades indivisíveis, os números aparentados da mônada compreendem 3, 5, 7 e 9.
[86] Há também, porém, uma relação mais natural de um número diferente com a mônada.
[87] Segundo a disposição da órbita de seis dias de duração.
[88] Isto é, da díade.
[89] Segundo a posição e divisão dos números pares.
[90] Mas o número aparentado é 4 e 8.
[91] Estes, porém, tomando da mônada dos números uma ideia de virtude, avançaram até os quatro elementos.
[92] Refiro-me, é claro, a espírito, fogo, água e terra.
[93] E, tendo feito o mundo a partir destes, Deus o formou hermafrodita.
[94] E destinou dois elementos ao hemisfério superior, a saber, espírito e fogo.
[95] E este é chamado o hemisfério da mônada.
[96] Benéfico.
[97] Ascendente.
[98] E masculino.
[99] Pois, sendo composta de pequenas partículas, a mônada eleva-se até a parte mais rarefeita e mais pura da atmosfera.
[100] E os outros dois elementos, terra e água, por serem mais grosseiros, ele atribuiu à díade.
[101] E esta é chamada o hemisfério descendente.
[102] Tanto feminino quanto nocivo.
[103] E igualmente, mais uma vez, os próprios elementos superiores, quando comparados entre si, compreendem um no outro tanto macho quanto fêmea, para fecundidade e crescimento de toda a criação.
[104] E o fogo é masculino.
[105] E o espírito, feminino.
[106] E novamente, a água é masculina.
[107] E a terra, feminina.
[108] E assim, desde o princípio, o fogo se uniu ao espírito.
[109] E a água à terra.
[110] Pois, assim como a força do espírito é o fogo, assim também a da terra é a água.
[111] E os próprios elementos, quando computados e resolvidos por subtração de eneadas, terminam devidamente.
[112] Alguns deles no número masculino.
[113] E outros no feminino.
[114] E, novamente, a eneada é subtraída por esta razão.
[115] Porque as trezentas e sessenta partes do círculo completo consistem em eneadas.
[116] E por essa razão as quatro regiões do mundo são delimitadas por noventa partes perfeitas.
[117] E a luz foi apropriada à mônada.
[118] E as trevas à díade.
[119] E a vida à luz, segundo a natureza.
[120] E a morte à díade.
[121] E à vida foi apropriada a justiça.
[122] E à morte, a injustiça.
[123] Portanto, tudo quanto é gerado entre números masculinos é benéfico.
[124] Ao passo que aquilo que é produzido entre números femininos é nocivo.
[125] Por exemplo, eles prosseguem em seus cálculos assim.
[126] Mônada, para que comecemos dela, torna-se 361.
[127] Número este que termina em uma mônada pela subtração da eneada.
[128] Do mesmo modo, calcula assim.
[129] A díade torna-se 605.
[130] Retira as eneadas.
[131] E ela termina numa díade.
[132] E cada uma retorna à sua própria função peculiar.

